ASPECTOS
NÃO-CIVIS DA SOCIEDADE
Espaço,
tempo e função (*)
Jeffrey Alexander
A
discussão desenvolvida nos capítulos anteriores teve o objetivo de trazer à luz
o conceito de ‘sociedade civil’, esse segredo embaraçoso que a teoria social
vem guardando há tantos séculos, mas nunca foi examinado de modo
suficientemente empírico. As teorias da modernização, do desenvolvimento e da
racionalização partiram do pressuposto que, no curso do desenvolvimento social,
estruturas abrangentes de solidariedade foram criadas como subproduto de outros
processos estruturais mais visíveis e mais familiares, tais como a urbanização,
a mercantilização, a socialização, a burocratização e a secularização. Sugeri,
diferentemente, que a construção de uma esfera mais ampla e inclusiva de
solidariedade é uma questão a ser estudada em si mesma. Desde que surge nas
sociedades humanas, a sociedade civil tem se organizado, na medida em que
efetivamente assume uma forma organizada, em torno de códigos culturais
peculiares. Ela consegue disseminar sua imagem idealizada das relações sociais
porque é organizada por determinados tipos de instituição comunicativa e porque
todo desvio daquelas relações é sancionado ou recompensado por determinados
tipos de instituição reguladora. A sociedade civil sustenta-se também em
diferentes tipos de estrutura de personalidade e em certas formas incomuns de
interação.
Minha
análise da cultura, das instituições e das interações da sociedade civil seguiu
uma linha sutil. De um lado, quis acentuar a independência analítica dessas
esferas. Elas devem ser pensadas em si mesmas, como estruturas de existência
autônoma. Seu status não pode ser deduzido do estado das esferas que circundam
a sociedade civil; elas não são meras variáveis dependentes. Ao mesmo tempo
sustentei que, do ponto de vista concreto, esses modos internos de organização
estão sempre profundamente interligados com o restante da sociedade. Existem
sempre pontos de conexão com as atividades realizadas em outras esferas. Esses
modos de organização se expandem muito além da sociedade civil, definida em
sentido estrito, estabelecendo padrões e criando imagens em outras esferas. Por
outro lado, o que se passa nas demais esferas da sociedade, o que é possível e
o que não é, afeta fundamentalmente a estrutura e o funcionamento da cultura,
das instituições e das interações na sociedade civil.
De
fato, ao longo de toda a discussão anterior, sugeri que a tensão entre as
referências internas e as externas da sociedade civil não é uma questão
meramente teórica, mas uma preocupação empírica e ideológica fundamental. À
medida que a sociedade civil ganha autonomia diante das demais esferas, ela
passa a definir relações sociais de modo consistentemente mais universalista. A
estrutura binária do discurso da sociedade civil sugere que, mesmo em
circunstâncias ideais, esse universalismo jamais é alcançado, senão de modo
muito aproximado. Além disso, como a realidade social está longe de
corresponder ao ideal, a autonomia da sociedade civil é incessantemente
comprometida e limitada. As necessidades das esferas não-civis, das
instituições e dos modos de interação impregnam a sociedade civil e a linguagem
da repressão passa a ser largamente utilizada. O universo do ‘nós’ se estreita;
o universo do ‘eles’ se amplia e assume múltiplas formas. Nega-se a admissão na
sociedade civil não só aos grupos situados fora do Estado nacional, mas também
a muitos daqueles que estão dentro do Estado.
A
discussão se volta agora para a formulação de um modelo sistemático de
explicação desses processos contíguos. Para tanto, as abordagens que denominei
idealistas da civilidade [civility] e da esfera pública não serão de
grande valia. Quer expressem críticas, quer se mostrem apologéticas, essas
abordagens sugerem que a sociedade civil deve ser capaz de se manter por si
mesma e de eliminar a influência das outras esferas, ou não se sustentará de
forma alguma. De Aristóteles e Rousseau a Arendt e Habermas, todos os
pensadores idealistas se renderam à utopia da sociedade civil, não como uma
idéia reguladora, ou uma norma, mas como uma expressão possível da sociedade
real. Eles afirmam que é possível construir um sistema social totalmente civil,
solidário, altruísta e inclusivo, um sistema homólogo à própria sociedade
civil. Definem o mundo da economia como o domínio corrupto da ‘necessidade’,
que simplesmente exclui toda idéia normativa de reciprocidade. Rejeitam o mundo
da política como sendo intrinsecamente burocrático, instrumental, sempre e em
toda parte baseado apenas na dominação. Esses ‘sistemas’ são entendidos como
intrinsecamente incivis, como colonizadores do mundo da vida de uma órbita da
solidariedade que é vista como condenada ao fracasso por ser, por definição,
vulnerável a esferas dotadas de uma materialidade mais forte e mais sólida. Da
mesma maneira, a religião é encarada como uma órbita intrínseca de dominação,
porque fundada em um conhecimento circunscrito que se opõe ao conhecimento
típico da esfera civil, construído por meio de um diálogo aberto e
universalista.
