Na última década, a
estratégia dominante para competir na indústria de alimentos do Brasil tem sido
a diferenciação de produtos. Na literatura econômica entende-se por diferenciação
de produtos "(...) a introdução - na linha de produtos de uma empresa - de
uma nova mercadoria que é substituta próxima de alguma outra previamente
produzida pela empresa e que, portanto, será vendida em um dos mercados por ela
supridos" (Guimarães, 1981, p. 36). Referindo-se às características dessa
forma de competição, o mesmo autor assinala: "(...) O primeiro ponto a
destacar é que, dependendo o sucesso da diferenciação de produtos da habilidade
da firma inovadora em `melhorar' o produto segundo os critérios de avaliação
dos compradores potenciais, existe maior margem para a diferenciação em
indústrias de produtos multidimensionais, nas quais é possível melhorar o
produto segundo cada uma das dimensões pela qual é avaliado" (Guimarães,
1981, p. 38).
Um dos problemas para os
economistas é precisamente definir o termo "melhorar", e é
compreensível que assim seja, uma vez que os termos que remetem ao subjetivo se
subtraem à fixação conceitual. Uma alternativa utilizada pela ciência econômica
para contornar esse problema foi considerar como critérios de escolha dos
consumidores os atributos da ordem técnica da produção, isto é, tomou-se como
pressuposto que o consumidor escolhe segundo critérios objetivos relativos às
propriedades funcionais dos produtos. A citação apresentada a seguir, referente
à evolução dos hábitos alimentares, serve para ilustrar essa perspectiva
analítica:
A diversificação da pauta de
consumo alimentar, revelada pelo número de gêneros consumidos, pode ser
caracterizada pela (...) introdução de novos produtos e pelo desenvolvimento
tecnológico. Pode-se notar, através da formação de cestas de consumo, o esforço
que as famílias fazem para se alimentar adequadamente (Dieese, 1982, p. 11,
grifo nosso).
Assim, se o
"melhor" ou o "adequado" podem ser considerados fatos
objetivos nas práticas alimentares, isto se deve a uma operação metonímica, que
consiste em projetar o paradigma técnico da produção no universo não-técnico do
consumo, operação que somente é possível silenciando-se uma das dimensões das
práticas alimentares: a dimensão simbólica. Este artigo enfocará este último
aspecto, particularmente o fato de que no Brasil um número crescente de
produtos vem sendo produzido como signo.
O sistema valor de uso
Para compreender em que
consiste a produção do alimento como signo devemos nos remeter primeiramente ao
conceito que dificulta sua percepção, a saber, o que denominamos "sistema
valor de uso".
Historicamente, a economia
apropriou-se do consumo: a teoria do consumidor pertence ao paradigma da
economia e portanto sua representação está moldada pelas ferramentas dessa
disciplina. Não pretendemos aqui apresentar uma revisão crítica das teorias
econômicas sobre o consumo, somente assinalaremos, como introdução ao tema em
questão, algumas de suas artérias epistemológicas.
Um dos conceitos básicos
da teoria econômica clássica, e fundamentalmente do paradigma marxista, é o
conceito de valor de uso, que define uma das dimensões da forma
"mercadoria". A pertinência desse conceito foi questionada por
diversos autores, entre eles Baudrillard (1972) e Sahlins (1979), embora suas
críticas se dirijam para além do próprio Marx, uma vez que o que estes autores
colocam em questão é a concepção do consumo embutida no próprio coração do homo
oeconomicus. Suas críticas concentram-se na definição de valor de uso,
enquanto o conceito supõe que cada produto tem uma função objetiva e concreta,
que prescinde das relações simbólicas.
Segundo Baudrillard, essa
concepção permeia tanto a teoria da "maximização" (neoclássica)
quanto a teoria da forma mercadoria (marxista), já que em ambas se suspende a
relação simbólica que os sujeitos estabelecem com os produtos em proveito de
uma visão instrumental que naturaliza supostas utilidades consideradas como
intrínsecas aos produtos.
Caberia fazer uma ressalva
quanto à pertinência dessa crítica, visto que, para o pensamento neoclássico, o
produto se resolve na materialidade de suas utilidades marginais, mas para Marx
este encerra uma relação social fetichizada, embora o fetichismo seja restrito
ao valor de troca. A dupla natureza da mercadoria se expressa, assim, em uma
dupla epistemologia: o valor de troca como fetiche e, portanto, como relação
simbólica, cultural, "misteriosa", e o valor de uso como funcional, material
e "natural".
