EMPRESÁRIOS E GLOBALIZAÇÃO

Prolegômenos de uma metodologia antropológica de compreensão

e ação (*)


Guilhermo Raúl Ruben

 

Este trabalho reúne dois assuntos aparentemente distantes, porém, como pretendemos demonstrar, intimamente ligados: a) uma discussão sobre o conceito de identidade coletiva pós-nacional a partir da reflexão de Jürgen Habermas; (1) b) uma proposta metodológica de compreensão das identidades nacionais e da globalização a partir do estudo antropológico dos empresários contemporâneos.

 

Habermas escreve situado em e para a Alemanha contemporânea e as nações européias do pós-guerra. O autor alemão afirma que, na era pós-nacional em que vivemos, temos que, obrigatoriamente, pensar formas de identidade pós-nacionais. Sugere, nesse sentido, que, ao menos para o caso da Alemanha contemporânea, e certamente para o conjunto dos países europeus a partir do pós-guerra, essas identidades pós-nacionais estariam (ou deveriam estar) se construindo relativamente vazias de tradições concretas, resultando desse processo identidades coletivas fundadas puramente em elementos prático formais. Esse processo de identificação do eu com o nós, de contenção do nós em um perímetro puramente prático-formal, e não mais substantivo ou essencialista, estaria levando, sempre segundo Habermas, a uma forma de identidade coletiva organizada em torno do que ele denomina um "patriotismo da Constituição". Tal patriotismo seria, na proposta do autor, particular para cada país na era pós-nacional já que, "no país da Revolução Francesa, esse patriotismo da Constituição terá uma forma distinta da de um país que jamais foi capaz de criar uma democracia por suas próprias forças" (Idem, ibidem, p. 118), fazendo uma clara alusão à Alemanha. Como é sabido - e voltarei a isso mais adiante -, trata-se de uma proposta muito semelhante à que fizera Hegel no início do século XIX (Hegel, 1964).

 

Do ponto de vista teórico, este trabalho discutirá a proposta habermasiana da identidade nacional - que denominaremos "normativa" -, com a finalidade de estabelecer algumas hipóteses sobre sua reduzida validade, especialmente para o caso dos países da América Latina. Para esses países, faremos uma proposta que denominaremos "etnográfica". Do ponto de vista metodológico, o objetivo é apresentar uma alternativa de compreensão e ação, tomando como exemplo uma pesquisa empírica realizada com empresários latino americanos, apresentada adiante.

 

Para tanto, precisaremos realizar um longo percurso que nos levará a: 1) destacar o aspecto central da argumentação de Habermas; 2) examinar como essa argumentação se insere no contexto comparativo da denominada teoria da identidade convencional; 3) traçar o perímetro das questões decorrentes dos incisivos processos transnacionais, destacando o valor heurístico do universo empresarial para sua compreensão; 4) formular uma proposta inversa, embora complementar à de Habermas (ao menos para os países da América Latina), definindo a natureza da tradição práticohistórica e não-sistêmica que constitui o aspecto central das identidades coletivas na região; 5) retomar o universo empresarial, expondo as bases de uma metodologia antropológica de compreensão e ação de uma pesquisa em andamento (2).


O argumento habermasiano

 

A idéia de uma identidade nacional prático-formal, desprovida do que Habermas denomina "um ponto central no qual pudessem se reunir e se integrar para formar uma identidade nacional" (3), é o resultado, para a Alemanha (e de maneira mais universal para as nações européias em uma era pós-nacional), do shock produzido pela atrocidade do nacionalismo alemão no Terceiro Reich, que designa genericamente de "Auschwitz". Antes de analisar o valor do "shock de Auschwitz" para a Alemanha, Habermas sugere que ele "provocou também uma irrupção da reflexão na consciência pública da História, pondo em questão as auto-evidências em que se apóia o tipo de identidade coletiva cunhado pelo nacionalismo" (Habermas, op. cit., p. 92). Esse pensamento pode induzir, com um pouco de malícia, a interpretar Auschwitz como uma atrocidade necessária ao abandono definitivo da forma específica de identidade coletiva estatal surgida no final do século XVIII e conhecida pelo nome de nacionalismo. E é precisamente isso que querem demonstrar alguns intelectuais alemães com os quais Habermas mantém a "polêmica dós historiadores" que, por razões de espaço, não posso mais que mencionar neste texto. (4)

 

Retomando o argumento central que Habermas utiliza para propor uma forma de identidade coletiva pós-tradicional, temos que "o nacionalismo ficou exacerbado entre nós (os alemães) em termos de um darwinismo social e culminou num delírio racial que serviu para justificar a aniquilação maciça dos judeus. É a partir daí que o nacionalismo ficará drasticamente desvalorizado enquanto fundamento da identidade coletiva". Lembramos que, como outros autores (Anderson, 1989; Gellner,1989; Hobsbawn, 1990), Habermas interpreta o nacionalismo como produto da ruptura do Ancien Régime que faz com que "os indivíduos se emancipem no marco das liberdades abstratas (...) a massa de indivíduos assim liberada torna-se mobilizada não só politicamente, senão economicamente como força de trabalho, militarmente, pela obrigação de participar do Exército e, também, culturalmente, ao ser obrigada a uma educação escolar compulsória" (5). Habermas deveria acrescentar, na nossa opinião, que esse darwinismo social que levou ao delírio racial os alemães foi, de fato, uma forma de darwinismo social às avessas. Esse estranho darwinismo social, baseado na crença de que a forma nacional alemã era, pela presença do ponto central (a dimensão irredutível), superior a todas as outras tradições nacionais, não podia, na Alemanha do pósguerra, nem sequer ser lembrado como parte da tradição. Mais ainda, esse darwinismo social levou os alemães a se dissociar "da civilização ocidental e inclusive de toda a civilização" (Habermas, op.cit. p. 84).

 

Aqueles motivos que levaram ao genocídio judeu teriam, por outro lado, generosamente contribuído para o fim das formas de identidade nacional baseadas na tradição ou em um ponto central que faz com que todo alemão contemple "naquele eu, imediatamente a mim mesmo", tal como Hegel definia a idéia de espírito, importante para a constituição da teoria da identidade (6).

 

Situando dessa maneira o problema, Habermas argumenta que o orgulho do patriotismo alemão está precisamente na consciência de ter "superado definitivamente o fascismo, de modo a estabelecer um estado de direito e ancorá-lo numa cultura política que, apesar de tudo, é mais ou menos liberal" (Habermas, op. cit. p. 116). E este é exatamente o sentido da identidade pós-nacional, baseada numa identidade prático-formal, no patriotismo da Constituição, ou seja, na "disponibilidade de identificar-se com a ordem política e os princípios constitucionais" (Idem, ibidem, p. 94). Finalmente, Habermas resolve o problema do conteúdo histórico das tradições dissociando essa "sóbria identidade política" do passado centrado na história nacional e outorgando-lhe, simultaneamente, um conteúdo universalista, uma vez que o patriotismo da Constituição "cristalizado em torno dos princípios do Estado constitucional democrático já não está comprometido com continuidades triunfais", sendo totalmente "incompatível com uma consciência histórica". Para chegar a essa solução, o caminho trilhado por Habermas é o da densa problemática individual de Sóren Kierkegaard, pela qual "o indivíduo moral assume a responsabilidade de sua própria biografia". Para o caso da identidade coletiva pós-nacional, Habermas propõe que "as tradições próprias ficam encobertas sob um patriotismo que se tornou mais abstrato, que não se refere mais ao todo concreto de uma nação, mas a procedimentos e princípios abstratos" (Idem, ibidem, p. 101).

