Este texto (1) por
tema o discurso microssociológico de Gabriel Tarde (1843-1904). Considerado,
durante sua vida (mais especificamente entre os anos de 1890 e 1904), como um
dos mais notáveis sociólogos franceses do final do século passado, Tarde
participou ativamente do processo de emergência e constituição da sociologia
francesa. São vários os sinais que atestam a notoriedade de Tarde. Ele assistiu
em vida à publicação de quase toda sua vasta produção intelectual, sendo uma
parte expressiva da mesma traduzida para várias línguas. Apesar de ter passado
quase toda a vida à margem do sistema universitário estatal francês, tornou-se
professor do respeitado Collège de France, onde ingressou atrawés de um
processo de seleção no qual superou ninguém menos do que Henri Bergson. Além
disso, tomou-se o mais duro e consistente opositor francês contemporâneo de
Durkheim, tendo o mérito de ser reconhecido enquanto tal pelo próprio Durkheim
e de ter se tornado, ao lado deste, o sociólogo
mais citado na França da época. No entanto, apesar de toda essa notoriedade, a
obra de Tarde caiu num profundo ostracismo após sua morte; e o ostracismo foi
tanto que seu discurso foi praticamente excluído dos quadros do pensamento
sociológico.
De imediato, duas questões
se colocam: se Tarde foi tão notável, por que foi esquecido? Mas, se ele foi
tão esquecido, aponto de hoje a sociologia praticamente prescindir dele, por
que um dia fez tanto sucesso?
Ambas questões, e o
"retorno" a Tarde nelas implicado, não indicam um interesse meramente
anedotário, nem denunciam anacronismos. Ao contrário, se existe algum interesse
em rediscutir o discurso microssociológico de Tarde, bem como os problemas
colocados pelas questões apresentadas acima, esse interesse é sobretudo atual e
diz respeito diretamente às condições atuais de produção dos saberes
sociológicos. A esse propósito eu já escrevera:
(...) como Deleuze (1976,
pp. 3 ss.) e Foucault (1971 e 1980) assinalaram em suas leituras de Nietzsche,
a interpretação não é a elucidação imparcial de símbolos passivos, imóveis e
anteriores, nem basta tirar todas as máscaras que se superpõem ao acontecimento
analisado para desvelar sua identidade primeira. A interpretação é uma tarefa
infinita, inacabável; ela é sempre apropriação, apoderação por violência de um
pedaço de realidade que não tem, em si, qualquer significação essencial ou
ideal; ela remete constantemente a "máscaras sem rosto", sem
identidade e envolve, desde o início, uma pluralidade de sentidos. Nesse
sentido, não se trata de assumir partidos (seja o de Tarde, o de Durkheim ou de
outros), mas de, pura e simplesmente, assumir que não há posição de
neutralidade na relação analítica, ou que o problema da objetividade científica
é um falso problema, o que vem a dar nó mesmo (Vargas, 1992, pp. 14-15).
Considerando que qualquer
projeto de "retorno" não escapa ao fato de ser necessariamente
parcial e fragmentário; que, tal como existem vários Durkheim (Lukes, 1977, p.
3; Chamboredon, 1984, p. 462), pode-se também dizer que existem vários Tarde; e
que uma das motivações que anima o desenvolvimento deste texto é procurar
desnaturalizar "aquilo que é óbvio"; pode-se dizer, então, que o
texto que agora se lê é micropoliticamente orientado. Por isso mesmo, a
discussão dessas questões terá inicialmente que passar por um exame crítico do
processo de emergência das ciências sociais, e particularmente da sociologia,
na França do fim do século XIX, tendo em vista as condições que tornaram
possível e necessária a produção de discursos sociológicos como os de Tarde,
Durkheim e tantos outros.
