RESENHAS
Assentamentos rurais
Leonilde MEDEIROS, Maria Valéria BARBOSA, Mariana Pantoja FRANCO, Neide
ESTERCI & Sérgio LEITE. Assentamentos rurais; uma visão
multidisciplinar.
São Paulo, Unesp, 1995. 329 páginas.
Maria de Nazareth Baudel
Wanderley
Personagem invisível ou
personagem perigoso
Duas imagens retiradas do mais fundo da
História do Brasil renascem neste fim de século, assumindo uma atualidade
impressionante. A primeira é a percepção que os viajantes tiveram dos camponeses,
com os quais cruzavam nos caminhos do antigo sertão brasileiro. É a imagem do
estranhamento.
Como afirma Carlos Rodrigues Brandão, “(...) o
lavrador, o’caipira’, o `sertanejo’ são uma gente. Nem nação nem comunidade,
nem cultura, são o que existe à beira do caminho por onde passa o viajante que
os vê, nunca os sujeitos até onde se vai, como se ia ao índio” (Brandão, 1984).
Foi assim, como uma “sombra coletiva”, que a imagem desses camponeses caboclos
nos foi legada.
E sombra assombrosa, assustadora. Para
Saint-Hilaire (1940), por exemplo, os caboclos “são homens rudes, ignorantes e
estúpidos” (p. 94). E ele acrescenta: “Esses homens, embrutecidos pela
ignorância, pela preguiça, pela falta de convivência com seus semelhantes e,
talvez, por excessos venéreos prematuros, não pensam: vegetam como árvores,
como erva do campo” (p. 95).
Das trilhas dos viajantes às tendas dos
acampamentos dos sem-terra nas estradas atuais, se repete a dificuldade para
ver e entender, a surpresa e o espanto com a própria existência desses
brasileiros diferentes, de aparência rude. De onde vieram? Quem são? Como se
organizam? Que força representam?
Foi preciso que muitas mortes acontecessem
(outras ainda virão?) para que os “sem-terra” deixassem de ser, eles também,
“uma sombra coletiva”, vagamente percebida nos acampamentos das beiras de
estrada, nas marchas para as cidades e nas ocupações das terras abandonadas,
cujo potencial produtivo, social, cultural e político a sociedade insiste em
desperdiçar.
A segunda imagem nos vem de Canudos. É a do
inimigo a combater. Com efeito, há cem anos, as Forças Armadas brasileiras
iniciavam uma guerra - dolorosa e inglória - contra camponeses sem terra.
Antes, como agora, se trata de uma “guerra de extermínio”, expressão que a própria
CNBB já utilizara em seu documento sobre a terra no início dos anos 80.
É, mais uma vez, espantosa a incapacidade das
forças dominantes - e incluo aqui também parte da intelectualidade - para
compreender o que estava então e está hoje se passando na sociedade. Nos nossos
dias, a agricultura não já foi modernizada? Nós já não implantamos o progresso
no meio rural? Os brasileiros não são hoje em sua grande maioria homens da
cidade? Não se diz, na academia, que a questão agrária foi devidamente superada
pelo capitalismo? Exterminados em Canudos, o que fazem hoje numa paisagem
“modernizada” esses herdeiros de Antônio Conselheiro? Que significado pode ter
para esse povo o acesso a um pedaço de terra? Justifica-se lutar até à morte
por essa terra?
A fronteira
do moderno
Muito já se falou e escreveu sobre os efeitos
transformadores da modernização da agricultura. Segundo seus defensores, a
agricultura gestada no Brasil sob os auspícios do Estado teria suplantado, em
trinta anos, o arcaico padrão de produção até então dominante, se tornando por
conseguinte efetivamente moderna.
Nesse novo patamar, as insuficiências do
abastecimento são vistas como dificuldades pontuais e passageiras; quebras de
safra são imputadas a intempéries, fora de qualquer controle. O modelo
implantado passa a ser justificado por uma verdadeira ideologia da
modernização, para a qual as grandes plantações de cana-de-açúcar de São Paulo
constituem o ideal paradigmático.
Ora, uma agricultura moderna é, antes de tudo, aquela que resolve, do ponto
de vista da sociedade moderna, a questão da propriedade fundiária, isto é,
aquela que põe a propriedade a serviço da produção. E é isso, justamente, o que
faltou completar na chamada modernização conservadora da agricultura
brasileira, que manteve em seus fundamentos a estrutura fundiária herdada dos
tempos coloniais.
Sob a imagem seletiva das empresas rurais, uma
outra imagem se esconde e se protege: a do latifúndio, essa forma arcaica que
há mais de trinta anos o Estatuto da Terra pretendeu eliminar. Com efeito, o
Cadastro do Incra, elaborado em 1992, informa que mais de 65 por cento das
terras no Brasil são apropriadas sob a forma de latifúndios. O mesmo Cadastro
informa, igualmente, que existem no País 185 milhões de hectares de terras -
correspondentes a 40 por cento da área aproveitável - boas para a agricultura,
que são desperdiçadas e deixadas improdutivas pelos seus donos, pouco
comprometidos com as exigências modernas da produção agrícola.
Nesse contexto, o Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem-Terra, com suas ações de ocupação de propriedades improdutivas, põe
o dedo na ferida, revelando à sociedade o “atraso” que se reproduz no interior
mesmo da agricultura considerada moderna.
Além de não ser tão moderna como quer se fazer
passar, a propriedade da terra no Brasil está associada à desigualdade social,
que tem sido a marca registrada do modelo brasileiro de desenvolvimento. A
vivência de uma extrema precariedade econômica, social e política no meio rural
está na origem da trágica errância de parcela importante da população, sem lugar na sociedade brasileira. A pobreza absoluta e a
desintegração do tecido social, das quais a violência é uma expressão, bem como
os limites ao exercício pleno da cidadania, nascem no meio rural e impregnam
toda a sociedade.
“A reforma agrária no Brasil consiste, precisamente, no resgate da
terra das mãos de especuladores, que a esterilizam, para atribuir-lhe vocação
produtiva. E os brasileiros interessados em fertilizá-la com seu próprio
trabalho são hoje uma legião.” Assim definida, a reforma agrária constitui um
dos processos de alcance mais profundo na sociedade brasileira e os
assentamentos rurais - com todas suas deficiências, tensões e contradições -
são hoje a expressão do caminho socialmente assumido desse processo.
Assentamentos
rurais: uma visão multidisciplinar
Em 1992 se realizou no Rio de Janeiro um
seminário que reuniu cerca de sessenta pesquisadores desse tema, de todo o
Brasil. O livro que é objeto desta resenha contém os trabalhos apresentados nessa
reunião, divididos em cinco partes.
As duas primeiras partes refletem sobre o
contexto político do início dos anos 80, que favoreceu, não sem grandes
dificuldades e contradições, a retomada da luta pela reforma agrária e a
emergência de diversas iniciativas de assentamento de trabalhadores rurais,
contexto marcado pela eleição de governadores de oposição, lutas pela
democratização, eleição direta para presidente da República, primeiros anos da
Nova República e trabalhos da Assembléia Constituinte.
Os textos apresentados são de grande interesse
para compreender o reaparelhamento do Estado, as forças em conflito e a
redefinição da reforma agrária como uma política pública, tanto na esfera
federal quanto no âmbito estadual.
No interior dos aparelhos estatais - os textos
da segunda parte se referem especificamente a Rio de Janeiro, Espírito Santo e
São Paulo -,onde se entrecruzam forças políticas heterogêneas, alguns espaços
são abertos, tais como novas secretarias especiais, quase sempre ocupados por
defensores da reforma agrária. Vale lembrar que muito desses quadros tinham uma
trajetória intelectual e puderam refletir sobre suas experiências em diversos
livros e artigos desde então publicados (cito em especial: Palmeira, 1989;
Silva, 1987 e 1989; Ribeiro, 1987; e Veiga, 1990).
As partes seguintes tratam mais diretamente das
questões políticas, sociais e econômicas gestadas pela própria dinâmica da
implantação dos assentamentos rurais. Em primeiro lugar, reflexões sobre o papel
exercido pelos chamados “mediadores” dos movimentos sociais: além de partidos
políticos, organizações não-governamentais, igrejas, os textos consideram
também alguns personagens, líderes de movimentos cujas trajetórias pessoais
“podem ter contribuído para o desenrolar dos movimentos”. Falas diversas
circulam, em todos os sentidos: da construção do discurso - quando os
mediadores falam para os trabalhadores, explicitando seus projetos e suas
utopias - à representação - quando os mediadores falam pelos trabalhadores,
apoiando-os em suas reivindicações e na construção de seus projetos.
A ação dos mediadores é uma questão central,
cuja análise é hoje necessária à compreensão de qualquer movimento social. Como
afirma Regina Novaes (p. 183), “o estudo dos assentamentos rurais pela sua
atualidade e diversidade de atores e instituições sociais envolvidas pode ser
um locus privilegiado para fazer avançar esta reflexão”.
Na seqüência (quarta parte) o livro aborda as
questões referentes aos processos de organização no interior dos assentamentos.
As formas de cooperação no trabalho e de divisão dos resultados da produção, o
lugar da família, os laços de vizinhança, as relações com a cidade, o exercício
do poder internamente, a representação externa; estas são apenas algumas das
dimensões da construção de um espaço de vida e de trabalho. Nesse ambiente tão
complexo, que é um assentamento, onde tudo deve ser começado desde o começo, se
encontram - carregando experiências, valores e projetos diversos - indivíduos e
famílias, antes reunidos na luta pela terra. Espaço de construção/desconstrução
de utopias, às vezes pouco visíveis do exterior.
A esse respeito, me permito transcrever a
narração de uma visita a um assentamento paulista, com a qual Maria Conceição
D’Incao ilustra, de forma extremamente eloqüente, a presença (recriação) do
“velho sonho” da terra. “No final da tarde, quase anoitecendo, observava-se o
colorido pálido da paisagem. O horizonte limitado pela poeira da terra seca,
recém-preparada para o plantio; os terraços inacabados, aguardando a ajuda
estatal que só se completaria na próxima entressafra... Teria valido a pena
tanta luta? (...) E enquanto se refletia sobre esse conjunto desorganizado de
impressões, um trabalhador se aproximou e, olhando na mesma direção, perguntou:
parece um sonho, não?” (D’Incao, 1991).
