REESTRUTURAÇÃO
PRODUTIVA NOS ANOS 90
Aspectos
do contexto internacional no setor de serviços (*)
Sônia
M.G. Larangeira
O objetivo deste artigo é
levantar algumas questões relacionadas à reestruturação produtiva e à
qualificação, no contexto dos anos 90, principalmente a partir do exame de
estudos recentes da realidade dos Estados Unidos e de alguns países europeus.
Atenção especial é dedicada ao setor de serviços, particularmente no que se
refere ao setor bancário, embora o tema seja também considerado em sua
expressão mais geral.
Em relação à preocupação com
o setor de serviços caberia destacar que, apesar de sua crescente relevância
não só em termos de emprego, mas também de capacidade de geração de valor
econômico — como atesta a presença econômica marcante dos ramos financeiro, de
seguros, de telecomunicações e de computação, entre outros —, o mesmo não tem
merecido nas Ciências Sociais e Econômicas a devida atenção dos estudiosos,
especialmente no Brasil, sendo considerado uma dimensão secundária diante da
importância atribuída ao setor industrial.
Tal entendimento teria sua
origem na obra de Adam Smith, The Wealth of Nations, de 1776, que
caracteriza o setor de serviços, ao contrário do industrial, como setor
improdutivo; essa tese, adotada por Marx, influenciou fortemente as análises
subseqüentes. Derivaria daí a idéia de que no setor de serviços ocorre a forma
acabada de trabalho ‘alienante’, “o oposto das ‘necessidades’, e ‘capacidades’
essenciais dos seres humanos, formalmente definidas em termos de habilidade
para ‘fazer coisas’” (Allen & Gay, 1994, p. 264). O ritmo de crescimento do
setor industrial até os anos 60 contribuiu para sustentar a tese de que o setor
industrial seria o único capaz de garantir o crescimento de uma economia moderna.
É indiscutível, no entanto,
o impacto de alguns ramos estratégicos do setor de serviços na própria produção
industrial, como é o caso das telecomunicações e dos serviços de computação.
Torna-se, pois, necessário
reconhecer a identidade do setor de serviços, deixando de considerá-lo um
simples apêndice do setor industrial. Um dos aspectos particulares do setor de
serviços seria o de que consumo e produção interpenetram-se criando uma relação
intrinsecamente ligada à dimensão econômica — facilmente observável, por
exemplo, no trabalho bancário ou no comércio, em que elementos como,
comunicação, confiança, aparência atribuem valor ao produto, garantindo a
lucratividade: “Se o produto esperado pelo consumidor inclui elementos tal como
aconselhamento por ocasião de uma compra, então o trabalho não é apenas um
fator de custo de produção, mas está integrado ao valor do produto” (Child
& Loveridge, citado em O’Reilly, 1994, p. 89).
Neste caso, analisar a
reestruturação no setor de serviços não significaria apenas considerar os
impactos da reestruturação sobre o trabalho, mas, sobretudo, considerar a
reestruturação do trabalhador (Halford & Savage, 1995, p. 101).
Impõe-se, assim, o estudo
das especificidades do setor de serviços, evitando a simples transposição de
conclusões válidas para o setor industrial. No entanto, ao estudar o setor de
serviços, é preciso considerar sua grande diversidade, evitando generalizações
apressadas.
O presente artigo se divide
em duas partes: na primeira, são apresentados, de forma breve, aspectos do
debate recente sobre qualificação; na segunda, a questão é abordada no contexto
do setor bancário, destacando as diferenças quanto a estratégias gerenciais e a
sistemas de formação e treinamento.
Debate atual
O debate sobre qualificação
se mantém constante na Sociologia do Trabalho, nas três ou quatro últimas
décadas, sem que no entanto se chegue a um consenso acerca dos resultados
observados. A ausência de consenso decorre de uma série de fatores, entre os
quais se destacam: aspectos de ordem teórica (pressupostos que fundamentam a
explicação do social, como a relevância dos princípios de dominação, exploração
e controle, ou de consenso e negociação); aspectos de ordem metodológica
(formas e critérios de aferição do fenômeno); aspectos de ordem propriamente
política (perspectiva otimista, ou pessimista/catastrofista do desenvolvimento
social). Nesse sentido, caberia citar a afirmação de Penn et al. (1994, p. 12):
[...] ao examinar processos de mudança, observadores
apressados podem destacar as perdas e minimizar os ganhos ou, ao contrário,
destacar os ganhos e minimizar as perdas. Quando perdas ou ganhos são esperados
teoricamente, tais riscos tendem a crescer [...] os que defendem a tese
acerca da degradação do trabalho não têm dificuldade em apresentar exemplos
significativos de perdas [...] seus oponentes podem, da mesma forma, dar
exemplos que aparecem como ganhos. À medida que ambas as perspectivas insistem
em priorizar dados selecionados de acordo com os respectivos pressupostos, o
debate estará condenado a um impasse [destaque do original].
Apesar dessas dificuldades,
tem havido um crescente esforço dos pesquisadores no sentido de alcançar um
maior refinamento na conceituação e no tratamento dos dados, permitindo, assim,
um maior grau de objetividade nas discussões.