Corriqueiramente, quando
se pensa no processo de emergência das ciências sociais na França do final do
século passado, costuma-se centrar as análises na discussão dos problemas
relativos a sua institucionalização, acreditando-se que a institucionalização
de um discurso é sua condição de sobrevivência, sua garantia de futuro. Tudo se
passa como se a condição de existência de um saber fosse unicamente sua forma
institucionalmente reconhecida. Neste caso, não é surpreendente que as análises
relativas ao contexto francês tendam á privilegiar quase exclusivamente o
ingresso das ciências sociais nas instituições universitárias do Estado francês
como o momento crucial desse processo. Trata-se de uni equívoco: como, de
acordo com os valores atuais, as instituições universitárias se encontram no
cume da hierarquia das instituições consagradas à produção e reprodução do
saber, acredita-se que, naquela época, dava-se o mesmo, o que não corresponde
aos fatos. (2)
Colocando as coisas dessa
maneira, não é surpreendente que, no que diz respeito particularmente à
sociologia, as análises tendam a convergir para a consagrada figura de
Durkheim. Considerado um dos grandes "pais fundadores" dá sociologia,
a Durkheim é creditado seu estabelecimento como uma disciplina científica e
autônoma, berra como sua institucionalização nos quadros do sistema público de
ensino superior da França. Ainda hoje é quase impossível se referir ao processo
de emergência da sociologia na França sem fazer uma reverência ao mestre que
teria liberado a sociologia de seus velhos misticismos, convertendo-a em
disciplina científica, mediante o estabelecimento de um plano de consistência
específico do social. Na hagiografia peculiar ao »zétier, tomando emprestada de
Viveiros de Castro (1987, p. XVIII) a fórmula que ele aplicou a Curt
Nimuendaju, a aura que cerca o nome de Durkheim já ganhou foros de lenda.
Se chamo a atenção para o
caráter mítico ou hagiográfico com que freqüentemente se revestem as indagações
sobre esse processo não é, de forma alguma, para escamotear a importância do
papel nele desempenhado por Durkheim, mas Pará apontar que essa mitificação,
essa teatralização esconde mais coisas do que revela. O fato que deploro é que
a supervalorização do papel de Durkheim relegou às sombras, ao anonimato, ou
então desqualificou pura é simplesmente, uma série de outros agenciamentos
contemporâneos ao empreendimento durkheimiano e que, tal como este, visavam a constituição de discursos sociológicos. Esses
agenciamentos não só enunciavam discursos sociológicos que apontavam vias
analíticas diferentes daquelas propostas por Durkheim, constituindo-se em seus
francos concorrentes, como também foram indispensáveis à constituição da
própria sociologia durkheimiana. (3) Pois, apesar do lugar-comum, é
preciso não esquecer que a sociologia durkheimiana não nasceu pronta; muito ao
contrário, ela foi sendo produzida pouco a pouco e no contexto de intensas
polêmicas. O agenciamento microssociológico levado a cabo por Gabriel Tarde é,
em mais de um sentido, exemplar com relação a essas questões.
E a importância dessa
multiplicidade de agenciamentos não diminui, caso se considere que foi a
sociologia durkheimiana, e não as outras, que sobressaiu, sobreviveu;
"ficou". As motivações para que ainda hoje se fale mais de Durkheim
do que de qualquer outro sociólogo francês do fim do século passado não se
encontram em considerações intrínsecas ao discurso científico, isto é, em
argumentos do tipo: Durkheim "ficou" porque seu discurso erá o mais
"científico", o mais "consistente", o mais
"rigoroso", aquele perto do qual os outros não eram senão discursos
pré ou pseudocientíficos, de qualquer modo, obra de amadores, de diletantes...
Longe de ter apenas motivações dessa ordem, o sucesso durkheimiano está
fundamentalmente atado, a meu ver, às tensões e rupturas que marcaram o campo
intelectual da época, bem como àquelas que marcam o campo intelectual atual.
Caso se queira considerar
essa multiplicidade de agenciamentos e evitar a trilha fácil dos reducionismos,
cabe operar um deslocamento de perspectivas. Inicialmente, é preciso que o
processo de emergência da sociologia deixe de ser considerado um movimento
originário, ou seja, é preciso evitar a representação idílica da origem segundo
a qual a sociologia, enfim científica, enfim liberta das representações
errôneas que
viviam embotando a percepção do
social, de uma vez e para todo o sempre instalada na plenitude da razão, teria
enunciado á descoberta, num lugar longínquo perdido na noite dos tempos, da
reluzente e preciosa pérola do social; como se ela enfim houvesse revelado
"a" verdade do e sobre o social.
