GLOBALIZAÇÃO E DEMOCRACIA

Necessidade e oportunidade de um espaço público transnacional*


Héctor Ricardo Leis

 

Embora o logos seja comum, a maioria das pessoas vive como se possuísse sabedoria própria. (Heráclito)

 

Em relação aos atos criativos existe uma verdade elementar: no momento que são assumidos, a Providência também se põe em movimento e um enorme fluxo de acontecimentos surge em nosso favor. Como resultado da decisão, se apresenta todo tipo de imprevistos, coincidências, encontros e ajudas, que nenhum homem jamais teria sonhado encontrar. (Goethe)

 

I

 

Os problemas políticos contemporâneos são analisados tradicionalmente em dois níveis: Estado-Nação e sistema internacional. Nas últimas décadas, um amplo espectro de fenômenos de caráter global produziu um dramático aumento da interdependência entre os países, que ultrapassou as fronteiras de ambos os níveis. Mesmo os países mais poderosos se encontram hoje profundamente afetados por fatos e circunstâncias que seus governos controlam de forma apenas parcial. A existência de um sistema internacional sempre supôs um certo grau de restrição à capacidade de cada país para definir seu próprio destino (nesse sentido, a interdependência é uma qualidade pertencente a qualquer sistema). Mas o que hoje chama a atenção constitui uma novidade muito mais significativa que uma simples restrição à vontade dos Estados. Os processos de globalização descaracterizam a política tradicional, tanto nos espaços domésticos como nos internacionais. O enorme movimento de bens econômicos, de tecnologia, de informações, de idéias, de fatores ambientais e de pessoas através das fronteiras nacionais, ao mesmo tempo que inibe o histórico desempenho dos atores vinculados à esfera estatal e produz novas realidades sociais e naturais, gera também a atuação de atores transnacionais provenientes das esferas do mercado e da sociedade civil.

 

Talvez por ser um fenômeno relativamente recente, a globalização está permitindo múltiplas interpretações, nem sempre convergentes. Um ponto de vista "otimista" pensa que esse processo conduz a um aumento da cooperação entre os países, criando condições para uma ordem internacional mais racional e governável (Fukuyama, 1989, é um exemplo bem conhecido, no contexto do fim da Guerra Fria). Contrastando com este, existe um ponto de vista "pessimista" que pensa o mesmo processo de um modo que não altera substancialmente a tradicional anarquia da ordem internacional (Fiori, 1993, é um exemplo dessa posição no meio acadêmico brasileiro). Como é normal nesses casos, ambas posições possuem numerosos argumentos como justificativa. A rigor, essa aparente dialética entre posições otimistas e pessimistas não se deve apenas ao caráter recente dos processos de globalização, já que ela registra também o grau de reducionismo determinista que existe no campo do conhecimento. A política perde sua qualidade essencial, se não for pensada de forma criativa e complexa. O mundo físico, sabemos atualmente, é menos determinista e manipulável do que presumia a ciência moderna clássica. Acontece o mesmo com as sociedades humanas, nas quais podemos descobrir elementos essenciais de contingência e necessidade, de oportunidade e irreversibilidade - e, portanto, escassos fundamentos para ser "unilateralmente" otimistas ou pessimistas (Prigogine, 1993).

 

Essa insistência epistemológica no determinismo contribui para a sobrevivência de algumas categorias obsoletas (embora fáceis de usar) no campo da política. A maioria dos analistas (e, obviamente, dos políticos) se comporta ainda como se o mundo desenhado na Europa pelo Tratado de Westfalia (1648) continuasse existindo. Eles se negam a perceber que a política mundial deixou de girar em torno da noção de soberania nacional, embora - e este segundo aspecto é tão ou mais importante que o primeiro - tampouco seja válido considerar o mundo como uma sociedade global, em condições de ter autoridades globais (Habermas, 1993). O fenômeno da globalização está sendo impulsionado pela expansão do mercado internacional, o qual não supõe, necessariamente, a emergência simultânea de uma sociedade mundial integrada. De fato, esse processo parece estar contribuindo mais para a despolitização da maioria da população mundial e sua manipulação por parte de algumas elites técnico-burocrático-empresariais, que para a construção consciente de uma sociedade global. Esse "novo mundo", analisado sob uma perspectiva política não-determinista, se apresenta como uma comunidade global fragmentada. De acordo com isso, pode-se concluir que a maior prioridade e oportunidade deste momento se traduz na organização de um espaço público transnacional, que torne viável a democratização das relações internacionais e a construção de bases firmes para uma governabilidade global.


II

 

Independentemente da avaliação que se faça dos resultados da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio92), algo que ficou dramaticamente claro foi a enorme dificuldade do atual sistema internacional para atender aos problemas colocados em sua agenda e, em conseqüência, a urgente necessidade de melhorar a governabilidade global. A rigor, a questão da governabilidade é sumamente complexa, já que se refere à capacidade real de um governo ou administração realizar suas políticas. Em relação aos problemas globais, ela depende hoje do surgimento de instituições e valores convergentes, assim como da intensidade e liberdade do fluxo de comunicação entre os vários atores do cenário internacional, de modo que estes possam se orientar para formas de ação mais cooperativas e menos conflitantes (apesar das diferenças culturais e das desigualdades de poder). O relativamente recente surgimento de uma consciência e de uma rede de organizações não-governamentais "local-globais", em condições de superar a atual polarização entre os vários interesses e valores em jogo no atual contexto da globalização aponta na direção de uma maior governabilidade (Scherer-Warren, 1993). Rio-92 foi um exemplo concreto desse fenômeno "aldeia-planetário" (Viola, 1992; Leis, 1993). Em sentido contrário, apontam as tensões existentes entre as tendências nacionalistas e globalizadoras de diferente signo (Kennedy, 1993). O "tribalismo" e o nacionalismo político têm sido sempre motivados pelo colapso (antes militar e agora econômico) dos antigos impérios e dos grandes Estados multiétnicos (sendo a desintegração da União Soviética um de seus últimos exemplos). Sucessivas ondas nacionalistas deram como resultado uma comunidade de países que se triplicou durante.a segunda metade deste século. Se observarmos como a enorme maioria desses novos Estados já nasce dramaticamente fraca e vulnerável, com baixíssima capacidade para se sustentar e controlar minimamente seus próprios destinos, pode-se concluir que é difícil prever a perspectiva global dessas tendências nacionalistas, embora certamente elas venham perdendo progressivamente terreno frente às forças estritamente globalizadoras (no final deste ensaio voltaremos à dialética entre forças globais de diferentes signos).