A preocupação com a melhor
definição do fenômeno permitiu, de um lado, chegar a distinguir algumas
questões centrais, tais como as de que as mudanças na qualificação decorrem de
processos nem sempre inter-relacionados, que afetam: a definição de
funções/postos de trabalho; os métodos de desempenho de funções/postos de
trabalho; e também a própria divisão do trabalho que, por sua vez, define a
parcela da população que terá sua qualificação elevada ou, ao contrário,
degradada. Por outro lado, no nível propriamente metodológico, os estudos de
caso característicos dos anos 70 e 80 têm sido complementados por surveys
que cobrem uma proporção significativa da população ocupada em diferentes
setores econômicos e em diferentes ramos de atividade. Os estudos baseados em
dados quantitativos, embora menos específicos em relação à natureza das
mudanças, oferecem possibilidades de avaliar de forma mais abrangente os
resultados obtidos, ao permitir uma visão mais extensa do que está ocorrendo e
destacando as desigualdades, não só de ordem econômica (em relação, por
exemplo, ao tamanho da empresa, à natureza do produto, ao mercado a que se
destina ou às estratégias gerenciais), mas também de ordem societal, expressa
em valores sociais, políticos e culturais.
As discussões mais recentes
retomam com vigor o debate acerca da qualificação, apresentando, contudo, um
certo deslocamento de foco em relação ao debate dos anos 80, cuja preocupação
esteve muito voltada para os efeitos sociais da automação. Hoje, a preocupação
é avaliar as condições de trabalho, especialmente no que se refere à
qualificação, no contexto da reestruturação produtiva, cujos eixos principais
se encontram nas novas formas de uso e gestão da força de trabalho — que, por
seus princípios definidores, tenderiam a favorecer a elevação da qualificação
do trabalho.
Tal argumento se sustenta
com a constatação de que cada vez mais são utilizados preceitos básicos para a
qualificação, entre os quais: definição mais ampla e extensa das tarefas a
serem executadas; maior flexibilidade funcional, permitindo integração de
funções; delegação de iniciativa a trabalhadores em níveis hierárquicos
inferiores; difusão de atitudes de aceitação à mudança, incentivando o
constante aperfeiçoamento profissional.
O resultado de diversos
estudos recentes aponta uma tendência à elevação da qualificação em todas as
ocupações, entre homens e mulheres. A experiência de desqualificação seria
rara, mesmo considerando todas as classes de ocupação, sendo que a elevação da
qualificação refletiria o crescimento das ocupações com maior demanda de
qualificação (Gallie, 1994, p.75).
Hoje parece haver um certo
consenso no sentido de reconhecer que o imperativo das pressões de
concorrência, na medida em que tende a exigir participação e envolvimento de
uma mão-de-obra bem-formada e em aperfeiçoamento constante, contribuiria para a
elevação geral da qualificação. Esta, por sua vez, apresentaria alterações de
conteúdo: por exemplo, a responsabilidade, que anteriormente se baseava no
comportamento (esforço, disciplina), hoje se manifestaria pela tomada de
iniciativa (assegurar a continuidade do processo); a expertise, anteriormente
baseada em experiência, hoje residiria no conhecimento (identificar e resolver
problemas); a interdependência, anteriormente seqüencial (postos precedentes e
subseqüentes), hoje seria sistêmica (trabalho em equipe, interdependência de
funções e de níveis); a formação, anteriormente adquirida de uma só vez, hoje
seria permanente, com atualização freqüente (Adler, 1987, p. 298).
Uma análise mais apurada dos
ganhos de qualificação, no entanto, define melhor o sentido daquelas
conclusões, indicando, antes, a existência de uma polarização.(1) Estudo
realizado na Grã-Bretanha (Penn et al., 1994), utilizando dados amostrais
representativos da população economicamente ativa entre 20 e 60 anos,
abrangendo os mais diferentes tipos de ocupação e utilizando dados
quantitativos e qualitativos, oferece uma acurada visão do que ocorre naquele
país, constituindo uma fonte de reflexões para o exame de outras situações.
Segundo os autores, os
resultados gerais da investigação apontariam a tendência de ganhos modestos em
relação ao aumento de qualificação e responsabilidade, na maioria das
ocupações, embora muito poucas tenham sido seriamente afetadas por um processo
de desqualificação e apesar de muitas ocupações novas requererem pouca
qualificação. Dessa forma, a tendência ao aumento de qualificação não
significaria o desaparecimento de funções com baixa ou nenhuma qualificação.
Nesse sentido, os autores afirmam que, em termos relativos, os que já se
encontravam em posição desvantajosa tenderiam a perder ainda mais, ocorrendo o
contrário à medida que se verifica a ascensão na hierarquia ocupacional.
Os principais beneficiários
do processo de qualificação teriam sido os empregados do setor de serviços,
independente de gênero, desde que desempenhando funções em tempo integral (id.
ib., p. 9). Em relação a tal conclusão, é preciso considerar a heterogeneidade
do setor de serviços: se, de um lado, há uma tendência à distribuição geral
mais elevada quanto à qualificação, de outro há uma tendência à polarização e à
superqualificação, sugerindo que o fator condicionante do nível de qualificação
no setor seja a estrutura das funções, e não a qualificação individual.
Um aspecto interessante
evidenciado pelos resultados se refere ao fato de a automação/ informatização
constituir um fator de elevação da qualificação, já que os ganhos em
qualificação seriam menores entre os que não a utilizam.(2)
O estudo mostra, também, o
crescimento de funções complexas (gerenciais, profissionais ou técnicas)
tendo os homens como maiores beneficiários, já que a mulher, em situação de
igualdade no início da carreira, perde essa condição ao constituir família e se
afastar, ainda que temporariamente, do mercado de trabalho (Penn et al., 1994,
p. 10).
