O estudo dos gêneros populares de ficção vem se desenvolvendo
em uma posição ambígua, entre a teoria literária e a sociologia da literatura,
simultaneamente intermediária e marginal em ambos campos. A emergência de uma
cultura de massa e da literatura correspondente, embora tenha contribuído para
a dessacralização da arte, a "perda da aura" assinalada por Benjamim
implicou uma separação entre essa literatura e a literatura erudita, que
resultou em um sistema de valoração quase sempre maniqueísta e equivocada,
apoiado em uma dicotomia que isolou e congelou os termos que a compunham ao
desconsiderar sua interdependência., relegando a literatura de massa a um papel
subalterno dentro de uma reflexão social da literatura.
Com efeito, para ascender a alguma consideração Dor
parte da teoria, essa literatura precisou adornar-se de adjetivos: popular,
quando o loczw de produção é o das classes subalternas; trivial, quando se
considera o valor e a circulação, relacionados com o mercado; marginal, quando
a produção e o consumo contrariam as formas tradicionais etc. Fenômeno paralelo
ocorreu na sociologia da literatura, onde o predomínio de uma estética
naturalista/ marxista, que valorizava o realismo e o engajamento social do
escritor, norteava, por oposição, as fronteiras da literatura de massa,
considerada carente desses dois atributos.
Jacques Dubois foge dessas repartições estanques,
perfilando-se entre os autores que buscam renovar a reflexão social da
literatura através de uma reavaliação dos gêneros populares de massa, propondo em
Le roman policier ou la modernité uma abordagem do romance policial sob o
prisma de uma dupla história, literária e social. Nesse sentido, sua obra se
inscreve naquela vertente mais ampla, de estudos que procuram captar as
mudanças culturais ocorridas com o advento da modernidade nos sistemas de
sociabilidade e representação simbólica.
O livro compõe-se de doze capítulos organizados em
três partes. A primeira, "Unidade de uma história", enfoca. os
aspectos propriamente sociais do romance policial, examinando 0 contexto
histórico de seu surgimento, sua circulação e as relações com outros campos da
produção literária, a formação de um público leitor. A segunda parte,
"Duplicidade de uma forma", analisa os problemas narrativos que esse
tipo de romance propõe. Finalmente, "Três utopias e um complexo", a
última parte, examina as obras de autores policiais (Gaston Leroux, Georges
Simenon, Sébastien Japrisot) e tece uma análise do gênero, a partir do mito de
Éáipo. Analisaremos mais detidamente a primeira parte do livro.
A emergência da narrativa policial, segundo Dubois,
corresponde a uma evolução das formas literárias, mesmo que essa evolução seja
escondida por fenômenos não-literários. Nessa óptica, o aparecimento de um
gênero novo revela uma mudança no campo das letras (ele mesmo alterado pela
mutação das condições de produção - imprensa, público etc.). Mas esta não é uma
explicação suficiente para dar conta da especificidade do gênero. É necessário
interrogar suas condições de nascimento, atentando para uma mudança cultural
mais global, e mostrar como ela corresponde às expectativas de uma sociedade em
seu conjunto.
Dubois mostra como o romance policial (FLP) deriva em
larga medida do folhetim, quando este último se divide em diversos gêneros
especializados (aventuras, antecipação, literatura para moças etc.) que buscam
dar conta da fragmentação do público.A imagem do universo social como labirinto
é emblemática nas duas formas de romance. No folhetim, a complexidade da
narrativa procura dar conta da grande cidade, labirinto ao mesmo tempo
espacial e social; no RP clássico, a trama se assenta em geral em um grupo
social restrito, quase sempre a família. Da encenação da esfera pública se
passa à encenação da esfera privada. Essa passagem do público ao privado
(simbolizada ainda pelo "mistério do quarto fechado") acompanha uma
percepção modificada das relações de classe. Sumariamente, onde o folhetim,
dentro de uma visão romântica, coloca em frente aristocracia e povo, unindo-os
por misteriosas passarelas, o RP colocará uma classe "média", embora
a atração pela nobreza permaneça grande.
A separação entre os domínios público e privado, ao
impedir sua comunicação, levou ao exercício de uma censura social estrita.
Ocorre uma modificação, rio plano da representação, quando se passa de uma esfera
a outra - a focalização da ficção sobre a vida íntima (e secreta) dos
personagens é consubstanciai ao enigma. A conivência entre o detetive
(escritor) e o leitor é esse olhar indiscreto sobre a vida do outro. O
indivíduo burguês anima-se na tentação de querer saber tudo dos outros sem nada
revelar de si. O RP elabora-se no seio dessa contradição: lança um olhar
metódico e fragmentado sobre o universo social, procurando matrizá-lo. O
inventário e o controle são os grandes propósitos; detecção e dedução são os
tempos fortes de um processo de identificação tão eficaz quanto sistemático.
Dentro desse processo, o crime é sobretudo pretexto para uma ruptura do pacto
de discrição, da regra de censura que protege as vidas privadas. A partir do
crime, as existências se vêem sob suspeita, por deterem segredos que devem ser
postos à vista.
Dubois aponta a ligação, sob vários aspectos, entre o
RP e a fotografia, mostrando como ambos se estruturam para responder a demandas
análogas. O voyeurismo e o fetichismo fazem com que compartilhem uma visão
"atestadora", a preocupação em fixar os traços do que foi e não será
mais. A fotografia é a impressão, a novela de detetive a prática da impressão -
o processo de identificação é tributário dessas impressões, efeitos laterais e
circunstanciais que permitem a remontagem de uma totalidade plena de sentida.
Esses dois modos de expressão ligam-se ao paradigma indiciárío referido
por Ginzburg (*) .
Dubois mostra também a ligação estética do RP com a
modernidade, indicando como ele está inserido, a seu modo, no debate das
vanguardas modernistas. Para tanto, debruça-se sobre as conexões estabelecidas
entre os diversos pontos do espaço literário.
O campo engendrado pelo RP apropriou-se da grande lei
modernista da criação/distinção, da provisória anomia dentro de um contexto de
regras. Existe uma violenta clivagem entre a produção cultivada e a produção
popular, permeada por uma vasta zona intermediária, ou média. Criadores e
criações não passam facilmente de uma zona à outra, em função da discriminação
social e cultural que rege a clivagem. A dupla origem do gênero, ao mesmo tempo
intelectual e popular, conduziu-o naturalmente à identificação com uma posição
média em face da produção geral. O RP desloca a lei distintiva do terreno de um
debate estético, do qual a priori está excluído, integrando-a em seu
dispositivo, mais discreto, de transformação genérica. Uma boa dosagem entre
estereótipo e inovação garantiu assim sua permanência: o gênero produz uma
curva de progressivo refinamento, que não excede jamais os progressos de
instrução e o nível de competência do leitor médio.