Por extensão, essa
transparência do valor de uso tem como equivalente uma representação do sujeito
como opacidade, como corpo que define sua subjetividade em termos de adequação
entre necessidades e funções. Neutralizada a significação, os produtos são
definidos segundo funções, e os sujeitos, segundo necessidades. Como diz
Baudrillard, "o homem de necessidades é o homem pensado em termos de valor
de uso".(1)
Em outras palavras:
"(...) a determinação simbólica das necessidades – ou seja, o sistema
cultural relativo aos objetos – é teoricamente dissolvida dentro da ação
objetiva e absoluta da sua satisfação. A intenção histórica é mistificada pela
premissa prática e natural de que as necessidades devem ser satisfeitas. Assim
a cultura é eliminada do ato da sua própria reprodução" (Sahlins, 1979, p.
15 8).
Em síntese, quando o
pensamento econômico se refere ao consumo, opera uma dupla redução semiológica,
que consiste em restringir o produto ao âmbito do objetivo e concreto, e em
fundar o próprio ato de consumir em uma concepção do sujeito como
não-simbólico. Nesse sentido, pode-se afirmar que o valor de uso é um sistema
de equivalências, uma vez que pressupõe que os produtos e os sujeitos são
traduzíveis em um cálculo de otimização funcional.
Dessa forma, o paradigma
econômico negligencia a dimensão simbólica das utilidades e das necessidades,
dimensão que é imprescindível para compreender o que é produto e como se
ordenam as ditas necessidades. Assim, para avançarmos nessa problemática,
devemos nos deslocar do sistema valor de uso em direção ao que para nós é ainda
um "buraco negro": o universo escorregadio da significação.
A lógica do signo
Antes de abordarmos o tema
da significação no âmbito da produção material, comecemos por identificar os
contextos em que esta se desenvolve: o econômico-social, marcado pela passagem
de uma sociedade "metalúrgica" para uma sociedade
"semiúrgica" (Baudrillard); e o teórico, definido pelo deslocamento
do sistema valor de uso em direção à análise da dimensão simbólica.
Vimos o que o sistema
valor de uso nega: o consumo como ato "significativo". Por outro
lado, pode-se considerar que a afirmativa desse sistema está permeada pelo peso
e densidade dos metais. É do universo da produção industrial que o paradigma
econômico do consumo extrai sua força e abrangência; é a partir deste que sua
arquitetura epistemológica é constituída. Necessidade, matéria e utilidade,
suportes de aço do sistema valor de uso, são conceitos que foram emitidos desde
uma episteme que poderíamos denominar "metalúrgica" – sua
lateralidade, positividade e objetividade evocam a matéria, o peso e a solidez
dos metais.
Se a economia
contemporânea conseguiu distanciar-se epistemologicamente da poderosa metáfora
do metal é um tema que excede os objetivos deste trabalho. O que nos interessa,
destacar aqui são os sintomas de uma passagem, histórica e epistêmica, isto é,
que a sociedade contemporânea (que alguns autores qualificam de sociedade da
informação, digital, da comunicação, ou pós-industrial) (2) é cada vez
menos matéria e mais signo; sua infra-estrutura é constituída cada vez menos de
máquinas e ferramentas que lidam com matéria e crescentemente de chips e
instrumentos microeletrônicos que operam com códigos e informações. As novas
tecnologias são pragmáticas das partículas de linguagem (Lyotar, 1988).
Portanto, a sociedade se define cada vez menos pelo peso dos metais e cada vez
mais pela leveza e fluidez de seus códigos imateriais, pela inflação de imagens
e signos. A produção social é cada vez mais, como assinala Baudrillard, uma
encenação semiológica.
Nesse novo contexto, a episteme
"metalúrgica" torna-se inadequada para "processar" o
consumo: onde busca valores de uso, encontra produtos-signo; onde busca
objetividade, encontra subjetividade; onde busca lateralidade, encontra
metáfora; em suma, onde procura matéria, encontra linguagem.
O novo ponto de partida
das análises sociológicas sobre a produção e o consumo nas sociedades
contemporâneas é o de que estes se organizam de forma crescente como processos
de significação, isto é, que todas as utilidades são simbolizadas segundo
coordenadas culturais, de forma que já não existe o produto "em si",
mas sim o discurso sobre o produto,
que constitui sua utilidade. O produto "em si" transforma-se em
produto "para mim", segundo o lugar, o modo e o tempo cultural.
Ou seja, a utilidade não
pode mais ser interpretada como propriedade do produto, nem a necessidade como
impulso biológico. A relação dos sujeitos com os produtos, a relação de consumo,
tende a ser vista ela mesma como um processo de significação cultural.
