A PESQUISA DE CAMPO COM
MILITARES:
algumas questões
metodológicas (*)
Piero de Camargo Leirner
Em um recente livro, Peirano (1995) reúne ensaios escritos entre
1991 e 1994, mas atualizados para uma mesma discussão, cujo objetivo maior seria
a defesa da etnografia como instrumento de investigação antropológica. A partir
de uma polêmica com o cientista político Fábio Wanderley Reis, ela aproveita
para fazer um balanço geral sobre o peso da pesquisa de campo e da leitura
etnográfica na disciplina antropológica, incluindo-se aí tendências tanto
locais quanto globais. Aproveitando as diferenças epistemológicas entre as duas
disciplinas, Peirano também realiza um balanço da Antropologia enfatizando seus
procedimentos de pesquisa e exposição de resultados. É no "rastro"
deixado por esse debate que pretendemos nos inserir, aproveitando uma
investigação que colocou lado a lado a pesquisa etnográfica e um objeto
tradicionalmente abordado por cientistas políticos: os militares.
Desde os anos 80 foram raras as publicações nacionais que
versaram sobre procedimentos de pesquisa de campo e escrita etnográfica em
moldes tradicionais, no sentido exclusivo da exploração de técnicas de
abordagem e sua relação com a descrição etnográfica. O estilo "A
Aventura Antropológica",(1) que tem na equação nós/outros o ponto de partida da investigação
etnográfica que gera os discursos dos procedimentos de pesquisa e conhecimento,
parece ter chegado a um certo esgotamento em fins desta década, (2) quando, a partir daí, ouviu-se muito
sobre a "crise" dos paradigmas na Antropologia. Os "velhos"
termos em que se colocavam a "observação participante",
"participação observante" ou métodos de investigação afins foram
remodelados e, de certa maneira, perderam seu papel de protagonistas, pois a
eles foram sobrepostas outras questões de primeira ordem que se situam no campo
da "legitimidade" ou da "autoridade" do pesquisador, do
processo de escrita e da pesquisa etnográfica, em "observers observed" - para utilizar a expressão
de Stocking Jr. (1983). Nesse contexto, Peirano aproveita sua polêmica para
retomar aquele tipo de tradição antropológica.
Constitui para nós um fato de especial interesse a polêmica com
um cientista político. Não é nossa intenção nem resenhar o livro nem discutir
os rumos da Antropologia, bastando por ora situar em que termos ocorreu o
debate. Surgido na reunião da ANPOCS de
1988, com a apresentação de um trabalho de Reis, afirmou-se primeiramente que
havia uma "certa inspiração 'antropológica' nos trabalhos pouco
sofisticados das ciências sociais brasileiras" (Peirano, 1995, p. 13),
que, segundo ele, teriam que suportar "longos depoimentos em estado bruto
de mulheres da periferia urbana". Esta alusão às "mulheres da
periferia" reporta essencialmente a uma prática da Antropologia que, ao
construir o discurso da alteridade, só perceberia como legítimas as pesquisas
que contivessem uma certa "mão invisível" da sabedoria popular - o
"outro" em nossa sociedade -, daí a provocação no sentido da extensão
desses "depoimentos". O exemplo não é de todo infundado, pois, como
já apontou antes dele uma respeitável antropóloga, "a antropologia sempre
demonstrou especial interesse pelas minorias despossuídas e dominadas de todos
os tipos (índios, negros, camponeses, favelados, desviantes e 'pobres' em
geral) em detrimento do estudo dos grupos ou classes politicamente dominantes e
atuantes. Quanto aos temas, sempre revelou uma afinidade particular por aqueles
que eram claramente periféricos à grande arena das lutas políticas: dedicou-se
muito mais ao estudo da família, da religião, do folclore, da medicina popular,
das festas do que à análise do Estado, dos partidos políticos, dos movimentos
sindicais, das relações de classe, do desenvolvimento econômico" (Durham,
1988, p.18).
De certa maneira, esse
recorte desprivilegiou a Antropologia no tocante às grandes instituições e aos
grupos sociais ditos hegemônicos. Essa constatação não é minha nem é nova;
reforçando-a, já foi dito também que, quando esses grupos aparecem em trabalhos
etnográficos, eles o fazem de uma maneira peculiar: "Usualmente, os
poderosos e os ricos são considerados como referência em relação à qual a
resistência se estrutura e, de qualquer modo, costumam ser o lado fraco da
análise, aquilo que deve existir, mas que não se estuda em detalhes. Os ricos e
poderosos constituem, assim, um 'outro' genérico que é necessário para explicar
a resistência, mas ao qual geralmente não é permitida a representação"
(Caldeira, 1989, p. 37).
Certamente, para o
cientista político, que vê todo processo social necessariamente ligado a uma
cadeia de relações que passa pelo Estado, o enfoque baseado na alteridade só
pode ressaltar os tais "longos depoimentos...", em detrimento de uma
teoria que "explique" o objeto. E é justamente na relação entre
teoria e pesquisa que nasce da alteridade, que Peirano se arma para rebater tal
crítica, quando ela retoma autores "clássicos", como Malinowski, para
enfatizar a característica dialética do conhecimento antropológico, como
resultado de um confronto com o conhecimento "nativo". Seria esse,
basicamente, o momento em que essa disciplina se diferencia radicalmente da
Ciência Política, com uma tendência mais generalizante e voltada para a análise
conjuntural.