 

Resumindo a proposta normativa de Habermas, gostaríamos de reter os seguintes pontos:

 

· As identidades coletivas pós-nacionais não precisariam mais ser ancoradas na presença real ou putativa do ponto central, já que, para os alemães, esse ponto central extrapolou para um "darwinismo social", levando conseqüentemente ao delírio racial e eliminando, graças à "solução final", 6 milhões de judeus;

· Regionalmente, nos países europeus, Auschwitz levou à reflexão da inutilidade do ponto central, devido a sua perversidade. Assim, propõe uma desarticulação com a História nacional em termos de continuidade das tradições (não se pode nem mencionar Auschwitz), que possibilitaria o surgimento de identidades coletivas exclusivamente prático-formais, consolidando, então, uma nova maneira de se inserir no mundo pós-nacional que se generaliza, pelo menos, para os diferentes países da Europa Ocidental.


Identidade e nacionalidade

 

Para situar a proposta normativa de Habermas em relação à longa tradição que a teoria da identidade possui, particularmente no pensamento alemão que surge no final do século XVIII, surge a seguinte indagação: o que muda a partir da proposta normativa de Habermas quanto a uma nova forma de identidade coletiva pós-nacional de natureza prático-formal?

 

Há, de fato, continuidades e rupturas. Continuidades porque, da mesma maneira que o jardim florido de Herder, Habermas postula a universalidade prático-formal da Constituição e o particularismo da formulação dessa Constituição. Desde que a Carta Magna de todos os alemães evite normas, como, por exemplo, "os alemães devem perseguir os judeus porque a raça alemã é ariana e, portanto superior", essa universalidade prático-formal estará garantida. Caso contrário, levaria a um genocídio semelhante ao anterior, só que agora amparado pela Constituição. Embora essa possibilidade seja remota, em hipótese é possível. Não haveria, nesse sentido, ruptura com a tradição, mas apenas um deslocamento da dimensão significativa e uma sistemática formalização da tradição. Ainda assim, é bom lembrar que desde Hegel (com o qual Habermas mantém uma relação genealógica explícita), e especificamente para o caso dos alemães, que não lograram a união nacional coma os franceses, seria a própria filosofia do Estado a responsável pela formulação da identidade alemã. Desse modo, qual seria então a diferença entre aquela filosofia do Estado e o patriotismo da Constituição?

 

Outra continuidade significativa, como já se percebeu, se localiza no fato de que o patriotismo da Constituição minimiza as reais diferenças entre classes sociais, religiões, estilos e, de modo geral, atenua as contradições existentes, sejam elas econômicas, ideológicas ou de qualquer outra natureza. Seria o caso de pensar que se suprime a tradição em função de uma suposta homogeneidade sociológica (ou o prático-formal é uma descontinuidade ideológica) para poder repor as estrofes - "Deutchland, Deutchland über alles" - suprimidas do hino alemão? Não estamos querendo afirmar, longe disso, que fosse esta a intenção habermasiana. Apenas apontamos o lugar francamente residual que as diferenciações e contradições sociais ocupam na definição de uma identidade coletiva prático-formal.

 

Evitando entrar no mérito desta questão, mesmo porque não seria possível tratá-la adequadamente neste momento, é necessário assinalar as rupturas que constatamos entre a teoria da identidade em sua forma mais tradicional e a proposta de Habermas. Há uma ruptura na proposta normativa de Habermas que precisa ser claramente ressaltada devido a sua importância. Trata-se da definitiva e radical ausência do conceito hegeliano de irredutibilidade que, como demonstramos alhures (Rubem 1984, 1986 e 1992), é constitutivo de toda formulação histórica da teoria da identidade: está presente em Hegel, em George Herbert Mead, na sociologia americana de Hans Gerth e Ch.Wright Mills, na antropologia desde 1948 e, finalmente, na superfície dos movimentos sociais a partir de 70 (Rubem 1992).

 

A ausência da dimensão irredutível (o ponto central) na proposta normativa de Habermas, isto é, a ausência da dimensão que faz com que o grupo social seja eternamente o mesmo grupo social pelo resgate de uma dimensão nativa específica e irredutível da tradição, transporta definitivamente a proposta normativa de Habermas da clássica formulação ontológica para o plano político que, sem deixar lugar para dúvidas, representa uma clara diferença em relação a todas as propostas anteriores, sejam originárias da filosofia ou das ciências sociais, na Alemanha ou fora dela.

 

Finalmente, é normativa porque a forma da identidade coletiva pós-nacional, pela própria impossibilidade de lembrar a tradição no contexto alemão (significaria lembrar Auschwitz), se transforma em imperativo constitucional. Assim, o caráter normativo não flui exclusivamente na clara forma evolutiva da proposta habermasiana (verificável em todos os países europeus depois da Segunda Guerra), uma vez que também se fundamenta na existência da regra constitucional, da norma social formulada, histórica e politicamente, por cada conjunto nacional. Por essa razão, seria ela diferente em cada caso, não apenas pelo valor constitutivo da tradição, mas também pela permanente historicização do processo social.


Transnacionalidade

 

Afastando-nos temporariamente da discussão inicial, trataremos neste item de dois aspectos:

 

I. que processos designamos transnacionais e, do ponto de vista de observadores situados em algum país da América Latina, quais são os loci privilegiados para seu estudo;

II. das diferenças entre esses processos transnacionais de acordo com a situação particular em que se encontra o observador: caso esteja ele nos países metropolitanos (especialmente os países europeus, como Habermas), ou esteja em um país latino-americano.

 

I

 

Com relação à definição do perímetro do nome totêmico "transnacional" (transnacionalidade, transnacionalismos etc.), e para evitar, precisamente, confusões de ordem semântica, tão freqüentes nas ciências sociais, definimos como transnacional "tudo aquilo que acontece fora das fronteiras nacionais, sem que isto subentenda uma automática ruptura com a nação de origem". Seria fácil, pois, distinguir entre processos nacionais e transnacionais. Basicamente, os processos são transnacionais quando os fatores da produção, ou seja, capital, ciência, cultura e tecnologia, e as forças vivas de trabalho, se realizam fora das fronteiras de origem.

 

Nesse sentido, e como já foi dito, não existe, a rigor, qualquer novidade na ocorrência de processos transnacionais pois, no sentido amplo que acabamos de definir, sempre houve fatores da produção que se realizaram fora das fronteiras de origem. Com o incremento da internacionalização, ou seja, verificada a tendência a anular barreiras alfandegárias e migratórias, além da diminuição das restrições ao capital e ao trabalho, aumentaram, em conseqüência, os processos transnacionais. Formalmente enunciados os tipos de processo transnacional, torna-se necessário definir os loci para a observação desses processos, sob a perspectiva que nos situamos no início deste estudo, ou seja, para os e a partir dos países da América Latina..

 

Resulta difícil, no estado atual de debate das ciências sociais, enunciar a importância do objeto. Entretanto, parece situar-se justamente na iniludível e imperativa escolha dos loci de pesquisa o problema epistemológico (entendendo-se simplesmente como crítica ao valor e à extensão do conhecimento) mais importante na tarefa de formulação de um programa original de pesquisas sobre as identidades e nacionalidades transnacionais (7).

