DEMOCRACIA,
ELEIÇÕES E RESPONSABILIDADE POLÍTICA*
José Antônio
Cheibub
Adam Przeworski
Introdução
Nosso objetivo é examinar a validade empírica de
duas proposições: (1) que a democracia é um regime político que se distingue
pela responsabilidade dos governantes perante os governadosI e (2) que é por meio de
eleições que esta responsabilidade é garantida. Estas proposições são
obviamente relacionadas: a primeira é conseqüência da segunda dada a definição
de democracia como o regime no qual os governantes são selecionados mediante
eleições. Em conseqüência, a estrutura do argumento que pretendemos examinar é a
seguinte: (1) a democracia é um sistema que garante a responsabilidade política
(hipótese empírica) porque (2) a democracia é um regime no qual os governantes
são escolhidos por meio de eleições (definição) e (3) a responsabilidade
política é garantida por meio de eleições (hipótese empírica). Se tudo isto
parece excessivamente detalhista, aguarde um momento.
Procederemos da seguinte forma: na primeira seção
explicitaremos nossos critérios para classificar os regimes políticos,
distinguindo diferentes tipos de democracias e ditaduras, e forneceremos
algumas informações que situam a ocorrência destes regimes; na segunda seção
analisaremos estatisticamente o impacto das condições econômicas sobre a
sobrevivência dos governantes; na terceira seção estudaremos como os
governantes são escolhidos em diferentes tipos de democracia e, na quarta
seção, consideraremos o papel das eleições como mecanismo de produção de
responsabilidade política. Uma conclusão breve, basicamente uma lista de
dúvidas, fechará o texto.
Regimes políticos
Classificamos como democracias1 os regimes que durante um
determinado ano satisfazem quatro critérios simultaneamente: (1) o chefe do
executivo é eleito (direta ou indiretamente); (2) o legislativo é eleito; (3)
mais de um partido compete em eleições2
e (4) partidos no poderII
já perderam eleições no passado e cederam o comando do governo, ou o farão
no futuro.3 Regimes que não
satisfazem a pelo menos um destes quatro critérios são classificados como
ditaduras.
As democracias não são todas iguais, e a
diferença mais relevante para os nossos objetivos é a que existe entre regimes
parlamentaristas e presidencialistas. Democracias parlamentaristas são aquelas
nas quais o legislativo pode mudar o executivo; democracias presidencialistas
são aquelas nas quais o executivo não pode ser deposto pelo legislativo durante
o mandato.4 Há ainda
sistemas mistos, onde o presidente é eleito mas o executivo depende da
confiança do legislativo para sobreviver.5
Com exceção do regime português de 1976-81, no entanto, todos os demais
sistemas mistos são muito mais próximos do parlamentarismo do que do
presidencialismo, e nós os agrupamos com as democracias parlamentaristas na
maior parte das análises que se seguem.
Existem também várias diferenças entre as
ditaduras, dentre as quais novamente escolhemos apenas uma. Distinguimos entre
ditaduras institucionalizadas, que denominamos "burocracias", e as de
regimes personalísticos, as quais denominamos "autocracias". Ao
fazermos esta distinção nos apoiamos, por um lado, na intuição de Maquiavel
(tal como destacada por Bobbio, 1989) de que decisões coletivas requerem regras
de funcionamento para o corpo decisório e, por outro, na distinção feita por
Montesquieu entre governo baseado em leis e governo baseado na vontade ou, como
em alguns casos, capricho dos governantes. Tomamos a existência de um corpo
legislativo eleito como uma indicação de que o regime tem regras mínimas de
operação interna e de que os governantes anunciam suas decisões à população em
forma de leis, ainda que eles próprios não se sujeitem a estas leis. Portanto,
classificamos como burocracias as ditaduras nas quais um corpo legislativo
existiu durante um dado ano e como autocracias aquelas sem legislativo.6
Nossa amostra é composta por 135 países (o que
inclui todos os casos de democracia) observados entre 1950 (ou o ano de
independência ou o primeiro ano para o qual dados econômicos estejam
disponíveis) — o "ano de entrada" — e 19907 — o "ano de saída"
—, resultando em um número total de 4.126 anos. Excluímos ainda a Suíça, o
Uruguai antes de 1966 e a Iugoslávia depois de 1980, dado que tinham um
executivo coletivo, resultando em um total de 4.060 anos. Nesse período
observamos 99 democracias (as quais duraram um total de 1.606 anos) e 123
ditaduras (com um total de 2.454 anos). Entre as democracias, contamos 51
sistemas parlamentaristas (1.039 anos), 9 sistemas mistos (147 anos) e 42
regimes presidencialistas (420 anos).8
Existem, portanto, 102 regimes democráticos diferenciados em termos de suas
instituições.9 Dentre as
ditaduras, observamos 132 burocracias (1.785 anos) e 98 autocracias (669 anos),
somando um total de 230 regimes ditatoriais.10
Democracia e
responsabilidade política
Governos são responsáveis na medida em que os
cidadãos podem discernir se os governantes estão agindo de acordo com os seus
interesses e sancioná-los apropriadamente, de forma que os governantes que
satisfazem os cidadãos permanecem em seus postos e aqueles que não os
satisfazem perdem suas posições. A responsabilidade política é um mecanismo
retrospectivo, no sentido de que as ações dos governantes são julgadas a
posteriori, em termos dos efeitos que causam.
Os governantes são responsáveis no sentido aqui
empregado se a probabilidade de sua sobrevivência no governo depender do
desempenho do governo; caso contrário eles não o são. Especificamente,
responsabilidade pode ser caracterizada pela derivada da "taxa de
risco" com relação aos resultados gerados durante um certo número de anos
passados, onde a taxa de risco é a probabilidade condicional de que, tendo
ocupado o governo por uma duração t = 0, 1, 2,..., os governantes saiam de seus
postos em (t + dt), dt®0.