 

O desafio do mundo atual consiste em resolver criativamente a defasagem (e até contradição) existente entre o nível de globalização alcançado e os antigos conceitos e instituições que regem ainda a vida nacional e internacional, já que, se tudo continua igual, as fortes assimetrias existentes entre os diversos Estados, regiões e grupos sociais continuarão aumentando. A degradação social e ambiental global é resultado de uma mistura explosiva do aumento tríplice de riqueza, pobreza e população em um contexto de desigualdades e assimetrias "inter" e "intra" países, que tende a se polarizarem dois "submundos" chamados "Norte" e "Sul" - que, apesar dos nomes, não têm limites geográficos nacionais definidos com nitidez (UNDP, 1994). Para evitar esse futuro, a maioria dos grandes relatórios internacionais dos últimos anos (Brundtland, 1988, é um dos melhores exemplos) apresenta uma lista de problemas com suas respectivas soluções técnicas, enfatizando a necessidade de reeducar a humanidade e, especialmente, as elites, para chegar a essas soluções. Obviamente, muitas dessas propostas são altamente recomendáveis, mas correm o risco de nunca serem realizadas (ou serem insuficientes) se não se atender, ao mesmo tempo, ao problema da governabilidade global sob uma perspectiva democrática.

 

III

 

A modernidade, como ensinou Max Weber, privilegiou dois espaços - o mercado e o Estado. Os processos de desenvolvimento e modernização dos séculos XIX e XX foram organizados em torno de dois modelos, um centrado no mercado e o outro, no Estado. Esses modelos foram eficientes na produção de dramáticas e rápidas transformações sociais, apesar de terem estratégias que não levavam exatamente aos mesmos resultados. Até muito pouco tempo, o papel das organizações comunitárias e não-governamentais, o mundo da sociedade civil em geral, entendido como um espaço de contestação fundamental à sociabilidade que emana do mercado e do Estado, não foi corretamente valorizado, nem suficientemente teorizado. A secularização da vida moderna distanciava as pessoas dessa "outra" sociabilidade derivada dos laços familiares e locais e associada a valores tradicionais de solidariedade e de caráter religioso em geral. Mas, no final dos anos 60, os processos de modernização de um e outro signo começaram a perder confiabilidade frente à presença de fortes "mal-estares" de ordem cultural, ambiental e social. Surge a preocupação pelo desenvolvimento humano, surgem movimentos feministas, por direitos humanos, pacifistas e ecologistas, entre outros, reivindicando a necessidade de revisar muitos dos valores básicos que orientam nossa civilização. A prioridade "ontológica" do Estado e do mercado em relação à vida social começa a ser severamente questionada.

 

É interessante observar que nem o mercado nem o Estado podem existir em um vazio moral ou normativo. Os mercados funcionam porque seus atores têm confiança mútua, o que supõe um consenso previamente existente na sociedade. Do mesmo modo, os Estados se apóiam em uma legitimidade normativa intersubjetiva, sem a qual nenhuma política seria possível (Wolfe, 1992). Lamentavelmente, nem a democracia, assumida como a expressão mais avançada da política moderna, conseguiu recuperar ou incluir explicitamente em seu projeto a sociabilidade e a experiência normativa própria da sociedade civil. A idéia de democracia que finalmente foi legitimada, após um longo e controvertido processo iniciado com a Revolução Francesa, associou sua eficácia a valores mais instrumentais que normativos. Pelo menos até os anos 70 e 80 deste século, foi quase total a exclusão do imaginário democrático de premissas não-secularizadas, provenientes do campo da ética, da religião e da cultura em geral. A democracia foi basicamente reduzida a um sistema jurídico para regular a representação de interesses individuais ou de classes sociais (segundo as versões liberal e socialista, respectivamente). Mas a História está cheia de surpresas. A mesma globalização que aumentou as desigualdades materiais entre países ricos e pobres trouxe também o beneficio inesperado de pôr em intenso contato povos diferentes e distantes, aproximando a vida das "metrópoles" e a das "periferias". Isso gerou a oportunidade para a criação de autênticos consensos globais, baseados na convergência de práticas e valores pertencentes a formas de vida de maior e menor grau de secularização, que se projetam além das desigualdades de riqueza e de poder entre os países.

 

Usando uma conceituação habermasiana, pode-se dizer que esses grandes consensos são possíveis a partir da ação comunicativa porque existe um "mundo da vida" como fundo comum (Habermas, 1984b). Como se sabe, esta última noção se refere a um horizonte de sentidos que permite aos sujeitos capazes de fala e ação se entenderem mutuamente sobre algo. Ainda que o mundo da vida tenha um caráter quase transcendental, ele tem também um lado empírico, já que é resultado da prática comunicativa e define um acervo de tradições, identidades, experiências e conhecimentos que são transmitidos pela cultura e pela linguagem. O mundo da vida é um espaço social oposto ao "sistema" (o universo de ações não-voluntárias orientadas pelos mecanismos de mercado e de Estado). Precisamente, é como reação ao sistema e em defesa das identidades e experiências sociais emanadas do mundo da vida que surgem os diversos movimentos e organizações da sociedade civil (Cohen y Arato, 1992). Uma conclusão sumamente interessante dos últimos autores citados é que essa associação entre a defesa do mundo da vida e os movimentos da sociedade civil requer para seu bom desempenho que se instituam espaços permanentes para a ação comunicativa. Nesse sentido, a comunicação deve ser libertada o máximo possível dos processos administrativos e econômicos para que ela possa assim ser capaz de compatibilizar a lógica instrumental do sistema com a dinâmica da solidariedade que prevalece no mundo da vida (Costa, 1994; Avritzer, 1993).