O
erro dessas abordagens não está nas vigorosas críticas que dirigem à esfera
não-civil. Na verdade, farei extenso uso dessas e de outras críticas na
discussão que segue. Essas abordagens falham porque ignoram a complexidade e a
necessidade da diferenciação funcional, não só no sentido institucional, mas
também no moral. Quanto mais desenvolvida é uma sociedade, maior diversidade de
discursos e de esferas institucionais aparece. É claro que a concretização da
sociedade civil é restringida por essas esferas; mas, ao mesmo tempo, a órbita civil
estabelece trocas institucionais e morais com essas outras esferas, embora
sejam de natureza muito diversa. Essas interpenetrações podem se dar nos dois
sentidos: a sociedade civil também pode corromper as outras esferas, em vez de
ser apenas corrompida por elas. Para evitar a falácia idealista, temos de
admitir que a sociedade civil sempre se abriga nos mundos práticos das esferas
não-civis, e é preciso estudar as composições e fragmentações, isto é, a
sociedade civil ‘real’, mais que a versão idealizada que resulta de tais
intercâmbios.
A
sociedade civil se concretiza no real porque os sistemas sociais existem num
espaço real, foram construídos num tempo real e devem desempenhar funções que
vão além da construção da própria solidariedade. Essa concretização reduz o
ideal de participação igualitária e livre — compromete e fragmenta a órbita
potencialmente civil —, atribuindo status a qualidades primordiais que não têm
nada a ver com o status ocupado por uma pessoa na sociedade civil como tal.
Qualidades primordiais são as que se atribuem às pessoas pelo fato de
pertencerem a um determinado grupo, que é visto como caracterizado por certas
qualidades singulares inalcançáveis para qualquer pessoa de fora do grupo.
Essas qualidades podem ser definidas como análogas a atributos físicos tais
como a raça e o sangue; mas quase todo atributo social pode assumir uma posição
primordial. Dependendo da situação histórica, o idioma, a raça, as origens
nacionais, a religião, a classe, a inteligência e a região foram usados como
referentes primordiais. Em diferentes épocas e em diferentes lugares, se fixou
a convicção de que somente os detentores de determinadas versões desses
atributos cumpriam as exigências para se tornarem membros da sociedade civil.
Desenvolveu-se a crença segundo a qual as pessoas e os grupos não-portadores
dessas qualidades são incivis e não podem ser admitidos na sociedade. Dessa
maneira, ‘civil’ se torna o oposto de ‘primordial’. Na verdade, naturalmente, a
própria introdução de critérios específicos é, em si mesma, incivil. A
expressão primordialidade civil é contraditória em seus termos.
Espaço:
a geografia da sociedade civil
Tanto
filósofos quanto leigos idealizam a sociedade civil como um ‘espaço’
universalista e abstrato, um mundo aberto, ilimitado, um horizonte sem fim. Mas
a verdade é que o território é elemento básico de qualquer sociedade histórica
realmente existente. O território converte o espaço da sociedade civil num
‘lugar’ particularizado. Na verdade, a sociedade civil só pode se tornar única
e significativa como um lugar específico. Não se trata apenas de um lugar, ou
de qualquer lugar, mas de nosso lugar, um ‘centro’, um lugar que é diferente
dos lugares situados fora daquele território. Pertencer a esse lugar central
passa a ser uma qualidade primordial. Na medida em que se torna primordial, o
território divide e se vincula ao discurso binário da sociedade civil. Somente
aqueles que têm os pés fincados na terra sagrada são tidos como aptos para o
exercício da liberdade e, com isso, as instituições e as interações da
sociedade civil se desvirtuam e se segmentam.
O
nacionalismo pode ser visto, nesse sentido, como a corrupção do espaço
demarcado pelos limites territoriais dos Estados. É claro que a civilidade
sempre esteve circunscrita por centros, mas antes do século XVI esses
territórios primordiais eram entendidos de maneira mais localizada; tratava-se
de aldeias, cidades, regiões ou simplesmente áreas físicas habitadas por tribos
e redes extensas de parentesco. Desde o Renascimento, porém, a idéia de
território começou a ser entendida do ponto de vista nacional. Pertencer a um
‘lugar’ significava ter uma ligação com o território nacional. É importante
notar que essa bifurcação geográfica era considerada verdadeira qualquer que fosse
a definição do território nacional: uma comunidade nacional de língua e sangue,
como no caso alemão, ou uma comunidade universal e abstrata de idéias, como a
França pós-revolucionária. Qualquer que fosse a definição, apenas os membros de
uma nação eram considerados capazes de racionalidade, honradez, sinceridade e
civilidade; quem pertencesse a outras nações não possuía essas qualidades.
Pertencer a outros territórios implicava desonestidade, desconfiança e
dissimulação. Os últimos eram os inimigos naturais dos primeiros.