Governantes são responsáveis, então, se sua taxa de risco cresce e a
probabilidade de sobreviver no governo diminui à medida que o desempenho
econômico piora.
Como "governantes" tomamos os chefes do
executivo: presidentes em regimes presidencialistas, primeiros-ministros em
regimes parlamentaristas ou mistos, e quaisquer que sejam os governantes
efetivos nas ditaduras. Estes algumas vezes são explicitamente designados como
ditadores, mas em outras carregam títulos tais como "chefes de juntas
militares", presidentes, líderes do partido governante, executores do
estado de emergência ou reis.11
Em 3.386 dos 4.060 anos que observamos não houve
nenhuma troca de governantes. Houve uma troca em 568 anos, duas em 91, três em
13, e quatro e cinco em 1 ano cada. Assim, no conjunto ocorreram 798 mudanças de
governantes, com uma média de uma a cada cinco anos. Observamos um total de 792
períodos de governo, isto é, anos de mando contínuo pela mesma pessoa.12 Destes, 198 ou foram
interrompidos porque a pessoa morreu, ou continuaram após 1990.13 Neste sentido, estes
períodos são "censurados". Uma vez eliminados os períodos censurados,
restaram 594 períodos de governo que terminaram entre 1950 e 1990 por razões
não acidentais.
Alguns governantes alteraram a natureza do regime
político durante o período no qual se mantiveram no poder. Isto aconteceu
durante 55 períodos de governo: em 45 deles o regime mudou uma vez sem que
houvesse troca de governante; em 7 períodos o regime mudou duas vezes; em 2
três vezes, e em 1 período o regime mudou seis vezes. A maioria destas mudanças
ocorreu entre diferentes tipos de ditaduras, causadas pela abertura ou
fechamento do legislativo.14
Algumas poucas, no entanto, foram de democracia para ditadura (como no caso do
Uruguai sob Juan Bordaberry em 1973), ou vice-versa (como no caso da Nicarágua
sob Daniel Ortega Saavedra em 1984). Por esta razão estes regimes devem ser
mantidos separados no cálculo da duração média de governantes em cada tipo de
regime político. Estas durações médias são apresentadas na Tabela 1.
Tabela 1
Número de Períodos e Duração Média de Governo segundo o Regime Político
(Excluindo os Períodos Censurados)
|
Regime |
Número
de Períodos |
Duração
Média |
|
PARLAMENTARISTA |
216 |
3,86 |
|
MISTO |
51 |
2,35 |
|
PRESIDENCIALISTA |
86 |
4,34 |
|
BUROCRACIA |
122 |
7,64 |
|
AUTOCRACIA |
88 |
3,03 |
|
MUDANÇA
DE REGIME* |
31 |
10,81 |
|
TOTAL |
594 |
4,81 |
* Como alguns períodos censurados também sofreram
alteração do regime político, este número não corresponde ao número total de
períodos de governo nos quais houve mudança de regime (55). Ver definição de períodos
censurados no corpo do texto.
Os indicadores de desempenho econômico que
consideramos incluem o leque de variáveis normalmente utilizadas em estudos
sobre o "voto econômico", isto é, indicadores de renda, emprego e
inflação. Especificamente, consideramos as seguintes variáveis:15
CRPC - taxa de Crescimento da Renda Per Capita;
CFT - taxa de Crescimento da Força de Trabalho,
um proxi para o nível de emprego;
CCPC - taxa de Crescimento do Consumo Per
Capita;
GOV - proporção do gasto do GOVerno no Produto
Nacional Bruto;
IPC - taxa de alteração do Índice de Preços ao
Consumidor.
Estimamos, então, a probabilidade de sobrevivência
de um determinado governante no poder dada a duração de seu governo e estes
resultados econômicos.
A Tabela 2
demonstra (em seus dois primeiros painéis) que a sobrevivência dos chefes de
governo em regimes democráticos não depende de condições econômicas.16 A única variável econômica
que parece se relacionar com a sobrevivência de governantes em democracias
parlamentaristas (incluindo as mistas) é o crescimento da força de trabalho.
Quanto maior a taxa de crescimento do emprego, maior é a probabilidade de
sobrevivência de primeiros-ministros. O crescimento da renda per capita
ou do consumo per capita, a taxa de inflação ou a proporção dos gastos
públicos não afetam as chances de sobrevivência de primeiros-ministros. Por
outro lado, nenhum dos indicadores de desempenho econômico se relaciona com as
chances de sobrevivência de presidentes em democracias, mesmo se controlarmos
por períodos ou para a América Latina.
