HUMANIDADE E
ANIMALIDADE (*)
Tim Ingold
A
humanidade é o tema peculiar da antropologia. Dito desta maneira parece fácil;
difícil é imaginar como se deveria construir uma ciência da humanidade. Este
artigo é uma tentativa de mostrar como fazê-lo. O leitor talvez considere minha
proposta exageradamente estreita ou, ao contrário, tão ampla que chega a ser
impossível. Se concordar com a primeira opinião, o leitor talvez reaja,
dizendo: "Mas como, uma ciência da humanidade? Não seja ridículo! O Homo
sapiens é apenas uma espécie entre milhares e, além do mais, relativamente
recente. Será que vamos ter uma ciência separada para cada espécie
animal?" Mas, se o leitor defender a segunda opinião, objeções dessa
natureza parecerão totalmente deslocadas. Estudar a humanidade, dirá esse
segundo leitor, não é apenas esmiuçar as idiossincrasias de uma espécie
particular, de um diminuto segmento do mundo da natureza. Trata-se antes de
abrir à pesquisa um mundo que se multiplica interminavelmente na exuberante criatividade
do pensamento e das ações das pessoas em todos os lugares. A tarefa parece impossível porque o tema está sempre extrapolando os estreitos
limites de nosso entendimento. Como somos, nós mesmos, humanos, o problema não
está em não termos logrado reduzir a humanidade a proporções analisáveis, mas
em jamais sermos capazes de acompanhar o passo de suas transformações.
A
verdade é que essas duas opiniões opostas se fundamentam em concepções
radicalmente distintas do que a humanidade é, ou deveria ser. A melhor maneira
de demonstrar essa diferença é examinar a maneira pela qual as noções de
humanidade e de ser humano determinaram, e foram, por sua vez, determinadas,
pelas idéias acerca dos animais. Para nós, que fomos criados no contexto da
tradição do pensamento ocidental, os conceitos de "humano" e
"animal" parecem cheios de associações, repletos de ambigüidades e
sobrecarregados de preconceitos intelectuais e emocionais. Dos clássicos até os
dias de hoje, os animais têm ocupado uma posição central na construção
ocidental do conceito de "homem" - e, diríamos também, da imagem que
o homem ocidental faz da mulher. Cada geração reconstrói sua concepção própria
de animalidade como uma deficiência de tudo o que apenas nós, os humanos,
supostamente temos, inclusive a linguagem, a razão, o intelecto e a consciência
moral. E a cada geração somos lembrados, como se fosse uma grande descoberta,
de que os seres humanos também são animais e que a comparação com os outros
animais nos proporciona uma compreensão melhor de nós mesmos.
O
artigo divide-se em três partes. Na primeira, analiso a definição de homem como
espécie animal, compreendendo todos os indivíduos que pertencem à categoria
biológica de Homo sapiens. Mas, como reconhecer o que é ou não é um ser
humano? Esta é uma pergunta que praticamente não nos incomoda nos tempos
atuais, em que o mundo está inteiramente aberto às viagens e às comunicações;
desse modo, acreditamos conhecer todo oamplo espectro da variedade humana. Mas
a pergunta foi um grave tormento para nossos antepassados, no início das
explorações coloniais, e, se nos dispusermos a formulá-la de novo, veremos que
não é mais fácil para nós respondê-la do que foi para eles obter uma resposta
capaz de resistir a um rigoroso escrutínio crítico. Na segunda parte do artigo,
introduzo um significado alternativo de ser humano, como condição oposta à de
animal. Essa condição é a existência humana, que se manifesta numa
aparentemente inesgotável riqueza e diversidade de formas culturais,
perfeitamente comparáveis à diversidade das formas orgânicas na natureza. Na
terceira parte, mostro que a associação popular entre essas duas noções de
humanidade, como espécie e como condição, deu origem a uma concepção peculiar
da singularidade humana. Em vez de distinguir os humanos dos outros animais,
assim como estes diferem entre si, atribuiu-se a diferença a certas qualidades
em relação às quais todos os animais são vistos como essencialmente iguais. A
fim de superar o antropocentrismo inerente a essa concepção, temos de repensar
toda a questão. Uma coisa é perguntar o que é um ser humano, outra muito
diferente é indagar o que significa o ser humano. Começo pela primeira questão.
Uma questão de ter ou não ter cauda
No ano
de 1647, um tenente da marinha sueca chamado Nicolas Köping servia a bordo de
um navio mercante holandês na baía de Bengala.
Certo dia, o navio aproximou-se de uma ilha onde seus habitantes, nus, portavam
caudas semelhantes à dos gatos e tinham um porte felino assemelhado, segundo
reportou Köping. Remando em suas canoas ao lado do navio, os nativos -
evidentemente habituados a comerciar - ameaçaram invadir o barco holandês e
tiveram de ser afastados a tiros de canhão. Mais tarde, o comandante do navio
mandou à terra uma equipe de cinco marinheiros com a missão de encontrar
provisões na ilha. Eles nunca voltaram; uma busca organizada na manhã seguinte
apenas encontrou seus ossos ao lado de uma fogueira ainda quente, além do
barco, do qual tinham sido sistematicamente arrancadas todas as cavilhas de ferro.
Posteriormente,
o relato de Köping foi retomado em um dos tratados de Lineu por um aluno seu,
Hoppius, em 1760. Os homens que tinham caudas foram classificados como uma
espécie de macaco, apropriadamente chamada de "lúcifer", e ilustrados
por um desenho (à direita) que Lineu havia coligido em outra fonte (1).
Um juiz escocês, erudito e excêntrico, de nome James Burnett, também conhecido
como Lord Monboddo, foi um dos que leram a exposição de Hoppius. No primeiro
dos seis volumes de sua obra, intitulada Of the Origin and Progress of
Language, publicada entre 1773 e 1792, Monboddo pôs-se a demonstrar as
continuidades e os contrastes entre os homens e os outros animais, além de
caracterizar a condição da espécie humana em seu estado "natural" ou
"selvagem". Fascinado pela história dos homens que tinham caudas, sua
primeira preocupação - muito correta, aliás - foi checar a veracidade do
relato. Através de uma correspondência pessoal com Lineu, Monboddo pôde
certificar-se das credenciais de Köping como informante confiável e
escrupuloso, cujas descrições da vida animal e vegetal, que observara em sua
viagem, se mostraram precisas em outros
assuntos. Não havia como pôr em dúvida, portanto, que os habitantes da ilha
realmente tivessem caudas. Mas seriam eles realmente humanos? Quanto a isso,
Monboddo novamente não tinha razões para duvidar, pois, em seu relatório,
Köping revelara que os habitantes da ilha conheciam a arte da navegação,
estavam acostumados ao comércio e faziam uso do ferro (Burnett, 1773, pp. 234-9).