Contudo, é notório que,
em grande parte das teses e monografias em Antropologia que vemos, há a tal da
"mulher da periferia...", que permanece como "cânone" da
disciplina, garantido pelas "áreas de interesse" colocadas nos
programas de seleção de Pós-Graduação em Antropologia de todo o País.
De fato, se pensarmos, junto com Peirano, que a chamada "autocrítica"
da disciplina num dado momento assumiu um papel que se destacou mais do que as
próprias pesquisas, chega-se à conclusão que ou Reis tem razão ou a
Antropologia tem mais "dilemas" - para utilizar a expressão de
Montero (1991) - do que saídas.
É na tentativa de
colaborar nesse diálogo entre as disciplinas irmãs que, neste artigo, pretendo
narrar parte de uma trajetória de pesquisa com um objeto incomum para os
antropólogos - o Exército brasileiro. Pretendo, contando brevemente essa
história, mostrar como com os velhos instrumentos do estilo "A Aventura
Antropológica" foi possível ter uma nova visão sobre esse objeto que é
de longa data de domínio da Ciência Política, o que favoreceu uma visão
hegemônica e, em certa medida, compartilhada pela literatura acadêmica que lida
com esse assunto.
Assim, temos como idéia
principal levantar algumas questões que surgiram a partir da experiência de pesquisa
de campo realizada no Exército brasileiro, entre 1992 e 1994. Na dissertação de
mestrado que resultou dessa pesquisa (Leirner, 1995), procurei mostrar como uma
trajetória de pesquisa levou à idéia da hierarquia como "fato social
total" da vida militar - um elemento que põe em dinâmica múltiplos
aspectos da vida do grupo. Agora, pretendo discutir brevemente como o exercício
etnográfico com o Exército pôde trazer elementos diversos daqueles que a
Ciência Política toma como legítimos quando analisa militares, elementos esses
que dizem respeito às categorias nativas empregadas no uso cotidiano de
militares e sua relação com a organização social desse grupo.
Não é surpresa o fato de
a quase totalidade cios trabalhos acadêmicos que têm o Exército como objeto de
análise se concentrarem na área da Ciência Política, (3) disciplina que,
a rigor, não tem a pesquisa de campo como procedimento usual - ao menos o tipo
de pesquisa a que estamos acostumados em Antropologia, com observação
participante. Daí nossa intenção de evidenciar alguns pontos dessa experiência,
especialmente em relação ao que poderíamos chamar de "conteúdo
político" do exercício etnográfico.
O Exército é uma
instituição nacional e permanente, um poder público, que possui em seus
efetivos aproximadamente 180.000 indivíduos sob uma rígida cadeia disciplinar,
além de um corpo de reservistas. Entre esses indivíduos, porém, há uma parcela
em cuja auto-imagem há a visão de que apenas eles são militares "de
fato": os militares de carreira, que representam hoje aproximadamente
metade do efetivo acima, (4) excluindo dessa parcela tanto aqueles que se encontram na condição
transitória do recrutamento imposto pelo serviço militar obrigatório quanto os
que pertencem ao corpo da reserva. (5) Nessa construção, portanto, o
militar "legítimo" - que até mesmo usufrui dessa condição - é aquele
consagrado por uma carreira que tem como trajetória única o pertencimento a uma
cadeia de comando-obediência pela qual cada indivíduo tem o direito de realizar
uma escalada hierárquica. Vale ressaltar que esse direito é conferido somente
aos que estão nessa carreira, não incluindo, portanto, os soldados recrutados
anualmente pelo serviço militar obrigatório.
Nesse quadro, esses
militares acabam realizando a construção de uma espécie de grade
classificatória em que a categoria militar aparece de forma restritiva e
hierarquizada, dependendo da situação em que ela é exigida: entre os próprios
oficiais de carreira, há aqueles que se definem por estar numa arma
(infantaria, cavalaria, intendência etc.) mais militarem oposição a uma menos militar
ou mais técnica (Castro,
1990, p. 102); ainda entre oficiais, entre aqueles que se situam melhor na
escala hierárquica e aqueles piores situados, (6) tendo os primeiros
mais vocação militar que os últimos; entre oficiais e praças, os
primeiros se consideram mais militares que os últimos, especialmente os
últimos da cadeia de comando, os recrutas (Costa, 1985); entre as três forças,
um oficial do Exército se considera mais militar que um da Aeronáutica,
por exemplo; entre os chamados militares da ativa e os reservistas; e, finalmente, entre os que
se consideram como militares, reconhecendo-se como um grupo distinto do
resto da sociedade, e os paisanos - como bem apontou Castro (1990). Encontramos, desse modo, uma situação
análoga a que Evans-Pritchard descreveu como a formação de segmentos políticos
entre os nuer:
Uma característica de qualquer grupo político é, conseqüentemente,
sua invariável tendência para divisões e oposição de seus segmentos, e outra
característica é a sua tendência para a fusão com outros grupos de sua própria
ordem em oposição a segmentos políticos maiores do que o próprio grupo. Os
valores políticos, portanto, estão sempre em conflito, falando-se em termos de
estrutura. Um valor vincula uma pessoa a seu grupo e um outro a um segmento do
grupo em oposição a outros segmentos do mesmo, e o valor que controla suas
ações é uma função da situação social em que a pessoa se encontra. Pois uma
pessoa vê a si mesma como membro de um grupo apenas em oposição a outros
grupos, e vê um membro de outro grupo como membro de uma unidade social, por
mais que esta esteja fragmentada em segmentos opostos (Evans-Pritchard, 1978,
p. 149).