Tabela 2
Sobrevivência de Governantes por Tipo de Regime (distribuição Weibull)
|
PARLAMENTARISMO
(censurando períodos em curso em 1990) |
||||||
|
Variável* |
Coeficiente |
Erro
Padrão |
t |
Prob|t|³x |
Média
(X) |
Erro
Padrão(X) |
|
CRPC |
0.75610E-02 |
0.1226E-01 |
0.617 |
0.53737 |
2.6880 |
4.4367 |
|
CFT |
0.74972E-01 |
0.4759E-01 |
1.575 |
0.11521 |
1.2764 |
1.0861 |
|
CCPC |
0.62292E-02 |
0.1096E-01 |
0.569 |
0.56969 |
2.5126 |
6.9336 |
|
GOV |
0.34887E-02 |
0.9281E-02 |
0.376 |
0.70700 |
16.181 |
6.1317 |
|
IPC |
-0.16532E-02 |
0.1852E-02 |
-0.893 |
0.37197 |
12.173 |
37.155 |
|
|
||||||
|
PRESIDENCIALISMO
(censurando períodos em curso em 1990) |
||||||
|
Variável |
Coeficiente |
Erro
Padrão |
t |
Prob|t|³x |
Média
(X) |
Erro
Padrão(X) |
|
CRPC |
0.53945E-02 |
0.9563E-02 |
0.564 |
0.57269 |
0.49800 |
6.0428 |
|
CFT |
-0.35251E-02 |
0.5209E-01 |
-0.068 |
0.94604 |
2.3555 |
0.98149 |
|
CCPC |
0.21748E-03 |
0.9085E-02 |
0.024 |
0.98090 |
0.99991 |
4.7490 |
|
GOV |
0.89785E-02 |
0.7109E-02 |
1.263 |
0.20660 |
16.055 |
5.7869 |
|
IPC |
0.47829E-04 |
0.8290E-04 |
0.577 |
0.56397 |
237.41 |
965.93 |
|
|
||||||
|
PRESIDENCIALISMO
(censurando períodos em curso em 1990 e períodos com limitações
constitucionais ao número de mandatos presidenciais) |
||||||
|
Variável |
Coeficiente |
Erro
Padrão |
t |
Prob|t|³x |
Média
(X) |
Erro
Padrão(X) |
|
CRPC |
0.21122E-01 |
0.2197E-01 |
0.961 |
0.33644 |
0.49800 |
6.0428 |
|
CFT |
0.13803 |
0.7924E-01 |
1.742 |
0.08152 |
2.3555 |
0.98149 |
|
CCPC |
0.23803E-01 |
0.1924E-01 |
1.237 |
0.21608 |
0.99991 |
4.7490 |
|
GOV |
-0.10548E-02 |
0.1425E-01 |
-0.074 |
0.94099 |
16.055 |
5.7869 |
|
IPC***não
converge*** |
||||||
*As variáveis de desempenho econômico foram
introduzidas uma de cada vez.
É desnecessário dizer que estes resultados são
tanto surpreendentes como desalentadores. Se a democracia é um sistema no qual
os governantes são escolhidos por eleições, e se as eleições são um mecanismo
pelo qual os eleitores premiam os governos que vão bem e punem aqueles que vão
mal, a sobrevivência de governantes em regimes democráticos deveria ser
sensível ao desempenho econômico. Os dados sugerem que a sobrevivência de
primeiros-ministros é ligeiramente sensível ao crescimento do emprego, mas isto
é tudo o que encontramos, sendo que mesmo este resultado é bastante tênue. A
sobrevivência de presidentes, por sua vez, parece ser completamente
independente do desempenho econômico.
Estes resultados tornam-se particularmente
enigmáticos se considerarmos o fato de que vários estudos baseados em pesquisa
de opinião ou em séries temporais de dados agregados para países individuais
demonstram que os eleitores tendem a votar a favor dos governantes quando as
condições econômicas são boas e contra eles quando estas condições são ruins
(Lewis-Beck, 1988, p. 155, e 1991, pp. 1-2).17 Estes efeitos, no entanto,
tendem a ser pequenos e instáveis: Paldam (1991, p. 181) estima que
"indicadores econômicos explicam perto de um terço da variação na
popularidade dos partidos", enquanto Kiewiet e Rivers (1984, pp. 374-375)
acrescentam uma nota de cautela com relação à experiência norte-americana. Além
do mais, não somos os únicos a descobrir que as variáveis econômicas não afetam
o voto dos governantes em análises comparativas baseadas em dados agregados.
Strom e Lipset (1984; 163 eleições entre 1950 e 1982) concluíram que a inflação
era importante para o período pós-1973, mas não o desemprego e a produção
industrial. Lewis-Back e Mitchell (1990; 27 eleições em cinco países)
descobriram um efeito moderado da inflação e do desemprego mas não do
crescimento da renda. Host e Paldam (1990) e Paldam (1991; 197 eleições em 17
países) observaram principalmente que os coeficientes para a inflação com
freqüência têm um sinal trocado. Powell e Whitten (1993; 102 eleições entre
1969 e 1988, 19 países) descobriram que a inflação, o desemprego e o
crescimento não produzem efeitos sistemáticos. Remmer (1994; 21 eleições
presidenciais em 12 países latino-americanos) observou que algumas variáveis
econômicas têm um efeito sobre os resultados políticos, mas os coeficientes são
pequenos. Pacek e Radcliffe (1995; 52 eleições em oito países em
desenvolvimento) concluíram que os governantes são punidos quando a economia
está declinando, mas não são premiados quando esta está em expansão. Portanto,
parece que em diferentes amostras, diferentes variáveis econômicas afetam os
resultados políticos; mas as evidências neste sentido estão longe de ser
robustas.
Uma possível razão para esta instabilidade dos
resultados pode se dever ao fato de que condições institucionais específicas
devam estar presentes para que a responsabilidade política se manifeste. Com o
fim de examinar esta possibilidade, procuramos reproduzir, pelo menos em
espírito, a análise desenvolvida por Powell e Whitten (1993). Para eles existem
fatores institucionais que afetam a habilidade dos eleitores em discernir e
punir os governantes. Em conseqüência, uma vez que estes fatores sejam mantidos
constantes, a relação entre desempenho econômico e sobrevivência de governantes
deve-se tornar mais forte. Powell e Whitten estão particularmente preocupados
com a "clareza de responsabilidades", isto é, se o quadro
institucional permite que os eleitores sejam capazes de discernir a quem punir.
Reproduzimos a análise apresentada na Tabela 2 controlando pela proporção de
cadeiras legislativas detidas pelo maior partido na câmara baixa; por uma
variável dicotômica indicando se existe um partido majoritário no legislativo;
pelo número efetivo de partidos legislativos; por uma variável indicando se o
governo é de coalizão ou não; e outra indicando se os militares estão
envolvidos na política ou não.18
Todas estas variáveis afetam a sobrevivência de governantes, mas o que importa
para os nossos propósitos é que nenhuma delas modifica a relação entre
sobrevivência de governantes e desempenho econômico. Portanto, a "clareza
de responsabilidade" não afeta em nada a responsabilidade política em
relação a resultados econômicos.