Finalmente, na última parte se aborda a
avaliação econômica desse processo. Três dimensões são privilegiadas pelos
autores aqui reunidos: o grau de comprometimento dos poderes públicos com a
implantação do assentamento, que se traduz na aplicação eficaz dos instrumentos
de política agrícola e na montagem efetiva da infra-estrutura nos
assentamentos; as escolhas dos próprios agricultores, no que se refere aos
modelos de agricultura a ser adotados e à capacidade de cada assentamento se
integrar à dinâmica dos mercados dos seus produtos.
Esse é, a meu ver, um aspecto sobre o qual
ainda temos muito que aprender. As contribuições apresentadas nesse seminário,
que complementam os resultados discutidos em reuniões anteriores, reforçaram
meu sentimento de que é necessário ainda “afinar” nossos instrumentos de
análise, no sentido de definir os critérios que permitam compreender os
objetivos dos produtores assentados, apreender as estratégias por eles adotadas
- estratégias que, diga-se de passagem, não são apenas econômicas - e
interpretar corretamente os resultados alcançados.
Pela forma como foi organizado, este livro não
se destina apenas aos especialistas e aos interessados diretamente no tema. Ao
colocar a questão da reforma agrária como um dos embates políticos da
atualidade, ele certamente interessará aos estudiosos do Estado e das forças
políticas, em seu sentido mais amplo; ao refletir sobre o processo de luta pela
terra e pela concretização de projetos individuais e coletivos, se torna uma
leitura recomendável aos pesquisadores dos movimentos sociais; a implantação
dos assentamentos coloca aos economistas a necessidade de pensá-lo como um novo
espaço de produção, no qual se entrecruzam as formas de produzir camponesas com
as exigências da agricultura moderna. Trata-se, de fato, de uma visão
multidisciplinar, de um objeto social, que começa a sair da “sombra”.
BIBLIOGRAFIA
BRANDÃO, Carlos Rodrigues.
(1984), “Ideologia das classes subalternas”, in A.Y. Paulino et al., Revisão
crítica da produção sociológica voltada para u agricultura, pp. 184-97. São
Paulo, Asesp/Cebrap. .
SAINT HILAIRE, Auguste. (1940),
Viagem à Província de São Paulo. São Paulo, Livraria Martins.
PALMEIRA, Moacir. (1989), “Modernização,
Estado e questão agrária”. Estudos Avançados 3, 7: 87-103. USP
SILVA, José Gomes da. (1987), Caindo
por terra: crises da reforma agrária na Nova República. São Paulo, Busca
Vida.
_________________. (1989), Buraco
negro: a reforma agrária na Constituinte de 1987/88. R. de Janeiro, Paz e
Terra.
RIBEIRO, Nelson de F. (1987), Caminhada
e esperanço da reforma agrária: a questão da terra na Constituinte. Rio de
Janeiro, Paz e Terra.
VEIGA, José Eli. (1990), A
reforma que virou suco: uma introdução ao dilema agrário do Brasil. Petrópolis,
Vozes.
D’INCAO, Maria Conceição.
(1991), “A experiência dos assentamentos: contribuição ao debate político da
reforma agrária”. Lua Nova 23: 83-106.
MARIA DE NAZARETH BAUDEL WANDERLEY é professora de Sociologia Rural no
Departamento de Sociologia da Unicamp.
A sociologia da modernidade
Peter WAGNER, A
Sociology of Modernity. Liberty and Discipline.
Londres, Routledge,
1994, 283 páginas.
José Maurício Domingues
Muito já se escreveu na tentativa de caracterizar
o mundo deste final de século XX. De defesas, como em Habermas, do
prosseguimento do projeto da modernidade, a perspectivas pós-modernas, muitas
são as posições em choque. Mais recentemente, outras contribuições vieram se
somar ao debate. Peter Wagner se coloca no centro desses novos esforços
teóricos. Em uma obra informada pela teoria social e por intenções normativas
declaradas, ele realiza uma fina e abrangente análise histórica das
metamorfoses da modernidade e do projeto moderno.
Wagner se ocupa das práticas alocativas,
“autoritativas” e de significação que estruturam a modernidade (reconhecendo a
lacuna de não tratar de práticas militares e reprodutivas - sexuais e de
organização da família). Ele aplica uma abordagem derivada em parte da teoria
da estruturação de Giddens - destacando a capacidade humana de lidar com regras
que, através de sua reflexividade, se tornam simultaneamente recursos -, embora
enfatize, em particular, fenômenos ligados à “agência coletiva” e,
especialmente, a necessidade que as coletividades manifestam, ao buscar a
construção da ordem, de estabelecer fronteiras, práticas e simbólicas, de
pertencimento e exclusão. “Ofensivas modernizadoras”, geralmente desencadeadas
pelas elites, mas também levadas a cabo por setores subalternos, respondem
pelos avanços da modernidade e pelo estabelecimento e difusão de suas práticas.
Ele quer descartar totalmente a idéia de “desdobramento de processos e
lógicas”, acentuando que o mundo humano é por nós mesmos criado, a despeito de a
reificação das relações sociais freqüentemente ocorrer após se transformarem
nossas criações em instituições. A estruturação da vida social se realiza
através de “convencional izações” - padrões de comportamento - e
“formalizações” - reinterpretações do mundo. Estas últimas o classificam
separando-o em categorias que tendem a se fazer abstratas e emprestam rigidez à
ação; elas descansam sobre a crença na possibilidade de conhecer e controlar a
sociedade por meio de cálculos exatos, moldando-a em parte à sua imagem.
Inovações, contudo, permanentemente mudam essas estruturas e práticas sociais.
O “desencaixe”, que se acentua com a modernidade, dos indivíduos e das
coletividades de contextos que provêm identidades sólidas demanda uma atividade
criativa constante, de modo que essas identidades em ruína sejam substituídas
por outras adequadas aos novos contextos.
A Europa fornece o foco para a análise de
Wagner. Os Estados Unidos - onde a modernidade foi sempre menos “organizada” - e,
ainda em menor escala, a URSS e o Leste Europeu - onde a organização da
modernidade foi radicalizada- comparecem secundariamente à sua narrativa.
Central em seu argumento é a idéia que a modernidade é marcada pelo desdobrar
de um mesmo projeto, que é definido, na esteira conceituai de Castoriadis, a
partir da “significação imaginária da modernidade”. Esta se calca na idéia de
“liberdade e autonomia” que demanda, como complemento, a pulsão na direção de
um “controle racional” do mundo. A liberdade e a autonomia humanas, desde o
início centrais para o discurso ilustrado, implicavam uma crescente abertura do
espaço de contingência na vida social. Rapidamente, todavia, a questão da ordem
se mostrou fundamental. A tematização contraditória de ambas entretece a
evolução da modernidade, que Wagner periodiza em torno a quatro momentos: a
“modernidade liberal restrita”, seu primeiro estágio, floresceu no século XIX e
foi seguida de uma crise de grande monta, que abriu caminho para uma
reorganização geral das práticas sociais; tem-se, então, o estabelecimento da
“modernidade organizada”, que se insinua nos anos 90 do século XIX, se afirma
após a Segunda Guerra Mundial e se cristaliza, começa a se esgotar e é
contestada nos anos 60 e 70; finalmente, vivemos hoje a segunda crise da
modernidade, cuja solução se patenteia ainda em aberto.
A modernidade se apresentou, em seus inícios,
como bastante excludente - suas instituições levavam a uma “contenção da utopia
moderna”. A necessidade de imposição de uma ordem racional no mundo, em termos
práticos e simbólicos, erigiu fronteiras estritas, que colocaram a natureza, o
selvagem, os trabalhadores e as mulheres fora dos limites da civilização. O
Estado foi proposto como agência privilegiada para a instauração da ordem (e Wagner
não discute realmente a organização do mercado capitalista), a qual requereu um
controle crescente sobre os grupos excluídos, no mesmo movimento que realizava
sua incorporação e, portanto, ampliava o escopo e a penetração da modernidade
na sociedade. A introdução do sufrágio universal e de políticas sociais foram
momentos-chave nesse processo. A emergência do movimento operário, em
particular, levando a uma perda da crença das elites na auto-regulação da
sociedade e a novas demandas sociais, se acha na base do espocar da crise da
“modernidade liberal restrita”. Nesse processo, o Estado teve sua importância
apenas acentuada. Se a primeira etapa da modernidade reivindicava liberdade
irrestrita para os indivíduos, os movimentos que lutavam por hegemonia no entre-guerras
propunham, em proporções variadas, reduzi-la. Chegou-se, assim, à organização
da modernidade, que a fez correr por leitos “mais previsíveis” e, realizando
“reencaixes”, possibilitou o “crescimento de certezas”. Subjacente a tal
programa estavam, contudo, hierarquizações e exclusões.
