A SOCIABILIDADE DOS IDOSOS CARIOCAS E PARISIENSES

A busca de estratégias para preencher o vazio da inatividade (*)


Clarice Peixoto

 

Se a velhice é, na França, uma questão social que já há algumas décadas tem merecido a atenção dos poderes públicos, bem como das ciências sociais, no Brasil essa questão está ainda à margem das políticas governamentais e só recentemente certas áreas das ciências sociais despertaram para o tema. Apesar dos inúmeros estudos já realizados na França, as pesquisas comparativas internacionais sobre esse tema são ainda raras. O estudo comparativo não pressupõe, necessariamente, a criação de um método de investigação distinto daquele empregado nas comparações realizadas no interior de um mesmo país ou de uma mesma cultura. Ele consiste, fundamentalmente, na análise dos fatos sociais inscritos em mais de uma sociedade e, portanto, na observação de situações sociais naquilo que elas apresentam de semelhante e/ou diferente. Ainda que consideradas como grandes metrópoles, Paris e Rio de Janeiro apresentam características dissonantes, tanto do ponto de vista econômico e social – enquanto cidades do Primeiro e Terceiro mundos -, quanto do cultural e demográfico. Considerando esses fatores e, principalmente, que a população brasileira de mais de 60 anos, segundo dados do Censo 91, aumentou de 6% para 7,3% entre 1980 e 1990 (e que as estimativas estatísticas prevêem que essa população represente, no ano 2010, 9,2% da população total - ou seja, que a pirâmide etária apresentará um novo desenho, aproximando-se cada vez mais da forma francesa, com 19,9%), decidi estudar esses dois contextos urbanos distintos, centrando a comparação em certos grupos pertencentes às cangadas médias francesa e brasileira. A análise comparativa baseia-se, a priori, nas diferenças entre os contextos sociais estudados, mas a importância e o significado das similitudes não podem ser negligenciados: o elo entre esses grupos sociais é a criação de manifestações espontâneas de sociabilidade nos espaços públicos, um aspecto ainda pouco explorado pelos pesquisadores franceses e brasileiros.

A inserção nos grupos estudados obedeceu a estratégias diferenciadas: na França, foi necessário transformar o universo exótico em familiar para compreender seu sistema de classificação e codificação, a visão de mundo de seus habitantes, a lógica das relações sociais. Esse processo de desvendamento, permitindo atravessar o limiar da familiaridade, exige um esforço sistemático de interação com a cidade e com seus habitantes: um mergulho profundo no processo de descoberta, no qual só o contato lento e contínuo permitiu que me desvestisse do exotismo de minha identidade estrangeira e entrasse no jogo das relações. Nos grupos brasileiros o procedimento se deu às avessas: partir da familiaridade aparente e estranhá-la, para poder interpretar as significações culturais desse outro, próximo. O fato de pertencer à mesma sociedade que os grupos observados não significava, necessariamente, que os conhecia. É verdade que, no processo de inserção, falar a mesma língua, conhecer os códigos e as regras das relações face a face são elementos favoráveis à interação junto ao grupo investigado (Da Matta, 1978; e Velho, 1978).

Encantada, tanto com o cenário que oferecem os jardins públicos parisienses, as praças e as praias cariocas, quanto com seus freqüentadores idosos, e impressionada com a solidão aparente destes, decidi transformar essa curiosidade antropológica em um estudo aprofundado para desvendar os mistérios dessas práticas sociais tecidas cotidianamente ao ar livre, lá e cá. Além disso, busquei entender em que medida essas manifestações sociais podem revelar um sentimento de pertencimento a um espaço territorial determinado, favorecendo, desse modo, a construção de uma identidade ligada à idade, à velhice. Ao analisar as relações sociais tecidas nos espaços públicos freqüentados sobretudo pelos idosos, pretendi desvendar esse sentimento de identificação com certos territórios e com esse grupo etário específico.(1)

As praças e as praias constituem alguns dos poucos espaços públicos gratuitos da cidade, o que permite às pessoas idosas freqüentá-los assiduamente: o objetivo comum de preencher o tempo livre as leva a se agrupar em torno de seus pares, tecendo laços a partir da identificação com o grupo da mesma idade, localizado num espaço demarcado por fronteiras bem nítidas. Pautados em critérios de pertencimento, expressos a partir de uma convivência cotidiana, eles constroem um sistema de seleção nas suas relações de amizade, e mesmo de amor. Entretanto, suas práticas, seus gostos e seus hábitos ficam marcados pelos valores inerentes à camada social a que pertencem, determinando dessa forma seu comportamento social. Na realidade, esses indivíduos estão sujeitos às mesmas normas morais que definem as práticas coletivas do comportamento público expressas nos contatos face a face.

No Brasil, como não existe uma política social específica destinada à velhice (2) cabe aos próprios velhos assegurar sua sobrevivência, bem como suas estratégias de sociabilidade. E se, nas camadas populares, a sociabilidade dos idosos é quase restrita ao núcleo familiar e às relações de vizinhança, mesmo porque as precárias condições de vida não lhes permitem obter uma autonomia financeira em relação aos filhos, nas camadas médias a solidão, causada pela transformação das relações familiares, leva essas pessoas a buscar companhia e distração nos espaços públicos. As praças e praias transformam-se, assim, nos pontos de encontro favoritos dos idosos.