Nesse ponto, a análise mostra diversos pontos de
contato com os clássicos estudos de Pierre Bourdieu sobre o tema. Dubois,
entretanto, está mais preocupado em tecer uma análise do sistema cultural como
uma rede de condicionamentos recíprocos. Seu interesse é menos sobre as
estratégias de legitimidade simbólica geradas pelo campo do RP, voltando-se
muito mais para as ligações propriamente literárias que ele estabelece
globalmente. Existe, para o autor, uma parcela da criação de massa que possui
consciência de si mesma, não se contentando mais com seu estatuto inferior,
inscrevendo-se em relações muito mais dialéticas com a cultura cultivada, para
além da "transferência simbólica". Nesse sentido, a literatura de
gênero também conhece turbulências comparáveis às que caracterizam as
vanguardas. Uma ideologia da criação e da originalidade (por razões sociais
que, Dubois reconhece, falta aprofundar melhor) ganhou certos setores da
produção trivial, que progressiva e visivelmente integraram as regras de
funcionamento da cultura erudita, para além do mero simulacro.
De forma simples, isto se exprime através de uma
exigência cada vez maior em relação ao saber, ao imaginário e à linguagem
postos em jogo. Essa evolução se manifesta através da dupla postura que
caracteriza toda literatura modernista: a ruptura com a tradição, mesmo a mais
imediata, e a inovação mantida por si mesma. Estes setores da literatura de
massa geram seus subsetores vanguardistas (ou pára-vanguardistas), dos quais
emergem autores e obras cuja qualidade reconhecida permitirá prudentes
parentescos com a literatura cultivada. A crítica social do hard-boiled americano
e o realismo psicológico dos autores franceses ajudaram a "enobrecer"
o gênero. No decorrer dos anos surgiu uma corrente de invenção e renovação que,
jogando sobre certas formas de ruptura, merece ser designada, pelo menos
heuristicamente, como a vanguarda da gênero.
Paralelamente, assinala Dubois, o romance cultivado
mais criativo se interessa regularmente pela forma da narrativa policial,
tomando emprestado freqüentemente ao enigma e à enquête os fundamentos de sua
própria construção. Reconhece, assim, nessa forma "não-legítima" um
modelo de agenciamento em consonância com suas exigências e orientações. Um
fenómeno de empréstimo largamente difundido entre grandes escritores
contemporâneos: RobbeGrillet, Jorge Luis Borges e Bioy
Casares, Leonardo Sciascia, Graham Greene, Friedrich
Durrenmatt etc. Apesar das diferenças entre esses autores, é possível ver um
traço comum: a intenção irônica de desviar um modelo de sua norma. 0 que não
significa uma simples desmontagem paródica. A retomada do modelo é obtida
seguindo-se os princípios e as regras do gênero; no momento em que a narrativa
atinge sua plenitude é que se produz sua negação e seu desarranjo. O modelo
importa, sejam quais forem as modificações que sofrer, por seu valor próprio,
tanto por seus recursos temáticos quanto retóricos. Exasperar o uso de um
modelo de referência é, apesar de tudo, reconhecer sua rentabilidade, seu poder
de engendramento e, de qualquer forma, adotá-lo.
Essa troca permanente que se processa entre a
vanguarda propriamente dita e a vanguarda policial está no cerne da própria
modernidade e merece ser interpretada como um fato cultural importante. Segundo
Dubois, é um pouco como se a história de crime e detecção fosse a última
história narrável, como se todas as outras tivessem perdido sua credibilidade e
somente ela, com sua conjunção de enigma lúdico e enquête dramática, guardasse
ainda todo seu poder de atração. Seguramente, o gênero possui um poder de
comunicação sem igual - o romance policial tornou-se uma forma universal e
transmediática, cuja empresa e cujo império são quase sem limites.
Os novos romancistas e também certos cineastas
reconhecem no texto policial uma narrativa emblemática da crise do sujeito,
incorporando-a à problemática institucional de nosso tempo: os aparelhos
repressivos do tipo policial e sua vocação em garantir e controlar as
identidades individuais. A narrativa policial evoca a crise de identidade para
melhor simular sua canalização e dar-lhe termo; a identificação é uma forma tão
aproximada quanto artificial de interromper sua propagação. Já o romance de
vanguarda toma o gênero de empréstimo, mas jamais no espírito de colocar um
ponto final no questionamento do sujeito sobre a realidade e sobre sua
identidade. A crise do sujeito, aberta historicamente por Nietzsche e Freud, é
assumida e toma livre curso, agora mais visivelmente, já que ela se desenvolve
em referência a um -sistema conhecido, recusando soluções convencionais a essa
situação crítica, que é vivenciada ironicamente.
Dessa forma, Dubois mostra o alcance alegórico do RP e
sua significação primeira: a narração hermenêutica policial responde à velha
questão ontológica do ser e de sua essência, porque ela questiona a identidade,
porque ela confronta o indivíduo à falta, porque ela joga com sua morte,
reunindo o ponto de vista mais contemporâneo sobre a instabilidade desse ser. A
obsessão da enquête e o delírio de interpretação que habitam todos os detetives
se articulam em torno dessas questões. Eles conduzem, ao fim de cada breve
trajeto, a uma re-asseguração quanto à especificidade do sujeito e de seu
outro: o culpado é culpado, o detetive é detetive. Mas essa segurança possui
curta duração, porque as questões permanecem e as dúvidas são relançadas nas
novas narrativas que não cessam de surgir. Para Dubois, é nas freqüentes
transferências e retornos de papéis que reside a grande tentação de toda
narrativa policial, conduzida regularmente a um limite tênue, onde a qualquer
momento as identidades podem se embaralhar e onde, quem sabe, o detetive seja o
culpado, o sujeito seu objeto e eu, um outro.
Combinando erudição e rigor analítico, Dubois nos
apresenta um estudo cujo interesse ultrapassa o campo dos aficionados do
gênero. Obra interdisciplinar, Le Yornan policier ou la rnodeYnité traz
aportes instigantes para todos os que se interessam pelas mudanças culturais
provocadas pela modernidade.
* GINZBURG, Carlo. (1989), Mitos, emblemas, sinais:
morfologia e história. Tradução de Federico Carotti. São Paulo, Companhia
das Letras.
Marco Antonio de
Almeida é mestrando em Sociologia na USP e pesquisador do Instituto Pólis.
Cenas
juvenis:
punks
e darks no espetáculo urbano,
de Helena Wendel Abramo,
São Paulo, Editora ScrittalANPOCS, 1994.
por Luiz Henrique de Toledo
Observando o conjunto das pesquisas acadêmicas mais recentes
voltadas para as práticas sociais dos grupos jovens no contexto urbano, esse
livro aparece, sem dúvida, entre os que contribuem para uma discussão mais
ampliada dos significados que encerram a emergência desses grupos etários
denominados genericamente pelo termo "juventude", no domínio público.
Talvez um dos maiores méritos desse trabalho esteja em traçar um interessante
panorama das variadas condições históricas e sociais através das quais emergiu
a categoria juventude, seja do ponto de vista político, ou enquanto temática,
do ponto de vista da relevância sociológica.