Desse ponto de vista, é a
profundeza da "origem" que importa, e importa na medida em que,
investida enquanto lugar privilegiado da revelação da incontestável verdade que
teria tornado possível a formulação do discurso sociológico, é convertida em
ponto de apoio fora do tempo, em espaço coeso e uniforme que sustentará a
pretensão dos domínios científicos. Mas, como Hobsbawn (1984, p. 9) assinalara,
esse tipo de "recuperação" da história de uma disciplina não indica
outra coisa senão a invenção de uma tradição, ou seja, esse processo
sempre seletivo de institucionalização de determinada "escola" de
pensamento, a constituição de uma "história oficial" que fixe e
relativamente aprofunde a dominância dos padrões "majoritários" de
interpretação de determinada "corrente sociológica", em suma, a ambição
de poder que a pretensão de ser uma ciência traz consigo nas profundezas da
origem, mas cuja recuperação tem um interesse sobretudo atual.
Em vez disso, proponho
pensar esse processo de emergência da sociologia como um processo
historicamente constituído, cujas motivações se encontram no contexto
sociopolítico da época. Esse deslocamento implica necessariamente o
reconhecimento da multiplicidade de agenciamentos que participaram desse
processo, colocando-o para funcionar, como também o reconhecimento de que, no
começo, há a discórdia, ó disparate e a intriga.(4)
Nesse sentido, não é em
relação a nenhum "pai fundador", nem a nenhum movimento
"originário", que a emergência da sociologia se situa. Como disse
Foucault (1971, p. 24), citando Nietzsche, a emergência se produz com a entrada
em cena de forças que marcam uma interrupção, um corte, uma descontinuidade,
com o salto pelo qual elas passam dos bastidores para o teatro; mas, mesmo aí,
a emergência não designa um campo fechado, um plano de igualdade onde se
desencadearia a luta, mas essa cena na qual os fortes e os fracos se distribuem
uns diante dos outros, uns acima dos outros, esse espaço que os divide e se
abre entre eles, esse vazio através do qual eles trocam suas ameaças, esse
"não-lugar" que é "pura distância". Citando Foucault (ibidem,
grifo meu), "(...) o fato de os adversários não pertencerem ao mesmo
espaço. Ninguém é, portanto, responsável por uma emergência. Ninguém pode se
vangloriar por ela. Ela sempre se produz no interstício".
Se insisto na necessidade
desse deslocamento de pontos de vista, se afirmo que o que é preciso procurar
no começo não é a revelação da verdade sociológica, mas a intriga e a ruptura,
não é por preferência de um paradigma em detrimento de outro, mas simples e
tão-somente por uma razão de fato: não vislumbro outro modo de pintar com suas
devidas cores o agitado contexto do processo de emergência da sociologia
francesa e mostrar os "domínios mal partilhados" do conhecimento,
onde "jazem os problemas urgentes", esses "terrenos baldios"
onde, segundo a expressão que Mauss (1934, p. 211) tomou emprestado de Goethe,
"os professores se devoram entre si".
Daí ser necessário
investigar o contexto que tomou possível e necessária a produção de discursos
sociológicos, pois é somente diante de uma investigação desse gênero que se
pode tornar inteligíveis as questões inicialmente levantadas por este texto,
vale dizer, as motivações quer do sucesso em vida do discurso de Tarde, quer de
seu fracasso póstumo. O que, a reboque, tornará necessária a discussão do
relativo sucesso, ou do "semifracasso", como assinalara Karady
(1976), do discurso durkheimiáno.
A sociologia francesa não
nasceu em meio à calmaria. Pelo menos desde a Revolução de 1789, a França vinha
passando por uma série de profundas transformações políticas, econômicas e
sociais. Sumariamente, o quadro era o seguinte: a Revolução havia decretado o
fim dos pilares do Antigo Regime, fazendo ruir a monarquia absolutista, o
regime feudal e o poder católico. Concomitantemente, a entrada em cena do
capitalismo produziu uma radical metamorfose no âmbito das relações sociais,
sobretudo ao alterar as relações de produção e as relações de poder. Mas, se a
Revolução decretou o fim do Antigo Regime e abriu as portas para o capitalismo,
a França pós-revolucionaria não produziu de imediato uma organização social
estável, se é que algum dia ela pôde fazê-lo plenamente. Ao contrário, o que se
vê na França ao longo de todo o século passado é um campo social imerso em
profundas mutações, sujeito a inusitadas revoltas e reviravoltas políticas e
sociais. Para se ter uma idéia desse quadro de instabilidade, basta lembrar que
a França conheceu nada menos do que nove regimes de governo, entre impérios,
monarquias e repúblicas, e produziu mais de unia dezena de constituições nos
cem anos que se seguiram à revolução, sendo freqüentemente banhadas em sangue
as passagens de um regime a outro, de uma constituição a outra.
