AS
CIDADES E AS IDENTIDADES
Narrativas,
patrimônios e memórias(*)
Carlos Fortuna
A
destruição criadora das identidades
Os
ares da cidade libertam! (Stadtluft
macht frei!). Com este velho aforismo, originário, ao que se julga,
da pré-moderna Alemanha além-Elba, camponeses e outros grupos de similar
estatura social expressavam o desejo de romper os vínculos
jurídico-comunitários, religiosos e de trabalho que os prendiam ao jugo
impiedoso dos poderosos. Quebrar tais vínculos e alcançar a cidade, entendida como
espaço libertador e promessa de salvação, era uma aspiração radical. Nela
estariam contidas uma ambicionada autonomia individual e a livre afirmação
pessoal. Por ela se garantia e dava forma ao desejo de se tornar outro.
Antecipava-se o tempo, mudava-se de lugar, enfim, construía-se uma nova
identidade.
A
radicalidade de tal proposta é dupla. Por um lado, decorre do fato de pressupor
que a fuga para a cidade romperia por si os rígidos sistemas de construção das
identidades típicos da era pré-moderna, quando as identidades e as respectivas
cosmologias eram predeterminadas e impostas do exterior, a partir de sistemas
de mitos e crenças orientados por princípios religiosos, políticos e de
parentesco. Por outro lado, a aspiração enunciada mostra-se radical porquanto o
ambiente sociopolítico pré-industrial não contém a plasticidade que há de
permitir à cidade da era moderna e industrial se tornar um espaço de libertação
pessoal e coletiva, no sentido da transfiguração das identidades de origem dos
sujeitos. As cidades da era feudal são também reguladas por sistemas de poder e
autoridade que envolvem formas codificadas de obrigatoriedade, semelhantes às
existentes no mundo rural medieval, nas quais se esconde um rígido sistema de
classificação, só aparentemente ilusório.
Para
que os ‘ares da cidade’ se tivessem tornado realmente libertadores foi preciso,
como se sabe, que se tivessem alterado profundamente os princípios ordenadores
da sociedade arcaica. Só o despontar da modernidade e as correspondentes transformações
civilizacionais tornaram possível a transfiguração identitária. A partir de
então, criaram-se as condições para que os anteriores sistemas de classificação
e mudança identitárias pudessem ser problematizados e, com eles, as suas
componentes e metamorfoses, a sua rigidez e plasticidade, o seu caráter
essencial e substantivo.
Devemos
aos contributos de ilustres analistas como S. Freud, N. Elias e M. Foucault a
compreensão do modo como os fatores externos, de natureza socioambiental, que
intervêm na formação das identidades dos sujeitos, tendem a ser interiorizados,
fazendo aproximar a sua identidade da sua subjetividade. As identidades
passaram a ser entendidas como expressões compósitas de intersubjetividades, em
que a fronteira entre fatores intervenientes externos e internos se tornou
impossível de decifrar.
Em
resultado disto, aceita-se hoje que, nas situações sociais do seu cotidiano, os
sujeitos atuam de acordo com as suas competências identitárias que, ao
contrário do que sucedia na pré-modernidade, não são mais estáveis e rígidas,
mas se tornaram transitórias, plurais e auto-reflexivas. São objeto de escolhas
e de possibilidades individuais, feitas de acordo com a própria percepção da
estrutura das relações sociais e, portanto, desencadeadas em função dos
recursos disponíveis e dos efeitos previsíveis. Mediadoras entre a estrutura
social e a ação dos sujeitos, as identidades sociais são feitas e refeitas
ao sabor das mudanças sociais e das novidades culturais (Kellner, 1992),
deixando-se pautar por uma progressiva interiorização de pulsões e
constrangimentos (Elias, 1989). Eminentemente relacional e interativa, perante
a crescente complexificação das sociedades, a identidade moderna mostra-se
contingente e remete-nos para uma estrutura pessoal, afetiva e cognitiva que é
progressiva e continuamente (re)construída pelos sujeitos.
Nessa
(re)construção das identidades está envolvido um processo dinâmico de constante
confronto do velho com o novo. Esse constante fluir permite-me utilizar
analogicamente o pensamento de J. Schumpeter e admitir que, tal como no
desenrolar evolutivo do sistema capitalista, também as identidades sociais
estão sujeitas a um processo de destruição criadora.(1) Por
‘destruição criadora das identidades’ entendo a ação de contínua reelaboração
dos critérios de autovalidação pública dos sujeitos, variável de acordo com a
multiplicidade de situações sociais do cotidiano, e as transformações
econômicas, políticas, científicas e culturais que caracterizam as sociedades
contemporâneas e que proporcionam um contínuo reajustamento das matrizes
identitárias dos sujeitos.
A
variedade e a sobreposição de narrativas e parâmetros interpretativos sobre o
mundo e a vida e, mutatis mutandis, sobre as identidades sociais,
revelam como estas últimas vão sendo hoje destruídas a cada passo, e de modo
acelerado, cedendo criadoramente a identificações mais ou menos momentâneas e
desordenadas. Tanto o discurso científico como o jornalístico de hoje sublinham
o fim das nossas seguranças sociais, políticas, econômicas e éticas, ilustrando
como a sociedade e a sua interpretação se complexificaram. Tornam claro que as
crenças na segurança ontológica dos indivíduos se fragilizaram e se instaurou
uma espécie de ficção na vida coletiva, com presumíveis efeitos sobre o modo
como eles se vêem, apresentam e avaliam a si próprios e, igualmente, o modo
como vêem, apresentam e avaliam os outros. (2)
A
‘destruição criadora das identidades’ impõe a necessidade de revisão do
significado atribuído aos ‘centros’ ou matrizes primordiais das identidades,
típicos da modernidade — a classe social, o sexo, o grupo étnico, o grupo
religioso, a condição laboral e o estatuto educativo e familiar. No plano
teórico, como de resto no plano prático, assiste-se hoje ao ‘descentramento’
dos sujeitos e à problematização das identidades, tanto nas suas concepções
essencialistas (do tipo ‘eu sou eu’) como nas estruturalistas (do tipo ‘a vida
fez-me assim’).
Novas
cosmologias são hoje geradas a partir de renascidas ideologias da cultura e do
consumo e de práticas sociais revalorizadas em função de emergentes filosofias
de vida. Tanto no plano simbólico como no social desponta um novo gosto de
viver. Dito de outra maneira, encontramo-nos perante um processo de renovação
daquilo a que R. Williams chamou a “estrutura dos sentimentos” dos indivíduos,
que implica uma deslocação das nossas metodologias de análise das genealogias e
das relações sociais fixas e formais para uma compreensão do caráter mais
fluido e movediço da sociedade (Williams, 1977, pp. 133-34).