De fato, maior estabilidade foi alcançada entre
1890 e 1960. A segunda revolução industrial levou a uma homogeneização de
tecnologias, ao surgimento dos oligopólios e da grande empresa taylorizada e ao
protecionismo econômico, assim como, bem recentemente em muitos casos, da
chamada “sociedade do trabalho” - sendo que Wagner não reputa o fordismo como
fenômeno particularmente relevante para a organização da sociedade. A
“democracia organizada” contava com partidos de massa que, antes que
“representar” a vontade do eleitorado, a canalizavam para temas e escolhas
tidas como razoáveis pelas elites políticas; por seu turno, o Estado do
bem-estar se assentou na previdência social (de modo a evitar riscos) e em um
processo de “coletivização” que atribuiu lugares bem-definidos às pessoas, de
acordo com ocupação, idade e estado civil, sob a vigilância, contra desvios, da
burocracia estatal; práticas de representação cognitiva e simbólica que
apontavam para uma realidade uniforme e ordenada eram supostas pela organização
das instituições sociais. Deve-se destacar ainda a ocorrência de uma aliança
entre intelectuais e elites políticas. A partir dos anos 60, todavia, a
realidade se alterou. A globalização levou a mudanças nas práticas alocativas,
à crise do keynesianismo e ao declínio de identidades nacionais e de classe,
embora as idéias de flexibilização, pluralização ou instabilidade captem apenas
um aspecto de processos desiguais e contraditórios - uma vez que a expansão de “convencionalizações”
típicas da modernidade organizada continua a se realizar, sobretudo em termos
globais. De qualquer modo, não sabemos onde a “segunda crise da modernidade”
desembocará. Se “desregulamentações”, um certo recuo do Estado e incipientes redefinições
das fronteiras entre aquele e a sociedade civil são visíveis, não se encontram
coletividades do porte do Estado-nação e das classes sociais, no período
anterior, capazes de propor abrangentes reorganizações da modernidade. A crise
no sistema e no pensamento políticos se aprofunda, uma certa “revolução
cultural” - o maior legado dos movimentos de 68, celebrando a pluralidade e a
diversidade sociais - se desdobra; e a idéia de representação cognitiva e
simbólica da sociedade se mostra problemática. O resultado mais palpável desse
processo é a perda de confiança na “inteligibilidade” e na “administrabilidade”
do mundo: com a dissolução da ordem, uma aceitação da contingência se faz
inescapável, malgrado, por vezes, nossa vontade. A despeito de suas limitações
normativas, e de fechar prematuramente o debate, o pós-modernismo se apresenta
como uma forma de consciência dessas mudanças sociais.
A sofisticação conceituai, o nível de detalhe e
a força do argumento de Wagner são indiscutíveis. Ele enfrenta galhardamente as
discussões e os nós górdios do debate, escapando de ciladas e simplificações.
Sua posição é, evidentemente, bastante modernista e, em grande medida,
tributária do Iluminismo, conquanto rejeite, a meu ver corretamente, a
reificação da modernidade que nos anos 60 assolou a universidade e o senso
comum, o que hoje infelizmente se repete. A modernização social é vista dentro
de um quadro aberto e necessariamente inacabado, mesmo que os princípios
básicos de seu imaginário não possam deixar de se fundamentar no projeto de
“autonomia” do indivíduo - sob o risco de, superada a “modernidade”, a
reorganização da sociedade ser marcada por “coerção e opressão, exclusão e
exterminação” - no qual, é preciso notar, classes dominantes e elites políticas
podem cumprir papel-chave. Uma vez aceita a imprevisibilidade da história, nada
nos diz que caminhamos para um mundo melhor. Em termos críticos cabe,
entretanto, destacar duas importantes dificuldades no argumento de Wagner, para
além de uma certa tendência de partir sempre do discurso para as instituições e
da suspensão de certas questões, como a possivelmente crescente reflexividade
da modernidade, em que se poderia localizar talvez, ainda que limitadamente, o
desdobramento de uma lógica imanente.
O tema da liberdade e da contingência, oposto à
organização e à ordem, parece depender excessivamente de uma identificação
entre a “auto-organização” da sociedade e aquele primeiro pólo, com o segundo
se articulando estreitamente à ação do Estado. Wagner desconsidera sobretudo o
mercado, como essencialmente uma forma de organizar a sociedade, apesar de sua
inerente instabilidade; não por acaso, ele reserva papel menor ao fordismo.
Isto pode advir do fato de ele articular absolutamente liberdade individual com
contingência social. Estas devem ser, contudo, distinguidas: uma ordem social
pode restringir a liberdade do indivíduo, mesmo que faça mais contingentes as
agruras possíveis em sua vida, enquanto uma ordem mais organizada pode
proporcionar maiores possibilidades de autonomia. Não por acaso, a “revolução
cultural” dos anos 60 teve como solo a modernidade do Estado do bem-estar
social e do fordismo, conquanto fosse extremamente crítica a ambos. É com isso
em mente que se deve encarar as perdas e os ganhos devidos à “organização da
modernidade”. Faz-se patente em Wagner a influência de Bauman, que aponta para
uma fixação com a ordem na modernidade, após os arrojados vôos do Renascimento.
Mais velada, porém não menos profunda, é a temática weberiana, que vê na “jaula
de ferro” da burocratização a grande ameaça à liberdade e à autonomia, que
forneceram um dos principais elementos do projeto da modernidade. É preciso, de
todo modo, escapar dessa polaridade. Isso tem reflexos diretos em como, e em
que medida, buscamos uma renovação da organização da modernidade que preserve a
liberdade e os aspectos positivos da contingência da vida social, afastando,
outrossim, os riscos e as contingências negativas que, sobretudo em vista das
desigualdades sociais contemporâneas e de uma pervasiva entrega da vida social
ao mercado, resultam por vezes catastróficos para indivíduos e grupos. Restaria
perguntar, afinal, se os ideais da modernidade podem ser nela ainda
concretizados ou se, como de Marx a Boaventura dos Santos (1995), não seria
preciso transpô-los para o contexto de um outro tipo de sociedade.
Isso nos conduz à questão da autonomia de
coletividades, que faz uma ponte para discutirmos nosso segundo problema. Não
que Wagner desconheça a questão, que tende, todavia, a ser secundarizada, com a
organização coletiva em certas passagens sendo contraposta à liberdade do
indivíduo. Quando se coloca a modernidade em termos globais, isto se faz ainda
mais problemático que quando nos atemos a situações nacionais, nas quais as
lutas por identidade, liberdade e igualdade por parte de grupos subalternos já
dramatizam a questão. O esforço de conquista de “autonomia” e “controle
racional” do mundo por parte de países e nações periféricas tem sido um traço
constante na expansão da modernidade. O ponto crucial que subjaz a essa
dificuldade, contudo, leva ao núcleo da própria problemática de Wagner, ou
seja, à sua definição da modernidade em torno precisamente daqueles dois
princípios. Vários autores (veja Eisenstadt, 1987, e Domingues, 1993) têm chamado
a atenção para o caráter planetário da modernidade, cuja definição não pode ser
restringida à Europa Ocidental. Plural, ela requer uma definição mais ampla e
articulada à sua contraface - a globalização -, a despeito de haver se
originado do Ocidente.
Todavia, de forma alguma problemas desse tipo
poderiam obscurecer as enormes qualidades do trabalho de Wagner, que constitui
referência, e portanto leitura, obrigatória para a compreensão do estágio
contemporâneo da modernidade e de suas possibilidades futuras.
BIBLIOGRAFIA
DOMINGUES, José Maurício. (1993), “Globalização, sociologia e cultura”, Contexto Internacional 15,
2: 279-94.
EISENSTADT, Shmuel. (1987), “Introduction”, in S. Eisenstadt (org.), Patterns of Modernity, volume II: Beyond the West. Londres, Francis Pinter.
SANTOS, Boaventura de Souza. (1995), Pela mão de Alice. O social e o político na pós-modernidade. São Paulo,Cortez.
JOSÉ MAURÍCIO DOMINGUES é PhD pela London School of Economics and
Political Science, professor do Departamento de Ciências Sociais e do Programa
de Pós graduação em Sociologia do IFCS/UFRJ. É autor de Sociological
Theory and Collective Subjectivity (1995).
Cultura política e democracia
Marcello
BAQUERO (org.), Cultura política e democracia: os desafios das sociedades
contemporâneas.
Porto
Alegre, Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1994. 109
páginas.
Evelina Dagnino
Publicada há dois anos, essa coletânea
organizada por Marcello Baquero veio se incorporar ao esforço de reflexão sobre
a transição democrática que caracterizou uma parte significativa da literatura
sobre as sociedades latino-americanas no período mais recente.
Norbert Lechner abre o volume com um ensaio
sobre “Os novos perfis da política”, organizado em torno de um argumento
central: as transformações radicais por que passam as sociedades
latino-americanas no período mais recente, presididas pela globalização do
capitalismo. Os adjetivos usados por Lechner não deixam dúvida quanto à sua
visão desse processo: radical, drástico, avassalador, comparável à
reorganização social dos anos 20/30. Além disso, as transformações não se
restringem ao econômico; envolvem uma crise dos nossos “mapas mentais” e a
dupla transformação do político e da própria política. Inclusive o significado da
democracia nessas novas condições está, portanto, em aberto.
O leitor familiarizado com a discussão das
grandes novidades deste final de século - a pós-modernidade, a globalização, o
terremoto do neoliberalismo - encontrará várias idéias conhecidas: a restruturação
do tempo, o desvanecimento do futuro e da fé no progresso, a extensão do
mercado a esferas não-econômicas, o isolamento e o desamparo do cidadão, o
individualismo privatizador, o esvaziamento de qualquer referência à ordem
coletiva, a substituição da centralidade da política como construção
deliberada, como produção da sociedade por ela mesma, por uma visão da
sociedade como uma ordem auto-regulada. Esses processos, segundo Lechner,
apontam na direção de uma mutação cultural muito profunda, uma restruturação
dos mapas cognitivos, das “coordenadas mentais e códigos interpretativos
mediante os quais tornamos inteligível a realidade social” (p. 22). Essa
mutação, subjacente à “crise dos mapas ideológicos”, contribui para configurar
um “mal-estar com a política”.
Esse mal-estar se evidencia, para Lechner, em
um amplo conjunto de características que incluem desde a expressão política de
vários desses ícones da pós-modernidade e do neoliberalismo até traços mais
triviais, como a falta de confiança na política e nos políticos, os partidos
políticos que já não oferecem condições de identificação aos cidadãos etc.
Apesar de descrito com uma certa radicalidade dramática e generalizante que, de
resto, parece compor o impacto sedutor de todas as discussões sobre este nosso
final de século, esse mal-estar “não deve ser confundido nem com uma rejeição à
política, nem com um desapego à democracia” (p. 19). De um lado, o que ele
coloca em questão é a qualidade da “democracia realmente existente”,
expressando “uma reação contra as atuais formas de fazer política à luz de uma
imagem familiar do que é e deveria ser a política” e, portanto, “a continuidade
de um imaginário coletivo”. De outro, discute a necessidade de redefinições, “a
busca de uma nova concepção” que responda a essas profundas transformações. É
assim, no terreno aberto por essa ambivalência, que se coloca “a incômoda
interrogação” que conclui o artigo: “Não está mudando também o significado de
democracia?”