Durante a pesquisa, como
veremos, ocorreram situações que demonstraram simultaneamente essa clivagem
interna e uma generalização do mundo exterior (análogas ao modelo nuer). Além
disso, foi possível observar características peculiares à organização militar
que remetiam à idéia de que a cadeia de comando constitui-se em um bloco único,
pelas características intrínsecas da disciplina militar, mas que, ao mesmo
tempo, dentro dela, ocorre uma segmentação em múltiplos planos que confere
significados diversos frente à situações determinadas. Foi esta ambiguidade que
nos permitiu ao mesmo tempo reconstituir um único "ponto de vista
militar" e distinguir diferentes níveis de discursos e práticas dentro da
corporação, mostrando que a maneira de classificar as coisas passa pelo
princípio organizacional dos que se consideram os militares. A partir disso,
pretendemos mostrar como a trajetória etnográfica caminhou nesse universo
classificatório, e, assim, começar a desenhar o diálogo proposto em relação à
Ciência Política.
A pesquisa de campo
O trabalho de campo
começou em março de 1992, com um primeiro contato com um militar - um general
da reserva - que então trabalhava no Instituto Liberal, um complexo de
escritórios sediado em São Paulo, cujas atividades somente viria a entender um
pouco depois. Esse começo, porém, é a chave para entender toda a trajetória de
pesquisa.
Minha familiaridade com
militares era praticamente nula na época; não tinha conhecidos ou parentes que
facilitassem uma entrada na instituição. Havia, sim, um projeto de pesquisa
pelo qual me propunha a "observar como um militar" a questão
amazônica, a partir principalmente de uma ida a campo ao Projeto Calha
Norte. Não é preciso tecer grandes considerações sobre o interesse que
grande parte dos antropólogos têm em questões que envolvem o Calha Norte, de
um lado; de outro, havia a suposição, por nossa parte, de que um trabalho assim
despertaria, apesar de uma série de desconfianças, o interesse do Exército que,
afinal, há algum tempo já se manifestava publicamente a respeito da questão
amazônica e que aqui teria a oportunidade de fazê-lo mais um pouco - e para
um público "rival". Assim, caminhávamos no sentido de realizar um
intercâmbio entre duas instituições públicas, a respeito de uma questão
controversa, porém também pública em seu enunciado, como questão nacional que
era.
Esses eram os argumentos
para que, a partir de um único contato através de minha orientadora,(7)
abordasse o Exército. Esse contato era justamente o general acima referido que,
através do Instituto Liberal, já havia feito alguns convites para ela
proferir aulas e palestras para militares no Rio de Janeiro. O fato desse
general me receber também significava uma retribuição a essas aulas. E foi com
aquele projeto e com com esse "contra-dom" que fui ao Instituto.
É possível dizer que o que mais se aproxima da imagem desse local é a de um
escritório de lobbies, porém ele escapava ainda a essa definição. Até
onde pude perceber, sua função básica era a articulação de setores
"representativos" de nossa sociedade, na tentativa de estabelecer o
que, em linguagem gramsciana, poderíamos chamar de uma "classe
dirigente", ou o que posteriormente alguns cientistas políticos, ao se
referirem à articulação que resultou no movimento de 64, chamaram de
"elite orgânica" (Dreifuss, 1987). Mas, longe de querer chegar a
resultados como "64", o Instituto teria como principal meta
formular um "projeto para o Brasil", nas palavras de um outro
ex-membro seu, que eu viria a conhecer posteriormente. Por sinal, nesse
sentido, "intelectuais universitários" acabavam por merecer um peso
importante.
Foi nessa configuração
que fui levado, alguns dias depois da visita ao referido general, à ECEME -
Escola de Comando e Estado Maior do Exército -,(8) sem saber o que me
esperava lá. A ECENIE, como escola de preparação para o comando, constitui-se
no principal passo para o oficial que pretenda um dia chegar ao generalato
avançar na hierarquia. Para ingressar em seu curso é necessário passar por uma
rigorosa triagem, que inclui, além de testes escritos, psicológicos e físicos,
o fato de já ter cumprido algumas etapas na escala hierárquica, devendo estar o
candidato no posto de major. Um oficial, para se tornar general,
necessariamente tem de passar pela ECEME. Ela acaba, portanto, servindo como um
filtro institucional que, na seleção de alguns membros - o que implica a
exclusão de outros -, acaba determinando a formação de uma "cúpula"
de oficiais que têm a possibilidade de chegar ao generalato.(9)
Pertencem, portanto, a essa Escola, uma parte do Exército - se não a sua
própria "elite dirigente", pelo menos aquela elite que potencialmente
será "dirigente" do Exército em alguns anos. Então, podemos nos
perguntar (a) por que um pesquisador civil foi designado a comparecer neste
local; e (b) como em suas atividades pode se incluir essa visita.