Uma das dificuldades mais recorrentes enfrentadas
pelos pesquisadores que se propõem a estudar os fenômenos urbanos a partir de
grupos restritos e mais delimitados (cuja identidade pode ser dada par um
comportamento transgressor, por um estilo e consumo musical etc.) está na
dificuldade em inserir tais objetos no contexto mais global, dada a
complexidade do meio urbano. Não raramente, essas pesquisas acabam
reproduzindo, assim, a própria fragmentação da realidade encontrada nos objetos
empíricos escolhidos. Felizmente, este não é o caso do livro referido.
Tomando como foco central da análise duas
manifestações de jovens ocorridas em torno da década de 80, expressas nos
grupos punks e darks da cidade de São Paulo, a autora nos convida
a repensar todo o contexto cultural de surgimento dos movimentos juvenis
daquela década, comumente vistos pela óptica da negatividade, como
manifestações alienadas e pobres do ponto de vista de uma determinada
perspectiva política, sobretudo quando (mal) comparados aos movimentos jovens
dos anos 60 e 70.
Na verdade, o que a autora nos propõe, do ponto de
vista teórico, é tentar escapar de algumas explicações mecanicistas, porém
muito difundidas, que analisaram os fenômenos juvenis somente sob a égide da
dicotomia conformismo/revolta, como se aí estivessem imbricadas todas as
respostas possíveis de serem dadas para o fenômeno geracional da juventude.
Dessa maneira, a autora afirma que devemos ressaltar
as "dimensões históricas e sociais das condições e das expressões juvenis
a fim de tornar perceptíveis as peculiaridades das manifestações atuais, não
como confirmação ou desvio de um conteúdo essencial e universal da juventude,
mas como respostas vinculadas ao contexto social em que se realizam" (p.
xüi).
Abramo mostra-nos que uma determinada vivência juvenil
depende, em grande medida, dos contextos e transformações sociais, mas também,
sobretudo, das respostas e estratégias inovadoras, que podem ser de outra ordem
- estéticas, performáticas e, segundo ela própria, "espetaculares" -,
acionadas em cada momento histórico pelos diferenciados arranjos dos
agrupamentos jovens. Dessa forma, observa-se que a inserção dos diversos grupos
jovens no domínio público não está destituída de uma intervenção crítica, mesmo
quando essa inserção não se cristaliza em projetos políticos explícitos, como
foi o caso, ao contrário, da atuação e do papel desempenhado por parte dos
jovens estudantes no período pós-64, no Brasil.
Para desenvolver tais afirmativas, a autora constrói
um interessante percurso teórico e metodológico, subdividindo sua argumentação
basicamente em três partes.
Inicialmente, Abramo salienta, em concordância com
alguns autores, a dificuldade em problematizar a categoria
"juventude" como portadora de um conteúdo universal, ou de um papel
político prefixado, sem levar em conta os problemas históricos levantados em
cada geração; em segundo lugar, procura descrever o surgimento de uma
determinada condição juvenil através do exercício de novas experiências
propiciadas pela crescente valorização de outras esferas da vida, notadamente a
esfera do lazer e do consumo, aspectos de uma nova organização da vida nas
cidades modernas, verificada particularmente a partir da metade dos anos 70 e
80, no Brasil. Em terceiro lugar, elabora uma sucinta etnografia sobre os
punks e os darks, mostrando o modo como esses grupos se inseriram,
vivenciaram, interpretaram e, acima de tudo influenciaram, de modo peculiar, as
respostas de toda uma geração frente a seu momento histórico.
O aparecimento público da juventude como sujeito
social visível surgiu em fins do século XIX e, sobretudo, através da
experiência traumática de parte da juventude na Primeira Guerra Mundial. Este e
outros fatos, tais como o Movimento Juvenil Alemão na última década do século
XIX, o niilismo do período entre guerras, a boêmia, a rebeldia etc., são
apresentados pela autora como fenômenos que suscitaram não somente um crescente
sentimento de geração, mas também uma intensa contraposição às gerações
adultas.
É nesse amplo panorama que o tema da juventude aparece
nas reflexões de inúmeros autores como um período de transitoriedade,
ambigüidade, negatividade, turbulência, e potencialmente em crise, dadas as
condições liminares verificadas pela transição da esfera infantil para a
adulta. Portanto, Abramo problematiza os temas mais recorrentes nos estudos da
condição juvenil, sobretudo através da Escola de Chicago, onde os fenômenos do
desvio e da delinqüência aparecem como balizadores de um processo de
socialização "defeituoso" e "patológico".
Essas abordagens serão retomadas por outra literatura
mais recente (Lapassade, 1968; Morro, 1986; Yonnet, 1988), que procurou
apreender o caráter de rebeldia e o comportamento explosivo dos jovens dos anos
50 e 60 através do aparecimento de vários grupos e movimentos expressivos em
torno do rock'n roll, bem como a formação das utopias e dos sonhos, por eles
engendrados, de uma nova sociedade. Nesse momento, a juventude é contextualizada
como fruto menos de um defeito de socialização, como constatavam os
funcíonalistas de Chicago, e muito mais como "foco de contestação radical
da ordem política, cultural e moral, empenhada numa luta contra o
establishment" (p. 39), engendrando subculturas como formas de elaboração
cultural e projeção social.
Naquilo que concerne á sociologia brasileira e
latino-americana, a temática da juventude apareceu, nos trabalhos apontados
pela autora, sob o viés de sua participação como agente político transformador
da ordem vigente. Para essas sociologias, preocupadas com os projetos de
modernização dessas sociedades nos anos 50 e com as conseqüências do
recrudescimento político pós-64, pensando no Brasil, a visibilidade da
juventude foi filtrada pela condição estudantil e seus movimentas políticos,
sobretudo as da classe média universitária. Todavia, somente a contraposição
com esse momento político vivenciada por esses jovens não explica a emergência
dos outros grupos na esfera pública dos anos 80. Será preciso, desta feita,
também apreender a maneira como esses outros jovens elaboraram suas questões
relativas a sua própria vivência e as respostas que os posicionaram frente aos
valores correntes de sua época..
A segunda parte do livro retoma as especificidade da
condição juvenil no contexto de transição e mudança da sociedade brasileira,
nas décadas de 70 e 80.
Ao contrário das vertentes explicativas que
-caracterizaram o -período circunscrito á vivência juvenil como sendo
constituído por um momento de experimentação desinteressada, de suspensão e
transitoriedade para o mundo adulto, Abramo mostra que a vivência da condição
juvenil no Brasil se ampliou justamente através da inserção, ainda que
diferenciada e mediatizada pela conjuntura injusta do ponto de vista social
(Madeira, 1988), dos jovens no mundo adulto, no mercado de trabalho e de
consumo, criando necessidades e fomentando um amplo mercado consumidor e
produtor de bens. É através dessa inserção que uma determinada condição juvenil
pode ser colocada também para uma parcela maior da população. Nesse contexto, a
autora mostra as lacunas na reflexão sociológica, que empreendeu poucos estudos
sobre tais mudanças. Mudanças estas que propiciaram o surgimento de uma
vivência juvenil muito distinta daquela oriunda dos meios universitários,
engajada e comprometida com a conjuntura que perdurou até meados da década de
70. Dessa forma, a década de 80 abriu-se como um período de crise, mas,
paradoxalmente, de exercício de novas experiências juvenis com o aparecimento
de outros atores, oriundos das camadas populares, que emergiram num momento de
decréscimo da atuação dos movimentos estudantis, e do próprio papel da
universidade como foco de resistência política e de experiências culturais:
"ocorre um esvaziamento do papel da instituição, que deixa de ser o foco
central da oposição, ou o mais capaz de gerar uma referência de oposição à
ideologia dominante" (p. 76).