O bairro de Copacabana apresenta a mais alta concentração de idosos da cidade do Rio (3) e por isso selecionei dois grupos no mesmo espaço geográfico, o Posto 6, situado no final da praia: "O Clube Recreativo do Posto 6" e a "rede de vôlei da tia Leah". Alguns dos idosos participam das atividades de ambos espaços e partilham um duplo sentimento de pertencimento. No clube dos aposentados, os associados se reúnem em torno das mesas de cartas, gamão e xadrez há mais de vinte anos. A ocupação desse espaço público em caráter privado (4) se deu pouco a poucos, com a conivência da prefeitura local, já que esta não oferecia nenhuma outra atividade alternativa aos aposentados. Entre os membros do clube, a maioria pertence às camadas médias, embora os de origem popular também se façam representar. Desse modo, choferes de táxi jogam com industriais, policiais subalternos com generais, pequenos comerciantes com médicos e advogados etc.

O outro grupo, formado pelos freqüentadores da rede de vôlei da tia Leah (74 anos), existe desde os anos 40. Espaço fechado, mesmo que suas fronteiras não sejam tão nítidas quanto as do clube dos aposentados, essa quadra de esporte é totalmente controlada por Leah, que dita as regras do jogo aos participantes de todas as idades: idosos, jovens, e mesmo profissionais, seguem á risca as condições por ela impostas.

Nesse território de sociabilidade só entram os convidados da anfitriã que, pertencente a família tradicional do bairro, é rigorosa na seleção dos jogadores: os candidatos de origem popular são eliminados.

A poucos quilômetros de Copacabana, na praça Antero de Quental, no Leblon, um outro grupo de idosos se reúne nos fins de semana. (6) São amantes da dança, não importa o estilo ou o ritmo: valsa, bolero, forró, samba, lambada etc. Nesse salão ao ar livre, eles dançam juntos ou separados ou, simplesmente, ficam entre aqueles que acompanham a melodia apenas com o balanço do olhar, como meros espectadores.

Como elemento de comparação com as praças brasileiras escolhi a praça de Batignolles, situada no coração do bairro de mesmo nome, no norte de Paris, no XVIIe arrondissement. Como dizem os parisienses, essa praça fica entre o mauvais dix-septième (maior concentração de imigrantes africanos e árabes) e o bon dixseptième (setor nobre de Paris, próximo ao Champs Élysées). A grande maioria dos moradores desse bairro delimitador de fronteiras pertence às camadas médias parisienses. O square Batignolles é uma praça típica de Paris, cuja freqüência é fortemente marcada por velhos e crianças; raros são os imigrantes que a freqüentam. Não sofrendo grande afluxo de turistas, como o Jardin du Luxembourg e o Bois de Bologne, ela é bastante representativa da vida cotidiana dos idosos parisienses.

A solidão não é específica da velhice: esses personagens têm estratégias para dissimula-la e mesmo esquecê-la ou eliminá-la. Assim, o ponto que une essas quatro cenas sociais é o processo de formação de pequenos grupos a partir da multidão: os modos de aproximação, os critérios de escolha dos parceiros e os lugares preferidos de encontro são específicos de cada grupo social. De todo modo, assemelham-se em seu objetivo principal: romper com a imagem de decadência, recriando uma harmonia entre as idades. A velhice possui, nesses cenários, um valor simbólico, onde a sensação da morte que se aproxima pode provocar, paradoxalmente, novas vontades, um novo sopro de vida.

A pista de dança e a mise-en-scène dos jogos amorosos

Nos bailes públicos, a pista de dança é aberta a todo mundo. A mise-em-scène orquestrada pela música induz ao jogo da sedução, através da troca de olhares, do contato dos corpos ou do simples toque das mãos: o baile pode marcar o começo ou o fim de uma relação, favorecendo os encontros ditados pelas regras do jogo amoroso. Ao analisar o papel do baile público na descoberta do parceiro amoroso, Bozon e Heran (1987) mostram que a dança há longo tempo ocupa um lugar importante nas formas de aproximação, bem como na escolha do companheiro. Entretanto, na rede dos encontros o baile perde, sobretudo no meio urbano, o privilégio do lugar ideal para o desencadeamento do jogo amoroso. Ele é substituído pelas boates, pelas discotecas ou pelas festas privadas, bem como por outros lugares públicos, como bares, cinemas etc. De fato, ao longo do tempo o baile passou a ser um espaço de sociabilidade reservado a certos protagonistas, especialmente ás pessoas mais velhas, já que eles não mantêm mais contatos com os colegas de trabalho, raramente encontram os amigos e vêem menos freqüentemente seus familiares, sobretudo na França. Nesse sentido, é nesses lugares públicos que eles buscam os companheiros de batepapo, os parceiros de dança e mesmo os possíveis namorados.

Em Paris, os amantes dos bailes musettes, (7) das guinguettes - cafés dançantes existentes à beira do rio Marne ou dó Sena – , bem como dos bailes semanais promovidos pelos clubes de terceira idade das prefeituras dos bairros, (8) em geral são os idosos em busca de companhia. Esses lugares fechados possibilitam, mais que as praças, o relacionamento com o outro, uma vez que os freqüentadores nutrem o gosto pela dança que, por sua vez, estabelece uma relação quase imediata. E se o baile público não atrai mais os mesmos personagens de outras épocas, o estilo e a forma do encontro também mudaram: na idade madura, as preferências na escolha dos amigos ou dos parceiros amorosos não são tão rigorosamente marcadas como na escolha do primeiro namorado. O que se nota é que mesmo que o baile não seja mais o espaço promotor de encontros entre os jovens, substituído por outras cenas sociais, ele continua a desempenhar um papel importante na sociabilidade dos idosos, tanto como espaço de convívio quanto como lugar para encontros amorosos.

Por exemplo, nos bailes semanais dos clubes de terceira idade dos bairros parisienses, os amantes da dança são os mesmos personagens que participam de outras atividades promovidas pelo clube. A dança é parte integrante desses espaços de convivência restritos aos idosos, que são tão divulgados na França e tão raros no Brasil. (9) De todo modo, o baile é, talvez, a atividade mais descontraída, pois a música toca o fundo da alma e a dança provoca a aproximação dos corpos. Essa vontade de acompanhar o ritmo de uma valsa, de um béguine, de um slow ou de um tango cria, então, um sentimento de pertencer a esses territórios.