Em relação à questão de
gênero, o estudo conclui que as mulheres que trabalham em tempo integral teriam
maior probabilidade de ocupar funções que exigem qualificação equivalente às
funções em geral desempenhadas por homens do que as mulheres que trabalham em
tempo parcial. Gallie (1994, p. 72) afirma que, excluindo os trabalhadores de
tempo parcial, as diferenças de gênero desaparecem. Nesse sentido, a
experiência de qualificação das mulheres não seria motivada pela segregação de
gênero, mas pelo peso das obrigações familiares, que lhes impõe o afastamento
do mercado de trabalho; o retorno ao trabalho muitas vezes ocorre em tempo
parcial e em funções com menor exigência de qualificação.
Em termos gerais, haveria
uma evidência significativa de que o número de mulheres com orientação
profissional, assumindo cargos e funções gerenciais, está crescendo. Essa
constatação parece uma tendência no setor bancário; segundo alguns, isso
poderia ser explicado pelo próprio processo de reestruturação, que teria
contribuído para alterar a cultura do setor bancário, passando de uma cultura
austera e predominantemente masculina para uma cultura de ‘vendas’, que
redefine o papel do antigo gerente. Hoje, as mulheres atenderiam de forma ideal
às qualidades básicas requeridas para a função de gerente de agências
bancárias, como acessibilidade, comunicabilidade e visibilidade. Isso poderia
explicar a ascensão das mulheres em cargos gerenciais específicos, ou seja, os
que demandam qualidades ‘femininas’ (Halford & Savage, 1995, p. 106).
A conclusão, porém, seria
que não há discriminação de gênero em relação a funções gerenciais, cumpridas
as exigências de desempenho, o que, em geral, se torna inconciliável com as
obrigações familiares exigidas das mulheres.
Caberia, portanto,
investigar quais as tendências privilegiadas pelas novas estratégias
organizacionais: antigos padrões de hegemonia masculina, baseados em
competitividade, carreirismo e produtivismo, ou padrões emergentes que
valorizam qualidades como comunicabilidade e sociabilidade, que tenderiam a
favorecer as mulheres? O mais provável é que o primeiro seja o padrão ainda
vigente para o desempenho de funções de direção, enquanto o segundo valeria
para os níveis que requerem contato com o público.
Outro resultado interessante
descrito no estudo acima referido (Penn et al., 1994) diz respeito à
perspectiva subjetiva dos trabalhadores no que concerne à definição de
qualificação: os trabalhadores tenderiam a valorizar os aspectos técnicos, em
detrimento de definições mais arbitrárias. Para a maioria dos entrevistados, o
trabalho qualificado seria definido pela responsabilidade do trabalhador no
desempenho da função, tendo adquirido habilidade para tanto por meio de
preparação técnica sistemática. Tal perspectiva corroboraria a versão feminista
de “definição social da qualificação”, já que desconsideraria as capacidades
tácitas, adquiridas informalmente e que costumam ser requeridas em funções
‘feminizadas’.
O estudo mostra ainda que a
elevação da qualificação desempenha papel importante no aumento do
comprometimento do trabalhador: à medida que cresce o nível de qualificação, a
ética do trabalho seria reforçada. Essa tendência se refletiria também na
situação das mulheres no sentido de que, ocupando funções qualificadas em tempo
integral, tendem a demonstrar maior inclinação profissional, e assim deixa de
haver diferença entre o comportamento de homens e de mulheres, em relação ao
comprometimento com o trabalho.
Um dado surpreendente
apresentado pelo estudo é que, a despeito da elevação da qualificação e do
comprometimento que daí decorre — diferentemente do que poderia se esperar
—,não houve um aumento significativo do treinamento formal.
A tentativa acima, de
apresentar alguns pontos da discussão referente aos efeitos da reestruturação
econômica sobre a qualificação, serve para nos alertar acerca do grau de
complexidade da questão. Nesse sentido se impõe o afastamento de generalizações
simplistas; ao contrário, se exige que o fenômeno seja considerado em sua
multidimensionalidade, examinando a diversidade de fatores — técnicos, sociais,
políticos e ideológicos — que interferem na definição do problema. Como bem
afirma Vallas (1990, p. 392):
A tecnologia realmente altera o ambiente de
trabalho; como parte da cultura humana, a tecnologia é moldada por valores e
ideologias — especialmente os dos poderosos. Uma importante área de pesquisa
diz respeito aos efeitos recíprocos entre ideologia e tecnologia [destaque do
original].
No entanto parece que, pelo
menos nessa fase ainda inicial do processo, os aspectos
sócio-político-culturais assumem relevância na definição das implicações da
reestruturação no que se refere ao uso e à gestão da força de trabalho.
A reestruturação no setor
bancário
Os estudos de caso têm sido
eloqüentes em demonstrar as diversas estratégias de reestruturação adotadas em
diferentes países que compartilham o mesmo nível de desenvolvimento econômico,
tecnológico e de conhecimento em relação aos métodos de organização do
trabalho.