Ao mesmo tempo, tais mudanças estiveram em consonância
com o crescente processo de internacionalização das culturas, dado pelas
condições do desenvolvimento tecnológico, que suscitou uma vivência juvenil
mais globalizada, através das trocas de experiências e de informações.
Experiências tomadas não como simples cópias das movimentos juvenis europeus e
americanos, mas como reelaborações localizadas de um contexto mais amplo,
vividas, como enfatiza Abramo, como experiências similares resultantes da
adoção das mesmas referências (p. 97). E é dentro desse nova referencial que
são contextualizados na análise os purzks e os darks, que surgem menos como
definidores de um estilo de vida alternativa especifico, marca dos movimentos
jovens dos anos 60 e 70, e mais como uma resposta performática e espetacular de
atuação, que espelha e veicula através de encenação pública, por intermédio de
seus símbolos e comportamentos, uma leitura particular da década de 80,
encarnada na crise das utopias, em parte devido à derrocada do socialismo real
e à fragmentação pós-moderna.
Por fim, na terceira parte de Cenas juvenis a
autora mostra a nova configuração do universo juvenil dos anos 80, fundamentado
basicamente em três aspectos: "na crise do espaço universitário como
significativo para a elaboração das referências culturais, no enfraquecimento
da noção de cultura alternativa coma modo de contraposição ao sistema e na
emergência de uma vivência, por parte dos jovens das camadas populares, no
campo do lazer ligado à indústria cultural" (p. 82).
De certa maneira, nessa terceira parte, a meu ver, o
texto perde um pouco de seu vigor explicativo, sobretudo devido ao tratamento
um tanto quanto fragmentado e desigual dos dados etnográficos dos dois grupos
enfocados; a autora basicamente se limita a interpretar algumas letras das
músicas dos grupos reconhecidos em torno da denominação "rock
paulista", influenciados pela estética e performance punks e reunidos,
posteriormente, sob a designação "dark". Desse modo, há uma certa
dissociação entre o movimento teórico anterior, que construiu a categoria
juventude, e os dados de campo; como se o texto renunciasse, de certa forma, à descrição
densa (Clifort Geertz, 1973). Nesse sentido, a análise diz muito mais sobre
o contexto de emergência dos variados grupos dos anos 80 e menos sobre esses
grupos em especifico. No entanto, esse fato não compromete a análise global do
período retratado, onde o que deve ser ressaltado é a maneira como a pesquisa
iluminou um importante fenômeno urbano, trazendo para nós o modo pelo qual essa
geração acabou vivenciando, em que pesem, as nuanças e os comprometimentos variados
de cada um com os grupos em questão, uma experiência comum da crise das
utopias, levada como encenação, provocadora de reações, limitada pelo domínio
do lazer e do entretenimento, porém não menos significativa do ponto de vista
das inovações culturais e da critica á saciedade envolvente.
Luiz Henrique de Toledo é mestre em Antropologia
Social pela USP e membro do conselho editorial da revista Cadernos de Campo,
dos alunos de pós-graduação em Antropologia da USP
Travesti:
a invenção do feminino
de Hélio Silva.
Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1993.
por Flávio Leonel Abreu da Silveira
No bairro boêmio da Lapa, no Rio de Janeiro, Hélio
Silva realizou uma das pesquisas etnológicas mais interessantes sobre gênero no
contexto urbano, pois "soube ir lá apalpar e compartilhar" (Otávio
Velho) uma realidade bastante comum nas cidades brasileiras, mas cuja
complexidade é extremamente grande, revestida de paradoxos e de possibilidades:
as vivências densas e pueris dos travestis.
O travesti é um ser multifacetado, podendo passar da
mimese ao escandaloso pastiche do feminino (redundantemente exagerado) e em
pouco tempo tornar-se um belo rapaz sensível, ou seja, sua transcondição
permite que ele seja uma figura "mutável"; camaleônico, ele
experimenta no corpo uma virtualidade latente, pois tem em potência inúmeras
alternativas de manifestação.
Hiper-real, sua condição faz dele esse ser
prestidigitador, cujo jogo é o da ocultação e o da evidência, num ágil jogo de
máscaras, numa elaboração constante de seu personagem, que se confunde com a
pessoa.
Os paradoxos abundam, perseguindo-o em sua trajetória,
pois a confusão de códigos que ele estabelece faz dele aquela figura que
caotiza a ordem vigente gerando ruído, ou, ainda, desperta desde as volúpias sexuais
até as tentativas de homicídio (quando não o próprio).
"O travesti tem dupla pele: a de purpurina e a de
humilhação. Em que ordem não se sabe. Ou talvez numa pele só tecida pelos dois
ingredientes" (Silva, p. 41). Nesta frase, Hélio Silva resume de forma
poética a realidade do travesti, sua trabalhosa e elaborada tessitura de
signos, numa construção social que passa pela dimensão estético-erótica
("um caráter obsessivo, uma consciência de ser mulher") que o impele
â "correção de sua própria natureza. Ele tem do toureiro a coragem viril e
intimorata, associada a delicadas e femininas preocupações com a aparência e o
vestuário" (p. 37).
Então, para que possa manifestar seu "devir
feminino" ele terá que realizar alguns "sacrifícios" (não muito
diferentes dos sacrifícios das próprias mulheres) para a busca de sua nova
identidade e de uma estética de sedução, tais como depilações, maquilagens,
caminhar com salto alto, eletrólise e implante de silicone. "Reina a
alucinação do detalhe" (Jean Baudrillard, 1991. Da sedução. São
Paulo, Papirus).
Porém, todo o empenho nessa transformação da
morfologia masculina em feminina torna-o suscetível à violência, física ou
moral, pois sua transitividade de papéis de gênero e a implosão das
classificações sociais no que concerne aos mesmos fazem dele um
"desviante", no qual a repulsividade social está no fato de ele
"pretender desempenhar um papel que não lhe cabe".
Isso não quer dizer que o travesti seja uma pessoa
amedrontada, que viva aterrorizado pelo que o social pode trazer-lhe de danos,
mas pelo contrário, enquanto figura em interação com o meio fez-se necessário
que ele "sacasse o homem que traz dentro de si" para também ser o
agente de violência, ou melhor, uma pessoa que sabe também se defender (seja pela
porrada ou pelo bateboca), "depois de alguns estragos históricos, já nem
precisa ir às vias de fato" (p. 41).
O travesti vem apenas evidenciar que não está preso ao
biológico, mas sim está disposto a negociar com essa dimensão de seu ser, ou,
por vezes, transformá-lo radicalmente através de uma castração física (às vezes
simbólica): o falo jogado na lata de lixo traz em si toda uma carga simbólica
que está ligada à condição do masculino na sociedade, como se, metaforicamente,
mostrasse que a falocracia está em crise de identidade diante das mudanças que
as "minorias" trazem consigo e que a própria ciência, na qual o
discurso masculino predomina, legitima de alguma maneira.