Já o baile da praça Antero de Quental difere dos promovidos pelos clubes de terceira idade e mesmo daqueles dos salões parisienses. Primeiro, porque não se trata de um espaço fechado, onde o público se restringe aos idosos. Depois, porque essapista de dança congrega um conjunto de protagonistas de idades e categorias sociais diversas. Mas o que diferencia, fundamentalmente, um espaço do outro é o grau de pertencimento aos territórios: nas praças são os idosos que se apropriam do espaço e, talvez por isso, o sentimento de pertencimento é mais exacerbado; os clubes de terceira idade, por sua vez, são associações criadas e administradas por instituições públicas ou privadas, que impõem maior controle e formalidade às relações entre os idosos. Talvez por isso, o grau de envolvimento destes seja menor. Entretanto, tanto numa situação quanto na outra, numerosos são os idosos que, já tendo vivido um primeiro casamento, são candidatos a uma segunda experiência amorosa. O que impulsiona as pessoas a se dirigirem unia à outra é, sobretudo, a vontade de dançar. Nesse sentido, não existem restrições absolutas ou grandes interdições sociais: para aqueles que buscam simplesmente dançar, as diferenças de idade ou de origem social não contam muito. No entanto, aqueles que procuram um parceiro amoroso são, em geral, mais sujeitos aos preceitos das regras sociais, pois seu cotidiano está inserido num sistema de valores que determina os comportamentos. Nesse caso, o convite para dançar é ditado, antes de tudo, pela escolha de um parceiro cujos valores culturais e sociais estão inscritos na mesma rede de convenções. Facilitando a formação dos pares e dos jogos amorosos, o baile público permite dois tipos de relacionamento amoroso. O primeiro se caracteriza pelas relações estabelecidas nos bastidores do baile, interditado pelas normas sociais que dispõem sobre as diferenças sociais ou de idade. Dentre as várias situações analisadas destaco apenas duas: Marlene (60 anos, viúva de médico e dona de casa, proprietária do apartamento onde mora, no Leblon) e João (57 anos, casado, dois filhos, porteiro de prédio no mesmo bairro). Eles se conheceram no baile da praça e formam um dos melhores pares de dançarinos; já ganharam um concurso na praça, cujo prêmio foi uma viagem a Buenos Aires. Seus encontros são clandestinos; somente alguns dos parceiros do baile sabem do namoro e, como cúmplices, acobertam os encontros. Já Oscarina (71 anos, viúva de funcionário público, costureira aposentada, inquilina no Leblon), mantém uma amizade amorosa com Dirceu (jovem de 29 anos, solteiro e faxineiro de prédio na mesma rua). São encontros rápidos, para jantar ou conversar.

É só uma distração. Moro só e me sinto muito solitária, então uma companhia sempre cai bem. Todo mundo diz que ele é muito jovem para mim. Nós já nos separamos, mas ele insistiu para voltar, me escrevia bilhetes dizendo que estava com saudades. Aí voltamos em segredo: ele vem jantar, ver televisão, a gente brinca (...)

Ao construir uma imagem favorável do namorado ela está, na verdade, buscando assegurar uma companhia para romper a solidão. Já Dirceu parece atribuir a essa relação amorosa efêmera a condição obrigatória para a ascensão social. Os dois casais, ao transgredirem as interdições sociais, praticam uma espécie de trapaça junto à família e ao círculo de amigos, pois, mantendo-se na clandestinidade, evitam os conflitos familiares, sem deixar de satisfazer seus desejos amorosos. O reconhecimento dos "dançarinos-trapaceiros" por parte de seus companheiros parece ser quase imediato; entretanto, em momento algum os namoros clandestinos são revelados publicamente. O baile, seja em salão ou ao ar livre, é assim um território excepcional para a criação de um elo entre os parceiros, levando-os a lançar mão de todas as facetas do jogo amoroso.

No segundo tipo de ligação amorosa, uniões informais ou casamentos tradicionais, a escolha do companheiro é freqüentemente ditada pela homogamia e a diferença de idade é, invariavelmente, favorável ao homem. (10) Esses relacionamentos não são freqüentes, pois, em se tratando de mulheres de mais de 60 anos, candidatas a uma segunda união, existe da parte dos filhos uma forte rejeição: já tendo netos, elas são freqüentemente requisitadas para ocupar-se deles e uma nova união as libera dessa tarefa familiar. Por outro lado, elas deixam de contribuir, com suas aposentadorias, para a economia familiar: Berenice (63 anos, dona de casa, viúva há 29 anos e morando com a filha mais nova) conheceu Gilberto (75 anos, viúvo sem filhos e funcionário público) no baile da praça e, ao decidirem casar-se, encontraram forte resistência da filha dela.

Mas, quando é que as pessoas trapaceiam com as regras do jogo e quem trapaceia? Já assinalamos que as interdições à formação de uma segunda união são freqüentemente impostas pelos filhos. Estes são os principais adversários dos jogos amorosos de seus pais, novamente celibatários. Tudo parece indicar que nos homens idosos que buscam uma segunda união, apesar do mal-estar que demonstram ao falar de sua vida sexual, o desejo de encontrar uma companheira para partilhar tanto a vida cotidiana quanto a vida sexual é mais forte que o das mulheres. (11) Tal como elas, muitos deparam com a oposição dos filhos quando se trata de um segundo casamento. A herança não é o único argumento de oposição dos filhos: a substituição simbólica da mãe na casa paterna parece ser o tabu maior.