Essa difícil situação,
arrastada ao longo de todo o século, recrudesceu em suas últimas décadas e
ajudou a compor o clima de instabilidade e depressão que fermentou a
constituição da sociologia na França. Encontram-se sinais desse clima na
derrota francesa frente a Alemanha
na guerra de 1870, no levante popular que produziu a Comuna de Paris e
na imediata e violenta repressão, em
1871, bem como na difícil implantação da III República. Pode-se encontrá-los
ainda lias primeiras crises econômicas do capitalismo e, conseqüentemente, no
desemprego, nas greves e manifestações operárias e nos escândalos do caso
Panamá, em 1892, e do caso Dreyfus, entre 1894 e 1905.
Mas, se a instabilidade
era uma marca inequívoca do contextó da época, a ambivalência era outra mais
fundamental, pois é preciso não esquecer que o século passado foi também uma
época de grandes desenvolvimentos técnicos e científicos, ou de
"progresso", como queriam os contemporâneos. Esses desenvolvimentos
implicaram expressivas mudanças nas condições de vida e nos meios de existência
de muitas pessoas. Foi uma época – principalmente se considerarmos as últimas
décadas do século passado, quando se efetivou a emergência da sociologia – que
viu aparecerem ou se difundirem, numa escala sem precedentes, meios de
transporte mais rápidos e baratos, meios de comunicação mais ágeis e eficazes,
novos modos de aquecimento, saneamento e iluminação pública, e um melhor acesso
ao vestuário e à alimentação. Além de assinalar a crescente urbanização da
França, esses desenvolvimentos tornaram possível que se abandonasse o regime
quase medieval de vida no campo, ao qual estava submetida grande parte dos
franceses, ainda que em favor do surgimento de novas formas de miséria, tal
como a das novas populações urbanas que vieram a compor o lumpemproletariado.
Euforia tecnológica e científica, instabilidade política e social, depressão
moral e econômica, o contexto que tornou possível e necessária a produção de
discursos sociológicos na França estava pintado com essas cores.
O fato é que essa
ambivalência difundiu a impressão da existência não de uma nação francesa,
quando o problema da formação dos estados-nações estava na ordem do dia no
mundo ocidental, mas de "duas Franças": "uma civilizada, culta,
herdeira da revolução e do espírito iluminista; outra selvagem, rude, infensa
às transformações, conservadora de um modo de sé rcaracterístico do Ancien
Régime" (Ortiz, 1989, p. 7). E, divididas entre essas "duas
Franças", as pessoas se inquietavam com praticamente tudo: com as cidades
que cresciam demais, com os carros que corriam demais, com as massas que se
agitavam demais, com os pobres que eram demais... E se inquietavam, sobretudo,
por se verem mergulhadas até a cabeça num duro e multifacetado processo de
desterritorialização (5) que levou de roldão os antigos princípios da
vida política, social, econômica e moral dos franceses e que era capaz de
levá-los à beira da guerra civil.
Mas, se é possível
encontrar ao longo do século passado claros sinais de todo esse processo de
desterritorialização, foi sobretudo á partir da década de 1870 que ele se
tornou, de uma forma intensa, objeto de inúmeras atenções, vindo a. constituir
uma das preocupações centrais dós intelectuais que produziram a idéia laica do
regime da III República. E ó impressionante disso tudo é que a maioria das
tentativas de lidar com esse processo de desterritorialização fez do investimento na. produção do saber um
instrumento de salvação política da França. No que diz respeito à constituição da sociologia,
esse investimento político na produção do saber visou, sobretudo, embora não
exclusivamente, uma reforma radical no sistema público de ensino francês e a
produção de saberes relativos ao "social" ou à constituição do
"social" como objeto do saber.
As repercussões da
humilhante derrota francesa frente à Alemanha na guerra de 1870 são
particularmente esclarecedoras quanto à urgente necessidade de um sistemático
investimento político na produção do saber. Isso porque um discurso largamente
atualizado então enunciava que "a vitória alemã foi a vitória da
ciência" (E. Remam La réforme intelectuelle et morale, 1872, apud
Lukes, 1977, p. 86). Mais do que isso, ele enunciava ainda que, se a França
efetivamente queria recuperar seu prestígio e se reconstituir como nação, era
necessário, antes de mais nada, investir na produção de conhecimentos, de
discursos, de saber. Por essa. época, o estado decadente do pensamento francês,
bem como as conseqüências funestas dessa decadência, foi amplamente atestados.