Cremos que a primeira resposta passa necessariamente pelo Instituto Liberal e suas
atividades. Parece aí haver uma certa compatibilidade da noção de
"elite" que tanto o instituto quanto o Exército articulam em suas representações
da sociedade e de si próprios. Vale dizer que não somente este pesquisador, mas
alguns professores universitários - que talvez nessa concepção também façam
parte de uma "elite" - foram à ECEME via Instituto Liberal. Diria que para este último, portanto, a
ECEME estava sendo considerada como uma parte da elite – a parte do
Exército - capaz de estabelecer uma ligação com outras elites sociais. Mesmo assim, essa
resposta é insuficiente se não pensarmos em sua contrapartida, que contemple a
resposta de (b), que é, para o Exército, uma instituição burocratizada e
departamentalizada em que idealmente os setores funcionariam organicamente, o
que a ECEME representa em relação a este tipo de atividade.
Em relação à maneira pela qual o Exército se organiza, devemos
pensar na designação viesse local a partir da natureza das atividades
institucionais que exerce - é um curso, e portanto está ligado com a educação
de seus membros ou, se formos mais longe numa concepção gramsciana, com a
formação cie uma visão de
mundo consoante com a realidade militar. Vale lembrar, no caso,
estamos falando em designação, porque se trata de uma corporação
disciplinada, em que, portanto, há pouco espaço para que, de um lado, em
qualquer unidade específica, como a ECEME, possam se desenvolver ao acaso
atividades sistemáticas, aleatória e espontaneamente, e, de outro lado, possam
haver outras unidades que executem a mesma, função - como pode ocorrer em
outros contextos encontrados em qualquer pesquisa de campo. Nossa hipótese de que
a ECEME também cumpre esse papel de ligação com as elites para o Exército está no fato de que sua função
educativa se coaduna com influxos externos à instituirão, ou seja, aproveita
"a visão da sociedade" - termos
empregados por um general que mediava a fala de um professor em um debate a que
lá presenciei - como ocasião para executar uma constante reavaliação da
doutrina do Exército. Esses influxos exógenos, relidos sob a ótica militar,
produzem, como resultado final, avaliações cia realidade que são aproveitadas
no conjunto doutrinário, (10) sendo
aplicadas nas disciplinas ministradas no curso, (11) que, no fim cias contas, são o
instrumento mais legítimo de transmissão da "visão oficial do
Exército". Some-se a tudo isso o fato de que lá se forma, conforme muitos
oficiais dizem, uma elite - portanto, um conceito que também faz
parte da concepção nativa -, e ver-se-á então que as atividades da ECEME
comprovam a existência de um contato intra-elites,
tal qual era realizado pelo Instituto
Liberal. Essas são, vamos assim dizer, algumas das razões
"oficiais" ou institucionais que levam à ECEME esse tipo de
atividade. Deste ponto de vista, a Escola é própria para "articular",
pois oferece uma "brecha" para reavaliação e construção de
"visões de mundo".
A confirmação desta história, porém, está em uma outra, que a
acompanha lado a lado, construída em padrões informais de conduta que puderam
ser percebidos a partir do exercício da observação participante. Nas
entrelinhas dos discursos formais que pude ver em várias idas à ECEME, ficou
claro que os eventuais paisanos que
estavam presentes em palestras, aulas ou reuniões, eram designados como "autoridades...";
"ilustres..." ou "importantes...";
seja lá o que fossem, professores, empresários ou políticos. Vale
ressaltar que paisanos eram minoria absoluta: um, dois ou três, contando
comigo, no meio de uma centena de militares. Curiosamente, em relação a minha
pessoa, ouvi sempre que
era "um jovem aluno... "
que estava lá "estreitando os laços"
entre o Exército e a "Universidade"
caminho necessário para se chegar a um "projeto para o Brasil".