A
percepção que hoje podemos ter do passado torna fácil reconhecer um componente
de fantasia na narrativa de Köping e achar que Monboddo foi muito tolo por se
deixar envolver pela história. Contudo, é possível que Monboddo tenha errado
pelas razões certas. Prevendo a incredulidade de seus leitores, Monboddo
habilmente virou o argumento contra a crença convencional:
Estou ciente,
porém, de que todos aqueles que acreditam que os homens são e sempre foram os
mesmos em todas as épocas e em todas as nações do mundo, e da maneira como os
vemos na Europa, considerarão esse relato inacreditável; de minha parte, estou
convencido de que ainda não descobrimos toda a multiplicidade da natureza, nem
ao menos em nossa própria espécie; e, no meu entender, a coisa mais
inacreditável que se poderia dizer, ainda que não houvesse fatos para
refutá-la, é que todos os homens, nas mais diversas partes da Terra, são iguais
em tamanho, aparência, formato e cor.
Não
resolve desconsiderar o testemunho sobre a existência de pessoas que têm cauda
com a observação de que "os humanos simplesmente não são assim". Se
algumas populações têm pele branca e outras, negra, se alguns são extremamente
altos, enquanto outros têm uma estatura diminuta, por que não seria possível que
uns tivessem rabo outros não? Monboddo certamente achava que não era mais
extraordinário ter um rabo do que ter a pele negra e sem dúvida não acreditava
que qualquer dessas características proporcionasse um critério válido para
lançar seus portadores para fora dos limites do gênero humano. Não devemos nos
deixar levar pelas concepções estreitas e
eurocêntricas do tipo de coisa que é um ser humano. Isso porque, continuava
Monboddo, o gênero humano não é fixo e imutável; ao contrário, ele é variável
tanto em termos históricos quanto geográficos. Essa variabilidade é o traço
distintivo da espécie animal, a bem dizer uma característica de toda a natureza
viva e, a esse respeito, o ser humano seguramente não é uma exceção (Burnett,
1773) (2).

A biologia moderna,
que sofreu uma reestruturação radical após as descobertas de Darwin publicadas
em A origem das espécies (em 1859), apóia as idéia de Monboddo: não,
talvez, no assunto dos rabos, mas certamente em sua franca e aberta rejeição da
noção de uma forma essencial de humanidade, da qual todos os seres humanos
concretos, no passado, no presente e no futuro, são encarnações mais ou menos
perfeitas. Temos de concordar com Monboddo, contra seus contemporâneos, na
afirmação de que os humanos não têm o mesmo "tamanho, aparência, formato e
cor" em todos os lugares. Mas seria certo concluirmos, então, que os
humanos surgem dentro de uma ampla variedade de padrões de tamanho, aparência, formato
e cor, mais ou menos como casacos comprados prontos numa alfaiataria - de
tamanhos grande, médio e pequeno, brancos ou negros, com rabo e sem rabo? Por
um bom tempo persistiu em nosso século a idéia
fundamentalmente equivocada, e ainda predominante em certos círculos, de que
seria possível construir uma tabela de "tipos humanos". Mas os seres
humanos individuais não são encarnações de "tipos", assim como também
não têm uma essência única, característica da espécie. Em termos biológicos, a
humanidade se apresenta como um campo contínuo de variação, composto de uma
miríade de diferenças sutilmente graduadas. Toda e qualquer divisão desse campo
é uma construção nossa, produto artificial de nosso pendor para a classificação
e os estereótipos. Os seres humanos reais não podem ser enquadrados em
categorias artificiais; é esta precisamente a razão pela qual casacos que se
compram prontos, modelados para vestir um tipo e não um freguês específico,
nunca nos caem perfeitamente bem.
Na
realidade, os indivíduos pertencentes à espécie Homo sapiens apresentam
um notável grau de variabilidade. Entretanto, o que vale para nossa espécie
também vale para todas as demais: isto é, elas não são classes de entidades
distinguíveis pela posse por parte de cada um dos seus membros de um atributo
único, ou de um feixe de atributos. Em outras palavras, as espécies biológicas
não são tipos naturais (Clark, 1988, pp. 20-1). Os grãos de sal constituem
exemplares de um tipo natural, porque cada grão tem a composição molecular e a estrutura
cristalina do cloreto de sódio. Mas as moléculas que regem a constituição das
coisas vivas são muito mais complexas, sendo a mais importante delas o ácido
desoxirribonucléico (ADN). Como sabemos, os genes, unidades básicas da
hereditariedade, são codificados na estrutura do ADN, e, embora as espécies
variem segundo a diversidade de seu material genético, em nenhuma delas se
encontra uma estrutura única que subscreva o desenvolvimento de cada indivíduo
da classe. Ao contrário, é a singularidade do indivíduo que distingue de
maneira insofismável os organismos vivos dos objetos inanimados (Medawar,
1957). Como cristais, os organismos crescem, e, assim como os cristais, eles
parecem ser dotados de uma estrutura invariante
subjacente às transformações de seu aspecto exterior. Mas, se essa estrutura é
igual em cada cristal de um elemento ou composto inorgânico, ela é diferente em
cada organismo de uma espécie. Todo cristal é uma réplica, todo organismo é uma
inovação.
Como
se pode concluir, então, a que espécie pertence um organismo particular? E, o
que é mais importante, por que razão deveríamos incluir um animal na espécie Homo
sapiens e excluir outro? O lúcifer de Lineu era um homem ou um macaco?
Perguntas dessa ordem animaram séculos de acirrada controvérsia e, embora hoje
em dia qualquer um de nós possa se declarar perfeitamente capaz de reconhecer
um ser humano quando está diante dele, ainda há uma aguerrida disputa sobre
como os princípios da taxionomia biológica devem ser aplicados. Para os fins
deste artigo, basta observar que esses princípios são basicamente genealógicos.
Os organismos não são agrupados em uma mesma classe por causa da semelhança de
sua aparência formal, exterior, mas em virtude de seus vínculos genealógicos
relativamente estreitos. De modo geral, os seres humanos realmente se parecem
uns com os outros mais do que com os símios, e por não terem cauda são mais
parecidos com os macacos do que os demais primatas. Essas semelhanças, contudo,
são indicadoras de uma proximidade genealógica, e não de uma conformidade
determinada a um tipo.