Essa
extraordinária limitação imposta ao universalismo teve conseqüências
extraordinárias para a história real das sociedades civis. Uma delas é o
contínuo entrelaçamento entre sociedades civis concretas e guerra, a expressão
última de relações do tipo incivil. Kant achava que as democracias não fariam
guerra umas contra as outras; a seu ver, as qualidades de universalismo e
racionalidade que lhes eram próprias fariam com que se inclinassem mais para o
diálogo do que para a força e as impediriam de se conduzir de modo
estereotipado e brutal com relação aos povos colocados do outro lado. Mas a
virtude democrática de outras nações é sempre questionável e a bifurcação
territorial do carisma civil torna muito mais difícil discernir a civilidade
dos outros. Isso explica por que, ao longo da história das sociedades civis, a
guerra tem sido uma obrigação sagrada; fazer guerra contra populações de outros
territórios tem sido uma tarefa ao mesmo tempo nacional e civilizadora. Atenas,
a primeira democracia verdadeira, embora limitada, cuja polis ainda hoje é um
modelo para as sociedades civis, esteve permanentemente em guerra contra as
cidades-estado vizinhas, lutando contra o barbarismo dos territórios
estrangeiros. Nas cidades-estado da Itália renascentista, a glória militar era
uma virtude essencial e suas populações defendiam e expandiam os limites de
suas sociedades por meio da guerra contra comunidades civis ‘estrangeiras’,
embora igualmente civis em seu contexto nacional. A expansão imperial das
nações do norte europeu, entre os séculos XVI e XIX, teve sem dúvida razões
econômicas; mas também se inspirou na urgente necessidade de levar a
civilização aos povos inimigos da civilização, que não haviam tido a sorte de
se desenvolver na mesma área do mundo em que os europeus do Norte se haviam
constituído.
Mas
é a grande “república imperial”, como denomina Raymond Aron, que demonstra esta
bifurcação territorial da civilidade de maneira mais patente. Quando ingleses e
franceses travaram uma guerra que durou do século XVI até o século XIX,
formavam sociedades muito parecidas em aspectos essenciais, mas cada uma delas
considerava possuir uma dimensão fundamentalmente civil, senão democrática, da
vida social. As elites e os homens comuns dessas nações estavam igualmente
convencidos de que somente seus territórios nacionais lhes permitiam respirar a
liberdade. Por acaso teriam sido outras as razões que levaram a França
napoleônica a impor guerras de libertação nacional, colocando na mesma
categoria de impureza os cidadãos ‘escravizados’ de nações tão diversas quanto
o Egito e a Alemanha, para não falar da Itália e mesmo, potencialmente, da
própria Inglaterra? Isso para não mencionar a secular história militar dos tão
democráticos Estados Unidos, onde toda guerra foi travada como um ritual de
sacrifício para converter os oprimidos de outros países em americanos e
torná-los livres. Não quero dizer com isso que muitas dessas guerras não tenham
sido, de fato, exercícios de autodefesa ou de libertação nacional. Mas, na
realidade, acredito que há uma notória associação entre território nacional e
discurso binário das sociedades civis e que essa associação tem incentivado a
deflagração, por toda a parte, de guerras cruéis com fins punitivos.
A
interpretação nacionalista da civilidade, além disso, tem resultado em
fragmentações internas. Ela permitiu que se construísse uma representação dos
excluídos da sociedade civil como ‘estrangeiros’ e como aliados dos inimigos do
território nacional, contra os quais se trava a guerra. Em outras palavras, os
excluídos são freqüentemente vistos não só como incivilizados, mas como
verdadeiras ameaças à segurança nacional. Nos Estados Unidos, isso tomou a
forma do “nativismo” que John Higham define como a “profunda rejeição a uma minoria
interna com base em suas ligações com o estrangeiro”. No curso da história
americana, praticamente todos os grupos imigrantes foram objeto dessa
construção, desde os índios até os afro-americanos, dos imigrantes católicos
aos judeus, dos alemães na Primeira Guerra Mundial aos japoneses durante a
Segunda Guerra. Não é preciso multiplicar os exemplos, nem explicar como o
anti-semitismo francês fez de Dreyfuss um espião alemão e o nazismo germânico
transformou a ‘nação’ judaica no emblema de uma conspiração capitalista
internacional que ameaçava a independência do Estado alemão. Esses fatos são
bastante conhecidos, mas suas implicações teóricas não estão bem compreendidas.
O problema não se reduz ao fato de que extremistas e fundamentalistas tenham
tantas vezes ameaçado a tranqüilidade da vida democrática. A questão remete a
uma ordem sistêmica muito mais ampla.
Como
a sociedade civil é fixada territorial e espacialmente, ela produz seus
próprios inimigos. Até mesmo na mais civil das sociedades o discurso da
liberdade é territorialmente bifurcado. Tornando a impuridade primordial, essa
bifurcação torna a repressão mais provável. É por isso que, em sua luta pela
inclusão no universo da sociedade civil, os excluídos muitas vezes tentam
reconstruir a representação de si mesmos como patriotas. Durante a ascensão do
anti-semitismo alemão em Weimar, as organizações judaicas propagaram o fato de
que centenas de seus compatriotas haviam dado suas vidas pelo kaiser. Durante a
longa batalha que travaram em defesa de sua inclusão social, os defensores da
comunidade afro-americana enfatizaram com orgulho que os negros haviam
participado voluntariamente de todas as grandes guerras americanas, a começar
pela própria Revolução Americana. Segundo T.H. Marshall, foi a participação
patriótica da classe operária inglesa na Segunda Guerra Mundial que criou a
solidariedade entre classes, responsável pela criação do welfare state no
pós-guerra.