Tomando como exemplo o caso
do setor bancário, os estudos comparativos são bem ilustrativos. Comparando
estratégias de reestruturação adotadas em bancos de vários países — Estados
Unidos, Grã Bretanha, França e Alemanha —, os estudos mostram significativas
diferenças de abordagem (Keltner, 1995; O’Relly, 1994).
Nos Estados Unidos e na Grã
Bretanha, a reestruturação nos bancos em geral enfatiza como estratégia de
mercado a aquisição de clientes, ou seja, os bancos se esforçam para oferecer
baixos preços e facilidades crescentes na prestação de serviços, como forma de
atrair clientes. O crescente investimento em automação visa cumprir tal
objetivo. A adoção dessa estratégia se reflete na organização do trabalho. Os
bancos americanos dão preferência à mão-de-obra de tempo parcial. Segundo
Keltner (op. cit., p. 56), no início da década de 90, a agência típica de
bancos americanos contava com cerca de 50 por cento de empregados em tempo
parcial. O objetivo seria reduzir custos, bem como ajustar de forma eficiente
os níveis de emprego e de flutuação de demanda de atendimento. Nessa
perspectiva, o treinamento passa a ser considerado um gasto, e não um
investimento, e por isso se mantém em níveis reduzidos. O recrutamento para
preencher cargos mais qualificados é feito no mercado externo. Tal estratégia
é, naturalmente, acompanhada de alta rotatividade de empregados, e estes, sem
perspectiva de carreira, possuem baixo comprometimento com a empresa. A alta
taxa de rotatividade impossibilita a criação de redes de informação que
poderiam ampliar os negócios do banco.(3)
Contrariamente à estratégia
de ‘aquisição de cliente’ observada nos Estados Unidos, a Alemanha optou pela
estratégia de ‘cultivo de cliente’. Tal estratégia supõe altos investimentos em
capital humano, visando consolidar a relação do banco com o cliente pela
qualidade do atendimento e pela estreita relação do cliente com o funcionário.
O pressuposto, portanto, é que os ganhos de competitividade estão relacionados
com a qualificação dos funcionários, na medida em que estes deveriam
desenvolver habilidades abrangentes — profissionais e sociais —,capazes de
manter a fidelidade do cliente. Não interessaria, portanto, promover o aumento
da aquisição de clientes, como nos Estados Unidos, mas a manutenção de uma base
estável de clientes que aumentassem seus investimentos, graças a uma assessoria
financeira competente oferecida pelo funcionário, cuja atribuição seria manter
estreitos laços com determinados clientes e se transformar em instrumento de
vantagem competitiva. Essa estratégia está relacionada com as mudanças que
ocorrem na preferência dos consumidores alemães em termos de serviços
bancários, com a redução de contas correntes e o crescimento de produtos como
investimentos e seguros (Keltner, 1995, p. 46). Nesse tipo de estratégia os
investimentos em treinamento são altos e, em conseqüência, a qualificação se
eleva (essa questão será abordada adiante). A ênfase no mercado interno de
trabalho contribui para a estabilidade no emprego e para o comprometimento com
a empresa.
Outro estudo interessante do
processo de reestruturação nos bancos examina as estratégias utilizadas na
Grã-Bretanha e na França (O’Reilly, 1994). Em ambos os países se apresentam
mudanças que enfatizam a orientação comercial. A estratégia comum de mercado
não seria suficiente para garantir similaridades na organização do trabalho.
Na Grã-Bretanha a racionalização é realizada com
base na maior segmentação de tarefas, o que favorece a contratação em tempo
parcial, ao mesmo tempo que reduz as exigências de maior escolarização no
recrutamento, assim como a preocupação com formação e treinamento. Em
conseqüência se reduzem também as expectativas relativas a profissionalização e
comprometimento com a empresa.
Na França a situação é
distinta: a ênfase é dada à integração de tarefas (o caixa, por exemplo, se
torna cada vez mais um agente de negócios, comercializando uma série de
serviços financeiros) e isso favorece a elevação do nível de qualificação. A
estimativa quanto ao número de empregados bancários com diplomas universitários
na França, em 1995, correspondia a 31 por cento, e na Grã Bretanha a proporção
era de 1 a 3 por cento (id. ib., p. 81). Na França a estratégia adotada seria
elevar o nível de pessoal recrutado, na expectativa de contratar empregados com
melhores possibilidades de adaptação a futuras mudanças. Em conseqüência., os
gastos com formação e treinamento são muito mais expressivos na França do que
na Grã-Bretanha (esta questão será tratada adiante). O nível de escolarização
dos empregados é uma variável fundamental para a análise da questão da
qualificação: quanto maior a escolarização, maiores serão as expectativas dos
empregados em relação a suas carreiras; esse fator pode afetar positivamente a
decisão gerencial relativa à organização do trabalho, já que o nível de qualificação
e de expectativas dos empregados não poderá ser totalmente frustrado.
É interessante notar como as
diferenças socioculturais influenciam o modo pelo qual serão tomadas as
decisões referentes à organização do trabalho. Por exemplo, nos casos acima
mencionados, uma variável importante — a regulação do emprego — difere
significativamente nos dois países: na França, ao contrário da Grã-Bretanha, as
relações de trabalho estão sujeitas a estrito controle legal, o que obriga os
empregadores a utilizar a flexibilidade de maneira formalizada, pela
contratação por tempo determinado.(4)
Por outro lado as atitudes
também são distintas, nos dois países, por parte dos candidatos a empregos,
especialmente no caso das mulheres — candidatas mais prováveis a empregos de
tempo parcial e por tempo determinado. Na França, possuindo nível mais elevado
de escolaridade, as mulheres teriam também maiores expectativas de realização
profissional (favorecidas por amplo suporte de atendimento infantil) e seriam,
portanto, pouco atraídas por empregos de tempo parcial e contrato temporário.