 

É correto imaginar que as idéias, práticas e representações de nação, povo, pátria e nacionalidade se encontram amplamente disseminadas nas sociedades contemporâneas. Elas ocorrem na educação formal, na religião, na indústria cultural, entre militares e índios, na literatura, na poesia, na música, no teatro e, de forma geral, em toda manifestação artística, na culinária, na economia, entre diplomatas e antropólogos, na ciência e, especialmente, entre as pessoas que vivem em territórios nacionais, os imigrantes, as diferentes classes sociais, as organizações de classe, os grupos profissionais e os diferentes gêneros. Entretanto, todos os esforços de pesquisa não permitiram sair do "empantanamiento que existe en la teoria política latinoamericana respecto de la Nación", como disse Garcia Canclini (1989).

 

Tal fato ocorre porque existem diferenças heurísticas relativamente importantes entre os possíveis loci da pesquisa, da reflexão empírica e do lugar do encontro, quando se trata de problematizar e entender o uso, o valor e a função desses conceitos para a teoria política. Porém, mais que para a teoria política, a compreensão da função desses conceitos parece ser fundamental para entender as sociabilidades dos diferentes países latino-americanos em uma época de transição universal, na qual o transnacional e a transnacionalidade ocupam um lugar cada vez mais importante. Atualmente, a diversidade - tanto em natureza como em importância - dos acontecimentos que se realizam fora das fronteiras nacionais é bem maior do que quando esses acontecimentos estavam restritos a grupos populacionais ou a atividades comerciais em outros países e com eles.

 

O substantivo aumento da internacionalização potencializa as diferenças heurísticas entre os diferentes loci passíveis de observação: eles mudam, criando situações inteiramente novas. Vinte anos atrás, Buenos Aires, a cidade do México e o Rio de Janeiro disputavam entre si o lugar de capital da América Latina. Hoje, é preciso acrescentar pelo menos mais uma cidade: Miami. Ela concentra um número de latino-americanos não-definido, porém suficientemente grande para que a cidade seja denominada capital latina dos EUA; nela se espalham sedes ou sucursais de grande número de empresas latino-americanas. Como se fosse um funil, passou a concentrar as comunicações entre os países latino-americanos de maneira que a velocidade e, por conseqüência, o custo da informação e da comunicação inter-regional se torna mais econômico quando se estabelece via Miami. Essa cidade ocupa, no novo modelo de acumulação flexível, um espaço similar ao da antiga corporation, porém, desprovido de marcas, distintivos ou produtos. São todas as marcas, todos os distintivos, todos os produtos, todas as identidades (8). Porém, Miami não é o universo empírico que temos considerado heuristicamente privilegiado para a observação e formulação de um sistema de hipóteses gerais sobre a função de conceitos relativos a uma teoria regional da nation-building para os países latino-americanos (9). O universo empírico privilegiado para observar e formular funções, valores e usos dos conceitos correlatos a uma teoria aberta da identidade e da nacionalidade no contexto transnacional tem se revelado, em nossa experiência de investigação, serem os empresários latinoamericanos que consagram pelo menos uma parte de suas atividades a expandir os processos de produção e circulação de mercadorias ou serviços, juntando-se a outros empresários e mantendo uma só especificidade: aqueles são estrangeiros, de origens nacionais diferentes:

 

Frente a essa afirmativa, perguntamo-nos se seria necessário tornar evidente que a natureza da expressão "o universo empírico privilegiado e altamente solidário" significaria que há loci mais importantes do que outros, por assim dizer, para entender as funções desses conceitos (nação, pátria, nacionalidade, transnacionalidades etc.). Em conseqüência devemos perguntar também se seria possível imaginar loci portadores de algo tão especial como a capacidade de explicitar esses usos, valores e funções, estabelecendo algo parecido com uma espécie de monopólio do sentido.

 

Sem dúvida, são questões difíceis, mas que devem necessariamente ser resolvidas, pelo menos na forma de hipóteses iniciais, sobretudo considerando que reconhecemos antecipadamente aqui e alhures que essas idéias e práticas (como nação, nacionalidade ou pátria) se encontram presentes (e se refazem permanentemente) nos diversos setores sociais, étnicos, de classe, de poder e nos grupos sociais de qualquer natureza, sem esquecer os diversos processos de trabalho e de conhecimento (cf. Rubem 1984). Por que então, de repente, apareceriam melhor e seriam mais sensíveis para a pesquisa em um conjunto tão específico como o dos agentes sociais que acabamos de delimitar? Finalmente, o que é um empresário?

 

No capítulo segundo de A teoria do desenvolvimento econômico, de Schumpeter (1982), é onde está mais bem exposta sua conhecida definição de empresário. Utilizaremos essa explicação como base para desenvolver nosso próprio focus imaginarius (10), apesar da enorme e complicada quantidade de derivações que essa idéia schumpeteriana acarreta, tais como natureza econômica, crescimento e desenvolvimento, teoria dos juros, lucro empresarial, ciclo econômico, função do crédito, entre outros tantos aspectos polêmicos de que o autor trata nessa obra.

 

De acordo com Schumpeter, entre os atributos que definem o empresário se encontra sua particular inserção na sociedade de classes na qual surge. Nesse sentido, Schumpeter faz uma diferenciação entre condição de classe e posição de classe que mais tarde seria brilhantemente desenvolvida (note-se, de passagem, sem mencionar o economista alemão) por Bourdieu (1974). Para Schumpeter, e aqui adotamos a mesma perspectiva, os empresários "não formam uma classe social no sentido técnico, como o fazem, por exemplo, os proprietários de terra, os capitalistas ou os trabalhadores", ainda que, acrescenta o autor, "evidentemente a função empresarial levará a certas posições de classe" (Schumpeter, op. cit., p. 56).

 

Um empresário é, então, um sujeito essencialmente declassé, pelo menos em algum momento de sua trajetória. Porém, o que o caracteriza primordialmente não é essa situação marginal relativamente às classes sociais. Esta é de fato, mais uma conseqüência de seu principal atributo: a possibilidade de materializar a realização de combinações novas entre os diferentes fatores de produção e as inovações tecnológicas. Essa característica faz do empresário alguém que, utilizando as palavras de Schumpeter, "nada contra a corrente". Consolida-se então a figura do empresário inovador, cuja existência nos países latino-americanos foi e é contestada, por indicar alguém diferente das outras pessoas "que teriam - também - a possibilidade objetiva de fazer novas combinações". Embora Schumpeter nunca tenha concentrado seus estudos sobre esse assunto, não se esqueceu de enfatizar sua importância. As condições para o surgimento dessas pessoas "especiais" têm a ver, em parte, com momentos de saturação do mercado (dimensão da qual Schumpeter fez seu principal foco de trabalho), embora estivessem também profundamente associadas às histórias individuais, familiares, sociais, nacionais ou, como denominava genericamente, à "psicologia".

 

Resumindo, o empresário dos foci imaginarii do programa de investigação é um conjunto - "fuzzy but inspiring" - de agentes sociais que não formam originalmente uma classe social. Porém emergem em uma sociedade de classes, inovando ao misturar elementos tradicionais e contemporâneos. E fazem isso intuitivamente, por intermédio dos clássicos mecanismos de seleção e combinação (11).

 

Definido - teoricamente - o conceito de empresário, resta saber por que, nos países latinoamericanos, onde a própria existência dessa figura é ao menos contestada, uma classe particular de empresários - ou seja, daqueles que fundem suas atividades com outros empresários estrangeiros - seria justamente a portadora desses preciosos valores heurísticos que a tornam locus privilegiado de um programa original de investigação.

 

Na verdade, duas são as razões principais que justificam semelhante escolha: uma interna à lógica da combinação nova, tal como já foi definida; a outra externa, dir-se-ia situacional ou empírica, e que se aplica, portanto, exclusivamente a esses agentes sociais.

