AS ONGs: DOS BASTIDORES AO CENTRO DO PALCO

Comentário aos dois artigos anteriores

 

Paulo Sergio Muçouçah

 

Imagino que, após a leitura dos textos de Alcida Rita Ramos e de Rubem César Fernandes, os leitores pouco familiarizados com o assunto devem ter se perguntado se os autores estariam se referindo realmente a um mesmo assunto ao utilizar a sigla ONG, tal a disparidade das concepções que eles apresentam. De fato, as visões acerca das ONGs que emergem dos dois textos chegam a ser até antagônicas em muitos aspectos. É o caso, por exemplo, das relações que tais entidades estabelecem com os grupos sociais considerados alvos prioritários de seu trabalho.

 

Ramos, de um lado, critica severamente o afastamento das ONGs indigenistas brasileiras daqueles que ela considera como os índios de "carne e osso", o que, a seu ver, implicaria uma completa perda do sentido de sua existência. Essas organizações aparecem, assim, como meros instrumentos a serviço de um ator social fundamental - no caso, os povos indígenas. Fernandes, por sua vez, insiste no caráter essencialmente autônomo das ONGs em geral, que não fariam parte de qualquer estrutura, nem seriam representativas de um corpo social mais amplo. Na medida em que essas entidades se propõem a falar somente em nome de si mesmas, seu valor derivaria do que elas fazem, e não de quem representam.

 

À primeira vista, parece impossível o estabelecimento de um diálogo entre visões tão opostas. Entretanto, podemos identificar nessa controvérsia alguns vestígios de uma velha discussão ainda presente no mundo das ONGs brasileiras. Para melhor situá-la, há que se ter em mente que grande parte dessas ONGs surgiu durante o regime militar, quando o número de atores sociais que conseguiam ter acesso ao espaço público era bem mais reduzido. Tivemos, então, a emergência de grandes movimentos sociais que, embora cada um se apoiasse fundamentalmente em determinado segmento da sociedade, acabavam todos aglutinando em torno de si indivíduos e organizações oriundos de outros setores.


Este foi o caso dos intelectuais, que aderiam a esses movimentos sobretudo em função dos valores éticos e políticos que eles expressavam, e não por uma solidariedade abstrata aos grupos sociais que os desencadeavam. Foram exatamente esses intelectuais que vieram a dar origem a muitas das ONGs que hoje atuam nas diferentes esferas da sociedade. Nessa época, o trabalho da maioria dessas ONGs se restringia a prestar algum tipo de assessoria a determinados movimentos sociais (1). Como bem lembra Ramos, elas eram muito mais coladas a esses movimentos, na medida em que eles acabavam se constituindo quase sempre em seus únicos canais - ainda que indiretos - de expressão pública.

 

Isso jamais significou, porém, que elas fossem obrigadas a aceitar de forma acrítica e incondicional todo e qualquer comportamento de indivíduos ou grupos, pelo simples fato de terem a mesma origem social das bases desses movimentos, por mais representativos que eles fossem. É o que Ramos parece pretender ao reprovar a postura assumida pela ONG indigenista no episódio relatado em seu artigo. Mesmo sendo de "carne e osso", o grupo indígena que protagonizou esse episódio violou concretamente os valores e as orientações dominantes no próprio movimento indigenista que, pelo que me consta, também não é conduzido por índios "hiper-reais". Negar à ONG em questão o simples direito de escolher a quais índios se aliar seria exigir que ela renunciasse não apenas aos valores do movimento que ela apóia, como inclusive a sua própria subjetividade. Trata-se, aliás, de uma atitude muito pouco coerente com o respeito à alteridade concreta que, para Ramos, constitui um dos princípios da antropologia.

 

De qualquer maneira, temos que reconhecer que, à medida que avançava a democratização do país, muitas das ONGs criadas nas décadas de 60 e 70 com o objetivo de assessorar os movimentos sociais foram se distanciando deles e assumindo cada vez mais uma identidade própria no cenário público (2). Não creio, porém, que isso possa ser atribuído fundamentalmente a um processo de burocratização dessas entidades, conforme sugere Ramos. Isso se deveu, em primeiro lugar, à própria ampliação e diversificação da esfera pública, que acabou permitindo a emergência de maior pluralidade de atores sociais. As ONGs podiam agora comunicar-se mais diretamente com a opinião pública e inclusive desencadear seus próprios movimentos, como ocorreu, por exemplo, com o movimento ambientalista - que se apóia sobretudo nesse tipo de organização - e, mais recentemente, com a Ação da Cidadania Contra a Fome.