Esta é a dinâmica que
caracteriza uma sociedade "semiúrgica": os produtos são produzidos
como signos e os signos como produtos, o que implica que, analiticamente, não
seja possível autonomizar o campo da produção material do campo da produção de
signos; o produto, de sua imagem publicitária; a utilidade do produto, do
discurso sobre sua utilidade; seu conteúdo de sua forma.
Referindo-se ao alimento, Barthes observava:
Ao comprar um alimento, o
homem moderno não manuseia um simples objeto, de modo puramente transitivo;
esse alimento resume e transmite uma situação, ele constitui uma informação,
ele é significativo. Pode-se dizer que ele não é simplesmente o índice de um
conjunto de motivações mais ou menos conscientes, ele é um verdadeiro signo, ou
seja; a unidade funcional de uma estrutura de comunicação" (Banhes, 1961,
p. 309).
De fato, deve se destacar
que o alimento foi sempre "significado". Já no Antigo Testamento (Levítico)
existem prescrições dietéticas que classificam as carnes em "puras e
impuras" (Douglas, 1966). Isto é, a alimentação está enraizada na cultura,
está carregada de significações históricas, de curta ou longa duração, que se
relacionam com os diversos contextos socioculturais. Certas conotações da
prática alimentar são inclusive "estruturais", fundamentalmente a
conotação sexual. A ambivalência do termo "comer" ilustra bem esse
ponto. Lembremos que, para Freud, a primeira fase da sexualidade é a oral, uma
vez que a incorporação do alimento, além de ser uma função vital, satisfaz a
pulsão sexual que organiza as relações objetais.(3)
A particularidade dos
alimentos industriais na atualidade não é, portanto, que sejam conotados, mas
sim que suas conotações estejam se multiplicando, diferenciando e adquirindo
sistematicidade. Ou seja, esses produtos não só têm significado, mas, mais do
que isso, são signos produzidos por dispositivos de produção de sentido, como
veremos adiante.
Os novos padrões
alimentares
Recentemente realizamos
uma pesquisa sobre a indústria alimentar no Brasil, (4) na qual
identificamos que o fator considerado mais importante para o desempenho
competitivo futuro das empresas é a "sofisticação do mercado". Nesse
sentido, um dos entrevistados assinalou: "Nossa linha divisória passa cada
vez menos pelos níveis de renda dos consumidores e cada vez mais pela
sofisticação do produto, atendendo a consumidores específicos" (diretor
industrial da Sadia, São Paulo).
No período 1989/90, o
lançamento de novos produtos alimentares cresceu 25% (revista Super Hiper, junho
de 1991). Por exemplo, somente em 1989 a empresa Gessy Lever lançou 42 novos
produtos e a Nestlé, 29, dentre os quais se destacam aqueles identificados como
diet. E interessante assinalar que os antecessores dos produtos
dietéticos, os adoçantes, quando foram lançados, há tricota anos, pelos
laboratórios farmacêuticos eram consumidos apenas por pessoas diabéticas. Já em
1988, a produção de adoçantes foi de 7 milhões de frascos mensais e somente 20%
foi comercializado em farmácias.
Em relação à estratégia
mercadológica das empresas alimentícias, o presidente de uma associação
industrial assinalou o seguinte: "A crescente preocupação do brasileiro
com relação à saúde e ao corpo foi estímulo suficiente. para que os fabricantes
se dedicassem nos últimos dez anos ao lançamento
de novos produtos (...)" ("A ascensão dos dietéticos", revista Super
Hiper, agosto de 1987).
Assim, inúmeros produtos
diferenciados entram em cena e constitui-se um universo de signos para
identificá-los em torno de alguns pólos de atração: a "nutrição", o
"natural" e a "saúde". A alimentação socialmente
considerada "melhor", a "qualidade" do produto, está sendo
crescentemente associada a essas significações, que classificam
hierarquicamente os alimentos, criando e recriando oposições - alimentos
naturais/industrializados; saudáveis/não saudáveis; que contribuem para manter
a forma/que engordam etc.
A gênese desse processo
nos escapa, mas observamos que alguns dos signos que circulam no campo
alimentar- como "saúde" e "nutrição" - provêm de outros
campos de sentido, constituindo assim um sistema de conotação (5) (Barthes,
1990), que podemos denominar medicalização. Alguns alimentos estão
adquirindo uma equivalência simbólica com os medicamentos. Como o medicamento, a atribuição simbólica do alimento
se associa crescentemente a funcionalidades específicas – como emagrecer,
nutrir-se, controlar o colesterol etc. – , associadas à episteme científica.
