A “origem do samba” como invenção do Brasil
(por que as canções tem música?)
Rafael José de
Menezes Bastos
À
memória de Agostinho da Silva, quem por primeiro me falou sobre o Brasil
O
cinema filado
É o
grande culpado
Da
transformação...
Tudo
aquilo que o malandro pronuncia
Com
voz macia
É
brasileiro: Já passou de português (...) (1)
(Noel
Rosa, 1933)
A
categoria “música popular”, apesar de toda positividade
descritivo-classificatória com que se apresenta, é absolutamente negativa.
Trata ela, apontando para si mesma, de operar a negação de duas outras
categorias: música artística (ou clássica, erudita, dos mestres, acadêmica
etc.) e música folclórica. Com relação à primeira, negativamente fala ela -
como disse, apontando para si, ou se construindo de cultivo ou erudição,
sinalizados pelo acesso ao código de escrita/leitura da música ocidental. Nesse
momento, ela procura se opor à “música dos mestres”, como um tipo de música que
não supõe o saber, daí advindo seu sentido adjetivo, inicialmente depreciativo,
de música vulgar. No que diz respeito à segunda música folclórica , o que a
expressão música popular quer inculcar é que se está no território negativo da
tradição, território este caracterizado pela falta de autenticidade. Agora, a
música popular - evidenciando-se como um fenômeno da moda, ligado sempre ao
ideal da novidade encontra sua alteridade na alienação ou falta de compromisso
com relação àquele mesmo, cuja identidade pretensamente aponta o passado
(sobrevivência). Então, o sentido adjetivo da expressão, cumulativamente
montando sobre a depreciação inicial, se transforma em elogio: a vulgaridade da
música popular é a cama de sua popularidade entre urbanistas modernos. Tal a
armadilha que essa categoria impõe: a de um tipo de música negativamente
intersticial (até se poderia dizer coeso-música), situada entre as músicas alta
aquela da grande tradição, vinculada à idéia de universalidade e as baixas,
miríades de tradições divisadas sempre como paroquiais.
Esse
tipo de engenharia identital opera tanto no nível do senso comum quanto no dos
saberes musicológicos, a música popular sendo consuetudinariamente construída
como uma espécie de degenerescência da música artística - com relação à qual
ela seria “ligeira” que encontra na folclórica a sua matéria-prima , daí o seu
epíteto de “popularesca”. Dentro desse amplo contexto de predicações, um
comercialismo essencial a ela é atribuído e por ela é assumido, assim como se a
fonografia - e não a notação musical ou a oralidade e a forma de
produção/consumo mercantil lhe fossem exclusivas, não contaminando a pureza
tanto da música dos mestres quanto da folclórica. Vale notar como no seio das
várias musicologias (isto é, história, etnomusicologia, sociologia da música
etc.) a maneira referida de construção da música popular resultou na sua falta
de prestígio e legitimidade na direção de sua constituição como objeto de estudo.
Isto somente o gênio de Adorno foi capaz de romper.
Há
atualmente uma crítica generalizada ao amargor adorniano acerca da música
popular (Middleton, 1990, pp. 34-63), amargor este que, para começo de toda
conversa, nunca foi especificamente de Adorno, se manifestando também sob
maneiras diferenciadas, é certo - em outros intelectuais importantes de seu
tempo, como Béla Bartók, Mário de Andrade, Charles Seeger, Antonio Gramsci,
Carlos Vega, entre tantos outros. Necessário se faz, entretanto, reconhecer
que, apesar desse amargor - de forma alguma particular em Adorno com relação à
música popular, pois alcança Strawinski (Adorno, 1974) e toda e qualquer música
que não detenha a Fatio progressiva da música ocidental (Menezes Bastos,
Manuscrito 1, no prelo) -, foi ele quem por primeiro a tematizou
sociologicamente, isto ainda nos anos 30/40 (Adorno, 1983 e 1941). Nessa época,
Adorno & Horkheimer (1972), contrapondo-se à visão ufanista da música
popular (e de tudo o mais que pôde a partir de então ser chamado de arte)
enquanto cultura de massa (MacDonald, 1973), visão esta propiciada pelo
idealismo capitalista - espécie de realismo socialista do mundo livre,
criticamente a buscam entender como indústria cultural; quer dizer, como uma
manifestação que nada soma à liberdade e que faz estagnar o homem
(especificamente, o indivíduo) na mistificação do controle e da manipulação.
Neste
texto elaboro um pouquinho mais uma teoria da música que procura superar tantos
e tantos paradoxos (eventualmente, é certo, criando outros). De acordo com o
que venho trabalhando,’ aquilo a que se chama de música popular é tudo, exceto
um tipo a mais de música que se deseja insinuar no triângulo perfeito
constituído pelas músicas artística (ocidental), primitiva (com a oriental) e folclórica.
O que se chama de música popular - que me permitam assim entendê-la na
realidade é o terceiro universal musical do Ocidente, um universal cujo núcleo
vai se consolidar nos anos 30/60 deste século, em torno do eixo jazz-rock, e
que aponta para um sistema mundial planetário, especificamente ligado à
indústria do entretenimento e ao show business (Menezes Bastos,
Manuscrito 3). Aqui emprego o conceito de universal enquanto linguagem
delimitadora de um determinado sistema sócio-cultural (universo) nunca um jogo
apenas de consenso onde o conflito se evidencia como elemento turbados -, sendo
esta a maneira de me aproximar da visão nativa ocidental da música como
linguagem universal (idem, Manuscrito 4).
Se
o primeiro universal musical do Ocidente foi o canto gregoriano, motor
simbólico de um processo colonizados que levou a cristandade então, o
catolicismo (3) - a toda a Europa, o segundo foi a música ocidental dos
séculos XVII a XIX, que a redesenhou como “concerto das nações”, no contexto
das relações entre nações-estado modernas e colônias. No primeiro caso, a
música está abrangida pelo estabelecimento estatal-religioso, sua pertinência
apontando para um indivíduo “fora do mundo” (Dumont, 1985). No caso da música
ocidental dos séculos XVII a XIX, o indivíduo comete o deicídio e reinventa a
arte como religião (Spengler, 1973), aí se entronizando como Deus, criador ex
nihilo. A música agora parece ter sido roubada ao estabelecimento
estatal-religioso pela sociedade, uma sociedade constituída por indivíduos que,
estando “dentro do mundo”, buscam, entretanto, obscurecer ou mesmo escamotear
tal pertinência através de uma ideologia que encontra na liberdade e na
igualdade seus valores mais significativos. Observe-se que o segundo universal
como que passa a abranger o primeiro, reconstruindo-o como passado arquetípico
e original.
Quando
a música popular aparece no mundo, ela o faz em bloco, manifestando-se como um
fenômeno global da modernidade recente. Ela se estende da índia ao México, do
Brasil à Inglaterra, da Itália aos Estados Unidos, do Egito à Alemanha, da
Turquia à Argentina, à Espanha, a Cuba, à Escócia etc:, sendo um elemento
particularmente relevante da reconstrução identital das naçõesestado modernas e
da expansão do concerto das nações. Note-se que agora estou a falar de uma
música não somente veiculada, mas efetivamente tornada possível e abrangida
pelo estabelecimento tecnológico-industrial, através da fonografia inicialmente
do disco, do rádio e do cinema falado ;nesse sentido, aqui deixo de abordar a
fase arqueológica da música popular, ligada à impressão de “folhas de música” (sheet
music), ao music hall, ao sarau etc. Note-se também que trato da
fonografia não somente como um processo técnico, mas como um dos territórios
por excelência de encontro no Ocidente entre as razões prática e cultural
(Sahlins, 1976), encontro este ligado, no caso da fonografia, a estruturas
mito-cosmo lógicas ancestrais (Menezes Bastos, 1990, 1991 e 1995). (4)
A
música que a partir dos anos 30 deste século invade o planeta até suas franjas
mais remotas atende a lógicas locais, regionais e nacionais, e simultaneamente
a uma lógica mundial. Essa lógica mundial, caracterizada no plano
econômico-político pelo contexto neocolonialista, encontra no jazz e logo
também no rock seu fulcro musical central (idem, 1992a). Note-se que estou a
abordar o jazz e o rock como uma só e contínua linguagem, atópica - tanto
quanto o gregoriano e a música ocidental dos séculos XVII-XIX em seu processo
de difusão mundial, o que não exclui suas realidades locais originais, bem como
sua diversidade. Para essa linguagem, a teoria tonal clássico-romântica da
música ocidental, a teatralidade e a maneira de cantar operísticas e a
centralidade da interpretação (muito mais do que da composição) são tão
importantes quanto sua base local, afro-americana. Note-se também que aqui
trato da nação como um fato social total, insubsistente sem o quadro
inclusivo/contrastivo internacional que lhe é congênito (Hobsbawm, 1990). É
esse quadro que dá consistência a um só tempo global e local, regional e
nacional a gêneros como o tango, a habanera, o samba, o fado, o blues etc.
(Menezes Bastos, 1992a).
A
música popular não é um novo tipo de música que se soma aos demais, não
somente, entretanto, devido à sua pertinência planetária. Não, ao não deixar
nada escapar, ela não somente incorpora como passado - também arquetípico e
original - as músicas artística e folclórica, como também as reinventa. Isto é
modelarmente visível no cenário norte-americano a partir dos anos 30. Aqui, a
ópera italiana juntamente com o jazz dançante se evidenciam como os primeiros sucessos
da história da música (Gelatt, 1977) e as músicas étnicas dos Estados
Unidos se tornam também um fenômeno de massa (Spottswood, 1982, e Greene,
1992). Esse processo tem a ver com a busca, por parte dos vários segmentos
étnicos desse país, de uma forma de imaginação como americanos, que lhes
propicie ao mesmo tempo a construção da autenticidade original (Moloney, 1982).
