O VIL METAL

O dinheiro na música popular brasileira

 

Ruben George Oliven

 

O samba nasce cantando o dinheiro. A primeira composição registrada com esse nome, o célebre Pelo Telefone, lançado em 1917, em uma de suas versões mencionava a ordem transmitida ao telefone pelo chefe da polícia do Rio de Janeiro para que os delegados acabassem com a jogatina nos clubes do centro da cidade. Na versão ‘popular’, os primeiros versos da composição satirizavam o fato de que, em pleno Largo da Carioca, se jogava roleta sem que a polícia tomasse qualquer providência (Sodré, 1979, p. 54): “O chefe da polícia / Pelo telefone / Mandou me avisar / Que na Carioca / Tem uma roleta / Pra se jogar”.

 

Além da alusão ao dinheiro, feita pela menção ao jogo, há dois elementos de modernidade no primeiro samba. O primeiro é sua referência explícita ao telefone, que naquela época era um símbolo de progresso tecnológico. O segundo está ligado às inúmeras polêmicas quanto à autoria de Pelo Telefone e ao fato de Donga, apesar de se apropriar do trabalho de outros, ter tido a esperteza de registrar a música e a letra na Biblioteca Nacional, o que equivalia a tirar patente de um invento. Até então, a preocupação com o direito autoral não existia, e muitas vezes a criação musical era coletiva e anônima. Desse modo, o samba já surge sob o signo do dinheiro, da tecnologia e do mercado, no começo da formação de uma sociedade urbano-industrial e de uma incipiente indústria cultural, que começava a se constituir com a gravação de discos e, a partir de 1923, com o desenvolvimento do rádio.

 

Afirma-se que Sinhô, o ‘Rei do Samba’, participou da composição dessa música, mas, embora mencionado na letra, ele não consta entre seus autores (Alencar, 1981). Um dos lugares freqüentados por Sinhô era a famosa casa de Tia Ciata, baiana que congregava músicos do começo do século no Rio de Janeiro. Lá foi composto Pelo Telefone e foi lá também que Sinhô descobriu que “fazer samba podia dar dinheiro, prestígio e até boas polêmicas, três coisas muito do seu agrado. [...] Seus temas preferidos eram a crônica do cotidiano e as histórias de amor, com ênfase especial nos assuntos ‘dinheiro’ e ‘mulher’, suas principais preocupações na vida real” (Severiano, 1988).

 

A exclusão de Sinhô da autoria de Pelo Telefone teria motivado seu afastamento do grupo que se reunia na casa de Tia Ciata e as polêmicas que travou com o grupo dos compositores ‘baianos’ do Rio de Janeiro. Em 1918 ele lançou Quem São Eles, seu primeiro sucesso de carnaval, que gerou uma polêmica com os músicos ‘baianos’ do Rio de Janeiro. (1) Uma das estrofes diz: “Não precisa pedir / Que eu vou dar / Dinheiro não tenho / Mas vou roubar”.

 

Nessa canção o tema do dinheiro aparece de passagem, intercalado no meio de outros motivos, como se se tratasse de algo menor. O sujeito não tem dinheiro e, para consegui-lo, não vai utilizar o trabalho, considerado indigno, mas o roubo. (2) Ele se apresenta como desligado das preocupações materiais, ao passo que deixa implícito ser uma mulher quem lhe pede dinheiro e que ela não é indiferente às questões financeiras.

 

O Pé de Anjo, marcha carnavalesca gravada em 1920, foi um dos maiores sucessos de Sinhô. Nela, além de prosseguir a polêmica com seus desafetos,(3) o ‘Rei do Samba’ trata da mulher e do dinheiro em uma das estrofes: “A mulher e a galinha/ São dois bichos interesseiros: / A galinha pelo milho / E a mulher pelo dinheiro”.

 

A mulher, comparada à galinha que está sempre bicando, é vista como uma criatura interesseira e consumidora de dinheiro. Fica já presente a idéia de que, enquanto o homem está acima dos interesses materiais, a mulher está constantemente trazendo à baila o dinheiro, esse tema tão ignóbil. Xisto Bahia, um dos precursores da música popular brasileira concluía Isto É Bom, marcha composta em 1880 para uma revista de teatro, dizendo: “Quem quiser ter coisa boa / Não tenha amor ao dinheiro”.

Na marcha Amor sem Dinheiro, grande êxito do carnaval de 1926, Sinhô discute a relação entre dinheiro e amor, mostrando a impossibilidade de viver plenamente o último sem condições financeiras adequadas:

 

Amor, amor

Amor, sem dinheiro, meu bem

Não tem valor

 

Amor sem dinheiro

É fogo de palha

É casa sem dono

Em que mora a canalha

 

Amor, amor [...]

 

Amor sem dinheiro

É flor que murchou

São quadras sem rima

 

Me leva que eu vou

 

Amor, amor [...]

 

Amor sem dinheiro

É cana sem caldo

É sapo no brejo

Que canta cansado

 

Tem Papagaio no Poleiro, samba carnavalesco de Sinhô, também de 1926, pode ser visto como continuação da composição:

 

Ai amor!

Ai amor!

Os teus carinhos

Têm meiguices

De uma flor

 

O amor é muito bom

Enquanto a gente tem dinheiro

Se findar esta moeda

Tem papagaio no poleiro

 

No barraco da saudade

Fui morar com meu benzinho

A moeda se acabou

E eu fiquei falando sozinho

 

Em Viva a Penha, composto em 1926, Sinhô também aborda a relação entre o amor e o dinheiro:

 

E viva a Penha! E viva a Penha!

De amores estou farto

Quem tiver dinheiro venha

 

Isto é promessa que eu fiz à Santa

Pois o dinheiro tudo suplanta

 

Querer ser rico já é mania

Que toda a gente tem simpatia

 

As três canções são claras ao argumentar que o amor necessita de uma base financeira, sem a qual não passa de ‘fogo de palha’. A segunda composição afirma ainda que, se não for capaz de levar dinheiro para casa, o homem acaba sendo abandonado pela mulher. A letra ressalta, assim, que ao homem corresponde o papel social de provedor do lar e que a mulher é potencialmente uma traidora, disposta a aproveitar o descumprimento das obrigações financeiras de seu companheiro para abandoná-lo. A terceira composição é enfática ao afirmar que “o dinheiro tudo suplanta”, assinalando que as pessoas estão cada vez mais interessadas em enriquecer.

 

É interessante, entretanto, que o mesmo Sinhô tenha lançado em 1928 um samba de partido alto, Que Vale a Nota sem o Carinho da Mulher, que vai no sentido oposto aos três anteriores, pois na primeira estrofe ele proclama a supremacia do amor sobre o dinheiro: “Amor! Amor! / Não é para quem quer / De que vale a nota, meu bem / Sem o puro carinho da mulher? / (quando ela quer)”.

 

O título resume o significado da canção. Ela ressalta que o amor vale muito mais que o dinheiro e que este nada pode sem o carinho da mulher. Na época, essa é uma tensão constante nas músicas que tratam de dinheiro. Por um lado, todos sabem que numa sociedade cada vez mais mercantilizada, como a brasileira daquele período, é preciso dinheiro para conseguir as coisas que se deseja. Porém, como é difícil para o pobre ganhar o suficiente com seu trabalho, há uma espécie de mentalidade de ‘desprezo pelas uvas verdes’, que se traduz em afirmar que o afeto é muito mais importante que a riqueza. Essa contradição aparece, às vezes, em músicas de um mesmo compositor, como Sinhô.

 

O que se observa em composições do começo do século são a simultaneidade da noção da crescente importância do dinheiro e a proposta de soluções afetivas e mágicas que minimizam sua escassez. É o caso do samba carnavalesco É Canja (Sá Miguelina), de 1926, com letra de Alfredo Breda e música de Pedro de Sá Pereira:

 

I

Sá Miguelina

Não me toque no chocalho

Que me quebro e me escangalho

E não posso mais sambar

 

É do que há

Nesta vida encaroçada

Vive o povo na enrascada

Sem poder nem se queixar

 

Sem o dinheiro Com o amor tudo se arranja É canja! É canja!

 

II

O .câmbio sobe

E o povo gosta da subida

Mas o preço da comida

Não há meio de baixar

Agüenta firme

Cara alegre, pessoal

Que chegando o carnaval

Há dinheiro para gastar

 

Sá Miguelina Não se passa pra laranja É canja! É canja!

 

O tema do carnaval e do dinheiro também está presente no samba carnavalesco de 1921 Quem Paga o Pato?, de J. Pinheiro Jr.:

 

O carnaval é quem nos faz estontear

De não olharmos ainda mesmo a carestia

E raros são os que deixam de brincar

Aproveitando essas horas de folia

 

E o senhorio, mesmo o padeiro,

Podem esperar mais alguns dias,

Até ‘cavarmos’ o seu dinheiro,

Que consumimos com as alegrias

 

E o comércio vai vendendo o artefato

E as garagens vão ganhando o seu cobrinho

No fim das contas quem marchou, pagando o pato

Fui eu, foi ele, fomos nós, o Zé-Povinho

 

Gozar! Gozar! é o nosso fito,

Deixando as dívidas por pagar,

E, quanto a isto! leva um pito...