 

A primeira já foi parcialmente enunciada: a inovação se produz num determinado contexto, no interior de uma determinada tradição, ou seja, ao produzir a inovação, dialoga-se necessariamente com a tradição. As grandes ou pequenas rupturas que produzem os agentes sociais têm uma seqüência histórica que está presa a um contexto societário: a família, o grupo, a classe, a re(li)gião, como diria Oliveira (1977), o território, a nação, a nacionalidade (12). As combinações novas resultam e simultaneamente representam uma ruptura com a tradição, com o coletivo - e hipotético - ponto central (recursos materiais, técnicas, formas, estilos). As combinações novas têm uma dívida e um compromisso com a tradição. Constituem um espaço que exprime com particular clareza de que modo a série cultural e a série do valor - dimensões inseparáveis de e em todo processo social - se manifestam historicamente em cada sociedade (13).

 

A segunda razão que torna privilegiado o universo desse tipo especial de empresários é situacional ou empírica. Firma-se nas atuais circunstâncias de internacionalização dos mercados de trabalho, de produção e de consumo, em um contexto que denominaremos "confronto de tradições". Segundo nossa experiência de pesquisa, os empresários que iniciam, planejam ou consolidam um tipo especial de associação empresarial denominado, genericamente, joint venture, estabelecem uma combinação nova com duplo significado, além daquele descoberto por Schumpeter. Além de produzirem um encontro de diversos horizontes que marcaram e ainda marcam a época das nações, dão origem, literalmente, a uma combinação nova de identidades, tradições e estilos; combinações novas de senso comum, cultura, linguagens e representações históricas que, de territorialmente determinadas, passam a abstratas, desterritorializando-se para, finalmente, reterritorializar-se na forma de práticas sociais e até de mercadorias que aparecem como formas híbridas no mercado. Nesses encontros e em seus resultados aparecem cotidianamente expostas as práticas e as representações de e sobre a nação, a pátria e a nacionalidade. Voltaremos a esse assunto depois.

 

II

 

Com relação ao segundo problema, ou seja, a diferença dos processos transnacionais entre um observador situado nos países centrais e um observador situado, por exemplo, no Brasil, diríamos que as diferenças se situam: a) no plano da observação empírica; e b) na formulação de definições sobre a função da nacionalidade.

 

Sobre o plano da observação empírica, não há dúvida de que, da perspectiva central, o tipo de fenômeno que sugere a transnacionalidade é a forte e crescente procura de ingresso no mercado de trabalho de contigentes vindos das mais diversas regiões. Trata-se de um problema agudo, colocado pela internacionalização de processos sociais até então tipicamente verificados no interior de fronteiras nacionais (mercado de trabalho, entre eles), que deverá ser mais bem compreendido para que se possa organizar um contingente de trabalhadores essencialmente transnacionais (14). A importância de outros fatores de produção que, originários dos países periféricos, pretendem intervir nos países centrais, é marginal. Capitais originários de países latino-americanos que se dirigem aos países centrais ficam, via de regra, ociosos no mercado financeiro ou se disciplinam segundo as estritas regras que controlam o mercado nesses territórios. Alguns conflitos se registram, como ocorre com a excessiva presença de capitais japoneses nos EUA. Certamente, a eventual devolução de Hong Kong para a República Popular da China suscitará problemas inéditos e de grande interesse.

 

Em todo caso, o problema social em mercados centrais como o europeu (CEE), o norte-americano (Nafta) e o japonês se intensifica com a migração de grandes contingentes de mão-de-obra dos países periféricos, como turcos e gregos na Alemanha, árabes e africanos na Franca, mexicanos, brasileiros e outros latino-americanos nos EUA. A esse êxodo deve agregar-se o caso particular dos descendentes de nacionalidades que historicamente migraram dos países centrais e que hoje, em face das diferenças entre as alternativas de ingresso no mercado de trabalho, se dirigem de vários países da América Latina (Brasil, Argentina, Uruguai) para os países de seus antepassados, como é o caso dos descendentes de japoneses, italianos, espanhóis e portugueses. Ainda é necessário considerar, também, um contingente menos numeroso, porém mais qualificado, que procura preferencialmente mercados capazes de absorver sistematicamente técnicos e profissionais, como o Canadá, a Austrália, a África do Sul, a Nova Zelândia e, com critérios de seleção mais específicos, Israel. Contudo, afirmar que essa expressão da transnacionalidade é visivelmente mais sensível na observação empírica em e a partir dos países centrais não quer dizer que estes não constituam um problema para e sejam o resultado de situações nos países periféricos. Cumpre-nos simplesmente reafirmar que essa manifestação da transnacionalidade coloca instigantes questões para entender a sociabilidade dos países centrais e que seu estudo é imprescindível para a compreensão das identidades coletivas pós-nacionais desses países.

 

Contextualmente, o crescimento quantitativo e qualitativo de processos transnacionais se produz simultaneamente ao desaparecimento do socialismo real, embora as relações entre esses dois processos contemporâneos não tenham ultrapassado ainda o simples status da constatação empírica. Do ponto de vista das idéias sociais, nota-se também a crescente perda de valor do marxismo, tanto como filosofia da História universal como em sua função de inspirados de estratégias metodológicas de pesquisa. Entretanto, parece que no capitalismo avançado se descobre, talvez tardiamente, a clássica advertência de Marx de que "para o capital não interessa o trabalhador, mas o trabalho". As atuais circunstâncias fazem do trabalhador concreto (de sua história, sua sociabilidade, sua identidade e sua nacionalidade) um foco maior de interesse do que a abstrata e vazia categoria de "trabalho". Marx advertiu que se encontra subjacente a essa confusão uma das tendências mais perversas do capitalismo.

 

Já para o observador situado na periferia e, como no nosso caso, em e para qualquer país da América Latina, países que se formaram historicamente com procedimentos que hoje poderiam ser denominados transnacionais (populações africanas, européias e asiáticas que, como demonstram várias pesquisas, nunca romperam definitivamente os vínculos com os países de origem) (15), a idéia de que o trabalhador é mais significativo do que o trabalho se tornou muito enraizada em conseqüência do que se poderia denominar um capitalismo atrasado ou deformado.

 

Assim, se o capitalismo avançado descobre a importância da advertência marxista sobre o trabalhador - justamente quando esse edifício teórico começa a ruir-, no capitalismo periférico se constata a tese, também marxista, porém oposta, de que o capital, em vez de ser internacional, frio e sem personalidade, possui uma história, tem uma identidade, desenvolve um estilo; ele é, finalmente, cultura. Apenas por ser trabalho morto acumulado, guarda como inacabado o testemunho de sua formação de origem.

 

À exceção de alguns miseráveis romenos que a Argentina se dignou a receber, ou de um punhado de cientistas soviéticos que o sistema de ciência e tecnologia brasileiro absorveu, além de outros casos similares (como os coreanos), os atrativos para a migração de mão-de-obra para a América Latina não entusiasmam nenhum grupo nacional ou regional, contrariamente ao ocorrido em fins do século passado, quando se criou a imagem de "fazer a América". Atualmente, capitais do mundo inteiro, e muito especialmente os próprios capitais da região, devem, por força das circunstâncias internacionais, esquecer suas fronteiras nacionais e se associar com capitais para empreendimentos produtivos binacionais. Especialmente nas atuais formas de acumulação flexível, em que se constata a descentralização da produção, se desterritorializa a corporation e se pulverizam as identidades de marca. Neste ponto, torna-se especialmente esclarecedor tomar os empresários analisando sua importância na América Latina como um locus privilegiado de problematização das identidades, das histórias e tradições nacionais e, sobretudo, da transnacionalidade vista a partir dos e para os países da região.