Quer dizer, a música popular, como terceiro kathólon do Ocidente e a
exemplo dos dois primeiros, reconstrói o passado e postula o futuro, isto num
movimento em que o geral (global, mundial) e os particulares (local, regional,
nacional) se imbricam como numa totalidade hegeliana (Adorno, 1983a).
Recentemente,
Pinheiro (1992) mostrou como a influência jazzística na gênese da bossa nova -
medida segundo alguns da “alienação” americana da música brasileira (Tinhorão,
1969) e de acordo com outros de sua “modernidade” (Campos, 1978) - se trata de
uma história apenas parcialmente bem-contada. De começo, ele pôde evidenciar no
nível analítico fino - como a rítmica da célebre “batida” de violão de João
Gilberto é altamente congruente com padrões brasileiros, particularmente com
aqueles operantes no repique do tamborim nas baterias das escolas de samba.
Quanto ao plano harmônico, ele conseguiu também mostrar - sempre com base numa
adequada análise musicológica como as “dissonâncias” que constituíram a marca
talvez mais emblemática da bossa, ecoam rotinas de harmonização correntes na
música urbana brasileira, isto desde os anos 30/40. Tais rotinas posteriormente
eu pude apontar serem típicas em arranjos orquestrais de música de baile, como
aqueles da célebre Orquestra Tabajara, de Severino Araújo (Menezes Bastos,
1992c). Para fechar o círculo, vale acrescentar, a respeito da maneira cool
de cantar bossa-novística, que ela é familiar ao canto lírico talvez mais
antigo do país, especificamente o da modinha (idem, ibidem).
Não
se trata aqui de simplesmente agora apagar uma verdade dos anos 60 ou, pior
ainda finda a Guerra Fria , (5) inverter essa verdade e afirmar que,
isto sim, foi a música brasileira que influenciou a americana e ponto final
(McGowan & Pessanha, 1991). Isto, como se neste mundo de meu Deus e neste
século agora quase passado tivesse havido nação, colônia ou “território” capaz
de resistir às tentações do Grande Satã. Não, a totalidade que proponho para
dar conta disto a que chamamos “música popular” não é do tipo funcional, em que
o geral se evidencia tão-somente como uma parte privilegiada. Muito ao
contrário, o que se passa no cenário mundial da música deste século e o caso
brasileiro é paradigmático a esse respeito evoca com extrema felicidade o
episódio dos livros conversantes de Borges: o maxixe dialoga com o tango, que
conversa com a habanera, que proseia com o blues, com o foxtrote, que troca
idéias com Chopin, Satie, Ravel, Debussy, com o flaminco, com o fado, com a
valsa, com a polca, com o schottische (chóte), com a ópera..., tudo isto
configurando uma série interminável de gêneros, registros e autores
conversantes, num processo de diálogo no qual a delimitação de fronteiras
atende simultaneamente às setas contrastiva e inclusiva. Desejo apontar, assim,
no caso da música popular brasileira, que ela é brasileira, sim - pois o
diálogo, em vez de dissolver, o que faz é exatamente constituir os
interlocutores como outros entre si -, mas na medida em que se opõe à
argentina, por exemplo, ambas se incluindo numa ordem mundial musicalmente cada
vez mais intercambiável (Menezes Bastos, 1992a).
Desde
sua configuração inicial, no começo do século, a música popular brasileira vem
se constituindo num foro privilegiado de discussão sobre as grandes questões
nacionais. (6) Isto se evidencia especialmente em
momentos críticos da história do país, quando a sociedade se divide em posições
às vezes irreconciliáveis. Aqui, o governo, o regime, o Estado, o sistema de
relações internacionais, assim como específicas questões sociais, políticas,
culturais, econômicas e outras, são polemizados por canções que não raro
acaloradamente - dialogam entre si. Esse diálogo musical que constantemente
atravessa seu canal, atingindo a literatura, o teatro, o ensaísmo, as artes
plásticas etc. - propicia à audiência a realimentação de suas posições sobre as
questões-objeto. Isto se transfere para o plano explicitamente político, de
negociação e de tomada de decisões com relação aos conflitos entre os vários
setores da sociedade diante das referidas questões.
A
discussão sobre a origem do samba é um clássico dos estudos musicais no Brasil
e uma verdadeira paixão da sociedade (Tinhorão, 1986; Vasconcelos, 1977; e
Moura, 1983). Nessa discussão, é especialmente relevante a polêmica do começo
do século entre baianos e cariocas pela primazia da invenção do gênero. Com a
abolição da escravatura (em 1888), a migração de afro-baianos para o Rio de
Janeiro se tornou especialmente forte, engrossando uma tendência que se origina
na primeira metade do século XIX. No Rio, esses migrantes, que vão residir nas
regiões circunvizinhas ao cais do porto e na Cidade Nova - bairro popular que
inscrevia a mítica Praça Onze vão constituir a chamada “Pequena África”, núcleo
comunitário de arregimentação de sua identidade e verdadeiro laboratório de
criação musical (Moura, 1983). Nos anos 30, o samba atinge as camadas médias
urbanas do país e a discussão sobre sua origem se recompõe em torno da pulsação
morro/cidade, polemizando-se a legitimidade de sua ascensão social. Observe-se
que morro aqui indica as favelas do Rio, a então capital do Brasil, que passava
por grandes transformações urbanas e que era o centro econômico-político do
país, atraindo grandes levas de migrantes pobres. O termo cidade, por outro
lado, indica as camadas afluentes da cidade em questão habitantes de suas
regiões nobres ,aquelas com poder e influência no estado. Esses dois pólos, nas
discussões então correntes sobre o nascimento do samba, apontam lugares
sócio-culturais irreconciliáveis, com suas posturas ideológico-políticas
antagônicas. Nos anos 50, a disputa entre samba e samba-canção deslocará o
conflito mais explicitamente para o plano da etnicidade, o samba-canção sendo
acusado de “samba branqueado”. Com a bossa nova, na década de 60, a polêmica
seguirá novos rumos, a dicotomia novo/velho se tornando uma importante baliza.
Aqui, a questão das relações entre os papéis sexuais assume grande relevância.(7)
O
presente texto estuda a canção “Feitio de oração”, de 1933, cuja letra é de
Noel Rosa, feita sobre uma preexistente música de Vadico, apelido de Oswaldo
Gogliano. Tomo essa canção como um discurso sobre a identidade do Brasil, um
discurso que aponta para um diálogo e uma negociação de ampla abrangência
sócio-cultural. Aqui, as formulações de Roberto DaMatta sobre o “dilema
brasileiro” - que consistiria em o país se colocar a meio caminho entre o
individualismo e o holismo (DaMatta, 1978) - serão brevemente discutidas. A
abordagem analítica procurará recuperar os modelos nativos de compreensão da
música popular brasileira, buscando um aporte interlocutório do texto
lingüístico (letra) com a música (música), universos constitutivos do mundo da
canção (música). Nesse aporte, a letra se evidenciaria como um discurso
mito-cosmológico, enquanto a música se estabeleceria na órbita axiológica
(Menezes Bastos, 1977; 1982; 1990; 1984; e 1984a).
Noel
de Medeiros Rosa nasceu em 11 de dezembro de 1910 no Rio de Janeiro, cidade na
qual veio a falecer, em 4 de maio de 1937. (8)Apesar de uma
vida tão meteórica musicalmente produtiva durante apenas sete anos (1930 a
1937) -, Noel é um dos grandes nomes da música popular brasileira, um dos
poucos que, além de ser um dos construtores mais definitivos de sua
arquetipicidade mais passada, é também altamente atual, constituindo uma
verdadeira moda sem tempo de seu universo. Nascido, criado e vivido na Zona
Norte carioca, no bairro de classe média de Vila Isabel - sua mãe era
professora primária e seu pai, guarda-livros -, cuja mítica ligada ao mundo do
samba tão fortemente ajudou a construir, Noel produziu uma obra de grande
extensão: cerca de 250 composições, entre letras e/ou músicas de canções
(predominantemente sambas), operetas e teatro musicado (Máximo & Didier,
1990, pp. 495-519). Sua criação se espraia entre a ironia mais fina, o lirismo
mais doce e a crítica social mais ácida (João Antônio, 1982), buscando
representar um país a um só tempo profundamente orgulhoso de suas grandezas e
fortemente crítico de suas mazelas. Noel foi um grande inovador da arquitetura
musical e poética (quero me referir ao mundo da letra) da música popular
brasileira e talvez o primeiro músico burguês do país a se dar conta, com
grandeza, do povo, ou seja, daquele mundo visceralmente divorciado do Estado
(governo) e que é construído no Brasil como a sua originalidade mais original,
espécie de colônia perene da metrópole eterna que o Estado aqui representa.
Estudante
de medicina, como o grande renunciador que era, abandona essa carreira, tão a
gosto, na época, do bom estabelecimento no Brasil, para se dedicar a uma vida
completamente dissoluta fatal, aliás, para a sua saúde tão frágil -, ligada à
boêmia do populacho, mais lumpen, do malandro e da prostituta. Noel seja
talvez o primeiro burguês a fluir entre o morro e a cidade, no cenário musical
do país, dessa maneira vindo a constituir um dos nexos mais centrais da música
popular brasileira: a busca simultaneamente da autenticidade mais enraizada e
do cultivo mais sofisticado, numa cápsula a paradigmatização dir-se-ia cortesã
da cultura da pobreza, encontro messiânico sinalizador da independência da
sociedade (povo) perante o Estado (governo). Não falta à postura noelina a
recusa aos estrangeirismos, seja à americanização recorde-se que ele abominava
Carmen Miranda, símbolo para ele de um desvio -, seja à “argentinização”
lembre-se que Noel detestava a “tanguização” do samba. Ao mesmo tempo que isto
se dava, Noel nunca poderá, porém, ser caracterizado como um saudosista ou como
um criador fechado em si mesmo. Muito ao contrário, sua ideologia se delineia
como nitidamente modernista, sob a recusa, no entanto, da colonização
estrangeira e sob a postulação de uma brasilidade essencial, o que a letra que
serve de epígrafe a este texto, aliás, tão bem deixa claro.