Pois ajuntamos pra gastar

 

Como é então que não há dinheiro pro mastigo

Famílias há que todo dia vão ao cinema

Tudo está caro, que horror! — isso é castigo

E o que se ouve desde o subúrbio de Ipanema

 

Se há miséria, pra que bufamas

Tratam de evitar despesa tal

Mas desde já vos avisamos

Que não façam isso com o CARNAVAL

 

A composição critica o hedonismo do carnaval, que faz esquecer a miséria do dia-a-dia e acaba por mostrar que quem paga a conta é o povo. O carnaval evidencia a necessidade de dinheiro, não para fazer frente a apertos financeiros, mas para gozar a vida, como atesta a marchinha carnavalesca de 1927 Cadê o Dinheiro, com letra de Américo F. Guimarães e música de Arnaldo de Vasconcellos (Gigi):

 

I

Chegou a farra

E a loucura sem igual

São só três dias, que nos dá o Carnaval

E num batuque

Bem gostoso de arrelia

Todos caem na folia

 

Estribilho

Sinhá Dondoca

Tu me responde

Mas não venha com potoca

Cadê o dinheiro

Que eu botei na prateleira

Eu já tirei, pra gastar na brincadeira

 

II

E vai a garra

O açougue e a padaria

E todo mundo, que for tolo em me fiar;

O meu dinheiro

Eu só gasto na folia

E nem me lembro de pagar

 

A idéia é de o dinheiro comandar o princípio do prazer. A mulher comparece, lembrando o princípio da realidade, na medida em que procura esconder o dinheiro que vai ser esbanjado, pois há credores que devem ser pagos. Mas estes, como o açougueiro e o padeiro, responsáveis pela sobrevivência do narrador, são descritos como tolos que não serão ressarcidos e que acabarão ‘pagando o pato’.

 

Nas composições dessa época, o dinheiro é cada vez mais associado à figura da mulher. (4) Ela pode ser tanto a Emília ou a Amélia (imortalizadas no começo da década de 40 nos sambas, respectivamente, de Wilson Batista e Haroldo Lobo e de Mário Lago e Ataulfo Alves), que não se queixam e eventualmente sustentam o malandro, quanto a dona de casa que está sempre apontando para o marido a necessidade de trabalhar e trazer dinheiro para casa. Pode também ser a piranha que finge amar ao homem, mas que no fundo só quer lhe tirar o dinheiro.

 

Entramos aqui no terreno das expectativas e das queixas entre homens e mulheres, que são abundantes nas composições desse período. Estas retratam tanto o ponto de vista masculino como o feminino (visto através da imaginação dos homens, já que eles são a absoluta maioria dos compositores). Na medida em que os relacionamentos afetivos são feitos de expectativas, estamos sempre diante de uma tensão entre o que se espera ou se pede ao sexo oposto e o que se obtém dele. Também estão sempre presentes o que se fez para atender a expectativa do outro e a gratidão ou ingratidão que isso gerou. A música popular desse período reflete esse mundo de expectativas e queixas, num registro ora humorístico, ora ressentido.

 

Há uma série de composições do período que trata das boas intenções do homem que gostaria de casar, mas que utiliza a desculpa da falta de dinheiro para não se comprometer.(5) É o que se canta em Se o Dinheiro Chegasse, samba de Antônio de Almeida e Alberto Ribeiro, lançado em 1942:

 

Se o dinheiro chegasse

Se papai não zangasse

Eu fazia um banzé

Porém me casava

Com toda mulher, ué..., pois é

 

Mas meu dinheiro é tão pouco

E por isso ninguém me quer

Eu assim acabo louco

Pois não ganho pro café

Ai, se o dinheiro chegasse

Eu casava, eu casava

Com toda mulher!

 

Ué, pois é

Mas se o dinheiro chegasse

E papai não zangasse

 

O sujeito da canção afirma que tem imensa vontade de casar, porém o dinheiro é insuficiente. Fica evidente uma disponibilidade de carinho não-correspondido, traduzido na idéia de casar com todas as mulheres, e uma escassez de recursos financeiros para concretizar essa energia afetiva, fatores que fazem com que ninguém queira o narrador.

 

A figura do homem que se deixa sustentar pela mulher também é um tema central das composições da época. É o que ocorre em Dinheiro Não Tem Valor, samba do carnaval de 1926, com versos e música de N. Sá Rego (Yôyô):

 

 

Solo

Oh! Mulher, quem foi que disse,

Que eu não gosto de você,

É intriga que estão fazendo

Pra você se aborrecer

 

Coro

O dinheiro não tem valor

Quando entre dois existe amor

 

Solo

Andam por aí dizendo

Que você me deu um terno

É inveja que eles têm

Pois não sabem ser ‘moderno’

 

Coro

O dinheiro não tem valor [...]

 

Solo

Oh mulher tu anda errada,

Por querer tudo acabar

Pois talvez não aches outro

Que te saiba apreciar

 

Coro

O dinheiro não tem valor [...]

 

O argumento da supremacia do amor sobre o dinheiro é aqui utilizado para justificar o achaque. Além de frisar que o dinheiro não tem valor e pedir para não ser abandonado, o sujeito introduz uma fantasia de ‘modernidade’, associada à idéia de a mulher sustentar o homem.

 

Em É o que Ele Quer, composição de Oswaldo Santiago e Paulo Barbosa, de 1938, aparece a imagem que a mulher teria do sonho masculino:

 

Boa casa e boa roupa

E comida de mulher

É o que ele quer

É o que ele quer

 

Uma vida de orgia

Com o dinheiro da mulher

É o que ele quer

É o que ele quer

 

Isso é demais

Não pode ser

Quem não trabalha

Não deve viver

Esse rapaz chega a querer

Que eu mastigue

Pra ele comer

 

Há casos em que o registro denota uma cobrança da ingratidão. Amanhã Eu Dou, samba de Assis Valente, de 1942, assume o eu do enunciado feminino:

 

Empresta...

Que amanhã eu dou

Empresta...

Que amanhã eu pago

Juro que amanhã eu dou

Prometo

No duro que amanhã eu trago

 

Vendi meu estandarte de cetim

Lembrança que no samba conquistei

Em vez de comprar coisas para mim

O meu dinheiro eu lhe emprestei

 

Até já tenho medo de você

E venho lhe dizer aqui pra nós:

Um dia você vai me aparecer

E me pedir até a minha voz

 

Empresta, meu bem...

Que amanhã eu dou

Empresta, meu bem...

Que amanhã eu pago

 

O sujeito da composição é uma mulher, que na primeira estrofe imita um homem cuja conversa anteriormente se caracterizava por lhe pedir dinheiro emprestado, prometendo que devolveria logo. A fala masculina é toda feita de sedução, pedidos, súplicas e, acima de tudo, de juras e promessas. No entanto é falsa, pois a mulher, depois de ter embarcado na conversa masculina, se sente roubada, como se depreende da segunda estrofe, na qual se manifesta a mulher (como é vista pelo compositor masculino, é claro). O que ela conta é que acabou vendendo a lembrança que conquistou quando foi porta-bandeira de uma escola de samba (o estandarte de cetim) e que, em vez de comprar coisas para si, emprestou o dinheiro ao homem — que obviamente não o devolveu. No final, quando ela já não tem mais ilusões, o homem é apresentado como um elemento predador que não hesitaria em pedir a uma cantora o que ela tem de mais precioso: sua voz.

 

Se existe um rosário de queixas femininas, há também a fantasia masculina do tipo ideal de mulher. É o caso de O Meu Amor Tem, samba de André Filho gravado em 1930, cujo narrador é uma mulher:

 

O meu amor tem, tem, tem

Tudo o que ele quer, meu bem

Pois tem casa e comida,

Tem roupa lavada,

Dinheiro e mulher

Pois até

 

Tu ficas em casa

E eu vou pra rua trabalhar

Tu és o meu homem do peito

Não podes te amofinar

 

Tu não és mau

És bom demais e eu confesso

Que se me dás tanta pancada

É porque eu gosto e até te peço

 

O meu amor [...]

[...]

 

Temos aqui uma situação em que o homem fica em casa e a mulher vai à luta na rua, numa inversão dos papéis sexuais tradicionais. A mulher, ainda por cima, é apresentada como gostando de apanhar e achando natural esse estado de coisas.

 

Em Tens de Compreender, samba de Antônio Nássara, de 1935, temos a idealização de uma mulher que não se importa com o fato de seu homem não ganhar dinheiro, pois o ama:

 

Tens de compreender

O quanto vale uma mulher

Eu fico do teu lado

Pro que der e vier

 

Pois eu bem sei

Que andas muito mal de vida

Que não defendes o dinheiro da comida

Mas tu és do meu agrado

Eu passo fome do teu lado!

 

Recebi muita proposta

De chatô bem mobiliado

Mas só tive uma resposta:

Não senhor, muito obrigado!

 

Contigo eu não me lamento

Posso até ficar mais feia

Bebendo sopa de vento, oi

Comendo, comendo pirão de areia!

 

Uma fantasia mais delirante ainda está presente em Por Amor a Este Branco, samba de Custódio de Mesquita, de 1933:

 

Vocês todas têm cantado

Os mulatos de vocês

Agora eu vou cantar o meu branco

Já chegou a sua vez

 

Ai, o meu branco

Tem um terno frajola

Tem a nota no banco

E vive dando bola

No meio da malandragem

Ninguém lhe leva vantagem

Pois quem garante sou eu!

 

Pudera...

Pois se eu me sacrifico

Por amor a este branco

(Nem queiram saber como é que eu fico)

Eu ando me acabando

Mas o meu amô luxando

Eu me sinto satisfeita

(E a minha vida endireita)

 

Aqui a mulher se gaba de seu branco que se veste elegantemente e não trabalha. É ela quem garante a sobrevivência desse homem tão maravilhoso, sacrificando-se por ele. Em Meu Defeito, samba de Antenógenes Silva e Miguel Lima, de 1945, o personagem consegue reunir o que há de melhor na vida:

 

Eu reconheço meu grande defeito

Mas não há jeito

O destino é quem quer

Eu enloqueço se vejo dinheiro

De tudo esqueço se vejo mulher

Mulher e gaita quem é que não quer

Eu reconheço

 

Quero a Isaura

Para me fazer um carinho

Eu quero a Laura para me dar cafuné

Quero Amélia pra tomar conta da casa

E a Emília para fazer o meu café

Se elas todas combinarem vai ser pra mim

De colher (ora se vai)

Eu reconheço

 

O narrador presta homenagem a mulheres de composições clássicas (como Isaura, de Herivelto Martins e Roberto Roberti, Ai que Saudades da Amélia, de Mário Lago e Ataulfo Alves, e Emília, de Wilson Batista e Haroldo Lobo) e afirma que deseja ter todas; além, é claro, de ter dinheiro...

