Roberto CAMPOS, A lanterna na popa.
Topbooks, Rio de Janeiro, 1994.
1.417 páginas.
O leitor que não se assustar diante do tamanho do livro de memórias de
Roberto Campos, A lanterna na popa, e tiver a coragem de iniciar sua
leitura, acabará recompensado. Além de ser bem escrito, com momentos de humor e
fina ironia, traz o ponto de vista do autor sobre processos cruciais da história
brasileira das últimas décadas e, sobretudo, ilumina dimensões novas, freqüentemente
não reveladas nas obras convencionais de história política ou econômica.
Ao longo de suas 1.417 páginas, Roberto Campos relata suas origens, de
filho de professor e mãe costureira, nascido em Mato Grosso, no início do século.
Fala de sua passagem por seminários em Minas Gerais, onde o ensino da lógica
escolástica permitiu que desenvolvesse a disciplina do raciocínio e do estudo,
que se tornou, para ele que não tinha "pistolão", arma decisiva de
aprovação no concurso do Itamaraty. Relembra os passos de sua carreira de
funcionário diplomático, nos anos 40, nos Estados Unidos, onde teve a
oportunidade de assistir à montagem do FMI, do Banco Mundial e da ONU. De forma
detalhada, descreve suas atividades de dirigente de importantes agências
governamentais de gestão econômica no Brasil, nos anos 50 e 60, tais como o
BNDE e o Ministério do Planejamento do governo Castello Branco, passando pelos
Planos de Metas de Juscelino Kubitschek. Descreve ainda sua atuação como político
parlamentar, a partir dos anos 80.
Através
de suas memórias, é possível acompanhar a circulação das elites brasileiras por
entre vários espaços sociais, como as agências internacionais, os organismos do
governo, o mundo financeiro e empresarial, ou os meios acadêmicos; é possível
também estimar o peso de certos trunfos para a alavancagem de uma trajetória,
como a sua, na alta função pública: o desempenho escolar, permitindo a
superação da origem de classe modesta e o ingresso na carreira diplomática; os
estudos econômicos , garantindo a qualificação estratégica para o momento do
pós-guerra; o "capital" técnico e social, acumulado em organismos
econômicos internacionais e em reuniões, como Bretton Woods, por exemplo, onde
travou conhecimento com Eugênio Gudin e Otávio Gouveia de
Bulhões, figuras de elite que foram decisivas em sua carreira, abrindo-lhe
caminhos para o acesso às agências de gestão econômica no Brasil.
Na verdade, a história de vida de Roberto Campos deve ser vista dentro
do contexto histórico mais amplo de constituição do chamado "Estado
desenvolvimentista" e de formação de novas elites políticas no país,
aquelas encarregadas da direção dos novos órgãos governamentais criados para a
regulação e intervenção econômica. Ele fez parte das primeiras gerações de
"técnicos" (denominação dada, nos anos 40 e 50, a profissionais que
depois serão conhecidos como "economistas"). Essas gerações eram
constituídas predominantemente de engenheiros (como Eugênio Gudin e Roberto
Simonsen), ligados a empresas de construção de obras públicas, que participaram
de numerosos conselhos técnicos e comissões econômicas do primeiro governo
Vargas; e ainda de advogados e/ou altos funcionários governamentais (como Otávio
Gouveia de Bulhões, Celso Furtado, Rômulo Almeida e o próprio Campos).
Interessando-se pelos assuntos econômicos por razões de ofício ("mais por
resignação do que por vocação", como ele diz), esses homens se tornaram
economistas, estudando como autodidatas ou em programas de pós-graduação no
exterior, como foi seu caso, ao freqüentar os cursos noturnos da Universidade
George Washington e depois os de Columbia, em Nova York.
Como Celso Furtado, para quem o contato com as teorias keynesianas em
Cambridge e o trabalho na Cepal foram passos decisivos de carreira, a "vivência
no exterior", a passagem pelos organismos internacionais e os cursos de
economia foram também decisivos na de Roberto Campos. Permitiram-lhe sair da
condição de "padreco, filho da costureira" e "patinho feio"
do Itamaraty e alcançara posição de membro destacado da elite dirigente.