Por outro lado, no caso dos bancos, a estratégia empresarial de manter o
cliente por meio do contato contínuo com o funcionário seria também um
obstáculo à utilização do trabalho temporário.
Ao contrário, na
Grã-Bretanha, as mulheres apresentariam menor nível de profissionalização
(menor escolaridade e ausência de sistema efetivo de atendimento infantil) e se
mostrariam dispostas a assumir empregos em tempo parcial e por tempo
determinado, ao retornar ao mercado de trabalho quando se liberam mais das
obrigações domésticas (O’Reilly, 1994, pp.132-3).
Em relação à subcontratação,
esta é utilizada: 1) para funções não-bancárias (alimentação, limpeza,
segurança), tendo em vista reduzir custos com pessoal; 2) para enfrentar picos
de demanda (por exemplo, em relação à compensação de cheques, função labour
intensive e de baixa qualificação); 3) para funções que tendem a
desaparecer em um futuro próximo; e 4) para a obtenção de qualificações
específicas que demandam altos salários e treinamento oneroso: Também em
relação à subcontratação ocorrem particularidades: na França a subcontratação é
utilizada principalmente para atender à variação no fluxo de trabalho (a
descentralização de certos serviços bancários — por exemplo, compensação de
cheques — pode acarretar, em razão de alterações conjunturais ou mudanças
locais, fortes flutuações no fluxo de trabalho, o que não ocorreria na
Grã-Bretanha, onde o sistema de compensação de cheques é centralizado).
Pelo que se expôs acima se
conclui que as estratégias gerenciais não decorrem apenas da livre escolha da
gerência. As escolhas são condicionadas por inúmeros fatores sociais, tais como
a natureza do sistema educacional e de formação profissional, das atitudes e
valores da força de trabalho, das relações industriais e da regulação do
emprego. Os gerentes, portanto, ao tomar suas decisões, tendem a considerar
outros agentes sociais — o Estado, os sindicatos, os empregados. A natureza das
decisões dependerá da relação de força que se estabeleça entre os atores em
questão. Quanto mais forte for o poder de barganha de empregados e sindicatos,
maior será a necessidade de negociação para a implantação das novas formas de
organização do trabalho; ao contrário, quanto mais fraco o poder daqueles, mais
livres estarão os empregadores e gerentes para se pautarem predominantemente
pela racionalidade do lucro. Este é um pressuposto fundamental e deve,
portanto, orientar a análise do processo de reestruturação, na conjuntura
atual.(5)
A despeito das distinções de
estratégia gerencial, decorrentes em grande parte de especificidades societais,
também existem semelhanças: no caso dos bancos, considerando a realidade da
França e da Grã-Bretanha, pode-se apontar a presença da flexibilidade em
relação ao local de trabalho. Em ambos os países é utilizado o deslocamento de
funcionários, entre agências ou entre regiões, por períodos curtos de tempo —
por horas, por um dia ou mais — tendo em vista suprir demandas emergenciais de
pessoal. Na França, a flexibilidade de local pode ser uma condição para a
promoção, com base no argumento de que a mesma garantiria maior experiência no
desempenho das funções. Todavia, como argumenta O’Reilly (1994), a
flexibilidade de localização não supõe elevação da qualificação e do
treinamento, podendo ser equiparada à flexibilidade numérica, geralmente
associada apenas com a intensificação do ritmo de trabalho. Dessa forma, a
flexibilidade numérica também seria encontrada no contexto francês — no qual é
expressiva a presença da integração funcional e do enriquecimento de tarefas.
Nessa perspectiva perde sentido a formulação de modelos dicotômicos —
flexibilidade numérica versus flexibilidade funcional —,tal colmo sugerem
alguns autores.
Relacionada às questões
acima debatidas — estratégias de reorganização do trabalho e qualificação —,
emerge a questão da configuração e do funcionamento dos mercados de trabalho
interno e externo.
As organizações possuem estruturas bem-definidas
quanto à reprodução de sua força de trabalho, o que pode ser alcançado de
diferentes formas. Quanto maior for a necessidade de contar com força de
trabalho qualificada e comprometida, maiores serão as probabilidades de
existência de um mercado de trabalho interno com ênfase na oportunidade de
ascensão profissional.
O mercado de trabalho
interno pode se estruturar: 1) em uma só hierarquia de funções, cuja porta de
entrada está no degrau inferior da hierarquia; ou 2) em conjuntos
hierarquizados e independentes de ocupações, permitindo a entrada em cada
conjunto, a partir do mercado externo. Ainda que um ou outro tipo predomine, a
tendência é a existência simultânea dos sistemas (Rubery, 1995, p. 210).