Mas é, sobretudo, a vontade de cada um de morar em seu canto (12) que parece explicar a preferência de certos homens e mulheres idosos por não voltar a se casar: os candidatos a uma nova união que querem preservar sua independência, tanto quanto os laços com os filhos, são levados a praticar o jogo amoroso às escondidas, em encontros furtivos, protegidos dos olhares familiares. Isto significa que são obrigados a descobrir outras estratégias de relacionamento que não impliquem o formalismo da união. O objetivo desses encontros clandestinos é quitar o território do jogo amoroso com a sensação de vencedor: trapaceando -sobre as aparências, eles violam as regras familiares. Entretanto, existem também aqueles que, embora casados, freqüentam os bailes públicos contra a vontade de seus companheiros. O gosto pela dança é um álibi para a prática dos flertes clandestinos, uma vez que permite a troca de casais entre uma música e outra: talvez seja esta a razão que leva Antônio (75 anos, professor aposentado) a bailar com todas as dançarinas mais jovens da praça.

O jogo das cenas sociais: de um passo de dança ao xeque-mate, da jornada nas estrelas ao vôo dos pardais

Os lugares públicos a céu aberto, principalmente as praias e as praças, foram sempre considerados como espaços de lazer, lugares de encontro e, portanto, territórios privilegiados de sociabilidade. Tudo parece indicar que a apropriação desses territórios pelos grupos sociais é bastante sutil: suas fronteiras são vagas e suas barreiras, muitas vezes, imperceptíveis. É verdade que existem nesses espaços territórios que são freqüentados essencialmente por um ou outro grupo social (como a rede da tia Leah, por exemplo), mas isto não é a regra geral, pois nem sempre a pirâmide social é facilmente perceptível nos espaços abertos a todo mundo. O que se percebe mais claramente é a pirâmide das idades: as pessoas se reagrupam, principalmente, em torno dos mesmos grupos de idade.

No clube do Posto 6, os jogos de cartas, de xadrez e de gamão são considerados um passatempo para preencher o vazio criado pela inatividade profissional: "É o lugar que a gente fica esperando a morte chegar, um cemitério de elefantes", no dizer de Lourdes (76 anos) que, aliás, se recusa a participar do Clube dos Aposentados, preferindo jogar cartas em casa de amigos. Encontramos a mesma representação junto a alguns dos membros dos clubes de terceira idade parisienses, só que referindo-se aos jardins públicos. O que ressalta nos seus discursos é a representação da praça como espaço de isolamento e monotonia, ao contrário de sua finalidade primeira que é a sociabilidade.

Entretanto, a mise-em-scène das relações entre desconhecidos nas praças parisienses parece mais um teatro de pantomima, diante das limitações da interação com o outro: romper com o silêncio reinante é a dificuldade maior. Na falta de outras atrações ao ar livre, os idosos que freqüentam as praças parisienses se voltam para a contemplação da natureza, o contato com as crianças e com os animais. A busca de uma relação com o outro não é revestida da mesma espontaneidade encontrada entre os idosos brasileiros. Apesar disso, para esses freqüentadores das praças parisienses é preferível estar no meio da multidão, com pessoas de todas as idades, a se fechar em clubes nos quais os parceiros pertencem à mesma geração. Esses freqüentadores das praças representam os clubes de terceira idade como lugares de passatempo e espera.

Portanto, nessa conquista de um território de pertencimento e de identificação, o Clube do Posto 6 parece ser a expressão do espaço ideal de convivência. Reservado aos aposentados, sem estar murado, ele permite a entrada e a saída de todo mundo: (13) amantes dos jogos de mesa, curiosos dos diversos jogos, vendedores de café e bolo, amigos, familiares ou simples espectadores. Além disso, a praça é freqüentada por vários outros personagens: crianças, velhos, famílias sem teto que ali moram, prostitutas que por ali circulam, meninos de rua que fazem batucada e jogam capoeira para os turistas do hotel em frente. Enfim, um ambiente propício à mise-en-scène de todo tipo de jogo e de encontro. Se nos clubes os jogos atraem os indivíduos e criam as relações, na praça Batignolles as principais atrações são as criança e suas brincadeiras, ou o balé dos pardais que pousam nas mãos daqueles que os alimentam. Esses simples acontecimentos que ocorrem durante o passeio cotidiano possibilitam a troca de cumprimentos, de olhares indiscretos, de sorrisos insinuantes, tecendo assim os primeiros fios da malha da sociabilidade. Raras são as histórias de amor entre os idosos que freqüentam os jardins parisienses, uma vez que as relações sociais tecidas nos espaços públicos não ultrapassam as grades dos jardins, ou seja, não entram no espaço privado da casa.

Entretanto, na rede da tia Leah, é o espetáculo esportivo, a " jornada nas estrelas", que atrai e aproxima os amantes do vôlei, bem como os espectadores que observam o jogo no banco dos torcedores. Seus comentários sobre as jogadas e a performance de cada jogador, assim como as "ordens e broncas" de Leah, são motivo para batepapo e, conseqüentemente, para um primeiro contato. O "banco" faz parte do território da rede e serve de ponto de encontro, de espaço de identificação das pessoas de mesma idade: se hoje elas fazem parte do banco dos reservas, no passado eram os titulares. De todo modo, esse pertencimento simbólico a um território marca também um espaço de identidade etária, pois suas histórias se confundem, suas trajetórias se cruzam nas diversas atividades que a praia e o bairro propiciam. Assim, nesse círculo informal que se forma entre o banco e a rede, há a troca de informações, de prestação de simples serviços ou de empréstimo de pequenas somas para pagar a cerveja gelada.