IV

 

A experiência do conjunto de atividades da Rio-92 pôs em evidência a potencialidade comunicativa de atores e as reivindicações fortemente ancoradas no mundo da vida (Leis, 1993). Mas uma coisa precisa ficar clara a esse respeito: as ameaças comuns ao mundo da vida foram os principais fatores que facilitaram o diálogo e a criação de consenso entre as pessoas e os representantes de numerosas culturas e regiões, não tanto um suposto interesse comum, de caráter político ou econômico (e, portanto, instrumental), nas hipotéticas vantagens de desenvolvimento sustentável global. Como observadores ou participantes, seja na conferência oficial ou nos encontros do Fórum Global, se encontraram e dialogaram milhares de representantes da vida social, cultural, econômica, política e religiosa do mundo contemporâneo. Os encontros foram de todo tipo (intra e intersetoriais) e, praticamente, surpreenderam a todos por igual, pela capacidade de diálogo demonstrada por atores com tão diversos interesses e origens. Rio-92 foi um enorme laboratório, que certamente mereceria ser mais bem estudado do que tem sido até hoje, para observar a grande capacidade transformadora da ação comunicativa continuada, em espaços públicos de alta visibilidade e relativa transparência.

 

Apontando na direção da Rio-92, além das quatro reuniões oficiais preparatórios, chamadas PrepComs (Nairóbi-8/90, Genebra-3/91, Genebra-8/91, e Nova York-3/92), com participação de governos e setores não-governamentais, houve grandes encontros internacionais de parlamentares (Washington-5/90); de autoridades locais (Oslo-6/91); de cientistas (Viena-11/ 91); de mulheres (Miami-11 /91); de organizações não-governamentais (Paris-12/91); e de empresários, no nível regional (organizados pelo Business Council on Sustainable Development, em várias datas). Se estudarmos os documentos produzidos em todos esses eventos preparatórios, na "corrida" para a Rio92, e se compararmos com os documentos finais oficiais e extra-oficiais, poderemos observar o significativo progresso das posições, no sentido de uma compatibilização maior dos interesses e divergências colocados no começo (a evolução do Fórum de Organizações Não-governamentais e Movimentos Sociais Brasileiros, recorrendo um caminho de oito grandes encontros nacionais prévios, ao longo de dois anos, até seu documento final para a Conferência, ainda que seja uma dinâmica nacional e não internacional, é também muito interessante para ser estudada).

 

À medida que o diálogo e o trabalho em comum foram explicitando a diversidade de interesses e valores em jogo entre os governos, entre estes e as organizações não-governamentais, assim como entre os diversos setores da sociedade (provenientes dos quatro pontos cardeais do planeta), verificou-se que o debate público, com severas regras para garantir a competência e a reciprocidade comunicativa dos participantes, foi progressivamente produzindo um consenso maior. O consenso final oficial, tal como ficou expresso na "Agenda 21" (talvez o mais importante e extenso documento produzido pelas Nações Unidas nos últimos anos, embora estranhamente pouco divulgado ), ainda que não resolva todas as divergências iniciais, representa um passo significativo para alcançar uma open governante de questões globais, estabelecendo claras indicações para um processo participativo e democrático global (Grubb et al., 1993). É difícil saber se existiam condições para avançar mais do que se logrou, e também não é fácil estabelecer um balanço final das medidas concretas adotadas na Rio-92, mas não restam dúvidas sobre os benefícios desse intenso diálogo global, prolongado durante um período de dois anos. Lamentavelmente, apesar dessa comprovação, esse espaço público global e pluridimensional em gestação não foi institucionalizado senão, pelo contrário, interrompido. Os canais orgânicos criados para dar continuidade à Rio-92 (principalmente a Comissão para o Desenvolvimento Sustentável) não foram pensados como espaços participativos amplos, capazes de produzir e reproduzir consensos significativos. Embora também de grande relevância, os encontros de cúpula posteriores (Viena93, sobre direitos humanos; Cairo-94, sobre população; Copenhague-95, sobre desenvolvimento social etc.) não souberam estar à altura do principal desafio da Rio-92. Tais conferências, antes de se colocarem uma linha de estruturação do espaço público global emergente, incorporando os "novos" temas a uma só agenda (reforçando a Agenda 21), definiram objetivos e estratégias próprios, de difícil articulação com os restantes, dificultando de fato a continuidade e a acumulação dos esforços feitos em cada caso.

 

V

 

Num mundo tão globalizado, mas também tão conturbado pela violência como forma normal de resolver diferenças (vide os numerosos massacres e guerras "civis" dos últimos anos, que muitas vezes superam a média diária de perdas de vidas da Segunda Guerra Mundial), deveria chamar mais a atenção a carência de fóruns qualificados para que a sociedade global possa discutir seus problemas. Essa desatenção poderia ser explicada, de forma parcial, como um resultado do fracasso das Nações Unidas, o qual por sua vez pode ser atribuído ao papel secundário e burocrático outorgado à organização durante a Guerra Fria. Mas, em relação às dificuldades para institucionalizar um espaço público global (na ONU ou em qualquer outro lugar), nos parece mais importante destacar sua incompatibilidade com as cosmovisões políticas dominantes e, em particular, com a vigência do conceito de soberania nacional e com o uso praticamente "exclusivo", por parte dos Estados, de qualquer representação pública no cenário internacional. No final do século XIX e no início do XX não eram poucas as vozes que manifestavam a necessidade de criar uma assembléia mundial constituída por homens e mulheres da cultura, da ciência e grandes personalidades não-políticas em geral, para discutir permanentemente os problemas da humanidade (Muller, 1993). Mas o turbilhão de duas guerras mundiais entre os Estados mais poderosos do planeta provocou o quase esquecimento dessa idéia, mantendo intocado (paradoxalmente) o papel dos responsáveis pelo caos passado (os Estados) como organizadores e supervisores da ordem mundial.