Diferentes critérios são
utilizados para a promoção no mercado interno de trabalho: tempo de serviço,
competição formal ou outros critérios, como mobilidade geográfica e/ou
treinamento adicional. O número de degraus existente na hierarquia, que pode
ser mais ou menos extensa, indica também formas distintas de incentivo à
carreira, pelo reconhecimento de qualificações que se traduz em formas de
pagamento.(6)
A predominância de um modo
de gestão que vise a competição e a lucratividade tende a se afastar de
sistemas de promoção baseados em tempo de serviço, em benefício de critérios
mais individualizados e negociados localmente (Petit & Vernières, 1990,
p.14). A nova tendência nos sistemas de promoção se reflete também na
estruturação dos sistemas de remuneração, que evoluem no sentido de uma maior
flexibilidade, deixando, portanto, de atender apenas ao objetivo de manutenção
do poder de compra para se tornar um fator de motivação. Dessa forma, os
sistemas de remuneração não poderiam continuar regidos por regras precisas,
definidas em convenções coletivas A política salarial tende a se tornar flexível,
aumentando o percentual do salário baseado no mérito individual pela atribuição
de pontos que concedem prêmios individuais, baseados em produtividade,
resultados e objetivos. A individualização em forma de prêmios tende a ser
seletiva, no sentido de atribuir maior percentual de remuneração às categorias
que ocupam funções mais graduadas (Dejonghe & Gasnier, 1990, pp.44-5).
No entanto; apesar da
existência de certas tendências, é preciso considerar as diferenças decorrentes
de particularidades nacionais. Na questão das diferenças relacionadas com o
mercado de trabalho em bancos, alguns exemplos são ilustrativos. Na França, bem
como na Alemanha, há uma tendência a adotar o sistema padrão de recrutamento no
nível inferior da hierarquia, estabelecendo promoções por tempo de serviço
dentro do mesmo nível, e por mérito na passagem entre os níveis. Na
Grã-Bretanha, tal como nos Estados Unidos, predomina o sistema de recrutamento
segmentado: a entrada em níveis mais altos está associada à maior qualificação
e se realiza a partir do mercado externo. Os sistemas francês e alemão, com
ênfase no mercado interno de trabalho, mantêm baixos os índices de rotatividade
dos trabalhadores e estimulam o investimento em treinamento, favorecendo a
elevação da qualificação e da qualidade dos serviços. Os sistemas britânico e
norte-americano, ao contrário, favorecem de um lado a alta rotatividade — já
que, como salienta Keltner, os ocupantes das funções mais qualificadas,
recrutados no mercado de trabalho externo, em geral são jovens e sempre
dispostos a buscar oportunidades mais atraentes. De outro lado, desestimulam um
melhor desempenho dos demais funcionários, que vêem as oportunidades de
mobilidade ocupacional como inexistentes ou muito restritas (Keltner, 1995, p.
68).(7)
Caberia ainda referir que os
sistemas de promoção e de mercado interno de trabalho têm diferentes impactos
discriminatórios sobre a força de trabalho, especialmente ao se considerar a
questão de gênero: as formas de promoção a altos postos pelo sistema de tempo
de serviço são menos discriminatórias para as mulheres que permanecem no
emprego, como na França, mas desfavoráveis para as mulheres que têm carreira
descontínua, como na Grã-Bretanha. O sistema por mérito pode ser desfavorável
para as mulheres, por eliminar a promoção automática, embora possa, de outro
lado, criar oportunidades mais rápidas de mobilidade ocupacional (Rubery, 1995,
pp. 214-21).
Por último, embora
constituam a tendência atual, os sistemas de incentivos e prêmios por
desempenho individual anteriormente descritos não foram adotados na Alemanha,
em grande parte por oposição dos conselhos de trabalhadores, que condenam o
sistema, por considerarem injustas e desagregadoras as bases sobre as quais são
estabelecidos os critérios de premiação (Keltner, 1995, p.58).
No contexto da discussão
acerca das novas condições de competitividade e de suas implicações em relação
à qualificação e à política de recursos humanos em geral, restaria ainda
referir um dos fatores cruciais, ou seja, a política de formação e de
treinamento. Nessa questão se observa que as diferentes estratégias de
competitividade — com base na qualidade, ou na simples redução de custos —, e as
diferentes formas de organização do trabalho que daí decorrem, se encontram em
grande parte associadas a distintas concepções em relação a políticas de
educação e de formação, em cada sociedade.
A Alemanha, por exemplo, possui um sistema bem
desenvolvido de formação profissional e de treinamento, acompanhado de um
sistema de normas e valores culturais que privilegia a qualificação formal.
Essa característica tem origem na industrialização tardia do país que, de certa
maneira, manteve a tradição de pequenas empresas de fabricação artesanal, com
alto nível de competência técnica. O Estado, por sua vez, teve importante papel
na preservação dessa tradição, integrando o sistema de formação profissional ao
sistema de educação nacional, bem como regularizando e controlando as
definições ocupacionais. A formação profissional é obrigatória e tem duração de
cerca de três anos num sistema dual, que contempla a aprendizagem teórica e
prática. Essa formação é complementada por treinamento mais especializado
quando o empregado ingressa na empresa. Esse sistema de formação se estende ao
setor de serviços (Lane, 1987, p. 63).
Em relação aos bancos, a
maioria dos empregados graduados possui formação profissional específica, mas
continua a receber treinamento na empresa, voltado para as demandas da função.
Em termos ocupacionais, há uma clara distinção entre os que completaram a
formação profissional e os que não o fizeram, embora estes tendam a desaparecer
à medida que desaparecem as funções rotineiras que desempenham (Rubery, 1995,
p.213).