Estes resultados são também perturbadores.
Claramente, a afirmação de que a democracia induz à responsabilidade é, no
mínimo, ampla demais. É possível que existam condições institucionais, as quais
não conseguimos identificar, sob as quais ela o faça. Porém, estas condições
não são imediatamente aparentes, sendo possível que sejam na verdade bastante
raras.
Democracia e
eleições
Surpreendidos e desapontados, tudo o que nos
resta fazer é questionar o óbvio: que o elo teórico entre democracia e
responsabilidade política se produz via eleições.19 Se os governantes são
eleitos e se, ao enfrentar eleições, eles antecipam as reações dos eleitores
aos resultados que suas políticas irão gerar, eles são, então, politicamente
responsáveis. Mas são os governantes eleitos em regimes democráticos? Em um
certo sentido esta questão precisa, sim, ser desconstruída.
A Tabela 3 apresenta
um resumo dos modos de seleção dos governantes nos três regimes que realizam
eleições.20 É verdade que
democracias são regimes no quais a probabilidade de que os governantes deixem o
governo devido a eleições é maior: 47% dos primeiros-ministros e 64% dos
presidentes deixaram seus postos quando os eleitores selecionaram outra pessoa,
enquanto 21% dos governantes em burocracias o fizeram.21 Entretanto, muitos
primeiros-ministros deixaram o governo sem que os eleitores fossem consultados,
ao passo que muitos presidentes saíram apesar de que os eleitores possam ter
preferido que ficassem.
Tabela 3
Seleção de Líderes por Tipo de Regime
|
RAZÕES
PARA MUDANÇA |
PARL. |
PRES. |
BUR. |
|
Eleições
regulares |
162 |
66 |
22 |
|
das quais
com limite de mandato |
- |
53 |
12 |
|
Eleições
Fundadoras |
- |
- |
17 |
|
TOTAL
CAUSADO POR ELEIÇÕES |
162 |
66 |
39 |
|
Remoções por
partido |
148 |
4 |
83 |
|
das quais em
anos eleitorais |
25
|
|
5 |
|
Mudanças de
regime |
14 |
24 |
32 |
|
das quais em
anos eleitorais |
6
|
8
|
5 |
|
Mortes |
18 |
8 |
28 |
|
TOTAL
POR OUTRAS RAZÕES |
180 |
36 |
143 |
|
TOTAL
GERAL |
342 |
102 |
182 |
|
Número
total de anos |
1.186 |
420 |
1.785 |
Consideremos, em primeiro lugar, algumas
informações básicas. Observamos um total de 892 eleições legislativas (870 anos
nos quais uma eleição ocorreu e 11 anos com duas eleições): 318 em democracias
parlamentaristas (incluindo as mistas); 108 em democracias presidencialistas;
375 em burocracias e 91 em autocracias,22
o que significa que, em média, uma legislatura foi eleita a cada 3,7 anos no
parlamentarismo, 3,9 anos no presidencialismo e 4,8 anos em burocracias. Sob o
presidencialismo ocorreram 86 eleições presidenciais (84 anos com uma eleição
presidencial e duas na Argentina em 1973) ou uma a cada 4,9 anos. Em
burocracias ocorreram 103 eleições presidenciais ou uma a cada 18 anos. Em
autocracias elegeram-se 33 presidentes, um a cada 20 anos. Logo, os governantes
são submetidos ao voto popular em média a cada 3,7 anos no parlamentarismo e a
cada 4,9 anos no presidencialismo.
Mas a diferença entre presidencialismo e
parlamentarismo é muito mais profunda. É necessário que estudemos estes dois
sistemas separadamente.
Consideremos primeiramente o parlamentarismo.
Como pode ser visto na Tabela 3,
ocorreram 310 trocas pacíficas de primeiros-ministros, quer dizer, mudanças que
se deveram à morte do governante ou à sua deposição forçada. Destas, 162 foram
causadas por eleições e 148 por lutas intrapartidárias ou colapso da coalizão
governante. Dessa forma, 48% das trocas de primeiros-ministros não se deveram à
ocorrência de eleições: em quase metade dos casos de mudança de governo em
regimes parlamentaristas não foram os eleitores que puniram o governante, mas
sim os políticos. Pode-se sustentar, obviamente, que os líderes partidários
antecipam o julgamento dos eleitores quando substituem o seu líder ou quando
decidem abandonar a coalizão governamental. O que podemos dizer a este respeito
é que se estas são as suas motivações, seus esforços são em vão: os
primeiros-ministros que assumem o poder ao longo de uma legislatura têm menor
probabilidade de serem reeleitos do que os que lideram seus partidos durante a
eleição que os alça ao poder. A Tabela 4
mostra que enquanto apenas 30% dos primeiros sobrevivem a eleições subseqüentes
à sua ascensão ao poder, 51% dos últimos continuam no poder após a ocorrência
de eleições. Portanto, não é de todo óbvio que é a antecipação da reação dos
eleitores que leva a estas mudanças. De qualquer forma, ao que tudo indica, o
que denominamos "eleições" é o processo de seleção realizado por
políticos sujeito à ratificação dos eleitores. "Eleger", então, não é
o mesmo que "selecionar".
Tabela 4
Eleições no Parlamentarismo por Origem do Governante e Resultado
|
ORIGEM
DO GOVERNANTE |
PM
GANHOU |
PM
PERDEU |
TOTAL |
|
Assumiu
durante mandato |
24
(29,6%) |
57
(70,4%) |
81
(100%) |
|
Eleições |
94
(50,5%) |
92
(49,5%) |
186
(100%) |
|
Desconhecida |
20
|
13 |
33 |
|
Total |
138
(46%) |
162
(54%) |
300
(100%) |
Não consideramos que esta seja uma descoberta
particularmente surpreendente: que os eleitores escolhem entre alternativas
apresentadas por times de políticos que competem entre si é exatamente o que
Schumpeter (1942) tinha em mente.