Observemos um exemplo limite:
Citrofiber é a única fibra
dietética produzida a partir de polpa cítrica selecionada (...) A fibra
dietética reduz significativamente o colesterol, atua como preventivo contra a
diverticulose, o câncer de colo e doenças do coração, e reduz o nível de
glicose de diabéticos, quando incluída na dieta regular (Citrofiber é um
produto lançado recentemente pela empresa Citrosuco, em São Paulo).
Mais ainda, ao obrigar as
empresas alimentares a identificarem os componentes dos produtos, a lei do
consumidor contribui para reproduzir o "efeito bula", possibilitando
que o consumidor possa detectar tanto as "funções" como as
"contra-indicações" do alimento.
Assim, a medicalização
sobredetermina a identidade dos alimentos e também as práticas alimentares, motivando,
por exemplo, a substituição da "alimentação hedonista", ancorada na
procura pela saciedade, pela alimentação adequada a certos fins – saúde e
nutrição – , sustentada em pressupostos de adequação racional.
Portanto o
"novo" desse padrão alimentar é que a proliferação de alimentos se
desdobra conjuntamente com processos de significação, cujos pólos de atração
são o "saudável", o "nutritivo" e o "natural",
constituindo um sistema de conotação sobredeterminado pela medicalização.
As tecnologias de produção
de sentido e o alimento-signo
Uma vez que os produtos
que circulam no mercado são suportes de significações, algumas questões acerca
de onde se origina e de como se desenvolve o processo de significação são
suscitadas.
Uma corrente de reflexão
em torno dessa temática foi a "sociologia da mass media", na
década de 60. (6) Essa corrente teórica considerava que, no capitalismo
avançado, os meios de comunicação de massa constituíam centros privilegiados de
difusão de ideologia e de suporte do consumismo.
Nessa visão, a publicidade
era considerada como um imperativo categórico, detentora do monopólio da
produção de signos, e o consumidor era representado como seu apagado reflexo:
ocupava o lugar do passivo, em uma relação de dominação simbólica. Assim, a
sociologia reproduzia de alguma forma o pensamento econômico dominante naquela
época: se para o discurso econômico a oferta criava sua própria demanda, no
campo da teoria da comunicação, o emissor criava o receptor a sua imagem e
semelhança, como se este apenas respondesse passivamente a estímulos externos,
ao totalitarismo da imagem.
Tal concepção, apesar de
unilateral, tem o mérito de ressaltar a institucionalização da produção de
sentido na sociedade contemporânea, processo que envolve uma fonte emissora,
canais de transmissão e um meio receptor e que tem como resultado a
constituição de signos (unidades diferenciais de significação de uma estrutura
de comunicação - Barthes, 1990).
O que se observa
atualmente é que alguns produtos industriais, especialmente os alimentos, são
produzidos extensiva e intensivamente como signos, a partir de uma diversidade
de dispositivos que denominamos tecnologias de produção de sentido. Esses
dispositivos são instrumentos, métodos e técnicas que visam a criação, a planificação
e o ordenamento de mensagens e imagens (produtos-signo) que circulam no
mercado.
Identificamos três tecnologias
de sentido – "tecnologia da imagem", "tecnologia da
forma", e "tecnologia de ambiente" – que forjam três dimensões
do produto-signo: a publicidade, a embalagem e o espaço de venda.
A fonte emissora das tecnologias de produção de sentido é constituída pelos profissionais de marketing, isto é,
consultoras, instituições e empresas de marketing e publicidade, que têm
por função a construção seletiva de mensagens demandadas pela indústria. A
importância que vem adquirindo a construção simbólica do produto para a
indústria alimentícia deve-se, a nosso ver, a dois fatores gerais:
1. A dinâmica da produção
de alimentos começa a afirmar-se na diferenciação de produtos, de mercados e de
consumidores, daí que as tecnologias de produção de sentido sejam utilizadas
para gerir as diferenciações no espaço da representação.