Em “Os desafios na construção de uma cultura
política democrática na América Latina”, Marcello Baquero escolhe, com
Hirschman, um pessimismo prudente como ponto de partida para refletir sobre a
democracia. Para analisar suas fragilidades, em um contexto no qual o
agravamento das condições econômicas e sociais estimula o ceticismo dos
cidadãos da América Latina, ele identifica três focos de problemas. O Estado,
cujas características patrimonialistas tradicionais convivem com a implantação
do modelo neoliberal, é incapaz de funcionar como a “unidade legitimamente
reconhecida pela sociedade na regulação das relações sociais”, apresentando uma
instabilidade estrutural permanente, que compromete a consolidação da
democracia. Os partidos políticos, cuja vocação histórica para a política
personalista se alia agora à espetacularização e ao marketing da política, com
o abandono de qualquer matriz ideológica, não conseguem desempenhar o seu papel
mais relevante no contexto da redemocratização, o de representar efetivamente
os interesses da sociedade civil. Distante do Estado, descrente dos partidos, o
cidadão e a nova cultura política emergentes constituem um terceiro foco de
problemas. Um individualismo exacerbado e a institucionalização da “cultura do
salve-se quem puder” e da “justiça pelas próprias mãos” como instrumento de
luta pelos direitos, a ausência de um senso de coletividade, a indiferença em
relação à política, “o desenvolvimento de um pensamento mágico, em que a
resolução dos problemas econômicos e sociais é vista como estando além da
capacidade e controle dos cidadãos”, compõem o cenário da constituição da
cidadania na América Latina póstransição democrática. Esse quadro, marcado
fundamentalmente pela crise econômica e pela não-solução das desigualdades
sociais, configura, para Baquero, um futuro incerto para a democracia no
continente.
Hélgio Trindade compartilha no seu.artigo essa
visão das limitações econômicas ao processo de consolidação democrática, que
acentuam a fragilidade das instituições representativas, e da desagregação do
papel regulador do Estado, no qual a lógica perversa do neoliberalismo confunde
reforma com desmantelamento. Mas, para examinar a questão central da
representação política e da construção da cidadania, vai adotar uma perspectiva
histórica, recuperando o padrão de interação Estado-sociedade civil: a
conjugação de uma lógica liberal com uma práxis autoritária, enraizada na
cultura política latino-americana, e que bloqueia a consolidação democrática.
Assim, considera severas e por vezes injustas as críticas aos partidos políticos
brasileiros, dos quais se exige a reprodução de um modelo europeu clássico
idealizado, ignorando-se os condicionamentos estruturais da sociedade
brasileira. Se esse padrão de relação Estado-sociedade, que leva autores como
Portantiero e Weffort a considerar as novas democracias como “híbridas” ou
“regimes mistos”, somado à crise econômica prolongada, poderia apontar para a
inviabilidade de democracias estáveis, Trindade prefere apostar na “tensão
entre o ideal democrático e a democracia possível” como perspectiva
“historicamente mais consistente” para a contraditória situação da construção
democrática na América Latina. Por outro lado, processos como os acenados por
Lefórt com a “invenção democrática” estão, para o autor, na base da construção
de uma democracia de massa, representativa, participativa e deliberativa,
socialmente justa e economicamente eficaz. Para além dos seus procedimentos
formais, a representação democrática só se realiza plenamente quando é
sustentada por uma rede de associações na qual se manifestam as iniciativas
coletivas, impedindo o Estado de “transformar-se no centro de todo o poder” e
questionando a precariedade da nossa cidadania política.
“O futuro da democracia depende em grande parte
da capacidade da sociedade civil de resistir e contrabalançar o poder do
Estado:” Essa afirmação não se refere ao Brasil ou à América Latina, mas é a
conclusão do artigo de Janus Simon sobre “Cultura política pós-paternalista na
Hungria: relação entre cidadãos e política durante e após a `Revolução
melancólica’ (1989-1991)”. A tentação de explorar similaridades ou comparar as
duas situações é, no entanto, claramente recusada pelo autor, com base nas
diferenças essenciais entre os dois processos: os países comunistas do Leste
Europeu, além da democratização de um sistema político autoritário, tiveram que
promover uma transformação total de seus sistemas social e econômico. Na
América Latina, se tratava de transformar o sistema de instituições políticas
para adequá-las a um sistema político democrático e de reformar em alguns
pontos suas economias de mercado, para que se ajustassem aos requisitos do
sistema internacional.
Apesar dessa advertência, o leitor porventura
interessado na análise comparativa das transições democráticas em contextos
sociais e econômicos distintos poderá constatar algumas coincidências
interessantes e elaborar suas próprias conclusões. Isso depois de um certo
esforço para reconstituir os fragmentos de informação que o texto fornece sobre
o contexto político da transição húngara, e tendo provavelmente que recorrer a
uma boa enciclopédia para descobrir, por exemplo, o que foi a “era Kadar” ou
por que a transição é chamada de “Revolução melancólica” ou “Silenciosa”. Mas
certamente aprenderá algo sobre as percepções e valores políticos dos húngaros
e sobre suas especificidades em relação a seus vizinhos do Leste Europeu. Vai
ficar sabendo que o distanciamento entre os cidadãos e a política aumentou
drasticamente entre 1985 e 1991 e que a interpretação dessa mudança “é uma
tarefa extremamente difícil”, mas pode estar relacionada com mudanças mais
profundas na visão de política dos cidadãos, que têm agora uma atitude mais
crítica e “mais coragem e maiores expectativas com relação à política e aos
políticos”(p. 85).
Os resultados da transição econômica em relação
ao aumento do custo de vida, das desigualdades sociais e do desemprego, antes
quase desconhecido, indicam a possibilidade de tensões sociais que “poderiam
ameaçar seriamente o sucesso da transição democrática” (p. 78). Simon reproduz
a declaração de um operário para descrever a situação: “Eu me libertei de
quatro décadas de comunismo e também de meu emprego. Hoje sou tão livre que nem
sei o que fazer”.
Essa mesma necessidade de “encontrar um
equilíbrio entre eficácia econômica e legitimidade democrática” vai reaparecer
como um fator fundamental entre “Os desafios da democracia argentina”,
examinados por Liliana de Riz. O fortalecimento das instituições do Estado e da
sociedade é identificado como o núcleo da problemática das novas democracias
para enfrentar essa necessidade e serve de eixo para analisar os avanços e as
dificuldades da transição argentina e compará-la com as experiências de outros
países da América Latina. A politização e a privatização das instituições do
Estado enquanto “arenas privilegiadas da luta pela distribuição de renda e como
mecanismos para maximizar interesses políticos e sociais setoriais” (p. 62)
compromete essa tarefa básica. É preciso, portanto, construir um “Estado
estatal”. Até que ponto isso é possível, no contexto das políticas de
estabilidade e reconversão da economia, é a pergunta que ela dirige à
experiência argentina dos dois governos de transição, com resultados pouco
animadores.
A justificativa da perspectiva teórica que
propõe Liliana de Riz ao enfatizar a dimensão institucional dos processos de
consolidação democrática é que ela “tem sido pouco explorada na literatura
sobre o tema” (p. 56). É difícil concordar com essa afirmativa. Na verdade,
várias críticas têm apontado o contrário: as análises da ciência política
cultivam uma ênfase insistente e quase exclusiva na dimensão
institucional-formal da democratização. A viabilidade e o fortalecimento dos
partidos, os requisitos da governabilidade, a reforma do Estado - é a chamada
“engenharia institucional” que parece esgotar os desafios da construção
democrática e monopolizar a capacidade de refletir sobre ela. A própria
revitalização, expressa nesta coletânea, do conceito de cultura política, por
problemático que ele seja, e a emergência de uma forte tendência a explorar
mais sistematicamente as relações entre a cultura e a política, estimulando
análises interdisciplinares, constituem reações ao expansionismo da “engenharia
institucional” e às abordagens que, mesmo aquelas com as melhores intenções,
acabam por reduzir o campo da política da construção democrática aos limites da
política institucional.
Em “Tendências do discurso brasileiro atual: os
limites dos discursos das soluções milagrosas”, Céli Regina Jardim Pinto
saudavelmente se contrapõe a essa tendência e resgata o importante papel de uma
sociedade civil, atuante e diversificada, para a definição de um discurso
democrático que expressa uma nova relação entre as forças sociais e o campo
político.
A partir da distinção de Laclau e Mouffe entre
lutas populares e lutas democráticas, a autora analisa o que considera
tendência geral do discurso político brasileiro: apresentar-se enquanto
discurso popular, cuja característica fundamental é constituir um sujeito
político popular, unificador, o “povo”, no qual “as diferenças tais como sexo,
etnia e até mesmo classe tendem a perder o sentido”. As condições críticas do
país nos últimos anos “são pano de fundo para o aparecimento de discursos de
tipo popular que dividem o espaço de luta em dois pólos antagônicos em que cada
um se apresenta como a negação do outro, construindo-se como propostas de
ruptura” (p. 95). Desde a campanha das Diretas-já, passando por Sarney e o
Plano Cruzado, até as campanhas de Collor e Lula em 1989 e o próprio impeachment
de Collor, os discursos predominantes são “fortemente marcados pelo antagonismo
e pela identificação de forças inimigas”. Os temas sintetizadores nos dois
primeiros casos (eleições diretas e inflação) foram substituídos na campanha
eleitoral pelas figuras dos próprios candidatos, “pontos nodais em seus
próprios discursos”.