 

Desse modo, não é difícil imaginar as barreiras de obstáculos que historicamente impediram a participação das organizações não-governamentais (e da sociedade civil em geral) nos processos de deliberação internacional. A recente influência e/ou presença das organizações não-governamentais nesses processos se deve fundamentalmente ao prestígio alcançado na opinião pública, no seio de suas respectivas sociedades nacionais e, em menor medida, ao reconhecimento internacional dado pelas Nações Unidas nos últimos anos (cuja burocracia, de certa forma, tratou de relegitimar sua função, associando-se a elas). Se os governos não aceitam facilmente outorgar maiores atribuições na política internacional às organizações não-governamentais, deve-se então perguntar por que não existe uma reação explícita equivalente daqueles em relação aos mais antigos e menos simbólicos poderes globais representados por instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT) e o Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento (vulgarmente conhecido como Banco Mundial), aos quais todos os países, mais cedo ou mais tarde, acabam subordinando suas políticas econômico-sociais (Ianni, 1992). Poderes globais que são exercidos de forma oligárquica no cenário internacional, já que respondem basicamente ao controle de uns poucos governos dos países mais desenvolvidos e se orientam de acordo com as necessidades de fortalecimento do mercado internacional.

 

Se o sistema internacional de Estados soberanos não impediu a emergência de poderes globais em benefício do funcionamento da economia mundial, a rigor, o que está sendo resistido não é a proposta de maior governabilidade mundial (ou até de um governo mundial), senão a criarão de bases para uma governabilidade democrática. Vale a pena voltar a insistir que os processos de discussão e negociação dos problemas globais de meio ambiente e desenvolvimento, tratados na Rio-92, demonstraram que hoje, tanto na construção de consensos como na procura de soluções técnicas, não se pode prescindir da contribuição de numerosos atores não-tradicionais, como grupos de cidadãos, cientistas, corporações industriais, meios de comunicação, instituições religiosas, agências intergovernamentais especializadas, organizações não-governamentais etc. (Benedick 1992; Viola, 1994). O desafio dos problemas globais requer cooperação e compreensão entre países com diferentes culturas e graus de desenvolvimento, circunstâncias que não seriam possíveis sem uma participação ativa e autônoma de representantes da sociedade civil que reintroduzam valores de orientação ética e epistêmica no processo de tomada de decisões (Haas 1993; Leis, 1992). Nesse sentido, o significado maior da Rio-92 não deve ser buscado na definição de regimes ambientais específicos, senão na legitimação de padrões e comportamentos participativos e democráticos para tratar os problemas ambientais globais.


VI

 

Já tínhamos observado antes que a globalização vem acompanhada de reações otimistas e pessimistas, caracterizando-se estas últimas por afirmar que a existência de Estados soberanos, num contexto de grande interdependência entre os países, levaria a um aumento dos conflitos. Surpreendentemente, foi publicada recentemente uma variante bastante original desse pessimismo realista; na qual se sugere que no próximo século a principal fonte de conflitos não se produzirá como conseqüência de choques entre Estados, mas entre culturas e civilizações (Huntington, 1993). Além de ser ou não factível, essa predição chama a atenção pela dificuldade de seu autor em imaginar um diálogo criativo entre as diversas tradições culturais existentes no mundo atual. Justamente, ainda quando aceita que os Estados perderam centralidade, o predomínio de uma lógica de análise "realista" (derivada das relações entre Estados), impede o autor de pensar as relações humanas de forma preferencialmente não-competitiva ou conflituosa. Vale aqui lembrar que a História não permite que se estabeleça nenhum determinismo em relação ao encontro entre civilizações e/ou religiões, existindo tanto exemplos de terríveis lutas, como de pacífica e criativa coexistência entre elas - inclusive daquelas aparentemente mais irreconciliáveis, como aconteceu no caso da Espanha medieval governada pelos mouros, onde conviviam em harmonia nada menos que islamismo, cristianismo católico e judaísmo (Toynbee, 1985).

 

A dificuldade para pensar um mundo onde a diversidade cultural possa dialogar surge do suposto de que o processo de secularização e modernização, imposto pela etnocêntrica razão ocidental, continua sendo a melhor receita disponível para tratar os problemas da globalização. Os perigos que se escondem por trás dessa "onipotência" da modernidade se exemplificam bem na relativamente rápida adaptação unidimensional, para seus próprios fins, que as elites das grandes potências industriais fizeram da ainda inacabada, embora multidimensional, teoria do desenvolvimento sustentável (Brüseke, 1994). É difícil avaliar em detalhe a hipótese dos choques civilizatórios, mas se eles representam uma ameaça verdadeira, parece injustificável não sugerir imediatamente a necessidade de promover, com urgência e no máximo nível, um espaço público para que as principais religiões possam começar um diálogo produtivo, entre si e com outros atores, sobre os problemas comuns da humanidade. Abusando da terminologia de Kuhn, poderia se dizer que a oportunidade de um espaço público transnacional constitui uma anomalia difícil de perceber para quem se situa (confortavelmente) dentro do mainstream "civilizatório" da globalização.

 

É interessante destacar também outra anomalia um pouco mais fácil de perceber, porque já constituiu uma característica central da Idade Média cristã. Naquela época, o sistema de autoridade se recobria de múltiplas lealdades, de modo tal que nenhum monarca ou príncipe podia exercer legalmente um poder absoluto sobre um território e sua população já que, dependendo dos casos, tinha o papa e o imperador por "cima" e os senhores vassalos por "baixo", compartilhando seu poder. Fazendo uma analogia, pode-se pensar que nos encontramos atualmente numa situação neomedieval, dado que a criação de redes transnacionais de organizações e movimentos, somada à crise de representatividade do Estado-Nação, traduzem a existência (nos níveis nacional e internacional) de lealdades cruzadas e interpretações conflitantes sobre direitos e deveres (Buli, 1977; Held, 1991). Do ponto de vista deste ensaio, a anomalia que interessa não reside tanto na mera existência de lealdades superpostas, senão que as mesmas podem contribuir positivamente para a governabilidade global e a democratização das relações internacionais.