Da dama de coração ao valete de paus

Desde que o jogo se instala, as regras são logo anunciadas e as transgressões, por vezes, dissimuladas. No jogo dos encontros, as trapaças entram em cena para agitar o ambiente, pois elas provocam o adversário que, por sua vez, trapaceia também. Animando, dessa maneira, a partida, elas incitam ao jogo dos sinais e dos olhares, para obter a vitória final. Quanto ao jogo de cartas propriamente dito, no Clube do Posto 6 as transgressões às regras são bastante transparentes, uma vez que ele mais parece um cassino ao ar livre: as apostas a dinheiro atraem os apostadores mais fortes e muitos espectadores. Aqui, o risco de um xeque-mate é duplo: a perda da partida bem como da honra, pois apostar é ilegal, ainda que a polícia local não fiscalize. Esse risco é relativo, pois são os próprios responsáveis pela ordem pública que burlam as leis: entre os associados existem almirantes, generais, coronéis, delegados de polícia... O que está em jogo para esses jogadores é, sobretudo, passar o tempo: um tempo vivido no meio de sensações de sucesso e derrota que atravessam as partidas de cartas, de xadrez ou de gamão.

Se as brincadeiras fazem parte do jogo, as disputas o fazem igualmente, pois a descoberta das transgressões às regras cria verdadeiras discussões. Desse modo, a escolha dos parceiros, bem como dos adversários, é definida por critérios precisos como jogar bem, jogar honestamente, jogar alegremente etc. E como os jogadores não possuem todas essas qualidades ao mesmo tempo, a escolha recai sobre a representação que se tem do jogo. Se o importante é distrair-se, a seleção se faz entre os jogadores divertidos, mesmo que eles não sejam os melhores. Nessas mesas, as brincadeiras provocam risos constantes e invertem a ordem silenciosa do jogo. Outros escolhem como parceiros os jogadores honestos e sérios, mesmo que eles não joguem tão bem assim: as trapaças são proibidas e o respeito às regras do jogo é fundamental. Outros, ainda, preferem jogar com boas equipes, mesmo que seus parceiros sejam renomados trapaceiros. Nesse caso, o mais importante é participar de uma boa partida, de um verdadeiro combate. Ao reconhecer-se como trapaceiro disfarçado, o jogador entra nessa batalha entre reis, valetes e curingas, na tentativa de provar quem é o melhor jogador... trapaceiro. De todo modo, esses jogadores são, em geral, os maiores apostadores do Clube. É por isso que em volta de suas mesas há sempre muitos espectadores e os protestos vêm de todo lado, terminando em discussões de uns e brincadeiras de outros. Enfim, há mil combinações de tipos de jogadores; a maneira como entram na cena social define imediatamente as regras do jogo e o valor das apostas, mais altas para alguns, simbólicas para outros.

Nesse cenário variado, os espectadores desempenham, como os jogadores, os papéis de parceiros ou adversários. Existe entre os diversos freqüentadores da praça uma rede de prestação de serviços e de cooperação como, por exemplo, entre os meninos de rua e os aposentados. (14) Na verdade, os indivíduos que compõem essas duas categorias sociais nem sempre são considerados cidadãos, posto que estão excluídos do sistema produtivo. (15) Assim sendo, eles criam estratégias para dividir o espaço da praça, onde as regras de troca são bastante rígidas, e as trapaças colocam em perigo as relações de convívio. Nessa relação de "dom" e "contradom" imposta pelo sistema econômico vigente, responsável pelas enormes desigualdades sociais, o parceiro é, sobretudo, um adversário e, sendo assim, todos permanecem na posição de xeque-mate. De fato, a interação social entre os diversos freqüentadores da praça é bastante tênue, assim como as relações intergeracionais entre os diversos personagens do Clube são fugazes. Comparadas às do baile da praça Antero de Quental, as regras de sociabilidade estabelecidas entre os freqüentadores do Clube de Aposentados são mais rígidas e as distinções entre as frações sociais e os grupos de idade, mais transparentes. Assim, mesmo que todos os personagens da pracinha do Posto 6 se encontrem cotidianamente, cantem ou improvisem uma batucada, jamais chegam a dançar no mesmo compasso.

Nas malhas da rede da tia Leah

As praias pertencem a todo mundo; muito populares, as do Rio constituem, de fato, o mais coletivo dos lugares, pois o contato se faz, naturalmente, pela falta de espaço. Entretanto, nessas praias da Zona Sul, as quadras de esporte são territórios reservados, onde os encontros acontecem entre as pessoas do "pedaço", os conhecidos da praia. São pequenas ilhas de homogeneidade social que, por estarem espalhadas na multidão dos banhistas, são quase imperceptíveis. Jogo esportivo por excelência, o vôlei de praia permite, na representação dos aposentados da rede da tia Leah, tanto o encontro entre os freqüentadores de todas as gerações quanto a luta contra a perda do vigor físico. Nesse exercício cotidiano para manter a forma, o sistema de regras morais, imposto pela "rainha da rede", coloca os jogadores sistematicamente em uma situação de xeque-mate: de resistência e de obediência. Assim, optando por praticar o jogo esportivo com jogadores mais jovens e mais fortes que ela, Leah reforça, a cada vitória, a certeza de que mantém boa forma física, seu corpo sendo o símbolo da imagem do vencedor, apesar de seu estado de envelhecimento.