Céli vai encontrar o contraponto desse discurso
nas emendas populares à Constituinte de 1987/88. Expressando um discurso
democrático articulador de diferenças, as 122 emendas, que reuniram mais de 12
milhões de assinaturas, indicam “um outro movimento no interior da sociedade”,
que não pode ser minimizado quando se pretende entender a dinâmica do processo
de democratização e a relação entre as forças sociais e o campo político na sua
complexidade. A diversidade de temas contemplados pelas emendas e o número de
assinaturas e de entidades responsáveis pelo seu recolhimento indicam
claramente que é preciso ir além da face mais aparente das relações dos
cidadãos com a política. A fragilidade dos partidos, a ausência programática, o
clientelismo e o personalismo que os caracterizam e que são utilizados para
definir o perfil do cidadão brasileiro, de forma alguma, nos diz a autora,
esgotam as formas de relacionamento entre o cidadão e a política.
Esse mesmo procedimento crítico de olhar além
da aparência organiza a cuidadosa análise do plebiscito de parlamentarismo
versus presidencialismo, que completa o artigo de Céli Jardim Pinto. Por trás
de sua face mais óbvia, o plebiscito “sinaliza para um aspecto importante e
muitas vezes marginalizado, quando se descreve o comportamento político do povo
brasileiro, a saber, a crença nos direitos democráticos como essenciais”,
sintetizada no direito de eleger o presidente, que o presidencialismo conseguiu
encarnar, caracteriza ainda um discurso de tipo popular, “mas está longe de
permitir uma associação simplista entre o discurso popular e os populismos
conservadores” (p. 108).
Se o relativo pessimismo da maioria dos textos
reunidos nessa coletânea, relacionado basicamente com o agravamento das
desigualdades sociais e a crise econômica, talvez não tenha encontrado razões
para mudar, nos dois anos que transcorreram desde sua publicação, a
estabilidade da democracia formal tampouco sofreu novos abalos no continente.
“O grande desencanto dos cidadãos com a democracia” (p. 5) não parece ter se
difundido. Menos do que a opção por outros regimes políticos, a indagação mais
relevante hoje parece se relacionar com a disposição de governantes e
governados de expandir e aprofundar o sentido que a democracia assume nos
países latino-americanos.
EVELINA DAGNINO é doutora em Ciência Política pela Universidade de
Stanford e coordena a área de Cultura e Política do Programa de Doutorado em
Ciências Sociais da Unicamp.
Imagens e identidades do trabalho
Antonio Sérgio GUIMARÃES, Michel AGIER & Nadya Araújo CASTRO, Imagens
e identidades do trabalho.
São Paulo, Hucitec/Orstom, 1995. 186 páginas.
Marcia de Paula Leite
Imagens e identidades do trabalho constitui sem sombra de dúvida um dos mais
importantes estudos a respeito dos trabalhadores da moderna indústria baiana.
Baseando-se em um conjunto de pesquisas desenvolvidas entre 1986 e 1992 junto
aos trabalhadores estáveis e qualificados do Pólo Petroquímico de Camaçari, o
livro reúne um conjunto de artigos que buscam apreender o sentido dado pelos
atores sociais a suas trajetórias profissionais, centrando-se, portanto, na
representação da trajetória e da posição social dos sujeitos.
Tendo como ponto de partida de suas
preocupações as transformações sociais provocadas pelo rápido processo de
desenvolvimento industrial que o estado da Bahia passou a vivenciar a partir
dos anos 60 e 70, com a instalação do Centro Industrial de Aratu e do Pólo
Petroquímico de Camaçari, os autores se debruçam cuidadosamente na análise de
como esse processo reordenou não só a economia local e seu mercado de trabalho,
mas também as representações profissionais socialmente construídas de seus
trabalhadores.
Centrado na mais pura tradição da sociologia e
da antropologia do trabalho, o livro erige como questão fundamental a
recuperação dos sujeitos como constituintes das relações de trabalho (mais que
enquanto constituídos por elas), buscando responder a desafios interpretativos
baseados na valorização da construção subjetiva das ações.
Cumpre notar que os autores se dedicaram a um
meticuloso trabalho de entrelaçamento dos diferentes espaços da vida social dos
trabalhadores, vale dizer, os espaços cotidianos da casa, do bairro de residência
e de sociabilidade, além dos espaços de trabalho, tentando desnudar os
atributos de identidade que cada um deles oferecia aos trabalhadores da moderna
empresa baiana. Nesse primoroso esforço, em que trazem à tona uma compreensão
da antropologia do trabalho que alarga seu campo de atuação, ao incorporar
outros campos de inserção social dos atores, além da empresa, Antonio Sérgio,
Michel e Nadya vão tecendo padentemente o conjunto de relações que presidem o
processo de formação de uma identidade de classe entre os trabalhadores mais
qualificados e prósperos do Nordeste brasileiro. A importância desse conjunto
de textos para a compreensão do processo de formação da identidade de classe
entre esses trabalhadores é, dessa forma, notável.
No primeiro artigo, por exemplo, Nadya Castro e
Antonio Sérgio Guimarães nos ensinam como, contrariamente às expectativas
teóricas de dificuldade de emergência de classes operárias em mercados de
trabalho caracterizados por níveis salariais e de qualificação relativamente
altos e emprego estável, ao lado da predominância de capital estatal e de
ideologias desenvolvimentistas, no caso da indústria petroquímica da Bahia se
desenvolveu um sindicalismo de perfil anticapitalista, com grande aceitação
entre os operários, em que pese o esforço empresarial para segmentar os
trabalhadores. Segundo os autores, tal processo só pode ser explicado na medida
em que se considere o agudo sentimento de exclusão vivenciado pelos
trabalhadores qualificados do pólo, em função das políticas de definição de
carreira, que provocam um estrangulamento nas possibilidades de ascensão; ou
devido à gestão autoritária imposta pela gerência; ou ainda devido à falta de
controle sobre seu tempo e à exclusão dos antigos espaços de interação social,
experiências vivenciadas pelos que trabalham em turnos.
Ao se chocar frontalmente com as expectativas
de ascensão social que mobilizaram esses trabalhadores em direção ao Pólo
Petroquímico, as relações sociais que aí presidem o trabalho fabril acabaram
por despertar duas possibilidades: 1) por um lado, a definição do trabalho
operário como temporário; 2) por outro, a redefinição de sua força coletiva,
mediante a participação político-sindical que se encontra na base da
consolidação de um sindicalismo combativo e de vanguarda, que se mostrou
universalista e confrontacionista, ao contrário do que o determinismo das
teorias da “aristocracia operária” pressupunha.
Essa discussão é complementada pelo excelente
texto de Michel Agier eAntonio Sérgio Guimarães, no qual se explicita como a
identidade dos técnicos de nível médio da empresa petroquímica é constituída,
não apenas em conflito com o outro não-operário, mas inclusive em conflito
consigo mesma. Desnudando claramente como o padrão de relações entre os
trabalhadores de nível médio e os de nível superior está socialmente marcado
pela diferença hierárquica e pelos símbolos de subordinação, os autores não só
elucidam o caráter discriminador de tal relação. Mais que isso, evidenciam como
esse tipo de subordinação se encontra na raiz da auto-identificação dos
trabalhadores de nível médio como “peões”, que não emerge apenas como uma forma
simbólica de insubordinação (na medida em que representa um desrespeito dos
técnicos em relação aos mecanismos que alimentam seu status subordinado), mas
também como uma representação que contém um duplo conflito: um conflito com a
imagem idealizada de “técnico” e um conflito com a hierarquia superior.
Já o texto de Michel Agier constitui uma
interessante reflexão sobre as trajetórias dos trabalhadores das novas
indústrias baianas, a partir de uma pesquisa realizada no bairro da Liberdade,
tradicional área de baixa renda, com forte concentração operária e um dos
principais bairros de origem residencial da mão-de-obra recrutada pelo Pólo Petroquímico
de Camaçari. Enfocando os universos fabril e extrafabril, o estudo evidencia a
importância não só do campo residencial na construção de identidades voltadas
para o universo do trabalho, mas também da dimensão política expressa na busca
de posições de poder na fábrica, seja por meio de postos profissionais de
chefia, seja por postos de liderança sindical.
Essa mesma discussão será retomada no texto
seguinte, de Michel Agier e Nadya Araujo Castro, que se debruça sobre os
projetos profissionais tentando explicitar as disposições distintas que
explicam como, em um mesmo grupo social, trabalhadores elaboram projetos
individuais ou coletivos. O artigo parte de uma reflexão sobre as
transformações provocadas pelo grande desenvolvimento industrial dos anos 50/80
no sistema de valores relativo ao trabalho industrial, ao saber profissional e
à mobilidade social, para compreender a redefinição dos projetos idealizados a
partir da relação entre tempo social e tempo individual na formação de uma
identidade operária entre a nova geração de trabalhadores dessas indústrias.
Analisando a atração do novo setor em relação
aos meios sociais situados em meio à pobreza e à pequena classe média - seja
pelo nível de renda relativamente alto, seja pela maior estabilidade
proporcionada-, Michel e Nadya se debruçam sobre os elementos que fazem a
mediação entre os projetos pessoais e as trajetórias reais, com a análise de
seis estudos de caso, cuja apresentação busca evidenciar uma sucessão
significativa de situações-tipo e cuja interpretação permite a identificação de
dois eixos distintos a diferenciar as trajetórias: um que as organiza em torno
do salário e outro que as organiza em torno da profissão. A parte final do
texto contempla uma interessante análise da trajetória de três lideranças
sindicais, que evolui para uma instigante reflexão sobre a diferença entre um
percurso que valoriza a profissão e a carreira e outro que privilegia a ação e
a luta pelo direito coletivo.
