RÉPLICA AO COMENTÁRIO

As ONGs: dos bastidores ao centro do palco


Alcida Rita Ramos

 

 

Um dos meus pesadelos - e, imagino, da maioria dos autores - é ver que a idéia escrita toma asas, voa sozinha e se transforma naquilo que o leitor quiser fazer dela. No caso das ONGs indigenistas, o comentador atribui-lhes uma realidade que me é estranha. Pois eu não falava nem de ONGs em geral, nem em ONGs enquanto ação sociopolítica, parte do cerne daquele real que nunca pode ser generalizável, porque ao se ver uma não se vê todas. O que quero alcançar com o índio hiper-real (admitidamente levado à fronteira do absurdo para melhor realçar os pontos em discussão) é uma reflexão antropológica sobre um tipo específico de fenômeno contemporâneo, o indigenismo privado, em suas características estruturais e em seu processo sociológico, em um registro bem diverso daquele que é esmiuçar origens, anseios e ambições de ONGs concretas. Interessa-me detectar as tendências de um fenômeno, provavelmente inconscientes para quem as vive, e não tirar um retrato supostamente fidedigno da corporealidade de sujeitos coletivos.

 

O mais, aproveito este espaço de réplica para deixar mais claro que o "índio hiper-real" não declara morte às ONGs indigenistas. Estou convencida de que, se elas existissem nos séculos XVI e XVII, os povos Tupinambá do litoral ainda estariam vivos. Porém, não permito que meu respeito e admiração pelo trabalho das ONGs (até hoje sou, talvez por inércia, membro de uma, dedicada aos Yanomami) se transformem em filtros que me impeçam de exercer o senso crítico. E por saber importante a contribuição das ONGs que me dou o trabalho de pensar sobre elas. De fato, é tão importante que seria uma lástima vê-las confundir-se com aquilo a que vieram a se contrapor.

 

O que pretendo no artigo é incitar os participantes das ONGs indigenistas à auto-reflexão sobre aquilo que reputo ser a razão de sua existência, ou seja, a razão dos próprios índios, seja esta coincidente ou não com o ideário romântico da pureza primeva. Que se faça o trabalho necessário de promover a justiça social e étnica, mas que se cultive também uma permanente crítica sobre as práticas assistenciais e uma constante vigilância sobre os princípios dos quais nasceram as ONGs e que as distinguem tanto da incúria do Estado quanto da rapacidade empresarial.