Se o
nacionalismo restringe a civilidade por bifurcar o espaço ‘exterior’ de uma
nação, o regionalismo recria uma limitação semelhante, embora às vezes menos
violenta, no seu espaço interno. Não são apenas as nações que constituem
centros; cidades e regiões internas evidentemente também o fazem. Esses centros
domésticos tornam primordial o discurso da liberdade, construindo a
representação da periferia como um espaço no qual o carisma da civilidade
nacional está ausente, uma espécie de território estrangeiro dentro da própria
nação. Cidade e campo foram durante séculos uma das mais perniciosas distinções
desse tipo. Na Alemanha, o provérbio burguês “o ar da cidade nos faz livres”
pretendia ser muito mais que uma observação sociológica acerca dos efeitos dos
direitos legais. Em toda a história das sociedades civis européias, os
camponeses foram comparados a animais, ou na inigualável frase de Karl Marx a ‘lumps
of clay’ [amontoados de barro]. Divisões regionais como Norte e Sul, Leste
e Oeste, sempre tiveram em todos os lugares uma forte carga de significados.
Essas divisões regionais fragmentaram a sociedade civil das nações, sua
cultura, suas interações e muitas vezes suas instituições reguladoras e
comunicativas. Sobrepondo-se a outros tipos de exclusão — econômica, étnica,
política ou religiosa —, formaram a base dos movimentos repressivos de
cerceamento, da. construção de guetos, dos exercícios agressivos e brutais de
incorporação forçada e dos movimentos separatistas e guerras civis.
Tempo:
a sociedade civil como sedimentação histórica
Assim
como nascem num espaço real, as sociedades civis são sempre criadas num tempo
real. A idéia utópica da civilidade sugere um tempo eterno em que as pessoas
sempre foram e sempre serão as mesmas. Mas, na realidade, toda sociedade civil
teve um inicio, provocado por alguém, num tempo determinado, e, praticamente em
todos os espaços territoriais, diferentes regimes de sociedade, mais ou menos
civis, começam e recomeçam sem cessar.
A
importância dessa temporalidade está no fato de que ela pode ser transformada
em qualidade primordial. As origens de quase todas as comunidades são
imaginadas como tendo ocorrido num tempo sagrado, um tempo mitológico descrito
nas narrativas e reproduzido nos rituais comemorativos. Os fundadores da
comunidade são igualmente sacralizados. A eles, os que estavam lá ‘no começo’,
se atribui um carisma do tempo. Os mitos de origem lhes conferem não só uma
posição elevada, como também explicam seus feitos pelas características
primordiais do grupo fundador: religião, raça, classe, língua, país de origem-
se este for diferente do país que fundaram mais tarde. Esses mitos contam a
história dos fundadores pelo discurso de liberdade, mas a aptidão para o
exercício da liberdade é percebida sob uma perspectiva temporal. Costuma-se
atribuir exclusivamente às características primordiais do grupo fundador o
sucesso na fundação da sociedade nacional num tempo histórico de tal maneira
propício.
Se
as características dos fundadores são equiparadas às categorias puras da
sociedade civil, existe uma lógica, no sentido cultural, em equiparar as qualidades
dos que vieram depois, na medida em que eram diferentes dos atributos dos
fundadores, às categorias impuras desse discurso civil. Em outras palavras, a
temporalidade cria uma ordem de civilidade no tempo, uma ordenação de
qualidades categóricas que se transforma no fundamento de reivindicações de
privilégio no interior da própria sociedade civil. Na história dos Estados
Unidos, todo novo grupo de imigrantes foi considerado impuro com relação a
algum critério essencial. A dificuldade de falar inglês corretamente tem sido
atribuída a uma inaptidão para a racionalidade e a clareza de pensamento. As
redes extensas de parentesco, típicas das comunidades étnicas pioneiras, foram
vistas como prova de um comportamento fechado, oposto a uma conduta franca, e geradoras
de faccionalismos contrários à livre competição; foram tidas como prova de
dissimulação, antagônicas à franqueza e à confiança. Práticas religiosas
diferentes são invariavelmente consideradas inferiores, descritas como
dominadas pelo emocionalismo, em vez do autodomínio, e marcadas pela
hierarquia, em vez da igualdade. A conseqüência disso não é só a
‘discriminação’, mas também a rejeição e o medo. Seu resultado é a suspeita de
que os grupos que chegaram mais tarde não se ajustam às categorias da própria
sociedade civil. Será que os novos imigrantes irlandeses algum dia se tornarão
bons americanos? E os judeus? E os novos imigrantes chineses e japoneses? Como
o conseguirão, se são tão diferentes de nós?
Mas,
se a inevitável chegada cria tais bifurcações, a passagem do tempo pode
atenuá-las. A sucessão de migrações étnicas não é apenas um fato econômico,
produto de pressões ecológicas e materiais que permitem que, enquanto um grupo
deixa um lugar, outros nele ingressem. Trata-se de um processo de aprendizagem
cultural que pode ser trabalhado com o tempo. A familiaridade não leva a um
perfeito entendimento, mas conduz à identificação, um processo que intercala
tempo e espaço. A permanência por longo tempo no espaço primordial muitas vezes
limpa e purifica certas qualidades primordiais, fazendo com que características
antes consideradas essencialmente distintas passem a ser vistas como variações
de um tema comum. Mas esse não é um processo evolutivo que se desenrole
automaticamente. Estabelecer pontes, criar vínculos e entrecruzamentos é um
projeto empreendido pelos próprios grupos temporalmente desprivilegiados.