2. A concorrência entre as
empresas se desenvolve fundamentalmente no campo da significação, onde se
disputa a "lealdade" dos consumidores, razão pela qual os emissores
incorporam às tecnologias de produção de sentido métodos e instrumental
científico para obter um controle maior desse processo. A importância desse
fator se expressa, por exemplo, no volume de investimentos que as empresas
destinam à publicidade.(7)
Uma grande diversidade de
dispositivos opera na construção do produto-signo e vem tendo seus mecanismos
aprimorados a partir de processos similares ao da inovação industrial: projeto
de P&D (definição do produto e do campo de sentido a ser explorado);
pesquisa básica (pesquisas de mercado); desenvolvimento do produto (set
televisivo, outdoor, embalagem etc.); inovações secundárias (adequação às "respostas"
do público) e lançamento do produto. Não que anteriormente a produção de signos
fosse baseada somente na intuição, mas nos últimos anos os instrumentos,
métodos e técnicas utilizados para este fim tornaram-se muito mais
sofisticados. Não nos deteremos aqui na análise da especificidade dos
dispositivos de cada uma dessas tecnologias, somente destacaremos suas
características centrais.
As tecnologias de imagem são as utilizadas na produção da publicidade. Combinam imagens,
sons e legendas para criar conotações em torno de um produto ou de uma marca
comercial. Esses complexos de imagens, sons e legendas que constituem a
publicidade não possuem um sentido unívoco, quer dizer, são complexos
polissêmicos que por sua própria natureza possibilitam múltiplas leituras.
Portanto, as tecnologias de imagem têm uma função denominativa, que consiste em
fixar o produto-signo em uma cadeia flutuante de significados, de forma que o
receptor "(...) se desvie de alguns e assimile outros, por meio de um dispatching,
muitas vezes sutil [que] o teleguia em direção a um sentido escolhido a
priori" (Banhes, 1990).
Nesse sentido, a
racionalidade científica na produção publicitária opera uma
"cirurgia", que consiste em extirpar as possibilidades de metástases
de sentido, cuidando para que permaneça somente um signo (uma legenda, um
símbolo etc.) que seja reconhecível e identificável pelo receptor e que assim
constitua apropria essência do produto.
Além de fixar o sentido, a
tecnologia de imagem busca ainda realizar a operação de naturalizá-lo,
manipulando códigos culturais socialmente dominantes. Para que a mensagem não
seja percebida como artificio, as tecnologias de imagem organizam seu material
(palavras, objetos, comportamentos), condensando os códigos culturais e
adequando-se a suas transformações.
Assim, por exemplo, se a
publicidade de alimentos tradicionalmente enfatizou o "saber da mulher
como dona de casa, que cuida do bem-estar da família", atualmente a situa
também em outros jogos relacionais, associados crescentemente aos pólos de
atração simbólica já citados. A mulher aparece jovem e sensual, ou jovem e
esportista, imagens que remetem à "boa forma" e á "saúde".
O corpo diet ou light aparece como uma nova figuração do feminino,
desvinculada das tarefas domésticas. Da mesma forma, o "espaço
convocante" tradicional das propagandas de alimentos, constituído pela
mesa familiar, está sendo substituído por lugares mais "íntimos" do
lar, que mobilizam o estético e o erótico, ou por ambientes externos, que
colocam em continuidade o alimento e a natureza.
Outra das tecnologias de
produção de sentido, a tecnologia de forma, está embutida na própria produção
material. Na pesquisa a que nos referimos anteriormente, observamos que muitos
dos novos produtos alimentícios lançados no mercado não tinham se originado a
partir de mudanças no processo de elaboração; a novidade desses produtos se
encontrava no tipo de embalagem e em seu desenho.
Um especialista em design
de embalagens atribui a importância que as empresas vêm dando à embalagem à
crescente difusão dos supermercados. Se anteriormente a venda dependia da
figura do vendedor e de sua argumentação, na atualidade o vendedor ausente é
substituído pela embalagem que, além de conter e proteger o produto, passa a
ter a função de ser sua "síntese visual", com o fim de atrair a
atenção do consumidor e reatualizar seu "encontro" com o produto.
Para cumprir essas
funções, essa tecnologia opera criando as características ópticas da embalagem (cores,
contrastes; legibilidade, forma, tamanho e outros atributos), que variam
segundo as particularidades do produto e seu mercado. Assim, essa dimensão do
produto-signo permite ressaltar diferenças em relação a outros similares,
sendo, portanto, um fator de concorrência. Nesse sentido, a embalagem se
converte em um corps d'images, que informa sobre a identidade do
produto. O mesmo entrevistado destaca o seguinte:
Para a maioria dos
consumidores, a embalagem se confunde com o próprio produto. (...) A maioria
das mercadorias é constituída de pó, pastas, líquidos, coisas inanimadas e
indistintas, que somente depois de receberem a marca e serem embaladas ganham
identidade ("O marketing do vendedor silencioso", revista Super
Hiper, julho de 1986).