Quanto
mais estreitamente relacionados são os indivíduos, em termos de descendência,
maior é a quantidade de genes que eles provavelmente têm em comum. Às vezes,
quando uma característica visível é controlada por apenas um ou alguns genes,
minúsculas variações na estrutura genética subjacente (ou genótipo) podem
acarretar grandes conseqüências para a aparência geral do indivíduo maduro (ou
fenótipo), de modo que indivíduos estreitamente relacionados podem apresentar
aspecto muito diferente. Outras características, até mesmo as menos berrantes,
podem ser controladas por um número muito grande de genes, de modo que a mesma
quantidade de variações de genótipo seria praticamente imperceptível no fenótipo.
Não resta dúvida de que, se os humanos tivessem rabo, variando de um pequeno
toco a uma longa cauda pendente, assim como a cor varia do branco ao negro,
alguns deles pelo menos poderiam se perguntar sobre o que seria mais difícil
esconder: a cauda ou a cor. Felizmente, não temos esse problema, mas por razões
que nem Monboddo nem os críticos de seu tempo poderiam saber. A quantidade de
mudança genética necessária para tornar brancas as peles negras (ou vice-versa)
é mínima, se comparada com o montante necessário para perder ou ganhar uma
cauda. A diferença genética entre os primatas que têm cauda e os que não têm
envolve um grau de desvinculação genética que é totalmente desproporcional ao
pertencimento a uma só espécie. Portanto, não é preciso invocar uma forma
essencial de humanidade, ou noções apriorísticas de como são os seres humanos,
para descartar a possibilidade de existirem indivíduos com cauda dentro da
espécie Homo sapiens, ou mais precisamente, para que se considere
extremamente remota a probabilidade dessa ocorrência.
Os
primeiros primatas sem cauda (eliminando-se os casos de mutilação acidental)
não foram monstros promissores, mutantes grotescos pulando em meio a um bando
de parentes portadores de longas caudas, a quem a sorte contemplou com a
preservação de sua variedade nas futuras gerações. Como qualquer outra
modificação evolutiva importante, as caudas foram-se tornando gradualmente
menores, através de um processo de acumulação de diferenças mínimas, que
perdurou ao longo de muitas gerações. A natureza, de acordo com a veneranda
máxima, tão estimada por Darwin, não dá saltos ("Natura non facit
saltum ", Darwin, 1872, pp. 146, 156), e ela também não segue um curso
fixo e predeterminado. Aquele velho macaco sem cauda, cujos descendentes incluem
tanto os seres humanos quanto os chimpanzés, estava tanto a caminho de se
tornar um humano quanto de se tornar um chimpanzé. Estava sendo, nada mais nada
menos, que ele mesmo. Um macaco é um macaco, não um arremedo ou uma tentativa
parcialmente bem-sucedida de homem. Embora seja
verdade que apenas uma só via pode ligar o macaco ancestral ao ser humano.
moderno, essa via era apenas uma dentre inúmeras rotas possíveis que poderiam
ter sido igualmente tomadas. Os seres humanos não tinham de evoluir.
Na
perspectiva da evolução da vida como um todo, a linhagem humana representa
apenas um pequeno e insignificante ramo de um esplêndido e frondoso arbusto.
Cada ramo expande-se numa direção que jamais foi seguida antes e jamais será
retomada. Os chimpanzés do futuro poderão ser muito mais inteligentes do que
hoje, mas não serão humanos. Os seres humanos são animais que, pelo que me é
dado saber, poderiam vir a ser os co-ancestrais de meus futuros descendentes.
Como esses meus descendentes efetivamente se parecerão daqui a alguns milhões
de anos - isso se não explodirmos a Terra antes, conosco dentro -, ninguém tem
a menor idéia. Enquanto isso não acontece, continuamos a especular, como
Monboddo, acerca das variedades de nossa espécie em termos surpreendentemente
semelhantes. "Por volta de 1942", recorda o antropólogo Edmund Leach,
"um inglês, considerado pessoa lúcida, garantiu-me com toda a convicção
que, em um certo vale inacessível, visível do outro lado de uma fileira de
montanhas, ele havia encontrado pessoalmente homens que tinham rabos"
(Leach, 1982, p. 64).
Ser humano e condição humana do ser
De
modo geral, os filósofos têm tentado descobrir a essência da humanidade na
cabeça dos homens, em vez de procurá-la em suas caudas (ou na ausência delas).
Mas, na busca dessa essência, eles não se perguntaram sobre "o que faz dos
seres humanos animais de determinada espécie?" Ao contrário, eles
inverteram a pergunta, indagando: "O que torna os seres humanos diferentes
dos animais, como espécie?" Essa inversão altera completamente os termos
da questão. Isto porque, formulando a pergunta da segunda maneira, o gênero
humano já não aparece como uma espécie da animalidade, ou como uma pequena
província do reino animal. A pergunta faz alusão a um princípio que, infundido
na constituição do animal, eleva seus possuidores a um nível mais alto de
existência do que o do "mero animal". A palavra humanidade, em suma,
deixa de significar o somatório dos seres humanos, membros da espécie animal Homo
sapiens, e torna-se o estado ou a condição humana do ser, radicalmente
oposta à condição da animalidade (Ingold, 1988, p. 4). A relação entre o humano
e o animal deixa de ser inclusiva (uma província dentro de um reino) e passa a
ser exclusiva (um estado alternativo do ser).
Em
1749, o grande naturalista francês Conde de Buffon escreveu que não tinha
dúvida alguma a respeito do tamanho do abismo que separa o ser humano mais
primitivo do macaco, "porque o primeiro é dotado das faculdades de
pensamento e fala", enquanto o segundo não oé. Quanto ao formato físico,
porém, eles não são muito diferentes e "a julgar apenas pela aparência,
tenho de admitir que o macaco pode ser considerado como variedade da espécie
hurilana" (Buffon, 1866, vol. 2, p. 43). Tendo lido a Histoire
Naturelle de Buffon, Monboddo pensava exatamente dessa maneira. Naquela
época, os macacos antropóides eram geralmente chamados de orangotangos -
palavra de origem malaia que significa "homem da floresta selvagem",
e hoje indica uma espécie particular (Pongo pygmaeus), natural de Bornéu
e Sumatra. Monboddo estava firmemente convencido de que os orangotangos eram
humanos:
Eles têm
exatamente a forma humana; andam eretos, não de quatro como os selvagens
encontrados na Europa; fazem armas com pedaços de madeira; vivem em sociedade;
constroem cabanas com galhos de árvores; e roubam moças negras, que tornam suas
escravas tanto para o trabalho quanto para o prazer. (...) Mas, se os aspectos
acima mencionados levam a crer que eles pertencem a nossa espécie, e embora
eles tenham feito grandes progressos nas astúcias da vida, não conseguiram
desenvolver a linguagem." (Burnett, 1773, pp. 174-5).