A
formação musical de Noel constitui um percurso típico no universo da música
popular no Brasil, visto como um sistema de ensino-aprendizagem. Esse sistema
está francamente apoiado numa iniciação doméstico-familiar e, posteriormente,
na audição e visualização do ato musical, desempenhado pelos mestres, ao vivo
ou não. Noel, na infância, aprendeu bandolim com a mãe, sendo que aos 14/ 15
anos abraçou o violão como seu instrumento, a partir do que passou a freqüentar
os seresteiros da cidade, buscando também se instruir nos métodos de violão, em
jornais de modinha, nos saraus caseiros ou com os exímios violonistas com quem
travava conhecimento. Já mais velho, Noel sistematicamente freqüenta o célebre
O Cavaquinho de Ouro, loja de música situada na Rua da Alfândega, onde se
reunia “a melhor gente do violão brasileiro dessa década” (Máximo & Didier,
1990, p. 65). Note-se que ali uma loja, pois, escola - o célebre Quincas
Laranjeiras dava aulas de violão “por música”, sendo que todas as tardes ali
também aparecia o famoso João Pernambuco e outros violonistas virtuosos, para
tocar com Laranjeiras (idem, ibidem). Ele freqüentava tambémA Guitarra de
Prata, onde pontificava José Barbosa da Silva (o Sinhô, ou “Rei do Samba”),
além de comparecer com assiduidade às lojas Carlos Wehrs, Ao Pingüim, Carlos
Gomes, Vieira Machado e Phoenix, importantes pontos cariocas em que a música
popular - através de discos, folhas de música, instrumentos e implementos
musicais, aulas de violão e de música em geral - era executada, propagada e vendida
nessa época (op. cit.). Aos 16 anos, Noel era considerado um bom violonista,
após esse tipo de percurso que se pode dizer informal e autodidata - ali onde o
comércio é a escola e vice-versa -, que parecia constituir no Rio de Janeiro de
sua época (pelo menos aí, em termos brasileiros) o cerne do sistema da música
popular como pedagogia musical.
Sua
formação foi tão eficaz que foi como violonista que Noel começou sua carreira,
aos 19 anos, como membro do grupo vocal-instrumental Bando de Tangarás - de
forte inspiração nordestina -, criado em 1929 sob a liderança de Almirante. A
carreira de Noel vai se ligar nos anos 30 visceralmente ao rádio e ao Carnaval.
Se os anos 20 tiveram no Brasil o cinema falado como veículo mais importante
para a música popular, na década seguinte esse espaço será paulatinamente
conquistado pelo rádio, um rádio cada vez mais comprometido com a propaganda
comercial e com o mercado fonográfico. Noel irá participar, começando em 1931,
do célebre Programa Casé, da Rádio Philips, como cantor e
violonista e depois também como contra-regra. Será a partir daí que seus
sucessos carnavalescos começarão a despontar, o que tem início com o célebre
“Com que roupa?” (1931) e se consolida, entre tantas outras composições, com “O
orvalho vem caindo” (1933/34) e “Pierrô apaixonado” (1936).
Os
anos 30 são especialmente marcantes na vida política brasileira (JoãoAntônio,
1982), tudo começando com a deposição do presidente constitucional, Washington
Luís, por Getúlio Vargas, que assumiu o governo em 1930 com poderes
ditatoriais. Em 1932, ocorreu a Revolução Constitucionalista de São Paulo,
vencida por Vargas; em 1933, surgiu o Partido Integralista Brasileiro, de
nítida inspiração fascista. O ano de 1935 conheceria a chamada Intentona-
Comunista, esmagada também por Getúlio, sendo que em 1937 (ano da morte de
Noel) o ditador desfechou outro golpe, implantando o Estado Novo. Durante todos
esses sete anos, a censura à informação e às artes era exercida draconianamente
pelo famigerado DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), o que constituiria
para Noel um objeto preferencial de sua fina ironia e crítica ácida.
O
encontro de Noel Rosa com Oswaldo Gogliano, o Vadico, que viria a resultar na
canção que logo adiante será meu obj eto de análise, se deu em fins de 1932, no
estúdio da gravadora Odeon (Máximo & Didier, op. cit., pp. 266-8). Aos 22
anos de idade, Vadico havia sido contratado pela Odeon carioca como pianista e
orquestrador, ou seja como maestro, para usar essa categoria nativa que indica
o acesso do músico ao sistema de leitura-escrita da música ocidental (Menezes
Bastos, 1977 e 1982). Vadico nasceu em São Paulo, a 24 de junho de 1910, e
faleceu em 11 de junho de 1962, no Rio de Janeiro. (9)
Ele
provinha de uma família de imigrantes italianos residente no Brás, bairro
paulista até hoje marcado pelo forte acento peninsular. Dono de formação
musical erudita, Vadico seguindo uma tendência comum na música brasileira - se
dedicou à música popular desde os 18 anos, sendo que já em 1929 gravou pela primeira
vez, na Odeon, uma composição sua: o samba “Deixei de ser otário”. Contratado
por essa gravadora, ele se transferiu para o Rio em 1930, na esperança de ali
fazer sucesso nacional, deixando de assim ser um músico meramente paroquial, no
caso, estadual, o que, aliás conseguiu amplamente. (10)
A
narrativa do encontro, em 1932, entre Noel e Vadico na Odeon, feita por Máximo
& Didier em sua obra monumental sobre Rosa (op. cit.), é extremamente
arguta no sentido da reconstituição do processo de criação de “Feitio”,
processo este que se evidencia como um dos percursos canônicos de invenção da
canção popular no Brasil como gênero de arte verbo-musical: Vadico, num
intervalo de seu trabalho de maestro na Odeon, tocou para Eduardo Souto -
diretor artístico da referida gravadora e responsável pela obtenção de seu
emprego - uma de suas composições para piano. Souto, se quedou encantado com a
beleza da peça, logo perguntando a Vadico se ela tinha letra. Este respondeu
que não, ao que subitamente Souto lhe pediu para esperar um momento, indo à
sala ao lado. De lá, logo ele volta trazendo Noel, que ali cuidava de suas
gravações. Feita a apresentação dos dois, Vadico tocou uma vez mais sua
composição, agora uma potencial “música I” de uma “música II” (canção). Conforme
expus nos trabalhos 1984 e 1984a, o gênero musical a que no plano analítico se
chama de “canção” é usualmente rotulado pelo nativo da música popular
brasileira de “música” (acepção II), que a entende como uma espécie de
somatória entre a letra e a música (I), esta última também chamada de
“melodia”. Por conveniência expositiva, denominarei a “música enquanto canção”
como “música II”, apontando a melodia que é incluída por ela como “música I”.
Quando
Vadico tocou pela segunda vez sua música I, Noel, desde o início gravemente
atento, pegou papel e lápis e começou a trabalhar um “monstro”, isto é, “uma
letra provisória destinada apenas a assinalar o número de sílabas de cada frase
musical, a pontuação e a acentuação que deve ter cada uma” (Máximo & Didier,
op. cit.). Ao final do encontro, Noel disse que iria tentar a letra, a qual
apresentaria a Vadico dois dias depois, no mesmo estúdio da Odeon. Vadico a
aceitou entusiasticamente, tendo início, assim, uma parceria fecunda entre os
dois.
Apresento
ao final deste texto minha transcrição do “Feitio de oração”, feita com base na
gravação original de 1933, reproduzida em 1977. (11) Referida
transcrição, embora atenta a certos traços usualmente colocados entre
parênteses nas folhas de música, (12) é quase tão esquemática dir-se-ia
antes prescritiva que descritiva quanto aquelas. Dessa maneira, em minha
transcrição me reduzi à voz do cantor (o célebre Francisco Alves, ou Chico
Viola), não abordando a parte instrumental (a cargo da Orquestra Copacabana),
apenas indiciada por aquilo que chamei de “introdução instrumental”. (13)
Por conveniência gráfica, minha apresentação da canção está em ré maior, isto
é, uma segunda menor abaixo da tonalidade original (mi bemol maior). Deixei
também de transcrever a segunda voz do canto corriqueira na época, quando a
melodia do cantor principal quase sempre era duplicada -,feita aqui pelo também
famoso Joaquim Silvério de Castro Barbosa. Na notação da harmonia da peça,
adotei um esquema simplificado de cifras, descurando inversões de acordes e
“notas estranhas” (com exceção da sétima menor, indicada por um “7”). Nesse
esquema, os acordes menores são sinalizados por um “m”, os diminutos por um
“o”, todos os outros sendo maiores e não sendo registrados. O diacrítico “>“
aponta acentuação forte; “x”, som melodicamente indeterminado mas próximo
daquele notado; “^”, finalização em consoante glotal sonora; “Ø”, “som
transformado em pausa”. O arranjo da peça consta de seis grandes seções, a
saber:
1.
Introdução instrumental (compassos 1-8 [pausa]).
2. Y (compassos
8 [anacruse]-23) + Z (24-39) (exclusive 23a), estrofes I e II da letra.
3. Idem a 2,
estrofes III e II da letra.
4. Interlúdio
instrumental (idem a 2 e 3, sem letra).
5. Somente “Y”
de 2 e 3 (inclusive compasso 23a), estrofe IV da letra.