A
tendência parece ser a busca narcísica da auto-satisfação, que se faz
acompanhar da construção de personalidades errantes, destituídas de vínculos e
compromissos persistentes e aptas a adesões fugazes, não raro dramáticas, a
novos centros em emergência (Cohen, 1987). A esse descentramento do
mundo corresponde um novo recentramento dos sujeitos, pautado pela
valorização de novos signos culturais. Estes novos signos culturais — entre os
quais se contam o consumo, o lazer, o corpo, a estética e a contínua reinvenção
das comunidades e “novas tribos” — não apenas se equivalem entre si, mas também
se substituem aos anteriores na sua capacidade de radicação das identidades dos
sujeitos. Para alguns teóricos da pós-modernidade, a questão das identidades
passou a ser um objeto sociológico problemático e de limitado valor heurístico
para a compreensão do sentido dos atuais modos e estilos de vida e da natureza
das mudanças sociais. Assim sucederá, nessa perspectiva, por vivermos num tempo
contingente, em que as identidades, sujeitas a intensa ‘destruição criadora’,
parecem não resistir e ceder lugar a processos de identificação dos sujeitos.
É a
partir dessa avaliação que procurarei proceder a uma discussão acerca do modo
como as relações entre o espaço e o tempo se prefiguram no cotidiano dos
sujeitos na pós-modernidade e como, correlativamente, estes alteram e manipulam
os sentidos e os significados do patrimônio histórico e cultural das cidades.
Tratarei, por isso, em primeiro lugar, de ensaiar uma breve incursão no tema
das narrativas sociais e dos modos de percepção das relações espaço-temporais.
Em seguida, e ordenadamente, oferecerei uma interpretação sobre as funções e os
modos de apropriação/percepção das ruínas, monumentos e museus das cidades,
para concluir que tendem a ser fundamentalmente percebidos como elementos da
esteticização dos ambientes vividos na cidade, por meio dos quais os indivíduos
procuram ou obter níveis elevados de satisfação pessoal, ou alcançar patamares
de evasão das suas rotinas, ou ambos.
Espaço,
tempo e narrativas
Centrais
a essa nova problematização da sociedade são o entendimento e o modo de relação
que os sujeitos estabelecem com o tempo e o espaço. A vastíssima literatura que
tem sido produzida em redor dessa temática ao longo das duas últimas décadas
põe em relevo uma profunda redefinição do lugar do tempo e do espaço nos
imaginários e nas práticas sociais dos sujeitos. Uma das linhas da sua
releitura encontra-se no modo como, conforme as correntes do pensamento, ora se
privilegia o espaço ora o tempo como eixo principal ao longo do qual se
processa a formação identitária.
É
comum encontrar uma tendência teórica marcada para a neutralização ou
subalternização do tempo. Em escritos de autores como G. Deleuze ou J.
Baudrillard, o tempo cronológico e linear é tido como opressivo e sujeito a
imperativos instrumentais de produtividade, trabalho e controle social
(Baudrillard, 1987, p. 67). Esse tempo institucional, como o chamaria S. Kern
(1983), é responsável pelo empobrecimento do gosto de viver pelo que, em
alternativa, são vários os autores que sustentam concepções anarquizantes e
desconexas do tempo, supostamente mais concordantes com os modos de ação e o
pensamento contemporâneos: o tempo e os conceitos de passado, presente e futuro
não podem ser situados nem controlados pelos nossos enunciados discursivos,
como nada pode estar, alguma vez, totalmente ausente ou totalmente presente (Rosenau,
1992, pp. 67-70)
Por
outro lado, e em paralelo a essa exorcização do tempo, em algumas análises de
cariz pós-moderno da realidade é o espaço que parece arrastar conseqüências
políticas para os sujeitos e os grupos sociais. É o espaço, não o tempo, que
impõe diferenças, agrega subjetividades e estipula interações. Porém, nas suas
versões mais radicais da crítica pós-moderna, a geografia e o espaço surgem
também associados a muitas das nossas desilusões. Vivemos num ‘hiper-espaço’,
diria E Jameson (1984), que “transcende as capacidades dos indivíduos para se
situarem, percepcionarem e organizarem os seus campos de proximidade e para
mapearem cognitivamente a sua posição no mundo exterior” (pp. 83-4). O espaço
surge, assim, como elemento caótico das nossas representações e, ipso facto,
é ele próprio irrepresentável. É no espaço e por meio dele que se procede a
justaposições desordenadas e se forjam fronteiras paradoxais que tornam
vulnerável a nossa identidade. Se é nesse lado caótico do espaço e do tempo que
se fundem muitos dos nossos receios e ambivalências, no entanto, em vista da
mútua interdependência das ordens cognitiva e espaço-temporal, é fundamental
que saibamos construir novos ‘mapas cognitivos’ que orientem nossos trajetos e
linhas de ação (id., 1988).
Esse
desafio tinha já sido enunciado por W. Benjamin (1992b): na sua Berlin
Childhood, assinalava que mais importante que conhecer uma cidade era saber
se perder nela, sobreviver na ausência de guias, sem orientações ou trajetos
preestabelecidos.(3) Quer temporais quer espaciais, os limites da cidade
mostrar-se-iam cada vez mais difíceis de decifrar — a cidade não tem exterior
—, e os mapas cognitivos a construir pouco mais seriam que códigos difusos, mas
ainda assim aptos a traduzir a desordenada justaposição de sinais que a cidade
emite e representa.
Como
diria G. Simmel (1971), outro sofisticado analista da cidade moderna, “[A]
metrópole estimula os sentidos na sua mais profunda reatividade até ao ponto em
que deixam de ter qualquer reação” (p. 329), refugiando-se os indivíduos numa
atitude blasé, cuja essência reside na “indiferença face às diferenças”
(id., ib.). A cidade produz uma cultura de estranhamento e anonimato que,
todavia, se pode revelar paradoxalmente libertadora. Se, por um lado, torna o
cotidiano menos previsível, por outro lado, torna-o também mais permissivo às
escolhas e opções individuais. Para tanto contribui não apenas a excitação dos
sentidos e emoções, mas, sobretudo, a teatralização do cotidiano, desenroladas,
uma e outra, no cenário magnânimo da cidade. (4)
A
cidade é a imagem alegórica da sociedade. Sem capacidade para ordenar quer o
tempo quer o espaço, a sociedade perdeu os seus guiões e desafia-nos a
desaprender a história e a geografia para que as aprendamos de novo, de modo
diferente.
É
nesse sentido que leio o apelo de H. Bhabha (1994) à criação de um terceiro
espaço — um espaço de enunciação das diferenças culturais —,capaz de
introduzir “uma fratura entre a tradicional procura culturalista de um modelo,
[...], um sistema estável de referências e a indispensável negação da certeza
na articulação de novas necessidades, sentidos e estratégias [...]” (p. 35).
Entre a busca de segurança, por exemplo a procura da história ou da tradição, e
a incerteza do presente, por exemplo a definição das necessidades sociais e
culturais, está contida a dimensão enunciativa que pode e, de acordo com
Bhabha, deve ser subversiva e pôr em causa os modos dominantes de
imposição/sujeição cultural, geralmente ausentes da nossa crença do passado
distante ou da cultura inferior.