E, ainda, possibilitaram sua integração a um grupo que realizou
importante trabalho de construção institucional dentro e fora do Estado.
Liderado por Gudin - daí a admiração que Campos revela frente àquele que chamou
de "estadista e profeta" - e composto por Bulhões, Lucas Lopes,
Glycon de Paiva e muitos outros, esse grupo participou do processo de criação
de órgãos como o BNDE, da formatação das instituições de planejamento econômico
e do sistema financeiro, como a Sumoc e o Banco Central. Roberto Campos
colaborou igualmente com o mesmo grupo na consolidação de outras instituições
como a Faculdade de Ciências Econômicas do Rio de Janeiro, da então
Universidade do Brasil, e o Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação
Getúlio Vargas, ambos criados e dirigidos, durante muitos anos, por Gudin e
Bulhões. A Faculdade de Economia do Rio, juntamente com a da USP, foi pioneira
no sistema universitário brasileiro; e o Ibre introduziu e desenvolveu no
Brasil, de forma também pioneira, nos anos 40, as chamadas "tecnologias"
keynesianas: contas nacionais, balanços de pagamentos e índices de preços. Como
é conhecido, essas instituições ofereceram contribuições importantes para o
processo de desenvolvimento industrial e de modernização da sociedade
brasileira.
Roberto Campos não foi porém apenas um alto funcionário de agências do
poder executivo. Lembrando Hayek, que diz "não ser bom economista quem for
apenas economista" (p. 237), ele resolve se tornar, a partir dos anos 80,
um policrata (híbrido de político e burocrata). Para se colocar do outro lado
da política, no Congresso, ele tem que enfrentar os desafios da competição
eleitoral. São interessantes suas descrições das campanhas em Mato Grosso, onde
as habilidades de palanque e o atendimento de favores para a obtenção de votos
se misturam com os trunfos trazidos pela condição de tecnocrata, intermediando
empréstimos internacionais para seu estado.
O leitor observará que as memórias são muitas vezes misturadas com
trechos de análises técnicas sobre desenvolvimento industrial, planejamento,
sistema financeiro, reserva de mercado para a área de informática e outras
questões do gênero, nas quais o autor esteve envolvido. Nesses "ensaios
econômicos" ele expõe seus pontos de vista, assumindo posições que na
linguagem da moda poderiam ser denominadas "neoliberais".
Independente da adesão ou não às orientações políticas e ideológicas de Roberto
Campos, o livro é um documento imprescindível para aqueles que, deixando de
lado preconceitos, pretendem conhecer "por dentro" o Estado e o sistema
político do país, a partir da vivência reconstruída de um de seus personagens
mais importantes.
Mas
a contribuição de uma obra de memória será tanto maior quanto for a percepção
do leitor de todos seus efeitos simbólicos. Nela, o autor pretende produzir
conhecimento sobre si, algumas vezes prestar contas ou esclarecer fatos, como
na passagem em que Roberto Campos relembra o Acordo de Roboré sobre o petróleo
boliviano, episódio que parece ter sido dos mais dolorosos de sua vida política
e que acabou gerando-lhe a alcunha de "Bob Fields". Além disso,
através da construção de suas memórias, o autor pretende gerar também o reconhecimento
de si próprio. Vale a pena transcrever, por sua expressividade, como ele
apresenta fatos simples da vida pessoal - ano e mês de nascimento - de forma
construída, isto é, relacionada à interpretação de grandes acontecimentos
históricos e tomada de sentido pelas palavras do poeta: "Nasci num annus
terribilis e num mês cruel. O ano foi 1917, em
plena I Guerra Mundial, poucos meses antes da revolução comunista de outubro, o
mais sangrento experimento de engenharia social de todos os tempos (...) O mês
era abril, que o poeta T. S. Eliot descreveu como `o mais cruel dos meses,
misturando memória e desejo' (p. 119). Memória e desejo. Justamente o que aqui
está em jogo."
Cabe, portanto, ao leitor, mesmo reconhecendo o valor da obra, não se
deixar encantar e perder o senso crítico.