Ao
contrário de Buffon, Monboddo acreditava que a qualidade humana do homem não se
instalara desde o início como resultado da intervenção divina, mas fora
adquirida por etapas e apenas se completou com a emergência da razão e do
intelecto, as duas bases sobre as quais se assenta essa conquista
especificamente do homem que é a faculdade da linguagem. Excetuando as ocasionais
descobertas de "homens selvagens" - os quadrúpedes selvagens
mencionados em seu relato -, os orangotangos representavam para Monboddo os
entes vivos mais próximos que pôde encontrar de uma população humana vivendo em
estado original de natureza. Por lhes faltar a linguagem e o intelecto, os
orangotangos eram seres humanos que ainda não haviam atingido a condição humana
de existir. Pertenciam a nossa espécie, mas tinham dado apenas um pequeno passo
em direção à condição de humanidade.
Os
primeiros seres humanos - dos quais Monboddo não pôde encontrar indícios, mas
cuja natureza podia ser facilmente inferida por meio de uma projeção
regressiva- teriam sido totalmente carentes de "habilidades ou
civilidade"; suas ações eram governadas pelo instinto e não pelo costume e
viviam em um estado "que não passava do puramente animal" (Burnett,
1773, pp. 218-291; ver também Bock, 1980, pp. 19-26). E claro que se poderia
dizer o mesmo da criança humana, corroborando uma analogia de grande tradição
no pensamento ocidental que compara o processo de maturação do ser humano com a
passagem da humanidade em conjunto do estado selvagem para a civilização.
"Os selvagens", conforme declarou Sir John Lubbock, em 1865,
"costumam ser equiparados às crianças, e essa comparação é não só correta
quanto altamente instrutiva (...) A vida de cada indivíduo é um resumo da
história da raça, e o desenvolvimento gradual da criança ilustra o
desenvolvimento da espécie (...) Os selvagens, como as crianças, não têm
nenhuma firmeza de propósitos" (1865, p. 570).
Como
condição oposta à da humanidade, a animalidade transmite uma noção da qualidade
de vida nó estado de natureza, onde se encontram
seres "em estado cru", cuja conduta é impelida pela paixão bruta em
vez da deliberação racional e que são totalmente livres dos constrangimentos da
moral ou da regulação dos costumes. Essa concepção da vida animal e da
"animalidade humana" está extraordinariamente difundida no pensamento
ocidental e ainda hoje dá o tom de boa parte do debate científico nos estudos
sobre o mundo animal e o comportamento humano. Um traço marcante da tradição
ocidental é a tendência a pensar em dicotomias paralelas, de modo que a
oposição entre animalidade e humanidade é posta ao lado das que se estabelecem
entre natureza e cultura, corpo e espírito, emoção e razão, instinto e arte, e
assim por diante. Esse mesmo paralelismo é encontrado na divisão acadêmica do
trabalho entre as ciências naturais - que se ocupam da composição e das
estruturas do mundo material (inclusive organismos vivos) - e as
"humanidades", que incluem o estudo da linguagem, da História e da
civilização. Além disso, está subjacente às permanentes discussões entre
cientistas integrantes de ambos os lados dessa fronteira acadêmica acerca do
significado de "natureza humana".
O
problema está no fato de que a herança do pensamento dualista invade até mesmo
nossa concepção de ser humano, ao nos fornecer o vocabulário com o qual a
expressamos. Segundo essa concepção, somos criaturas constitucionalmente
divididas, com uma parte imersa na condição física da animalidade, e a outra na
condição moral da humanidade. Em qual dessas partes, poderíamos perguntar,
reside a natureza humana? A resposta depende da maneira como definimos
"natureza", conceito dos mais polivalentes em qualquer idioma. Entre
seus diferentes significados, podemos distinguir dois (quanto a estes e outros
sentidos, ver Williams, 1976, pp. 184-9). Primeiro, a natureza de uma coisa
pode ser uma qualidade essencial que todas as coisas dessa espécie, e apenas
essas coisas, devem possuir. Sendo assim, trata-se de "um mínimo
denominador comum" da espécie, que é universal e não particular para cada
um de seus indivíduos. Segundo, natureza indica o mundo material, o macrocosmo das entidades físicas, na medida em
que se distinguem de sua representação microcósmica no plano das idéias. Neste
último sentido, o conceito de natureza classicamente se opõe ao de cultura,
sendo o primeiro uma realidade externa e o segundo uma realidade que só existe
"na cabeça das pessoas".
Voltando
a nossa pergunta inicial - a natureza humana reside em nossa animalidade ou em
nossa humanidade? -, descobrimos que cada significado de "natureza"
proporciona respostas conflitantes. Retomemos a opinião de Buffon, um bom
representante de sua época, para quem os seres humanos se diferenciam dos
macacos pela posse de faculdades do espírito, e não pelo aspecto exterior do
corpo. O aspecto essencial dos seres humanos, portanto, é sua humanidade -
aquele componente que, de acordo com a ortodoxia do dogma cristão, se deve a
uma doação preferencial do espírito divino, concedida por Deus. Por outro lado,
os seres humanos também participam do mundo material - ou da natureza na
segunda acepção - na composição dos órgãos de seu corpo, e que o criador incluiu,
ao lado dos corpos das demais espécies animais, "em um mesmo plano
geral", como disse Buffon. Por conseguinte, pode se revelar os seres
humanos como organismos biológicos em sua geração material, despojando-os de
sua humanidade essencial e deixando à mostra um resíduo inato, comum aos outros
animais. Essa é a camada de "animalidade humana" à qual Monboddo e
outros estudiosos, antes e depois dele, fizeram referência ao falar em
"estado bruto" da humanidade, que se supunha representar um
fundamento universal e original de toda a evolução cultural e social.
Apesar
das revoltas teológicas subseqüentes à teoria da evolução humana de Darwin, na
qual, naturalmente, não havia lugar para a mente ou o espírito, a não ser como
produto de um órgão material (o cérebro), os termos do debate contemporâneo
entre "cientistas" e "humanistas" sobre a natureza humana
ainda se parecem muito com os do tempo de Buffon e Monboddo. Etólogos e
sociobiólogos, partindo do paradigma da ciência natural, identificam a natureza
humana com o que existe de animal em nós, alguma coisa que costuma estar tão
encoberta pelos acréscimos da cultura que se torna mais diretamente, visível em
outras espécies. Esses cientistas assumiram a tarefa de descobrir os protótipos
das predisposições humanas universais no conjunto dos comportamentos,
principalmente dos primatas não-humanos, embora a busca de analogias
freqüentemente os conduza a outras divagações. Com efeito, boa parte do grande
interesse popular pela pesquisa etológica decorre da crença de que, por meio do
estudo do comportamento de outros animais, chegaremos a compreender coisas
importantes a nosso respeito. Isso não deixa de ser verdade, mas, se levado ao
exagero, pode fazer com que baseemos nosso entendimento da natureza humana em um
amálgama de traços característicos retirados do conjunto de comportamentos de
praticamente qualquer espécie, com exceção da nossa. A presteza com que
alguns sociobiólogos tendem a tirar conclusões definitivas sobre a condição
humana com base no estudo de insetos sociais, como as formigas e as abelhas,
nos faz lembrar a piada de Will Cuppy, em How to Tell Your Friends from the
Apes ("Como distinguir seus amigos dos macacos"), que diz que
"a psicologia do orangotango já foi completamente descrita pelos cientistas,
a partir de suas observações do ouriço-do-mar" (Cuppy, 1931, p. 38)(3).