A
proposta de Bhabha ganha em clareza se conjugada com aquilo que me parece ser
central nos chamados estudos subalternos ou pós-coloniais. Aqui pontua o nome
de Gayatri C. Spivak (1988), que se assume como cultora das descontinuidades e
para quem é preciso instaurar uma nova “mundialização do mundo” baseada num
“persistente reconhecimento da heterogeneidade” (p. 20). O que está em causa,
para Spivak, não é uma definição continuísta das diferenças,.mas uma “aceitação
radical da vulnerabilidade” e uma “política de campo aberto” (politics of
the open end) (1990, p. 104) na qual a própria escolha da marginalidade se
encontra legitimada enquanto ato, mesmo se anárquico, de inclusão social.
Uma
“política de campo aberto” é um convite à descoberta, à aventura, à viagem
feita por novos trilhos, sem destinos definidos quer espaciais quer temporais,
por vezes sobrepostos, por vezes separados dos antigos. Este é um traço
incontestável do nosso presente e da nossa cidade. Nenhum deles admite qualquer
princípio orientador predeterminado por serem ambos constituídos por imagens e
estereótipos, tanto do passado como do futuro, tanto do local como do global.
I.
Chambers (1994), no seu notável ensaio sociológico-literário sobre as migrações
e a cultura, assinala como na era da informação eletrônica não é o sentido do
lugar, mas o sentido da deslocalização, que predomina e orienta os sujeitos.
Esse novo sentido de deslocalização supera a antiga percepção que tínhamos do
nomadismo enquanto movimentação de indivíduos entre lugares físicos distintos.
Na era do ciberespaço, o que se desloca são as imagens, os discursos e as
narrativas que passam velozes sobre os corpos físicos e os imaginários
simbólicos dos sujeitos que, assim, se movem sem se movimentar (5) num
espaço de fantasia, mas nem por isso menos funcional para o relacionamento
humano.
Também
por esta via, o cotidiano dos sujeitos se tornou errático, marcado por práticas
liminares e de vertigem, por novas concepções do tempo e da memória, por
reconceptualizações do espaço, reavaliações da política, da estética e da
moral. A “aceitação radical da vulnerabilidade”, por que clama Spivak, pode ser
lida como a inversão provisória, mas libertadora, das perspectivas, numa
exaltante violação das narrativas universalistas e homogeneizadoras dos
conteúdos e significados do espaço e do tempo. Estamos perante sintomas de uma
‘carnavalização’ do cotidiano que, embora situado e datado no trabalho de M.
Bakhtin (1984), parece generalizar-se e afirmar-se duradouramente na sociedade.
As
ruínas da cidade e a transfiguração do cotidiano
Como
vimos, um efeito importante contido no processo de destruição criadora das
identidades refere-se ao modo como os sujeitos se relacionam, por um lado,
com o tempo, e mais concretamente com as suas referências ao passado e à
memória quer pessoal quer coletiva, e, por outro, com o espaço, imediato ou
representado, em que interagem. Associado à deslocalização do nosso sentido do
‘centro’, o processo de ‘destruição criadora de identidades’ pode converter-se
num ato radical de busca da alteridade, o qual, por sua vez, se pode traduzir
na vontade inabalável de viver em hibridismo, de “estar no meio e entre as
coisas”, como diria De Certeau, sem necessariamente se identificar com nenhuma
delas, de modo sólido e fixista. (6)
Analisarei
esses aspectos, procurando detectar algumas linhas de compreensão do modo como
os indivíduos se relacionam com os lugares históricos e monumentais da cidade e
daí retiram elementos para dar sentido a seu próprio lugar no mundo
contemporâneo. Sob o pano de fundo da cidade, espaço físico mas também
simbólico de interação, procurarei ancorar o restante texto na questão do
patrimônio histórico-cultural, dando especial relevo ao significado atribuído
às ruínas, aos monumentos e aos museus.
Serão
as ruínas, os monumentos e os museus manifestações espaciais e artefatos que
decoram a cidade que habitamos, ou ao contrário, serão eles elementos
históricos, artísticos e culturais que atualizam o passado e lhe dão vida? Com
eles temporalizamos o espaço ou espacializamos o tempo? A resposta tem que ser
forçosamente ambígua, como ambígua é a própria pergunta. Desde M. Foucault
(1979) que se reconhece que os elementos físicos interferem nas classificações
simbólicas da ação social. Ou seja, a cultura material contém um valor
simbólico com conseqüências práticas nas relações sociais. Todavia são
necessárias algumas explicitações neste domínio. C. Mukerji (1994) sustenta que
a divisão entre os elementos físicos e simbólicos se dissipa nos ambientes
socialmente construídos, o que arrastaria consigo um efeito de esbatimento
sobre os respectivos sentidos sociais, nomeadamente os que se referem à
distinção social: “Pontes, canais, caminhos de ferro, estradas e mesmo os
trilhos dos bosques, precisamente porque organizam os movimentos humanos,
contribuem todos eles para a formação (ou não) de laços sociais” (p. 145).
As
relações assim construídas parecem superar os alinhamentos temporais e espaciais,
presentes nos modos de percepção das identidades. Decorreria daqui que toda a
arquitetura da cidade, e desde logo as suas ruínas, monumentos e restante
patrimônio histórico e arquitetônico, estaria para além e acima das relações
sociais diretas que os sujeitos estabelecem entre si. Funcionariam como simples
depósitos de frias e longínquas memórias, desligadas de quaisquer contextos
socialmente significativos, incapazes de dar sentido cultural à temporalidade,
limitando-se a suster, no espaço, resíduos e manifestações de outros modos de
vida (id., ib.).
Não
creio que se possa desprezar o fato de, por se ter tornado espaço público, a
arquitetura histórica e monumental das cidades — por exemplo, edifícios
monumentais, palácios, museus, jardins ou ruínas milenárias — tenha deixado,
por isso, de funcionar como marcador social de distinção. Reservada que foi,
noutros tempos, às diferentes elites sociais que lhe deram uso como barreira
autoprotetora diante do contato com os estratos sociais inferiores, a arquitetura
histórica e monumental das cidades não é socialmente neutra. Por certo deixou
de estar associada ao gosto excêntrico e socialmente seletivo, para o que muito
contribuiu a democratização do seu acesso, em vista da sua nova configuração
como espaço de lazer da cidade. A concomitante perda da sua aura, ainda que
possa contribuir para a destituição desse patrimônio construído do efeito de
diferenciação social, fá-lo só parcialmente e não lhe retira, e eventualmente
até reforçará, a sua capacidade de funcionar como instrumento a serviço de
estratégias simbólicas de autopromoção e de integração social, (7)
sobretudo por parte das classes médias, detentoras de crescentes capitais e
competências culturais.
Esse
argumento é particularmente aplicável ao caso das ruínas milenárias das cidades
históricas. As ruínas das nossas cidades apresentam-se aos indivíduos com uma
dupla qualidade: por um lado, são repositório de outros modos de vida, e por
outro estimulam a construção imaginada do presente. Essa construção reinventada
do presente, feita a partir do fragmento disperso que é a ruína, terá
forçosamente que ser uma construção parcial, feita na medida de sujeitos descentrados.