MARIA
RITA LOUREIRO é socióloga, professora da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e
do Departamento de Economia da USP
John Manuel MONTEIRO (org.), Guia de
fontes para a história indígena e do
indigenismo em arquivos brasileiros –
Acervos das capitais. São Paulo, NHII/USP/
Fapesp, 1989. 496 páginas.
Ao prefaciar um número especial da Revista de Antropologia da
USP, inteiramente voltado à questão da história indígena e reunindo artigos que
haviam sido apresentados nos três primeiros anos de trabalho do grupo
"História indígena e do indigenismo", da ANPOCS, a antropóloga
Manuela Carneiro da Cunha anunciava: "A história dos povos indígenas no
Brasil está mudando de figura". De 1989, quando esse volume foi publicado,
para cá, várias outras obras foram lançadas, evidenciando não só um maior
interesse nessa questão, por parte de especialistas de diferentes áreas, mas
também o rico potencial a ser explorado, tanto em termos metodológicos como em
termos de materiais e documentos disponíveis nesse campo de pesquisa.
O Guia de fontes para a história indígena e do indigenismo em arquivos
brasileiros - acervos das capitais, organizado por
John Manuel Monteiro, editado pelo Núcleo de História Indígena e do Indigenismo
da USP e publicado com o apoio da Fapesp, vem sedimentar essa área de
conhecimento e esse campo de pesquisa, que se encontra em fase de pleno
florescimento. Ele realiza um amplo e necessário mapeamento de acervos
documentais, em sua grande maioria inéditos, guardados em instituições
nacionais e de interesse para a história dos índios no Brasil. Seu impacto
sobre pesquisas antropológicas e históricas só poderá ser avaliado em anos
vindouros, mas, desde já, revela que os arquivos brasileiros guardam documentos
muito mais abundantes do que se esperava e traz à tona personagens,
acontecimentos e processos sobre os quais pouco ou nada se sabia. Permite, também,
perceber com mais objetividade a extensão daquilo que ainda não se conhecia.
De posse desse valioso subsídio para pesquisas, que deverá atrair o
interesse de um número maior de historiadores e antropólogos, é de se esperar
um alargamento do campo de investigação sobre a história indígena no Brasil.
Desde já, fica posta no horizonte desses pesquisadores a tarefa de reescrever
capítulos variados da história do Brasil, na tentativa de dar conta do impasse
que hoje está a olhos nus e que poderia ser exposto pelo paradoxo de uma
assentada historiografia, onde os índios quase nunca aparecem como atores históricos,
e de uma volumosa documentação, composta por fontes primárias, onde esses
mesmos índios têm forte presença nas várias regiões do Brasil e nos diferentes
momentos de sua história.
Foram necessários cerca de quatro anos de pesquisa, envolvendo
pesquisadores de diferentes universidades brasileiras num esforço que, além de
interinstitucional foi também interdisciplinar, bem como um financiamento
considerável, conseguido junto à Fapesp, para que o Guia de fontes pudesse
ter uma abrangência nacional. Mesmo assim, os estados do Amapá, Roraima e
Tocantins não foram incluídos no levantamento, que, em razão da ampla intenção
inicial do projeto, por um lado, e a inexistência de instrumentos congêneres,
por outro, se restringiu ao mapeamento dos arquivos localizados nas capitais
dos estados. Duas ex-capitais, que possuíam materiais significativos para a
história indígena, também tiveram seus acervos arrolados no levantamento; são
elas: Goiás Velho e Niterói. Do conjunto dos estados sobressai o Rio de
Janeiro, do qual a descrição dos arquivos ocupa quase metade das páginas do Guia
de fontes, respondendo por cerca de 40 por cento dos conjuntos documentais
descritos. Nas palavras do organizador do volume, tal concentração não
surpreende: "Afinal de contas, em matéria de documentação histórica, com
arquivos do porte do Arquivo Nacional, da Biblioteca Nacional, do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro e do Arquivo Histórico do Itamaraty, o Rio de
Janeiro continua sendo a Capital Federal" (p. 10).