Antropólogos
e outros cientistas de inclinação mais humanista têm se preocupado em restaurar
a "essência humana" que falta nas explicações sociobiológicas e
etológicas . Como observou Eisenberg (1972), os cientistas humanistas acentuam
"a natureza humana da natureza humana", substituindo a antiga
noção de espírito pelo que tem sido chamado de "aptidão para a
cultura". O sentido exato dessa expressão tem sido objeto de interminável
controvérsia. É suficiente observar aqui que, situando a qualidade distintiva
dos seres humanos no plano moral da cultura, em
oposição ao plano físico da natureza, terminamos por reproduzir toda a essência
da concepção de homem do século XVIII - dilacerado entre as condições de
humanidade e as de animalidade. Ao que parece, apenas quando estão
"existindo de modo humano", os seres humanos se revelam tal qual de
fato são.
Entretanto,
não há apenas uma maneira humana de ser. A "aptidão para a cultura",
sejam quais forem os demais sentidos da expressão, é uma capacidade de gerar
diferença. Nesse processo criativo, que se realiza no curso ordinário da vida
social, e através dele, é que a essência da condição de humanidade se revela
como diversidade cultural. Para qualquer indivíduo apanhado no curso desse
processo, "tornar-se humano" significa tornar-se diferente dos demais
seres humanos que falam idiomas ou dialetos diferentes, praticam ofícios
diferentes, têm crenças diferentes, e assim por diante. Se é nessa
diferenciação de si mesmos dos demais seres que os humanos são distinguidos
essencialmente dos animais, conclui-se então que a animalidade humana se revela
na ausência dessa diferenciação, na uniformidade. Todos nós chegamos a este
mundo como criaturas nascidas de um homem e uma mulher, um organismo
biologicamente humano cuja constituição física é totalmente indiferente à
instrução que receberemos mais tarde a respeito dos códigos de conduta de uma
cultura ou outra. No que diz respeito a minha existência como membro da espécie
humana, o fato de eu ser inglês, e não francês ou japonês, não é fundamental.
Mas, do ponto de vista da expressão de minha humanidade, esse fato é vital:
torna-me alguém, em vez de uma coisa. Ou seja, em um sentido mais geral, a cultura
sublinha a identidade do ser humano não como organismo biológico, mas como
sujeito moral. Quanto a esta última faculdade, consideramos todo homem ou
mulher como pessoa. Minha condição de pessoa é, portanto, inseparável do
pertencimento a uma cultura e ambos são ingredientes cruciais de minha
existência humana.
Temos
agora condições de solucionar um paradoxo
situado no cerne do pensamento ocidental, que afirma, com igual segurança,
tanto que os seres humanos são animais quanto que a animalidade é o exato
oposto da humanidade. Um ser humano é um indivíduo pertencente a uma espécie;
existir como ser humano é existir como pessoa. No primeiro sentido, o conceito
de humanidade refere-se a uma categoria biológica (Honro sapiens); no
segundo, aponta para uma condição moral (de pessoa). O fato de que empregamos a
mesma palavra "humano" para ambos os sentidos reflete a convicção
profundamente arraigada de que todos os indivíduos pertencentes à espécie
humana - e exclusivamente estes - podem ser pessoas, ou, dito de outra forma,
que a condição de pessoa depende do pertencimento à categoria taxionômica. Como
postula o Artigo Primeiro da Declaração Universal dos Direitos do Homem: "Todos
os seres humanos são dotados de razão e consciência." Fica implícito, portanto,
que os animais não-humanos não o são (Clark, 1988, p. 23).
Aceitando
esse princípio como artigo de fé, torna-se, então, impossível formular
determinadas perguntas, pelo menos sem ferir os princípios da classificação
genealógica geralmente adotada na definição das espécies biológicas. Não se
pode perguntar, portanto, como faz Monboddo, como a razão e a fala foram
adquiridas no decorrer da história das populações humanas, ou como essas
faculdades podem ser encontradas de modo deficiente, ou não existirem, em
determinados indivíduos de ascendência humana. Da mesma maneira, não se pode
indagar se, ou até que ponto, animais de outras espécies poderiam ser dotados
das faculdades da linguagem e do pensamento. No entanto, essas questões são
legítimas, não podem ser respondidas de antemão, mas supõem uma investigação
empírica. É perfeitamente razoável indagar, por exemplo, se os chimpanzés ou os
golfinhos têm linguagem, ou se tomam deliberações racionais. Pode ser que se
descubra que eles não o fazem, a não serem condições muito artificiais, e que
essas aptidões realmente são exclusivas dos animais biologicamente humanos. Mas
quem poderia afirmar que tais aptidões não venham a
se desenvolver, em épocas futuras, entre espécies descendentes dos golfinhos ou
dos chimpanzés de hoje? Se isso viesse a ocorrer, aí teríamos razões para
considerar esses animais que falam e pensam como pessoas. Mas eles não poderiam
ser encarados como membros da espécie humana, pois não teriam procedência
humana.
A
adesão estrita à tese de que apenas os seres humanos podem ser pessoas nos
deixaria, portanto, na absurda situação de ter de negar a possibilidade de uma
evolução da qual nada sabemos hoje. Ao discutir a humanidade do orangotango,
Monboddo, mais uma vez, estava errado pelas razões certas: errava porque os
macacos antropóides não pertencem à espécie humana; estava certo porque, embora
lhe faltasse vocabulário para expressar sua opinião de modo inequívoco, ele
reconhecia que a classificação na categoria taxionômica conhecida como Homo
sapiens não confere automaticamente qualidades de pessoa. Essa conclusão
aponta imediatamente para um campo de investigação potencialmente inesgotável
sobre a condição de pessoa dos animais não-humanos ou, se preferirmos, sobre a
humanidade animal, em vez da animalidade humana. Ela sugere que a fronteira
entre a espécie humana e as demais espécies do mundo animal não é paralela, mas
que, na verdade, ela cruza as fronteiras entre humanidade e animalidade como
estados do ser. Por isso mesmo, não se pode pretender que as abordagens do
campo das humanidades sejam as únicas apropriadas à compreensão das questões
referentes aos seres humanos, e que as vidas e os universos dos animais
não-humanos sejam totalmente esgotados pelo paradigma da ciência natural
(Ingold, 1989, p. 496).