 

A origem do Estado moderno se encontra no árduo processo de constituição de uma só autoridade, com poder sobre todas as pessoas e atividades do mesmo território. A necessidade de acabar com as guerras civis e religiosas que arruinavam e sangravam as sociedades européias foi a justificativa (teórica e histórica) para a monopolização do poder público na mão do soberano (neutralizando, em conseqüência, qualquer poder baseado na sociedade civil). O posterior surgimento de uma nova consciência ou "opinião" (burguesa) levou ao estabelecimento de uma esfera pública para exercer as funções de mediação entre as tensões do Estado e a sociedade (Habermas, 1984a). Essa esfera encontrou o Estado nacional já conformado e seu ativo papel democratizador foi cumprido na mesma escala (nacional). Outrossim, o atual surgimento de uma consciência pública (pré-pós-burguesa), na qual os cidadãos são atraídos por valores e lealdades diversos (de projeção transnacional) que interferem com a determinação nacional, permite pensar o problema da democracia (e seus critérios de representação) sob um outro ângulo (global), distinto do costumeiro (nacional). Em outras palavras, os efeitos perturbadores do processo de globalização sobre o mundo da vida criam a oportunidade e a necessidade de uma esfera pública que legitime a participação política de diversas "ordens" de cidadãos vindas das igrejas, das academias de ciência, de grupos ambientalistas, de organizações não-governamentais, de corporações econômicas etc.

 

O soberano Estado moderno se legitimou garantindo a ordem e a convivência pacífica de seus cidadãos, mas hoje verificamos que a desordem global da biosfera e da espécie humana nunca foi maior. Vale a pena ter presente isto porque a institucionalização de espaços públicos transnacionais, em um primeiro momento, vai gerar provavelmente um aumento da desordem, ainda que esta seja de diferente tipo da correspondente aos sistemas político e econômico internacionais. Em nossa opinião, se isto chega a acontecer, teríamos um sinal homeopático (similia similibus curantur) de que as patologias de nossa época começam a ser tratadas. Através dessa "desordem" discursiva estaríamos gerando mecanismos democráticos (não-coercitivos) para resolver os conflitos e problemas de uma comunidade global fragmentada. O perigo maior de tal desordem é chegar a "ensurdecer" os ouvidos de alguns atores, conduzindo-os a discussões excessivamente auto-referenciadas ou setorizadas. Em boa medida, isto poderia ser evitado se a comunicação entre todos os participantes se subordinasse a uma agenda comum (com os governos), integrada por temas concretos e urgentes e regulada por normas de funcionamento claras e estritas à semelhança do que foi feito na Rio-92 (Held, 1991). Por esse motivo, uma esfera pública como a proposta deve procurar estar fortemente institucionalizada e revestida de uma severa "liturgia'".


VII

 

Um dos pressupostos deste ensaio é que a governabilidade dos problemas globais está intimamente associada à legitimidade democrática das instituições afetadas. Nesse sentido, deve-se considerar que a ONU, embora seu sistema esteja subordinado à ação dos governos e possua não poucos vícios de funcionamento, conserva ainda uma parte importante de sua legitimidade de origem e possui a melhor "liturgia" disponível para dar corpo a uma esfera pública transnacional. A ONU foi criada em 1945, em um mundo que, apesar da dramaticidade das lutas entre os Estados na Segunda Guerra Mundial, ainda confiava em suas capacidades para administrar o futuro. No entanto, o sistema da ONU foi progressivamente ampliado em todo esse tempo e as estruturas e princípios básicos de seu funcionamento nunca foram revisados. Em 1995, por ocasião de seu 50° aniversário, está prevista a realização de reformas, algumas das quais já começaram a ser propostas durante a Rio-92 (Grubb et al., 1993; Muller, 1993). As iniciativas mais prováveis para ser implementadas estão destinadas a alterar a composição e as atribuições do Conselho de Segurança, projetado na época para preservar uma ordem internacional favorável aos Estados vencedores da última guerra mundial, e a dar um papel um pouco maior às organizações não-governamentais dentro do sistema da ONU em geral. Acreditamos que a análise que estamos fazendo implica muito mais que isso.

 

Entre todos os organismos da ONU, a Assembléia Geral possui certamente a maior representatividade e legitimidade formal. Ela está integrada por representantes de todos os governos, em um marco de absoluta igualdade jurídica. Por esse mesmo motivo, a Assembléia possui uma baixíssima governabilidade ou capacidade para impor políticas, dado que aí vale tanto o voto dos Estados Unidos, da Rússia ou do Japão, como o de Ruanda, da Bósnia ou do Haiti. A proposta que se deduz deste ensaio pode ser entendida como uma ampliação democrática da Assembléia, destinada a estender sua representação pública a outros atores (não-governamentais) associados ao mercado e à sociedade civil. Essa ampliação da "cidadania" mundial pode se justificar teoricamente como uma conciliação-complementação da lógica da igualdade política, própria do funcionamento do Estado de direito, com a lógica da hierarquia social, predominante na sociedade civil e intimamente vinculada ao problema da governabilidade (mais na frente voltaremos a essa idéia fundamental da "hierarquia").

 

Se se trata de criar um espaço público, num mundo globalizado e complexo, as vozes a ser escutadas não podem ficar restritas a uma representação formal dos governos. Certamente, o maior desafio para conseguir uma autêntica democratização da política internacional consiste em produzir um espaço público de acesso relativamente irrestrito e com capacidade real de influir no processo decisório sobre questões globais. Se a partir de uma perspectiva democrática (profunda) nada parece mais importante que o direito ao autogoverno (Dahl, 1985), isto supõe que tanto os indivíduos como os povos e os países devem ter suficiente autonomia para determinar as condições e os valores que orientam sua existência - obviamente, contanto que não neguem o mesmo a outros (Vita, 1991). Em um mundo globalizado, o exercício dessa autonomia se recorta dramaticamente quando os presentes nas deliberações são unicamente os governos. Qualquer projeto civilizatório terá uma potencialidade perversa quando subordina a diversidade de práticas e valores existentes à racionalidade de um só sistema ou grupo de atores. Democratizar significa compatibilizar a diversidade, não suprimi-la. As sociedades humanas não são matematizáveis, no sentido de que para resolver um problema existe uma só "equação". Ao contrário, a melhor estratégia para obter nelas um consenso capaz de viabilizar a solução de um problema, é assumir como ponto de partida que existem várias soluções possíveis para o mesmo. Igualmente, existem também vários princípios ou fundamentos sobre os quais se pode organizar uma comunidade política. Para Tocqueville, o uso irrestrito do princípio de igualdade jurídica para a eleição de funcionários ou representantes nem sempre levaria a bons resultados. Os vícios surgidos de uma visão individualista e massificada dos assuntos públicos poderiam ser evitados introduzindo o critério da hierarquia social. Reportando-se aos poderes corporativos da sociedade pré-moderna, ele pensava que, para evitar a degradação da política, os simples cidadãos estão em condições de alcançar virtudes "aristocráticas" se for outorgado um espaço público a entidades não apenas políticas, mas também industriais, comerciais, científicas e inclusive literárias (Tocqueville, 1979).