Ademais, uma vez designados por seus pares no
partido, os primeiros-ministros submetem-se à ratificação dos eleitores: dos
148 primeiros-ministros que assumiram seus postos sem eleições, 82
submeteram-se ao veredicto popular no decorrer dos três anos após a formação do
governo (os demais foram removidos sem que houvesse eleições, morreram, foram
retirados pela força ou ainda estavam no poder em 1990). Na média, eles ficaram
no poder 1,5 anos antes que se submetessem a eleições.23 Este dado, porém, torna-se
ainda mais significativo se o olharmos de outro ângulo: existem períodos em
regimes democráticos durante os quais os governantes não são aqueles a quem os
eleitores escolheram. Mesmo que os eleitores tenham votado nos partidos destes
indivíduos, eles provavelmente o fizeram sabendo quem era o líder do partido e,
por decorrência, o eventual chefe de governo. Nesse sentido, eles votaram no
partido com o fim de eleger um determinado chefe de governo e obtiveram como
primeiro-ministro alguém em quem não tinham pretendido votar. Ademais, o
primeiro-ministro escolhido pelo parlamento não precisa necessariamente
pertencer ao mesmo partido do ministro deposto ou, a bem dizer, não precisa
pertencer a partido algum. O exemplo mais extremado é o da Itália, onde, como
observa Pasquino (1994, p. 25), "partidos governantes expropriaram a
influência política dos eleitores ao fazer e desfazer, em todos os níveis,
governos que mantinham pouca relação com os resultados eleitorais". O
fato, então, é que em 17 % do tempo — um ano em cada seis — as democracias
parlamentaristas são comandadas por governantes que não foram eleitos para
chefiar os seus governos.
Analisemos agora o presidencialismo. Presidentes
são eleitos (direta ou indiretamente) por eleitores e, a não ser por impeachment,
não podem ser removidos pelos representantes legislativos. De fato, como mostra
a Tabela 3, de um total de 70 trocas
pacíficas de presidentes, todas, com exceção de quatro, foram ocasionadas por
eleições.24 É claro que em
sistemas presidencialistas os candidatos às eleições são também, com
freqüência, escolhidos por seus pares políticos. Mas pelo menos quase nunca os
chefes de governo são outros que não aqueles escolhidos pelos eleitores.
No entanto, o conceito de "eleger" é
também problemático no presidencialismo. Se as 86 eleições que observamos
levaram à saída de 66 presidentes, 53 foram forçadas pela existência de limites
constitucionais ao número de mandatos presidenciais, ou seja, os eleitores não
poderiam ter reeleito o presidente em exercício mesmo que o quisessem.
Simon Bolivar uma vez observou que "nós
elegemos monarcas a quem chamamos presidentes". E foi este medo de que
presidentes se transformassem em monarcas que justificou a imposição de limites
constitucionais ao número de mandatos presidenciais. Tal preocupação parece
proceder, já que aparentemente o presidencialismo confere vantagens excessivas
aos governantes: dentre 22 presidentes que não se encontravam
constitucionalmente limitados em sua capacidade de reeleição, 14 não foram
reeleitos, e destes apenas 6 podem ser contados como casos de verdadeiras
derrotas eleitorais: na República Dominicana em 1978, quando Joaquim Balanger
perdeu para Antonio Gusmán Fernández; na Nicarágua em 1990, quando Daniel
Ortega Saavedra perdeu para Violeta Chamorro; nos Estados Unidos em 1977,
quando Gerald Ford perdeu para Jimmy Carter, e em 1981, quando Carter perdeu
para Ronald Reagan; nas Filipinas em 1953, quando Elpidio Quirino perdeu para
Ramon Magsaysay, assim como em 1961, quando Carlos Gracia perdeu para Diosdado
Macapagal. Em todos os outros casos o governante, por razões diversas, não
concorreu. Estes casos incluem, por exemplo, Lyndon Johnson em 1969 nos Estados
Unidos; Salvador Jorge Blanco na República Dominicana em 1986; Nereu Ramos no
Brasil em 1956, e Hector Campora na Argentina em 1973. Portanto, ocorreram 14
eleições nas quais os presidentes em exercício se lançaram à reeleição; dado
que venceram em 8 e perderam em 6, suas chances de vitória eram de 1,3 para 1,
o que contrasta com chances de 0,66 para 1 dos primeiros-ministros.
Assim, mesmo que a existência de limites
constitucionais ao número de mandatos executivos seja justificada, e que a sua
inclusão nas constituições indique um consentimento putativo por parte dos
eleitores, o fato é que na maioria dos regimes democráticos presidencialistas
os eleitores não podem reeleger os seus governantes, queiram ou não queiram.
Como mostra a Tabela 5, este foi o
caso em 64 das 86 eleições presidenciais que observamos.
Tabela 5
Limites de Mandato em Eleições Presidenciais
|
Número
total de eleições |
86 |
|
Eleições
que ocasionaram a mudança de governante |
66 |
|
Devido a
limites de mandato |
53 |
|
Outras
razões |
13 |
|
Governante
concorreu e perdeu |
6 |
|
Governante
não concorreu |
7 |
|
Eleições
que não ocasionaram a mudança de governante ou mudança por outras razões |
20 |
|
Governante
foi reeleito |
8 |
|
Mudança não
relacionada com eleições |
12 |
|
Governante
com mandato limitado |
11 |
|
Governante
com mandato não limitado |
1 |
|
Governantes
que podiam ser reeleitos nas eleições correntes (13 + 8 + 1) |
22 |
|
Mas não em
eleições futuras |
12 |
|
Governantes
que não podiam ser reeleitos (53 + 11) |
64 |
|
Governantes
que, por uma razão ou outra, não podiam ser reeleitos (12 + 64) |
76 |
|
Governantes
que poderiam ser sempre reeleitos |
10 |
Em suma, se nos regimes parlamentaristas em cerca
de um sexto do tempo o chefe do governo não é alguém que tenha sido eleito como
tal, no presidencialismo em três quartos do tempo o chefe do governo é alguém
que os eleitores não podem reeleger, mesmo que eles o queiram. Se esta é a
razão para que observemos tão pouca responsabilidade política nas democracias,
não sabemos. Mas é certo que o elo entre democracia e eleições é menos do que
definicional.