Uma
conseqüência dessa pressuposição é que, enquanto as ações humanas são
geralmente interpretadas como produtos de desígnio intencional, as ações dos
outros animais - mesmo que ostensivamente semelhantes por sua natureza e conseqüências
- costumam ser explicadas como resultado automático de um programa
comportamental instalado (Ingold, 1988, p. 6). Certamente, quando se trata dos
poucos animais com os quais mantemos relações estreitas e duradouras, tais como
gatos e cães domésticos, logo descobrimos exceções, e lhes atribuímos intenções
e propósitos, da mesma maneira que fazemos com os seres humanos. Em muitas
culturas não-ocidentais, onde o envolvimento prático com outras espécies é
muito maior do que o nosso, as exceções que costumamos fazer podem ser
exatamente a regra. Entre os ojibwa, caçadores naturais do Canadá subártico,
por exemplo, a condição de pessoa é tida como uma essência interna que engloba
poderes de percepção e sensibilidade, volição, memória e fala, indiferente à
forma particular que a espécie assume exteriormente. A forma humana não passa
de um dos muitos disfarces por meio dos quais as pessoas se manifestam
materialmente e qualquer um pode trocar sua forma pela de um animal, mais ou
menos como quiser. Quando alguém encontra um animal, especialmente se ele
exibir um comportamento fora do comum, fica imaginando quem ele é, porque pode
ser uma pessoa conhecida. Assim, para os ojibwa, não existe nada de
excepcionalmente "humano" em ser uma pessoa (Hallowell, 1960).
Meu
objetivo ao apresentar esse exemplo é sublinhar que nossa definição
convencional, de pessoa como uma prerrogativa dos seres humanos, é tão
dependente da visão de mundo ocidental quanto a noção contrária, dos ojibwa, o
é de sua cultura. Não há razão alguma para atribuir uma validade absoluta à
primeira e não à segunda. O filósofo alemão Emanuel Kant, em 1790, resumiu da
seguinte maneira a ortodoxia ocidental: "Como único ser dotado de
discernimento na face da Terra, [o homem] certamente é o senhor da natureza e
(...) nasceu para ser seu fim último" (vol. II, p. 431). Essa concepção
imperialista do "lugar do homem na natureza", com sua negação
dogmática de formas não-humanas de discernimento - sem qualquer demonstração
empírica - fez um grande mal em sua época. Do ponto de vista pragmático, a
crença dos ojibwa em um progresso harmonioso das relações de mútua
interdependência entre animais e humanos contém uma profunda sabedoria ecológica e é muito louvável do ponto de
vista da sobrevivência de nossa espécie, a longo prazo. De uma perspectiva
científica, a pesquisa sobre a verdadeira natureza das semelhanças e diferenças
entre nós e os outros animais permanece incipiente e não deveria ser cerceada
por supostos apriorísticos acerca da preeminência dos humanos. Esse tipo de
pesquisa, que os antropólogos tendem a considerar de certa maneira marginal a
seus temas de maior interesse, tem, na realidade, uma importância crucial, pois
atinge o cerne da concepção dominante sobre a singularidade humana. Tratamos
desse tema a seguir.
A questão da singularidade humana
Do
ponto de vista biológico, a espécie humana é tão singular quanto todas as
demais espécies existentes na face da Terra (Foley, 1987, p. 274). Essa
singularidade, como afirmamos acima, não consiste de um ou mais atributos
essenciais compartilhados por todos os membros da espécie e que nenhum
indivíduo de qualquer outra espécie possui. Ao contrário, essa singularidade se
encontra na composição atual do fundo comum de traços genéticos do qual todo
indivíduo da espécie, em virtude de descendência, representa uma combinação
particular. O pool genético de diferentes espécies pode sobrepor-se bastante,
principalmente quando há proximidade filogenética - descobriu-se, por exemplo,
que seres humanos e chimpanzés são cerca de 90% iguais -, mas nunca existe uma
congruência exata. Além disso, a composição do pool genético da espécie muda
com o tempo, o que significa dizer que passa por uma evolução. Esses fatos já
são tidos como indiscutíveis no que se refere a espécies diferentes da nossa,
mas quando se trata dos humanos há grande resistência em aceitá-los. Como
observa um eminente filósofo da biologia, quase sem esconder sua irritação:
"O desejo de encontrar alguma característica genética exclusiva de todos
os seres humanos, e inexistente nos seres não-humanos, é irresistível. Mas,
qualquer que seja o traço escolhido, ou algumas pessoas não o exibem ou então
membros de outras espécies o possuem." (Hull, 1984, p. 35). Por que,
então, prosseguir na busca? De onde provém a compulsão para descobrir esse
atributo singular?
Passemos
em revista alguns dos atributos propostos como candidatos à exclusividade dos
seres humanos. Todo cientista tem uma palavra ou expressão favorita com a qual
preenche a lacuna na frase "o homem se define como um animal _________”, garantindo que essa palavra fornece a
única chave para o entendimento da essência humana. Mas, se fizermos uma lista
dessas palavras-chave, logo veremos que ela se torna muito comprida. Sem dúvida
"o uso da linguagem" e "racional" encabeçam a lista.
Dotados de linguagem, os seres humanos descrevem, especulam, argumentam, fazem
piadas e se enganam. Eles podem mentir, conjurar coisas e eventos que jamais
existiram e, dessa maneira, se mostram particularmente inquietos com as
questões da verdade e da mentira. Ao raciocinar sobre o mundo e seus atos nesse
inundo, os seres humanos também cometem erros; diz-se que o homem é um animal
que erra. Além disso, ele tem consciência de si e se constrange com a opinião
alheia, o que o torna também cônscio da passagem do tempo e da transitoriedade
de sua própria vida. Procura, então, adaptar-se aos fatos do nascimento, do
envelhecimento e da morte dentro de uma ordem atemporal: o homem é um animal
religioso. Ele é também um formulador de projetos e impõe esquemas simbólicos
por ele mesmo elaborados ao mundo dos objetos inanimados para a fabricação de
ferramentas e artefatos, aos animais e às plantas para a produção (em vez de
coleta) de alimentos e aos demais seres humanos para a construção de regras e
instituições da vida social.