A escolha de Leah na formação de sua equipe obedece os critérios da idade (ela raramente escolhe para seu time os velhos parceiros, mesmo que estejam em plena forma) e da boa reputação como jogador. Ou seja, os jogadores de sua equipe são os mais competentes tecnicamente e, freqüentemente, os mais jovens. Dentre o conjunto das normas ditadas por tia Leah, algumas são simbolicamente mais importantes que outras, tais como a proibição de cortar violentamente sobre ela, uma regra que não é válida para os adversários da mesma idade dela. O direito de acesso à quadra esportiva implica a obrigação de fazer parte de sua equipe, tanto quanto a submissão às represálias; a boa conduta corresponde ao respeito aos princípios estabelecidos. No entanto, há brechas em seu sistema disciplinar: podese chegar na parte da tarde, evitando jogar com Leah e os outros idosos, ou pronunciar palavrões e brigar enquanto ela se banha no mar. Desse modo, eles articulam maneiras de trapacear as "leis da Leah", para que se sintam menos impotentes face às exigências dessa senhora, muito mais velha que eles. Mas é precisamente quando as regras são de fato respeitadas que o tipo de partida é determinado desde o início do jogo: sua equipe acaba sempre vencendo. Esses jogadores, obrigados a aceitar o regulamento, estão presos nas malhas de sua rede enquanto durar seu direito de uso da quadra de vôlei, mesmo que ela jogue cada vez menos. Paralelamente a isso, outro jogo se estabelece: a disputa entre as gerações pela sucessão do poder e da autoridade.

A aceitação, pelos jovens jogadores, das condições impostas pela dona da rede para a disputa esportiva responde a dois fatores: o gosto pelo jogo disciplinado, onde a ausência de brigas e discussões permite a concentração no jogo, e o desejo de pertencer a uma quadra que, possuindo reputação local, é bastante assediada pela mídia. Assim se explica o cuidado que cada freqüentador da rede tem com sua aparência, bem como 0 olhar atento de Leah diante da presença imprevisível de um fotógrafo qualquer. A rede passa a ser o espaço onde ela encena a manequim, apresentando a cada dia sua coleção de maiôs e chapéus de praia e onde o batom nos lábios e o cabelo penteado são obrigatórios.

A mise-en-scène do jogo de sedução

Em nenhum outro lugar o corpo é mais exposto que na praia; nas areias desfila uma infinidade de pessoas cuja intenção principal é se fazer notar, se exibir: bronzeamento, ginástica, esportes etc. constituem as estratégias típicas de exaltação ao vigor físico. No Rio de Janeiro, as praias sempre foram espaços tradicionais de conquista. É, se no meio dos jovens as paqueras levam, rápida e freqüentemente, aos encontros amorosos, entre os idosos as relações amorosas são raras e as paqueras pouco freqüentes: na rede, as mulheres, em geral viúvas ou divorciadas, têm como parceiros de jogo e de bate-papo os homens casados, que são maioria. Talvez o fato de que estes se interessam muito mais pelas mulheres jovens leve Leah a privilegiar, na escolha dos times, as parceiras de sua idade. A rede é, para as jogadoras mais velhas, um espaço de sociabilidade restrito ao jogo esportivo, enquanto os jogadores idosos atuam em duas cenas sociais: a da paquera e a do esporte.

No mundo dos idosos, sobretudo nas camadas média e superior, o cuidado com a aparência não se restringe à manutenção da saúde física. Dentre aqueles que buscam um novo companheiro, o cuidado com a própria apresentação leva à adoção de estratégias para disfarçar a idade e seduzir o outro: as mulheres se maquilam, se penteiam e se vestem graciosamente; os homens, se apresentam mais esportivamente. O discurso de uma freqüentadora da praça Batignolles é revelador, nesse sentido:

O tempo que passa é a passagem da beleza, da juventude à velhice; é preciso continuar a seduzir. E seduzir, quando se envelhece, não é um problema fácil de resolver. Primeiro, porque é qualquer coisa de muito íntimo: ao se ver no espelho dia após dia, a gente vê o corpo mudar, vê um rosto estranho aparecer no lugar do seu. Os outros tomam consciência da nossa idade, os filhos também. Com a aposentadoria, o cor te com a vida ativa, as pessoas mais jovens nos consideram babás dos netos e nos dão um papel que não estamos absolutamente com vontade de desempenhar (Bernadette, 68 anos).

As praças servem, tanto quanto as praias, de teatro para o desfile de moda criado pelo vaivém dos freqüentadores, cada um com a intenção de se fazer notar, de ser escolhido e de escolher o parceiro. Os artifícios para disfarçar a idade traduzem, de fato, a intenção de descartar a imagem de uma velhice decadente e de conservar um papel ativo em seu meio de vida. A freqüência a esses lugares públicos induz à participação em novas atividades, suscitando o sentimento de pertencer a um espaço e a um grupo caracterizados pela vontade de "envelhecer bem", assim como à busca de novos parceiros amorosos:

A gente não pensa na idade, é qualquer coisa que se vive muito bem quando se tem prazer na vida. O coração, de fato, não tem idade e a gente precisa de afeto, mesmo quando tem filhos e netos. Existe o amor por eles, mas a gente também precisa de ternura, eu de um homem e ele de uma mulher. Acho que isso é inerente a todas as idades. A vida sentimental e sexual continua se as pessoas têm boa saúde, pois o desejo não tem idade, a sexualidade não é a base fundamental do amor; é, sobretudo, a vontade de compreender o Outro: é o amor, a ternura, a atenção (Catherine, 69 anos).

Ao que parece, nesse tipo de engajamento se procura encontrar, mais que um simples parceiro, uma companhia para todas as trocas, inclusive as sexuais. Rose (68 anos, divorciada) que sempre trabalhou em função pública, mas atualmente é manequim de um grande costureiro francês, conta de sua vontade de encontrar o companheiro ideal:

Não quero um homem para dormir com ele apenas uma meia hora, minha vontade é encontrar uma possibilidade de amor, uma possibilidade de troca em todos os níveis. Por que não um pouco de sentimento, de poesia, de beleza, de absoluto? Não é porque tenho 60 anos que considero que minha vida amorosa terminou. Se procuro um companheiro é para viver com ele plenamente tudo que isso possa implicar. Em todos os domínios, mesmo no da sexualidade, pois ela é algo de sadio, bom e necessário. Eu assumo isso com toda a simplicidade, isso não me choca de jeito nenhum! Acho lógico, normal, sadio e humano!