 

O aspecto mais descarado dessas canções está no homem que imagina ter direito de não trabalhar, ser sustentado pela mulher e ainda bater nela. Tudo isso pode dar a impressão de que estes homens se sentem muito fortes. Mas um outro aspecto implícito sugere que no fundo eles se consideram criaturas frágeis, incapazes de cuidar de si, e por isto precisam de uma mulher que atenda suas necessidades e tome conta deles. Isto fica aparente no fato de as mulheres serem retratadas como perigosas, o que se revela em uma série de fantasias negativas sobre elas. Uma dessas fantasias é que uma mulher custa caro, como lembra uma personagem em Benzinho, samba de Ary Barroso, de 1931:

 

Benzinho, benzinho...

Que é que tu me podes dar

Se eu quiser te namorar?

 

Uma casa pra morar

Baratinha pra guiar

Vestidinhos de cetim

Ó meu bem

Jóias também

Um passeio a Lambari

Bonequinhas de ‘biscuit’

Quinze ou vinte

Chapéus caros, filhinho

E um bom vinho

 

Tudo isso sem falar

No dinheiro pra gastar

Eu sou chic

Sou da ‘alta’, meu bem

E luxo também

Nada peço exagerado

Não vás ficar assombrado

A mulher agora em dia, fiteiro

Custa dinheiro

 

A narradora é uma mulher que se assume como exigente e que deixa claro que custa caro. Mas sempre é arriscado dar dinheiro à mulher, que corre o risco de deixar que isso lhe suba à cabeça. É o que se canta em Pobre e Esfarrapada, samba de Ary Barroso, de 1931, que descreve a ingratidão feminina:

 

E eu te conheci muito pobre e esfarrapada

Mas não te disse nada

Só para não te aborrecer

E com sacrifício arranjei a tua vida

Ficaste convencida

Vejam só o que eu fui fazer, fazer

 

O meu dinheiro eu gastava

Só pra te ver bem bonita

Com teus vestidos compridos de chita

E o nosso amor continuava

 

Já tinha feito projeto

Ias morar no meu teto

Nunca podia de leve supor

Que és tão cruel para o nosso amor

 

E eu [...]

 

Hoje tu passas dengosa

Perto de mim toda prosa

Como quem diz “olha o trouxa, coitado”

Mas teu destino está traçado

Hei de te ver algum dia

Só, sem ninguém, sem amor

E com sorriso nos lábios

Direi “já se acabou a minha dor”

 

Há na época um tema recorrente, que é o interesse da mulher pelo dinheiro e as pressões que ela exerce sobre o homem para que ele o consiga. A resposta do homem invariavelmente é que ele vai conseguir algum, mas isso é secundário diante do afeto que tem para oferecer. Isso fica claro em Dinheiro Não Há, de Benedito Lacerda e H. Alvarenga:

 

Lá vem ela chorando

O que é que ela quer?

Pancada não é

 

Já sei

Mulher da orgia

Quando começa a chorar

Quer dinheiro

Dinheiro não há

Não há

 

Carinho eu tenho demais

Pra vender e pra dar

Pancada também não há de faltar

Dinheiro, isto não

Eu não dou à mulher

 

Mas prometo na terra,

O céu e as estrelas

Se ela quiser

Mas dinheiro não há

 

A música afirma claramente a escassez do dinheiro (explicitada já no título) e a abundância do carinho que pode se manifestar inclusive pela agressão física, como em várias outras músicas da época. A mulher (da orgia, neste caso) é vista como sempre querendo dinheiro, quando o homem tem algo muito melhor para lhe oferecer.

 

Há registros mais amargos da associação dinheiro/mulher. Isto aparece com clareza no samba Caixa Econômica, de Orestes Barbosa e Antônio Nássara, gravado em 1933:

 

Você quer comprar o seu sossego

Me vendo morrer num emprego

Pra depois então gozar

Esta vida é muito cômica

Eu não sou Caixa Econômica

Que tem juros a ganhar

E você quer comprar o que, hem?

 

Você diz que eu sou moleque

Porque não vou trabalhar

Eu não sou livro de cheque

Pra você ir descontar

Se você vive tranqüila

Sempre fazendo chiquê

Sempre na primeira fila

Me fazendo de guichê

E você quer comprar o que, hem?

 

Meu avô morreu na luta

E meu pai, pobre coitado

Fatigou-se na labuta

Por isso eu nasci cansado

E pra falar com justiça

Eu declaro aos empregados

Ter em mim esta preguiça

Herança de antepassados

 

A mulher é o elemento propulsor do enredo desse samba. Ela acusa o narrador de ser moleque por não trabalhar, enquanto ele se defende em dois níveis. Primeiro, argumentando que o trabalho é inútil para as classes trabalhadoras (“Meu avô morreu na luta / E meu pai, pobre coitado / Fatigou-se na labuta”). A preguiça é erigida em traço hereditário, pelo qual não é responsável, e que se manifesta já por ocasião do nascimento (“Por isso eu nasci cansado [...] / Herança de meus antepassados”). O segundo nível da defesa é um contra-ataque, expresso na acusação de que a mulher é uma consumidora insaciável (“Sempre fazendo chiquê”) e tem um caráter predador (“Eu não sou livro de cheque / Pra você ir descontar”), na medida em que deseja obter estabilidade (“Você quer comprar o seu sossego / Me vendo morrer num emprego”) por meio do ingresso do homem no mundo da ordem, representado pelo trabalho assalariado. O homem também rejeita qualquer associação entre sua pessoa e tudo que lembre dinheiro (“Eu não sou Caixa Econômica / Que tem juros a ganhar” e “Eu não sou livro de cheque”).

 

Tristezas Não Pagam Dívidas, lançado em 1932 por Ismael Silva, relaciona a mulher com o dinheiro, assinalando que este está presente no dia-a-dia e não pode ser compensado com afetos:

 

Tristezas não pagam dívidas

Não adianta chorar

Deve se dar o desprezo

A toda mulher que não sabe amar

 

O homem deve saber

Conhecer o seu valor

Não fazer como o Inácio

Que levou muito tempo

Bancando o Estácio

 

Tristezas não pagam [...]

 

Nunca se deixa a mulher

Fazer o que ela entender

Porque ninguém deve chorar

Só por causa do amor

E nem se lastimar

Por causa disto eu não vou me derrotar

 

Tristezas não pagam [...]

 

A canção diz que o homem deve esquecer o afeto (por culpa da mulher que não sabe amar) e cuidar das obrigações, como as dívidas, que não podem ser saldadas com tristezas decorrentes de mágoas de amores não-correspondidos. Não se trata de uma opção de inserção no mundo financeiro. Ao contrário, o tom é de grande mágoa de alguém que culpa a mulher por ter de se envolver com coisas tão ignóbeis como o vil metal. Em vez de desprezar o dinheiro, o narrador decide desprezar a mulher que o simboliza. Apesar de dizer que não vai se deixar vencer, o tom da canção é obviamente de derrota .

 

O dilema afeto versus dinheiro é uma constante nesse período. À semelhança da década de 20, várias músicas da década de 30 frisam que o amor é muito mais importante que o dinheiro e que este não traz felicidade. É melhor ser pobre, porém feliz, do que rico e infeliz. É o que se depreende do samba de Benedito Lacerda e Herivelto Martins, E o Vento Levou, homônimo do célebre filme norte-americano:

 

Onde está o dinheiro?

O vento levou...

Suas jóias, sua casa?

O vento levou...

E a mulher que você tinha?

Bateu asas e voou...

Tudo que eu possuía

O vento levou...

 

Já fui rico, já fui nobre

Fui grã-fino e gastador

Todos me cumprimentavam assim:

 Olá, seu doutor

Até esse apelido o vento levou...

 

Onde está [...]

 

Quem já foi um milionário

Quem já teve e hoje não tem

Onde eu passo

Todos gritam assim:

Olá, João-Ninguém

Qualquer dia a ventania

Me leva também

 

Onde está [...]

 

A canção mostra o quanto o rico é bajulado e como é abandonado se perder a fortuna. Ser rico sempre envolve o risco de perder tudo e sofrer. Por isto, alguns compositores fazem uma crítica mais radical ao dinheiro. É o caso de Wilson Batista. Na célebre polêmica que ele e Noel Rosa travaram na década de 30, este o criticou justamente pelo seu lado mais malandro (Oliven, 1982.). Em Lenço no Pescoço, Wilson dizia textualmente “eu me orgulho de ser tão vadio”, assumindo sua recusa ao trabalho. Pouco antes de morrer, em 1968, ele compôs com José Batista Meu Mundo É Hoje (Eu Sou Assim), que é quase um testamento de sua filosofia de vida:

 

Eu sou assim

 

Quem quiser gostar de mim

Eu sou assim

Meu mundo é hoje

Não existe amanhã pra mim

Eu sou assim

Assim morrerei um dia

Não levarei arrependimento

Nem o peso da hipocrisia

 

Tenho pena daqueles

Que se agacham até ao chão

Enganando a si mesmos

Por dinheiro ou posição

Nunca tomei parte

Neste enorme batalhão

Pois sei que além das flores

Nada mais vai ao caixão

 

O título da composição resume a idéia de que a vida deve ser gozada no presente e que dela nada se leva, a não ser o que se viveu. Tudo isso é assumido com tranqüilidade. Há uma crítica àqueles que se submetem a humilhações por causa de dinheiro ou de cargos.

 

Porém, quem mais desenvolveu a crítica ao dinheiro foi Noel Rosa. Cedo ele se deu conta de que o dinheiro era uma realidade que permeava a vida de todos nas grandes cidades brasileiras. Em entrevista concedida ao jornal O Globo em 31/12/32 ele deixa isto claro: “Antes, a palavra samba tinha um único significado: mulher [...]. Agora, o malandro se preocupa no seu samba quase tanto com o dinheiro como com a mulher [...] afinal, são as únicas coisas sérias deste mundo”.