Durkheim (1900, pp. 121-2 e 136) chegou mesmo a falar de urina espécie de
"torpor mental", de uma estagnação intelectual que havia desonrado o
meado do século e que seria o responsável pela desorganização moral do país.
É na seqüência desse
diagnóstico do fracasso na guerra contra a Alemanha que o investimento político
na produção do saber aparece como elemento essencial de um receituário de cura
capaz de reorganizar o desestruturado campo social francês. Como disse há
pouco, foram duas as vias principais de que os franceses se valeram para
materializar essa necessidade de investimento político na produção do saber: a
via da educação e a da sociologia. Se insisto nesses dois pontos é porque os
homens da III República fizeram da sociologia e da educação elementos
fundamentais de suas estratégias políticas de coesão social.
De acordo com os
intelectuais da época, para que fosse possível agir sobre o conturbado campo
social francês, reordenando-o, era preciso, primeiro, conhecer o que havia a
ser reorganizado, isto é, a sociedade. Em boa parte tendo em vista motivações
como esta, muitos intelectuais se colocaram, nas últimas décadas do século
passado, na posição de produzirem uma profusão de discursos que tomavam o
"social" por objeto. Mas esse conhecimento da sociedade não podia ser
um conhecimento qualquer, pois era absolutamente necessário que ele estivesse
de acordo com o que, na época, passou a ser considerado o "discurso
verdadeiro".
Quanto a isso, é preciso
ter em vista que o século passado também foi palco do que se poderia chamar,
sob inspiração de Foucault (1971, 1976 e 1977), de um radical deslocamento dos
discursos da verdade, mediante o qual aqueles discursos que até então eram
considerados como os únicos habilitados a enunciar a "verdade", mais
especificamente os discursos de cunho teológico ou metafísico, deixaram de
sê-lo, tornando-se discursos não-qualificados, ao mesmo tempo que se investia
nos discursos científicos como os únicos qualificados, a partir de então, para
enunciar a "verdade". E o problema aqui não é o de um suposto avanço
do conhecimento que teria motivado a substituição dos discursos metafisicos
pelos científicos. O problema aqui é de outra ordem e diz respeito diretamente
às mutações dos regimes de poder que atravessaram de alto a baixo a França do
século XIX. Não é porque abandonaram suas ilusões medievais que os franceses
passaram a se dedicar ao pensamento científico, ou a saber mais. É porque as
relações de poder mudaram, radicalmente e de modo geral que, usando a aguda
expressão de Weber, o "mundo se desencantou" e tornou anacrônicos os
discursos metafísicos, ao mesmo tempo que qualificou os discursos científicos
como os mais adequados a enunciar o que as relações de força predominantes na
época passaram a estabelecer como a "verdade". E é aqui que, a meu
ver, se insere todo o interesse pela constituição da sociologia enquanto ,saber
e, mais especificamente, como disciplina científica, nos últimos
anos do século passado.
Foi também nesse contexto
que se deu a radical reforma educacional promovida pelos republicanos. A esse
respeito, é preciso não perder de vista a existência das "duas
Franças" e o fato de que, até 1863, "um quarto da população não
falava sequer o francês, vivendo em comunidades que possuíam idiomas
próprios" (Ortiz, 1989, p. 7). Diante de um quadro como esse e da
necessidade de fazer da França uma nação e uma nação unida e articulada com o
novo regime de economia política que então se implantava, os republicanos
acabaram por eleger a educação como a grande panacéia capaz de erradicar todos
os males da combalida França. E eles puseram mãos à obra, alterando radicalmente
o ensino público francês, que passou a ser responsável por todo o ensino básico, a partir de então tornado laico,
obrigatório e gratuito. Com isso, os republicanos visavam garantir a
socialização dos novos cidadãos franceses, bem como fazer com que ela se
desenvolvesse segundo o novo credo cívico, racional e laico da III República.
Além da transformação do ensino básico em ensino obrigatório, gratuito e laico,
os republicanos também promoveram a expansão do ensino secundário, abrindo
vários liceus onde antes eles não existiam.