Mas, se há diferenças consideráveis, quanto ao volume de documentos e
instituições inventariadas entre os vários estados, há também entre as descrições
realizadas dos diversos conjuntos documentais. Isto porque, embora houvesse uma
coordenação geral do levantamento, sob responsabilidade de John Manuel
Monteiro, compilador das bibliografias América Latina colonial e A
escravidão na América Latina e no Caribe (Cela/ Unesp, 1990), o arrolamento
e a descrição dos documentos em cada estado esteve a cargo de equipes locais,
que tiveram de enfrentar condições de trabalho muito desiguais: de manuscritos
já publicados e documentos descritos em listas e inventários a maços de
documentos que, empoeirados pelo tempo, foram objeto apenas de simples
identificação. Visando uma padronização mínima, todavia, na determinação dos
conjuntos documentais descritos, buscou-se preservar "a organização e as
rubricas utilizadas nas instituições guardiãs" (p. 8). Assim, as
desigualdades que porventura possam existir nas descrições dos diversos
conjuntos documentais não constituem propriamente um problema, uma vez que há
uma certa coerência e uniformidade em termos dos arquivos existentes em cada
estado. Ao contrário, elas são sinais da diversidade de documentos disponíveis,
bem como da heterogeneidade de tratamento a que foram submetidas essas fontes
primárias, pelas diversas instituições que as abrigam. E isto o Guia de
fontes conseguiu mostrar de forma muito feliz.
As categorias escolhidas para a organização e apresentação das informações
compulsadas ao longo do levantamento colocam à disposição dos pesquisadores
informações quanto à natureza dos documentos, seja em termos de temas,
personagens, acontecimentos ou períodos, seja em termos do tipo do documento -
isto é, se se trata de legislação, relatórios, correspondência, fotografias
etc. -, e ainda quanto à dimensão, ou seja, a delimitação do espaço físico
ocupado por documentos textuais ou o número de unidades em caso de rolos de
microfilmes, fotografias ou mapas. Mas não só. Para cada instituição ou pessoa
física inventariada, o Guia de fontes apresenta um conjunto detalhado de
dados tanto sobre a instituição como quanto ao acesso à documentação. São assim
apresentadas indicações sobre horários de funcionamento das instituições,
disponibilidade de instrumentos de pesquisa como índices, listagens e inventários,
possibilidade de obtenção de cópias dos documentos através de xerox ou
microfilmagem e ainda sobre o tratamento técnico a que foi submetido o conjunto
documental: se está organizado, total ou parcialmente, ou apenas identificado.
Trata-se, enfim, de um verdadeiro guia de pesquisa.. Para isto
contribuem quatro índices temáticos que são apresentados no final da publicação
e que permitem ao pesquisador ter acesso rápido às informações contidas no
levantamento, a saber: Assuntos, Geográfico, Grupos Indígenas e Informantes,
este último listando as instituições inventariadas por estados. O índice de
assuntos inicialmente seria composto por treze itens, que constavam da ficha
utilizada no levantamento e que são representativos dos temas em pauta na história
indígena (comércio e navegação, demografia, expedições de apresamento, expedições
científicas, fronteiras, guerras, legislação, mão-de-obra, missões e
aldeamentos, movimentos sociais, organização social e políticas dos índios,
terras). Entretanto, objetivando incorporar outras categorias que se mostraram
recorrentes ao longo do levantamento, como educação e saúde indígenas,
lembradas pelo organizador na introdução do guia, e para remeter o consulente a
outras informações que foram retiradas dos resumos da descrição do conteúdo de
cada conjunto documental, esse índice se viu, na versão final, extremamente
ampliado. Das treze categorias iniciais passou-se para 935 entradas, algumas
das quais de pouco interesse ou representatividade. Assim, talvez tivesse sido
mais interessante ter mantido em separado as macrocategorias iniciais,
acrescidas de outras que se tornaram relevantes, dentro das quais poderiam ser
inseridas subcategorias, de forma a propiciar maior clareza aos temas ali
relacionados.