 

Por outro lado, a democratização trouxe consigo a ruptura de uma série de consensos aparentes e de alianças táticas construídas durante o regime militar. A maioria dos grandes atores coletivos forjados nesse período (frentes partidárias, movimentos de massa, articulações de entidades etc.) não conseguiu sobreviver ao desafio de abandonar a atitude de mera resistência que os caracterizava para passar a formular propostas concretas de políticas públicas sobre diversos assuntos. O próprio afastamento que, segundo Ramos, teria ocorrido entre os antropólogos e as ONGs indigenistas, talvez seja um exemplo disso.

 

Nessa nova conjuntura, tornaram-se particularmente evidentes as diferenças estruturais entre os movimentos sociais e as ONGs. Enquanto muitos desses movimentos não conseguiam transcender os interesses específicos dos setores sociais que os apoiavam, as ONGs, por sua própria constituição, dispunham de maior liberdade para agir segundo sua própria noção de interesse público. Isso, por si só, acabou gerando uma série de conflitos entre movimentos e ONGs que haviam estado estreitamente vinculados no passado, bem como uma infindável polêmica no seio destas últimas acerca do tipo de relacionamento que deveriam estabelecer com os primeiros.

 

O processo de emancipação das ONGs no Brasil se intensificou sobretudo na década de 90, mais especificamente a partir da Eco-92. O Fórum Global, conjunto de eventos promovidos pelas ONGs de todo o mundo no Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, durante a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, acabou dando a nossas ONGs uma visibilidade que elas jamais haviam tido. Mais do que isso, elas puderam se afirmar junto à opinião pública enquanto interlocutoras para a discussão de uma série de assuntos. Finalmente, elas abandonaram o confinamento a que estavam submetidas nos bastidores dos movimentos sociais, para virem a ocupar o centro do palco na esfera pública.

 

A conquista de canais de expressão direta não impede, porém, que muitas dessas organizações continuem se dedicando ainda hoje à assessoria de diversos movimentos sociais. Este não é, de resto, um fenômeno exclusivamente brasileiro. Na literatura internacional sobre as ONGs há constantes referências às "GRSOs" (Grassroots Support Organizations), que constituem um dos tipos em que são normalmente classificadas essas organizações (3). Apesar de voltarem inteiramente seu trabalho para determinados atores sociais, essas ONGs se recusam a desempenhar o papel de meros instrumentos a seu serviço, preferindo estabelecer com eles uma relação de parceria e de cooperação.

 

Diante de tudo isso creio que, a despeito de seu caráter extremamente genérico, a descrição que Fernandes faz das ONGs se aproxima muito mais de seu verdadeiro ethos. Estou também plenamente de acordo com sua afirmação de que, pelas próprias características dessas organizações, elas podem vir a desempenhar um papel fundamental na construção de uma cidadania planetária. Entretanto, o estatuto sui generis que elas reivindicam para si tende a se chocar frontalmente com a matriz patriarcal, hierárquica e corporativa da cultura política brasileira. Sem dúvida alguma, causa ainda enorme estranheza entre nós o fato de algumas entidades oriundas da sociedade civil, compostas por indivíduos pouco conhecidos e que não falam senão em nome de seus próprios membros, se apresentarem no cenário público para defender propostas de interesse geral ou afirmar determinados valores éticos.

 

A solução de compromisso encontrada pelas ONGs que desencadearam a Ação da Cidadania contra a Fome entre, de um lado, os padrões tradicionais da cultura e, de outro, uma incipiente noção de cidadania, talvez seja uma das maiores demonstrações da engenhosidade do famoso "jeitinho brasileiro". Em vez de algumas siglas impessoais e de um discurso puramente abstrato, tivemos um verdadeiro "santo" avalizando a campanha. Resta saber, porém, quantos mais teremos de "canonizar" até vencermos as desconfianças dos cidadãos brasileiros em relação a seus iguais.

 

NOTAS

 

1. O artigo de Evers  (1984) retrata bem o espírito que reinava entre as ONGs da época em seu relacionamento com os movimentos sociais.

2. Para uma descrição mais detalhada da evolução das ONGs brasileiras, vide Assumpção, 1993.

3. Vide, entre outros, Fisher, 1993; e Korten, 1989

 

BIBLIOGRAFIA

 

ASSUMPÇÃO, Leilah L. (1993), A invenção das ONGs - do serviço invisível à profissão sem nome. Tese de doutoramento. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional e da UFRJ, Rio de Janeiro.

 

EVERS, Tilman. (1984), "Identidade: a face oculta dos movimentos sociais". Novos Estudos Cebrap, 2/4.

 

FISHER, Julie. (1993), The Road from Rio - Sustainable Development and the Nongovernamental Movement in the Third World. Westport, Praeger Publishers.

 

KORTEN, David C. (1989), Getting to the 21st Century - Voluntary Action and the Global Agenda. West Hartford, Kumarian Press.