 

Sobre o sentido e a função da nacionalidade em cada uma dessas circunstâncias históricas particulares parece ainda necessário - antes de passar para a metodologia - retomar a discussão inicial sobre a proposta normativa de Habermas. Estudar sua pertinência e sua viabilidade para o contexto que denominamos aqui de periferia - mesmo que Habermas talvez nem tenha pensado em estender sua proposta para esse grupo de países - é, pela própria força de penetração que as idéias surgidas nos países centrais exerceram (e ainda exercem) na formação do pensamento social periférico, simplesmente um imperativo. Disso trataremos a seguir.


A proposta etnográfica

 

O que significa uma proposta etnográfica e por que o valor limitado da proposta normativa de Habermas para os países da América Latina?

 

Tratando de como unidades administrativas são concebidas como pátrias, Benedict Anderson diz que os neologismos criados pelos criollos ilustres dos atuais países latino-americanos definiram populações como "compatriotas" peruanos, argentinos etc., antes de serem constituídos como tal, encobrindo nessas denominações as diferenças entre povos que nem sequer falavam uma língua comum (cf. Anderson, op. cit. p. 61). Por suas respectivas constituições, os habitantes de meras unidades administrativas seriam todos peruanos, argentinos. Não existiria o ponto central se não fosse por essa antiga unidade administrativa cujo sentido Anderson demonstra, ainda que não seja muito convincente. Em outras palavras, o patriotismo da Constituição, a identidade coletiva prático-formal já foi - de certa maneira - uma experiência nos países latino-americanos bem antes da proposta de Habermas.

 

Na América Latina, a proposta para uma identidade coletiva pós-nacional não pôde retomar os argumentos das aristocracias criollas que denominavam "compatriotas" as populações conhecidas sequer para ter seus territórios demarcados, sociedades inteiras submetidas à designação nacional; mais ainda, se se considerar que às diferenças de princípios do século XIX devem se agregar as produzidas pelas ondas maciças de migrações européias e asiáticas que, em maior ou menor grau, todos os países da área receberam no período que vai dos últimos anos do século XIX às primeiras décadas do presente século.

 

Como foi dito anteriormente, esses países hoje são, em maior ou menor grau, justamente o contrário: exportadores de mão-de-obra. Isso suscita um ponto de observação relativamente aos países centrais que recebem essas migrações e que formulam, a seu turno, os patriotismos da Constituição. Sob a perspectiva da qual estamos falando, a identidade coletiva pós-nacional é ainda uma proposta etnográfica. Nesse sentido, os países latino-americanos estariam em trânsito, inversamente aos países centrais, de nacionalidades prático-formais vazias de tradição para identidades coletivas com tradição.

 

Retomar a idéia de uma "identidade coletiva coro tradição" não seria correr o risco de um novo Auschwitz, desta vez na América Latina? De fato, em nossos países foi e ainda é produzida uma série interminável de Auschwitz: genocídios indígenas, escravidão, ditaduras massacrantes e condições miseráveis de vida da maior parte das populações nacionais. A tradição está ausente nos Auschwitz desses países. Os massacres não se realizaram em função da tradição, tal como o Auschwitz alemão, mas, ao contrário, por sua ausência.

 

Outra possibilidade que, finalmente, também deve ser explorada, é a seguinte: se a tradição se mostrou perversa e permitiu o darwinismo social (às avessas) na Alemanha, talvez tenha mais a ver com o perfil da tradição alemã, e não com toda e qualquer tradição. Em outras palavras, a tradição alemã que permitiu o darwinismo social é uma tradição racial, biológica, de raça superior. Uma tradição ancorada numa crença natural tornada fato social, ou, talvez, um bom exemplo de como se naturaliza a Kultur.

 

A tradição, no interior da proposta etnográfica, não é absolutamente natural. Pelo contrário, ela é social, realizada e construída pelas mulheres e pelos homens como resultante das lutas e das diferenças, inclusive, como resultante dos "Auschwitz sem tradição". Uma tradição plural, polifônica, multiétnica, que deve ainda equacionar a diferença em um sistema impregnado de hierarquia.

 

No espaço deste artigo não é possível aprofundar mais essa proposta. É necessário, entretanto, antes de finalizar este item, uma reflexão sobre a proposta normativa e etnográfica. Afirmamos em várias oportunidades que não se tratavam de propostas excludentes. Elas são, ao contrário, complementares; embora distantes, dialogam entre si. A normativa, preocupada em garantir cidadania para os membros de uma determinada constituição; a etnográfica, preocupada em construir e consolidar uma tradição democrática sem ponto central. A identidade "coletiva com tradição" existe para dar testemunho do trabalho morto acumulado, impedindo a emergência de novos "Auschwitz sem tradição" , assim como o patriotismo da Constituição existe, desde que se elimine definitivamente o natural e o irredutível, como na proposta habermasiana, para lembrar e evitar os "Auschwítz sem tradição". Aceitando essas diferenças é possível a construção de um universo real e formalmente mais democrático, no qual não seja imprescindível ser necessariamente idêntico, para conseguir dialogar.


Empresários e globalização

 

Os empresários do Brasil estão sendo levados cada vez mais a lidar com situações que envolvem práticas e visões de coisas tidas- por eles mesmos -como radicalmente diferentes. Ou seja, defrontam cotidianamente com formas concretas de ação e compreensão do mundo consideradas intraduzíveis. Essa situação é ainda mais nítida para aquela parcela que hoje já está atuando em empreendimentos produtivos organizados em forma de joint venture (16). Tudo indica que essa parcela de empresários, por enquanto pequena, está propensa a um crescimento exponencial, dada a tendência crescente do capitalismo mundial de se organizar em regiões quando até hoje estava mais organizado em nações.

 

O que segue é o resultado preliminar de um período de pesquisa realizado junto a uma joint venture de médio porte brasileiro-argentina, do setor metalúrgico, que acompanhamos desde o momento da concepção, implantação e início das atividades no Brasil, até a consolidação no mercado. Esse período foi de aproximadamente quatro anos (17). É o que em antropologia se denomina trabalho de campo.

 

Entretanto, esse trabalho de campo iniciou-se muito tempo antes, em lugares completamente distantes, geográfica e sociologicamente. Com efeito, ele começa em sociedades indígenas de diversos países da América Latina que, além de serem muitas vezes consideradas como radicalmente diferentes das modernas sociedades nacionais, "hóspedes", no dizer de Cardoso de Oliveira (1994), em todos os casos estavam situadas em fronteiras nacionais. Posteriormente a pesquisa focalizou grupos de especialistas em saberes contemporâneos ocidentais (os diplomatas argentinos e os antropólogos quebequenses) (18) para, a partir daí, interessar-se pelas joint ventares em São Paulo.