6. Conclusão
instrumental (idem a 1). (14)
Num
trabalho referencial, caprichosamente intitulado “Por que as canções têm
palavras?”, no qual argutamente mostra como a análise da canção que se limita
ao estudo da letra é insolvente - já que ali esta se manifesta quase como
pretexto, dispensável até pela memória (Menezes Bastos, 1984 e 1984a) , Frith
(1988, p. 121) aponta algo de grande importância teórico-metodológica quanto ao
estudo da canção: “The immediate critical task for the sociology of popular
music is systematic genre analysis - how do words and voices work differently
for different types of pop and audience?” É minha intenção aqui tomar esse
apontamento de Frith em sua abrangência musicológica geral, não o limitando
pois à música popular e ao pop: se a música é uma manifestação de ocorrência
universal, a canção o é muito mais absolutamente, pois se sabe que ela não
parece faltar em nenhum ponto do planeta, enquanto a música (instrumental) pode
não ocorrerem alguns deles. Mas a relevância da proposta de Frith não se
estabelece somente ao nível do objeto, apontando também, e de maneira
especialmente fértil, para o plano do sujeito, ou seja, para o plano das
musicologias, ou daquilo que eu chamei de diáspora dos saberes musicais científicos
(Menezes Bastos, 1990). Cada vez mais estou convencido de que o deslinde do
enigma musical, um enigma de ordem por excelência semântica cuja resolução
Lévi-Strauss (1964) considera pedra de toque para o progresso das ciências
humanas -, só poderá ser alcançado a partir do restabelecimento de um corpus
scientiarum musicum. Somente esse corpus - que dissolva para
reconstituir num plano mais profundo paróquias como as das músicas primitiva
(incluindo oriental e folclórica), ocidental e popular - poderá efetivamente
dar conta de deslindar o segredo da música. Na base dessa descoberta, sem
dúvida, está a análise sistemática de gênero, no caso aqui, da canção: “(...)
como as letras e as músicas trabalham diferentemente para diferentes tipos de
`pop’ e audiências?” (Frith, op. cit., tradução minha).
É
extremamente instrutivo verificar como a grave questão que dá título a esse
texto seminal de Frith passa por cima de sua pergunta avessa: “Por que as
canções têm música?” O que é estranho nesta pergunta senão a desobviação de que
o que define uma canção é a sua musicalidade, sendo a letra um mero atributo?
Haverá canções sem música? - “A flor que és/ Não a que dás/ Eu quero/ Por que
me negas/ O que te não peço?” (...). Mas elas se chamam poemas. E sem letra? - recordese
que os Swingle Singers ficaram famosos por cantarem solfejadamente (isto é,
sobre sílabas verbais: “da-ba-da...”) “músicas instrumentais”, de Bach e outros
compositores. Eles poderiam, é certo, cantar qualquer canção, colocando-lhe a
letra entre parênteses, mas a música aqui também passaria a ser “instrumental”.
Recorde-se, finalmente, que a existência de letra não entendida (por ser
estrangeira, arcaica etc.), seja pelo auditor, seja pelo próprio cantor, parece
uma experiência universal. Por que Eduardo Souto perguntou a Vadico se sua
composição (já) tinha letra? O que será a monstruosidade de um monstro? O que é
o que é, que pode ser esquecido (ou não entendido), mas que lá está, elemento
absolutamente indispensável? (Por que as cadeiras têm assento?) Observo que,
antes de escrever este texto, eu não sabia senão fragmentos da letra do
“Feitio”, embora eu a pudesse assobiar ou cantarolar integralmente (não, porém,
de acordo com o arranjo aqui transcrito e com todas as notas e pausas de minha
transcrição), este meu ato podendo ser reconhecido por qualquer nativo como o
de reprodução do “Feitio”. Num bar - para fechar o círculo -,alguém poderia me
perguntar: “você sabe cantar o Feitio”?, ao que eu poderia responder com
absoluta representatividade nativa: “Sei, mas não sei a letra” (noto,
entretanto, que num show, baile, concerto ou recital isto nunca poderia
acontecer: precisaria mesmo aprender a letra). Por que as emissões sonoras dos
pássaros que não parecem ter letra são chamadas de cantos ou canções? O que
será, enfim, “cantar” que “tocar” não é?
Não
há como responder a todas essas perguntas - se se quiser evitar a resposta
leviana (já que o esquecido ou o incompreendido são tão fundantes quanto o
lembrado ou o entendido) que a letra da canção não tem importância ,senão
acionando o senso antropológico que as categorias (e os gêneros discursivos são
categorias) são arbitrários culturais. Arbitrários, porém, somente para
aqueles, alienígenas, que não saibam ler as partituras de cada cultura, o que recoloca
a questão da motivação num outro plano, o do nativo. Isto significa dizer que
não há como responder a perguntas desse tipo senão inquirindo aos nativos do
respectivo sistema sociocultural, não tanto na busca- embora intermediariamente
estratégica - das formulações ad hoc que dominam seus modelos
conscientes, mas do universo inconsciente das regras que subjazem - aparição
fantasmática - a esse mundo de aparências. Será o diálogo entre as teorias
parciais assim consecutíveis que permitirá o estabelecimento de uma legislação
antropológica geral sobre a canção.
Passa-se
com a análise da canção (Frith, 1988; Brown, 1953; Menezes Bastos, 1990; e
Wade, 1993) algo de extraordinário: se a letra é quase desqualificada no plano
do objeto - sob a argumentação de sua pretextualidade - e a música é
glorificada - sob a alegação de sua indispensabilidade para a composição da
identidade da canção -, no plano do sujeito, da análise propriamente dita,
pois, se dá uma curiosa inversão: muito comumente, se acaba reduzindo a análise
do conteúdo da canção exatamente à abordagem da letra, sendo que a música I,
mesmo que dissecada da maneira mais atômica possível em sua realidade
fonológico-gramatical, quase nada acrescenta à análise enquanto elemento de
detecção do conteúdo da canção. Esse jogo espelhaste reproduz aquilo mesmo que
se passa no território das normas (mas não das regras) nativas, tipicamente no
Ocidente: se a língua falada aqui é vista como o campo por excelência de
significação de conteúdo, a música não, ela é construída como algo que somente
“envia a si mesma”, no máximo sendo ali qualificada como linguagem “expressiva”
(que, no caso da canção, daria ênfase à letra), eufemismo de sua demissão
semântica no pensamento ocidental (Menezes Bastos, 1990). É dessa maneira que
entendo que o problema geral da análise da canção encontra seu teatro de
operações numa análise significativa da música que, dialogante com aquela da
língua, seja capaz de romper com aquilo que eu chamei de paradoxo musicológico:
a demissão semântica da música no pensamento ocidental vis-à-vis a sua
entronização como linguagem suprema da engenharia identital, verdadeira ciência
dos sentimentos (pato-logia). O quê, como, quando, por quê, para que a música
expressa (isto é, “pressiona para fora”)? Minha contribuição a esse programa
aqui será limitada, seja pelo fôlego reduzido deste texto, seja por agora me
dedicar a trabalhar - de maneira tão precária, como se viu desde a transcrição
- apenas uma canção. Entendo, entretanto, que meu ensaio terá a sua utilidade e
consistência: se uma canção constitui um exemplar somente da unidade de
discurso, tipo top-down, é também um complexo de outras unidades
discursivas da espécie bottom-up (Hanks, 1989, p. 117), como tipicamente
motivos, frases etc. musicais. Mas há mais: uma canção é já em sua
substancialidade e mesmo que feita por uma só pessoa - um diálogo: entre música
e língua. Estranho diálogo este, que já de começo rompe com a unidade autoral,
desenhando-se na polifonia mais congênita. Há uma luta, de foice - no escuro da
canção. Dessa maneira, analisar somente uma canção não constituirá um jogo
tãosomente redutivo mas uma limitação metodológica de escala. (15)
Um
monstro, segundo esses biógrafos tão etnograficamente zelosos de Noel que são
Máximo & Didier, é “uma letra provisória destinada apenas a assinalar o
número de sílabas de cada frase musical, a pontuação e a acentuação que deve
ter cada uma” (op. cit.). Observe-se logo de início que o monstro é j á uma
letra. Uma letra, no entanto, “monstruosa”, por sua forma de composição
basicamente silábica (isto é, “nã nã nã...”), que dispensa (mas necessariamente
não impede) a definição lexical. Sugiro que a “monstruosidade” do monstro está
sinalizada por essa sua demissão lexical-lingüística. Essa constituição do
monstro (já letra) muito interessantemente aproxima a teoria nativa da música
popular brasileira com aquela da índia, onde também a palavra, na canção,
parece ser vista sob o prisma da perda da semanticidade (Sharma, 1993, p. 127).
Não
parece difícil equacionar o monstro com a idéia geral de um suporte rítmico da
letra, suporte este que é compatível (mas não necessariamente congruente) e
conquistado com/às estruturas rítmicas da música I. Essa verificação tem sabor
geral, não se limitando ao presente caso empírico - de uma letra feita a
posteriori da música I -, e apontando para uma obviedade, mas crucial,
quanto à natureza da canção: a determinação musical de sua identidade. Isto
fica ainda mais patente se se inquirir o processo reverso de produção da
canção, a partir da letra: haverá a possibilidade de monstro, agora? Ou seja,
de uma música (já música) provisória na direção da música I? Ou simplesmente
parece não poder existir música, como tal, provisória aqui, quase não fazendo,
no caso, sentido - senão como esforço do pensamento de através do concreto
figurado trabalhar na direção do pensado, nem mesmo mais a distinção entre
música I e música II? Por que na canção a música como que rouba da língua a
natureza, colocando-a no ouvido? Por que João Cabral de Melo Neto nunca mais
foi capaz de ver sua “Morte e vida severina” como poema depois que Chico
Buarque de Hollanda sobre este fez a conhecida canção? (H. Menezes
Bastos, 1992) Por que no universo da música popular brasileira - meu objeto de
trabalho agora é possível com uma “mesma música” cantar “letras diferentes”
(reconhecidas como tais pelos nativos), enquanto a possibilidade contrária
(cantar uma “mesma letra” com “músicas diferentes”, também identificadas como
tal pelos nativos) não parece ser válida? O que será o monstro, enfim, esse
suporte rítmico da letra, compatível (mas não necessariamente congruente) e
conquistado com/às estruturas rítmicas da música I? O que será ritmo? Será
possível tocar (“pegar”, “tatear”) com a boca (melhor dizendo, com a voz), ou,
assim, tudo é já distância, cantar?