 

Seguindo uma linha tocquevilleana, Dumont lamenta que, em nossa época, as pessoas achem que ao princípio de igualdade só pode se opor o da desigualdade. No entanto, as realidades primeiras da vida social moderna não são exatamente esses princípios já que, embora seja verdade que a igualdade é um deles, o outro é a hierarquia. Esta última não deve ser entendida como hierarquia de poder (como no Exército, por exemplo): "Adotar um valor é hierarquizar, e um certo consenso sobre os valores, uma certa hierarquia das idéias, das coisas e das pessoas é indispensável à vida social" (Dumont, 1992, p. 66). Para esse autor, adotar o princípio hierárquico não impede que se aceite a existência do princípio igualitário. Mas, inversamente, a negação moderna da hierarquia é um forte obstáculo à correta compreensão da natureza da comunidade humana, já que esta pode e deve regular-se de acordo com os dois princípios.

 

Os argumentos anteriores parecem suficientes para justificar que não deve ser lida como arbitrária ou utópica a proposta de complementar o atual sistema da Assembléia Geral da ONU (baseado no princípio igualitário) com um complexo e difícil, embora viável, mecanismo de representação transnacional baseado no princípio da hierarquia. Representação esta que abrangeria os atores (pessoas e/ou organizações) de maior mérito e prestígio social (o que não quer dizer "popularidade", mas reconhecimento por desempenho ético, religioso, científico, cultural etc.) na sociedade civil planetária, incluindo dentro desta (por que não?) os atores do mercado (neste caso, levando em consideração não apenas o desempenho social dos empresários e/ ou empresas, mas também sua importância econômica). Não é este o lugar apropriado para entrar nos detalhes da mecânica dessa proposta (os quais, por outro lado, foram apresentados durante a Rio-92, no Fórum Internacional de Organizações Não-governamentais (ver Leis/ Iser, 1992; e também: Leis, 1995). Basicamente, a idéia consiste em transformar á atual Assembléia Geral em um fórum de governos e colocar a seu lado mais cinco fóruns de representantes, cujos membros deveriam ser escolhidos considerando o critério da hierarquia social (embora respeitando certa proporcionalidade geográfica e/ou regional). Esses fóruns institucionalizariam, assim, seis comunidades "político-comunicativas" (entendidas em sentido amplo) que já existem de fato, seja formal ou informalmente:

 

1. Governamental (ou comunidade política, em sentido estrito);

2. Não-governamental (ou comunidade ética, integrada por atores sem fins lucrativos que seguem princípios universais);

3. Empresarial (ou comunidade econômica);

4. Científica (ou comunidade epistêmica);

5. Cultural e artística (ou comunidade estética); e

6. Religiosa (ou comunidade espiritual).

 

Hoje já existem uma elevada consciência pública mundial e um grupo de instituições, que constituem os germes de uma esfera pública transnacional, assim como na primeira metade do século XIX já existiam exemplos de entidades como as referidas por Tocqueville. São numerosos e conhecidos os exemplos que poderiam estar representados nos fóruns propostos. Convém mencionar também que, além do knowhow e da experiência das Nações Unidas para veicular essa proposta, existe um importante trabalho acumulado em muitas instituições verdadeiramente pioneiras (entre outras, é o caso da Federação do Planeta Terra (Constituição para a federação do Planeta Terra, s/d), do Parlamento das Religiões do Mundo (Parliament of the World 's Religions, 1993) e da Comunidade Bahá'í (Lerche, 1991).


VIII

 

Apesar de ser um fato reconhecido que o processo de globalização pode e deve ser abordado por um conjunto amplo de disciplinas, suas interpretações mais freqüentes transmitem a idéia de um mundo que caminha para uma crescente uniformidade e standardization (Pieterse, 1994). Assim, não nos deve surpreender que as várias tendências culturais ou civilizadoras presentes no processo de globalização sejam, em geral, pouco estudadas pela literatura. Ao contrário do que pensa o senso comum, as referidas tendências não estão associadas exclusivamente ao "modelo" ocidental, entendido como o principal supersistema cultural ou civilizatório existente (tomado de um conjunto que inclui também, pelo menos, as civilizações islâmica, eslava, hindu, japonesa, chinesa, africana e latino-americana, seguindo a classificação de Huntington, 1993). De acordo com a "ontologia social" esboçada neste artigo, o mais adequado é contextualizar e redefinir essas tendências ou matrizes civilizadoras básicas dentro de um esquema triplo (sugerido parcialmente em Perlmutter, 1991). Por um lado, existe uma tendência dominante, com raízes majoritárias no projeto da modernidade ocidental e impulsionada pela ação do mercado (que, no campo ideológico, tem o neoliberalismo como uma de suas derivações mais conspícuas). Por outro lado, temos uma alternativa um pouco mais tradicional e de múltiplas raízes (ainda que perdendo progressivamente terreno frente à anterior), associada ao funcionamento do sistema internacional de Estados soberanos (sendo uma de suas desembocaduras mais significativas a ideologia nacionalista). Por último, existe uma terceira tendência mais fraca, se comparada com as anteriores, claramente situada numa tradição pré-pós-moderna (também de múltiplas raízes), que emana de movimentos e organizações da sociedade civil como uma defesa do mundo da vida (sendo uma de suas expressões ideológicas mais interessantes o anarquismo).