A identidade do
produto-signo é sua conotação, e por isso cada embalagem busca constituir
significações específicas, embora também remeta ao "saudável", ao
"nutritivo" e ao "natural", padrão de significação que se
vem tornando dominante também na embalagem dos alimentos. Nas palavras de um
profissional de design de embalagens:
Em termos de criação,
recebemos muitos pedidos voltados para produtos naturais, ou que se dizem
naturais. Então, a embalagem tem que mostrar, através de cores e desenhos, a
identificação do produto com a natureza. ("Embalagens: repensando formas e
materiais", revista Super Hiper, junho de 1987).
No mesmo sentido, o
representante de uma empresa de embalagens de alumínio assinala:
É exatamente através do
apelo ecológico à consciência do consumidor que á empresa pretende conquistar
definitivamente o mercado, já que a embalagem é totalmente reciclável, evitando
problemas ambientais. ("Apelo ecológico para conquistar o
consumidor", revista Super Hiper, maio de 1990).
Outra das tecnologias de
produção de sentido é a tecnologia de ambiente. Esta tecnologia, que vem sendo
adotada fundamentalmente nos supermercados, visa classificar o espaço de
compra, agrupando os produtos segundo significados sociais específicos. Cores,
iluminação, displays, dispenseis, arquitetura ordinal de produtos,
planificação estratégica da circulação, são alguns dos dispositivos que essa
tecnologia emprega para criar uma sintaxe de lugares e coisas, uma
multiplicidade de pequenos domínios fragmentários de semelhanças de sentido.
A centralidade que essa
tecnologia vem adquirindo possibilitou a emergência de saberes específicos,
próprios de uma sociedade semiúrgica, como, por exemplo, a
"exibitécnica" - técnica e arte de bem expor, dispor e exibir os
produtos -, que conforma uma das "disciplinas" do merchandising
("Promoção. A engenharia para levar o produto ao comprador", revista Super
Hiper, dezembro de 1988).
Os alimentos não são
distribuídos nas prateleiras dos supermercados de forma aleatória, mas segundo
um planejamento estratégico do espaço, que busca criar significações. Na
maioria dos grandes supermercados utiliza-se um software que permite distribuir
os produtos na loja segundo suas margens de lucro e seus graus de parentesco
simbólico. Os produtos de consumo popular (arroz, feijão, sal etc.), que todo
cliente procura e que têm reduzidas margens de lucro, são colocados nos
lugares mais afastados para possibilitar que os espaços centrais e mais
visíveis sejam ocupados pelos produtos mais sofisticados, de alta margem de lucro.
Estes, por sua vez, são ordenados segundócertas isonomias
de sentido, ancoradas em uma Classificação simbólica do espaço: corredores geracionais (produtos para crianças, por
exemplo), corredores estéticos (produtos dietéticos e produtos de uso feminino),
corredores "naturais" (produtos macrobióticos e sem aditivos
químicos), e assim por diante.
Como demonstração do
alcance da tecnologia de ambiente pode-se observar que os consumidores
incluem em suas compras de supermercado certos produtos que não teriam
escolhido caso não estivessem visíveis, ou situados em determinado espaço de
sentido (iluminação, identidade ou diferença entre produtos, promoções etc.). O
software, como um demiurgo, cria no consumidor uma necessidade.
De fato, se o objetivo do
desenvolvimento das tecnologias de sentido é mobilizar "necessidades"
é porque existe algo resistente nos hábitos alimentares que coloca em suspenso
as possibilidades de um consumo ascendente e diferenciado. O alimento,
diferentemente de outros produtos industriais, é adquirido quase diariamente,
motivo pelo qual se estabelecem certas práticas de rotina na escolha dos
produtos (Wilkinson, 1991). Como o que está em jogo é a capacidade de criar
novos hábitos (ou de antecipar-se a sua emergência), as tecnologias de produção
de sentido têm que expandir-se para diversos espaços e sofisticar seus
dispositivos.
Entretanto, embora neste estágio a produção de alimentos-signo se tenha tornado sistemática e planificada, não é auto-suficiente, no sentido de que está sujeita a tantas incertezas quanto o lançamento de um novo produto industrial. A inflação de signos pode gerar saturação, resistências ou contramotivações, razão pela qual as empresas investem crescentemente em "pesquisa básica" (pesquisas de mercado). Tais pesquisas, de forma análoga às atividades de P&D na produção, procuram reduzir as incertezas da emissão do discurso, tornando sua recepção mais previsível.