Lançando mão das instituições comunicativas e reguladoras da sociedade civil,
eles reivindicam ser reconsiderados em termos mais civis. Na literatura
‘étnica’, por exemplo, os escritores reconstroem a representação das qualidades
primordiais de seu grupo como estando inseridas numa ‘tradição comum’, tanto no
sentido estético quanto no sentido moral. Fornecem referências alternativas dos
traços primordiais, usando o humor, a tragédia ou o romance para afastar o
perigo e criar um sentimento de familiaridade. Movimentos sociais e
personalidades muito conhecidas do grupo imigrante se apresentam como
portadores das qualidades civis tradicionais. Alegam que, assim procedendo,
contribuem para revitalizar o discurso nacional da liberdade, e que suas
qualidades étnicas são análogas e complementares às próprias características
dos grupos fundadores.
Para
compreender adequadamente as implicações da temporalidade é preciso, porém,
levar em conta que as origens de uma comunidade civil também são reconstruídas
de um modo muito menos voluntarista que as qualidades pacifistas da imigração.
A concretização temporal das sociedades civis significa que seus fundadores deslocaram
outras sociedades existentes em um tempo anterior. As novas sociedades podem
ter se originado de insurreições revolucionárias contra um regime mais
conservador ou mais radical; podem ter sido conseqüência da conquista militar
de povos nativos ou grupos nacionais; podem ter envolvido a dominação por meio
de compra, por tratados comerciais ou aquisições políticas menos diretas.
Quando o Parlamento radical inglês organizou sua revolução política contra a
monarquia, não se limitou a acentuar a expansão da sociedade civil; também
apresentou a revolução como a vitória de um grupo ‘étnico’ diferente, os
anglo-saxões, sobre a linhagem consangüínea real. Os revolucionários franceses
não fizeram apenas uma insurreição universal e democrática: eles proclamaram
uma vitória dos gauleses sobre os francos. A revolução americana também trouxe
consigo um deslocamento temporal; foi não só uma vitória sobre os povos
aborígines, mas também sobre os grupos étnicos de origem não anglo-saxã.
Qualquer que tenha sido o tipo de deslocamento, as características primordiais
do grupo dominado são estigmatizadas; eles são representados pelas categorias
impuras do Estado civil vitorioso. A sociedade civil é, desde suas origens,
fragmentada e distorcida, e freqüentemente da maneira mais abominável.
As
autopercepções distorcidas da sociedade civil induzem a reações em cadeia que
muitas vezes incitam a ‘refundações’ igualmente violentas. As repercussões
posteriores dessas reconstruções podem ser fonte de deslocamentos físicos e da
formação de guetos. O apartheid na África do Sul ocorreu depois que os afrikaaner
‘refundaram’ a antiga sociedade criada pelos ingleses. Quando os nazistas
fundaram a nova Alemanha como um Estado ariano e cristão, o resultado foi não
só o deslocamento físico e a coerção, mas o extermínio em massa. As
‘refundações’ podem dar origem à opressão e a séculos de lutas de libertação,
que freqüentemente conduzem à guerra civil, como fez o sistema racial de
‘castas’ americano, intrínseco à fundação de uma sociedade civil tão
profundamente democrática.
Evidentemente
as bifurcações temporais das sociedades civis se entrelaçam com as
fragmentações fundadas no território. Principalmente porque ambas implicam
construções que tomam como referência os fundadores das sociedades nacionais.
As qualidades primordiais que as sociedades identificam com a liberdade se
referem aos fundadores que ‘estavam lá no começo’. Quando os grupos excluídos
reformulam a representação de si mesmos como patriotas, como povos cujas
contribuições para a segurança nacional foram injustamente ignoradas, eles
estão tentando se inserir simbolicamente não só no espaço particular de uma
nação, mas também no seu tempo histórico. Como a memória histórica preserva o
carisma do tempo, ela é sempre contestada pelos grupos deslocados
temporalmente. Os acontecimentos originários, assim como os eventos críticos
posteriores, são permanentemente reconstituídos para legitimar uma nova
definição primordial da civilidade. Os grupos que foram excluídos ou dominados
reconstroem a história de sua nação, de modo a descrever a civilidade de forma
mais abrangente e expansiva; os grupos ameaçados tentam manter definições
primordiais mais restritas, ou mesmo tendem a estreitá-las ainda mais. Os
movimentos sociais se utilizam das instituições comunicativas para persuadir a
opinião pública de que é preciso ‘rever’ a história; recorrem às instituições
reguladoras para forçar a opinião pública a tornar ilegais as leis decorrentes
dessa versão obsoleta da história.