 

Todos esses objetos de observação compartilham um atributo que já foi percebido pelo leitor: estão situados ou se situam, por força de sua especialidade, em regiões de fronteiras culturais que podem, embora não necessariamente, coincidir com fronteiras geográficas. A suposta incomensurabilidade dessas práticas e visões do mundo em confronto produz (ou melhor, pode produzir) relações de sociabilidade nas quais conflitos de interesses e tentativas de imposição de uma prática sobre outra fazem parte do cotidiano. De maneira geral constatamos, a partir dos casos estudados anteriormente, fortes indícios de que esses grupos sociais estão culturalmente treinados para atuarem cenários caracterizados por confronto de práticas e de visões do mundo radicalmente diferentes. No caso das sociedades indígenas, esse equipamento cultural surge no seio do que se poderia denominar senso comum, enquanto no caso dos grupos de especialistas das sociedades modernas (os diplomatas e os antropólogos) trata-se, parafraseando Gellner, de um dever de ofício: eles estariam treinados disciplinarmente para reduzir visões tidas pelos próprios agentes sociais como radicalmente diferentes a aspectos francamente residuais (Gellner, 1989, p. 179). E efetivamente a isso se consagram com diferentes graus de êxito, abrindo conseqüentemente discussões filosóficas e metodológicas que não nos cabe retomar neste momento. Os empresários modernos constituem, em tese, um universo especial, porque estão situados no centro do processo de globalização, confrontando-se portanto, cotidianamente - vale repetir - com práticas e visões do mundo tidas a priori por eles (ou seja, os brasileiros e os outros) como radicalmente diferentes. Estariam, porém, em muitos casos, desprovidos de um saber comum ou disciplinar que compreenda e torne residuais essas "diferenças radicais" (19).  

 

É difícil encontrar do lado da ciência que se preocupa com os empresários (as chamadas ciências sociais, em geral, e a economia e a administração em particular), assim como do lado do saber não-disciplinar (os próprios empresários), equipamentos metodológicos específicos que permitam compreender e, eventualmente, contribuir para a sobrevivência de uma nova comunidade de práticas e visões do mundo, como resultado desses confrontos. Uma comunidade de argumentação que elimine ou torne residual a arbitrariedade que, desde sempre e na maioria dos casos, tem habitado essas fronteiras. Essas hipóteses metodológicas procuram basicamente contribuir para preencher essa ausência. Se no plano filosófico isto recoloca antigas discussões ainda de difícil solução e se no plano da teoria social as propostas constituem, na quase totalidade dos casos, perspectivas colocadas no horizonte mais como júri do que como fato, no plano concreto dos acontecimentos vistos de e para as sociedades latino-americanas, essa ausência pode não estar na origem exclusivamente de fracassos empresariais, mas também - e tão grave quanto o primeiro - na origem de novas formas de submissão, pelas quais os empresários já constituídos são parcialmente responsáveis e, simultaneamente, vítimas. Junto com eles, direta ou indiretamente, as sociedades também sofrem as conseqüências, de forma ainda mais brutal e indiscriminada, radicalizando as desigualdades sociais, o atraso e a miséria (20).

 

A definição empírica de empresário

 

Formular uma definição empírica do conceito de empresário significa resgatá-lo da multiplicidade dos agentes sociais assim autodenominados e denominados pelos outros, diversidade que se relaciona com diferentes variáveis (de classe, étnicas, geográficas, de setor e volume de negócios etc.), para reconhecer, no interior dessa multiplicidade de agentes sociais diferentes, o conjunto de processos que faz de homens e mulheres comuns uma classe de agentes sociais particulares (21). Não se trata, pois, de definir um tipo ideal de empresário ou, ainda, a personalidade de base do empresário brasileiro, em suma, a sua identidade social, conceitos que, como se sabe, estão sujeitos a fortes críticas, não somente nossas (22). Trata-se, pelo contrário, de delimitar, embora em um perímetro aberto, os procedimentos que permitem o surgimento e as maneiras de atuar e de se relacionar desse conjunto chamado "empresários brasileiros" ou, de forma mais ampla, dos "empresários no Brasil". Estes podem ser agrupados, de forma ampla, em duas perguntas:

 

1. O que significa essa classe especial de agente social denominado empresário?

 

2. Como apreciar o impacto que têm nos processos de surgimento e de atuação desses agentes denominados empresários variáveis como regiões, classes sociais, etnias, nacionalidades, religiões, família, setores da economia, volume e dimensão do negócio, além de outras como profissionalização, tecnologia, relações de trabalho, métodos de administração, poder e sindicalismo?

 

O que seja o empresário, a primeira das perguntas, talvez seja a mais complexa de todas, uma vez que as respostas sobre o significado dessa classe especial de agente social podem ser agrupadas - de acordo com os resultados da pesquisa - em pelo menos quatro grandes grupos sociológicos, cada um deles portador de uma definição diferente. Esses grupos e suas definições, que a seguir enumeramos, não são obviamente homogêneos, constituem redes sociais complexas que só o trabalho de campo permitiu desvendar. São elas:

 

· a dos próprios agentes sociais empresários (incluindo as associações de classe), que denominaremos nativa;

· a dos agentes sociais que com eles lidam horizontalmente, seja como classe lógica, seja como classe sociológica. (23). Esse relacionamento é realizado numa multiplicidade de registros, dentro dos quais o dinheiro é um veículo importante, porém não imprescindível. Será denominada contextual. Exemplos desses agentes sociais estão situados num imenso leque de possibilidades, que vão da família, considerada extensiva ao grupo geracional, até a especialistas de diversos assuntos, profissionais liberais como advogados, consultores etc.;

 

· a daqueles agentes sociais que mantêm uma distância sociológica imensa, embora do ponto de vista que aqui denominamos lógico possam ser coincidentes: os assalariados e suas diversas instâncias representativas. Justamente por essa situação paradoxal - sociologicamente distante, porém logicamente coincidente, a literatura que trata deles tem construído uma idéia muitas vezes classificada com diferentes adjetivos: alienada, limitada, idealista, ideológica, política e até cultural. Esses agentes sociais se relacionam de maneira bastante concreta e muitas vezes considerada completamente linear, uma vez que se estabelece usualmente em torno da idéia de dinheiro. Por essa mesma razão aqui se adotará o nome objetiva.

 

· finalmente, a pesquisa detectou a importância de uma definição teórica, ou seja, dos conhecimentos que a partir de diversas disciplinas têm focalizado o empresário no capitalismo e o conhecimento social especialmente sobre a gênese desse agente social nos diferentes contextos históricos. As mais próximas são, sem dúvida, as ciências da administração. A mais distante foi durante muito tempo a antropologia. Internas ou quase completamente externas, a presença dessas disciplinas é forte empiricamente.

 

A perspectiva aqui proposta para a definição de empresário, denominada empírica, é a somatória das quatro definições acima relacionadas: a perspectiva empírica resultou ser uma localidade sociológica, um espaço social no qual as diversas versões (nativa, contextual, objetiva e teórica) acabaram se encontrando (24). Localidade sociológica justamente porque permitiu simultaneamente a observação e a reconstituição, por um lado, das trajetórias dos próprios empresários como sujeitos históricos e, por outro, dos quatro grandes sistemas conceituais que o constituem em qualquer parte do planeta. É possível encontrar essa localidade sociológica em diferentes cenários, conforme as necessidades de observação. Se, eventualmente, nos interessasse delimitar o perímetro dos processos sociais que permitem construir a definição empírica do empresário no interior de regiões tidas como formalmente homogêneas como Estado-nação (território único, língua, símbolos etc., embora seja sempre um suposto relativo), eventos como feiras e exposições empresariais, associações regionais, fóruns de participação e discussão e, sobretudo, os espaços construídos pelas grandes empresas nacionais (públicas e privadas) seriam localidades sociológicas ideais para a observação. Para evitar conclusões precipitadas do tipo "a metodologia propõe que os empresários devam ser observados nas empresas", esclarecemos que não se trata tanto do local (as empresas), senão das questões que nele são observadas. Em nossa experiência - embora o escopo inicial de nossas preocupações fosse relativamente diferente (25) - a localidade sociológica assim delimitada só fez sentido para a pesquisa quando foi interrogada e nela se observou o encontro das perspectivas nativa, contextual, objetiva e teórica.