Isso mesmo decorre do fato de, como assinalou M. Halbwachs (1950), as
comunidades não poderem reconstruir o seu passado coletivo e fazê-lo perdurar
senão através das suas interpretações do presente, pois que se perdeu a
“materialidade estruturante” daquele passado. Por isso mesmo, a ruína da cidade
de hoje é envolvida por uma nova ‘materialidade’, imaginada a partir do
presente, o que confere à memória coletiva não apenas um caráter parcial, mas
sobretudo ‘irreal’.
Aliados
a essa dupla qualidade há dois sentidos em que as ruínas podem ser
interpretadas como sinais do passado no presente. Num primeiro sentido, mais
pessimista, as ruínas ilustram transitoriedade e decrepitude. A sensação de
decadência dos anteriores sistemas de vida e modelos arquitetônicos que as
ruínas patenteiam vem se juntar à perda de confiança e à descrença no conhecimento
contemporâneo (Van Reijen, 1992). Nesse primeiro sentido tudo é, como as ruínas
o mostram, transitório e contingente: as ruínas não representam o passado,
ilustram antes um presente sem futuro, a ser vivido aqui e agora, ao sabor da
satisfação pessoal dos sujeitos.
Num
segundo sentido, mais otimista, as ruínas são realmente fragmentos e sinais do
passado. Ainda que seja um passado imaginado e, por isso mesmo, elas nos
reconfortam tanto pessoal como coletivamente. De acordo com D. Lowenthal, o
conforto do passado, por oposição ao presente e ao futuro, reside em quatro
ingredientes específicos que, por analogia, podem ser adaptados aos sentidos
positivos que as ruínas podem transmitir. Assim, e seguindo Lowenthal (1975,
pp. 52-67), em primeiro lugar, o passado é sinônimo de antigüidade, ou seja,
de proximidade com uma comunidade em que tecnologia e arte, cultura e natureza
se equilibram. A ruína antiga contém esse sentimento de equilíbrio. Em segundo
lugar, o passado é continuidade. Tal como ele, também a ruína nos fala
de um processo de criação cumulativa do qual descendemos e somos herdeiros, o
que transmite segurança pessoal e social. Em terceiro lugar, o finalismo do
passado está também contido no fragmento que é a ruína. Ela é um sinal de
estabilidade, de obra acabada, que nos enche de confiança perante a
incompreensão e a desordem do presente. Por fim, o passado é uma seqüência, um
traço de união entre dois momentos temporais, um aspecto que somos incapazes de
atribuir ao presente. Por isso a ruína nos conforta, porquanto nos ajuda a
ordenar e a tornar entendível esse passado.
Num
pequeno e intrigante texto, Simmel (1959) atribuiu às ruínas essa capacidade de
apaziguamento das consciências dos seres humanos. Sendo uma expressão do
confronto entre a intenção humana e a contingência, para Simmel, a ruína é
principalmente um sinal do conflito entre a natureza e o espírito. Nela se
plasma a ‘vingança’ da primeira diante da violação que lhe infligira o segundo.
Há aqui um ordenamento cósmico que a ruína parece repor, restabelecendo um
equilíbrio nostálgico entre os elementos: a razão e a natureza acima do
espírito e da cultura dos seres humanos.
Dessa
harmonia restabelecida exala uma intensa sensação de paz, que Simmel (1959)
sintetiza da seguinte forma: “O passado, com os seus destinos e transformações,
deixou-se captar, esteticamente, por esse instante perceptível do
presente” (p. 265, destaque meu). Trata-se de uma paz conseguida pela
esteticização do lugar, o que, naturalmente, equivale a dizer que nem todas as
ruínas são apaziguadoras, como diz Simmel: “[Os] restos das colunas espalhadas
pelo chão do Fórum Romano são simplesmente feios e nada mais; enquanto uma
coluna [erguida, ainda que] quebrada — digamos partida pelo meio — pode
revestir-se do máximo encanto” (id., ib.).
“As
colunas espalhadas pelo chão” são sinais, ainda que trágicos, não de um passado
glorioso, mas da decadência política e da incúria dos indivíduos. A cidade
descuidada, os prédios, as ruas e os bairros degradados, os monumentos e o
restante patrimônio abandonado assinalam, para Simmel, não a cidade em ruínas,
mas antes a cultura arruinada. Quando o passado é um destroço, o presente fica
hipotecado e, ainda seguindo o pensamento de Simmel e para lhe fazer merecida
justiça, pode-se dizer que, para salvar o passado e respeitar o presente, será
preciso uma política capaz de manter e preservar o nosso patrimônio e,
persistentemente, “revesti-lo do máximo encanto”.
Reconhecendo
embora algum romantismo no pensamento de Simmel, o que importa reter é que a
paz e a harmonia que exalam da ruína se constituem em indispensável evasão do
presente. Elas podem projetar-nos para fora de nós próprios, para um lugar e um
tempo fantásticos, sem limites, através da nossa “passividade positiva, pela
qual o homem se torna cúmplice da natureza” (id., ib., p. 261).
Nessa
linha de idéias, C. Rojek dá voz a Pierre de Coubertain, o pai dos Jogos
Olímpicos modernos, que, em 1896, inscrevia no seu diário as “supremas
sensações” que as ruínas de Olímpia lhe transmitiram:
Deixei-me ficar a ver o sol
nascer e, logo que os primeiros raios de luz invadiram o vale, apressei-me a
chegar às ruínas. A sua pequenez [...] não me surpreendeu nem me decepcionou.
Era uma arquitetura moral aquela onde eu ia buscar ensinamentos; e eis que ela
se ampliou em todas as suas dimensões. A minha meditação durou toda a manhã.
[...] Por toda a manhã deixei-me andar a divagar por entre as ruínas.
(Coubertain, citação em Rojek, 1993, p. 113).
Retenhamos,
por um instante, as duas dimensões acabadas de referir. Por um lado, a
esteticização do espaço que as ruínas traduzem e nos provoca sensação de paz.
Por outro lado, e articulada com esta, a sua capacidade de suspender o nosso
presente e nos fazer divagar.
Esses
locais históricos, em particular as ruínas, mas também, como veremos em
seguida, os monumentos, são lugares especiais que, como as ‘heterotopias’ de
Foucault (1986), deslocalizam os sujeitos ao mesmo tempo que os fixam num
determinado espaço. Funcionam como uma espécie de espacialização da utopia, ao
poder converter a nossa identidade na nossa alteridade. A paisagem espacial
pós-moderna das nossas cidades está carregada desses lugares. Ao lado dos
monumentos e das ruínas, também os museus, os santuários, os cemitérios; os
estádios ou os hipermercados funcionam, em diferentes graus, como lugares de
deslocalização da personalidade dos sujeitos. (8)
Por
via quer da sua dimensão estética e artística, quer da sua materialidade
arquitetônica, quer do seu simbolismo, esses lugares não se limitam apenas a
parecer templos, eles funcionam como tal. Implicam estados de transitoriedade
da condição social e, sobretudo, dos estados de espírito e das emoções dos
sujeitos. A arte, como a ciência moderna, reconhece que entre o observador e o
observado se estabelecem relações complexas. Observar qualquer coisa é torná-la
objeto dos nossos sentidos, exercer uma influência sobre ela, transformá-la e
consumi-la. Todavia, porque a transformação do objeto é sempre também a
transformação do sujeito, é este que, em última análise, se transfigura no ato
da observação do mundo exterior. Isto mesmo atesta C. Duncan (1991) quando
conclui que os visitantes desses lugares “trazem consigo o desejo e a
capacidade de se transferir para um outro estado de receptividade [...]
e um certo tipo de contemplação e de aprendizagem” (p. 91, destaque meu).