Função:
a destruição das relações de fronteira e sua reconstrução
As
sociedades são mais que ‘coletividades’ localizadas no tempo e enraizadas no
espaço. São sistemas sociais de imensa complexidade, cujas instituições se
tornam cada vez mais especializadas, separadas umas das outras não só pela
diferenciação de sua organização física e de sua equipe administrativa, mas
também pelas normas que as informam e regulam. A possibilidade de diferenciação
institucional e cultural, gerando esferas cada vez mais isoladas, reside, naturalmente,
no próprio cerne da noção de sociedade civil que acabei de examinar. Sua
capacidade de justiça, igualdade e liberdade, sua própria existência, depende
da criação de um espaço que possa se situar fora de esferas mais restritivas.
Porém, conforme venho sugerindo de uma maneira ou de outra ao longo deste
trabalho, essa autonomia deve ser compreendida de modo dialético. A própria
independência, que torna possível a sociedade civil, também a torna mais
vulnerável.
Há
uma tendência perigosa e essencialmente ilusória na teoria sociológica clássica
e moderna a compreender a diferenciação funcional como um processo que
contribui para a estabilidade e a individualização. Ela pode ser integradora e
enobrecedora, mas nem sempre é assim. Se a solidariedade e o universalismo da
sociedade civil constituem uma dimensão do sistema social, essas propriedades
são postas em xeque por esferas contíguas voltadas para interesses funcionais
radicalmente distintos e que funcionam de acordo com objetivos contraditórios,
utilizam diferentes tipos de meio e produzem relações sociais de uma espécie
totalmente diferente. O objetivo da esfera econômica é a riqueza, não a justiça
no sentido civil; ela se organiza em torno da eficiência, não da solidariedade,
e depende da hierarquia, não da igualdade, para concretizar seus objetivos. A
esfera política gera poder, não reciprocidade; requer lealdade, não crítica, e
busca o exercício de formas coercitivas, ainda que legítimas, de controle
social. A esfera religiosa produz a salvação, não distribui justiça terrena; se
fundamenta numa desigualdade básica, não só entre Deus e os fiéis humanos, mas
entre os representantes de Deus, seus pastores e aqueles a quem devem guiar e
instruir na terra; e não importa até que ponto a mensagem seja igualitária ou
reformista, o próprio caráter transcendental da relação religiosa exige o
ritual e a reverência, não a reciprocidade ou o diálogo transparente. Na
família, a espécie se reproduz no sentido biológico e moral; a família se
organiza em torno do erotismo e do amor, não da contenção e da dúvida; sua
organização depende fundamentalmente da deferência.
Cada
uma dessas esferas não-civis cria tipos funcionais específicos de desigualdade.
Ao longo da história, os pais têm exercido poder sobre as mulheres e as
crianças dentro das famílias; proprietários e gerentes organizam, dirigem e
comandam trabalhadores na economia; políticos e burocratas exercem dominação
sobre os que não ocupam postos de mando no Estado; chefes religiosos, padres,
rabinos ou sheiks detêm uma autoridade categórica sobre os leigos em suas
congregações. Essas acumulações privilegiadas de poder podem ser consideradas
como usurpações, mas não é necessariamente assim. Não é fácil imaginar como
essas esferas não-civis poderiam funcionar com eficácia e independência se não
fossem os especialistas cuja autoridade lhes deu condições de coordenar e
comandar relações institucionais, isto é, ‘governar’. Na verdade, é possível a
existência de formas justas e legítimas de desigualdade, quando o poder sobre
os bens e os processos é dominado por pessoas de percepções diferentes e
habilidades efetivamente especializadas.
O
problema é que as acumulações privilegiadas de poder nessas outras esferas são
sistemática e rotineiramente traduzidas na linguagem da própria sociedade
civil. A mesma coisa acontece com os bens sobre os quais se fundamentam essas
acumulações. Os próprios bens possuem um carisma especial, assim como as
posições de poder que dispõem de autoridade para falar e agir em seu nome. O
dinheiro é importante não só por causa de seu poder instrumental, mas porque
sua posse representa uma conquista distinguida e respeitada na vida econômica.
O papel da graça na esfera da salvação, da autoridade patriarcal na família ou
do poder na órbita política deve ser compreendido de maneira semelhante. Mas,
em virtude desse carisma, tais atributos são representados não só como posses
valiosas adquiridas em esferas especializadas, mas também como qualidades
dotadas de significado na própria sociedade civil. A estratificação existente
nessas outras esferas se transfere para os discursos bifurcados da sociedade
civil. Ser rico, por exemplo, muitas vezes insinua virtude moral e, nessa
medida, se traduz para o discurso da liberdade. Ser pobre, por outro lado,
expõe muitas vezes a pessoa a uma degradação, a construções que a conspurcam de
várias maneiras. Num certo sentido, essa tradução não é fácil, já que envolve
complexas cadeias analógicas que atravessam diferentes códigos semióticos,
transformações metafóricas e narrativas que estabelecem relações de homologia
entre motivações, relações e instituições em diversas instâncias da vida. Em
outro sentido, a tradução é muito simples. As acumulações privilegiadas de bens
nas esferas não-civis são usadas para adquirir poder e reconhecimento na
sociedade civil, para ter acesso a seus discursos, para controlar suas
instituições e para reconstruir a representação das elites de outras esferas
como participantes ideais dos processos interativos da vida civil.