De qualquer modo, o Guia de fontes já nasce constituindo-se em
obra básica e de referência para as futuras pesquisas sobre história indígena
no Brasil. E, antes mesmo de vir a público, já rendeu alguns frutos. Durante o
trabalho de identificação dos arquivos das capitais foi possível, em alguns
casos, proceder a um levantamento mais exaustivo e minucioso do que o Guia
de fontes comportaria. Surgiram assim outras publicações, também editadas
pelo Núcleo de História Indígena e do Indigenismo da USP: Repertório de
documentos para a história indígena - Arquivo Público Estadual de Sergipe (Beatriz
Góis Dantas, org., 1993); Documentos para a história indígena do Nordeste -
Ceará, Rio Grande do Norte e Sergipe (Maria Sylvia Porto Alegre et al.,
orgs., 1994); Livro das canoas - documentos para a história indígena da Amazônia
(Márcio Meira, org., 1994); e Relatos da fronteira amazônica no século
XVIII - documentos de Henrique João Wilckens e Alexandre Rodrigues Ferreira (Marta
A. Amoroso e Nadia Faraje, org., 1994).
Enfim, a publicação do Guia de fontes, bem como desses outros
instrumentos de pesquisa, abre caminhos para a realização de novas pesquisas,
estimuladas pelo mapeamento dos acervos e pela identificação de fontes primárias
disponíveis. Isto, sem dúvida, poderá resultar, a curto prazo, em novos
conhecimentos sobre a presença indígena na história do Brasil.
Confirma-se, assim, o diagnóstico feito por
Manuela Carneiro da Cunha anos atrás, sobre a possibilidade de mudanças na qualidade da historiografia indígena. Mas, se já há
melhores condições para que tais conhecimentos possam ser gerados a curto
prazo, o mesmo não se deve esperar em relação a uma atualização dos manuais didáticos
em uso nas escolas do país. A defasagem entre a pesquisa de ponta realizada na
universidade e sua apropriação e divulgação nos livros didáticos, no Brasil,
continua gritante e exigirá um esforço ainda maior por parte dos especialistas.
LUÍS
DONISETE BENZI GRUPIONI é mestrando em Antropologia Social na USP
Magda de Almeida NEVES, Trabalho e
cidadania: as trabalhadoras de Contagem.
Petrópolis, Vozes, 1994. 292 páginas.
A publicação deste estudo sobre as trabalhadoras de Contagem (MG) preenche
uma lacuna na literatura sociológica e historiográfica brasileira, não só por
enfocar, de modo articulado, a experiência dos trabalhadores, homens e
mulheres, nas fábricas, no espaço urbano e nos movimentos sociais, mas também
por sua abordagem metodológica.
A cidade industrial Juventino Dias, localizada na Grande Belo
Horizonte, é concebida durante o Estado Novo, como parte de um projeto mais
amplo de modernização da sociedade brasileira. Inicia-se com a promulgação de
um decreto-lei, em 1941; prossegue com a instalação e expansão das empresas
industriais; e logo se confunde com a intervenção de seus moradores, enquanto
atores sociais, que, tentando fazer valer seus projetos individuais e
coletivos, imprimem suas marcas. O período selecionado para análise encerra-se
com a realização do I Congresso da Mulher Metalúrgica de Contagem, que ocorre
no começo da década de 80.
Os cinco capítulos que compõem o livro correspondem aos diferentes
momentos da própria história da cidade e dos seus moradores, mulheres e homens.
No primeiro capítulo é apresentado o cenário dessa história, os valores e metas
que orientam o projeto dos governos de Minas Gerais e de seus empresários na
construção de um parque industrial em Contagem. A modernidade almejada associa
trabalho e progresso, cuja referência é o processo de industrialização. Mostra
ainda como esse ideário é compartilhado pelos trabalhadores que se deslocam
para essa região. No segundo capítulo é reconstituído o cotidiano fabril nos
anos 50 e 60, a partir das falas e da experiência de um grupo de operárias. No
terceiro, é analisado o sentido das greves de 68 que eclodem na cidade e a
presença significativa de militantes, homens e mulheres, vinculados aos
partidos de esquerda. Essas greves expressam um dos momentos de ruptura na história
de Contagem, à medida que cada um descobre os limites da modernização
industrial e a incompatibilidade entre o sonho de ser operário(a), representado
para muitos pela perspectiva de uma vida melhor, com o arrocho salarial e as
formas severas de controle no cotidiano fabril. O quarto capítulo examina os
novos movimentos sociais emergentes no cenário histórico brasileiro no final
dos anos 70, suas práticas políticas, formas de mobilização e de organização
baseadas na politização do cotidiano fabril e dos bairros. O quinto trata,
basicamente, das mudanças no perfil industrial da região, do renascimento do
movimento operário e sindical pós-78 e de seu papel no desencadear das lutas
pelas liberdades democráticas e pela conquista da cidadania.