As
ruínas e o restante patrimônio histórico são, portanto, espaços ritualísticos
que suportam a transformação da identidade dos sujeitos, por meio de processos
sociais de liminaridade, como os rituais de passagem estudados por V Turner
(1969). É possível, assim, sustentar que a visita às cidades históricas e aos
lugares do passado representa e pode significar uma passagem, uma transição.
Mas uma passagem e uma transição especiais, já que no seu decurso os indivíduos
se vêem a si próprios e aos olhos dos outros como não tendo nada de seu,
sobretudo não tendo obrigações. Vêem-se e se deixam ver ou se insinuam como
seres sem estatuto, sem propriedade e sem distintivos sociais e,
simultaneamente, com tudo isso. As nossas cidades históricas e do passado, pela
ambivalência interpretativa a que estão sujeitas, são lugares privilegiados
para que nos permitamos divagar por entre seu patrimônio, dando azo à nossa
imaginação, isto é, atuando no sentido da destruição criadora das nossas
identidades.
Isto
não equivale a dizer que a visita ao lugar histórico, como a ruína da cidade,
cumpra integralmente, como o ritual de passagem, uma radical e completa mudança
de condição ou estatuto do visitante. A investigação que tenho vindo a
desenvolver sobre o turismo cultural nas cidades históricas (9) revela
uma fraquíssima incorporação da mensagem histórica das ruínas e dos monumentos
visitados nos discursos dos visitantes, que revelam ficar com uma vaga
consciência da sua presença e do seu papel. Muitos deles estariam mesmo
dispostos a ver alterado o arranjo ambiental e toda a estética circundante
daqueles exemplares do patrimônio, em favor do seu conforto pessoal.
O
que pretendo sublinhar com isto é que a “estimulação dos sentidos”, de que
falava Simmel, a fuga do presente e o refúgio no passado, proporcionados pela
ruína, são profundamente temporários e se baseiam em critérios estéticos, não
substantivos. Terminado o ritual da visita e contemplação, regressa-se ao
presente descentrado do cotidiano. O visitante comporta-se, assim, como
o flâneur, divagando sem destino pelos espaços fantasmagóricos da cidade
e das ruínas, observando e, simultaneamente, cultivando o gosto narcisista de
ser observado.
Por
mais efêmera e superficial que essa atitude pareça, no entanto, seria
totalmente errado que a desprezássemos sem lhe atribuir qualquer significado.
De minha parte, julgo que essa situação revela desde logo uma indiferença
perante a história, o tempo e a memória como constituintes das formações
identitárias na pós-modernidade. Em segundo lugar, creio que é sintomática da
tendência para uma generalizada esteticização do cotidiano e a mercadorização
do próprio tempo e da própria memória. Por fim, julgo que pode ser interpretada
como uma forma de resistência à ordem cultural dominante na modernidade, e hoje
posta em causa, a qual pretendia investir certos espaços — como ruínas,
monumentos ou museus — de uma qualidade de aura particular e socialmente
segregadora, exigindo dos indivíduos uma gestualidade sóbria, recatada e
respeitosa (Rojek, 1993, p. 170), ao lado da aceitação da mensagem oficial
implícita, geradora da sua própria segregação.
Uma
vez mais, sem pretender desenvolver aqui nenhuma dessas razões, não quero
deixar passar a oportunidade para sublinhar que a atitude flâneur do
visitante das ruínas, a sua preferência pelos conteúdos estéticos acima de
quaisquer outros, a livre manipulação que faz do significado histórico da
ruína, porque a faz radicar no (seu) presente e na busca temporária da sua
satisfação pessoal, a que acrescentaria a gestualidade descomprometida,
parecem-me adequados a sustentar a hipótese de que a visita à ruína da cidade é
um ato parcial da carnavalização pós-moderna do cotidiano, semelhante ao que M.
Bakhtin (1984) detectou em mercados e festas medievais da Europa ocidental.
A
transgressão dos sentidos é a palavra de ordem, sobretudo a transgressão da
autoridade, da gestualidade e das narrativas social e simbolicamente
segregadoras. A paisagem urbana pós-moderna é sintomática desse sentido
transgressor. Estou a pensar na própria configuração arquitetônica das nossas
cidades, que se revela uma simbiose, nem sempre feliz, de estilos e de tempos
diversos, senão mesmo antagônicos (Giedion, 1978). O estilo que predomina na
arquitetura urbana de hoje é a mistura dos estilos, numa inusitada demonstração
de variedade estética e de sensibilidade arqueológica. A natureza da paisagem
urbana diversifica-se e as ruínas e outros conjuntos arquitetônicos antigos e
mais amplos, criados com finalidades bem definidas e por classes sociais também
claramente identificadas, mostram-se adaptáveis a épocas distintas, com outras
funcionalidades e exigências e a serviço de outras classes sociais. A procura
dessas justaposições e, portanto a contestação de uma ordem estética e
arquitetônica única própria da modernidade, só se compreende porque o mundo
necessita hoje, à medida que aumenta o “reconhecimento da sua heterogeneidade”,
como diria Spivak (1988), de certificar e tornar visível a sua própria
universalidade.
Se
vivemos numa sociedade e num tempo contingentes e de prova, é perigoso conferir
uma importância excessiva a nossos próprios gostos e à nossa própria época. No
tocante aos arranjos arquitetônicos e à paisagem, aquilo que parece mais
recomendável é, portanto, combinar e coordenar entre si novas possibilidades e
velhos estilos. O passado torna-se, desse modo, tão acessível como o presente,
o que demonstra termos perdido qualquer critério universal da cultura, e
abraçado a “política de campo aberto” que referi acima.
Os
monumentos e o passado indeterminado
Os
monumentos históricos partilham uma série de características com outros lugares
como as ruínas, os bairros antigos, ou os trajetos literário-culturais das
cidades. O seu apelo é dirigido à consciência histórica e contribui, assim,
para a memorialização do passado (Rojek, 1993, p. 194). Porém, os monumentos
revelam uma relação indeterminada com a história. Enquanto um “passeio
na história” ou a visita a um jardim antigo, ou a entrada na velha casa de uma
celebridade política ou literária, ou num velho castelo, são convites à
história vivida onde determinados acontecimentos tiveram lugar, os monumentos
são apenas representações desse passado. No primeiro caso, o passado torna-se
presente de modo direto; no segundo, os monumentos não identificam exatamente o
sítio em que determinado acontecimento terá ocorrido e a relação com o passado
e a história é indeterminada.