Tratarei
essas relações de fronteira como ‘inputs facilitadores’, ‘interferências
destruidoras’ e ‘reparações civis’. As tensões de fronteira entre as esferas
podem desfigurar seriamente a sociedade civil, chegando a ameaçar a
possibilidade de uma vida social verdadeiramente democrática. Esses fatores de
deturpação são interferências destruidoras; para enfrentá-las a sociedade civil
efetua reparações, procurando introduzir regulações e reformas nas esferas
não-civis. Mas essa interpenetração subsistêmica também pode se processar na
direção inversa. Alguns dos bens e formas sociais produzidos pelas outras
esferas efetivamente facilitam a concretização de uma vida social mais civil.
Teóricos e políticos conservadores, para não falar das elites das próprias
esferas não-civis, tendem a acentuar os inputs facilitadores das esferas
não-civis, no sentido de criar uma vida social positiva. Os liberais e a
esquerda radical tendem a ressaltar as interferências destruidoras que essas
interpenetrações necessariamente provocam, bem como as reparações que, por
conseguinte, precisam ser realizadas. Nenhum desses argumentos pode ser
ignorado na tentativa de explicar teoricamente a sociedade civil em geral.
Que
a esfera econômica facilita a construção de uma sociedade civil em importantes
aspectos é um fato histórico e sociológico inegável. Quando uma economia é
estruturada por mercados, há um estímulo para o comportamento independente, racional
e autocontrolado. Por isso, os primeiros pensadores do capitalismo, de
Montesquieu a Adam Smith, exaltaram as sociedades de mercado como um antídoto
seguro e civilizador para as glórias militares da vida aristocrática. Essa é
também a razão pela qual as sociedades recém-saídas do comunismo apostaram na
construção de sociedades de mercado em suas novas democracias.
Independentemente dos mercados, a própria industrialização também pode ser
vista por uma óptica positiva. Criando uma enorme oferta de bens materiais
baratos e de fácil disponibilidade, a produção em massa reduz as injustas
distinções de status que separam ricos e pobres, nas economias de recursos mais
limitados. Por intermédio do consumo, um número crescente de pessoas pode
expressar individualidade, autonomia e igualdade e, com isso, participar da
herança simbólica da vida cultural. Recursos facilitadores são também
proporcionados pela produção. Marx foi um dos primeiros a assinalar que as
formas complexas de trabalho cooperativo exigidas pelas empresas produtivas
podem ser vistas como formas de socialização, nas quais as pessoas aprendem a
respeitar e a confiarem seus parceiros na esfera civil.
Na
medida em que a economia supre a esfera civil de recursos como independência,
autodomínio, racionalidade, igualdade, auto-realização, cooperação e confiança,
as relações entre essas duas esferas transcorrem sem atritos e a diferenciação
estrutural, por sua vez, parece causar integração e individualização. Mas, todo
mundo tem certeza, exceto os mais empedernidos defensores do livre mercado, uma
economia industrializada também cria obstáculos ao projeto da sociedade civil.
Na linguagem usual das ciências sociais esses bloqueios são conhecidos como
desigualdades econômicas, divisões de classe, diferenças nas condições
habitacionais, mercados de trabalho duais, miséria e desemprego. Esses fatos
somente se cristalizam em termos sociais porque são vistos como interferências
destruidoras na esfera social. Os critérios econômicos colidem com os critérios
civis.
A
estratificação dos produtos humanos ou materiais da economia estreita e
polariza a sociedade civil. Abre um amplo espaço para a linguagem da repressão,
que conspurca e degrada o fracasso econômico. Embora não haja nenhuma relação
intrínseca entre fracassar na conquista de distinção na esfera econômica e não
corresponder às expectativas da sociedade civil — essa falta de relação é a
razão de ser da construção de uma esfera civil independente —, essa conexão é
continuamente realizada. Se uma pessoa é pobre, tende a ser vista como
irracional, dependente e preguiçosa, não só na economia, mas também na
sociedade. Em outras palavras, a relativa assimetria de recursos inerente à
vida econômica se traduz em projeções sobre a competência ou incompetência na
esfera civil. Para os que não são ricos, nem possuem bens econômicos, é muitas
vezes difícil conseguir uma comunicação satisfatória na esfera civil, fazer
valer seus direitos diante das instituições reguladoras e interagir com outras
pessoas economicamente bem-sucedidas. Por último, o poder material em si mesmo,
um poder acumulado exclusivamente na economia, quase sempre se transforma numa
fonte imediata e eficiente de demandas na sociedade civil. Embora a
profissionalização do jornalismo tenha separado a propriedade do controle dos
órgãos de imprensa, os capitalistas podem comprar os jornais, instituições
comunicativas essenciais para a sociedade civil, e alterar profundamente a
maneira como constroem o cenário social.