Além disso, eles promoveram significativas mudanças no ensino superior, graças às quais as
ciências humanas, em geral, e as sociais, em particular, puderam ser
introduzidas no sistema universitário. Com isso teve início o processo de
institucionalização da sociologia na França, mas não seu processo de
emergência, posto que este vinha se desenrolando há vários anos em instituições
para-universitárias. As mudanças promovidas pelos republicanos no ensino
superior objetivavam uma crescente especialização do ensino e da produção de
conhecimentos, o que eles procuraram atingir por dois caminhos diversos:
mediante a especialização de disciplinas canônicas - como a filosofia, o
direito e a história - e mediante a criação de novas disciplinas. De um modo ou
de outro, passaram a figurar como disciplinas do ensino superior, entre outras,
a pedagogia, a psicologia, á geografia, a história contemporânea, a economia
política, o direito constitucional e internacional e, sob diversos nomes, menos
este, a sociologia. Apesar da obviedade, é preciso não esquecer que, naquela
época, não existiam sociólogos, pedagogos, psicólogos ou geógrafos diplomados,
simplesmente porque esses cursos não estavam regulamentados. Se me detenho
sobre essa obviedade é apenas e tãó-somente para que não se perca de vista que,
naquela época, o discurso da competência, ou a competência do discurso, não
estava depositado formal e especificamente na mão de ninguém, sendo essa
competência um dos maiores pontos de tensão, ruptura e inovação do campo
intelectual da época.(6)
Foi através dessa reforma
educacional que a sociologia se institucionalizou nos quadros universitários; e
foi pelas mãos de Durkheim, de seus seguidores e dos republicanos que esse
processo de institucionalização tomou corpo. E se Durkheim é comumente apontado
como o grande artífice desse processo, é porque ele se encontrava precisamente
no ponto de derivação da bifurcação republicana, isto é, com um pé na educação
e outro na sociologia. Pois é preciso não esquecer que, além de suas
preocupações sociológicas, Durkheim também se dedicou com entusiasmo, ao longo
de toda sua carreira, a pensar e problematizar a educação. Com isso, ele acabou
se tornando um dos arautos, não só da sociologia, como também da pedagogia
laica dos republicanos, vindo a publicar uma série de livros e artigos, além de
ministrar diversos cursos, tendo por tema a educação.(7) Daí poder-se
arriscar a dizer que o sucesso da sociologia durkheimiana não se prende
exclusivamente, sequer prioritariamente, a seus méritos científicos, mas sim a
sua incrível adequação aos problemas da época, à aguda atualidade de seu
discurso no contexto da época. A meu ver, o sucesso durkheimiano está
fundamentalmente relacionado com ó fato de Durkheim ter sido um homem que
respirava profundamente os ares de seu tempo. Mais precisamente, ele está
relacionado com a grande afinidade entre seu discurso e a política republicana,
embora nem .o discurso de Durkheim se reduza à política republicana, nem esta
àquele.
Mas se foi a sociologia
durkheimiana que se tornou hegemônica, a tal ponto que ainda hoje Durkheim é
considerado um dos "pais fundadores" da sociologia, é preciso não
perder de vista que inúmeras outras tentativas foram feitas em favor da
produção de discursos sociológicos. Mais uma vez, embora esse interesse pela
constituição da sociologia remonte ao início do século passado, com
Saint-Simon, Comte, Le Play e outros, foi principalmente após a década de 1870
que esse interesse chegou ao paroxismo.