A idade não é mais um indicador de normas de comportamento e de estilo de vida - os novos mercados de consumo se abrem a todas as idades e a publicidade estimula o rejuvenescimento; o modelo dominante na sociedade ocidental moderna é aquele da juventude e da beleza. A imagem de uma velhice monótona, sofrida, estereotipada, aos poucos perde sua força e se desfaz. Desse modo, os espaços públicos multiplicam as possibilidades dos encontros face a face. Com a aposentadoria, traço de identidade principal, eles recriam novos hábitos, um novo emprego do tempo livre. E, se na França o leque das atividades e dos lugares propostos é imenso, no Brasil os idosos são obrigados a reinventar um novo modo de vida através de novas atividades, recriando novos territórios e grupos de pertencimento. Tudo parece indicar que essas práticas de sociabilidade são a reinvenção de uma velhice fundada, a partir de agora, sobre outras estratégias de vida, com uma nova distribuição de papéis; e o espaço público aberto a todos vem a ser um lugar excelente para a exibição de uma imagem positiva: a terceira idade.

Conclusão

O interesse em investigar esses espaços de sociabilidade recaiu sobre o fato de que apresentam diferenciações internas importantes, seja quanto ao grau de interação entre as gerações, seja quanto ao nível das relações interclasses. Portanto, estes são lugares públicos que a princípio deveriam ser abertos a todos, independentemente de seu estatuto social ou faixa etária. Todavia, o que une essas pessoas é a busca de companhia, pois o relacionamento com o outro, nesse grupo de idade, é freqüentemente mais difícil. Assim, as pessoas idosas acabam se agrupando em torno daqueles que se mostram mais acessíveis e negligenciam, por vezes, os princípios de distinção de classe, como no square Batignolles, nos bailes da praça Antero de Quental, no Clube dos Aposentados do Posto 6 e nos clubes de terceira idade parisienses.

Nesse sentido, os espaços públicos a céu aberto desempenham um papel fundamental nas estratégias de sociabilidade dos idosos, pois permitem o estabelecimento de relações sociais com as gerações mais jovens - o que não acontece com os clubes ou associações de terceira idade. Se, para alguns, essas instituições limitam o contato com seus pares de mesma idade, por outro lado permitem que compartilhem das mesmas preocupações e dos acontecimentos do dia-a-dia; para outros, esses clubes restritos aos idosos são revestidos de uma imagem de isolamento, quase como um "gueto de velhos", como disse uma entrevistada parisiense. E, como muitos dentre eles não moram perto da família, outros nem têm família, sobretudo no caso francês, as relações entre as gerações mais jovens se tornam particularmente necessárias e os espaços públicos facilitam essa aproximação, como no baile da praça, no Batignolles é na rede de vôlei. Em todos esses lugares, as pessoas têm seus parceiros preferidos e se encontram sempre no mesmo banco da praça, na mesma quadra de esporte, na mesma mesa de jogo e na mesma pista de dança. Enfim, cada um tem seu canto favorito, seu território de pertencimento. As manifestações espontâneas de sociabilidade inauguram, assim, para as pessoas idosas, uma nova maneira de conceber sua imagem. Reconhecer a importância dessas práticas sociais permite a melhor compreensão dos mecanismos de apropriação de territórios e de construção da identidade ligada à idade, é portanto de um sentimento de pertencimento a um espaço e um grupo social determinado.

A identificação do peso que a sociabilidade tecida nos lugares públicos adquire na vida cotidiana dos idosos permite também uma reflexão sobre as transformações das relações familiares: a mudança do papel desempenhado no interior da família não produz a ruptura dos laços familiares, mas o convívio não é mais praticado predominantemente no núcleo familiar. Conquistando um outro espaço de sociabilidade, os idosos mudam a imagem que lhes é habitualmente imposta. De hoje em diante, independentes e livres, eles seguem a evolução da dança até o fim.

O debate acadêmico sobre a aposentadoria relança questões como a do novo ideal de independência e do emprego do tempo livre dos aposentados. No sistema de representação social da nova versão da velhice, os jovens aposentados desempenham um papel fundamental na construção da imagem da terceira idade: símbolo de liberdade e de lazer ou, talvez, jovem em toda idade. Aliás, o desejo de manter uma vida sexual ativa para além da satisfação de uma necessidade física representa, sobretudo, a valorização de si mesmo: o desejo não é simplesmente aquele de viver a nostalgia das inesquecíveis experiências da juventude e da maturidade, mas de preservar um laço com o universo erótico e assim, buscar o amor até a morte.

NOTAS

*. Este artigo faz parte da tese de doutorado em Antropologia Social e Visual (Peixoto, 1993), que foi complementada por um vídeo de 20 mm.

1. O grupo preciso que estudei - os aposentados - me fez orientar a análise em função da maneira como eles avaliam a aposentadoria, ou melhor, ao fato deterem deixado de trabalhar e de estarem, de certa maneira, à margem da sociedade. Se considerarmos que nas sociedades capitalistas o não-trabalho, mesmo no contexto da aposentadoria, é percebido como marginal, a internalização desse estigma os leva a nutrir fortes sentimentos de impotência e de desvalorização.