Eleições e
responsabilidade
Como nosso objetivo era comparar regimes com
diferentes regras institucionais (incluindo, a bem da verdade, alguns sem
nenhuma regra), consideramos a possibilidade de que os chefes de governo
mudassem em anos não eleitorais, o que descobrimos ser o caso mesmo em
democracias. Mas responsabilidade política supostamente opera por meio de eleições,
e nossos resultados negativos podem se dever ao fato de não termos distinguido
em nossa análise original entre anos eleitorais e não eleitorais. Precisamos,
portanto, examinar diretamente a conexão específica entre eleições e
responsabilidade.
Nas democracias presidencialistas, como vimos,
mudanças de presidente ocorrem quase que exclusivamente em anos eleitorais. No
entanto, na maior parte dos casos, estas mudanças ocorrem não porque os
eleitores avaliam o desempenho do governo negativamente, mas porque eles não
têm oportunidade de premiar o governante por seu desempenho. Logo, não é de
surpreender que o desempenho econômico não tenha nenhum impacto sobre a
probabilidade de o governante sobreviver em seu posto. Uma vez que distinguimos
("censuramos", no sentido explicado acima) os mandatos nos quais os
presidentes não podem se reeleger, a sobrevivência dos presidentes em seus
postos torna-se algo sensível ao crescimento da força de trabalho, de maneira
similar ao que se observa com os primeiros-ministros (ver o painel inferior da Tabela 2). No entanto, os presidentes que
podem ser reeleitos são poucos.
Em democracias parlamentaristas podemos
distinguir os riscos advindos especificamente de eleições dos riscos aos quais
os primeiros-ministros estão expostos durante os anos não eleitorais, seja o de
ser substituído pacificamente ou o de ser violentamente removido do cargo. Esta
distinção, no entanto, não altera os resultados originais: um modelo
(exponencial) de risco múltiplo, no qual estes riscos são tratados
separadamente, demonstra mais uma vez que apenas o crescimento da força de
trabalho afeta de alguma forma a sobrevivência dos primeiros-ministros em seus
postos, tanto nos anos eleitorais quanto nos anos não eleitorais. Assim, tudo o
que podemos concluir é que as democracias parlamentaristas geram
responsabilidade política no máximo com relação ao crescimento do emprego (o
que provavelmente significa redução do desemprego); mas apenas em relação ao
emprego.
Uma vez que, com exceção de emprego para
primeiros-ministros e poucos presidentes que podem ser reeleitos, o desempenho
econômico não afeta a sobrevivência de governantes mesmo nos anos eleitorais,
concluímos que eleições não geram responsabilidade por resultados econômicos
nos regimes democráticos.
Conclusão
Ou bem os nossos procedimentos estatísticos são
falhos, ou bem os governantes não são responsáveis politicamente perante o
eleitorado. Tudo o que podemos fazer neste ponto é especular.
(1) É possível que os eleitores se preocupem com
outras coisas que não o seu bem-estar material. Dado que eles só possuem um
instrumento — o voto — com o qual punir os governantes por decisões tomadas em
diversas áreas, os eleitores podem decidir responsabilizar o governo por
decisões em áreas que não a econômica.
(2) É possível que os eleitores estejam usando os
seus votos no sentido de induzir os governantes a agir de uma maneira
representativa, mas que estejam ao mesmo tempo estipulando uma pauta de incentivos
inadequada ao não dar chances suficientes para que os governantes se reelejam
quando apresentam um bom desempenho. Mesmo que os eleitores sejam mais
passíveis de votar a favor dos governantes que melhorem a sua situação, é
possível que não o façam suficientemente para induzi-los a buscar a reeleição e
não a extração de rendas monopólicas.IIIPara
que a responsabilidade política seja imposta, faz-se necessário não apenas que
a probabilidade de voto a favor do mandatário aumente à medida que o desempenho
econômico melhore, mas também que os governantes que apresentem um bom
desempenho tenham uma boa chance de se reeleger. E existe evidência no sentido
de que os eleitores tendem a votar contra os governantes mesmo que estes
apresentem um bom desempenho. Remmer (1993) mostrou que em 21 pares de eleições
ocorridas entre 1982 e 1990 na América Latina a proporção de voto no governo
caiu. A queda média foi de -13,1% e a constante na regressão da proporção de voto
no partido governante contra o desempenho econômico foi de cerca de -21%.
Paldam (1991, p. 24), por sua vez, mostrou que em 190 pares de eleições nos
países da OCDE a média da mudança da proporção de voto no governo foi menor,
mas mesmo assim negativa: -1,6%. Ele concluiu que "nós temos que aceitar
que as pessoas simplesmente não gostam de ser governadas, ou pelo menos, que
elas gostam de mudanças". Se as pessoas votam contra os governantes a
despeito do que estes fazem, os governantes não têm incentivos para fazer nada
por elas. Logo, se a probabilidade de reeleição é baixa mesmo quando o
desempenho econômico é bom, a conclusão, baseada em pesquisas de opinião, de
que os eleitores são mais propensos a votar nos governantes quando as condições
econômicas são melhores não é inconsistente com os achados, baseados em dados
agregados, segundo os quais o desempenho econômico não afeta a sobrevivência
dos governantes.