As mulheres aparecem como atrizes principais desse processo. Por isso,
o discurso feminino ganha destaque neste estudo, que não deixa de recorrer,
quando necessário, ao discurso masculino, demonstrando como as práticas sociais
e políticas se diferenciam, quando são protagonizadas por homens ou por
mulheres. Para atender a esses objetivos, a autora não se contenta em agregar
mais informações - neste caso, sobre a presença das mulheres na história da
cidade de Contagem - às abordagens tradicionais, aceitando o desafio de
"encarar a história do trabalho e das classes trabalhadoras dentro de uma
nova perspectiva" (E. Viotti, 1990, "Estruturas versus experiência.
Novas tendências na história do movimento operário e das classes trabalhadoras
na América Latina: o que se perde e o que se ganha", BIB, 29, p. 11). Para
tanto, entrecruza a noção de experiência, sugerida por Thompson, à de divisão
sexual do trabalho, gestada no GEDISST/CNRS (Grupo de Estudos sobre Divisão
Social e Sexual do Trabalho) e à de relações de gênero, proposta por Scott. Por
isso, sua análise se apóia, principalmente, em relatos orais, documentos partidários
e consulta à imprensa local e nacional. A maior dificuldade reside na coleta de
dados pois, afirma a autora, "as mulheres estão presentes no trabalho, nos
movimentos sociais, nas greves", mas dificilmente nos registros escritos
que constituem as principais fontes de pesquisa (p. 263).
O gênero, enquanto categoria de análise, permite a Neves não só
reintroduzir "o discurso sobre o feminino e o masculino naquilo que
parecia ser exclusivamente uma relação técnico-organizativa", mas
principalmente conferir uma linguagem ao trabalho (E. Souza-Lobo, 1991, A classe
operária tem dois sexos. São Paulo, Brasiliense, p. 203).
As experiências das mulheres nas fábricas, na família, nos bairros e
sindicatos são relatadas no decorrer do livro, rompendo a dicotomia entre
cidade e fábrica; trabalho assalariado e doméstico; condições de trabalho e de
vida; produção e reprodução; esfera pública e privada; espaço doméstico (casa)
e espaço produtivo (fábrica) porque sua (re)articulação se faz pelas práticas
sociais. Essas práticas oscilam entre a submissão e a revolta e caracterizam-se
pela heterogeneidade de suas formas de expressão política e cultural.
Uma das contribuições mais importantes dessa pesquisa diz respeito à
participação e representação das trabalhadoras nos sindicatos. As relações de gênero
e de poder transparecem nas formas de controle e nas normas disciplinares que
regem o cotidiano fabril. Nesse âmbito, onde predominam as relações de trabalho
hierarquizadas, as relações de poder parecem evidentes. Nos sindicatos, onde se
supõe que as relações sociais sejam mais igualitárias, as diferenças de gênero
na distribuição de funções e postos também se fazem sentir. As relações de gênero
e de poder estão, portanto, subjacentes às mobilizações operárias e sindicais,
tanto quanto no universo fabril.
Na greve de 68, por exemplo, as mulheres desaparecem da memória histórica,
embora esse movimento seja considerado emblemático por Neves, por provocar uma
ruptura subjetiva no ideário do progresso que perpassa a história da Cidade
Industrial de Contagem e todo projeto de modernização da sociedade brasileira
após 64. Nem os militantes sindicais, nem os partidos de esquerda põem em prática
uma proposta com vistas à integração das mulheres no cenário histórico. Os
entrevistados pouco se recordam da presença das mulheres nas greves que
eclodiram na cidade, apesar de sua efetiva participação. Homens e mulheres
lutam, em 68, contra a política salarial do governo militar, porém nem todos têm
voz e voto. As operárias raramente participam das reuniões nos sindicatos e,
quando o fazem, são vozes dissonantes, mesmo que não sejam discordantes. O
sindicato representa o mundo masculino.