2. A questão da velhice ainda não mereceu uma atenção especial do governo brasileiro: não existem, como na França, programas em favor dos idosos nas áreas da economia (as baixas pensões obrigam grande parte dos aposentados de baixarenda a se reinserir no mercado informal de trabalho); da assistência médica (gratuita e em relação à distinção entre os idosos e os outros beneficiários, com serviços voltados para as enfermidades específicas da velhice); da habitação (casas de repouso para aposentados e auxílio-moradia) etc. Na verdade, só recentemente o termo velhice foi incluído na Constituição, que não dispõe ainda de uma legislação para o idoso. O artigo 175, parágrafo 4°, faz uma simples referência à velhice: "Lei especial que disporá sobre a assistência à maternidade, à infância, àaclolescência, à velhice".

3. As projeções do Censo 91 indicam que, dos 170 mil moradores de Copacabana, 20% têm mais de 65 anos, ou seja, 34 mil habitantes. Por outro lado, o Rio de Janeiro é a cidade brasileira que apresenta o mais alto percentual de população de mais de 60 anos: aproximadamente 9% da população total (IBGE).

4. Registrado, há vários anos, na Secretaria de Turismo do Rio de Janeiro como clube de lazer, o Clube dos Aposentados possui regimento interno e diretoria eleita bienalmente; seus associados pagam mensalidades, registradas no livro-caixa, para o uso das dependências do clube. Transformou-se, assim, em entidade privada instalada na praça pública.

5. Tudo começou com os pescadores da colônia do Posto 6, que usavam caixotes de feira como mesas de jogo. Com a chegada dos moradores aposentados, o grupo foi tomando vulto e t.ernunou por instalar um pára-quedas como proteção da chuva ou do sol quente. Finalmente demarcaram na praça seu território particular, instalando uma grande barraca cercada por grades, onde guardam mesas e cadeiras (doadas por uma indústria de bebidas), jogos e toalhas (cedidos pelo comércio local), televisão, som e outros objetos.

6. Há alguns meses, o baile da praça foi cancelado devido à pressão da Associação de Moradores, para acabar com a feirinha de antigüidades, patrocinadora do baile. Este então, transferiu-se para as galerias comerciais do bairro que, aos poucos, foi acabando.

7. São bailes populares onde se dança, ao som do acordeom, a valsa, o foxtrote e a fiava, em estilo bastante peculiar.

8. As atividades promovidas por esses clubes disseminados por toda a França, da mesma forma que os clubes de convivência brasileiros, organizados pela LBA e pelo Sesc, são reservadas às pessoas de mais de 60 anos. Tanto lá quanto aqui, o leque de atividades é quase o mesmo: tricô, crochê, pintura, costura e artesanato marcam as atividades femininas; os tabuleiros de damas, dominó e xadrez são fundamentalmente masculinos, enquanto os jogos de cartas e as danças congregam todos. Passeios, palestras e festas de aniversariantes do mês, Dia das Mães ou Natal, entre outras, fazem parte do repertório das atividades eventuais.

9. No Brasil, estas são iniciativas isoladas como as do Sesc (Serviço Social do Comércio) e da LBA (Legião Brasileira de Assistência), que criaram, em vários estados do país, Clubes de Convivência para as pessoas aposentadas, onde desenvolvem atividades sociais e culturais, além de prestar assistência jurídica.

10. Em um país onde o machismo é ainda forte, as uniões com diferença de idade favorável às mulheres não são freqüentes. Em se tratando de homens mais velhos, a preferência por mulheres mais jovens é nítida. Esse mesmo fenômeno é percebido na França e o artigo de B ozon "Les femmes et 1' écart d' âge entre conjoints: une domination consentie" (Population 2,1990, 327-360) aponta para esse aspecto.

11. Segundo o censo de 1990, a proporção das pessoas francesas com mais de 60 anos, sozinhas, é de 26,5%. Entretanto, 77,5% dos homens são ainda casados, enquanto entre as mulheres da mesma idade 42,8% são viúvas e 45,2% são casadas. Barraille, em artigo recentemente publicado em Donnée Sociales, 1993, afirma que entre as pessoas de mais de 85 anos "près d'un homme sur deux vit encore avec sa conjointe, seule une femme sur douze vit en couple" (p. 345). As tabulações especiais do Censo 91, do IBGE, ainda não estão disponíveis.

12. Cribier assinala que, desde 1962, a melhoria das condições de habitação permitiu que os parisienses de 70 a 85 anos continuassem a viver sós. "Cette augmentation s' est faite à Ia fois aux dépens des institutions et de 1'hébergement par les enfants. Or, ce recul de la cohabitation familiale, contrairement à ce qu'on pense parfois, constitue lui aussi un progrès. C'est 1'amélioration des revenues, de la santé, du logement des gens âgés, celle aussi de l'aide à domicile, qui a permis ce progrès de 1'autonomie de personnes qui, en restam 'chez elles', continuent, comine elles le souhaitent, à gérer leur vie" (1989, p. 46). Os dados mais recentes (INSEE 90) indicam que, das 11.287.000 pessoas de mais de 60 anos, 502 mil não vivem mais em suas casas. Destas, 342 mil vivem em clínicas geriátricas ou em asilos.

13. Apesar das cordas que marcam seus limites, a entrada é aberta a todos. Somente as mesas e o material dos jogos são reservados aos membros do Clube.

14. Em troca da guarda de seus pertences dentro do clube, os meninos prestam favores, como comprar cigarros ou chope no botequim da esquina.

15. Já foi dito anteriormente que no Brasil não existe uma política social específica para a velhice, tampouco para a infância. Tanto o Programa Nacional de Saúde do Idoso quanto o Estatuto do Menor enfrentam dificuldades para sua plena implantação. Os membros do Clube, embora pertençam majoritariamente às camadas médias, enquanto aposentados recebem quase o mesmo tratamento que os meninos de rua e os sem-teto, ou seja, o de marginais da sociedade.

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