Contudo,
na medida em que a sociedade civil existe como uma força independente, os
atores economicamente desprivilegiados contam com uma dupla inserção. Não são
apenas os derrotados da economia; eles têm condições de reclamar respeito e
poder a partir de sua posição de membros parcialmente integrados na sociedade
civil. Apoiando-se no universalismo implícito da solidariedade na sociedade
civil, eles acreditam que essas demandas deveriam ser atendidas. Recorrem às
instituições comunicativas da sociedade civil, como os movimentos sociais que defendem
o socialismo ou simplesmente a justiça econômica, e as organizações
voluntárias, como os sindicatos, que demandam eqüidade para os assalariados. Às
vezes, lançam mão de seu espaço na sociedade civil para confrontarem
diretamente as elites e as instituições econômicas, obtendo concessões por
intermédio de negociações diretas. Outras vezes apelam às instituições
reguladoras, como a lei e as franquias, para forçar o Estado a intervir a seu
favor na vida econômica. Embora essas tentativas de reparação freqüentemente
fracassem, às vezes obtêm êxito e eles conseguem institucionalizar ‘direitos
dos trabalhadores’. Nesse caso, são os padrões da sociedade civil que
interferem diretamente na esfera econômica. Condições perigosas de trabalho são
proibidas; a discriminação nos mercados de trabalho é considerada ilegal; o
exercício discricionário da autoridade econômica é coibido; controla-se o
desemprego, e os demitidos passam a receber tratamento compensatório; a própria
riqueza é redistribuída segundo critérios antitéticos aos estritamente
econômicos.
Em
diferentes épocas e de diferentes maneiras, cada uma das esferas não-civis
também contribuiu para corroer as bases da sociedade, principalmente ao se
combinarem com as segmentações temporais e espaciais. A imagem de judeus e
protestantes nos países católicos foi muitas vezes construída como a de grupos
incivilizados aos quais se recusou a plena participação na vida social. Durante
a maior parte da história das sociedades civis, o poder patriarcal na família
se traduziu diretamente na falta de status civil da mulher. O poder da ciência
e da técnica se transferiu para os especialistas e excluiu as pessoas comuns da
participação integral em discussões vitais acerca da sociedade civil. As
oligarquias políticas, seja nas organizações privadas seja nos governos
nacionais, se utilizaram da dissimulação e da manipulação para privar os
membros da sociedade civil do acesso à informação a respeito de muitas decisões
cruciais que afetam sua vida coletiva.
Ao
longo da história ocidental, essas interferências têm se revelado tão
destruidoras que os movimentos sociais organizados em torno da questão da
reparação, e os analistas que formulam suas demandas, se convenceram de que
esses bloqueios são inerentes à própria sociedade civil. Os socialistas
argumentaram que a sociedade civil é essencial e irrecuperavelmente burguesa,
que enquanto houver mercados e propriedade privada os participantes da ordem
econômica jamais serão tratados com respeito e igualitarismo. As feministas
radicais alegam que as sociedades civis são essencialmente patriarcais, que a
própria idéia de uma sociedade civil dificilmente se realizará numa sociedade
em que as famílias deixem os homens dominar as mulheres. Os sionistas afirmam
que as sociedades européias são fundamentalmente anti-semitas. Os nacionalistas
negros declararam que o racismo é um fato essencial e que os negros serão
sempre excluídos da esfera civil nas sociedades colonizadas por brancos.
Diante
desses argumentos, os intelectuais radicais, e muitos de seus seguidores,
preferiram se abster de tomar posição. Defenderam a construção de um tipo
completamente diferente de sociedade, na qual a natureza incivil das esferas
que fazem fronteira com a sociedade civil fosse fundamentalmente modificada. Às
vezes essas demandas revolucionárias, e as tentativas reacionárias de
contê-las, acabaram destruindo as sociedades civis. Na medida em que os regimes
nacionalistas conseguiram institucionalizar uma verdadeira autonomia de seus
domínios, o efeito dessas demandas não foi a revolução, mas grandes reformas.
As tentativas revolucionárias geralmente fracassaram, mas os argumentos que
propunham acabaram por expandir de modo significativo a sociedade civil. O
resultado, mais do que a solução, tem sido uma integração gradual mas autêntica
de grupos anteriormente excluídos. Se essa inclusão não é total, é bem
significativa.
Na
medida em que a sociedade civil contém um certo grau de institucionalização, os
problemas econômicos, políticos e religiosos não são tratados como meros
dilemas surgidos no interior dessas esferas, mas como problemas de ‘nossa
sociedade’. Tanto os formuladores das demandas quanto seus destinatários
encaram esses problemas como deficiências da própria sociedade civil, como
forças que ameaçam sua coesão, sua integridade, seus princípios morais e sua
liberdade. Isso acontece principalmente porque a estratificação funcional da
sociedade civil freqüentemente se funde com a estratificação provocada pela sua
concretização no tempo e no espaço. Problemas funcionais se somam a questões
primordiais acerca das qualidades decorrentes de raça, língua, região, época da
imigração e lealdade à própria nação. Essa combinação torna ainda mais provável
que os diferentes tipos de conflito — funcional, espacial e temporal — sejam
vistos basicamente como demandas de inclusão na sociedade civil. Nessas
condições, a inclusão se torna um fim em si mesmo, não um simples instrumento
de reparação. Os conflitos se tornam lutas para obter identidade e
reconhecimento social, para reparar as fragmentações e distorções da própria
sociedade civil.
NOTAS
* Este texto corresponde a uma versão preliminar do capítulo que será o
conclusivo no próximo livro de Jeffrey Alexander, provisoriamente intitulado The
Possibility of Justice: A Sociological Theory of Civil Society.
Tradução de Vera Pereira