Embora
o conceito de ritmo aqui evocado tenha uma pertinência que certamente extravasa
o caso de sua imaginação no universo da música popular brasileira, estou agora
me atendo a ele em sua realidade neste universo. Noto que aqui o conceito em
tela parece extraordinariamente abrangente e estratégico, capturando não
somente os aspectos durativo-prosódicos da corrente sonoro-musical, mas também
aqueles referentes à sua, diga-se assim, “orquestração”. A audição de uma
bateria de escola de samba um grupo instrumental tipicamente de percussão
(membranofones e idiofones) deixa isto bem claro; suas linhas rítmicas na
realidade constituem sofisticadas elaborações
rítmico-tímbrico-melódico-harmônicas. Vale ser dito que isto não parece uma
consciência tão-somente do observador mas também do nativo, particularmente por
parte do diretor da bateria (mestre de bateria; Pinto & Tucci, 1992, pp.
4189; McGowan & Pessanha, 1991, pp. 43-44). A apontar ainda para a abrangência
e fundamentalidade do conceito de ritmo no universo aqui em toque, note-se como
a expressão nativa, seção rítmica, engloba não somente a percussão e a bateria
mas também o baixo, o piano e a guitarrabase (ou seja, a harmonia) dos grupos
musicais populares do país. Fechando o raciocínio, observe-se como esta seção
rítmica (também chamada de base) é também dita a cozinha, epíteto que se sem
dírvida recorda a construção como negro do ritmo no Brasil de maneira
discriminatória (Menezes Bastos, 1992a; 1992c; e 1993), não deixa de apontar a
absoluta infra-estruturalidade musical - sob a metáfora culinária - do
parâmetro aqui em toque.
Mas
se o ritmo aparece na teoria nativa da música popular brasileira com esse
sentido tão absolutamente gestáltico que quase nada deixa escapar, ele também
se manifesta aí de maneira mais específica e tópica: “vamos cantar o Hino
Nacional em ritmo de samba (bolero etc.)”? Numa expressão como esta -
tão legítima no universo em referência -, a categoria ritmo parece se
evidenciar mais pontualmente, indicando em espécie os aspectos
durativo-prosódicos da corrente musical (pois o Hino Nacional, embora mudando
de caráter, continuará Hino Nacional em sua execução em samba, bolero etc.),
vistos como variáveis de uma equação na qual melodia, harmonia e tudo o mais
são constantes. Adicione-se: vistos como variáveis que apontam a distinção de
gênero (samba, bolero etc.) - mas, não, de canção - e que, nesse processo de
distinção, parecem divisados como embutidores de todos os outros parâmetros musicais
(pois “em”). Quer dizer, a categoria “ritmo”, na música popular brasileira, é
simultaneamente toda abrangente (orquestral) - definidora de uma unidade
musical em particular, como uma canção, por exemplo e específica, determinante
da identidade de gênero, identidade que aponta o caráter da produção musical.(16)
De um lado, a “orquestração” tonal (inclusive do ritmo), universo holístico
constituído pelas relações tencionais com relação a um centro tensional
(tônica), definindo o que é “uma música”. De outro, a mensuração durativa e a
acentuação, apontando o gênero (“caráter”) particular de discurso musical. É
minha hipótese que o suporte rítmico que o monstro constitui aponta para o
sentido específico da noção de ritmo aqui esboçada, em termos - como disse
compatíveis, mas não de congruência, com as estruturas rítmicas da música I.
Logo, entretanto - quando a letra enfim se encaixa na música I (através da
definição durativa, sobretudo), formando a música II -,isto se dissolve na
ritmicidade orquestral plena. Ou seja, na musicalidade propriamente dita. Dessa
maneira, entendo que a letra é o passe de inscrição do modo de significação
verbal (conforme minha estenografia, mito-cosmológico) naquele da música
(axiológico), que logo engloba o primeiro: as canções (poemas) podem ter música
(I) - transformando-se os dois em música (II) - para que se possa fazer essa
transformação. E vice-versa. Tentarei a seguir mostrar como isto se passa -
modestamente, como disse , deixando enfim as meras bodas com o “ Feitio”. Em
minha transcrição (no final deste trabalho), os motivos musicais (não
necessariamente mínimos), demarcados por colchetes horizontais, estão
representados por algarismos romanos minúsculos. Remeto o leitor a meu texto de
1990 para uma elaboração mais circunstanciada sobre os aspectos
teóricometodológicos e técnicos envolvidos em minha análise a seguir, bem como
nas discussões anteriores e posteriores a ela.
A
introdução ao “Feitio” (ou “do Feitio”, se se pensa no arranjo) constitui um
segmento tipicamente intermediador entre algo anterior à canção e posterior,
pois o segmento se repete como conclusão - e esta propriamente dita (Y+Z).
Observe-se que se, como introdução, o segmento termina numa dominante
especialmente suspensiva (com quinta aumentada), na conclusão a seção tem uma
finalização continuante (uma escala de acordes por graus conjuntos, aqui não
transcrita), a rigor não se fechando senão devido ao corte da gravação. A
introdução se estende até o motivo em pausa do compasso 8 (motivo vi’), que no arranjo
se explicita num arpejo de dominante (A) ao piano, com a referida quinta
aumentada. Na posição de conclusão, a moção é apagada abruptamente (como disse,
pelo corte fonográfico), não alcançando vi’. O tecido tonal do segmento em
toque é particularmente solto, dir-se-ia mesmo fraco: ele começa a se firmar
apenas a partir do compasso 4, através de uma progressão de dominantes (B, E,
A) até a tônica (D). Tal fragilidade é ainda mais reforçada pelo uso das
relativas menores (plagais) da subdominante (Em) e da dominante (F#m),
intermediadas pela dominante desta última (Fo), isto sobre um desenho melódico
cromático até o compasso 5. Assim é que, até esse compasso quando, ainda mais,
a nota da futura tônica (ré) se ouve como sétima da dominante da dominante (E)
-, ninguém sabe ao certo qual o centro de gravidade do sistema. Essa patologia
é especialmente atinente ao segmento em comentário na posição de introdução,
quando a canção propriamente dita (Y+Z) ainda está no futuro. Note-se, no
entanto, que ela é suficientemente plagal para, mesmo como conclusão firmada já
a memória tonal da peça , dissolver a resolução da canção a favor de um novo
futuro, que está fora da gravação.
No
plano motívico, esse caráter harmônico frágil da introdução (e da conclusão) é
caprichosamente engenhado: o segmento em toque se constitui de motivos
pequenos, redutíveis quase (apesar de iv) - sem a ornamentação das
appoggiatzcYas - à única nota, durativa de um compasso inteiro. Note-se ainda
que esses motivos se colocam em seqüência, de contorno melódico
predominantemente ascendente. Tudo isto vai contrastar fortemente comY e Z,
fabricados basicamente com motivos de ampla extensão, feitos de notas curtas,
em escala ou arpejo. Sugiro que o sentido geral do segmento
introdutório/conclusório é o de uma moldura a fazer o trânsito do mundo da
canção (Y+Z) com a sua exterioridade. Uma moldura que se busca neutra embora
sua fragilidade pareça indicar uma patologia triste com relação seja a essa
exterioridade, seja à própria canção, que assim é elaborada também como uma
outra exterioridade. Essa moldura tenta constituir para o auditor, enfim, a
idéia de continuidade de sua primeira exterioridade aquela que aponta o “fora”
(passado e futuro) de todo o arranjo com relação à segunda (a canção ou Y+Z),
se colocando entre as duas. Mas note-se que os dois paus da moldura não são
iguais, seja pela posição que ocupam de entrada e de saída -; seja pela
finalização inquisitiva da introdução mas continuativa da conclusão; seja -
mais ainda - pelo trabalho da memória (que transforma a surpresa da introdução
em recordação da conclusão); e seja, finalmente, pela extraordinária engenharia
sonora terminal, que acorda o auditor: isto é uma gravação!
No
plano temático, Y se explicita através de dois segmentos: vü-x e xi-xiv. Os
motivos que dão início a eles (vil e xi) mantêm uma grande identidade,
conquistada pela constância em ambos do salto ascendente de quarta, da nota da
dominante (lá) à da tônica (ré). Essa identidade, no entanto, é contrabalançada
pela diversidade de finalização: enquanto vü termina com um salto reverso
(descendente), de oitava, até a tônica, que é pronunciada secamente (staccato)
pelo cantor, através de uma consoante glotal sonora (na transcrição, “^”)
alcançada por glide (\), xi termina numa figura plena, sem corte ou
escorrego algum. Se as cabeças dos dois grandes segmentos em comentário são
constituídas dessa maneira tão fortemente contrastiva, seus corpos propriamente
ditos vão levar isto ainda mais adiante, o que imediatamente é audível através
do desenho predominantemente em arpejo do corpo do primeiro segmento e em
escala do segundo. No âmbito motívico, pois, os dois segmentos em análise
mantêm uma relação de contraste ou oposição (diferença qualitativamente
significativa).
Em
termos harmônicos, essa relação entre os segmentos em comentário vai ser
amplamente reafirmada, tudo começando com o fato de suas cabeças e caudas se
constituírem tonalmente de maneira particularmente marcada: tônica nas cabeças
(vii e xi) o que aponta outra linha de similitude entre os segmentos - e a
seqüência subdominante menor (Gm)-dominante (A), deixada em suspenso no
primeiro segmento (que, assim, finaliza no ar), mas resolutamente fechada na
tônica no segundo. A análise do miolo dos dois trechos confirma também essa
relação de contraste: no do primeiro, a seqüência harmônica se define pela
relativa da subdominante (Em), antecedida por sua dominante individual (D#o) e
seguida pela dominante da dominante (E) cuja terça (sol#) mantém, no compasso
14, uma “falsa relação” com o sol natural da melodia ; já no segundo segmento,
essa flutuação é cancelada: a viagem à região da subdominante aqui se
concretiza na subdominante mesma (G), antecedida por sua dominante individual.