Para o travesti, a questão de ter o falo pode ser
ambígua, pois ao mesmo tempo que ele busca negá-lo, também se regozija e se
conforma, vendo nele a possibilidade prazerosa de uma manifestação libidinosa:
"Ai, meu Deus, por que nasci com pau? Ah!... mas é gostoso
também..."Assim é possível perceber que ele vive a duplicidade, a inevitável
mão dupla de sua condição, que instaura sofrimento e prazer, mas nem por isso
seu universo é mais ou menos complexo que qualquer outro (Silva, 1993), porém
diria com especificidades muito marcantes nesse seu devir minoritário.
Seu jogo é aquele dos espelhos, das refrações e
deformações, cujos reflexos atraem para si ainda toda uma carga de sentimentos
(que o fazem escorregadio, numa viscosidade que permite que ele flua entre os
mesmos), na laboriosa elaboração imagética de sua realidade mutável, ele colhe
o beijo e o cuspe, o lixo e a luxúria, o sexo e a violência, a graça e a
desgraça, sem sequer deixar de ter a agilidade (intelectual) de um malabarista,
cuja velocidade é a daquele que sabe "a dor e a delícia de ser o que
é" (Caetano Veloso).
Dispondo de máscaras que, para serem manipuladas,
requerem o entendimento do duplo e ainda o livre trânsito entre os opostos, o
travesti evidencia uma tática de sobrevivência, permitindo assim que trafegue
como um "fruto histórico do asfalto e das grandes aglomerações urbanas",
sentindo o tragicômico que o cotidiano oferta aos que teimam em se perder
nelas. Para Michel Maffesoli (A conquista do presente. Rio de Janeiro,
Rocco, 1984): "a duplicidade é, portanto, aquilo mesmo que permite
existir. O que equivale a dizer que só podemos progredir mascarados" e
ainda que travestir-se "constitui uma proteção, uma manifestação do
trágico que atravessa, de ponta a ponta, o dado individual e social. Do mesmo
modo que o riso dionisíaco é uma modulação da angústia humana, assim também a máscara
ou a pele das quais nos servimos tentam esconder a trágica finitude cuja imagem
acabada é o espetáculo" (pp. 124-5).
O travesti sabe muito bem como utilizar as máscaras
nesse espetáculo urbano, pelo fato de, através de seu constructo, elaborar sua
noção de pessoa, na qual o biológico cede ao poder do desejo, da sedução que se
infiltra "no reino das aparências", pois "somente a sedução se
opõe radicalmente à anatomia como destino. Somente a sedução rompe com a
sexualização distintiva dos corpos e a inelutável economia fálica dela
resultante" (Baudrillard, op. cit., p. 15).
Ora, o travesti, em sua apreensão de um devir
feminino, vai buscar exatamente aquilo que há de mais doce e perverso nesse
dissimulado jogo de poder e "vingança" contra o macho: a sedução.
Se tudo nele está sublinhado é porque é a aparência
que lhe dá mais prazer, devido ao fato de tal "transubstanciação do sexo
em signos" torná-lo um personagem sedutor, apropriando-se de signos e
subvertendo-os - "é o jogo de indistinção do sexo que os travestis amam
(...)"; ele leva a feminilidade ao extremo do princípio da incerteza e,
assim, torna-se aquela figura que estabelece uma dinâmica do tipo
ordem/desordem intensa no socius e, como uma espécie de atrator
estranho, recebe os mais variados fluxos energéticos do mesmo.
Para Baudrillard (op. cit.), "a sedução é mais
inteligente (...), ela sabe - é seu segredo que não há anatomia, que não há
psicologia, que todos os signos são reversíveis. Nada lhe pertence, exceto as
aparências - todos os poderes lhe escapam, mas ela reverte todos os
signos".
Então, a elaboração consciente desse corpo-simulacro
que os travestis moldam, arredondam, vai fazer com que eles não possam ser
classificados, pois a transcondição a que estão submetidos (como pêndulos que
oscilam entre extremos, caotizando-os) permite que "as possibilidades
criadas entre eles seja uma interface mais importante do que a própria
ambigüidade" (Silva, comunicação no encontro da ABA, 1994).
Magnífica aspereza e delícia da contradição - ao tirar
o homem de dentro de si e dispor dele a hora que quiser -, o travesti
redimensiona a noção de masculinidade, sem no entanto deixar de buscar em suas
relações afetivo-sexuais um tipo estereotipado de macho, a ponto de não
perpetuar algumas delas, caso esse macho queira ser "passivo" no ato
sexual.
Farsa ou não, "pegar" clientes e não
"dar" nenhuma vez é outra forma de afirmação (às avessas) de uma
masculinidade que agride os próprios machões, pois essa macheza toda está
anunciada com uma carga de afirmação que não parece menos varonil do que a de
qualquer "bofe" bem-estabelecido em seu papel de "comedor".
Além do mais: "Tem que ser muito macho para fazer
isso!" grita o travesti segurando os peitos (Silva, op. czt.).
Flávio Leonel Abreu da Silveira é mestrando em
Antropologia Social na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
As fronteiras da República: história e política entre os Macuxi no vale
do rio Branco
de Paulo Santilli.
São Paulo,
Série Estudos,
NHII/LJSP e Fapesp, 1994, 119 pp.
por Maria Denise Fajardo Pereira
Escrito originalmente como dissertação de mestrado por
Paulo Santilli, este livro apresenta um recorte temático baseado no alcance das
fontes historiográficas disponíveis sobre o contato dos índios Macuxí com as
agências indigenistas que se instalaram no vale do Rio Branco, nas primeiras
décadas do século XX. A proposta do livro, ao contrário do que se poderia
imaginar, não é traçar uma história do indigenismo na região, mas
"pinças", na documentação reunida sobre o assunto, o modo pelo qual
os Macuxi vivenciaram o impacto do contato (ver p. 11). A via de entrada
escolhida para a análise da história do contato Macuxi é interessante e
inovadora, mas não a única. O próprio autor considera que, além das fontes
documentais utilizadas neste livro, poderia ter usado dados da organização
social e da tradição oral do grupo indígena, que todavia não foram descartados:
serão utilizados em uma nova etapa do trabalho. É nesse sentido que Santilli
situa Fronteiras ela República como um primeiro passo em direção a uma
história Macuxi. Um passo que a leitura do livro mostrará ter sido bem dado.
Habitantes da região fronteiriça entre Brasil e Guiana
Inglesa, os Macuxi, índios de língua Caribe, juntamente com seus vizinhos
Taurepang, Arecuna e Kamarakoto, compõem um grupo étnico mais abrangente - o
povo Pemon. Até o século XVIII, suas relações interétnicas resumiam-se ao
âmbito intertríbal, com povos de subgrupos Pemon e também com seus vizinhos
Kapon. Foi quando a disputa colonialista entre Portugal, Espanha e Holanda
atingiu sua área que se viram diante de um fenômeno sem precedentes: o contata
promovido pelo colonizados branco.