(3) É possível que os eleitores não tenham as
informações necessárias para avaliar o desempenho do governo. Especificamente,
se eles não observam algumas condições que os governantes observam, ou se eles
não conhecem a relação entre políticas e resultados, os eleitores não podem
estar certos de quanto eles podem esperar em termos de desempenho. Nestes
casos, os eleitores votarão contra governos com mal desempenho e a favor de
governos com bom desempenho quando as condições objetivas forem de fato ruins,
mas eles vão indiscriminadamente reeleger os governantes quando as condições
forem boas. Tentamos controlar o efeito destas condições distinguindo os
períodos pós-1975 e pós-1982, assim como os períodos durante os quais os países
mantiveram acordo com o Fundo Monetário Internacional, mas estes esforços foram
em vão.
(4) Tomar as chances de sobrevivência no poder
como condicionadas ao desempenho passado supõe que os eleitores são míopes, no
sentido de que, ao fim do mandato, eles não consideram o valor presente do
futuro que o governante está deixando como seu legado. Se os eleitores são
totalmente racionais, a sua avaliação do futuro entra na avaliação que fazem do
desempenho passado do governante. Tudo o que pudemos fazer para testar esta
hipótese foi examinar se a direção das mudanças na economia (a diferença de
primeira ordem nas variáveis de desempenho econômico) afeta a sobrevivência dos
chefes de governo. Os resultados demonstram que esta mudança não tem nenhum
efeito sobre a sobrevivência de governantes, mas é possível que uma melhor
medida de avaliação do futuro pelos eleitores tenha. No entanto, é sugestivo
que o nível de investimento (público e privado) no Produto Nacional Bruto afete
negativamente as chances de sobrevivência dos primeiros-ministros:25 de acordo com este teste
os eleitores são, de fato, míopes.
(5) Finalmente, se os eleitores usam o voto com
um sentido prospectivo, para escolher governos melhores, é possível que estes
sejam representativos simplesmente porque boas políticas ou políticos tenham
sido escolhidos, mas não porque a representação tenha sido induzida pelo medo
da sanção eleitoral. Note, porém, que deveríamos ter observado uma relação
entre desempenho e sobrevivência mesmo que os eleitores estejam usando seus
votos prospectivamente. Ainda que o uso prospectivo do voto reduza o poder de
incentivos sobre os governantes, o desempenho passado do governante é ainda
relevante para informar os eleitores sobre a probabilidade de que o opositor
terá um desempenho melhor. Logo, as informações sobre o desempenho passado do
governante deveriam afetar as suas chances de reeleição.
Assim, existem boas razões para se esperar que,
se os governos são representativos — quer porque temam sanções eleitorais
retrospectivas, quer porque bons políticos sejam selecionados com base em
considerações prospectivas —, deveríamos observar que os governantes com mau
desempenho possuem chances maiores de serem removidos de seus postos. Isto não
foi observado e, a não ser que os nossos métodos estatísticos sejam falhos, a
implicação deste fato é que eleições não são um instrumento efetivo para
induzir a representação.
NOTAS
1 Para a justificativa conceitual e
detalhes históricos ver Alvarez, Cheibub, Limongi e Przeworski (1996).
2 Entendemos por "partido" uma
lista de candidatos apresentada aos eleitores. Diversos tipos de
"frentes", que formalmente agrupam vários partidos mas que se
apresentam aos eleitores como uma única lista, são considerados um único partido
em nossa definição.
3 Este último critério pode parecer
estranho, e na verdade o é. O problema ao se classificar regimes políticos é
que existem alguns casos (na verdade, 8,3% da amostra) nos quais todos os três
critérios prévios são satisfeitos mas é sempre o mesmo partido que ganha as
eleições, quase sempre por uma ampla margem de votos. O caso paradigmático é
Botswana. A questão, nestes casos, é se o partido no poder teria realizado
eleições se não estivesse seguro de vencê-las, e se teria saído do governo se
as tivesse perdido. Já que a história não produziu ainda nenhuma informação que
permita responder a estas questões, a opção metodológica é errar, seja
classificando estes regimes como democráticos quando na verdade eles não o são
(erro do tipo I), seja os classificando como não democráticos mesmo que eles o
sejam (erro do tipo II). Decidimos ser prudentes e classificar estes casos como
ditaduras.
4 Existem inúmeros critérios que
distinguem estes dois sistemas, mas eles coincidem quase que perfeitamente com
os que utilizamos. Ver Lijphart (1992).
5 Shuggart e Carey (1992) introduzem
várias outras distinções entre estes sistemas.
6 Alguns países que não tinham
legislativo em um ano específico estavam obviamente experimentando transições
de regime. Estes casos foram reclassificados de forma apropriada.
7 Existem dados econômicos comparáveis
para 141 países desde 1950, mas destes excluímos seis produtores de petróleo.
Dentre os países com população maior que um milhão de habitantes nos anos 80
excluímos, por falta de dados econômicos, a Albânia, o Butão, Cuba, Coréia do
Norte, Líbano, Namíbia e Vietnã, todos ditaduras.
8 Além dos Estados Unidos e da América
Latina, onde todas as democracias são presidencialistas, sistemas presidenciais
também existiram no Congo (1960-62), Gana (1979-80), Nigéria (1979-82), Uganda
(1980-84), Bangladesh (desde 1986), Coréia do Sul (desde 1988) e Filipinas
(1950-64 e desde 1986). Portugal entre 1976 e 1981 também foi classificado como
democracia presidencialista.
9 Três a mais do que o número de
democracias mencionado acima, já que em três casos houve uma mudança do sistema
institucional sem que houvesse quebra da democracia: França em 1958 e Brasil em
1961 e 1963.
10 Transições entre burocracias e
autocracias são comuns, o que explica o maior número de regimes ditatoriais
quando distinguimos os tipos de ditaduras.