Tudo se passa entre esses dois segmentos de Y, como se eles fossem quase
iguais, mas diferentes por uma sutileza significativa, que os coloca frente a
frente (em “o[b]-posição”): “O que dá pra rir/Dá pra chorar/Questão só de
peso/E medida/Questão só de hora/E lugar (...)”. (17)
Vale
considerar um dado contextual (músico-político) acerca de vil, dado este que
tem particular relevância no sentido da caracterização do modo de significação
da música I do “Feitio” como pato-lógico, espécie de axiologia onde o
sentimento (páthos) é a unidade de valor. O público da música popular
brasileira sabe muito bem discernir para onde aponta vil, reiteração no
“Feitio” daquele pequeno arpejo tão marcante do momento em que o grupo
musical-instrumental, já afinado, “dá o tom” ao cantor. Trata-se, esse sentimento
- colocado logo na cabeça do “Feitio”, após uma introdução, como se viu,
tonalmente frágil , de uma ridicularização altamente reivindicativa, feita pelo
músico (instrumentista) na direção do cantor. É com esse escárnio que o músico
- que orgulhosamente se vê detentor do saber da música popular, embora ocupante
de uma posição subalterna em sua estratigrafia de prestígio e econômica se
dirige ao cantor, que, apesar de ocupar o centro daquela estratigrafia, é na
grande maioria das vezes por ele (músico) considerado como apenas o
musicalmente estúpido “dono da voz” (mera palavra), que nem mesmo sabe
“pegar o tom” (Menezes Bastos, 1977). Raul de Barros (nascido em 1915, no Rio
de Janeiro) no final dos anos 30 (cerca de cinco anos depois da edição de “Feitio”)
consagrou esse motivo em um famoso choro (“Na Glória”), que a partir de então
se consolidou como prefixo musical hilariante, julgamento irrisivo do “músico”
à “estrela”. Observe-se, ademais, como o motivo em toque nas gravações
subseqüentes do “Feitio” tipicamente naquela de Maria Bethânia (1965), famosa
por sua austeridade - é radicalmente transfigurado, perdendo tanto o escorrego
quanto a glotalização terminais e, mais ainda, tendo o salto ascendente de
quarta mudado em descendente de quinta, ao que não mais se segue a oitava
baixa: os motivos musicais pensam o dicionário.
É
minha opinião que o sentido central de Y é o de oposição ou contraste,
diferença sutil (pois feita sobre a similitude), mas profunda. Nessa equação,
vil parece se evidenciar como uma incógnita que, assumindo um determinado valor
(escárnio), tende a especificar a semântica, não somente de Y, mas do “Feitio”
como um todo: quer me parecer que o “Feitio” faz mofa - mas triste das
discussões (nacionalidade) sobre a origem do samba (feitas por estrelas),
inventando o Brasil na tristeza, na saudade e na melancolia da paixão
suplicante, uma tristeza, uma saudade e uma melancolia, no entanto,
elegantemente contidas, sorridentes, cortesãs (“cariocas”).
Caso
se analise vii-x, o sentido de oposição uma vez mais se configura patente: se
vüi e x se desenham em arpejos ascendentes transposicionalmente quase
idênticos, finalizados por notas plenas, vii e ix se evidenciam no movimento
descendente, trabalhado através de glides seguidos de glotais sonoras
interruptoras da corrente musical (staccato). O segmento xi-xiv, se opondo ao
primeiro, é construído basicamente pelo fluxo escalar, pendular em xii e xii,
mas puramente descendente em xiv. Esse segmento abandona, assim, o binarismo
motívico do primeiro (vü/vüi//ix/x), se elaborando como disse, em escala a
partir de uma variação de xi. Aqui, a quarta ascendente de xi (lá-ré) cede
lugar à terça (si-ré) na cabeça de xii, a partir da qual, sob a intermediação
de um desenho pendular que logo se repete transposto, a escala de ré maior é
ouvida até a oitava baixa, com uma cromatização inicial (de ré a si bemol).
Z
divide-se também em dois segmentos (xvxviii e xix-xxii), constituindo, no plano
composicional, um golpe de mestre: note-se como xv, xix e xx mantêm entre si
uma profunda similitude, dada pela ascensão conjunta de quarta (fá#-si),
seguida de salto reverso de oitava com glide. Essa finalização se faz
com glotalização terminal em xv e xix, o que expressamente não ocorre em xx. No
plano melódico, esses três motivos constituem uma transposição de vil,
tentativamente (pois o lá que aí comparece é o natural, e não o #) à tonalidade
relativa (Bm), feita a ascensão como disse - por grau conjunto, e não através
de salto. Desejo logo registrar que, seja o que for Z, ele se reporta aY
(através de sua cabeça) e se constitui a ele mesmo de maneira transposicional,
e não oposicional.
Note-se
que xv-xviii cuja cabeça (xv), conforme já comentado, é uma transposição de vil
que deseja a modulação para a relativa menor , com a exceção apenas de xvii, se
faz sobre essa transposição: xvi a pendulariza enfaticamente (duas vezes),
dessa maneira se evidenciando como a retrogração - por sua vez também
transposta à segunda inferior de seu ramal ascendente (fá#si); e xvüi recorre
tão-somente a esta última transposição (mi-lá). No plano harmônico, o segmento
fortemente tende a Bm, especificamente em xvü, quando a dominante (Fo) dessa
relativa se faz ouvir, numa cadência, entretanto, que não chega a Bm e que
retorna à tônica (D). Registre-se, porém, que a tonalidade relativa aqui se
coloca no horizonte como centro tonal altamente provável. Em xix-xxi, tudo isso
é levado ao excesso: xix e xx reiteram, no âmbito motívico, aquela transposição
de vil (xv), o primeiro (xix) de forma praticamente ipsis litteris, o segundo
(xx) reforçando sua memória ainda mais, através de um pêndulo. Adicione-se que
no final deste último motivo a glotalização não mais se ouve, sendo substituída
por um término continuativo e suave. A harmonia do trecho, enquanto isto,
progride francamente na direção de Bm, estacionando, em xx, no que é já sua
subdominante (Em). Todo esse preparo - que parece desejar retirar o “Feitio” do
território do escárnio para colocá-lo no da súplica - desemboca em xxi-xxü.
Aqui, Bm, através da progressão de dominantes (C#, F#), quase toma conta. do
futuro da canção, o que deixa de acontecer por um fio, fragilmente indicado
talvez pela “falsa relação” lá-lá#, nos compassos 38 e 39. A elaboração
motívica desse trecho final é também uma transposição de vii, através de xv:
xxii pendulariza a transposição deste último motivo à segunda superior, sendo
xxi uma típica preparação. Finalmente, em xxi a glotalização antecedida por
glide descendente de oitava volta a imperar na canção.
Resumidamente,
a música I do “Feitio” pode ser entendida através da articulação de três
segmentos básicos: a introdução/conclusão (que chamarei de I), Y e Z. O
primeiro segmento intermedeia os dois últimos, buscando construir continuidade
entre o fora e o dentro da canção (Y+Z). Sugiro que essa continuidade aponta o
sentido geral de “discussão”, “polêmica”, “confronto”. Isto significa dizer que
I procura definirY+Z como uma intervenção numa discussão, que tem início antes
e que continua depois. Recordo que a arquitetura tonal-motívica de I tem o
espírito da fragilidade que eu apontei como “triste”, que em posição
introdutória o segmento se fecha como se fizesse uma pergunta a Y (na dominante
com Sa aumentada), sendo que como conclusão ele é continuativo, terminando
apenas devido ao corte da gravação. Esse espírito puramente frágil de I é
profundamente diferente do de Y (e Z), não parecendo haver possibilidade de
redução alguma entre os dois.
A
idéia geral de Y é de contraste ou oposição, entendidos como uma diferença
sutil (e não qualquer diferença), pois conquistada sobre a similitude. Esse
contraste é especialmente marcado em vii-x (vii/viii//ix/x), sendo elaborado
variacionalmente em xi-xiv. A pena de arara de Y (e de Z, como se viu) é vii,
“patologia do escárnio”, reconstituída na canção a partindo contexto
músico-político. Trata-se de uma patologia relacional vertical, do subalterno à
estrela. Sugiro que vü responde à pergunta com que I, em posição de introdução,
finaliza. Possivelmente, o glide de oitava descendente, seguido de
stacatto, é o observável mais claro dessa patologia, sendo que a finalização
por nota plena (escorregante ou não), com a ausência de glotalização final,
parece indicar uma mudança significativa no escárnio. É minha opinião que essa
mudança busca o sentido de súplica, mantida, assim, a verticalidade relacional
da patologia. Z eternamente busca, embora nunca obtenha completamente (nem
completamente deixe de conseguir) conduzir Y (através basicamente de vü) para a
casa da relativa menor e da finalização de vü somente escorregante (sem
stacatto). Isto é, Z intenta transformar Y em triste (fechado, contrito,
suplicante e respeitoso). Recordo que, no arranjo, Z não é repetido na parte 5,
quando Y aparece isolado e logo se faz a conclusão (em 6). Isto parece ser um
sinal de vitória de Y sobre Z. A parte 4 do arranjo - como disse, um
embelezamento puramente instrumental de Y+Z -,por não estar transcrita, aqui
não poderá ser analisada. Sua simples presença, porém, parece indicar, no
contexto geral do arranjo, uma especialmente marcada prevalência da música l
ante a letra. Noto que aqui os instrumentos da orquestra se manifestam de
maneira a um só tempo muito individualizada - o que enfatiza uma polifonicidade
radical - e extremamente gregária, o que aponta a existência de uma voz
central, predominante.