Finalmente, o estudo de Antonio Sérgio
Guimarães acerca da ilusão do “atalho” parte das categorias bourdieusianas de
“espaço social, capital, habitus e trajetória” para discutir, pela análise de
um estudo de caso, a hipótese de que o desenvolvimento industrial ocorrido na
região nas últimas décadas abriu uma nova via de mobilidade social para a
pequena classe média, baseada no emprego técnico. Entretanto, essa nova opção
denominada por Antonio Sérgio de “atalho” - por buscar alcançar o espaço social
da classe média assalariada de modo mais rápido e sem tantos investimentos em
educação, ao contrário da tradicional estratégia baseada nos estudos
universitários -,conquanto pareça ter sido uma estratégia exitosa em termos
econômicos, não o foi em termos das gratificações emocionais e simbólicas que
propiciou. Na realidade, corroborando os demais artigos apresentados no livro e
conforme fica evidenciado na análise do estudo de caso paradigmático escolhido,
o texto elucida como a experiência de subordinação e disciplina vivenciada no
cotidiano de trabalho e como o regime de trabalho baseado em turnos, bem como a
falta de reconhecimento social, se apresentam como motivos de profunda
insatisfação e acabam se convertendo, por sua vez, em elementos importantes
para a compreensão do ativismo sindical desenvolvido.
Para finalizar, não seria demasiado dizer que Imagens
e identidades do trabalho tem tudo para se tornar um clássico da sociologia
do trabalho, tanto pelo rigor científico quanto pelo minucioso e cuidadoso
processo de investigação e pela felicidade na escolha do objeto - uma categoria
que se situa em um dos setores de ponta da economia, ao mesmo tempo que
constitui uma importante vanguarda política do sindicalismo brasileiro. Tal
felicidade se evidencia ainda mais pela atualidade de que se revestem as
reflexões contidas no livro, quando se considera sua importância para a
compreensão das profundas mudanças que o setor vem sofrendo nos últimos anos,
bem como dos recentes movimentos relacionados com ele, que vieram colocar mais
uma vez a categoria no centro dos acontecimentos políticos do Brasil e da
América Latina.
MÁRCIA DE PAULA LEITE é doutora em sociologia, professora do
Departamento de Ciências Sociais Aplicadas à Educação da Unicamp e pesquisadora
do CNPq. É autora de O futuro do trabalho. Novas tecnologias e subjetividade
operária.
Heloísa, Isolda e outras damas
Georges DUBY, Heloísa, Isolda e outras damas no século XII.
São Paulo, Companhia das Letras, 1995, 128 páginas.
Marcos Lanna
Heloísa, Isolda e outras damas no século XII é mais um livro bem-sucedido de Georges Duby,
destacado autor da chamada “nova história”, ou “história das mentalidades”.
Extremamente bem escrito, certamente agradará a um público bem amplo, tanto o
acadêmico - inclusive não-historiadores - quanto qualquer pessoa interessada na
“situação do feminino na ordem do mundo” (p. 121). Publicado na França em 1995,
traduzido rápida e competentemente, representa mais um passo para a construção
de uma “história das mulheres”, novo projeto do autor. Após o sucesso da coleção
A história da vida privada, Duby vem dirigindo a publicação de vários
volumes de uma série de “História das mulheres”, cujo volume 1, A
Antigüidade, apareceu em 1990.
Uma das características da “história das
mentalidades” é debruçar-se sobre os aspectos culturais de uma época,
revelando, assim, uma influência da antropologia, mais ou menos consdente em
cada caso. Mas a “história das mentalidades’’ tem recebido críticas dos
próprios antropólogos. M. Sahlins, por exemplo, em Ilhas de história, ao
mesmo tempo saúda o interesse dos historiadores por temas como “estruturas
inconsdentes, mentalidades coletivas e movimentos econômicos amplos” e os
congratula “por finalmente aprenderem suas lições de antropologia ou de
política”, mas também critica autores como L. Stone e outros, não exatamente
“novos”, como Voltaire, que oporiam rigidamente uma “história das elites a uma
história da vida das comunidades”.
Há, assim, um certo “populismo” na postura do
que Sahlins chama de “a mais recente nova história”: ao privilegiar temas
referentes ao “cotidiano do homem comum”, não mostra como estes, especialmente
nos contextos das realezas divinas da Idade Média, podiam se submeter a valores
aristocráticos. Ou por outra: se projetos como o de uma “História das Mulheres”
tem o mérito de renovar a historiografia tradicional que se fazia há tantas
décadas, de reis e batalhas, por outro lado não devemos nunca perder de vista
os valores fundamentais de cada época: as guerras e os atos de reis, cardeais
ou generais podem ter significados estruturais em certos contextos.
Duby parece dente dessa crítica, pois seu livro
aborda exatamente “o mundo da nobreza feudal”, a história de sete mulheres “das
camadas superiores”. São elas: Alienor, Maria Madalena - esta, não sendo uma
mulher nobre e tampouco do século XII, foi especialmente cultuada nesse século,
ao ser interpretada como originária da “aristocracia mais alta” (p. 36)-,
Heloísa, I solda, Juette, Dorée d’Amour e a Fênix. A cada uma Duby dedica um
capítulo desse livro. Todas essas mulheres se tornaram verdadeiros mitos na
Europa, suas histórias sendo narradas desde o século XII até os nossos dias,
tanto por pessoas comuns como por filósofos e artistas - Rousseau, Diderot, o
próprio Voltaire, Wagner e Rilke, entre tantos outros.
Para esboçar uma história das mulheres, o livro
investiga a origem e a importância do amor cortês. Este, segundo 0 autor, implica uma valorização das mulheres,
possibilitando-lhes sair da “completa passividade” que caracterizaria sua
situação num período “anterior a 1176” (pp. 119-21). Essa é urna época de
formação de vários Estados europeus. Os próprios contos de fada nos revelam que
o amor cortês surge com o príncipe. Um texto importante, que aborda a
cristali-, zação desses fatos em um período logo posterior àquele tratado por
Duby, é “Romeu e Julieta e a origem do Estado”, de E. Viveiros de Castro e R.
Benzaquem de Araújo, publicado em Arte e sociedade (Zahar, 1977), volume
organizado por Gilberto Velho.
Mas tais temas não são aprofundados pelo autor.
Ao contrário, em sua “Introdução” e em vários momentos do livro, ele se
justifica, quase se desculpa, pelo fato de abordar as cortes e a nobreza: estes
eram os temas dos únicos documentos disponíveis. Dudy é ardiloso: está dente
dos limites da “nova história”, que é impossível se desinteressar de reis e
batalhas justamente quando estes revelam os valores estruturais de uma época,
como a Idade Média; tenta, então, analisar esses valores, mas não sem uma certa
vergonha, permanecendo ideologicamente fiel a princípios populistas que lhe
renderão a simpatia do público mais amplo.
Há ainda na obra o ranço de uma postura
evolucionista. Assim, o feudalismo é entendido como uma época simultaneamente
“brutal e refinada” (p. 9), “dotada de estruturas políticas” classificadas,
porém, como “grosseiras” (p. 124). Duby não descreve o que seria essa suposta
inferioridade da condição humana num dado momento da história, apenas a julga
como tal. Pior, ele se equivoca ao supor esse momento histórico como sendo
totalmente dominado pelos sacerdotes, chegando a tomar o (inegável) poder da
“Igreja oficial” como “suma do poder masculino” (p. 109). Ora, desde o século
VIII, com Carlos Magno, os guerreiros e os reis haviam assumido o lugar que
Duby atribui aos sacerdotes no “topo da hierarquia dos valores humanos” (p.
56). Como nos mostram os grandes
mestres G. Dumézil e M. Bloch, é esse crescente englobamento do religioso pelo
político que caracteriza o feudalismo no contexto das sociedades
indo-européias.
É então evidente que o feudalismo era “dotado
de estruturas políticas”. Assim, a questão seria descrevê-las, bem como a
inter-relação delas com as estruturas religiosas, já que às vezes há uma
autonomia do político, e outras ele está, para usar a expressão clássica de
Karl Polanyi, “embebido” no religioso (e vice-versa). Mas também essa questão
não é, infelizmente, enfrentada por Duby neste livro. Meu argumento é que uma
“história das mulheres” no período não pode deixar de ser inserida nesse
contexto político-religioso, já tão bem estudado, especialmente por M. Bloch.
De certo modo, a história das mulheres se subordina a uma “história da política
e da religião”, nesse como em outros períodos.
Haveríamos, então, de estudar a existência (ou
não) de uma hierarquia entre homens e mulheres, no sentido, definido por L.
Dumont, de uma relação ao mesmo tempo de oposição e complementaridade. Por
exemplo, é impossível entender Heloísa sem refletir também sobre Abelardo, o
homem que a perseguiu mesmo após ter sido castrado, mas Duby se recusa a isso.
Ficamos sem resposta à pergunta: até que ponto poderia ou não haver
complementaridade entre homens e mulheres em um dado estamento ou camada social
no século XII francês? Ficamos ainda sem saber como essa hierarquia poderia se
relacionar com outras formas hierárquicas, tanto políticas como religiosas, ou
mesmo político-religiosas (penso nas relações entre rei, nobres e sacerdotes ou
naquelas entre vassalo e suserano, por exemplo). Mas reconhecer a importância
disso talvez não seja oportuno do ponto de vista da demanda popular por estudos
históricos, esta sim plenamente atendida por Duby.
A Conclusão apresenta os argumentos centrais
desse novo projeto. É fundamental para Duby a suposição de que o amor cortês
surge como conseqüência da superação do costume das famílias nobres casarem
apenas o filho primogênito. Mas Duby não explica como esse costume, que ele
mostra ser restrito ao noroeste da França, poderia ter se generalizado e se
difundido para outras regiões. Não explica ainda como essa suposta multiplicação
do número de casamentos em cada família (já que não se casam mais apenas os
primogênitos, e sim todos os filhos) poderia ter tomado a forma e seguido 0 modelo do amor cortês. Longe disso, o que faz
Duby é explicar utilitariamente a generalização do “casamento dos rapazes”,
como conseqüência de uma “causa” econômica: o crescimento das riquezas, o
dinheiro substituindo a terra como valor central - “é menos difícil partilhar
entre herdeiros o conteúdo de um cofre do que os bens de raiz” (p. 120).