Tomando como foco central o caso Macuxi, Santilli
procura desvendar o processo pelo qual áreas indígenas se tornaram alvo de
interesses alheios, ligados ao poder de Estados coloniais/nacionais. Por se
tratar de uma área disputada internacionalmente, o território Macuxi é exemplar
nesse sentido. Ali onde fronteiras étnicas foram historicamente redesenhadas,
segundo critérios exógenos, interessa para o autor analisar o papel dos índios
no rumo dos acontecimentos, buscando apreender a dinâmica de suas relações de
contato com os agentes colanizadores e/ou índigenistas. O caminho para chegar
ao "modo pelo qual os Macuxi vivenciaram o impacto do contato" não
poderia ser menos tortuoso. As principais fontes provêm dos próprios agentes
indigenistas que atuaram na região, hoje compreendida pelo estado de Roraima,
além dos relatos de viajantes. O que tais fontes oferecem diretamente é, sem
dúvida, uma história do indigenismo na área. Mas o autor optou por uma leitura
mais fina, que permite captar, através das versões dessas fontes, as respostas
dos índios ás situações com as quais se defrontaram em sua trajetória de
contato com os brancos.
A hipótese central do livro é que o impacto da
presença dos colonos pecuaristas e das agências indigenistas entre os índios
Macuxi incidiu mais fortemente sobre seu sistema político e que, em
contrapartida, a atuação das lideranças indígenas foi decisiva nos
direcionamentos tomados pela história do contato Macuxi (ver p. 15). Tomando
como marcos para a análise o período que vai do século XVIII às primeiras
décadas do século XX, o autor se detém mais precisamente entre o final do
século XIX e início do século XX, época marcada pela expansão da pecuária no
território Macuxi, seguida do estabelecimento quase concomitante de duas
agências indigenistas: a missão da ordem de São Bento e o Serviço de Proteção
aos índios. Tal recorte se justifica em função de que, até meados do século
XIX, a ocupação da bacia do Rio Branco pelos colonos portugueses
caracterizava-se por um plano mais propriamente estratégico-militar do que
econômico: para a Coroa portuguesa, tratava-se de proteger a região do avanço
das possessões vizinhas.
Segundo o autor, é somente com o finai da disputa
fronteiriça entre Brasil e Inglaterra, a partir de 1842, que surge um fator de
povoamento capaz de transformar radicalmente a paisagem social, econômica e
política da região: a pecuária. Essa nova estratégia de ocupação inaugura um
período em que, assim como outras áreas vizinhas, o território Macuxi se torna
alvo de interesses econômicos. Aos colonos pecuaristas presentes nos
interstícios das aldeias Macuxi somaram-se os garimpeiros, que avançavam pela
região a partir da década de 1930. Nesse contexto, índios colonos e garimpeiros
estabeleceram um tipo de relação que chama atenção por sua forma peculiar em
comparação com outras regiões do país. Não houve propriamente expulsão ou
extermínio da população indígena local, mas uma inserção desta na economia
regional, seja no trabalho com o gado, no garimpo ou na emergente cidade de Boa
Vista.
Fronteiras da República, como
o próprio nome indica, não trata apenas do impacto
gerado pelo estabelecimento de fronteiras espaciais/nacionais no território
tradicional Macuxi, mas também da divisão temporal criada em sua história de
contato. Nesse sentido, o autor reconstrói uma trajetória do contato Macuxi,
que pode ser vista sob dois ângulos: o espacial e o temporal. Por um lado,
trata da reorganização morfológica do território Macuxi e das relações
estabelecidas sob esse novo arranjo socioespacial. Por outro lado, aborda a
distinção que o advento da República instaura na dinâmica de suas relações de
contato. Ao ultrapassar as fronteiras que separam o Império da República, os
Macuxi vêem o fim da política de aldeamentos e da presença militar em sua
região. Acompanham a chegada de um novo agente povoador: o colono pecuarista,
que, por seu sistema de criação extensivo e disperso, prefere estabelecer
relações clientelistas, em vez da violência, para garantir sua permanência em
meio a inúmeras aldeias dispersas ao redor.
Além disso, com a República se instauram as condições
estruturais para um novo tipo de indigenismo, tanto por parte do Estado quanto
por parte da Igreja, desde então s8parados e com autonomia de organização. Ao
mapear os agentes que atuaram entre os Macuxi - Serviço de Proteção aos índios
e missão Beneditina -, ao explicitar seus acordos e divergências e ao definir
seus projetos, Santilli finalmente se aproxima da questão que norteia seu
trabalho: a do modo como os índios respondem à práxis indigenista adotada em
relação a eles.
Aqui, sua hipótese sobre o peso da dimensão política
na história do contato Macuxi passa a encontrar terreno fértil, uma vez que as
descrições da época apontam para um modelo de relações de contato utilizado
indistintamente, tanto pelo SPI quanto pelos missionários. Trata-se do recurso
à busca de intermediários políticos em meio aos índios, procurando neles
aliados de seus projetos junto ao restante da população. Desse modo, criava-se
uma espécie de "fronte" entre duas ordens culturais distintas,
constituindo um espaço privilegiado de ação, não apenas por parte dos indigenistas
mas sobretudo por parte dos interlocutores indígenas, de tal forma que
"(...) se os agentes indigenistas encontraram nos chefes um meio eficaz de
recrutamento da população indígena, por suas redes de relações, os chefes, por
sua vez, terão encontrado nas agências um instrumento poderoso para
ampliá-las" (p. 81).
Buscando
desvendar, em uma situação específica, o
modo pelo qual as agências de contato interagem entre si e com os índios e o
modo como estas, por sua vez, respondem às expectativas indigenistas, Fronteiras
da República é mais uma contribuição que se soma ao quadro diversificado de
situações de contato, históricas e atuais, de que se tem conhecimento. Muito do
que foi escrito por cronistas, viajantes e indigenistas foi perdido. Mas também
é verdade que muito do que foi escrito continua inexplorado em caixas e
estantes empoeiradas. Esses materiais pouco a pouco começam a ser devassados
por pesquisadores das áreas de História e Antropologia, engrossando os estudos
disponíveis sobre história indígena. Ao sistematizar o material referente aos
Macuxi, Paulo Santilli não somente cobre uma lacuna, como também abre portas
para novas pesquisas.
Maria Denise Fajardo
Pereira é mestranda em Antropologia Social e pesquisadora do Núcleo de História
Indígena e do Indigenismo da USP
O
significado do nome:
cosmologia
e nominação entre os Piraha
de Marco Antônio Gonçalves,
Rio de Janeiro, Sette Letras, 1993.
por Marcos Lanna
O significado do nome é um
excelente livro, uma importante e oportuna publicação no atual panorama da
Antropologia. Em seu primeiro trabalho sobre os Piraha, povo amazônico da
região do rio Madeira, Marco Antônio Gonçalves revela grande maturidade como
etnógrafo. Seu livro mostra a vitalidade de um modelo "tradicional"
de etnografia, inserindo-se na série de monografias sobre povos amazônicos que,
inspiradas pelo trabalho de Eduardo Viveiros de Castro, surgiram após a
publicação de Arawetí, os deuses canibais, em 1986.