 

A posição de Noel está claramente sintetizada em Fita Amarela, samba dele e de Vadico gravado em 1933:

 

Quando eu morrer

Não quero choro nem vela

Quero uma fita amarela

Gravada com o nome dela

 

Se existe alma

Se há outra encarnação

Eu queria que a mulata

Sapateasse no meu caixão

 

Quando eu morrer [...]

 

Não quero flores

Nem coroa com espinho

Só quero choro de flauta

Violão e cavaquinho

 

Quando eu morrer [...]

 

Não tenho herdeiros

Nem possuo um só vintém

Eu vivi devendo a todos

Mas não paguei a ninguém

 

Quando eu morrer [...]

 

Meus inimigos

Que hoje falam mal de mim

Vão dizer que nunca viram

Uma pessoa tão boa assim

 

A composição revela toda uma filosofia calcada no descompromisso com o lado solene da vida (ou da morte) e denuncia a hipocrisia ligada ao culto das virtudes do defunto. Mas essa filosofia está contida acima de tudo na fugacidade da vida e no jeito ‘maneiro’ com que ela deve ser levada. Da vida nada se leva e nela nada se deixa. Por isso, o que vale não é o choro dos que ficam, mas o som da música e a delícia de uma mulata que sapateia em cima do caixão. E nada de levar os compromissos financeiros excessivamente a sério. Filosofia é o nome de uma composição clássica composta por Noel em 1933:

 

O mundo me condena

E ninguém tem pena

Falando sempre mal de meu nome

Deixando de saber

Se eu vou morrer de sede

Ou se eu vou morrer de fome

Mas a filosofia

Hoje me auxilia

A viver indiferente, assim

Nessa prontidão sem fim

Vou fingindo que sou rico

Pra ninguém zombar de mim

 

Não me incomodo

Que você diga

Que a sociedade é minha inimiga

Vou cantando neste mundo

Sendo escravo do meu samba

Muito embora vagabundo

 

Quanto a você

Da aristocracia

Que tem dinheiro

Mas não compra alegria

Há de viver eternamente

Sendo escrava desta gente

Que cultiva a hipocrisia

 

A filosofia da canção consiste em ser indiferente à ‘prontidão’, isto é, à falta de dinheiro. As dificuldades que essa situação acarreta e as críticas que a sociedade faz ao compositor são plenamente compensadas pelo fato de ele não precisar ser hipócrita como a aristocrata, a quem a música é endereçada, que “tem dinheiro mas não compra alegria”.

 

Várias das composições de Noel evidenciam desdém em relação ao dinheiro, como pode se ver nas primeiras estrofes de Malandro Medroso, composto em 1930: “Eu devo, não quero negar / Mas te pagarei, quando puder / Se o jogo permitir / Se a polícia consentir / E se Deus quiser”.

 

A atitude é típica do malandro que não vai se sujeitar às frias regras do mercado financeiro, porque seu mundo passa por outros valores e variáveis como o jogo, a polícia etc. Algo semelhante se nota em Que Se Dane, de 1932:

 

Vivo contente embora esteja na miséria

Que se dane! Que se dane!

Com essa crise levo a vida na pilhéria

 

Que se dane! Que se dane!

Não amola! Não amola!

Não deixo o samba

Porque o samba me consola

 

Fui despejado em minha casa no Caju

Que se dane! Que se dane!

O prestamista levou tudo e fiquei nu

 

Que se dane! [...]

 

Fui processado por andar na vadiagem

Que se dane! Que se dane!

Mas me soltaram pelo meio da viagem

 

Que se dane! [...]

 

O tom é de desprezo, do tipo ‘ralado mas contente’. O samba é um elemento que consola e ajuda a levar esta vida tão dura de um mundo dominado pelo dinheiro. E interessante a presença do prestamista, que também comparece em outras composições do autor. E o caso da figura do judeu que aparece em Cordiais Saudações, de 1931:

 

Estimo que este maltraçado samba

Em estilo rude,

Na intimidade

Vá te encontrar gozando de saúde

Na mais completa felicidade

(Junto dos teus, confio em Deus)

 

Em vão te procurei

Notícias tuas não encontrei,

Eu hoje sinto saudades

Daqueles dez mil réis que te emprestei

Beijinhos no cachorrinho,

Muitos abraços no passarinho

Um chute na empregada

Porque já se acabou o meu carinho!

 

A vida cá em casa está horrível

Ando empenhado

Nas mãos de um judeu

O meu coração anda angustiado

Porque a minha sogra ainda não morreu

 

Sem mais, pra acabar

Um grande abraço queira aceitar

De alguém que está com fome

Atrás de algum convite pra jantar

 

Espero que notes bem:

Estou agora sem vintém

Podendo, manda-me algum

Rio, 7 de setembro de 31

 

É interessante que, embora a canção faça referência direta às dificuldades econômicas e à cobrança de uma dívida, ela não menciona uma só vez a palavra ‘dinheiro’ e conclui pedindo que lhe seja enviado ‘algum’. ‘Algum’, pronome transformado em substantivo, é a forma polida no Brasil de se referir ao dinheiro que se pede emprestado. Trata-se de um modo de denotar o ‘vil metal’ sem mencionar seu nome.

 

Nas canções de Noel a referência direta ou indireta ao dinheiro se faz com muita freqüência. (6) O quadro em geral é da penúria em que os personagens vivem “sem vela e sem vintém”, conforme cantado em Feitiço da Vila. Como Noel afirma em Coisas Nossas: “O samba, a prontidão e outras bossas / São nossas coisas / São coisas nossas”. Dois exemplos clássicos de ‘prontidão’ aparecem em Com que Roupa, de 1930, e O Orvalho Vem Caindo, de 1933: No primeiro, o ‘Compositor da Vila’ afirma “que esta vida não está sopa [...] pois o dinheiro não é fácil de ganhar”. No segundo ele diz que “se um dia passo bem, dois e três passo mal”.

 

O pano de fundo de ambas as canções é uma mistura ambivalente de miséria e desdém pela vida regrada. Fala-se de personagens que dormem ao relento, são maltrapilhos e não têm o que comer. Mesmo assim, persiste a idéia de abundância da natureza como expresso em O Orvalho Vem Caindo (“Minha terra tem banana e aipim”) aliada a uma melancólica preguiça (“Meu trabalho é achar quem descasque para mim / Vivo triste mesmo assim”). Está também claramente presente a noção de que é cada vez mais difícil ganhar dinheiro por meios mágicos.

 

Em outra composição, Quem Ri Melhor, de 1936, Noel deixa escapar que “Felicidade é o vil metal quem dá! / Honestidade ninguém sabe onde está”. Há uma consciência da crescente necessidade do dinheiro como meio para alcançar um mínimo de bem-estar, mas ele ainda é visto como algo ignóbil e ilícito. Onde Está a Honestidade é, aliás, o título de um samba de Noel, de 1933, no qual ele diz:

 

Você tem palacete reluzente

Tem jóias e criados à vontade

Sem ter nenhuma herança

Nem parente

Só anda de automóvel na cidade

E o povo já pergunta com maldade

Onde está a honestidade?

 

O seu dinheiro nasce de repente

E embora não se saiba se é verdade

Você acha nas ruas diariamente

Anéis, dinheiro e até felicidade

E o povo já pergunta com maldade

Onde está a honestidade?

Onde está a honestidade?

 

Vassoura dos salões da sociedade

Que varre o que encontrar

Em sua frente

Promove festivais de caridade

Em nome de qualquer defunto ausente

E o povo já pergunta com maldade

Onde está a honestidade?

Onde está a honestidade?

 

Há uma referência explícita à suspeita de desonestidade sugerida pelo dinheiro que surge repentinamente. É possível que a canção se refira aos que fizeram fortuna súbita com a nova situação política criada a partir da Revolução de 1930 (Chediak, 1991, vol. 1, p. 91). Em Samba da Boa Vontade, canção de Noel com música de João de Barro, lançado em 1931, está presente a política da República Nova:

 

(Campanha da Boa Vontade!)

 

Viver alegre hoje é preciso

Conserva sempre o teu sorriso

Mesmo que a vida esteja feia

E que estejas na piniba

Passando a pirão de areia

 

Gastei o teu dinheiro

 

Mas não tive compaixão

Porque tenho a certeza

Que ele volta a tua mão

E, se ele acaso não voltar

Eu te pago com sorriso

E o recibo hás de passar

(Nesta questão solução sei dar!)

 

Viver alegre hoje é preciso [...]

 

Neste Brasil tão grande

Não se deve ser mesquinho

Pois quem ganha na avareza

Sempre perde no carinho

Não admito ninharia

Pois qualquer economia

Acaba sempre em porcaria

(Minha barriga não está vazia!)

 

Viver alegre hoje é preciso [...]

 

Comparo o meu Brasil a uma criança perdulária

Que anda sem vintém

Mas tem a mãe que é milionária

E que jurou, batendo o pé

Que iremos à Europa

Num aterro de café

(Nisto, eu sempre tive fé!)

 

Viver alegre hoje é preciso [...]

 

A canção se refere aos apelos do governo revolucionário de 1930, que pedia à população que mantivesse o otimismo, mesmo ao enfrentar dificuldades. Noel satiriza a “campanha de boa vontade”. Ele começa falando da situação de penúria. A seguir caracteriza o capitalismo brasileiro em que o dinheiro acaba sempre voltando às mãos de quem o tem. Esse mesmo capitalismo é que consegue fazer o governo revolucionário jogar ao mar milhões de sacas de café ou queimá-lo para valorizar seu preço no mercado, imaginando que assim se chegará ao Primeiro Mundo, enquanto a população passa fome. No final o país é comparado a uma criança perdulária que anda sem vintém, mas tem uma mãe milionária. Está também presente a idéia que o dinheiro e o amor compõem um jogo de soma zero (“Pois quem ganha na avareza / Sempre perde no carinho”). Nas palavras de Máximo & Didier (1990, p. 170), este é “um samba que vale como uma aula de economia. Noel deixando claro o que pensa do capitalismo que acaba de se confirmar como o sistema escolhido pelos neo-republicanos para administrar o Brasil: os ricos podem gastar seu dinheiro à vontade, pois ele sempre acaba voltando às suas mãos. Um estranho país que espera alcançar o grau de desenvolvimento dos europeus atirando o seu café ao mar. E que — como pede Getúlio conservando o seu sorriso — exige de seu povo não apenas sacrifícios, mas acima de tudo boa vontade”.