Começando por essa idéia de "Uníversidade, ouvi-a várias vezes ser repetiria em
contextos diversos, desde aquele aplicado acima até idéias como "temos
oficiais na Universidade", ou "a Universidade
e o Exército..." ou, ainda, "divulgar o pensamento militar na
Universidade", mostrando sobretudo uma noção idealizada de que a
Universidade é uma instituição senão única, ao menos uníssona. Ainda que se
soubesse que há muitas universidades pelo Brasil, não havia a concepção de que
elas têm uma natureza competitiva. Isso ficava mais claro ainda quando se
falava na "necessidade da presença do pensamento militar na "Universidade" como etapa para se
chegar a "um projeto
nacional". Havia, como é mostrado repetidamente em discursos da doutrina
militar dirigidos à tropa e aos paisanos (cf . Ferreira, 1988, p. 35; Castro,
1990, p. 128; EME, 1972, p. 1064),(12) uma noção de que a
"sociedade", e por decorrência a universidade, constituía-se em um
"amontoado de arquipélagos fragmentados" e que ao Exército, "a
verdadeira ossatura da nacionalidade", caberia a missão de
"aglutiná-los". Mas, o que para nós se constituiu no fator mais
importante dessas idéias em relação à universidade, era a crença de que seus
membros, incluindo-se a mim, estivessem falando do ponto de vista "da Universidade" e não talvez do seu próprio
ponto de vista. Esse fato revela uma leitura militar extremamente sociocentrada
do meio acadêmico, provavelmente espelhada numa realidade disciplinar que dita
as regras da relação indivíduo-grupo (instituição). Só assim se poderia crer,
em primeiro lugar, que "um
jovem aluno"; qualquer que fosse, de alguma maneira
representasse essa outra instituição, e, em segundo, que esta outra instituição
também fosse capaz de conjuntamente formular um projeto para o Brasil. E por
que a Universidade?
Seguindo a trajetória de pesquisa, essa visão espelhada
justificaria o fato de o Exército, através de seu comando, após a indicação
feita pelo já citado general, ter mantido firme o propósito de me permitir
levar a pesquisa adiante - talvez por acreditar ser a Universidade, pela
sua característica hierárquica e em certa medida disciplinar, seu espelho mais
próximo no universo paisano, sendo, portanto, uma instituição que
reuniria condições formais para se construir um caminho ou "projeto" comum.
Estava assim este "jovem
aluno da Universidade" diante de um duplo papel imposto
por essas categorias definidoras: o de aprendiz e o de contato sistemático na Universidade. A junção desses
papéis parece-me clara: alguém que vai passar para a Universidade uma "verdadeira
visão de mundo", um papel político que realiza em micro-escala o
grande projeto de articulação nacional que era realizado entre o Exército e o Instituto
Liberal e provavelmente
muitas outras instituições afora. Talvez a prova mais substancial desse padrão
relacional que foi construído com a própria pesquisa tenha se dado em duas
ocasiões em que fui publicamente nomeado.
Uma primeira, fora do ambiente militar, num encontro ocorrido
nas dependências do NAIPPE na USP. Nesse encontro, alguns oficiais vieram
representando o CPEAEx/ECEME e basicamente se tratou de falar sobre as
possibilidades de um "estreitamento de laços" : Ali, fui citado por um desses
oficiais como um "velho amigo nosso". Cabe esclarecer que "amigo"
não é força de expressão entre oficiais. Pelo contrário, a expressão "amigo
do
Exército" designa um possível aliado, do mesmo modo que o seu oposto
vale para "inimigo": Ora, basta lembrar que essa é uma forma
de linguagem derivada das análises realizadas em grande escala para definir
outros exércitos ou nações, aqui adaptada para situações particulares. A outra
ocasião deu-se no ambiente do próprio CPEAEx, durante uma palestra, na qual
minha presença - apesar de evidente, pois era o único paisano da platéia – foi
anunciada pelo mediador, como a de "um
conhecido nosso, que inclusive já foi orientado por um colega num micro-projeto".
Estava aqui claramente,
então, diante do papel de aprendiz. Creio que essas duas ocasiões, dado seu
caráter "publicizado", para "dentro" e para
"fora" do Exército, revelam se não
um paradigma, ao menos uma certa configuração pela qual o caminho da pesquisa
foi traçado pela própria instituição militar.
Para além do conteúdo específico das expressões, o que se revela
através desse padrão - não somente terminológico, mas de uma conduta aplicada a certos tipos de situações em que
se vê claramente um "cortejamento" entre dois grupos distantes que,
sobretudo, é realizado em nome de princípios maiores como um "projeto para o Brasil" -
é a idéia de que há uma certa "estrutura" sobre a qual se alicerça
uma configuração política capaz de dar conta desde a micro-escala das relações
pessoais até relações interinstitucionais. A falta de discernimento entre uma
escala institucional e uma relação pessoal sugere-nos a hipótese de que a
política funciona como uma espécie de "cabeçalho" comum que faz a
passagem entre múltiplos níveis de relações no Exército. Isso se evidenciou mais
ainda quando houve uma conjugação entre o papel de aprendiz e a função de contato com outra instituição. Essa ambigüidade de papéis
talvez tenha adquirido essa forma precisa pelo fato de o meu projeto inicial de
pesquisa estar tocando numa questão política então crucial: a questão amazônica, na época da Eco '92. O
curioso ou peculiar, porém, é que a proposta metodológica desse projeto, ir ao Calha Norte e tentar
"observar como um nativo", foi lida como "fazer um trabalho
político", para então realizar a construção de uma visão de mundo que ia
dos altos escalões da ECEME à Universidade,
passando pela intermediação de uma pesquisa que a legitimasse no
meio acadêmico.