Temos, então, através do livro de Gonçalves, um
contato inicial com um sistema de pensamento extremamente complexo, aquele dos
Pira.ha. O autor adota uma estratégia original para apresentar a cosmologia
piraha, qual seja, a repetição de idéias, privilegiando algumas em cada um dos
capítulos. Isto é, vários pontos do pensamento piraha são retomados no decorrer
do texto, obrigando o autor a retomar determinados princípios, já descritos, à
medida que vai apresentando outros novos.
É como se a tradução do sistema piraha exigisse que o
antropólogo adotasse essa estratégia de exposição. Trata-se do oposto de uma
"desconstrução": temos um constante recolocar de idéias, que se
tornam cada vez mais complexas à medida que vamos nos deixando envolver pelo
universo piraha. De certo modo, são apresentadas as mesmas idéias, cada vez de
um modo novo e mais profundo. Aparente paradoxo: ao mesmo tempo que vão se
tornando mais complexas, essas idéias se revelam também mais familiares para o
leitor, especialmente para aquele que não é especialista em etnologia dos
índios sul-americanos. É por isso que o capítulo 2, seguindo-se à breve
introdução e ao capítulo 1, é o mais denso e de difícil leitura.
A questão da nominação ocupa lugar de importância na
agenda da Antropologia estrutural. Na introdução, Gonçalves discute o
"operador totêmico" de Lévi-Strauss, que é "um dispositivo geral
de classificação que articula diferentes sistemas: dos nomes, das restrições
alimentares, das proibições matrimoniais" (Gonçalves, 1993, p. 12).
Lévi-Strauss reconhece que o nome próprio coloca "o indivíduo como
espécie", mas não vê "diferença de natureza entre nome próprio e nome
comum (...) porque ambos classificam (...) e classificar é significar" (Pen.sarriento
Selvagem. São Paulo, Nacional/Edusp, 1970, p. 13). A posição de Gonçalves,
inspirada em Viveiros de Castro, é de que há complementaridade entre a posição
de Lévi-Strauss e aquela que este último critica, da tradição filosófica de J.
S. Mill, C. Peirce e B. Russel, que propõem que os nomes próprios "apontam
para particulares e constituem individualidades" (p. 12).
No decorrer do livro, Gonçalves busca não apenas
demonstrar "a força classificatória dos nomes piraha" (p. 14), tarefa
difícil e plenamente realizada, mas também sua "função
individualizadora" (p. 14), tarefa ainda mais difícil e a meu ver não
realizada com o mesmo sucesso. Isto porque, para tanto, não basta mostrar que
há uma classe de "nomes dos deuses", os abai.si, nomes
classificatórios por excelência, que a meu ver seriam como títulos (cf. p. 63)
e, contraposta a esta, a classe dos nomes ibüsi, os "nomes do
corpo", "ligados à concepção", que "marcam o evento que
produziu o corpo", geralmente um susto sofrido pela mãe, causado por um
animal (exemplos de nomes ibüsi: pesai oahzhzaz paigio, "a guelra
podre da jatuarana", ou abagapa tooi zhui, "ponta do rabo do
tucano"). Não basta ainda mostrar que os nomes ibüsu são "da
ordem do acontecimento" (p. 45) e "constituídos de forma
diacrônica", o que supostamente, para alguns, os caracterizaria como fora
do alcance da
teoria de Lévi-Strauss.
O leitor sente falta de um retorno à discussão teórica
da "Introdução" nas conclusões do livro, após a descrição de aspectos
fundamentais do sistema piraha. Diferentemente da interpretação do autor,
poder-se-ia supor que tanto os nomes abaisi como os ibiisi são
complementares e classificatórios. Gonçalves não faz ainda uma demonstração
teórica da complementaridade entre os mencionados paradigmas da teoria social
(britânico e francês), o que talvez implicasse inclusive refutar alguns
argumentos de Lévi-Strauss.
Por outro lado, as contribuições do livro não se
limitam à "boa etnografia", mas vão muito além. Gonçalves faz uma
"sociologia do nome", mostrando o imbricamento entre nominação e
organização social, o sentido desta sendo dado menos pela morfologia, mas sim,
como em outras sociedades amazônicas, principalmente pelos rituais, pelo
xamanismo e pelas festas. Gonçalves analisa em detalhes a relação entre
xamanismo, ritual e nominação, mas poderia explorar mais a relação entre nome e
casamento.
Entre os Piraha, "os cônjuges não são
responsáveis pela fixação do nome. As duas maneiras através das quais se
adquire um nome na sociedade piraha são: homicídio, vinculado à prática
guerreira, e casamento" (p. 99). Mas tudo parece indicar que há uma
sobreposição entre troca de nomes e de mulheres, ao contrário da separação
entre essas esferas de troca existente entre os Timbira, para quem, como
Gonçalves mostrara em artigo de 1992 (BIBlANPOCS n° 33, p. 61), "com
quem se troca esposas não se troca nomes, com quem se troca nomes não se troca
esposas".
Gonçalves demonstra a pobreza da sociologia piraha das
trocas intertàmiliares e que "a lógica piraha trabalha a partir do
exterior, postulando o descentramento social" (Gonçalves, 1993, p. 100),
mas talvez radicalize demais essa posição, já que seu livro mesmo demonstra que
essas trocas não são inexistentes, nem sem importância (cf., por exemplo, pp.
28-9). Claro que é fundamental mostrar que "a afirmação da afinidade"
é transferida para "o mundo dos mortos" (p. 119), o que o autor faz
de modo brilhante. Mas o livro suscita a curiosidade do leitor sobre a
organização da afinidade "entre vivos", ainda que ela seja menos
marcada do que aquela "entre mortos", que "se casam somente com
as primas cruzadas bilaterais" (p. 119), segundo um modelo ideal. Valeria
a pena cogitar acerca da possibilidade de uma hierarquização (no sentido de
Louis Dumont) entre essas duas formas de afinidade.
Aliás, os latos apresentados por Gonçalves sugerem
também uma hierarquização entre entidades, assim como nomes abaisi e ibiisi.
A meu ver, ora os primeiros englobam os segundos já que são
"responsáveis pela culturalização do mundo" (p. 57) e "doadores
de alma", possibilitando um destino escatológico para os ibiisi –,
ora ocorre o contrário, sendo, num sentido tísico, "os ibiisi responsáveis
pela formação dos abaisi" (p. 54); "os abaisi seriam uma
espécie de prolongamento imortal dos ibiisi", já que uma alteração
no corpo de um Piraha provoca uma alteração simultânea no corpo do abaisi"
(p. 53). Esse englobamento recíproco seria uma típica inversão hierárquica
dumontiana mas, em última análise, os abaisi englobam os ibizsi. Assim,
a noção de hierarquia nos ajudaria a pensar a dicotomia abaisi / ibiisi como um contraste, mas não como uma
simples oposição, como nos apresenta Gonçalves. Estaríamos então em posição
melhor para entender em que sentido a primeira classe de nomes individualizaria
menos que a segunda.