Como
fazer, agora, dialogar essa análise da música I do “Feitio” - que apesar da
brevidade e do esquematismo será significativa - com a da letra? Como colocar a
conversar essa axiologiaem que o sentimento é a medida de tudo - com a
mito-cosmologia verbal-cognitiva? Observe-se que, intentando descortinar a
modalidade de construção semântica da música, a que chamo de patológica, não
somente pude - modestamente, é certo - evidenciar como a música I significa,
programa que segundo Agawu (1991, p. 5) é o suficiente e o necessário para a
semiologia musical, já que para ele a questão de o que a música
significa é irrelevante. Entendendo que esse programa puramente, diga-se assim,
“formalista” - estrategicamente relevante, é claro - não se contém em si mesmo,
como se pedisse o salto ao conteúdo, ensaiei obter, através da análise da
música I do “Feitio”, algumas indicações daquilo mesmo que, para o nativo e no
nível das regras, está dentro da música I. É certo que esse intento - por
extraordinariamente difícil, como o de qualquer semântica (Menezes Bastos,
1990) - aqui aparece reduzido quase a fiapos e migalhas e - pior ainda -
contaminado por um dado contextual (embora músico-político) avassaladoramente
importante. É o que tenho nas mãos, senão o silêncio.
Em
meus textos de 1984 e 1984a, brevemente estudando uma canção de Caetano Veloso,
sugeri que no universo da música popular brasileira as relações entre música I
e letra na música II seriam, sujeito/objeto. Do ponto de vista lógico, tal
relação implica um englobamento da letra pela música I, similar ao englobamento
produzido pela tradução: “como se diz `casa’ em inglês”? Em minha
dissertação de doutorado (Menezes Bastos, 1990), estudando agora canções dos
índios Kamayurá - habitantes da região dos formadores do rio Xingu -, eu pude
levar adiante esse pequeno apontamento, que ali me resultou especialmente
firmado, pois encontrei nesses índios os formuladores de uma teoria da tradução
intersemiótica absolutamente encantadora e fértil: para eles, a música é a
máquina tradutora, no ritual, da mito-cosmologia na dança (e em outros sistemas
de expressão corporal, como a pintura e a ornamentação). Quer dizer, no rito, o
mito está em música (como o presente texto está em português);
tudo ali - para os Kamayurá -, entretanto, está em dança (não há mais
tartarugas depois disto). Desejo agora sugerir - recordando uma vez mais
Lévi-Strauss (1964), quando ele aponta que a música é a única linguagem a um só
tempo inteligível e intraduzível - que a canção é uma tentativa de tradução da
língua em música (não me parece ser possível o caminho retrógrado, mas
isto deverei estudar no futuro), tradução que, como qualquer, sempre será uma
traição (algo como uma tradição, na falsa mas instrutiva etimologia).
Se
a música I, na música II, é o intento tradutório da letra, sujeito que engloba
esta (seu objeto), como será que isto se produz? É minha convicção que
patologicamente, isto é, a música I traduz a letra usando todo o seu arsenal inteligível
- onde o motivo é o átomo significante -, para paradoxalmente retirá-la da
substancialidade mitocosmológica e colocá-la na aspectualidade, modalidade,
tensionalidade (tonalidade). É por isso que a música é uma linguagem
Misticamente axiológica, na qual a idéia obsessivamente cede lugar ao valor ou
entendimento (juízo ou falta de). É meu entendimento que o valor musical tem
substância no gosto ou sentimento, a estética, portanto, determinando toda e
qualquer ética musical. Como “não entendo nada de língua”, minha análise da
letra do “Feitio” será puramente esquemática e rápida (para a letra, conforme a
parte final deste texto).
Y é
dominado por pares de oposição: achar (ter uma opinião numa polêmica
[racionalidade])/ perder-se (perder a pertinência, identidade a/com relação a
um ethos abrangente); batuque (forma mito-arqueológica das músicas
negro-africanas no Brasil)/privilégio; samba/realidade. Isso, em vii-viii. Em
ix-x, encontro: por isso (para não perder-se)/defender (não achar);
samba/colégio (mundo dos brancos, racionalidade); morro/cidade (advérbio lá).
Este lá - que, em português, a depender da entonação pode aproximar ou
distanciar o sujeito do objeto, do ponto de vista do gosto - aqui aparece
neutro, devendo absorver, pois, os sentidos de “cidade” tanto enquanto “mundo
dos brancos” quanto como Cidade Nova (bairro de migrantes pobres, baianos). De
xi a xiv as oposições parecem buscar definições paradoxais: dor = cruel/saudade
(falta do amado); Bambar = chorar/ alegria (logo depois: sorrir/nostalgia). Em
Y há uma importante definição intersemiótica da música (samba) com relação à
dança (“samba”): a dança está dentro (em) da música (melodia). Essa definição,
interessantemente, retrograda a audição Kamayurá do mundo, de acordo com a qual
a dança é o último redutor da cadeia intersemiótica ritual. Observe-se que
“coração” procura cancelar o contraste “morro/cidade” (lá), a favor do primado
amoroso passional.
Z
parece desejar fugir do quadro oposicional composto por Y: para isto, o autor
masculino da letra - participante da discussão acalorada da qual Y se evidencia
como uma intervenção - envia sua mulher (morena) para cantar na Penha, bairro
carioca famoso por suas festas religiosas católicas e suas rodas de samba. Ela
irá cantar ali a melodia do “Feitio”, metáfora de uma prece (súplica), feita
com harmonia e satisfação, mas triste.
Tudo
se passa entre a música I e a letra do “Feitio” como se uma fosse a cópia
lógica da outra (atestado da genialidade de Noel também como letrista, capaz de
perceber a estrutura profunda da música I para a qual faz uma letra): oposição
com oposição (Y), transposição com fuga (Z). Mas, então, a que vem a canção
enquanto encontro intersemiótico? Simplesmente para retirar a música da
tatilidade do tocar, colocando-a na distância da voz? Pretendo mostrar,
abaixo, que a música I e a letra do “Feitio”, além de se evidenciarem com uma
extraordinária compatibilidade lógico-proposicional, trabalham diferentemente
na direção da música II. Esse trabalho - apesar da seqüência cronológica
conferir posteridade à letra - se faz pelo englobamento desta última pela
patologia musical. Serei breve. Este texto já voa longo.
Quando
Y entra, logo após o tecido triste de I - que termina com uma interrogação -,ele
o faz com uma resposta ridicularizante, que pergunta (vii): “Quem
acha?/Batuque?/O samba?”. Isto posto, logo ele mesmo, Y, tristemente se
responde: “Vive se perdendo!/É um privilégio!/Na realidade!”
Se
as oposições, assim, da letra parecem se elaborar de maneira tipicamente
categorial - cada uma, diferente da outra -, maneira esta que por outro lado
não permite o discernimento discursivo questionante ou responsivo, aquilo que a
oposição (somente uma, repetida nas várias estrofes da canção) da música I lhes
produz é, de começo, uma igualização que as emparelha como oposição única. Em
seguida, o que ocorre é a distinção responsiva ou questionante, o que é
arrematado pela cobertura avaliativa ridicularizante ou triste. Com uma
pequena variação - a dispensa da definição responsiva/questionante das
proposições envolvidas -,essa forma de tratamento da letra pela música 1 de
vii-vii se manifesta também em ix-x. A neutralidade do advérbio “lá”, aposto a
“cidade”, se continua como tal ao nível da definição categorial - e, então, a
distinção entre “mundo dos brancos” (cidade) e dos “baianos” (Cidade Nova) é
interessantemente fundida por Noel na outrificação generalizada -, deixa de
existir do ponto de vista patológico: x, como já examinei, se encontra no território
oposto ao do escárnio (tristeza). Sugiro que aqui a música I avalia toda e
qualquer distância social como triste. Em xi-xiv, algo tão profundo como isto
parece também se dar: aquilo que chamei de definições paradoxais da letra -
quando os opostos são, por assim dizer, somados, não na procura de sínteses que
os englobe, mas de contradições irredutíveis - sofre um tratamento variacional
por parte da música I, baseado em xi (oposto de vil), que os coloca num
território não-paradoxal mas integral, único e pleno (oposto ao escárnio). A
música I do “Feitio” parece, assim, constante e globalmente usar da oposição,
do contraste e da contradição para construir a unidade.
Em
Z, a fuga da letra do quadro de oposições fabricado por Y (na direção da
súplica religiosa-amorosa) é contraditada pela patologia da música I: a
súplica, para esta, é uma remissão uma vez mais a vii, equiparadas, assim -
pela verticalidade -, as relações subalterno/estrela com aquelas vigentes entre
o amoroso e Deus, metáfora da mulher. A busca da tonalidade relativa menor em
Z, somada à sua elaboração motívica (sobre vü), é aqui tão forte que o cantor
do “Feitio”, estacionado no compasso 39 e no momento do retorno a vii, fica
quase sem saber se volta a vil em ré maior ou em si menor: “Rio ou choro”
(“questão só de peso ou medida”)? A música I de Z antes combate que foge de Y,
cuja vitória sobre Z é, caracteristicamente, uma vitória de Pirro.
DaMatta
(1978), em seu estudo referencial sobre os ritos nacionais brasileiros, coloca
o leitor ante a cifra de que a ética brasileira seria dilemática, situando-se a
meio caminho entre as éticas moderna (ou burocrática) e tradicional (holística
ou hierárquica). Note-se que essa importante chave de leitura sobre o Brasil se
reporta ao paradigmático trabalho de Dumont (1970) sobre o sistema de castas do
sul da índia. Aqui o indivíduo empírico não se torna valor, sendo construído
como parte de um todo hierárquico, dominado pelas representações do puro e do
impuro. Esse sistema, ainda segundo Dumont, seria fortemente oposto ao
ocidental moderno, composto por “in-divíduos” que se vêem como totalidades e
que buscam escamotear a submissão à ordem social inclusiva, encontrando na
liberdade e na igualdade seus valores cruciais (idem, 1985). Segunda DaMatta, a
ética brasileira estaria ao meio desses dois pólos, na medida em que indivíduo
e pessoa conviveriam no Brasil fluentemente, aqui sendo possível, portanto, a
navegação entre a nacionalidade burocrática e a lógica - diga-se assim -
doméstico-familial.