Isso, na nossa hipótese, foi causado pelo que podemos chamar de
um "olhar espelhado", no qual se via a Universidade como instituição homóloga no mundo paisano,
compatível portanto com aquele "cabeçalho" comum. Ora, somente com
esse tipo de aproximação - aqui pensada através da reelaboração do olhar nativo
-, em que se enxerga uma estrutura semelhante, é que foi possível estabelecer
esse ideal de organicidade entre duas instituições de funções diferenciadas e,
assim, também equalizar num mesmo patamar relações pessoais e institucionais:
assim é que pude me tornar uma espécie de "representante" da Universidade.
Finalmente, a contraprova necessária para confirmar essa
hipótese ocorreu a partir de meados de 1993, com a concomitância de dois
fatores que mudaram o padrão relacional até então existente.
O primeiro fator foi a presença de Celso Castro, antropólogo do
Museu Nacional (RJ) que estudou a Academia Militar das Agulhas Negras (Castro,
1990), numa palestra no CPEAEx, em que ele relatou uma série de elementos da
"experiência nativa" dos militares captados segundo uma perspectiva
antropológica. A par dos detalhes desse encontro,(13) o que nos
interessa reter aqui é que, a partir dele, os militares com os quais eu estava
em contato tiveram uma outra visão do que é uma pesquisa antropológica: muito
mais voltada, vamos dizer assim, para "usos e costumes", do que para
"aspectos políticos". Somando-se a isso, um segundo fator - uma
aproximação sistemática do CPEAEx com o NAIPPE/USP - levou a uma certa perda de
interesse na viabilização do meu projeto inicial de ir ao Calha Norte, que, até então,
asseguravam-me estava sendo encaminhado. E não somente do projeto inicial; a
pesquisa em si não mais encontrou respaldo da parte do Exército, e os contatos
passaram a ser feitos praticamente de forma unilateral,(14) partindo sempre do pesquisador. Vale reforçar, então,
que, em primeiro lugar, uma pesquisa antropológica fugia do padrão
"político" de falar "contra" o Exército ou "a
favor" dele; e, em segundo, que, aos olhos dos nativos, o pesquisador
também fugia a esse padrão, por não estar relacionado ao NAIPPE, que, afinal de
contas, também faz parte da Universidade (e, sobretudo, da mesma
universidade). Por sinal, várias vezes fui indagado por oficiais por que não
trabalhava junto a esse Núcleo, o que do ponto de vista militar poderia parecer
como uma espécie de "insubordinação".
Essa possível evidência de "insubordinação" espelha-se
no claro sinal de que não havia uma chancela institucional para oficiais
"patrocinarem" a pesquisa,
embora pessoalmente sempre contasse com grande receptividade por
parte deles. De outro modo, com oficiais da reserva podia-se ver, além da
receptividade, uma real disposição em colaborar com a pesquisa: não somente em
deixar registros e depoimentos, como também em dispor de sua influência para
fazer tentativas de viabilizar o projeto inicial.
Essa "negativa" - que, aliás, foi um processo longo,
perdurando até 1994 -, ao contrário do que pudesse parecer, posteriormente
levou a conclusões inusitadas, pois percebeu-se que ela era uma contrapartida
realmente "antropológica" da conduta militar, dando uma
"radiografia" de como a instituição filtra suas relações com o mundo
externo, a partir da maneira como ela classifica suas relações em seu mundo
interno.
Isso porque, de um lado, foi possível perceber, associando o
"silêncio" de uns com o "discurso" de outros -
respectivamente os da "ativa" e os da "reserva"-, que as
determinações institucionais recaíam (a) apenas sobre os que estão na cadeia de
comando-obediência; e (b) sobre os indivíduos pertencentes a esta cadeia. De
outro lado, percebeu-se, também, pela natureza política das atribuições que se
imputavam a uma relação que, além de institucional, era, em grande parte,
pessoal, que, além da carga da instituição que o indivíduo traz consigo, também
a instituição carrega consigo a carga da idéia de indivíduo como elemento capaz
de representar a instituição.
Foi possível ver, então, que o indivíduo militar, em certa
medida, responde pela instituição militar, pois ele se vê, e também assim a
coletividade vê a cada um, como um elo único de uma cadeia hierárquica pela
qual todos respondem, cada qual em sua posição. Pois a hierarquia, além de
classificar indivíduos em patentes, funções burocráticas, locais de serviço,
também os divide, um a um, numa cadeia de comando-obediência, na qual cada um
tem seu lugar, e portanto os elos institucionais respondem a esse princípio
coletivo de individualização de status
e responsabilidade num papel social próprio a cada um, mas que só
existe como parte complementar de um todo. Nessa medida é que o militar, e, podemos
dizer, o Exército, vê qualquer indivíduo como parte correspondente a uma
instituição, compatibilizando o pesquisador
com a Universidade e a
atividade de pesquisa com o estreitamento
de laços. Nesse caso, pelo tipo de organização social a que ele está
ancorado, o militar acabou filtrando as relações interpessoais como relações
interinstitucionais e, portanto, dando um sentido político à sua conduta, pois
o padrão relacional entre instituições indubitavelmente se dá no âmbito da
"grande política", num sentido gramsciano.