A descrição dos rituais e do xamanismo "como um
espetáculo" (p. 91) sugere a superioridade hierárquica dos abaisi, à
medida que é a estes que cabe a iniciativa do diálogo com os ibiisi (pp. 78-9).
Mar, mais importante, os abaisi são os "responsáveis pela
nominação" (p. 58) dos ibiisi, dos (corpos dos) homens Pirata. Como
foi dito, essa nominação se confirma no casamento, mas ocorre no ritual, quando
os abaisi se apresentam ao xamã, que é assim um mediador fundamental.
A outra "fonte de nomes" (p. 64) possível
seria o inimigo capturado. Havia no passado uma classe de guerreiros piraha,
matadores que teriam "domínio absoluto de seu devir, prescindindo do xamã
e mesmo da aliança para obter nomes" (p. 67). Talvez fosse melhor dizer
que o matador prescinde do casamento, mas não "da aliança", já que as
relações guerreiras existentes na Amazônia poderiam ser entendidas como uma
forma de aliança.
A noção dumontiana. de hierarquia seria ainda
imprescindível para o aprofundamento do estudo do fato de que a "concepção
[piraha] do cosmo implica uma noção de totalidade" (p. 84). Além disso, o
próprio Gonçalves indica que "existe uma hierarquia entre os xamãs"
(p. 88) e, a meu ver, mesmo entre mortos e vivos. Mais ainda, a relação entre
nomes e casamentos parece hierárquica, como também a relação entre esses dois
códigos e o alimentar. Penso não só no canibalismo, pois a própria
classificação tripartida piraha dos animais (domésticos, predador e
nãopredador) sugere que a nominação engloba o código alimentar. Isto porque os
não-predador são os semnome abaisi, os domésticos e os predador podendo
então atingir o destino escatológico através de seus nomes. Por outro lado, os
animais domésticos se distinguem dos predador porque os comem e, mais
importante, como Gonçalves nos mostra, comem junto com os Piraha e são
concebidos como iguais a estes.
Se, como tudo indica, o código alimentar piraha é
englobado pela nominação, o papel do xamã não é apenas o de estar
"entre" (p. 93), mas sim em toda parte, isto é, para usar uma
expressão de Dumont, gerar o todo da sociedade. Gonçalves nos montra que
"o xamã desempenha papel fundamental na cosmologia; é a figura central que
permite colocá-la em operação" (p. 80), mas minha sugestão é entender esse
fato de modo ainda mais radical. Assim, para que o xamã possa se deslocar entre
os patamares celestes, terrestre e subterrâneo, colocando seus espectadores em
relação com os abaisi e com os mortos, ele não pode portar "arco e
flecha, terçado, espingarda, assim como não [pode] estar acompanhado de sua
mulher" (p. 80). Ora, longe de "indicar que o xamã é percebido como
um ser não-social" (p. 80), a meu ver tais fatos indicam o oposto: o
xamanismo é, ao lado do casamento e do canibalismo, a terceira, e talvez a mais
importante, forma de aliança, ligando-se à formação de nomes.
Gonçalves mostra que, se "o xamã é a condição de
possibilidade para, se obter nomes, o cônjuge é o meio para sua fixação"
(p. 90). Isto é, o nome é recebido dos deuses através do xamã, mas só é
reconhecido pela sociedade quando afirmado pelo cônjuge. Temos então que, de
certa forma, o cônjuge reproduz a prática do xamã: ambos são doadores de nomes.
É como se a aliança do xamã com os deuses englobasse a aliança matrimonial, o
cônjuge sendo definido como um doador secundário de nomes e a troca de nomes
englobando a troca de mulheres. Essa relação hierárquica se manifestaria ainda
nos rituais que Gonçalves traduz como "festa grande" e "festa
pequena", já que a primeira seria a mais importante por "sua
vinculação com a nominação (p. 99). Nesse sentido, feliz é a sociedade na qual
quase todos os indivíduos podem realizar o ideal que ela mesma se coloca;
"a sociedade piraha possui muitos xamãs" (p. 77).
Os comentários que faço não são certamente aqueles de
um especialista no estudo dos índios sul-americanos, e visam apenas ressaltar
as qualidades desse livro tão rico. Se o centro da análise de Gonçalves é a
nominação, o xamanismo e o canibalismo, vários outros temas importantes são
abordados. Mencionei a análise da domesticação dos animais, mar o livro
contribui ainda para uma antropologia do corpo (ibiisi = corpos
perfeitos, abaisi = deformados), das cores (especialmente p. 122), da
velhice (especialmente p. 133) etc.
Fica apenas a dúvida sobre a afirmação de que "na
sociedade piraha nota-se a ausência de discurso mitológico; (...) o ritual, em
última instância, cumpre a função do mito: sugerir à sociedade sua
estrutura" (p. 95). Isto porque, em outros momentos, há no livro a
sugestão da existência de mitos e de sua importância estrutural, como aqueles
denominados pelo autor como "mitos de recriação do mundo". Afinal,
mito e ritual poderiam conviver, em uma relação de complementaridade. Há um
certo finalismo na sugestão de que inexistem mitos porque os ritos tomam sua
função. Do mesmo modo, a explicação da inexistência de rituais na estação
chuvosa devido à escassez de alimentos (cf. p. 73) lembra aquele paradigma
antropológico que Marshall Sahlins denomina "razão prática".
Finalmente, noto que Gonçalves faz uma importante
contribuição ao descrever uma estrutura em si mesma diacrônica, um
"sistema [que] se movimenta numa só direção: fornecer nomes aos ibiisi"
num "processo contínuo denominação" (p. 58). Infelizmente não há
espaço para reproduzir aqui a "idéia [piraha] da morte como um
processo" (p. 108), mas já se pode antever as linhas básicas da
demonstração de Gonçalves de que, através dos nomes abaisi, do xamanismo
e do canibalismo "a `vida' dos mortos engendra a sociabilidade" (p.
126).
Gonçalves prepara atualmente uma nova exposição do
pensamento piraha. Tomo a liberdade de sugerir que utilize sua percepção da
simultaneidade dos aspectos sincrônicos e diacrônicos da gramática piraha e
aprofunde a análise da dimensão histórica dessa estrutura. Afinal, esse povo
está há séculos em contato com a chamada "civilização branca" e sua
cultura tem uma notável capacidade de reproduzir nesse contexto suas próprias
especificidades, tão bem descritas no livro em questão. Há menções rápidas a
fatos como o dos Piraha venderem castanha (p. 28), adotarem o consumo de carne
de caça após o contato com os "regionais" (p. 65) etc. Qual o sentido
das transformações geradas pelo contato, desse encontro de culturas? Questões
como estas poderiam ser explicitadas em futuros estudos sobre os Piraha, que
deverão necessariamente se fundamentar na brilhante análise da cosmologia desse
povo feita neste livro de Marco Antônio Gonçalves.
Marcos Lanna é doutor
em Antropologia pela Universidade de Chicago e bolsista recém-doutor pelo
CNPq-Unicamp/Departamento de Antropologia.