Essa
indeterminação torna os monumentos atemporais. Como acontece com a memória
coletiva, que reconstrói o passado a partir do presente, a relação
indeterminada dos monumentos com a história não diminui em nada o seu
dramatismo. O significado social dos monumentos, com origem fora dos próprios
edifícios e construções monumentais, está inscrito nas narrativas que lhes são
apostas, que podem ou não ser aceitas ou recriadas pelos visitantes-consumidores.
Por não existir uma relação direta entre o significado histórico que se supõe
transmitirem e aquilo que significam, os monumentos são, como as ruínas, um
convite à imaginação do passado e, em alguns casos, do presente. Sem ser o
passado, tornam-se uma representação sua. Esse é o princípio fundador da
capacidade de sedução dos monumentos. Como representação, portanto sujeitos a
significados plurais e ambíguos, os monumentos funcionam como ‘textos visuais’
que, qual atributo estético da cidade moderna, não param de “estimular os
nossos sentidos”, como assinalou Simmel.
O
sentido do tempo e da história que os monumentos transmitem, sendo
intrinsecamente ambíguo, é-o mais ainda quando se trata dos monumentos das
cidades-capitais. Aí, o monumento globaliza-se, por assim dizer, e torna-se um
símbolo comunitário, de nacionalidade, ou mesmo civilizacional. Do
particularismo da sua expressão, o monumento pode converter-se num símbolo
agregador de um passado coletivo, ainda que sujeito a ser desigualmente
partilhado. Sendo a globalização, acima de tudo, um reconhecimento coletivo de
particularismos (Santos, 1994), o sentido ambíguo da história total que o
monumento encerra vê-se simultaneamente ampliado e fragmentado nas sociedades
democráticas.
Este
é um corolário do fato de o sentido partilhado da globalidade ou da
nacionalidade ser sempre um sentido múltiplo. Não apenas por a comunidade
nacional — ou, para este efeito, a comunidade global — ser uma
comunidade imaginada (Anderson, 1983), mas principalmente pela “persistente
heterogeneidade” social que esta encerra (Spivak, 1988). Daí que, em contextos
sociais democráticos, se torne particularmente difícil decidir sobre a
iconografia legítima dos monumentos nacionais (Martinius, 1986).
A
ambigüidade dos monumentos se alastra, portanto, à própria identidade política
da sociedade democrática. Na verdade, ao ser construídos para sempre, como
sinais duradouros de eternidade, os monumentos misturam uma criação artística
do passado com a sua memorialização simbólica no presente e o desejo de um
testemunho para o futuro. Ora, o espírito democrático, por natureza um espírito
de risco e de contingência, se relaciona com dificuldade com esse sentido de eternidade
que os monumentos pretendem simbolizar.
Porém
os monumentos, como de resto todo o conjunto do patrimônio histórico e cultural
de uma nação, têm uma função agregadora. Os monumentos não podem, por si,
fomentar relações sociais diretas, de face a face, entre os sujeitos. Quando o
fazem é por meio da sua capacidade de sedução e de excitação dos sentidos dos
que os visitam ou veneram. Como sustenta H. Ferguson (1992, p. 246), a
principal característica da excitação reside no fato de o seu significado poder
ser canalizado entre os indivíduos, sem necessidade de relações sociais
preestabelecidas ou de interconhecimento. Por isso, o esforço de lhe atribuir
um sentido único se revela inglório. Como qualquer objeto mercantil numa
sociedade de consumo, a busca da autenticidade e do exclusivismo dos monumentos
é subvertida, a cada instante, pelo mercado da autenticidade (textos
científicos, guias, folhetos explicativos que lhe são apostos por uma panóplia
de agentes promocionais, quer públicos quer privados) e também pelas tradições
e histórias imaginadas por sujeitos ‘descentrados’ e, last but not least, pela
própria comercialização da cultura.
Anote-se, a este propósito, o processo de
mercadorização a que os monumentos, como outros exemplares do patrimônio histórico,
estão hoje sujeitos. A sua reprodução em postais, guias turísticos, cinema, ou
reportagens televisivas, ainda que os tornem objetos de consumo de acesso
massificado, não se traduz diretamente em sintoma de perda da sua aura. Pode-se
problematizar aqui o conhecido argumento de Benjamin (1992a), de acordo com o
qual a reprodução maciça do objeto artístico elimina o seu valor aurático.
Creio que a sedução que qualquer monumento encerra, resultante de uma simbiose
de elementos físicos e representacionais, por emergir de fatores atemporais,
como o simbólico e o dramatismo da história que pretende revelar, escapa à
situação de anticlímax que a reprodução poderá ocasionar noutras situações. A
reprodução da imagem do monumento é a reprodução do seu elemento físico, não do
seu elemento simbólico e representacional. À sua vista direta, o monumento
conserva um valor de sedução e atractibilidade mais elevado do que advogam os
defensores da tese da perda da aura, admitindo-se que poucos escapam a uma
estimulação mais ou menos forte dos sentidos. Divaga-se quando se olha o
monumento e, como espectadores, somos postos perante um instante dramático
singular que nós próprios nos encarregamos de gerar e de gerir. Não raro,
podemos nos deixar transportar a um universo fantástico de imaginação pessoal,
tanto histórica, como estética ou política.
Ainda
que possamos admitir que o monumento não escapa ao “sentido da igualdade
universal das coisas”, que Benjamin responsabilizava pela perda da aura do
objeto artístico, em meu entender ele conserva um profundo sentido de
encantamento, em tudo semelhante à generalidade dos artefatos consumidos na
nossa sociedade. Tudo ocorre, afinal, como no caso do som, da imagem ou do
texto que, reproduzidos ou citados com freqüência, continuam, por isso mesmo, a
ser objeto do desejo dos respectivos consumidores e sujeitos a uma
incontestável pluralidade de formas de percepção e apropriação.
Museus
e autenticidade
Existe
uma outra dimensão do nosso patrimônio cultural e histórico que merece uma
referência breve nesse contexto. Trata-se do lugar dos museus modernos, tanto
os museus de arte como os histórico-etnográficos e arqueológicos. Os museus têm
uma história recente que começa com o Iluminismo e depois se acelera, dada a
sua multiplicação e variedade, em meados do século XIX. Essa história pode ser
contada nos termos das relações complexas entre o poder político das
instituições, a influência dos seus promotores abastados e os detentores do
saber e da arte, tanto sagrada como profana (Pomian, 1990).
De
modo geral, os museus estão hoje, todos eles, perante uma crise de identidade
que se relaciona diretamente com a sua gradual transformação de espaços
reservados e elitistas em espaços públicos e de lazer. Nessa metamorfose está
contida a perda do sentido paternalista originário com que as classes altas e
médias ‘educadas’ ofereciam o museu às suas congêneres mais
desfavorecidas e iletradas. Mas está também contida, nessa crise de identidade
dos museus, a história da desvalorização cultural do objeto e da correspondente
valorização do discurso e da narrativa.