 

A idéia do dinheiro como um valor que começa a perpassar todas as relações humanas pode ser detectado em Quem Dá Mais?, composto por Noel para o quadro ‘Leilão do Brasil’, da revista teatral Café com Música que estreou no Teatro Recreio em 1931:

 

Quem dá mais...

Por uma mulata que é diplomada

Em matéria de samba e de batucada

Com as qualidades de moça formosa

Fiteira, vaidosa e muito mentirosa?

 

Cinco mil réis, duzentos mil réis,

Um conto de réis!

Ninguém dá mais de um conto de réis?

O ‘Vasco’ paga o lote na batata

E em vez de barata

Oferece ao Russinho uma mulata

 

Quem dá mais...

Por um violão que toca em falsete,

Que só não tem braço, fundo e cavalete,

Pertenceu a dom Pedro, morou no palácio,

Foi posto no prego por José Bonifácio?

 

Vinte mil réis, vinte e um e quinhentos,

Cinqüenta mil réis!

Ninguém dá mais de cinqüenta mil réis?

Quem arremata o lote é o judeu,

Quem garante sou eu,

Pra vendê-lo pelo dobro no museu

 

Quem dá mais...

Por um samba feito nas regras da arte,

Só tem estribilho, nasceu no Salgueiro,

E exprime dois terços do Rio de Janeiro

 

Quem dá mais...

Quem é que dá mais de um conto de réis?

Quem dá mais? Quem dá mais?

Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três!

Quanto é que vai ganhar o leiloeiro,

Que é também brasileiro,

E em três lotes vendeu o Brasil inteiro?

 

Quem dá mais?

 

A imagem irônica aqui é de uma sociedade em que tudo está à venda, inclusive o próprio país, desde que se chegue a seu preço. Trata-se de um leilão do Brasil, como diz o nome do quadro no qual a canção foi inserida. É feito o leilão de uma mulata, um violão e um samba, três ‘riquezas’ pelas quais o país se distinguia. A mulata é arrematada pelo Vasco da Gama, time de futebol com grande concentração de portugueses, numa alusão ao fato de que continuamos sendo saqueados pelas metrópoles que nos levam nossas mais lindas mulheres. O violão, pelo qual deveria falar a ‘alma brasileira’, está desafinado e sem suas partes principais. O país é tão pobre que o instrumento que pertencera ao imperador foi empenhado pelo patriarca de nossa Independência, numa metáfora da penúria ao qual o Brasil já estava condenado. Pelo fato de ser feito no morro, o samba mostra a maior parte do Rio de Janeiro. Novamente, está presente a figura do judeu que arremata o violão. (7)

 

A associação da mulher com o dinheiro, no que ele tem de mais mesquinho, está presente em estrofes de Positivismo, que Noel compôs em co-autoria com Orestes Barbosa em 1933:

 

[...]

Vai orgulhosa querida

Mas aceita esta lição

No câmbio incerto da vida

A libra é que é o coração

[...]

Vai coração que não vibra

Com teu juro exorbitante

Transformar mais outra libra

Em dívida flutuante

[...]

 

A vida é comparada a uma operação incerta de câmbio, na qual o coração, em vez de ser responsável pelo amor e pelos afetos, é igualado à libra — na época, a moeda mais forte do sistema financeiro internacional. A mulher é retratada com um coração que executa funções completamente desvirtuadas.

 

Em Não Resta a Menor Dúvida, marcha com música de Hervê Cordovil, de 1935, Noel toca novamente no tema da mulher e do dinheiro:

 

Você é uma pequena que não resta a menor dúvida

Oh! Dúvida

E por sua causa já não pago a minha dívida

Oh! Dívida

Estou só esperando que você me leve o último tostão

Pra me dar seu coração

 

Para possuir seu coração

Darei até meu último tostão

Pelo seu amor

Serei aviador

Irei até lamber sambão!

[...]

 

A pior acusação que se pode fazer à mulher é a de ser calculista e vender seu coração, pois nessa operação ela se torna tão vil como o dinheiro. E o que ocorre em Você é das Tais, samba de Francisco Malfitano e Eratóstones Frazão, de 1937: “Eu sei que você está fazendo / Negócio com seu coração / Você é das tais com as quais / Tanto faz a gente ter carinho ou não / [...]”.

 

Dinheiro Rasgado, samba com letra e música de Armando Castro e Mário Vieira, equipara a mulher ao dinheiro, como meio circulante:

 

Mulher, você é igual ao dinheiro

Que vai pelo mundo inteiro

Passando de mão em mão

Tudo que você constrói

Você mesma destrói

Você não tem coração

Ôh, ôh oh, oh oh oh, oh oh oh

 

E assim, a vida continua

Você passa pela rua

Fingindo ser direita

Seu destino é cruel

igual dinheiro, papel

rasgado ninguém aceita

Ninguém aceita, ninguém aceita

 

Final

Ninguém aceita, não, não, ninguém aceita

 

A mulher comparece aqui igualada ao dinheiro no que ele teria de mais sujo, como mercadoria impessoal que passa de mão em mão, sendo utilizado como bem aprouver. A imagem da mulher associada ao dinheiro equivale a alguém insensível, degradado e impuro, que perdeu sua dignidade e seu valor.

 

Nas décadas de 30 e 40 o Brasil passa por um período de grandes transformações sociais. Cresce a urbanização, aumentam a atividade fabril e o trabalho assalariado; o governo frisa cada vez mais o trabalho como obrigação social. Isto vai se refletir na música, nas composições que falam da escassez do dinheiro, da necessidade de trabalhar para consegui-lo, da apologia da malandragem enquanto rejeição ao trabalho, da mulher levando o homem a ter que pegar no batente etc.

 

Em Sou Patriota, samba de José Gonçalves e Arthur Costa, de 1940, uma mulher pinta um quadro de um país idílico e quase infantil:

 

O que é que tem o meu país

Que os outros países não têm?

(Eu lhe respondo muito bem)

Essa pergunta qualquer um

Brasileiro pode explicar

(E sem ter medo de errar)

No meu país é bela a natureza

Trabalho é a vontade

(Tem riqueza e liberdade)

Tem moreno faceiro

Para fazer a nossa felicidade

(Eu vou dizer toda a verdade)

 

Eu sou patriota de corpo e alma

Mesmo na derrota eu não perco a calma

Não tenho dinheiro porque a sorte não quer

Eh! sou brasileira para o que der e vier

No meu país não há distinção de cor

Segue os mandamentos que Jesus deixou

Seja pobre ou rico, operário ou doutor

Desde que seja honesto tem o mesmo valor

(Eu vou dizendo mais uma vez para o senhor)

 

A canção, uma peça de ufanismo composta em plena ditadura do Estado Novo, pinta o Brasil em cores idealizadas, transformando-o num país de linda natureza, liberdade, trabalho à vontade, ausência de preconceito racial e social etc. É claro que tudo isso cheira à presença do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), o órgão de censura do Estado Novo. Mas, apesar disso, a narradora da canção se vê às voltas ao ter de explicar por que é pobre, em um país tão maravilhoso. A resposta é simples: “Não tenho dinheiro porque a sorte não quer”. O discurso da canção também trai a ideologia do valor do trabalho, inculcada insistentemente pelo Estado Novo: é a sorte, e não o labor, que determina a riqueza.

 

Apesar das figuras resignadas de Emília e Amélia, que “sabiam lavar e cozinhar” e que achavam “bonito não ter o que comer”, a mulher dessa época está cada vez mais a lembrar ao homem que ele deve pegar no batente, como no samba Vai Trabalhar, de Cyro de Souza, gravado em 1942:

 

Isso não me convém

E não fica bem

Eu no lesco-lesco

Na beira do tanque

Pra ganhar dinheiro

 

E você no samba

O dia inteiro, ai

O dia inteiro, ai

O dia inteiro, ai

 

Você compreende

E faz que não entende

Que tudo depende de boa vontade

Pra nossa vida endireitar

 

Você deve cooperar

É forte e pode ajudar

Procure emprego

Deixe o samba

E vai trabalhar

 

Embora o compositor seja um homem, o enunciador é uma mulher, que se queixa porque seu homem, em vez de trabalhar, fica no samba e é sustentado pelo trabalho da mulher. Mas ganhar a vida trabalhando é difícil, como mostra Vida Apertada, samba de Cyro de Souza, de 1940:

 

Meu Deus, que vida apertada

Trabalho não tenho nada

Vivo num martírio sem igual

A vida não tem encanto

Para quem padece tanto

Desse jeito eu acabo mal

 

Ser pobre não é defeito

Mas é infelicidade

Nem sequer tem o direito

De gozar a mocidade

 

Saio tarde do trabalho

Chego em casa semimorto

Pois enfrento uma estiva

Todo dia lá no cais do porto

 

O sujeito da composição se mata trabalhando como estivador, só para constatar que, além de não ganhar nada, sequer tem o direito de gozar sua mocidade. Tema semelhante aparece em Será Possível, de Rubens Campos e Henricão, de 1941:

 

Ai, ai, ai... já estou cansado

De querer me controlar

O meu dinheiro nunca deu pra outra coisa

É pra comer mal e vestir

Pagar o barraco e olhe lá

 

Eu já ando tão desanimado

Que desse jeito

Eu sei que vou me acabar

 

Trabalhei o ano inteiro

Para ver se endireitava

Eu fiz tanto economia

Até em casa cozinhava sem gordura

Para viajar de bonde esperava o caradura

 

O tema da mulher que está sempre exigindo dinheiro do homem é desenvolvido em Meu Dinheiro Tem, batucada de Germano Augusto e Zé Pretinho gravada em 1942:

 

Meu dinheiro tem, oi

Tem cara e coroa

Eu não ganho tanto

Pra você gastar à toa, ai, ai

 

Você diz que vai embora

Mas por Deus me deixa em paz

Dos amores que eu tive

Foi você quem gastou mais, pois é

 

Meu dinheiro [...]