 

Esse procedimento metodológico foi o originalmente utilizado na experiência de pesquisa junto a empresários paulistas em situação de joint venture com empresários estrangeiros. Diferente, como já foi lembrado, de empresários que compartilhariam um suposto universo formalmente homogêneo como resultado de serem membros de um só Estado-Nação. Com isto queremos destacar que se potencializava, de diversas maneiras, uma autêntica fronteira, em que a convivência de identidades (expressas no lucro como objetivo) e de diferenças (nas variadas formas de entendimento e condução de estratégias para obtê-lo) produzia, e, certamente continua ainda produzindo - embora, esperamos, com menor intensidade - durante todo o trabalho da pesquisa, um campo permanente de práticas e de linguagens concorrentes entre si, ou seja, pretensamente incomensuráveis. Isto evoca diretamente a segunda de nossas questões: a identidade e a diferença entre os processos que permitem construir definições empíricas de empresário.

 

No caso de referência, a joint venture, o campo devariáveis estava potencializado pelo fato de se tratar, na verdade, de dois grupos de empresários, um da Argentina e outro do Brasil, ambos internamente heterogêneos. O lado argentino estava representado por um italiano que residiu muitos anos na Argentina e um descendente de judeus. O primeiro, de origem operária e técnico em ferramentas e materiais de trabalho na metalúrgica. O segundo, intelectual, engenheiro das classes médias urbanas de Buenos Aires. O lado brasileiro, por sua vez, estava representado inicialmente por quatro empresários também extremamente diferentes entre si. Um deles, o único que posteriormente sairia da sociedade, era um nissei casado com uma brasileira, com estudos secundários completos e já proprietário de uma planta industrial de médio porte em São Paulo. Ele entraria como o sócio verdadeiramente capitalista, do lado brasileiro. Os outros três membros de nacionalidade brasileira possuíam em comum a experiência de trabalho em uma antiga empresa líder do ramo no mercado. Seu único capital era exatamente essa experiência, já que na ocasião da integralização dos 49% do pacote acionário brasileiro (dividido em 40% do nissei e 9% entre os outros três) eles solicitariam o prazo de um ano para realizar seus 9%. Este seria deduzido de seus salários, já que estariam efetivamente empregados como gerentes geral, comercial e industrial, respectivamente.

 

O primeiro deles, saído de um setor tradicional de meios urbanos relacionado aos serviços públicos, era um homem com longa experiência no mercado, tendo atuado tanto na produção como no marketing e na venda. Seu conhecimento formal e informal do segmento era extraordinário, porém, muitas vezes atuava como obstáculo às ações empresariais, em vez de viabilizá-las. O segundo, jovem formado na Unicamp em engenharia de alimentos, originário de família tradicional do interior mineiro, havia tido uma só experiência profissional, aquela que compartilhara com os outros dois durante três ou quatro anos. Seu perfil era - embora matizado pelo contexto brasileiro - o de um yuppie: empreendedor, sonhador e ambicioso. O terceiro, bastante diferente dos outros, era originário de famílias de operários de São Paulo, tendo obtido acesso ao ensino universitário, porém em instituições da Grande São Paulo sem qualquer tradição de ensino ou pesquisa. Tendo ingressado no mercado de trabalho metalúrgico muito jovem, confundiam-se nele os traços de uma cultura operária tradicional com aqueles simulados no ensino profissional menos qualificado no Brasil.

 

Os sócios argentinos e o nissei seriam sócios ausentes no dia-a-dia da empresa, participando exclusivamente como capitalistas e membros da diretoria na tomada de decisões, diretoria presidida pelo sócio engenheiro argentino (os 51 argentinos estavam divididos em partes iguais entre os dois sócios daquele país). Aos três brasileiros caberia gerenciar tanto a administração, a produção e as vendas, selecionando também o primeiro escalão da diretoria, como, obviamente, a montagem de toda a estrutura material e humana necessária para a implantação da unidade industrial e o verdadeiro início da produção. Tal o tamanho das diferenças entre as trajetórias, e conseqüentemente, as tradições, que até se poderia afirmar que se tratava de uma constelação de seis tradições tidas, para cada um deles, como radicalmente diferentes. O eventual sucesso da firma, ou seja, a possibilidade de que qualquer tipo de associação empresarial, como o do nosso caso de referência, se consolide no mercado, poderia ser observado pelo desempenho econômico do grupo a partir dos primeiros três ou quatro anos depois de iniciadas as atividades, ou segundo os tempos médios de retorno do capital - da econometria -,embora estes sejam, mais do que indicadores, verdadeiras camisas-de-força de intenções de políticas econômicas.

 

Porém, se nesse intervalo não se cria uma nova comunidade de argumentação que se solidifique - não unicamente pela representação acionária, mas sobretudo como resultado de processos de mútua compreensão -, é inútil esperar três ou quatro anos: o fracasso é garantido, ou, no melhor dos casos, e ainda com a condição de existir capital ocioso para isso, sobreviver-se-á num déficit orçamentário permanente durante um período longo o bastante para permitir a criação espontânea de uma nova comunidade de argumentação que nada tenha a ver com o metafísico “espírito societário” (26).

 

As bases metodológicas que acabamos de expor como simples exemplo, através de procedimentos adequados, são utilizáveis principalmente para constatar, indicar e abreviar os tempos dos pequenos meandros, às vezes inimagináveis por sua natureza fugidia, que participam ativamente no processo de criação de uma nova comunidade de argumentação: isso que na literatura científica se denomina "cultura de uma organização". Aceitando o termo para evitar complicações onomásticas, esta última seria, pois, uma construção sociológica que reúne quatro grandes grupos de linguagens, práticas e representações: a nativa, a contextual, a objetiva e a teórica. Das quatro perspectivas, a nativa é, de longe, a menos conhecida, até pelos próprios empresários. Por isso, os problemas decorrentes dos encontros entre empresas e empresários, sejam nacionais ou internacionais, estão relegados a uma repetição dos casos mitológicos (Toyota, Volvo e outros similares).

 

Mesmo sabendo que estamos dizendo o óbvio, as dificuldades para a criação desse tipo de comunidade de argumentação, como esperamos ter ficado claro no exemplo sumariamente apresentado, não têm como condição necessária a presença de uma linha de nacionalidade. Regiões e religiões, classes e cidades, família e educação, gênero e raça, identidades e diferenças constituem a polifônica tradição do Brasil. Hierarquias e diferenças das quais a metodologia proposta se aproxima mais para diminuí-las do que para potencializá-las.


Antropologia e globalização

 

Não há como negar a origem pragmática da antropologia. Qualquer tentativa nesse sentido está fadada ao fracasso. Ela foi, sem a menor suspeita, e sem por isso diminuir ou aumentar sua credibilidade científica, uma forma sistemática de pensar, de tentar compreender o outro "descoberto" pela expansão do capitalismo e do colonialismo. Também não é possível continuar lembrando velhas frases como "o imperialismo é a fase superior do capitalismo", enunciadas contemporaneamente à formulação científica da antropologia, nas primeiras décadas deste século agonizante. O capitalismo tem mostrado, pelo menos temporariamente, possuir uma lógica de reprodução, digamos, mutante. Em todo caso, toca-nos acontecer numa fase especial da humanidade: a chamada globalização. Pouco importa produzir novos vaticínios: já constatamos sua falibilidade. A antropologia tem contribuído enormemente com seus relatos etnográficos e com sua bagagem conceitual para a compreensão dos encontros etnográficos. Com essas preocupações, disciplinas inteiras estavam comprometidas, e não nos enganaríamos afirmando que a lingüística e a economia foram, desde sempre, as mais envolvidas, as mais próximas. Hoje, certamente deveríamos acrescentar a administração.