Tendo em vista que a
sociologia não era produzida apenas no âmbito das universidades oficiais
francesas e que não havia, propriamente falando, nenhum "sociólogo"
diplomado, é significativo saber que, a partir da segunda metade do século
passado - e particularmente após 1870 - , professores, filósofos, historiadores
e também médicos, advogados, jornalistas e leigos curiosos em geral criaram, na
França, inúmeras instituições de ensino, sociedades de erudição e revistas
especializadas qite se dedicavam a discutir, produzir e difiundir cursos que
faziam do "social" seu objeto temático. Entre essas instituições,
sociedades e revistas para-universitárias contam-se aquelas criadas por Le Play
e seus seguidores, tais como a Société
d'Economie Sociale, de 1856, que reunia bas awente o clero e a aristocracia de
província, o periódico Les Ouvriers de Deux Mondes, a partir de 1857,
que reunia monografias e estatísticas sobrças condições de vida dos
trabalhadores na Europa e na América, e as revistas La Réforme Sociale, de
1881, e La Science Sociale Suivant la Méthode de Le Play, de 1886, que
reuniam, após a morte de Le Play e a ruptura entre seus seguidores, á primeira,
os leplaystas mais ligados à ideologia,política conservadora e aristocrática de
refórmá social de Le Play, e a segunda, os le-playstas que sé diziam mais interessados nos aspectos
científïcos e metodológicos da obra de Le Play. Estes últimos vieram ainda a
fundar, em 1904, a Sóciété Internationalle de Ia Science Socialé.(8)
Outro que se destacou no
processo de emergência da sociologia foi Renê Worms, principalmente pelas
instituições e revistas que criou. Entre elas contam-se a Revue
Internationale de Sociologie, o Institut International de Sociologie, os
Annales de l'Institut International de Sociologie e a Bibliothèque des
Sciences Sociales, todas no mesmo ano de 1893. Uma das principais
características dessas instituições e revistas era o fato de, diferentemente
das dos le-playstas, serem abertas às mais variadas tendências, o que lhes
garantiu um expressivo público cativo e fez com que elas se pautassem por um
grande ecletismo. Worms criou ainda, em 1895, a Société de Sociologie de Paris,
da qual Tarde veio a se tornar presidente, e que reunia os membros do Institut
que moravam em Paris.(9)
Nesse universo
majoritariamente masculino, uma mulher foi a responsável pela criação de duas
instituições de ensino pára-universitárias que acolheram as ciências sociais emergentes.
Seu nome era Jeanne Weil, mas ela ficou conhecida como Dick May. Secretária
do conde de Chambrum, um mecenas das ciências humanas na França do século
passado, Dick May tinha trânsito suficiente entre as autoridades competentes e
a intelectualidade parisiense para poder criar, em 1895, o Collège Libre dés
Sciences Sociales e, em 1900, a Ecole des Hautes Etudes Sociales. Tal como as
instituições criadas por Worms, estas também eram instituições ecléticas e
reuniam uma clientela cativa entre profissionais liberais e leigos. (10)
Emile Boutmy foi um dos
que mais se afinaram com o clima de época ao criar, em 1871/72, a ainda hoje
renomada Ecole Libre des Sciences Politiques. No ato de fundação, Boutmy
declarou que estava criando a escola porque havia uma necessidade inadiável de
refazer a nação moralmente destroçada pela derrota na ensandecida guerra com a
Prússia e que, para que a nação francesa fosse refeita, era preciso refazer
suas elites, instruindoas e educando-as (Emile Boutmy, Quelques idées sur la
création d'une Faculté Libre d'Enseignement Supérieur, apud Damamme, 1987,
p. 33). Além disso, tratava-se de implantar a III República, o que, no contexto
da época, implicava reestruturar o Estado, reconstituindo seu quadro
administrativo, que passou a ser recrutado mediante critérios meritocráticos e
não mais em função de privilégios estamentais. Pois a "Ecole" vem
suprir essa necessidadé recém-criada de profissionalizar a administração do
Estado, colocando-o nas mãos de pessoas "competentes", investindo
justamente na formação dos novos quadros administrativos. Com isso, Boutmy cria
uma concorrida instituição de ensino que viria a abrigar os mais variados
expoentes do pensamento social do final do século passado, tornando-se uma
peça-chave do processo de emergência das ciências sociais.(11)
Cabe acrescentar que os
positivistas mais ligados ao "primeiro" Comte, o Comte
"científico", se reuniam em torno da Société de Sociologie e da
revista La Philosophie Positive, criadas por Littré na segunda metade do século passado, enquanto os que seguiam o
"segundo" Comte, o Comte "religioso", reuniram-se em torno
de Pierre Laffitte e vieram a inspirar o conservadorismo católico do grupo da
Action Française, no início deste século. Mas a maior propagação do pensamento
de Comte, principalmente de seu positivismo científico, não se deu por meio de
instituições, mas de uma maneira difusa que se realizou plenamente durante a
III República, com a disseminação da crítica à metafísica, do culto ao
progresso e à ordem e da crença na eficácia da ciência como ordenadora moral da
sociedade.(12)
Até o momento, destaquei
basicamente aquelas instituições para-universitárias que podem ser consideradas
como tendo feito, com maior ou menor intensidade, concorrência à sociologia:
durkheimiana. Além disso, destaquei-as considerando basicamente os espaços
para-universitários que elas ocupavam no campo intelectual da época. Já quanto
aos espaços mais institucionalizados, pode-se dizer que, enquanto os
le-playstas ocupavam cargos na administração do Estado, onde difundiram o uso
político-governamental da estatística, a maioria dos que freqüentavam ás outras
instituições era egressa das Faculdades de Direito, ou ocupava postos nelas.