Segundo as atuais teorias
da comunicação, (8) o receptor
do discurso não é uma figura passiva; ele também é emissor, porque re-significa
as mensagens, e as "reemite", sob a forma de rejeição ou aceitação.
Portanto, pode-se dizer que os sujeitos têm um papel ativo no processo de
significação; os sujeitos vivem de símbolos que eles também criam. Um exemplo
disso é que, paralelamente ao novo padrão alimentar industrial, se desenvolve
um outro, constituído pelas práticas alimentares macrobióticas, naturistas e
vegetarianas, que se nutrem, no plano simbólico, de fontes excêntricas às
tecnologias de sentido. Embora esses tipos de prática alimentar se relacionem
com os mesmos pólos de atração simbólica do novo padrão industrial, existe
entre eles uma disputa sobre o sentido do que é "natural",
"saudável", ou
"nutritivo". O padrão alimentar constituído pelas práticas
macrobióticas, naturistas e vegetarianas, que poderíamos chamar de alternativo,
se afirma precisamente na negação das significações associadas ao padrão
industrial: ao alimento industrial opõe o artesanal; à "marca" opõe o
conhecimento sobre a origem do produto; à racionalidade científica sobre a
função do alimento opõe o saber oriental sobre o equilíbrio energético; à
performance do corpo opõe sua preservação.
Em síntese, as tecnologias
de produção de sentido não detêm o monopólio da produção de sentido, não
suturam o espaço da significação. Como assinala Sahlins:
Essa visão da produção como
substancialização de uma lógica cultural deveria impedir-nos de falar
ingenuamente da geração da demanda pela oferta, como se o produto social fosse
a conspiração de uns poucos "tomadores de decisão", capazes de impor
uma ideologia de moda através dos enganos da publicidade. (...) Nem deveríamos
cair na mistificação inversa, da produção capitalista como resposta aos desejos
do consumidor. (...) Deveria ser possível sobrepor-se a todas essas
representações subjetivas para uma descrição institucional da produção
capitalista como um processo cultural. Evidentemente, essa produção é
organizada para explorar todas as possíveis diferenciações sociais através de
uma motivada diferenciação de bens. Ela se desenvolve de acordo com uma lógica
significativa do concreto, de significação das diferenças objetivas,
desenvolvendo, portanto, signos apropriados para as distinções sociais
emergentes. O produto que chega a seu mercado de destino constitui uma
objetivação de uma categoria social, e assim ajuda a constituir esta última na
sociedade; em contrapartida, a diferenciação da categoria aprofunda os recortes
sociais do sistema de bens (Sahlins, 1978, p. 205).
Alimento e diferenciação social
A citação não poderia ser
mais pertinente para introduzirmos outro aspecto do alimento-signo: sua relação
com a constituição de identidades sociais. A relação entre o alimento e a
conformação da identidade pode ser rastreada a partir do conceito de incorporação.
(9) Segundo Fischler (1985), o ato de incorporação de alimentos é
uma das bases do processo de identificação, porque está associado a uma
representação que ele define como contaminação analógica, ou seja, a de
que certas características do alimento se transferem para o comedor. Frases do
tipo: "a carne dá força", ou "as verduras são leves",
ilustram este ponto. Portanto, a incorporação do alimento seria consubstancial
à conformação do próprio corpo, não somente do ponto de vista biológico, mas
também simbólico, uma vez que o consumo alimentar é também um processo no qual
se metabolizam identidades individuais, estabelecendo um principio de
alteridade no corpo-a-corpo.
Nesse sentido, poderia se
dizer que a incorporação de alimentos-signo produz também corpos, neste caso
corpos que refletem um imaginário social. A "contaminação analógica"
aqui se faz entre a idealização de um corpo - saudável, forte, belo - e o corpo
atual. Por essa razão, a escolha do alimento ou de uma dieta provoca ansiedade,
visto que escolher os alimentos é também escolher "um corpo" entre os
modelos que flutuam no imaginário social.
Por outro lado, no consumo
do alimento-signo está em jogo também um processo de distinção e de
classificação social (Bourdieu, 1979). Entretanto, a nosso ver, tal
classificação social não pode ser construída linearmente, como se a uma classe
social correspondesse um repertório de produtos, e a estes alguns significados
sociais específicos, como se cada produto conotasse uma pertinência social. A
significação é constituída por projeções, imaginários, mitos, que não têm
necessariamente uma equivalência estrutural de classe. De certa forma, os
produtos-signo desafiam as equivalências estruturais, implodem por dentro das
classes sociais e por fora delas.