O
que a análise do “Feitio” parece indicar - estando eu convencido de que se está
aqui, face a essa canção, à frente de um discurso absolutamente fundante sobre
o que seja o Brasil - é que a estimulante cifra de DaMatta sobre o país tem
consistência, merecendo, contudo, considerações que a retirem da ambigüidade
com que pode eventualmente ser lida. O “Feitio” claramente recusa a discussão
sobre a origem do samba, metáfora do Brasil. Ele não somente a recusa, mas a vê
com escárnio, desenhando-a como uma discussão feita pelas elites, por ele
construídas como ignaras. As elites aqui - recordo - são como o cantor que não
sabe “pegar o tom”. Desejo referir que Noel Rosa parecia estar muito bem
informado sobre toda a polêmica acerca das origens do Brasil - e
particularmente da música brasileira - que se passa no cenário intelectual do
país a partir da célebre Semana de Arte Moderna, de 1922 (João Antônio, 1982, e
Menezes Bastos, 1992a e 1992c). É minha opinião que a recusa em toque - da nacionalidade
das elites - aponta para o Estado brasileiro, visto, porém, não como
qualquer Estado-nação moderno, mas como a metrópole (governo) da sociedade, sua
colônia original. Trata-se de um Estado aqui, como se sabe, ocupado pela lógica
doméstico-familial. Quer me parecer, portanto, que a recusa do “Feitio” aqui
tem como mira exatamente esse Estado ambíguo e clientelizador do povo, com o
qual de forma alguma, pois, parece se comprazer.
Mas
ao mesmo tempo que o “Feitio” recusa irrisivamente, ele postula. Postula a
unidade e, assim, o cancelamento da contradição conflitual. Para ele, essa é
uma invenção da nacionalidade das estrelas. Qual o “coração” do “Feitio”, no
entanto? Coração
que busca apagar o conflito e o escárnio (veja Y), na direção da súplica
amorosa-religiosa (conforme Z), eleita como origem e teleologia do Brasil
(samba)? O coração do “Feitio” – desejo uma vez mais dizer - é cortesão e
estóico. Ele é triste e sorri da tristeza elegantemente: ele é carioca. O
Brasil do “Feitio” - audível até hoje no botequim ou no show, recital ou
colóquio, no Rio de Janeiro ou em Jiparaná - então parece sim dilemático. Não
tanto, porém, como se indeciso entre o moderno e o tradicional - polaridade
que, aliás, esmeradamente tanto busca apagar -, mas como postulante de uma
unidade outra, que até agora não parece ter “dado certo” mas que, certamente, “
já passou de português”.
Letra I
Quem acha vive se perdendo
Por isso agora eu vou me defendendo
Da dor tão cruel desta saudade
Que por infelicidade
Meu pobre peito invade
II
Por isso agora
Lá na Penha vou mandar
Minha morena pra cantar
Com satisfação
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba
Em feitio de oração
III
Batuque é um privilégio
Ninguém aprende samba no colégio
Sambar é chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia
IV
O samba na realidade
Não vem do morro nem lá da cidade
E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba então
Nasce no coração


NOTAS
1. Trecho da letra da
canção “Não tem tradução” (ou “Cinema falado”), música e letra de Noel Rosa.
2. Veja principalmente Menezes Bastos (1990, 1991, 1995, Manuscritos 1, 2, 3, 4
e 5).
3. Recordo que o termo “católico” tem origem na
palavra grega para “universal” (kathólon), sendo especificamente
aplicável, no contexto da reforma litúrgica gregoriana, ao canto gregoriano
(Leuchter, 1946).
4. Sobre a mito-cosmologia fonográfica no Ocidente - que originalmente analisei
em 1990 a partir de uma nota preciosa de Tinhorão (1981) -, veja também meus
outros trabalhos citados na nota 2. Consulte também Grivel, 1992. Acerca da
metáfora concertante do sistema internacional das nações-Estado modernas
(concerto das nações), conforme meus textos de 1990, 1995, Manuscritos 1 e 4.
No Manuscrito 6 trabalhei a “fase arqueológica” da música popular no Brasil.
5. Em 1993 eu pude rapidamente discutir como a polêmica dos prós e contras a
respeito da bossa nova, tão marcante nos anos 60 e 70 brasileiros, na qual
intelectuais do peso de Augusto de Campos e José Ramos Tinhorão desempenharam
papéis polares, se inclui na elaboração brasileira da Guerra Fria.
6. Embora se possa falar de música popular
brasileira desde finais do século XVIII - como é o caso da modinha, um gênero
internacionalizado já em 1877, através de Domingos Caldas Barbosa e de seu
notório sucesso em Portugal -,estou aqui me referindo a ela enquanto fenômeno
fonográfico. Isto a coloca no século XX, 1917 sendo uma data conveniente de sua
demarcação, com a gravação do primeiro samba de sucesso - “Pelo telefone”, de
Ernesto dos Santos, o Donga, e Mauro de Almeida (Moura, 1983, pp. 76-82). Deixo
de usar, neste texto, a categoria MPB como sinônima de “música popular
brasileira”. Isto porque, no discurso nativo, “MPB” indica tão-somente a
linhagem constituída pela bossa nova, pela canção de protesto, pelo tropicalismo
e por sua posteridade (Pinheiro, 1992, e Menezes Bastos, 1995b).
7. No Manuscrito 5 pude discutir como a maneira
cool do canto bossa-novístico - consagrada por João Gilberto -, ao se
filiar à tradição da lírica modinheira, aponta uma mudança crucial na
representação das camadas médias urbanas brasileiras acerca das relações entre
homens e mulheres, agora tentativamente construídas sob o prisma da simetria.
Essa maneira de cantar radicalmente se opõe àquelas características do bolero e
do samba-canção.
8. Para a vida e obra de Noel, ver Almirante
(1977); João Antônio (1982); Chediak, (s/d); Marcondes (1977); e Máximo &
Didier (1990).
9. Para a vida e obra de Vadico, veja
Marcondes, 1977, p. 775.
10. Vadico, além de ser um considerável sucesso
brasileiro, é dono também de uma bem-sucedida carreira nos Estados Unidos, no
período de 40/54. Conforme pesquisei (Menezes Bastos, 1992a), o Rio de Janeiro,
além de ser a capital política do Brasil de 1863 a 1961, apareceu no cenário
brasileiro a partir de 1808 - com a transferência da corte portuguesa para lá -
também como a capital cultural do país, cidade através da qual o Brasil olha
para o mundo (isto configura outro sinal, aliás, de que o nacional - com todos
os seus locais, regionais, estaduais etc. - e o internacional mutuamente se
constituem e empurram, especificamente no caso da música popular).
11. Conforme, respectivamente, Vadico e Rosa
(1933 e 1977).
12.
Para uma transcrição corrente da canção em referência, veja Chediak (s/d, pp.
66-7).
13.
A formação da referida orquestra para o arranjo em consideração - possivelmente
de autoria de Vadico e por ele mesmo regido - inclui os seguintes instrumentos
(listagem tentativa): piano, baixo acústico, bateria (somente a caixa,
[duplicada por tamborim?]), clarinete, flauta, sax alto, sax tenor, trombone
(de pisto?), trompete e possivelmente tuba e sax barítono. Agradeço a Silvia
Beraldo e a Duda Machado as conversas tão produtivas sobre esse arranjo.
14.
Observe-se que no “interlúdio instrumental” - que, como já registrei, repete 2
e 3 sem letra -, se adota um processamento antes de embelezamento que de
improvisação. Isto não é estranho ao próprio jazz do começo dos anos 30, como
se sabe, amplamente elaborado em torno do embelezamento temático, a improvisação
como tal somente se consolidando posteriormente (Gridley, 1991, p. 53).
15.
Agradeço a Hermenegildo José de Menezes Bastos pelas conversas sobre as
relações entre letra e música no universo da música popular brasileira, nas
quais muito me baseio no sentido das presentes formulações. Sou, no entanto, o
único e exclusivo responsável pelas idéias aqui desenvolvidas.
16.
Note-se como este último sentido (específico) de ritmo se evidencia quase como
uma obviedade num país onde o que logo sinaliza o gênero é a batida (tipicamente
ao violão) ou a levada (da “cozinha”). Forçoso se faz constatar que o
meu uso, no decorrer de todo este texto, de categorias como “discurso”,
“discussão”, “conversa”, “diálogo”, “polifonia”, “gênero” etc., embora
certamente comunicante com o modelo proposto por Bakhtin (1986 e Seitel, no
prelo, para uma feliz aplicação), a ele necessariamente não se remete. Por
prudência. Essa prudência é conquistada pela simples verificação de que o
modelo em toque encontra sua origem na análise lingüístico-literária (onde,
curiosamente, a música, nunca trabalhada, é uma metáfora constante). Por outro
lado, ela procura também consignar a minha não-filiação ao extremismo
discursivista - tão a gosto de uma apropriação indébita do modelo em comentário
-, que tão-somente propõe que a teoria do discurso desmantele a da linguagem
(ver Urban, 1991, pp. 128, para uma abordagem dessas teorias da qual muito me
aproximo, pela posição mutuamente fertilizadora que advoga dever existir entre
ambas). Fique claro, pois, que, usando aquelas expressões, recorro antes ao
arsenal analítico musical e musicológico (Menezes Bastos, 1990) que às
metáforas que dele tão genialmente faz Bakhtin, isto no século de Lévi-Strauss
que, quanto a metáforas musicais geniais, certamente ficará na memória.
17. Trecho da letra de um samba cujo autor desconheço.
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