Um dos
meus pesadelos - e, imagino, da maioria dos autores - é ver que a idéia escrita
toma asas, voa sozinha e se transforma naquilo que o leitor quiser fazer dela.
No caso das ONGs indigenistas, o comentador atribui-lhes uma realidade que me é
estranha. Pois eu não falava nem de ONGs em geral, nem em ONGs enquanto ação
sociopolítica, parte do cerne daquele real que nunca pode ser generalizável,
porque ao se ver uma não se vê todas. O que quero alcançar com o índio
hiper-real (admitidamente levado à fronteira do absurdo para melhor realçar os
pontos em discussão) é uma reflexão antropológica sobre um tipo específico de
fenômeno contemporâneo, o indigenismo privado, em suas características
estruturais e em seu processo sociológico, em um registro bem diverso daquele
que é esmiuçar origens, anseios e ambições de ONGs concretas. Interessa-me
detectar as tendências de um fenômeno, provavelmente inconscientes para
quem as vive, e não tirar um retrato supostamente fidedigno da corporealidade
de sujeitos coletivos.
O mais, aproveito
este espaço de réplica para deixar mais claro que o "índio
hiper-real" não declara morte às ONGs
indigenistas. Estou convencida de que, se elas existissem nos séculos XVI e
XVII, os povos Tupinambá do litoral ainda estariam vivos. Porém, não permito
que meu respeito e admiração pelo trabalho das ONGs (até hoje sou, talvez por
inércia, membro de uma, dedicada aos Yanomami) se transformem em filtros que me
impeçam de exercer o senso crítico. E por saber importante a contribuição das
ONGs que me dou o trabalho de pensar sobre elas. De fato, é tão importante que
seria uma lástima vê-las confundir-se com aquilo a que vieram a se contrapor.
O que
pretendo no artigo é incitar os participantes das ONGs indigenistas à
auto-reflexão sobre aquilo que reputo ser a razão de sua existência, ou seja, a
razão dos próprios índios, seja esta coincidente ou não com o ideário romântico
da pureza primeva. Que se faça o trabalho necessário de promover a justiça
social e étnica, mas que se cultive também uma permanente crítica sobre as
práticas assistenciais e uma constante vigilância sobre os princípios dos quais
nasceram as ONGs e que as distinguem tanto da incúria do Estado quanto da
rapacidade empresarial.