 

Independentemente dos nomes que essas três matrizes básicas possam receber e das várias combinações possíveis entre elas (ou com outras menores, não registradas aqui), interessa aprofundar algumas de suas características e contribuições, tanto em relação aos problemas como aos atores. A primeira tendência assume, como seu vetor principal, a homogeneização do conjunto de práticas e valores sociais existente em torno da racionalidade instrumental do mercado. Estão associados intimamente a essa matriz o modelo ocidental do capitalismo, a democracia liberal, a ciência positivista e a ideologia individualista, assim como grande parte dos valores da modernidade ocidental. Essa tendência homogeneizadora é marcada por um comportamento imbuído de superioridade (por causa de sua capacidade de produzir rápidas transformações na sociedade e na natureza) que, fora de qualquer retórica em contrário, tem dado provas de ser relativamente centralizadora e pouco democrática na política internacional, além de anuladora das identidades, sejam estas culturais ou sociais. O caráter dominante dessa matriz, sobretudo nas últimas décadas, torna-a responsável pela grande velocidade do processo de globalização em andamento, bem como pela aceleração das desigualdades de poder e riqueza no eixo Norte-Sul.

 

A segunda matriz considera que cada país e/ou cada região tem sistemas políticos e culturais únicos, os quais, apesar da crescente interdependência existente no mundo de hoje, continuam tão irreconciliáveis como sempre. De longa trajetória, essa tendência está associada modernamente ao princípio da soberania nacional. Embora seu suposto realismo já tenha sido mais atraente no passado, atualmente essa corrente gera enormes obstáculos à governabilidade dos problemas comuns da humanidade. Os aspectos mais característicos dessa matriz se expressam bem nos diversos nacionalismos, imperialismos, tribalismos e fundamentalismos que percorrem o mundo. Nesse sentido, deve-se destacar que os valores em jogo não surgem principalmente (como no primeiro caso) do Ocidente, mas derivam da história universal (não existindo, portanto, modelos econômicos ou políticos de "exportação"). Em contraste com a matriz anterior, que acredita possível a homogeneização do mundo de modo "não-violento" (ou sem guerras, embora a violência esteja implícita no aplainamento das identidades, trazida pela expansão do mercado), essa tendência se caracteriza por uma atitude "pendular", que oscila entre o isolamento e a guerra. Se, na primeira alternativa, a globalização ocorria por meio da homogeneização, na segunda ela ocorre pela conquista, já que nesta as diferenças não podem ser absorvidas e neutralizadas, devendo ser de preferência suprimidas. Para alguns analistas (e, sobretudo, para aqueles vinculados à perspectiva dada pelo mercado), essa matriz seria mais bem interpretada como uma reação aos processos de globalização do que como outro projeto de globalização. Mas não devemos esquecer que as guerras religiosas de séculos passados, as guerras dos totalitarismos deste século (nazismo, estalinismo, fascismo etc.), e o terrorismo e as guerras civis recentes mostram que a afirmação radical da singularidade é também uma forma concreta de pretender organizar o mundo todo (se isto é possível ou consistente de um ponto de vista analítico, é indiferente para avaliar o caráter global das experiências derivadas dessa matriz). Embora na conjuntura atual essa matriz não pareça muito atraente, interessa destacar que ela continua tendo vigência e que, a rigor, aqueles (como Huntington) que especulam com um confronto entre as potências ocidentais e o fundamentalismo islâmico, no próximo século, pressupõem de fato que ela ainda conserva uma grande força. Na mesma medida em que a tendência anterior se apresenta para muitos observadores como uma estratégia que supostamente privilegia o "centro" (ou "Norte") ao contrário da "periferia" (ou "Sul"), inversamente, essa segunda tendência se apresenta como uma estratégia supostamente mais favorável à periferia.

 

Embora de modo rápido, os parágrafos anteriores descrevem claramente duas matrizes civilizadoras globais: uma, de tipo homogeneizados, associada ao funcionamento do atual sistema capitalista' mundial; outra, do tipo cismático-totalizador, mais próxima da dinâmica do sistema político internacional. Apesar de contraditórias, ambas coexistem no atual processo de globalização e, de certa forma, devem ser ,co-responsabilizadas pela crescente crise sócio-ambiental global e pelas principais dificuldades existentes para sua reversão. A terceira matriz civilizadora não é tão visível como as anteriores (e, talvez por isso, é a mais "essencial", nas palavras do Pequeno Príncipe) e está associada com a dinâmica da sociedade civil, não sendo orientada por uma racionalidade instrumental, mas sim comunicativa. Ela pode se caracterizar como uma tentativa multidimensional e global de complementação e ordenação hierárquica de valores e práticas diferentes (Perlmutter, 1991). Por um lado, aceita a existência de princípios de validade global, mas sem permitir que estes funcionem como fatores de homogeneização da diversidade social e cultural existente no planeta. Do mesmo modo, também aceita a existência de identidades e valores que não são traduzíveis a uma singularidade global, procurando fazer com que suas diferenças não sejam vividas de forma entrópica, senão sinérgica, em função de atender a problemas comuns. O caráter sinérgico hierárquico eclética dessa matriz tem fortes raízes em alguns campos da ciência, nas culturas tradicionais e nas religiões em geral. Remete tanto a recentes descobrimentos (dos anos 60 e 70 deste século) no campo da teoria dos sistemas (expressos concretamente na importância das propriedades das interconexões ecológicas nos sistemas vivos), como a grandes transformações de origem espiritual da humanidade - veja-se o conceito de "época axial", que descreve períodos nos quais diferentes culturas e religiões, inicialmente isoladas, não produzem assimetrias ou propostas de guerras ou conquistas, senão identidades de alta sinergia sobre bases hierárquicas e ecléticas (Jaspers, 1976; Boulding, 1991).

 

A diferença das outras matrizes, esta última não propicia a hegemonia global de um modelo ou de uma visão da realidade; ao contrário, pretende que a diversidade cultural e as alternativas políticas e econômicas existentes estejam ao alcance de todos. Essa matriz não supõe, não obstante, uma reivindicação da diversidade por cima da unidade; ela trata, inversamente, de estabelecer uma ordem para o duplo movimento de descentralização e unificação que opera constantemente na sociedade. A diversidade e a unidade se garantem mediante a fecundidade da interação global. Essa matriz não estabelece um conflito entre o novo e o antigo, nem prioriza a mudança ou a conservação; ao contrário, privilegia a cooperação entre os diversos setores da sociedade e a continuidade entre o passado e o futuro. As perspectivas e os resultados do espaço público transnacional, comentados anteriormente, se inscrevem no quadro de possibilidades dessa matriz. Ainda que a dramática fragilidade das forças da sociedade civil planetária em relação com os poderes globais do mercado e dos Estados não permita imaginar que essa matriz chegue facilmente a ser dominante (pelo menos no curto e médio prazos), não é difícil compreender sua enorme importância para orientar conscientemente a política mundial, para uma maior governabilidade com sentido democrático.