Assim, do ponto de vista antropológica, o livro
é simplista e ingênuo. Duby revela surpresa com o fato de casamentos reais
serem também alianças políticas, como se isto fosse um sinal de um momento
negro da história humana que “felizmente” já teria sido superado. A estratégia
do autor, que se revela na própria estrutura do livro, pode ser assim resumida:
alianças malsucedidas (entre Alienor, herdeira da Aquitânia, e o rei Luís VII,
da França, e, posteriormente, entre Alienor e Henrique, rei da Inglaterra, entre
Heloísa e Abelardo, entre Trístão e Isolda, entre a viúva rica Juette e seu
segundo proponente) e o sacrifício (ou “penitência”) de M. Madalena são
generalizados, caracterizando um suposto destino feminino infeliz. Este é então
contraposto ao amor cortês e às alianças bem-sucedidas de Dorée d’Amour e da
Fênix.
O leitor não deverá, assim, se surpreender ao
ver a “identidade feminina no século XII” ser caracterizada como “projeção dos
temores e desejos dos homens”, no caso de M. Madalena (p. 32), ou como uma
suposta negatividade que devemos “lamentar” (p. 30), no caso de Alienor, ou
então como “confusão mental” e “agitação da alma (...) pura expressão da
feminilidade” (p. 65), no caso de Heloísa. Tratase de um mestre da escritura,
narrando histórias conhecidas e interessantes, que talvez desagrade apenas aos
antropólogos, justamente aqueles em que ele se inspira.
Duby se apoia em F Héritier, colaboradora e
sucessora de C. Lévi-Strauss, para notar que todas as sociedades rejeitam o
incesto, quase implicando (p. 23) que apenas mulheres eram condenadas por atos
incestuosos. O autor se furta ainda à análise do caso de incesto real
mencionado em sua narrativa e revela desconhecer que a realeza pode se
definir pelo incesto, exatamente por estar acima da sociedade, como, aliás,
são exemplos conhecidos do grande público a Rainha Margot e os faraós egípcios,
entre tantos outros, e como tentei mostrar em artigo recente na Revista de
Antropologia (39, l , 1996).
Duby concluí argumentando que até o advento do
amor cortês, por ele datado em 1176 (!), as mulheres eram simples “objetos”,
exatamente porque eram trocadas entre famílias, como dádivas. Ora, a
antropologia de M. Mauss, mais especificamente o Ensaio sobre a dádiva, nos
mostra justamente que a troca de dádivas se caracteriza por superar esse tipo
de objetificação a que se refere o autor; há algo de inalienável na dádiva,
pois é algo do próprio doador que é recebido. Outros poderão, assim, investigar
em que medida as mulheres de diferentes estratos sociais não seriam simples
“objetos”, mesmo em um período anterior a 1176. Essa seria uma contribuição
para o projeto de uma história das mulheres que não se afastaria tanto da
proposta de Duby, apesar de modificá-la, na medida em que passa a assumir mais
clara e seriamente a importância da contribuição dos antropólogos.
Uma versão bastante reduzida desta resenha foi publicada anteriormente
no Caderno de Cultura de O Estado de S. Paulo, 21/1/1996.
MARCOS LANNA é professor do
Departamento de Antropologia da UFPR, autor de A divida divina; troca e
patronagem no Nordeste brasileiro. Unicamp 1995.
O pacto dos retratos
Sérgio MICELI, Imagens negociadas: retratos da elite brasileira
(1920-40).
São Paulo, Cia. das Letras, 1996. 174 páginas.
Maria Arminda do Nascimento
Arruda
O caráter de novidade contido no livro Imagens
negociadas: retratos da elite brasileira (1920-40), escrito por Sérgio
Miceli, se revela no contato imediato com o texto. Surpreendentemente, um
praticante da sociologia inicia a sua narrativa reconstruindo dois retratos de
Maria Portinari, ambos pintados em 1932, pelo amigo Valdemar da Costa e pelo
próprio marido. Já aqui começa a se manifestar não apenas o tema da obra, mas,
sobretudo, o andamento da análise pretendida.
A dimensão de inovação se explicita diante do
tratamento dado por Sérgio Miceli em outros textos, como Intelectuais e
classe dirigente no Brasil (1920-1946), ao ganhar amplitude inusual no
âmbito da produção do autor e resultar num tipo de reflexão dificilmente
encontrável no panorama da sociologia da cultura no Brasil. De saída, o texto
introduz o leitor no universo das artes plásticas, especificamente dos retratos
das elites, de intelectuais e dos próprios artistas executados por Portinari.
Por intermédio da consideração dos retratos de Maria Portinari se buscam
pistas, nas perspectivas plástica e sociológica, “das expectativas e
representações do casal Portinari a seu próprio respeito” (p. 13), após o
retorno da França.
O sentido analítico vai então se construindo no
esboço do próprio objeto de estudo, no qual o sociólogo já acena para a
natureza do seu empreendimento. O resultado dessa escolha narrativa é altamente
profícuo e se realiza num estilo movimentado, atraente do ponto de vista
formal, fazendo brotar das próprias telas os princípios norteadores da sua
reflexão. Se o exame da produção retratística emerge de questões sociológicas,
em nenhum momento a análise perde a especificidade da expressão considerada e o
autor dirige o seu olhar para múltiplas direções: ora mais de perto dás
expectativas sociais dos retratados, ora próximo da tradição pictórica,
freqüentemente se detém na rede de relações que suportam o métier dos artistas.
Por isso, apesar do foco incidir sobre os retratos de Portinari, o livro acaba
falando dos projetos de uma elite brasileira ativamente atuante nas
instituições culturais e na política do Estado e do universo das artes
plásticas no período. “De uma perspectiva macro-sociológica, os retratos
estariam, assim, em condições de propiciar uma compreensão mais nítida e
calibrada das redes informais de poder no interior dos círculos da elite
brasileira, cuja influência se estendia a espaços estratégicos do aparelho
governamental, a setores dirigentes privados, às famílias dinásticas e aos
principais núcleos de poder corporativo, oferecendo, por outro lado, um
registro compacto e econômico, uma representação acabada da auto-imagem dessa
mesma elite dirigente em sua fase afirmativa nas instâncias mundana e cultural,
talvez um dos únicos momentos da história brasileira contemporânea em que se
consegue discernir um projeto cultural inteiramente formulado e implementado
pelos quadros intelectuais e artísticos da classe dirigente” (p. 24). Isto é,
em vez de ir à procura dos fundamentos sociais das artes plásticas, se indaga
acerca dos princípios simbólicos da vida social, conformando um escopo
analítico compassado aos estudos mais recentes, obrigando o autor a transitar
por tradições diversas do pensamento.
Ao escolher os retratos pintados por Portinari
como tema do seu livro, Sérgio Miceli tratou de uma trajetória paradigmática no
meio artístico da época. Dentre os pintores da mesma geração, possivelmente
“nenhum deles demonstrou possuir o cabedal técnico e o cacife inventivo
requerido nem as características sociais capazes de lastrear as atividades de
um processador profissional apto a converter as diretrizes políticas e
doutrinárias então prevalecentes em matéria pictórica de qualidade” (p. 17). Os
suportes do andamento compreensivo se encontram, então, apoiados no material
expressivo, perquirindo no universo das significações a retradução simbólica
dos retratados, de origem vária, tentando alcançar, por fim, o sentido
atribuído e cristalizado pelo artista. Essa maneira de ver através das frestas
introduz novo modo de decifrar os preceitos vigentes no setor da cultura
naquele momento. “Em vez de se tomar as falas e discursos dos letrados como
insumo determinante para a reconstrução das relações no interior do campo
cultural, como tem sido a tônica dominante na historiografia literária e
artística, seria talvez muito mais estimulante do que se imagina adotar o
caminho inverso e averiguar caprichosamente as configurações visuais dessa
interação tão fecunda e surpreendente” (pp. 20-1).
A revelação do conjunto de pretensões que
subjaz nas diferentes camadas que conformam os retratos permite ao autor
configurar as imagens negociadas, empreendimentos de mão dupla nos quais se
mobilizam múltiplos requerimentos, aqueles afeitos aos retratados e aqueles próprios
às so luções e linguagens do retratista. Assim, “os retratos constituem, antes
de tudo, o fruto de uma complexa negociação entre o artista e o retratado,
ambos imersos nas circunstâncias em que se processou a fatura da obra, moldados
pelas expectativas de cada agente quanto à sua imagem pública e institucional,
quanto aos ganhos de toda ordem trazidos pelas diversas formas e registros de
representação visual, enfim, quanto ao manejo dos sentidos que retratistas e
retratados pretendem infundir, seja na própria obra, seja nos parâmetros de sua
leitura e interpretação” (p. 18). Os retratos de Portinari, na perspectiva do
autor, exprimem o caráter dessa complexa composição, o hibridismo da fatura e o
êxito da sua trajetória de pintor se respalda, em larga medida, na capacidade
de executar a contento a operação.
Na seqüência do livro o autor recupera, guiado
por essas preocupações, o período de formação do jovem pintor na capital da
República, onde inicia a sua aprendizagem e pratica os gêneros dominantes na
Escola Nacional de Belas Artes, nos Salões e Conselho Nacional de Belas Artes:
as paisagens e os retratos. Nesse primeiro momento, transcorrido entre 1918 e
1929, datas da sua chegada ao Rio e de sua partida para Paris após ganhar o
prêmio de viagem no Salão de 1928, Portinari manifesta “um domínio seguro do
ofício de retratista, a começar pela sintonia indispensável com as
circunstâncias laudatórias da encomenda” (p. 48).
Na primeira parte da obra - “Os anos 20:
identidade artística e profissional de um retratista acadêmico” - Sérgio Miceli
reconstrói as relações do pintor com personalidades proeminentes da elite do
Rio de Janeiro, tecidas na execução dos retratos; salienta-se a pessoa de
Olegário Mariano, poeta, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras e
representante do oficialismo cultural. Não por casualidade, Portinari obteve a
premiação com um retrato de corpo inteiro de Olegário Mariano, na verdade seu
mecenas e impulsionador da sua carreira. A tela de Olegárió, retratado com o
fardão da Academia, condensa as dimensões do reconhecimento literário e
pictórico do escritor e expressa as ligações entre o pintor e o seu protetor.