Tal sistema, como se
salientou anteriormente, favoreceu a elevação da qualificação entre os
empregados em bancos: segundo Keltner (1995, p. 58), o percentual de
escriturários na Alemanha caiu em 13 por cento no período de 1982/91, enquanto
cresceu o percentual de empregados em funções de consultoria financeira e de
gerência.
Na França, por inspiração do
modelo alemão, foi criado, em 1986, o Centre de Formation de la Profession
Bancaire, com o objetivo de ministrar cursos destinados à formação profissional
a interessados potenciais na carreira bancária (quatro meses de estudos,
complementados por um período de treinamento em agências bancárias). Tal como
na Alemanha, o acesso ao treinamento na França é aberto a todos os empregados,
que tendem a se beneficiar do treinamento à medida que aumenta o nível de
escolaridade exigido para o recrutamento; assim, adquirem qualificações úteis
para sua ascensão profissional (O’Reilly, 1992, p. 387).
Na Grã-Bretanha, onde não se
desenvolveu um sistema de formação profissional oficial, a mão-de-obra é menos
qualificada em termos de escolaridade e de treinamento que na França e na
Alemanha. Embora exista grande variedade de cursos técnicos especializados (em
escolas públicas e privadas), a maioria oferece treinamento de caráter restrito
em termos de duração e de conteúdo, sem uma real formação ocupacional. A
ênfase, portanto, é no treinamento adquirido on the job, no local de
trabalho, a partir dos interesses específicos da empresa. No caso dos bancos, o
acesso ao treinamento é limitado e expressa uma nítida polarização da força de
trabalho — os empregados administrativos e os que se preparam para a carreira
gerencial. Também se deve registrar a existência de discriminação contra as
mulheres no que se refere ao acesso a treinamento. Como afirma O’Reilly (1992,
p. 386): “Os homens têm uma carreira, as mulheres fazem um trabalho” (“Men
have career and women do a job”).(8)
Nos Estados Unidos, à medida
que os bancos aderem a políticas de redução de custos, reforçando a estratégia
de emprego em tempo parcial, tendem também a minimizar os custos com
treinamento, desenvolvendo cursos de curta duração (períodos de um ou dois
dias, ou no máximo de uma ou duas semanas, dependendo da função) on the job.
Para as funções que exigem maior qualificação, a alternativa é o
recrutamento externo. Em comparação com o conjunto de bancos da Alemanha, cujos
gastos com treinamento no período entre 1980 e início da década de 90 chegariam
em média a 6 por cento do total de pagamentos e salários, os bancos nos Estados
Unidos teriam um dispêndio duas a três vezes inferior (Keltner, 1995, p.57).
A despeito das diferenças
que caracterizam a natureza das políticas de formação e treinamento, se deve
considerar que o grau de envolvimento das empresas em termos de investimento
nessa área afeta a valorização do trabalhador: quanto maior o investimento da
empresa em treinamento, maior será seu interesse em dar incentivos para manter
no emprego o trabalhador treinado; quanto mais restrito for o treinamento,
maior será a dependência do trabalhador em relação à empresa. O fortalecimento
de uma política de treinamento e formação tende a favorecer o desenvolvimento
do mercado interno de trabalho.
Em relação à realidade
brasileira, poderíamos referir o estudo por nós realizado em um banco estadual
(Larangeira, 1994), a partir do qual se chegou à conclusão que, contrariamente
ao que ocorrera no momento inicial do processo de automação, o momento
posterior mostrava uma tendência à elevação do nível de qualificação dos
funcionários. Tal tendência se evidenciava, por exemplo, na desmontagem das
chamadas centrais de serviços, cuja estrutura obedecia a uma organização
taylorista do trabalho, bem como na desmontagem do setor de entrada de dados,
constituído por grupo expressivo de digitadores — nas duas seções predominavam
as mulheres. Nas duas situações, a eliminação de funções rotineiras e monótonas
foi facilitada, e mesmo exigida, pelo novo sistema de automação on-line, que
permitiu a descentralização daquelas tarefas. No caso estudado, a disposição de
não dispensar funcionários (por ser um banco estadual) levou ao desenvolvimento
de um programa de retreinamento e realocação. Independente dos setores para os
quais foram transferidos, todos os funcionários envolvidos naquela operação
experimentaram uma elevação de sua qualificação. O processo de realocação foi
também acompanhado de um ambicioso projeto de treinamento, ampliando
significativamente não só o número de pessoal atingido, mas também o número de
horas/aula por curso ministrado.
Outro dado significativo diz
respeito à alteração do percentual de funcionários envolvidos em funções de
‘retaguarda’ (menor qualificação) e em funções de ‘vanguarda’ (maior
qualificação). Os percentuais, que eram de 78 por cento na retaguarda e 22 por
cento na vanguarda (documento interno do banco pesquisado sobre Automação
Bancária, 1989), foram revertidos. As novas funções de vanguarda tendem hoje a
predominar nas agências bancárias, atendendo principalmente à área mercadológica
em expansão, o. que, por sua vez, exige maior qualificação.
A nova organização do
trabalho no banco pesquisado — respondendo à situação de alta competitividade —
tinha como objetivo privilegiar o melhor atendimento ao cliente. Nesse sentido,
buscava alcançar maior flexibilidade funcional, estimulando o rodízio de
funções, bem como propondo a integração de áreas e de atividades, o que
pressupunha maior capacitação dos funcionários, principalmente no que dizia
respeito à aquisição de novas habilidades, oferecendo maior autonomia no
desempenho de funções. A estratégia gerencial foi no sentido de combinar maior
produtividade com maior capacitação, favorecendo o desenvolvimento na carreira,
em vez de simplesmente preencher um lugar de trabalho — como anteriormente era
usual.