Todo esse caminho levou a um duplo aprendizado: o primeiro é que
o silêncio também pode ser revelador, desde que antes já se tenha percorrido
algum tipo de caminho; o segundo é que, em casos como esse, os
"velhos" instrumentos de pesquisa, como a observação participante,
ainda têm muito a oferecer. É isso que queremos brevemente levantar agora.
Conclusões
"Novos temas, velhas reflexões". Parece que o título
que Montes (1983) deu ao capítulo conclusivo de sua tese é apropriado para o
atual contexto. Não falo somente pelo fato de ser uma tese de Ciência Política
e Antropologia ao mesmo tempo, mas, principalmente, pelo que tem a dizer a
respeito dos dois universos. Voltemos ao nosso caso.
Como foi dito inicialmente, coube à Ciência Política a quase
totalidade das interpretações a respeito do que são, como são e qual o papel
dos militares no Brasil. Ora, não é à toa que coube à Ciência Política essa
visão "privilegiada", pois o Exército sempre apresentou o que pode
ser entendido como um comportamento de ator "político", aqui
novamente entendido no sentido gramsciano da "grande política", como
grupo que, volta e meia em nossa história, se destaca de seu papel de parte da "coisa
pública" para manifestar um comportamento próprio, com interesses e visão
de mundo próprios. Admite-se, no entanto, que os militares, justamente como
grupo, são "estranhos" ao mundo civil, fato geralmente ressaltado em
prefácios ou introduções de publicações da área. A Ciência Política, com seu
olhar voltado ao horizonte dos processos institucionais, tende a captar
aguçadamente o que podemos chamar de uma "face pública" da
corporação, ou, como poderíamos dizer melhor, a face que aparece nos grandes
processos sociais. Assim, por exemplo, podemos ver uma absoluta concentração de
trabalhos relativos aos períodos chamados de "intervenção militar" na
vida pública.
A par do mérito indiscutível desses trabalhos, o que nos
perguntamos é se esses períodos são suficientes (a) para entender a natureza da
corporação stricto sensu; e
(b) para entender o comportamento da corporação como um todo, mesmo nesses
períodos. O que queremos dizer, em outras palavras, é que os regimes militares
não são suficientes para entender os militares, o que não significa, até, que
eles não são bons para entender o país em que estamos.
Vale a pena ressaltar que não tomamos a etnografia como um
método universal e indispensável em qualquer caso. Não pode ser aplicada em qualquer situação, mas, de todo modo, é bom
tê-la em mente quando se trata de militares, pois ao menos ela é capaz de
informar quem são os militares que falam e que nem todos militares são iguais.(15)
Se não, poderíamos nos contentar em publicar "informações reveladoras de
bastidores" à medida que algum general da reserva viesse, finalmente,
revelá-las e assim tomar tal como o discurso militar.
Por falar em general da
reserva, eis uma das lições que podemos tirar dessa etnografia: a de que o dito
general está "liberado" para falar, pois não se insere mais naquela
cadeia hierárquica. Por isso mesmo é que devemos olhar com ressalvas falas
oriundas do Clube Militar e estar cientes de que elas não refletem o olhar da
instituição. Como pessoa, o general não mais está inserido num circuito de
responsabilidade que, ao mesmo tempo, o coloque como parte da corporação e a
corporação "em operação" como parte dele. Desse modo, ele não está
mais na política do Exército, mas sim na política de uma nova corporação em que
ele agora se encaixa - a dos oficiais da reserva -, que usa o Exército ou o
"ser militar" como estratégia discursiva.(16)
Essa é uma das muitas
conclusões a que podemos chegar investigando a natureza dos militares por meio
da observação participante. Em relação à Ciência Política, cremos, esse é o
tipo de olhar que pode auxiliai na precisão do recorte quando se fala de
militares. Não é eficaz, sabemos, para saber a relação que o Estado ou as
outras instituições políticas têm com a "grande política" a ponto de
suscitar fenômenos como o da "intervenção"; mas, de outro modo, é
eficaz. para saber o porquê de alguns procedimentos da caserna mesmo durante a
intervenção, como, por exemplo, por que se passava os futuros presidentes da
República para a reserva ou, ainda, quão verossímeis em relação à conduta da
corporação são alguns depoimentos de militares. Nesse sentido, podemos afirmar
que a acusação de Wanderley Reis não procede, pois, no mínimo, uma etnografia,
além de depoimentos, pode captar uma conduta relacionada stricto sensu à
estrutura social de um grupo, estrutura essa que somente um procedimento
antropológico pode captar.
Mesmo em casos como o
nosso, note-se, somente o procedimento etnográfico pôde oferecer saídas que, do
contrário, poderiam parecer não existir; pois, perguntamos, o que aconteceria a
um cientista político se, de repente, o acesso a seus dados fosse negado por
quem os detém com exclusividade? Cremos que o resultado seria a impossibilidade
de chegar a quaisquer conclusões. Esse olhar que oferece o confronto entre
discurso e conduta, representação e ação - o osso, carne e espírito
malinowskianos -, nesse caso, nos permitiu pensar, inclusive, no significado do
silêncio.