No limite, no campo
alimentar cada produto fala para cada sujeito, e constituem-se dialetos,
inicialmente compreendidos somente por determinados grupos onívoros, (10)
como os "naturistas", os diet, os light, os macrobióticos
etc. As identidades sociais agora são também alimentares, os hábitos
alimentares estão sinalizando diferenciações sociais, como o fazem o tipo de
vestimenta, o corte de cabelo, ou a presença em certos espaços sociais. As
práticas alimentares cada vez mais definem identidades que estabelecem recortes
sociais entre o mesmo e o outro.
Entretanto, embora o grupo
se identifique com o símbolo, não controla sua circulação. Os produtos-signo,
como alguns dialetos, ultrapassam a comunidade para constituírem línguas
universais. O produto-signo não tem uma pertinência social fixa, foge do
"nicho", uma vez que, estando sujeito a estratégias comerciais, terra
de expandir sua área de atuação, sua parcela no mercado de bens simbólicos. O
mesmo acontece com as identidades sociais. Se o símbolo vai além dos
"descobridores", a identidade destes pode dissolver-se em círculos
maiores, "extraviando-se" no universo da mídia. Mas a extensão não
implica necessariamente destruição, já que a identidade dos grupos pode
persistir mesmo que suas práticas e representações se difundam.
No entanto, deve-se
sublinhar que as condições sociais de existência, especialmente na sociedade
brasileira, estabelecem limites pára a circulação dos produtos-signo. Uma
grande proporção da população, estrangulada na urgência das pressões materiais,
não consome os produtos dos "novos padrões", aliás, talvez consuma
mais os signos que os produtos.
Por cima da espada de
Dâmocles, o sistema alimentar está gerando uma multiplicidade de espelhos, de
produtos-signo para que novas categorias sociais se reconheçam e, portanto, se
diferenciem de outras no próprio ato de consumir. Neste estágio, em que o
alimento é cada vez menos matéria e mais símbolo, uma moderna tecnologia
perturba insistentemente nossos inocentes imaginários.
NOTAS
1. Embora as necessidades tenham para Marx um fundamento antropológico pré-simbólico, possuem um caráter histórico detern~inado pelas capacidades técnicas de produção, aspecto negligenciado pelo paradigma neoclássico.
2. Ver entre outros: Nora e Mine, 1978; Mercier, 1985; Arnaud, 1979; Mattelard e Stourzé, 1985; Tourraine, 1973.
3. Não é de se estranhar, portanto, que o aparelho publicitário construa cenários nos quais o erótico apresenta o alimentício, mobilizando assim nossos desejosa partir da mais primitiva das experiências.
4. "Dinâmica tecnológica nas indústrias agroalimentares no Brasil". Tese de mestrado, CPDA/UFRRJ.
5. Conceito cunhado por Barthes para referir-se à situação na qual um sistema adota os signos de outro sistema, para deles fazer seus significantes.
6. Um dos livros paradigmáticos dessa corrente é Orce-Dimensional Man: Studies in the Ideology of Advanced Industrial Society (Marcuse, 1974).
7. Nos últimos anos, entre as empresas que mais investiram em publicidade destacam-se as alimentícias ("Indicadores", revista Super Hiper, setembro de 1991).
8. Lyotar, 1988. Ver especialmente o capítulo V, que se refere à comunicação social a partir da perspectiva dos "jogos de linguagem" de Wittgenstein. Sobre o mesmo tema, ver Habbermas (1991), especialmente o capítulo II, relativo à crítica da teoria do significado.
9. Incorporação é "(...) a ação através da qual a comida atravessa a fronteira entre o mundo e o `self', entre o fora e o dentro de nosso corpo" (Fischler, 1985, p. 280).
10. Ser onívoro (Rozin, 1976; Fischler, 1980 e 1985) é uma
característica do ser humano, que, diferentemente dos comedores especializados,
pode ingerir uma multiplicidade de alimentos ou mudar de dieta e, além disso,
necessita de um mínimo de variedades, daí sua tendência à exploração e à
diversificação alimentar. Mas como, paradoxalmente, outra das características
do onívoro é rejeitar o alimento desconhecido, ou desconfiar dele, geram-se
tensões e ansiedades que tendem a ser socialmente neutralizadas a partir de práticas,
regras e normas que classificam o familiar e o estranho, permitindo
distingui-los (Douglas, 1966). Portanto, denominamos grupos onívoros um grupo
social que possui práticas e representações alimentares em comum, diferentes
das de outros grupos, ou mesmo opostas a elas.
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