Tudo
isso pode ser realizado por seres de ambos os sexos e, embora seja
convencionalmente aceito que a palavra "homem" inclui os integrantes
masculinos e femininos da espécie humana, ao contrário do que acontece com
outros animais, um preconceito estrutural da língua
inglesa - entre outras - revela uma perniciosa tendência a atribuir aos machos
todas as qualidades que pretensamente nos tornam humanos e a caracterizar a
condição feminina seja pela ausência, seja pelo desenvolvimento relativamente
mais fraco de tais atributos. Essa tendência se torna patente no mito de origem
do "homem caçador", segundo o qual se atribui a uma atividade
exclusivamente masculina - a busca de carne de caça - o estímulo seletivo para
a emergência simultânea da fabricação de ferramentas, da linguagem e da
inteligência racional, colocando-se, portanto, os machos na vanguarda da
evolução humana (por exemplo, Laughlin, 1968). Não é minha intenção prosseguir
na discussão desse tema aqui, mas apenas mencioná-lo a fim de alertar o leitor
para as repercussões de uma antiga tese que afirma a superioridade dos homens
sobre as mulheres como um reflexo natural da superioridade da condição humana
sobre a animalidade.
Um
tema que me interessa mais de perto é a objeção comumente levantada contra as
tentativas de instaurar um Rubicão separando os humanos das demais espécies do
reino animal, e que se baseia na afirmação de que as diferenças entre os seres
são mais de grau do que de espécie. Os defensores dessa opinião, chamados de
gradualistas, alegam que, embora a linguagem humana possa ser extremamente
versátil, ela não difere fundamentalmente dos sistemas de comunicação usados
por outros animais; sendo assim, é perfeitamente legítimo fazer referência à
"linguagens dos animais". Na mesma linha de raciocínio, embora
concordando em que os seres humanos têm uma inteligência superior, os
gradualistas alertam contra a subestimação da inteligência dos outros animais -
que, por sinal, tendem muito menos a come ter erros do que nós. Embora
reconhecendo o alcance e a complexidade sem paralelos dos desígnios humanos, os
gradualistas observam que as habilidades construtivas de animais não-humanos
não podem ser negligenciadas. Insistir, contra todas as evidências, na existência
de linguagem, inteligência e engenhosidade nos animais, afirmar que os seres
humanos continuam sendo diferentes em espécie, dizem os gradualistas, é adotar
uma atitude antropocêntrica insensata, que não deveria ter cabimento na
pesquisa científica racional (Griffin, 1976).
A
acusação de antropocentrismo merece um exame cuidadoso. Nada há de
antropocêntrico na afirmação da singularidade da espécie humana, pois, como já
mencionei, toda espécie biológica é singular a seu modo. Mas será que a combinação
dos vários atributos essenciais da condição humana que citei acima - linguagem,
razão, autoconsciência e imaginação simbólica - nos permite descrever uma única
espécie capaz de satisfazer os cânones da história natural? Certamente não.
Pois aqueles atributos não oferecem informação alguma sobre os tipos de
idiossincrasias morfológicas ou comportamentais que permitem aos naturalistas
reconhecer indivíduos como pertencentes a uma ou outra espécie. A razão, por
exemplo, não pode ser considerada um "traço distintivo" em igualdade
de condições com o bipedalismo, o polegar oposto, a receptividade sexual
durante o ano todo e a ausência de cauda. A bem dizer, a busca de atributos
definidores da humanidade não tem sido motivada pelo interesse em descrever o
que os seres humanos são, da mesma maneira como definimos, por exemplo, os
elefantes ou os castores. Na realidade, essa busca decorre do desejo de definir
o que se costuma chamar de condição humana. O bipedalismo, o polegar oposto e
outros atributos são propriedades típicas exibidas pela grande maioria dos
seres humanos, do mesmo modo que os elefantes têm trombas e os castores cavam
diques. Razão e consciência, ao contrário, são qualidades essenciais à
existência humana. A primeira baseia-se em dados da observação empírica, a
segunda decorre inteiramente de um processo introspectivo.
O
antropocentrismo contestado pelos gradualistas é aquele que considera a
"condição humana" como um estado de existência do tipo tudo-ou-nada,
somente aberto aos membros da espécie humana e, por conseguinte, negado a todos
os demais animais. Um antecedente dessa interpretação encontra-se na taxionomia
de Lineu, estabelecida em Systema Naturae, de
1735, na qual o gênero Homo é situado dentro de uma classificação dos
animais que se baseia em aspectos visíveis, como número de dedos das mãos e dos
pés, mas especificada pela exigência de "Nosce te ipsum" "conheça
por si mesmo" (Bendyshe, 1865, p. 422). Volte sua atenção para dentro de
si, de sua alma, e não para fora, para a natureza, diz Lineu, aí você
encontrará a essência dos seres humanos. Isso significa pensar a singularidade
humana de uma forma nitidamente distinta da singularidade de outras espécies. E
afirmar que os seres humanos não são diferentes dos elefantes da mesma maneira que
os elefantes são diferentes dos castores, pois, enquanto a segunda diferença se
produz no contexto da animalidade, a grande importância da primeira está em
também colocar os humanos muito além da animalidade, de modo que a distinção
entre elefantes (ou castores) e os seres humanos aparece apenas como uma
instância particular da distinção geral entre animalidade e humanidade.
Podemos
agora entender por que, no mundo ocidental, pessoas inteligentes continuam
recorrendo à existência de atributos essenciais da humanidade a fim de
determinar a singularidade do Homo sapiens. A razão disso é a associação
popular entre as noções de espécie humana e condição humana, a que nos
referimos antes, e que, por seu turno, resulta de uma fusão ideológica do
conceito de indivíduo biológico com o de sujeito moral, ou pessoa. Na medida em
que os dois conceitos forem devidamente diferenciados, a espécie humana poderá
ser definida em termos genealógicos, como qualquer outra espécie, sem
necessidade de apelar para qualidades essenciais. A condição humana, por outro
lado, pode ser descrita segundo essas qualidades, sem pré julgar a extensão em
que seres humanos biológicos ou outros animais de fato dela participam. O
grande interesse dos gradualistas está em avaliar essa extensão, afirmando que
os seres humanos diferem dos outros animais em grau, e não em espécie. Em vez
de conceberem a humanidade como um estado de tudo-ou-nada, eles a vêem como uma
escala contínua que mede o desempenho real de
populações animais e humanas. Não se trata de ter ou não ter linguagem, razão,
consciência: de acordo com os gradualistas, os animais podem ser mais ou menos
dotados dessas aptidões ou qualidades.