Em pesquisa miais recente,
realizada em bancos privados com o objetivo de analisar a implantação dos
programas de qualidade total (Larangeira, 1995), ficou evidente antes de tudo,
pelo menos em um dos bancos investigados, a expressiva redução de pessoal e, em
conseqüência, a intensificação do ritmo de trabalho (em um dos bancos se exigia
jornada de trabalho mínima de 10 horas). Os investimentos em treinamento se dirigiam
ao segmento gerencial e se voltavam muito mais para a aquisição de valores e
atitudes que para a aquisição de conhecimentos técnicos, embora as exigências
de escolaridade para recrutamento de pessoal fosse elevada, com exigência de 3o
grau, mesmo que incompleto.
Nos casos acima, a decisão
acerca de novas formas de organização do trabalho resultou da iniciativa
gerencial, sem que os trabalhadores ou suas organizações sindicais tivessem
nenhuma interferência. Também se observou entre os funcionários um certo
conformismo quanto à situação de trabalho (com exceção da questão do número de
horas trabalhadas, que consideravam exagerado).
Quanto às relações de
gênero, se constatou a tendência à elevação da qualificação da força de
trabalho feminina. A ênfase no treinamento e na maior integração de funções — o
que tende a elevar a qualificação — não discrimina a mulher. Ao contrário, o
que foi possível observar é que a busca de maior produtividade e eficiência
tende a ignorar diferenças sexuais, desde que a mulher esteja empenhada e
disponível para competir.
Considerações finais
As questões acima
comentadas, extraídas de estudos recentes realizados nos Estados Unidos e em
países europeus, bem como de pesquisas realizadas no Brasil, conduzem a algumas
conclusões que poderão ser mais bem exploradas, constituindo hipóteses para
trabalho futuro:
NOTAS
* Este artigo é uma versão
revisada do texto apresentado no 4° Congresso Luso-Afro-Brasileiro realizado no
Rio de Janeiro (2 a 5 de setembro de 1996). Para sua elaboração contamos com o
apoio decisivo do Capes, da Fulbright Commission e da Propesp/UFRGS.
1. Osterman (1995) chegou a conclusão semelhante em sua pesquisa sobre
organização do trabalho e níveis de qualificação em empresas norte-americanas.
Segundo o autor, “há uma crescente desigualdade na distribuição das
qualificações” (Osterman, 1995, p. 131).
2. Tal constatação, adverte Gallie (1994, p. 65), não deve sugerir
adesão a qualquer tipo de determinismo tecnológico. A automação contribuiria
para acelerar a reorganização do trabalho em novos moldes, elevando o nível de
responsabilidade e de motivação dos empregados, bem como, em certos casos,
elevando também o poder de barganha dos trabalhadores.
3. As características do trabalho bancário nos Estados Unidos descritas
acima se apresentam como tendências gerais, sendo que certas empresas se
afastam delas. Ilustrativo é o caso do Citibank, que passou de um modelo
altamente centralizado, organizado a partir de funções bem delimitadas e de
alcance restrito, para um modelo baseado na descentralização e no
enriquecimento de funções (Appelbaum & Batt, 1994, pp. 107-8).
4. A chamada Lei Auroux,
promulgada pelo governo socialista em 1982, introduziu uma série de alterações
no antigo Código do Trabalho, criando e/ou ampliando instâncias de negociação,
favorecendo a maior participação dos trabalhadores e concedendo aos
trabalhadores de tempo parcial os mesmos direitos dos trabalhadores de tempo
integral. No caso dos bancos, a nacionalização promovida por De Gaulle no
pós-guerra contribuiu para criar um contexto peculiar (algumas privatizações
foram efetivadas no governo Chirac, em 1986, e desde então outras privatizações
são esperadas). Na Grã-Bretanha, os direitos dos trabalhadores são determinados
pelo tempo de serviço, independentemente do tipo de contrato, temporário ou
permanente.
5. Caberia destacar que nos dois países referidos, França e Inglaterra,
os sindicatos de bancários se encontram enfraquecidos, entre outras razões,
pela forte oposição das empresas e pela ausência de mobilização dos empregados,
motivada em parte pelos altos índices de demissão causados pela extensa
informatização.
6. A hierarquia, em locais de trabalho predominantemente femininos,
tende a ser mais comprimida que em locais onde predominam homens, expressando a
tendência a menores oportunidades de ganhos salariais para as mulheres (Rubery,
1995, pp. 212 e 217-8).
7. A taxa de rotatividade no setor bancário norte-americano é bem elevada,
mantendo-se numa média de 35 a 50 por cento ao ano; na Alemanha, essa taxa é de
7 por cento (Keltner, 1995, p. 67).
8. A disparidade de valores entre França e Grã-Bretanha quanto a
investimentos em treinamento pode ser avaliada comparando os percentuais de
gastos de um banco regional francês e de um banco regional britânico: o banco
francês despendia 7 por cento da folha de salários, e o banco britânico apenas
2,5 por cento (Bernoux et al., citado em O’Reilly, 1992, p. 387).
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