A ruptura de 68, se pensada sob a ótica das mulheres, implica a
continuidade de uma prática. Confessa uma participante, a greve de 68 "me
despertou para muitas coisas. Mas a questão específica da mulher mesmo, as
dificuldades que ela passava, o filho que ficava sozinho em casa pra ela
trabalhar, a questão da saúde, a doença dos nervos (...) a gente vai levar
tempo pra pensar sobre isso, exigir, reivindicar" (p. 163). Esse momento configura-se
no final dos anos 70, quando os temas referentes mais diretamente às
trabalhadoras começam a ser introduzidos nos sindicatos. Para isso convergem a
difusão das idéias e propostas feministas em Minas Gerais, a presença mais
ativa das mulheres nos sindicatos e uma certa mudança na prática sindical
masculina (p. 161).
A interlocução das idéias veiculadas pelos movimentos feministas, no
Brasil, com o movimento operário e o sindical e com os movimentos populares,
constitui uma das singularidades da sociedade brasileira. Nessa interação, elas
se redefinem, fazendo com que muitas concepções inspiradoras do feminismo em
outros países sofram aqui modificações. Feminismo e sindicalismo
re-significados inauguram o debate sobre "a classe operária no feminino"
(Souza-Lobo, op. cit.). A mesma tendência se observa em outros movimentos
"típicos dos países centrais", que se combinam no Brasil "com
movimentos próprios orientados para a reivindicação da democracia e das
necessidades básicas" (B. S. Santos, 1994, Pela mão de Alice. O social
e o político na pós-modernidade. Porto, Afrontamente, p. 228).
O descompasso entre a participação feminina nas lutas operárias e
sindicais e sua efetiva representação permanece, contudo, inalterado até a
institucionalização recente, no âmbito da CUT, da cota mínima de 30 por cento
de mulheres nas instâncias decisórias das entidades sindicais. A polêmica em
torno das cotas continua intensa, apesar das tentativas de sua implementação
pelos sindicatos.
Se as
mulheres tendem a desaparecer no cotidiano sindical, elas se encontram, segundo
Neves, na linha de frente das lutas nos bairros. Essas lutas incluem desde a
definição das fronteiras geográficas do município de Contagem, a instalação da
rede de água e esgoto, de creches e escolas, a implantação da coleta de lixo,
do transporte coletivo, até o movimento pela qualidade do
ar contra as empresas poluidoras do meio ambiente urbano, quando as mulheres
aparecem, freqüentemente, negociando com as autoridades competentes. Embora o
bairro seja o espaço das mulheres, elas rompem, ao se inserirem nesses
movimentos, com os seus lugares sociais: a esfera exclusiva da casa e da família.
No decorrer de sua inserção nesses movimentos, refletem sobre sua situação
pessoal, o valor atribuído ao trabalho doméstico, sua relação com os filhos e o
marido. Relata uma moradora, "aos poucos a gente foi falando de nossos
problemas, porque a maioria das mulheres era como eu, dona de casa, mãe de família.
E, aos poucos, a gente foi vendo que dependia do marido para tudo (...) quando
a gente saiu assim, resolveu topar esta luta, a gente viu que também sabia
fazer as coisas" (p. 195).
As descobertas individuais e coletivas ocorrem simultaneamente e criam
redes de sociabilidade e solidariedade que acabariam gerando outra cultura política
(Souza-Lobo, op. cit.). As relações de gênero, sendo uma categoria relacional,
pressupõem, dessa forma, a construção histórica e cultural de subjetividades em
constante interação social. Por isso, requerem uma abordagem multidisciplinar
que permita dar conta das várias dimensões da vida em sociedade como, por
exemplo, a prática sindical.