 

Põe a mão na consciência

E não seja desigual

Você é quem passa bem

Eu que trabalho

Passo mal, por quê?

 

Meu dinheiro [...]

 

Você é muito sabida

E mostrou o seu valor

Eu fui mais inteligente

E acabei com nosso amor (que horror)

 

Meu dinheiro [...]

 

Trata-se de um homem trabalhador que se queixa da mulher, que gasta muito. Sentindo-se explorado, ele decide acabar com a relação. De novo aparece aqui a imagem da mulher como predadora.

 

Nesse período, há uma série de composições que assinalam que, infelizmente, é preciso trabalhar para conseguir dinheiro. Um exemplo é Dinheiro Não é Semente, samba de Felisberto Martins e Mutt, gravado em 1941:

 

Dinheiro não é semente

Que plantando dá

Se eu quero ver a cor dele

Eu tenho que trabalhar

Se ando alinhado é porque tenho gosto

Se ando endinheirado é com o suor do meu rosto

 

Não vivo por ver um outro viver

Vivo porque sei compreender

Que sem trabalhar

Eu não fico sossegado

Na tesoura dos amigos

Eu ando sempre cortado

O dinheiro não é...

 

Há uma noção clara de que o dinheiro não cresce em árvores, mas é fruto do trabalho, sendo inclusive feita uma menção ao mito bíblico da expulsão do paraíso quando o homem precisa ganhar o pão “com o suor de seu rosto”. Nem sequer a possibilidade de pedir emprestado aos amigos garante o dinheiro. Mas, apesar da consciência de que é preciso trabalhar para sobreviver, sonhar sempre é possível, como mostra Saquinho de Papel, de Cyro Monteiro e Lilian Bastos:

 

Se a vida fosse como a gente queria

Ah que bom seria

Que bom seria

A gente só cantava

De noite e de dia

 

Ninguém trabalhava

Só gastava

Numa casa grande a gente morava

A gente comia, dormia e sonhava

E a felicidade com a gente ficava

 

E todas as noites no terreiro

Tinha samba firme de pandeiro

Quem tinha viola cantava

Quem era de cantar, cantava

E a felicidade com a gente ficava

 

E todo o fim de mês

Um saquinho de dinheiro no terreiro

Pra gente pagar o que gastou

Pagar comida, pagar bebida

Pagar a roupa que vestiu

E o aluguel

 

Esse dinheirinho viria todinho lá do céu

 

Ah, que sonho bom

Como é bom assim sonhar

Ah, se eu pudesse jamais desse sonho acordar

 

O sonho também está presente em Acertei no Milhar, o clássico samba de Wilson Batista e Geraldo Pereira, gravado em 1940, que mostra como possibilidade de salvação a ‘sorte grande’:

 

— Etelvina, minha filha!

— Que há, Jorginho?

Acertei no milhar

Ganhei 500 contos

Não vou mais trabalhar

E me dê toda roupa velha aos pobres

E a mobília podemos quebrar

Isto é para já

Passe pra cá

 

Etelvina

Vai ter outra lua-de-mel

Você vai ser madame

Vai morar num grande hotel

Eu vou comprar um nome não sei onde

De marquês, Dom Jorge Veiga, de Visconde

Um professor de francês, mon amour

Eu vou trocar seu nome

Pra madame Pompadour

 

Até que enfim agora eu vou ser feliz

Vou percorrer a Europa toda até Paris

 

E os nossos filhos, heim?

 

— Oh, que inferno!

Eu vou pô-los num colégio interno

Me telefone pro Mané do armazém

Porque não quero ficar

Devendo nada a ninguém

Eu vou comprar um avião azul

Pra percorrer a América do Sul

 

Aí de repente, mas de repente

Etelvina me chamou

Está na hora do batente

Etelvina me acordou

Foi um sonho, minha gente

 

O pano de fundo da canção são a ‘prontidão’ e as dificuldades daí decorrentes, como ter que trabalhar, ter contas a saldar etc. A saída neste caso se dá no plano onírico. O narrador sonha ter ganho muito dinheiro no jogo, ao acertar o milhar, e vai logo decretando que não vai mais trabalhar. Segue-se uma orgia de fantasias como nova lua-de-mel, viagens internacionais, morar num hotel, filhos no colégio interno, móveis novos, saldar os débitos etc. Quem era quando muito um simples operário vai galgar a estrutura social e se transformar em nobre, sendo portanto mais que burguês. Tudo isto vai ser propiciado pelo dinheiro. Mas muito dinheiro só é possível ao tirar a ‘sorte grande’ e, como é revelado no final, isto não passa de um sonho. A mulher é a depositária dessa fantasia: é .a ela que será contado o sonho, é ela que será madame, e é também ela que vai chamá-lo à realidade, isto é, ao batente.

 

Certas canções transmitem a idéia de que não é o dinheiro que faz o homem, mas sim a existência que ele leva. Há uma afirmação implícita de que o dinheiro é até secundário, diante da beleza da vida, e que ele fatalmente está ligado à hipocrisia, à falsidade nas relações humanas. Em suma, o dinheiro está mais para o lado negativo do que para o positivo. O que Se Leva Dessa Vida, choro de Pedro Caetano, de 1946, fala da fugacidade da riqueza:

 

O que se leva dessa vida

É o que se come,

É o que se bebe,

É o que se brinca, ai, ai (Bis)

 

Ai como sofre o usurário

Que tem tanto

Que nem sabe o que fazer

 

Como padece o coitadinho

Que se mata

Sem ganhar nem pra comer

Eu nada tive

E o que tenho nessa vida

São as ruas pra andar

Mas meu consolo

É que essa gente que tem tudo

No caixão não vai levar

 

O que se leva dessa vida [...]

 

Há uma crítica tanto àquele que acumulou muito dinheiro e nem não sabe o que fazer, como ao “coitadinho que se mata sem ganhar nem pra comer”. Embora não tenha nada, a não ser as ruas para andar, o narrador se consola sabendo que a riqueza amealhada não é levada no caixão, e o que vale mesmo na vida são as pequenas alegrias do presente. É claro que pode se perceber uma atitude do tipo ‘uvas verdes’, embasada no fato de que os pobres não vão enriquecer trabalhando.

 

Além de ganhar pouco trabalhando, em geral o dinheiro desaparece no país, como mostra a marcha Onde Está o Dinheiro?, de José Maria de Abreu, Francisco Mattoso e Paulo Barbosa, lançada em 1937:

 

Onde está o dinheiro?

O gato comeu, o gato comeu

E ninguém viu

O gato fugiu, o gato fugiu

O seu paradeiro

Está no estrangeiro

Onde está o dinheiro?

 

Eu vou procurar

E hei de encontrar

E com o dinheiro na mão

Eu compro um vagão

Eu compro a nação

Eu compro até seu coração

 

Onde está o dinheiro? [...]

No Norte não está

No Sul estará

Tem gente que sabe e não diz

Escapou por um triz

E aí está o xis

E não se pode ser feliz

Onde está o dinheiro? [...]

 

Eu vou procurar [...]

 

Associada às referências implícitas de corrupção, há uma idéia de que com o dinheiro se consegue comprar tudo, inclusive a nação e o coração das pessoas. Mas o xis da questão é que quem sabe onde está o tal do dinheiro não diz. Ali Babá, marcha carnavalesca de Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti, gravada em 1937, continua extremamente atual ao insinuar o tema da corrupção:

 

Ali, ali Babá

Ali, ali Babá

Ali Babá e seus quarenta ladrões

Formaram um bloco, iaiá

Formaram um bloco, iaiá

Para dançar uma quadrilha nos salões

 

Achei a chave, a chave do tesouro

Que há muito tempo eu vivo a cobiçar

É só dizer baixinho ao teu ouvido

“Abre-te Sésamo que eu quero entrar”

 

Ali, Ali Babá [...]

 

Em 1942 o governo brasileiro mudou o padrão da moeda; instituiu o Cruzeiro, que veio substituir o antigo Real, que era concretizado pelo seu múltiplo, o ‘mil-réis’.(8) Isto foi objeto de composições como Lá Vem Cruzeiro, samba de Dieno Castanho e música de Nabor Pires Camargo:

 

I

Juca Pato anda assustado

Com o problema do dinheiro

A ‘mirréis’ ele é ‘tungado’

Que fará com o tal ‘Cruzeiro’

 

Esta vida é uma carga

Que pesa como um madeiro;

Já há tanta cruz que amarga

Ainda vem mais um ‘Cruzeiro’?

 

Estribilho

— Vai quebra!

— Vai quebra!

O mil réis saiu de moda

E por isso mudará

— Vai quebrá!

— Vai quebrá!

O Seu Zé não se encomoda

Pois quebrado ele já está

 

II

Que toda a vida foi ‘pronto’

E nunca teve dinheiro

Agora fica mais tonto

Com essa encrenca do ‘Cruzeiro’

Vai quebrar nosso padrão,

Vão mudar nosso dinheiro,

Ninguém mais fala em ‘destão’

Agora é só no ‘Cruzeiro’

 

Está presente a idéia de que uma medida financeira, qualquer que seja, não pode ser boa para o povo.(9) O mesmo ocorreu em 1951, quando Getúlio Vargas reassumiu a Presidência da República e, para combater a inflação, propôs a criação do Ministério da Economia. Geraldo Pereira e Arnaldo Passos compuseram uma canção justamente com esse nome, gravada no mesmo ano:

 

Seu Presidente

Sua Excelência mostrou que é de fato

Agora tudo vai ficar barato

Agora o pobre j á pode comer

Seu Presidente

Pois era isso que o povo queria

O Ministério da Economia

Parece que vai resolver

Seu Presidente

 

Graças a Deus não vou comer mais gato

Carne de vaca no açougue é mato

Com o meu amor eu já posso viver

Eu vou buscar

A minha nega pra morar comigo

Pois já vi que não há mais perigo

Ela de fome já não vai morrer

A vida estava tão difícil

Que eu mandei a minha nega bacana

Meter os peitos na cozinha da madame

Em Copacabana

Agora vou buscar a nega

Porque gosto dela pra cachorro

E os gatos é que vão dar gargalhada de alegria

Lá no morro

 

Pode-se perceber o tom sarcástico que perpassa a letra da canção, na qual o narrador finge acreditar que a criação do Ministério da Economia vai resolver os problemas dos pobres. Está também presente a idéia de que a mulher não deve trabalhar, o que só se justifica em caso de dificuldades econômicas.