“A rede de relações a que Portinari se integra na sua mocidade revela um número
expressivo de figuras que lhe foram apresentadas ou encaminhadas por Olegário
Mariano, devendo-se sem dúvida considerá-lo como o esteio decisivo para o
impulso e orientação de sua carreira artística na década de 20, seja mediante
ajuda material e afetiva, seja mediante a promoção de seu trabalho junto aos
júris do Salão, seja mediante matérias e referências elogiosas plantadas na
imprensa, seja, enfim, mediante a encomenda de retratos e ilustrações em
jornais e revistas” (pp. 31-2). As relações com Olegário lhe permitiram
realizar vários retratos de homens ilustres, ao lado da representação de alguns
amigos artistas. A leitura desses retratos espelha, ao mesmo tempo, a
arregimentação do ofício artístico (quando os profissionais das artes são o
modelo) e a conciliação entre as necessidades de reconhecimento do pintor
aliadas às mobilizações dos retratados.
Na segunda parte - “Os anos 30: imagens
negociadas de letrados, políticos e elegantes” = o autor configura,
propriamente, o cerne da sua proposta de análise. Interessante notar que as
divisões do livro foram construídas a partir de duas viagens fundamentais à
vida do pintor Cândido Portinari: a chegada ao Rio em 1918 e o retorno à mesma
cidade em 1931, após a estadia em Paris. Do ponto de vista narrativo, o efeito
é altamente enriquecedor, pois atesta o compassamento entre as dimensões
formais do livro e a natureza do objeto em consideração. Aparentemente seguindo
um corte cronológico, o sociólogo, na verdade, divide o texto em função das
mudanças na trajetória do pintor, que se manifestam na transformação da
linguagem. Do ângulo mais visível, se trata de percorrer a passagem de um filho
de imigrantes italianos, oriundo de uma pequena cidade do estado de São Paulo,
para o burburinho da capital, onde se alojavam as instituições mais reconhecidas
de formação e promoção dos artistas plásticos, que monopolizavam os critérios
de consagração. De outro lado, as oportunidades de trabalho são, em princípio,
mais ampliadas no Rio de Janeiro. E, de fato, Portinari pôde usufruir das
relações estabelecidas, culminando na sua viagem a Paris, destino natural de
todos os pintores brasileiros que se legitimaram no mundo das artes plásticas.
Quando do seu retorno ao Brasil, o artista, se não era ainda o grande nome da
pintura, não se encontrava no rol dos iniciantes.
A experiência parisiense ampliou, certamente,
seu universo pictórico, mas serviu sobremaneira a seu reconhecimento,
abrindo-lhe espaços para expressar sua pintura, evidente nas exposições de 1932
e 1933. Em outros termos, o processo de desprovincialização, iniciado na
vivência carioca, é arrematado no estágio parisiense, concomitantemente ao
aprofundamento da sua aprendizagem. Por isso, a introdução de Imagens
Negociadas se abre com a narração dos retratos de Maria que exibem as
pretensões do pintor após a volta ao país, aliadas ao mesmo tempo às suas novas
incorporações plásticas. Quer dizer, o autor do livro, depois de formular a
proposta inicial, recua no tempo para em seguida avançar, como se operasse em
flash-back, articulando quadros imagéticos que só se elucidam no
estabelecimento das relações entre eles. A organização da forma narrativa
parece corresponder às alterações do tratamento pictórico dado pelo artista a
seus retratos, que se diferenciam em função das etapas diversas do seu
prestígio como pintor e que se dividem a partir das influências recebidas
durante a sua estadia européia. Os retratos de Henrique Pongetti e IdaThereza
Pongetti, pintados em 1931, contêm forte inspiração nos grandes pintores
europeus da época, marcando uma clivagem na expressão portinaresca, bem como a
afirmação da sua possibilidade de realizá-la e a concomitante mudança do gosto
dos seus retratados, nomeadamente dos intelectuais por ele pintados.
No decorrer dos anos 30, Portinari cimenta suas
relações com personalidades-chave do universo da cultura no Brasil. Exemplos
desse registro são os retratos de Manuel Bandeira, retratado várias vezes entre
1931 e 1944, de Jorge Amado realizado em 1934, de Mário de Andrade pintado em
1935, de Carlos Drummond de Andrade elaborado em 1936, de Graciliano Ramos
desenhado em 1937 e de Jorge de Lima concluído em 1937-38. Esse conjunto de
retratos expõe os sentidos atribuídos pelo artista ao modelar a fisionomia
dessas personalidades na tela, criando um significado simbólico, fixando uma
determinada representação social dos retratados. O desenvolvimento da dimensão
significativa subjacente aos retratos de Portinari se faz na interseção de suas
imagens dos personagens e das expressões dos mesmos intelectuais brotadas da
palheta de outros pintores. Tal é o caso dos retratos de Bandeira que revelam
claro retoque dos traços fisionômicos mais salientes do poeta, quando
comparados às soluções de pintores contemporâneos a Portinari; o mesmo ocorre
na expressão de Mário de Andrade. Nesta última, o resultado visual corresponde
às expectativas do retratado, pois “o poeta se sentia o verdadeiro autor
intelectual do seu retrato, como se a tela tivesse sido pintada por ele mesmo
conduzindo a mão de Portinari” (p. 93).
Para o autor do livro não se trata de indagar
sobre o caráter verista das imagens, mas sobre as representações que elas
encerram, prenunciadas no espaço de negociação entre o artista e o seu modelo.
O resultado é a urdidura de uma rede relacional na qual o pintor participa do
lado da figuração e os intelectuais do ângulo da colaboração crítica e da
abertura de oportunidades profissionais. No mesmo ano em que Portinari executou
o retrato de Drummond, assessor de Capanema, o ministro o convidou para pintar
os murais do novo prédio modernista do ministério. A conversão de Portinari em
um artista preferido nas iniciativas culturais do Estado ocorreu no momento da
gestão fugaz de Mário de Andrade na Secretaria de Cultura da Cidade de São
Paulo. As relações do pintor com dirigentes do Estado Brasileiro culminaram na
feitura do retrato de Getúlio Vargas em 1938, fruto de uma encomenda do
presidente do Banco do Brasil para ser exposto em seu gabinete, exercendo papel
cerimonial.
Ainda no decênio de 30, Portinari representou
diplomatas estrangeiros, suas esposas e seus filhos, empresários, políticos e
mulheres como Patrícia Galvão e Adalgisa Nery. No âmbito da retratística
feminina, no entanto, os quadros sobre as mulheres da família Melo Franco
trazem à luz múltiplas dimensões combinadas na confecção das obras. Os retratos
dessas senhoras são construídos em uma linguagem tomada de empréstimo à
tradição renascentista. A inspiração nas telas que representam as madonas do
século XV florentino revela os modelos sociais almejados por esses grupos
dirigentes, elucidando as mediações internas e externas inerentes à confecção
dos retratos. O êxito de Portinari não deriva de “sua matriz de inspiração de
modelos renascentistas, italianos e flamengos, temperados pelos luminares da
pintura acadêmica e impressionista francesa, bem como por diversos artistas da
escola de Paris” (p. 118), mas do fato de ter conseguido construir uma marca
pictórica que se adequou às impressões sociais dos retratados. Uma vez
reconhecido, Portinari passa a ser aclamado como o pintor dos registros
autênticos da brasilidade, que compunham a outra parte do seu universo
imagético. “Essa justaposição da figura ao fundo, do retratado às nesgas da
paisagem, tornava os personagens dessas cenas impregnados de cores, luzes,
eventos, emoções, objetos e espaços das atividades e dos figurantes populares”‘
(p. 119). A consignação entre a imagem do retratado e a paisagem ao fundo
produz um resultado visual peculiar ao pintor. “A figura não é outra coisa
senão uma `estação de repouso’, o próprio olhar do retratado como que nos
instando a prosseguir na apreensão da imagem, ou seja, fazendo a ligação entre
o universo do artista e o observador” (p. 121). As representações das cenas
populares, signo da sua diferenciação no âmbito das artes plásticas, são assimiladas
nos retratos. “Um número expressivo dentre os retratos exibidos nas individuais
carioca e paulista de 1934 comprova a eficácia artística e comercial desse
expediente, que consiste em preencher o fundo da composição com retalhos de
paisagens extraídos de suas telas `populares’, tão do agrado daqueles círculos
da elite urbana e cultivada a que pertence a maioria dos clientes de seus
trabalhos, dos retratos em especial” (p. 122).
Nessas passagens, Sérgio Miceli elucida o cerne
da sua proposta de análise que, apesar de ancorada no tratamento sociológico,
não perde de vista as peculiaridades inerentes ao material plástico. A
modelagem das obras pictóricas ocorre num espaço de tensão, no qual convivem os
reclamos de afirmação da linguagem com as constrições peculiares ao universo
profissional dos artistas. Sem se descurar da particularidade expressiva das
artes plásticas que é, a todo momento, trabalhada na relação com outras
imagens, o autor consegue decifrar sentidos sociais imanentes às obras. Isto é,
não se trata de aprisionar a teia de significados subjacentes a esses retratos
nas dimensões exteriores da composição plástica e nem reduzi-Ia às versões
puramente esteticistas. A entrada sociológica do autor no terreno das artes
plásticas, se pressupõe o reconhecimento do controle do artista sobre os seus
meios de expressão, constrói uma visão refinada da matéria visual. A
interpretação, ao se afastar das perspectivas redutoras, dá a conhecer o modo
como o social se retraduz e impregna as representações plásticas, manifesto nas
suas dimensões internas e configurado na forma artística.
Nesse ponto se explicita o caráter inovador
desse livro. Visto no prisma dos escritos anteriores do autor, esse texto
retrata preocupações intelectuais renovadas, apesar de incidir sobre um período
já estudado pelo sociólogo. No contorno da sociologia brasileira, o livro
guarda uma abordagem que inaugura um novo estilo de reflexão sobre os fenômenos
da cultura.
MARIA ARMINDA DO NASCIMENTO ARRUDA é professora do Departamento de
Sociologia da USP e pesquisadora do Idesp.