Finalmente, em relação à
Antropologia, podemos reforçar a idéia de Peirano de que os objetos não estão
esgotados. Novos atores aparecem em cena, demandando pela velha "Aventura
Antropológica"; afinal, são eles a fonte de nosso conhecimento.
"Outros povos, outros costumes" (Sahlins, 1990); "novos temas,
velhas reflexões" (Montes, 1983).
NOTAS
(*) - Trabalho originalmente apresentado no GT "Forças
Armadas, Estado e Sociedade". ANPOCS, 1996.
1. Alusão à coletânea de igual nome, organizada por Ruth Cardoso
e publicada pela Paz e Terra, em 1988.
2. No Brasil. Esse movimento foi anterior e iniciou-se nos
Estados Unidos, com seus embriões ainda em fins da década de 70. Foi em 1984,
com a publicação de "O Anti-Anti Relativismo" (1988, ed. bras), de
Geertz, que o movimento se concretizou ou se espelhou como tal. Boas leituras a
respeito estão na própria Peirano (1995) e em Caldeira (1988; 1989).
3. A única exceção a essa regra de que temos conhecimento é
Castro (1990).
4. Há um projeto do Exército que vem sendo desenvolvido desde
1995 para tentar chegar ao ano 2000 com um índice de 80% de militares de
carreira.
5. O corpo de reserva é formado por (a) "militares da
reserva remunerada", ou seja, militares de carreira aposentados; e (b) os
"demais cidadãos em condições de convocação ou de mobilização para a
ativa" (Estatuto dos Militares, Art. 42, § 1Q). Note-se que os chamados
conscritos, recrutas do serviço obrigatório, quando passam para a reserva não
entram para a categoria da reserva remunerada, sendo colorados na condição de
(b) "demais cidadãos...".
6. "Melhor situado" não representa necessariamente
estar acima na cadeia de comando, mas sim estar com uma possibilidade
estrutural de em algum momento se situar no topo dela, enquanto "pior
situado" representa estar numa posição em que provavelmente o indivíduo
não chegará ao topo da cadeia de comando (especificamente ao generalato), ainda
que ele possa se situar, num dado momento, "acima" do primeiro. Os
detalhes desse arranjo estão descritos em Leimer (1995).
7. Maria Lúcia Montes. Aproveito a menção a ela para agradecer novamente sua atuação como protagonista dessa história.
8. Localizada na Praia Vermelha, na cidade do Rio de janeiro.
9. Cf. nota 8.
10. Vale lembrar que já foi dito que "os oficiais
concluintes do curso de estado-maior funcionam concomitantemente como
reformuladores de doutrina e 'caixas de ressonância' na
propagação da mentalidade militar, pois na qualidade de chefes qualificados
exercem considerável influência em instituições hierarquizadas" (Soares,
1994, p. 15).
11. São elas: Serviços de Estado-Maior, Segurança Interna; Administração Militar; História Militar; Direito; Apoio Administrativo; Idiomas; Operações de Brigada; Mobilização; Estratégia; Política; Sociologia; Economia; Ciência e Tecnologia; Operações de Divisão de Exército; Exército de Campanha (Soares, 1994, p. 15).
12. Esses discursos encontram-se em diversos lugares, como
publicações, ordens-do-dia da tropa, palestras de militares, e, também,
afixados em cartazes de várias unidades militares
pelo país, entre elas a ECEME, juntamente com outras frases de impacto e
palavras de ordem. Para ver detalhes dessas frases, classificadas nas escolas
militares como pensamento mnemônico, ver Leimer (1995, pp. 52-4).
13. Núcleo de Análise Interdisciplinar de Políticas e Estratégias, do Departamento de Ciência Política da USP, coordenado por Bráz José de Araújo.
14. Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do
Exército, um curso da ECEME, mas não mais de comando, e sim um curso
preparatório para exercer o generalato. Instituído em
1980, o CPEAEx é integrado por aproximadamente 30 coronéis que, em micro-escala,
mas com muito mais intensidade, realizam atividades semelhantes às do Curso de
Comando da ECEhE, tais como palestras, debates, atividades disciplinares e
contatos regulares com autoridades civis. Ele se constitui assim numa
"elite" da "elite" do Exército.
15. Que estão devidamente narrados no Capítulo I de Leirner (1995).
16. Embora sempre que eram feitos obtivessem a maior consideração por parte dos interlocutores.
17. Como bons exemplos, ver Oliveira (1994); Mathias (.1995);Coelho (1990).
18. Vale a pena dizer que não apenas os etnógrafos podem ter essa percepção. Podemos citar Costa, 1985, como um exemplo de trabalho que levou em conta esse tipo de idéia, embora ela seja colocada em um segundo plano de análise, servindo apenas de apoio para a discussão de eventos históricos. Corporação que também é utilizada pelo Exército em um sentido político, mas, cujos membros, agora, falam de um outro lugar que não aquele da sua cadeia de comando, o que implica falar de dois atores mutuamente reconhecidos como distintos. A esta regra de que temos conhecimento é Castro (1990).
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