Os
chimpanzés geralmente alcançam uma posição muito próxima dos seres humanos
nessa escala. Uma quantidade extraordinária de esforço já foi investida em
afagar os chimpanzés para convencê-los a dar provas de aptidão para discernir a
solução de problemas, de possuírem um esboço de consciência e uma rudimentar competência
no uso da linguagem. Os animais, até certo ponto, têm correspondido às
expectativas, o que é suficiente para causar enorme surpresa e eventualmente
consternação entre os observadores humanos e, ao mesmo tempo, induzir a uma boa
dose de ceticismo quanto à validade dos resultados experimentais. Mas até o
mais pródigo dos chimpanzés não chega aos pés dos humanos adultos. Em
comparação conosco, não surpreende que os chimpanzés não se saiam muito bem
como humanos, mas a semelhança é tão grande que tendemos a encará-los da mesma
maneira que Monboddo viu os orangotangos: como seres humanos incompletos, e não
como macacos completos. Vemos uma criança humana em cada chimpanzé maduro e por
isso o tratamos como se
fosse um caso de desenvolvimento interrompido.
Muitos
antropólogos desconfiam, com razão, dessa avaliação (Tapper, 1988, pp. 579). Em
primeiro lugar, observam que há não muito tempo os seres humanos
"primitivos" eram vistos da mesma maneira, como seres cujo aspecto de
humanidade ainda estava pouco desenvolvido: linguagem relativamente pobre,
inteligência pré-racional e capacidade de autodomínio muito limitada. Em
segundo lugar, esses antropólogos assinalam que aqueles de "nós" que comparam os outros animais
"conosco" não representam o conjunto da humanidade, mas sim um
pequeno e historicamente atípico segmento da sociedade, isto é, a classe média
urbana do que denominamos "sociedade ocidental moderna". Desde a
época em que Thomas Huxley (1894) popularizou a noção de superioridade do europeu
moderno sobre o selvagem como equivalente à superioridade deste sobre o macaco,
supondo-se, portanto, inexistente uma descontinuidade na passagem do animal
para o homem, a tese gradualista tem se revelado carregada de um forte desvio
etnocêntrico, em outras palavras, eivada do pressuposto de que os únicos
padrões verdadeiros e universalmente aplicáveis são aqueles adequados a nossa
própria sociedade. Em algum ponto remoto da escala de gradações que culminou no
"homem civilizado moderno" - superiormente inteligente,
cientificamente esclarecido, conscientemente liberado e, obviamente, macho - se
supunha que os melhores macacos disputavam com os povos mais primitivos uma
posição de precedência. Ainda hoje, em nossos sonhos de encontrar vida
inteligente em outros planetas, supõe-se que os padrões de progresso dos
extraterrestres sejam iguais aos nossos, mesmo que eles tenham nos superado, a
ponto de nos fazer parecer primitivos em comparação com eles.
Etnocentrismo e antropocentrismo do
ponto de vista das diferenças animal-homem. O diagrama 4a esquerda
ilustra a tese gradualista: uma única escala de progresso absoluto leva dos
macacos aos homens "primitivos" e destes à civilização moderna. O da
direita mostra a tese oposta, do relativismo cultural: formas culturais
diversas, nenhuma das quais pode ser considerada mais avançada do que a outra,
são superpostas a um substrato universal de animalidade.
Atentos
às evidências da diversidade cultural, os antropólogos insistem em que há
tantos padrões de humanidade quanto diferentes maneiras humanas de existir e
que não há fundamento algum - senão o puro preconceito - para atribuir
autoridade universal a qualquer conjunto de padrões. Contudo, os antropólogos
sustentam que essa mesma diversidade é manifestação de uma essência humana, a
aptidão para a cultura, que separa radicalmente os homens dos animais. O
relativismo cultural dos antropólogos, sua concepção de que só é possível compreender
a conduta de qualquer grupo de seres humanos relacionando-a aos padrões
próprios da cultura específica a que pertence esse grupo, parece basear-se
exatamente no mesmo tipo de concepção antropocêntrica da singularidade humana
contestada pelos gradualistas.
A
gravidade do dilema implícito nesse raciocínio está em que parece ser
impossível derrotar o etnocentrismo sem cair no antropocentrismo e vice-versa.
Reivindicando a existência de diferenças de grau, o gradualismo não pode deixar
de postular uma escala universal de progresso, em relação à qual os homens e os
outros animais são situados em posições de "mais" ou
"menos". Se, no entanto, recusamos essa escala por conta do
etnocentrismo implícito em seu critério de progresso, ficamos com uma concepção
antropocêntrica da humanidade como uma condição de tudo-ou-nada, que não admite
nenhuma variação de grau, mas é irrestritamente variável em seus modos de
expressão. Esse dilema, esquematizado no Gráfico (página anterior), encontra-se na base de boa parte do
debate atual entre os biólogos evolucionistas, que dão ênfase à continuidade
entre os humanos e outros animais e relutam em aceitar diferenças de espécie, e
os antropólogos, que permanecem apegados a uma visão dualista da humanidade: em
parte natureza, em parte cultura.
Acredito
que nosso problema principal seja resolver esse dilema, reconciliar a
continuidade do processo evolutivo com a consciência de vivermos uma vida que
se coloca além do "meramente animal". Isso não pode ser realizado
pela redução do estudo da humanidade seja a uma pesquisa da natureza e evolução
da espécie Homo sapiens, seja a uma investigação da condição
humana conforme manifestada na cultura e na História. Nossa meta deveria ser
transcender a oposição entre essas concepções que têm se mantido
tradicionalmente como territórios exclusivos da ciência natural e das
humanidades. Em outras palavras, precisamos estudar a relação entre a espécie e
a condição, entre seres humanos e ser humano. Neste artigo demonstrei não só
que essa relação não é simples, quanto que temos sido impedidos de formular as
questões relevantes devido ao pressuposto de que as duas noções de humanidade
são essencialmente equivalentes, que a condição define a espécie. Para
pesquisar uma relação deve-se começar distinguindo os termos que ela vincula.
Nossa ciência da humanidade deve, por conseguinte, ser reformulada com mais
precisão, como uma ciência da relação entre duas humanidades, entre uma espécie
biológica peculiar e suas condições sociais e culturais de existência.
Tradução de Vera Pereira
NOTAS
*"Humanity and Animality", in
Tim Ingold (ed.), Companion Encyclopedia of Anthropology, Londres,
Routledge, 1994, pp. 14-32.
1. Os trechos pertinentes do livro de Hoppius,Anthropomorpha,
estão reproduzidos em tradução para o inglês em Bendyshe ( I 865, pp.
448-58).
2. Uma excelente
exposição das idéias de Monboddo, comparativamente a seus contemporâneos,
encontra-se em Reynolds (1981, pp. 38-42).
3.
Agradeço à saudosa Nancy Tanner por ter despertado minha atenção para esse
livro maravilhoso.
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