 

Nesse período continua a se sonhar com personagens que não estão sujeitos à lógica do dinheiro. É o caso de Rei Zulu, marcha de Antônio Almeida e Nássara, lançada em janeiro de 1950:

 

O rei Zulu, o rei Zulu

Não paga casa

Nem comida e anda nu

Pode não ter dinheiro pra gastar

Mas tem mulher pra chuchu

 

Rei Zulu, não precisa

De dinheiro pra viver

Tem casa pra morar

Comida pra comer

Mulher pra namorar

Atrás do murundu

Vamos saravá, minha nega?

Salve o rei Zulu!

 

 

Com que vida melhor pode sonhar um pobre brasileiro, possivelmente descendente de escravos, que tenta sobreviverem grandes cidades brasileiras que a de um rei africano que não precisa se preocupar com dinheiro, tendo casa para morar, comida para se alimentar e mulher para namorar?

O ideal, é lógico, continua sendo conciliar dinheiro e mulher, palavras que formam o título de uma batucada de Zózimo Ferreira e Armando Braga, de 1950:

 

Dinheiro é dinheiro

Mulher é mulher

Seja falsa ou verdadeiro

Eu duvido quem não quer

 

A mulher e o dinheiro

Ambos têm muito valor

Quem possui as duas coisas

Nunca mais pede favor

 

O dinheiro compra a abelha

E a mulher nos dá o mel

O dinheiro traz conforto

E a mulher nos leva ao céu

 

Mas na década de 50 é mais intensa a concepção do dinheiro como algo que permeia as relações sociais e que é escasso para as classes populares. É o que transparece em O Dinheiro que Ganho, samba com letra e música de Assis Valente, lançado em 1951:

 

O dinheiro que ganho

Não dá pra ficar no meio da rua

Pra cá e pra lá, pra cá e pra lá

O dinheiro que ganho só dá pra viver

No meu barracão sentado no chão

Comendo na mão farinha e feijão

Olhando a cabrocha mexendo o legume

Pra não azedar

 

Se fico na rua lá vem um amigo

E eu sou obrigado a lhe convidar

Tomar um traguinho, bater um papinho

Dar uma voltinha pro tempo passar

Depois do passeio lá vem o jantar

E também o café

Lá se vai meu dinheiro

Eu vou pro Salgueiro a pé

(Meu dinheiro não dá)

 

A composição é singela e mostra um sujeito que não dispõe de recursos sequer para freqüentar a rua, o lugar do homem na sociedade brasileira. A falta de dinheiro o condena à casa, espaço tradicionalmente feminino.

Em 1957 Dorival Caymmi lançou Saudade da Bahia, na qual canta o sofrimento dos nordestinos que deixaram sua terra natal para tentar a vida no Sul, e conclui dizendo: “Pobre de quem acredita / Na fama e no dinheiro para ser feliz”.

Me Dá um Dinheiro Aí, composição de Ivan Ferreira, Homero Ferreira e Glauco Ferreira, de 1959, retrata a figura do pedinte, que em nossa época se disseminou e se estende do mendigo ao guardador de carro:

 

Ei, você aí

Me dá um dinheiro aí,

Me dá um dinheiro aí!

 

Não vai dar?

Não vai dar não?

Você vai ver

A grande confusão

Que eu vou fazer,

Bebendo até cair

Me dá, me dá, me dá (oi)

Me dá um dinheiro aí

 

A década de 60 foi marcada por fortes transformações sociais e econômicas no Brasil. A censura que se seguiu ao golpe de 64 tornou difícil fazer canções sobre assuntos considerados subversivos. Isto não impediu que vários compositores falassem dos problemas sociais pelos quais o país passava. O regime acenava para a educação como uma forma de ascensão social, propiciando uma expansão das instituições particulares de ensino superior. Em 1969, Martinho da Vila retratou em Pequeno Burguês as agruras de alguém que tentou subir na vida pior meio de um diploma universitário:

 

Felicidade, passei no vestibular

Mas a faculdade é particular

Particular, ela é particular

Livros tão caros

Tanta taxa pra pagar

Meu dinheiro muito raro

Alguém teve que emprestar

 

Morei no subúrbio

Andei de trem atrasado

Do trabalho ia pra aula

Sem jantar e bem cansado

Mas lá em casa à meia noite

Tinha sempre a me esperar

Um punhado de problemas

E criança pra criar

 

Mas felizmente

Eu consegui me formar

Mas da minha formatura

Não cheguei participar

Faltou dinheiro pra beca

E também pro meu anel

Nem o diretor careca

Entregou o meu papel

 

E depois de tantos anos

Só decepções, desenganos

Dizem que eu sou um burguês

Muito privilegiado

Mas burgueses são vocês

Eu não passo de um pobre coitado

E quem quiser ser como eu

Vai ter que penar um bocado

Um bom bocado

Vai penar um bom bocado

 

O quadro é de decepções e desenganos. A felicidade por conseguir realizar o sonho de entrar em um curso superior e o prestígio que isto ainda significava na década de 60 são acompanhados por inúmeras despesas, pois a faculdade é particular. É preciso pedir dinheiro emprestado, ir do trabalho ao curso noturno sem jantar e, depois de enfrentar o trem que leva ao subúrbio, deparar com as crianças e um punhado de problemas. Até a cerimônia de formatura, ritual ao qual normalmente se leva a família, se torna impossível devido à falta de dinheiro para a beca e o anel de ‘doutor’. A conclusão é que pobre não passa mesmo de coitado, que não consegue ascender socialmente num país em que a renda é mal distribuída, as universidades públicas são de difícil acesso e as faculdades particulares são muito caras.

Também é dessa época é Pra que Dinheiro, composição de Martinho da Vila:

 

Dinheiro pra que dinheiro

Se ela não me dá bola

Em casa de batuqueiro

Só quem fala alto é viola

Venha depressa correndo pro samba

Porque a lua já vai se mandar

 

Afina logo a sua viola

E canta samba até o sol raiar

 

Dinheiro [...]

 

Aquela mina não quis me dar bola

E eu tinha tanta grana pra lhe dar

Chegou um cara com uma viola

E ela logo começou a bolar

 

Dinheiro [...]

 

Eu era um cara muito solitário

Não tinha mina pra me namorar

Depois que eu comprei uma viola

Arranjo nega de qualquer lugar

 

Dinheiro [...]

 

Eu tinha grana, me levaram a grana

Fiquei quietinho, nem quis reclamar

Mas se levarem a minha viola

Não me segura pois eu vou brigar

 

Dinheiro [...]

 

Vai lá depressa com essa viola

Porque o samba já vai terminar

Eu vou depressa correndo pra casa

Pegar a marmita pra ir trabalhar

 

Dinheiro [...]

 

Aqui a música aparentemente se revela mais poderosa que o dinheiro. O sujeito tinha muito dinheiro, mas a mulher desejada preferiu o outro, que tinha uma viola. O narrador resolveu fazer o mesmo e se deu bem em matéria de mulher. Agora, perdeu o dinheiro, mas não se importa; já o mesmo não ocorre em relação a sua viola. O tom melancólico que praticamente trai o conteúdo da canção é dado na última estrofe, quando o narrador afirma que vai correndo pegar a marmita para ir trabalhar. Ou seja, a opção pela mulher implica a atitude de se tornar um trabalhador que come de marmita.

Chico Buarque, que mais adiante, na Ópera do Malandro, iria cantar a falência do malandro pra valer, compôs em 1975 a letra e a música de Vai Trabalhar, Vagabundo:

 

Vai trabalhar, vagabundo

Vai trabalhar, criatura

Deus permite a todo mundo

Uma loucura

Passa o domingo em família

Segunda-feira beleza

Embarca com alegria na correnteza

 

Prepara o teu documento

Carimba o teu coração

Não perde nem um momento

Perde a razão

Pode esquecer a mulata

Pode esquecer o bilhar

Pode apertar a gravata

Vai te enforcar

Vai te entregar

Vai te estragar

Vai trabalhar

 

Vê se não dorme no ponto

Reúne as economias

Perde os três contos no conto da loteria

Passa o domingo no mangue

Segunda-feira vazia

Ganha no banco de sangue pra mais um dia

Cuidado com o viaduto

Cuidado com o avião

Não perde mais um minuto

Perde a questão

Tenta pensar no futuro

No escuro tenta pensar

Vai renovar teu seguro

Vai caducar

Vai te entregar

Vai te estragar

Vai trabalhar

 

Passa o domingo sozinho

Segunda-feira a desgraça

Sem pai nem mãe, nem vizinho

Em plena praça

Vai terminar moribundo

Com um pouco de paciência

No fim da fila do fundo da previdência

 

Parte tranqüilo, ó irmão

Descansa na paz de Deus

Deixaste casa e pensão só para os teus

A criança chorando

Tua mulher vai suar

Pra botar outro malandro no teu lugar

Vai te entregar

Vai te estragar

Vai te enforcar

Vai caducar

Vai trabalhar

Vai trabalhar

Vai trabalhar

 

A situação é de dureza e o personagem, que caiu de ‘malandro’ (conotação positiva) para ‘vagabundo’ (conotação negativa), precisa se ‘virar’ para conseguir dinheiro, recorrendo a expedientes como doar sangue, já que deu uma de otário, caindo no conto da loteria. É um quadro de sufoco, caracterizado pelos versos: “Vai te entregar / Vai te estragar / Vai te enforcar”, nos quais se mostra que é preciso dar duro no trabalho, para sobreviver.