Este estudo leva-nos a repensar o sindicalismo brasileiro nos anos
recentes e seus impasses organizativos. Sem qualquer nostalgia, chama a atenção
para as relações estreitas que se estabeleceram entre bairro, fábrica e prática
sindical nos anos 70 e que foram perdidas nos anos seguintes pelos sindicatos.
Estes parecem cada vez mais distantes dos bairros e mais fechados em torno das
condições de trabalho e de salários, concebendo os trabalhadores apenas como
força de trabalho. Dessa maneira, desenvolvem propostas tímidas de inserção de
jovens, mulheres e mesmo da família nos sindicatos, fazendo com que muitos
militantes e dirigentes sindicais vivam divididos entre sua vida pessoal e a prática
política. Esse ponto, ainda pouco considerado nos debates atuais sobre os
impasses do movimento operário e sindical no Brasil, poderia ser recuperado à
luz das práticas sociais que formaram as oposições sindicais. Conforme uma operária,
a Oposição Sindical Metalúrgica em Contagem surge nos bairros onde
"participava a família do trabalhador. Como a gente fazia reunião cada vez
na casa de um colega, a família tava ali participando. O envolvimento era maior
e nessa participação começava a aparecer mais a questão da mulher, que tava ali
presente" (p. 233).
No cenário da cidade, não só da fábrica, homens e mulheres constroem
uma história comum, elaboram sua identidade (p. 167) e conquistam sua cidadania
no convívio diário com as carências dos equipamentos coletivos urbanos e na
sociabilidade criada em jogos de futebol, bailes de fim de semana, passeios na
cachoeira e festas juninas, Congado e Folias de Reis. Enquanto atores sociais
desse processo, essas experiências individuais e coletivas são construídas a
partir de lugares diversos e em ritmos diferenciados. A vivência do tempo é
reveladora, relacionando-se com o que se define histórica e culturalmente, na
nossa sociedade, como atividades de homens ou de mulheres. Assim, o tempo
padronizado do trabalho assalariado fora do lar, exercido de modo geral pelos
homens, contrapõe-se ao tempo diversificado das mulheres que exercem inúmeras
atividades, relativas aos afazeres domésticos e ao cuidado com os filhos.
Assim, "o lugar das mulheres é mais interno, privado em comparação com o
lugar masculino, social e público. Para os homens, o trabalho fora do lar é a
realização de sua obrigação de provedor da família, colocando-o numa relação
exterior com a casa" (p. 177).
Esta investigação abre, sem dúvida, um vasto campo de investigação,
envolvendo não apenas temas referentes ao trabalho feminino, mas também ao
processo de formação das classes trabalhadoras na sociedade brasileira. Explorando
as relações de gênero, coloca a alteridade como condição prévia para a formação
de identidades. Neves, ao ancorar sua reflexão nas falas das mulheres
"excepcionais", enfatiza mais a hierarquia do que a complementaridade
e a interdependência das relações entre homens e mulheres (L. Blass, 1994,
"Gênero e trabalho: trajectórias de uma problemática", 111 Congresso
Luso-Afro-Brasileiro). Quando busca desvendar a contraface do progresso,
inserindo as lutas sociais na dinâmica do processo de modernização industrial,
aponta a tensão interna que definiria, nas palavras de Santos (op. cit), todo
projeto de modernidade. Entre a regulação e a emancipação, dois pilares
aparentemente contraditórios, forjam-se, para esse autor, "as mais
brilhantes construções emancipatórias da modernidade, sejam elas os movimentos
socialistas, os movimentos anarquistas (...)" (p. 208). Em que medida os
"novos movimentos sociais", dentre eles o feminista, ecológico etc.,
são parte desse processo? Ao denunciarem os excessos da regulação na
modernidade, que "atingem não só o modo como se trabalha e produz, mas
também como se descansa e vive; a pobreza e as assimetrias das relações
sociais"; ao admitir que a emancipação começa pela transformação do
cotidiano presente, não só no futuro, das "vítimas da opressão"
(Santos, op. cit., p. 222). As conclusões deste estudo, nesse sentido, são
contundentes.
LEILA
MARIA DA SILVA BLASS é docente do Departamento de Sociologia e do Programa de
Estudos Pós-graduados em Ciências Sociais da PUCSP