De
acordo com estudos recentes, a procura de solução para essa crise tem forçado a
revisão dos objetivos e das funções dos museus. A pretensão de servirem à
comunidade, local ou nacional, e ao passado tem sido posta em causa e
substituída por uma outra perspectiva mais individualista e presentista, de
acordo com a qual os museus servem hoje ao indivíduo e ao presente (MacDonald
& Silverstone, 1990). Aquilo que essa deslocação de objetivos, da
coletividade para o indivíduo e do passado para o presente, testemunha é a
ofuscação do cidadão e o surgimento do consumidor. A crise dos museus tem por
isso contornos econômicos, já que não podem se manter vazios de
público/consumidores, e culturais, já que a questão passa por saber como
definir, primeiro, e atrair, depois, um visitante que, sendo um consumidor, é
tão diversificado do ponto de vista social como do ponto de vista dos seus
interesses e motivações culturais.
Como
disse atrás a propósito das ruínas e dos monumentos, também os museus se
confrontam com a tensão entre a individualidade e a universalidade de suas
narrativas e discursos. Como dar resposta a minorias sociais e periferias
culturais é, sem dúvida, um dos principais motivos de preocupação dos
conservadores dos museus. Parte do problema radica na incerteza e na
ambivalência dos nossos critérios classificatórios, já que se chegou a um ponto
em que, para utilizar as palavras de U. Eco (1992), “conceitos como Verdade e
Falsidade, Autêntico e Falso, Identidade e Diferença se definem circularmente
uns aos outros” (p. 217). A questão central da crise atual dos museus é,
portanto, parte integrante do refúgio que a sociedade tem vindo a procurar na
flexibilização dos critérios utilizados para determinar aquilo que é
esteticamente valioso, historicamente significativo ou arqueologicamente
íntegro, para públicos que são social, política e culturalmente diversos
(Merriman, 1991).
A
escolha dos sentidos e significados é hoje individual e negociável de acordo
com as disposições dos sujeitos descentrados. Perante tal “excesso de
sentidos”, e porque os museus são sempre uma coleção, o desafio que lhes é
imposto está em saber como ordenar e dar sentido a seus conteúdos e a suas
funções. Perante a ambivalência dos critérios tudo se tornou hoje
museologizável, tanto as imagens como o som, tanto a ciência como a memória.
Desde
há muito que se centrou sobre essa descontextualização dos objetos museológicos
a crítica sobre os museus (Negrin, 1993). Vistos, nalgumas críticas mais
radicais, como ‘sepulcros da arte’ ou ‘mausoléus da criação’, os museus são
responsabilizados pela ‘petrificação’ quer da história, quer da cultura. Essa
crítica é uma denúncia da sobreposição, quer dos tempos quer dos critérios estéticos
que devem presidir à ordenação daquilo que é exposto. O que está em causa é a
sua autenticidade: “Os museus podem expor ‘objetos reais’, mas uma função da
epistemologia relativista é demonstrar que a autenticidade constitui um traço
não apenas do objeto em si, mas da experiência do próprio sujeito” (MacDonald
& Silverstone, 1990, p. 181).
Outros
modos de exposição da ‘realidade’, como a televisão, constituem um desafio à
autenticidade do objeto exposto e à própria verdade do museu. Não estamos nunca
certos, porque os significados são individualmente negociáveis, sobre aquilo
que é mais ou menos ‘autêntico’, se o objeto exposto num conjunto
taxonomicamente ordenado, ou antes o objeto mostrado no seu contexto prático de
uso, como a televisão é capaz de fazer.
O
objeto exposto no museu está longe de ser apenas um artefato material. Ele é
também e acima de tudo uma narrativa, ou seja, uma história contada sobre nós
próprios ou sobre os outros, o que, como sustentei atrás, se tornou no contexto
radical de descentramento dos sujeitos, uma e a mesma coisa. Precisamente
porque a narrativa é uma descrição, ela não diminui a complexidade do mundo,
antes a amplia. As narrativas contidas nos nossos museus são atos culturais de
possível conversão da vida dos outros, sejam os outros fisicamente distantes ou
historicamente afastados, na nossa própria. Dessa sobreposição de tempo, espaço
e alteridade, a visita aos museus, hoje públicos e acessíveis a todos, é um ato
generalizado de ‘des-diferenciação’ social. Como os objetos expostos, também os
sujeitos se descontextualizam. Julgam-se, por um instante, dominados apenas
pela paisagem estilizada do ambiente e pela sua narrativa sempre manipulável,
em que o passado e o presente se misturam e o futuro não se vislumbra. Esse
ambiente estilizado, de modo semelhante ao espaço da ruína ou do monumento
histórico, é potencialmente libertador das necessidades e equivalente a um
mundo sem limites nem constrangimentos. A esse mundo preside o paradigma da
promessa.
Se
admitirmos que no capitalismo a promessa é fundamentalmente a promessa
econômica e que a sua concretização só se materializa na experiência do
consumo, não nos custará aceitar as razões da crise de identidade dos museus de
hoje. Tornaram-se um espaço de visitação e de contemplação especiais, em que o
público se tornou privado e o coletivo individual. Nos nossos museus de hoje os
visitantes não se limitam a observar. Eles apropriam, a seu bel-prazer, os
sinais, as narrativas e a estilização do ambiente que o museu encerra. Dito de
outra maneira, não creio que seja justa a avaliação feita dos museus pela qual
estes têm uma função menor, porque inautêntica, no panorama patrimonial das
comunidades. Como as ruínas ou os monumentos das cidades, eles são modos
particulares de expressão cultural numa sociedade de sujeitos descentrados, em
busca permanente e criadora das suas identidades. Para esse efeito, os museus
valem tanto como os outros potenciais centros identitários. Para além do mais,
seria de todo incorreto que, por detrás do reconhecimento da dificuldade em
definir o que é a autenticidade dos objetos e dos museus, se escondesse
veladamente a intenção de desprezar o lugar do lazer, da cultura de consumo e
da esteticização do cotidiano que permeiam hoje as nossas cidades. Podemos até
dizer que, com as suas reconhecidas dificuldades taxonômicas de seleção e
atribuição de sentido aos objetos representados, o museu vê revalorizada a sua
função por estar em mais estreita consonância com o universo sociocultural e
político contemporâneo, onde pontuam o parcelar, a transitoriedade e a
ambivalência.
A
ser assim, parece não se adequar à compreensão da ‘crise dos museus’ a análise
feita com base no critério da autenticidade dos objetos que nele se expõem. A
‘realidade’ e a ‘autenticidade’ do museu frutificam apenas se entendidas no
quadro de uma realidade superlativa, imediatista e presentista, em tudo
semelhante ao que Eco caracterizou como ‘hiper-realidade’. Nesta não há saída
nem regresso, e o seu contexto é o da total descontextualização. A identidade
dos museus, como a identidade dos sujeitos, faz-se aqui e agora, no presente e
na experiência. O museu é um mundo fantástico de sensações, como o é o
patrimônio, a cidade e a cultura. Nele entra-se hoje, para tocar as coisas, ver
os objetos, ouvir os sons, cheirar as atmosferas, enfim, construir e dar
sentido à realidade, através da própria experiência sensorial e cognitiva.