Em Perdoa, composição de Paulinho da Viola da década de 70, as dificuldades financeiras são tratadas de forma direta:

 

Meu bem, perdoa

Perdoa meu coração pecador

Você sabe que jamais eu viverei

Sem o seu amor

 

Ando comprando fiado

Porque meu dinheiro não dá

Imagine se eu fosse casado

Com mais de seis filhos para sustentar

 

Nunca me deram moleza

E posso dizer que sou trabalhador

Fiz um trato com você

Quando fui receber você não me pagou

Mas ora meu bem

 

Meu bem perdoa [...]

 

Chama o dono dessa casa

Que eu quero dizer como é o meu nome

Diga um verso bem bonito

Ele vai responder pra matar minha fome

 

Eu como dono da casa

Não sou obrigado a servir nem banana

Se quiser saber meu nome

É o tal que não come há uma semana

Mas ora meu bem

 

Meu bem perdoa [...]

 

Chama o dono da quitanda

Que vive sonhando deitado na rede

Diga um verso bem bonito

Ele vai responder pra matar minha sede

O dono dessa quitanda

Não é obrigado a vender pra ninguém

Pode pegar a vila que hoje é domingo

E cerveja não tem

Mas ora meu bem

Meu bem perdoa

 

O narrador está se dirigindo a uma mulher, à qual começa pedindo perdão. Conta-lhe as dificuldades econômicas pelas quais está passando: não tem dinheiro, e por isso compra fiado, apesar de trabalhar duro; a própria interlocutora lhe deve algo e não paga. A seguir há um elemento nostálgico, contido nos versinhos infantis, contraposto a uma realidade brutal (“Se quiser saber o meu nome / É o tal que não come há mais de uma semana”). Fica no ar o porquê do pedido de perdão. Será pela incapacidade de o homem cumprir seu papel tradicional de provedor, numa situação que o impede inclusive de procriar e por conseguinte assegurar uma descendência (“Imagine se eu fosse casado / Com mais de seis filhos para sustentar”)?

O trabalho nessa época continuava a ser uma coisa penosa e ganhar a vida era cada vez mais difícil. Isto fica explícito em Pode Guardar as Panelas, samba de Paulinho da Viola, de 1979:

 

Você sabe que a maré

Não está moleza não

E quem não fica dormindo de touca

Já sabe da situação

Eu sei que dói no coração

Falar do jeito que falei

Dizer que o pior aconteceu

Pode guardar as panelas

Que hoje o dinheiro não deu

 

Você sabe que a maré [...]

 

Dei pinote adoidado

Pedindo empréstimo e ninguém emprestou

Fui no seu Malaquias

Querendo fiado mas ele negou

Meu ordenado, apertado, coitado, engraçado

Desapareceu

Fui apelar pro cavalo, joguei na cabeça

Mas ele não deu

 

Você sabe que a maré [...]

 

Para encher nossa panela, comadre

Eu não sei como vai ser

Já corri pra todo lado

Fiz aquilo que deu pra fazer

Esperar por um milagre

Pra ver se resolve esta situação

Minha fé já balançou

Eu não quero sofrer outra decepção

 

Você sabe que a maré [...]

 

A canção, que é uma virada na maneira de encarar o dinheiro, expressa a perda das ilusões do passado. O estribilho repete o tempo todo, como pano de fundo, que a situação econômica das classes populares está muito difícil. Apesar de reconhecer que pode magoar a sensibilidade, o narrador prefere ser franco e direto (“Pode guardar as panelas / Que hoje o dinheiro não deu”). O impacto é forte, pois o dinheiro está associado diretamente à comida. Ao contrário de sambas de épocas anteriores, em que freqüentemente se evitava mencionar a palavra ‘dinheiro’, aqui ele é citado explicitamente. O narrador é um assalariado cujos ganhos não cobrem os gastos de um mês inteiro. Por isso ele é obrigado a lançar mão de formas alternativas para conseguir dinheiro. Mas os métodos utilizados em outra épocas (jogar, pedir emprestado, ou fiado) deixaram de funcionar e ele não acredita mais em milagres. Daí uma profunda desilusão. O próprio título do samba, Pode Guardar as Panelas, sugere um recolhimento, um ‘tirar o time de campo’, uma ausência de qualquer solução no horizonte.

Paulinho da Viola é um epígono dos sambistas clássicos. Ele compõe samba numa época em que esse gênero musical deixou de ser predominante no Brasil. Por isto, se pode considerar que ele encerra um período. Um período que começa com letras em que os compositores declaram o pouco valor do dinheiro e a possibilidade de obtê-lo magicamente, e termina com o reconhecimento da importância do dinheiro e a enorme dificuldade de obtê-lo.

 

 

NOTAS

 

1. “O título desse samba de J.B. da Silva (nome que assim apareceria grafado dessa época em diante nos selos dos discos, seguido do apelido Sinhô entre parênteses) estava destinado a constituir o ponto de partida para a primeira polêmica musical da história do samba carioca. É que os freqüentadores da casa de Tia Ciata, principalmente os cariocas Donga, Pixinguinha e seu irmão China, enxergaram na pergunta ‘Quem são eles?’ uma ironia dirigida ao grupo. Ao mesmo tempo, os baianos liderados pelo pioneiro Hilário Jovino Ferreira, criador dos ranchos carnavalescos cariocas, entenderam que a alusão dos versos ‘A Bahia é boa terra / ela lá e eu aqui’ só podia se dirigir a eles. No fundo, porém, percebendo tanto uns quanto outros que o sucesso do samba indicava um bom filão a explorar, entraram a compor respostas à suposta ironia, abrindo curiosa polêmica musical. Polêmica que marcava, afinal, na área da música popular, o primeiro momento de divergência entre os compositores que continuariam amadoristicamente presos a suas raízes folclóricas (grupo dos baianos, inicialmente ligado aos cariocas Donga e Pixinguinha) e os compositores urbanizados, claramente encaminhados para a profissionalização.” (Nova história da música popular brasileira, 1977, p. 6).

 

2. Sobre a rejeição ao trabalho na música popular brasileira, ver Oliven (1982).

 

3. O Pé de Anjo era Otávio da Rocha Viana, irmão de Pixinguinha, conhecido como China e famoso por seus pés enormes.

 

4. Sobre a mulher no imaginário masculino na música popular brasileira, ver Oliven (1987).

 

5. Sobre dinheiro e casamento, ver também o maxixe carnavalesco de Eduardo Souto Não Sei o que É, de 1922, e Adeus Vida de Solteiro, samba de Mário Travassos de Araújo, de 1933.

 

6. Segundo Máximo & Didier (1990, p. 45): “O prestamista e temas correlatos (dívidas, empréstimos, dinheiro, ganância, espertezas e malabarismos financeiros) estão muito presentes na obra de Noel Rosa. Os autores anotaram 64 letras de música, incluindo paródias, que falam no assunto, ainda que de forma indireta”.

 

7. De acordo com Máximo & Didier (1990, p. 167), o verso sobre o judeu “é um dos dois que valerão a Noel, muitos anos depois de sua morte, a acusação de anti-semita. Mas quem se lembrar do que representou a figura do prestamista em sua infância (e de como ‘judeu’ era a denominação genérica, ainda que imprópria, daquele tipo de comerciante) sabe o que ele está querendo dizer”. Em 1985, Edu Lobo e Chico Buarque compuseram Bancarrota Blues, que retoma o tema do Brasil sendo vendido.

 

8. Sobre o dinheiro no Brasil, ver Trigueiros, 1987.

 

9. Na canção Rasteira do Presidente, Bicalho e Sylvio Modesto fazem referência ao Plano Cruzado, lançado em 1986, no governo Sarney, que criou uma nova moeda, o Cruzado, além de congelar todos os preços. A composição faz referência a várias siglas econômicas da época, à dívida externa e às dificuldades dos pobres, mas termina com uma nota de otimismo igual à que boa parte da população tinha ao acreditar que o plano iria acabar com a inflação e que os especuladores iriam desaparecer. Depois de um curto período a inflação retornou, chegando a 80 por cento no último mês do governo. Em Inadimplente, composição de Moreira da Silva gravada em 1986, o grande sambista de breque retrata as agruras de quem está tentando adquirir um imóvel pelo Banco Nacional de Habitação: “Comprei um apartamento pelo BNH / Sou inadimplente, não posso pagar / Estou a perigo / Estou no mato sem cachorro / Sou forçado a pedir socorro”.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

ALENCAR, Edigar. (1981), Nosso Sinhô do Samba. Rio de Janeiro, Funarte.

 

CHEDIAK, Almir. (1991), Songbook Noel Rosa. Rio de Janeiro, Lumiar.

 

MÁXIMO, João & DIDIER, Carlos. (1990), Noel Rosa, uma biografia. Brasília, UnB/Linha Gráfica.

 

Nova História da Música Popular Brasileira (1977), no 26. São Paulo, Abril Cultural.

 

OLIVEN, Ruben George. (1982), “A malandragem na música popular brasileira”, in Violência e cultura no Brasil. Petrópolis, Vozes.

 

______. (1987), “A Mulher faz (e desfaz) o Homem”. Ciência Hoje, 7, 37.

 

SEVERIANO, Jairo. (1988), “Nosso Sinhô do samba e outras bossas”. Texto na capa do disco Nosso Sinhô do Samba. Rio de Janeiro, Funarte.

 

SODRÉ. Muniz. (1979), Samba, o dono do corpo. Rio de Janeiro, Codecri.

 

TRIGUEIROS, Florisvaldo dos Santos. (1987), O dinheiro no Brasil. Rio de Janeiro, Léo Christiano.