 

Por razões de espaço, é impossível nos deter nos detalhes. Entretanto, esperamos ter sido suficientemente explícitos sobre o valor agregado que essa metodologia possui: produz conhecimentos pragmáticos num processo tão novo para o mundo como o foram, talvez, os dessa atroz maneira de se relacionar entre diferentes povos, que foi aquela do início da antropologia. Assim, não interessa definir nem vaticinar que resultados poderia ter um processo que está definitivamente instalado na humanidade. A metodologia é sempre uma maneira de dialogar. O diálogo que essa metodologia propõe é aquele que se estabelece entre o empresário nacional (considerado como um fato social total das identidades coletivas pós-nacionais) e um universo globalizado, de fronteiras desterritorializadas, de encontros sempre entre outros, porém agora agendados eletronicamente. E os que falam alto nesse diálogo são os empresários que se encontram. Por isso, eles têm, por um lado, a responsabilidade de ouvir e compreender; por outro, a de cooperar com uma disciplina que já permitiu a expansão dos negócios, porém com a contrapartida terrível da fome, da miséria e da injustiça. Não temos qualquer receio de cometer um equívoco ao afirmar que este não é o horizonte ideal para a humanidade globalizada.

 

NOTAS

 

*Uma versão preliminar deste trabalho beneficiou-se dos comentários de Roberto Cardoso de Oliveira, da Unicamp, e de Hebe Vessuri, do Instituto Venezolano de Investigaciones Científicas de Caracas: Sou grato também aos comentários críticos dos anônimos pareceristas da RBCS. Agradeço ainda Marco Luiz de Castro, aluno e amigo, que fez a revisão. Naturalmente, nenhum deles é responsável pelo conteúdo.

 

1. Habermas, 1989. As citações do texto em espanhol foram por nós traduzidas para o português.

 

2. Sob o título "Cultura empresarial brasileira: uma análise comparativa entre empresas públicas, privadas e multinacionais", em parceria com a Fundação Getúlio Vargas e a Universidade Federal Fluminense.

 

3. O "ponto central" sublinhado por Habermas corresponde à idéia do "irredutível", que identifiquei como dimensão presente em toda formulação da teoria da identidade (Rubem 1988, p. 81).

 

4. Habermas, op. cit. Ver especialmente o texto "Heidegger: obra y vision del mundo", introdução que Habermas escreve para a versão alemã da tese de Victor Farias, Heidegger et le nazisme.

5. Habermas, op. cit. p. 89. Estas mesmas conclusões foram também as nossas no pequeno texto sobre nacionalidade já citado (Ruben,1984).

6. Cf. Hegel: Enciclupuediu, p. 430, upud Habermas, 1975, p. 79.

7. Para a definição de "programa original de investigação", ver Lakatos & Musgrave, 1975.

8. Sobre o modo de produção flexível por oposição ao fordismo ver Harvey, 1992.

 

9. Adiantando-nos ao que afirmaremos a seguir, Miami parece mais pertinente para o mesmo problema quando observada u partir de e para os países centrais.

 

10. Focus imuginuriuc no sentido dado a essa expressão por Rorty: "borroso pero inspirador" (1991, p. 214).

 

11. Esses.foci imuginurii são facilmente reconhecíveis, permitindo que sejam focalizados empiricamente, porque todos os empresários são, por definição, administradores. Porém, é a memória deles que interessa nessa dimensão do programa.

 

12. Poderia ser útil na análise o conceito de "comunidade de argumentação". Cf. Appel, 1985, e também Cardoso de Oliveira, 1992.

 

13. Para a relação entre valor e cultura na pesquisa antropológica, cf. Ruben & Santos, 1984.

 

14. Para uma visão contemporânea da importância desse processo migratório, ver a excelente compilação de casos realizada por Schiller et al., 1992.

 

15. Cf., entre outros, os trabalhos já citados e relacionados a nosso programa de pesquisa, de Chiarini (1992) sobre italianos em São Paulo, de de Castro (1994) sobre descendentes de japoneses, e a pesquisa de Alcides Fernando Gussi sobre os descendentes de americanos no interior do estado de São Paulo.

 

16. Joint venture designa, rigorosamente, um tipo particular de associação empresarial em que duas empresas já constituídas se reúnem, compondo um capital social dividido em duas partes iguais de 50% . No sentido em que o termo é empregado no meio empresarial, significa a associação de dois parceiros sem definir as percentagens de integração de capital ou se se trata de uma empresa completamente nova, como no caso em pauta. Por essa razão, usarei joint venture neste último sentido, amplo e nativo do termo.

 

17.Manteremos o nome da empresa em sigilo, conforme prática habitual da antropologia. Na literatura local, deve ser mencionado como precursor desse tipo de observação Ferro, em sua tese Decifrando culturas organizacionais.(1991); o autor focaliza duas empresas, sendo uma delas a Volvo do Brasil, organizada na forma de joint venture, com capitais públicos e privados brasileiros. No caso em pauta, são capitais privados (51 % argentino e 49 % brasileiro).



18. Para o caso da etnografia da antropologia em Quebec ver Cardoso de Oliveira & Rubem 1994. Os resultados da pesquisa na Argentina encontram-se ainda em forma de relatório: Identidade e nacionalidade nu Argentino, Fapesp/Unicamp/Fundación Bariloche, Buenos Aires, 1985.

 

19. Isto se deve, em parte, ao fato de que os próprios agentes sociais envolvidos - os empresários - não têm registrado sistematicamente no interior de sua comunidade uma memória histórica sobre um processo que, para eles mesmos, não tem, de novo, senão sua atual e contínua aceleração.

20. Permitimo-nos remeter o leitor a um artigo do qual este é de certa maneira sua continuação. Ver Ruben, 1994.

21. O leitor reconhecerá nesta frase, novamente, nossa dívida com Joseph A. Schumpeter.

22. Para uma crítica ao conceito de identidade, ver Ruben, 1988

23. Classe lógica: constitui um grupo de indivíduos que, distanciados socialmente, compartilham em parte ou na totalidade os mesmos saberes. Classe sociológica: entendida como a tradicional rede social da antropologia - próxima social e, às vezes, logicamente.

 

24. Lembra as palavras de D. Harvey: "Há geografias reais de ação social,. territórios e espaços de poder reais e metafóricos que se tornam vitais como forças organizadoras na geopolítica do capitalismo (...) ao mesmo tempo que são sede de inúmeras diferenças e alteridades que têm de ser compreendidas tanto por si mesmas como no âmbito da lógica global do desenvolvimento capitalista (...) [faltando explicitar o que será sua definitiva sentença] o materialismo histórico finalmente começa a levar a sério a sua geografia" ( ( 992, p. 321).

 

25. Lembramos que o programa que atualmente desenvolvemos na Unicamp em parceria com a FGV e a UFF (ver nota 2) se iniciou com á observação empírica de um grupo empresarial binacional brasileiro-argentino.

 

26. Para uma discussão da presença do idealismo nos sistemas de representação dos agentes sociais sobre as relações de produção ver o excelente estudo de Lahoz Morelli, 1991.



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