11 Codificamos o número de trocas de
governante durante cada ano usando como fontes Graça (1985), Bienen e Van de
Walle (1991) e Banks (1993). Contrariamente a Bienen e Van de Walle, não
fizemos nenhum esforço para excluir governos provisórios, partindo do princípio
de que não conseguiríamos distinguir os casos de governantes que tentaram
consolidar o seu poder e falharam dos casos em que eles não tentaram fazê-lo.
12 Quando codificamos os períodos,
perdemos a informação sobre os governos que duraram menos de um ano (isto é,
aqueles para os quais o número de governantes em um único ano é maior do que
1). Isto nos deixou com 674 períodos, aos quais devemos somar outros 118 que já
haviam começado quando iniciamos nossa observação.
13 Não distinguimos entre mortes
naturais (como nos casos de Josef Broz Tito na Iugoslávia, Juan Domingo Peron
na Argentina e Bjarni Benediktsoon na Islândia), assassinato (Anuar el-Sadat no
Egito, John F. Kennedy nos Estados Unidos e Olof Palme na Suécia), suicídio
(Getúlio Vargas no Brasil e Antônio Guzmán Fernández na República Dominicana)
ou supostos acidentes (Samora Machel em Moçambique, René Barrientos na Bolívia,
Mohammad Zia ul-Haq no Paquistão e Ramon Magsaysay nas Filipinas).
14 O caso mais extremo é o da Jordânia,
onde o legislativo foi fechado em 1966, em 1974 (até 1984) e em 1985 (até
1989). Outros casos de mudança freqüente de regime político sem troca do chefe
do executivo incluem o Marrocos, onde o legislativo foi fechado em 1963 (até
1965), 1970 (até 1972) e 1978, e Burkina Faso, onde Sangoulé Lamizana permitiu
a convocação de um legislativo eleito em 1970 para fechá-lo em 1974 e reabri-lo
em 1978.
15 Os dados referentes ao crescimento da
renda, consumo e força de trabalho, assim como os referentes ao nível do gasto
público, baseiam-se nas "Penn world tables", versão 5.6 (PWT5.6). Ver
Summers e Heston (1988 e 1991) para uma descrição das informações. Os dados
sobre inflação são do Fundo Monetário Internacional (1995). Uma vez que só
obtivemos informação sobre inflação para 3.426 casos, o tamanho da amostra não
é o mesmo em todas as análises.
16 Além destes resultados, consideramos
ainda o impacto das mudanças nas taxas de inflação sobre a sobrevivência
dos governantes e descobrimos que elas não têm nenhum efeito importante.
Experimentamos também com defasagens de primeira e segunda ordens nos
indicadores econômicos, assim como com várias combinações entre as variáveis
econômicas e controles por regiões (países da Organização para Cooperação e
Desenvolvimento Econômico, OCDE) e períodos. Os resultados permaneceram
qualitativamente os mesmos, com os coeficientes de crescimento da força de
trabalho no parlamentarismo oscilando em torno do nível de confiança de 10%.
17 Exceções existem e tendem a ocorrer
quando a política econômica é explicitamente formulada de forma a envolver
mudanças intertemporais. Ver Stokes (1996a) para uma discussão geral,
Przeworski (1996) para o caso da Polônia e Stokes (1996b) sobre o Peru.
Note-se, no entanto, que Paldam (1991) também observou sinais para as taxas de
inflação cuja direção era inesperada.
18 Estas variáveis foram extraídas e
adaptadas de Banks (1993).
19 Para as diferentes visões sobre o
papel das eleições ver Manin, Przeworski e Stokes (no prelo).
20 Esta tabela e todos os dados que
apresentamos foram corrigidos para os casos nos quais as eleições ocorreram em
um ano e a troca do governo ocorreu no ano seguinte. Nestes casos consideramos
o ano da troca do governo como o ano da eleição.
21 Já que nosso foco são as democracias,
não nos deteremos sobre os resultados referentes às ditaduras. Mas como pode
parecer estranho que em ditaduras governantes deixem o governo por eleições,
eis a explicação. Dentre as 39 trocas de governante em burocracias que ocorreram
em anos eleitorais, 12 deveram-se a limites quanto ao número de mandatos
presidenciais: El Salvador (1956, 1967, 1972 e 1977), Honduras (1954) e México
(1952, 1958, 1964, 1970, 1976, 1982 e 1988). Dezessete destas 39 trocas foram
eleições fundadoras, isto é, eleições que levaram ao estabelecimento de uma
democracia parlamentarista ou presidencialista. Os dez casos restantes
consistem de regimes de partido único ou casos que chamamos de ditaduras
"Tipo II", conforme explicado na nota 3.
22 O fato de que tenham ocorrido
eleições legislativas em autocracias não é incompatível com nossa definição
deste regime: nestes casos, não se permitiu que as legislaturas eleitas se
reunissem ou elas foram rapidamente dissolvidas. No caso da República
Dominicana em 1961, ocorreram eleições sob democracia, mas o congresso foi
fechado seguindo um golpe de Estado.
23 Já que nossos dados são anuais,
atribuímos seis meses a cada um dos 18 primeiros-ministros que enfrentaram
eleições no ano no qual formaram o governo, um ano a cada um dos 29 que
enfrentaram eleições no ano seguinte, dois anos a cada um dos 22 que esperaram
dois anos antes de enfrentar eleições e três anos a cada um dos 13 que
esperaram três anos.
24 As quatro foram a renúncia de Richard
Nixon em 1974, as mudanças de João Café Filho para Carlos Luz e para Nereu
Ramos no Brasil em 1955, após o suicídio de Getúlio Vargas em 1954, e a
transferência de poder de Velasco Ibarra para Carlos Arosemena Monroy no
Equador em 1961.
25 O coeficiente da proporção de
investimento no PNB é -0.0195 (t=2.888).
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