Conclusão
Serão
estes sinais de crise ou de renovação dos nossos museus? E, por arrastamento,
estarão os nossos monumentos e ruínas em situação paralela? E que dizer da
cultura? E do patrimônio da cidade? E das identidades? A resposta deve ser
aferida pelo entendimento que tivermos do tempo e do espaço na nossa sociedade.
O que se pode dizer é que estão ambos submersos num mundo de imagens e
representações múltiplas, que interferem com as nossas percepções da realidade.
Muitas dessas percepções são construções fantásticas e, dado que a fantasia foi
sempre um objeto obsceno ou desdenhado pela racionalidade do pensamento social,
a crise, se existe, é deste último. Oposta às categorias de ‘real’ ou de
‘racional’, a percepção imaginativa ou fantasiosa do passado não alcançou nunca
o estatuto ontologicamente mais autêntico que atribuímos ao ‘presente’, no qual
somos convidados a viver, ou do ‘futuro’, no qual somos aconselhados a ter fé.
Marginalizados, o passado e a memória tornaram-se um risco. Por isso, pensar o
passado é um risco. Recordar transporta-nos para outro tempo e, desse modo,
para outro lugar. É nisto que reside o perigo da memória. Se o tempo é um
lugar, o passado é uma terra distante e o nosso receio, uma fuga ao confronto
com o outro. Esta, por sua vez, uma fuga ao encontro conosco próprios. Assim as
nossas ruínas, os nossos monumentos e os nossos museus, enfim, o nosso
patrimônio, são retirados à história e transformados em paisagem esteticizada.
Tudo o que é estético é hoje mercadorizável e consumível. Dessa transfiguração,
retiram os indivíduos suprema satisfação, deixam-se estimular nos seus sentidos
e entontecer. O passado e os lugares das nossas cidades tornaram-se mercadorias
e a exaltação do seu consumo dificilmente nos permite distingui-los de uma
feira. Nas nossas cidades sem limites, em que para sobreviver é preciso nos
deixarmos perder, não há saída nem regresso. Não podemos sequer antecipar o
futuro como pretendiam os camponeses alemães que buscavam a sua libertação nos
“ares da cidade”. Podemos quanto muito ter que nos resignar a viver neste
presente, revestindo-o sempre, e de modo persistente, do “máximo encanto”.
NOTAS
*. Com alterações de pormenor, este texto reproduz a comunicação
apresentada ao Colóquio “Economia & Cultura”, organizado pela Lisboa 94 —
Capital Européia da Cultura (Lisboa, novembro de 1994), tendo inicialmente sido
publicado em Cultura e Economia, no 4 da coleção “Estudos e
Investigações” do Instituto de Ciências Sociais (Lisboa) coordenada por Maria
de Lourdes Lima dos Santos, a quem agradeço a autorização para esta reedição
(Santos, 1995).
1. Schumpeter (1975) caracterizou a evolução do
sistema capitalista como estando sujeita a uma “revolução permanente, feita a partir
de dentro, da sua estrutura produtivo-organizativa que, incessantemente,
destrói a sua antecessora e dá origem a uma nova” (p. 83, destaque do
original). A isto corresponde o seu conceito de destruição criadora, cujos
componentes principais são, como se sabe, a introdução de novos produtos, a
abertura de novos mercados, a constituição de novos modos de organização e a
presença de um espírito empresarial de risco (id., ib.).
2. Estou a pensar numa enorme variedade desses
discursos. Para dar alguns exemplos, atente-se, nas atuais avaliações, ao lugar
da razão, dos sentimentos e do prazer na vida social; a condição de
subalternidade dos sujeitos e as narrativas coloniais sobre a radicalização das
identidades; as releituras sobre as geografias e as comunidades imaginadas, os
seus limites e fronteiras; a esteticização e dramatização do cotidiano e a
importância do elemento visual e imagético sobre a linguagem escrita e falada;
o debate sobre a realidade e os pseudo-acontecimentos; a sociedade de risco e a
ambivalência dos nossos critérios de classificação.
3. “Não conhecer bem os percursos de uma
cidade”, afirma Benjamin, “não tem muito que se lhe diga. Perder-se, no
entanto, numa cidade, tal como é possível acontecer num bosque, requer
instrução” (Benjamin, 1992b, p. 115).
4. A imagem da cidade como teatro é desenvolvida
em detalhe por D. Chaney (1993). Na origem da espectacularização da cidade, o
autor destaca um elemento tísico (a reconstrução e recuperação dos centros das
cidades) ao lado de um elemento performativo (a dramatização das relações
sociais em que os próprios agentes se tornam estranhos ao drama que eles
próprios representam). (pp. 71 e ss.).
5. O homem e a mulher nômades são, para G.
Deleuze e F. Guatari, historicamente estacionários, já que se movem num
ambiente sem fronteiras nem direções seguras. “O nômade, afirmam os autores, move-se
num espaço maleável; ele ocupa, habita, domina esse espaço; esse é o seu
princípio territorial. Por conseguinte é falso definir o nômade pelo movimento
[...] o nômade é, pelo contrário, todo aquele que não se move” (Deleuze &
Guatari, 1986).
6. Nessa ação radical de autonegação, são os
próprios sujeitos que se tornam estranhos a si próprios, uma situação a que
Trinh T. Minh-ha (1991) chamou de anarquia da diferença. A autora
pretende assinalar a resistência dos sujeitos a qualquer definição rígida da
sua identidade e a escolhas ‘territoriais’ únicas. Preferimos sempre,
argumenta, adotar uma atitude de maior flexibilidade quando se trata de nos
tornarmos outros e aderirmos a uma multiplicidade de “comunidades de
resistência” e a combinações de subjetividades radicais a continuarmos a ser
nós próprios.
7. Adiante, ao abordar o lugar dos monumentos na
cultura urbana, voltarei a essa questão da perda da aura, que, como se sabe,
foi desenvolvida originalmente por W Benjamin (1992a).
8. Noutro lugar tive já oportunidade de analisar
o modo como o próprio ato peregrínico pode exercer essas mesmas funções de
deslocalização das identidades de modo prolongado. Ao longo do percurso, os
sujeitos suspendem temporariamente o sistema de relações sociais e respectivas
vinculações e valores (societas) e estabelecem outros novos,
transgressivos e opostos aos primeiros (communitas), sobre os quais
exercem um controle pessoal mais direto (Fortuna & Ferreira, 1992).
9. Trata-se de um estudo sobre o impacto
turístico e os modos de relação dos visitantes com o patrimônio histórico das
cidades de Évora e Coimbra, integrado numa investigação coletiva sobre “Turismo
e cultura em Portugal: Quatro estudos sobre mentalidades, práticas e impactos
sociais”, patrocinado pela JNICT e levado a cabo no Centro de Estudos Sociais.
Parte dessa investigação foi já tornada pública e nela se assinalam os
mecanismos de mercadorização do tempo e do espaço a que os visitantes se
entregam, nomeadamente através da manipulação do sentido dos ambientes
históricos e monumentais que visitam (Fortuna, 1994).
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