 

Compreendidas em seu conjunto, as três matrizes apresentadas estão vinculadas de modo "dialético-hegeliano" (ou, pelo menos, gostaríamos de chamar assim). Independentemente das formas episódicas de manifestar esses vínculos, nos parece claro que existe, entre a primeira e a segunda matriz, um potencial de antagonismo (do tipo hegeliano de "tese" e "antítese"), que pode chegar a ser catastrófico. O globalismo "abstrato" do mercado tem coexistido contraditoriamente com o globalismo "particularista" dos Estados, mas sem chegar a extremos dramáticos (até o presente), por causa precisamente da capacidade para "conciliar" esses pólos, demonstrada pelo precário (embora "concreto") globalismo comunicativo da sociedade civil. A visão de Habermas nos permite compreender melhor essa dialética, ainda que ele mesmo pareça negar-se a explicitar claramente as implicações práticas de sua posição, no campo da política mundial. O temor dos filósofos de tradição iluminista (na qual incluímos Habermas) pela eventual expansão e pelo crescimento dos "particularismos" culturais e religiosos impede que avaliem positivamente a criação de espaços públicos transnacionais, onde os atores reais da sociedade civil se encontrariam para dialogar (já que muitos deles seriam representantes desses particularismos e fundamentalismos que se pretende evitar). De fato, uma leitura habermasiana nos sugere que .a dialética entre os globalismos do mercado e do Estado tende a ser catastrófica, porque ambas são expressão de uma racionalidade instrumental. Mas a "síntese" capaz de moderar a catástrofe, entendida por Habermas como a construção de um "universalismo normativo" (Habermas, 1995), não pode ser resultado da ação de uma cidadania "universal-abstrata" (como ele implicitamente pretende), já que esta existe parcialmente em apenas umas poucas sociedades nacionais, mas certamente não existe na sociedade global. A "saída" procurada só é possível a partir dos "cidadãos" concretos dessa sociedade mundial (os quais são atores e membros das comunidades política, econômica, ética, epistêmica, estética e espiritual, antes apresentadas).

 

Retornemos rapidamente a Dumont. Ele diz que a aplicação do princípio hierárquico permite que os diversos setores e membros da sociedade se assumam como interdependentes. No entanto, a igualdade (princípio básico da cidadania moderna) atomiza a vida social, possibilitando a desresponsabilização dos indivíduos no que diz respeito aos problemas comuns (obrigando, assim, a impor a ordem política através de uma lógica e de instrumentos coercitivos externos a estes); a hierarquia expressa uma forma consciente de os seres humanos se relacionarem com o todo, permitindo que a ordem seja assumida autonomamente. Enquanto a igualdade é nitidamente um princípio moderno, a hierarquia é um princípio (universal) pré-moderno e pré-pós-político, já que na maioria das sociedades é a religião que oferece aos homens e mulheres uma visão (fraterna) do todo (Dumont, 1992). Demos, então, as últimas palavras deste ensaio à "vida espiritual".


IX

 

Que os conteúdos específicos da ética e da religião sejam diferentes daqueles da política, não autoriza a supor necessariamente que devam ser percebidos como excludentes entre si. Weber trabalhou muito bem a possibilidade de complementação entre essas dimensões, procurando fazer com que os homens e mulheres tivessem sempre presentes, de modo articulado, as duas éticas possíveis para a ação: da convicção e da responsabilidade (Weber, 1984). São conhecidos e temidos os efeitos das religiões na política, mas o próprio Weber nos lembra que a guerra das igrejas nem sempre é a guerra dos deuses. A demora em fazer chegar a paz às igrejas em muito se deve ao isolamento e à falta de comunicação entre elas e com outros atores em geral. Por isso, a sociedade mundial precisa propiciar o encontro comunicativo "de" e "com" as igrejas, para ajudá-las a  desenvolver seu ecumenismo. A propósito, deve-se ressaltar que muitas das últimas correntes teológicas são fortemente ecumênicas, produzindo uma mudança no eixo da discussão inter-religiosa, da diferença para a complementaridade (Capra e Steindl-Rast, 1993).

 

Se tivéssemos que resumir em poucas palavras a proposta que percorre este ensaio não procuraríamos em torno das conhecidas e modernas noções de igualdade, liberdade, desenvolvimento sustentável, ou mesmo paz, senão das mais clássicas de amor e fraternidade (Aurobindo, 1971). "Se eu tivesse o dom de profetizar e conhecesse tudo sobre o que vai acontecer no futuro, e tanta fé, a ponto de falar a uma montanha e fazê-la sair do lugar, e contudo não amasse os outros, que bem faria isso?" (Paulo, 1972, p. 202), escreveu o discípulo de Cristo aos coríntios e, especialmente, para todos aqueles que confiam em utopias instrumentais para salvar a humanidade. Embora nada esteja mais longe dessas utopias que a ética comunicativa de Habermas, por isso mesmo chama a atenção, neste autor, a carência de referências e reflexões sobre os temas de amor e fraternidade. Não é menos significativo que o mesmo aconteça com outros filósofos políticos contemporâneos igualmente importantes (como H. Arendt e J. Rawls, por exemplo), que também discutiram os problemas da modernidade reivindicando á importância da esfera pública. Se não fosse esse "buraco negro" o sintomamor da modernidade, acreditaríamos que esses filósofos sofreram um estranho recalque, vis-à-vis uma modernidade que continua "inconclusa" e uma humanidade que "continua" dependendo do amor e da fraternidade, da força de sua experiência espiritual, para viver com dignidade.

 

NOTA

*Uma primeira versão deste texto foi apresentada no Grupo de Trabalho "Ecologia e sociedade", no XVIII Encontro Anual da ANPOCS, Hotel Glória, Caxambu, MG, 1994. O autor agradece os comentários dos membros do GT (especialmente de seus colegas de mesa, Octavio Ianni, Eduardo J. Viola e Franz J. Brüseke), assim como as observações do avaliador da RBCS, sem responsabilizá-los pelos resultados.

 

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