Enquanto isso, ,o espaço privilegiado dos durkheimianos no campo intelectual da
época era constituído pelas Faculdades de Letras, onde a grande maioria do
grupo tinha se formado e onde vários davam aulas, o que fez com que essa
divisão entre as Faculdades de Letras e as de Direito marcasse de alto a baixo
o processo de institucionalização da sociologia francesa. Mas como, para se
institucionalizar, a sociologia francesa precisou antes emergir e ocupar
espaços nem sempre tão oficiais, os durkheimianos também criaram suas
instituições para-universitárias. Entre estas, a mais importante, sem dúvida,
foi o Annéé Sociologique, verdadeiro laboratório de produção ou máquina
de guerra do durkheimianismo, criado por Durkheim em 1897. Pode-se
acrescentar ainda a revista Notes Critiques - Sciences Sociales e a Bibliothèque
Socialiste, organizadas por Simmiand em 1900, que reuniam os durkheimianos
mais afinados com os problemas colocados pelo socialismo.(13)
Da mesma maneira que os
durkheimianos e seus concorrentes dividiam os territórios universitários
dedicados à sociologia, eles também repartiam aqueles ocupados pelas
instituições parauniversitárias, de tal modo que, enquanto nenhum concorrente
de Durkheim teve assento nas instituições criadas pelos durkheimianos,' estes
tampouco tiveram muito espaço nas instituições dos concorrentes de Durkheim,
sendo muito episódico o comparecimento dos durkheimianos às instituições não
controladas por seu grupo. Já se disse que esse distanciamento que os
durkheimianos mantinham com relação à concorrência fazia parte de uma
estratégia que eles teriam levado a cabo deliberadamente, em função da conquista
de espaços que qualificassem sua démarche como aquela
eminentemente "sociológica" (Besnard, 1981, p. 311). Mas isso só é
verdade até certo ponto, pois se os durkheimianos se recusariam, de modo geral,
a participar das revis tas e instituições
criadas e controladas por seus concorrentes, eles não deixaram de participar óu
mesmo de criar outras revistas e instituições parauniversitárias. Nesse
sentido, a não-participação dos durkheimianos nas revistas e instituições de
seus concorrentes também pode ser compreendida como um indício dos limites, que
não foram poucos, do empreendimento durkheimiano.
Quanto a Gabriel Tarde, é
importante notar que ele teve participação ativa em todas essas instituições e
revistas, menos naquelas criadas pelos leplaystas e pelos durkheimianos. Mas
Tarde ainda participou de outras: tal é o caso, por exemplo, da Ecole Russe des
Hautes Etudes Sociales – organizada em 1901 pelos emigrados russos que eram
membros do Institut International de Sociologie e da Société de Sociologie de Paris
–, onde Tarde deu conferências, bem como dos Archives d'Anthropologie
Criminelle, revista fundada em 1886 pelo jurista A. Lacassagne e da qual
Tarde se tornou colaborador assíduo, de 1887 até sua morte, e co-diretor a
partir de 1893.
Em suma, o processo de
emergência das ciências sociais na França do século passado não foi nem
homogêneo, nem coeso, muito menos obra de alguns poucos grandes homens. Daí se
conclui que a unidade da sociologia é um mito que só tem sentido enquanto peça
parcial e mutilada da emaranhada rede de intrigas tecida por uma multiplicidade
de agenciamentos que não tinham a mesma força, a mesma orientação, os mesmos
objetivos. É por isso que é tão difícil, a meu ver, falar da
"sociologia" no singular, bem como confundir seu processo de
emergência com sua institucionalização. A sociologia não é outra coisa senão o
correlato de práticas que a objetivam enquanto tal e, como essas práticas são
heterogêneas, a sociologia é necessariamente plural. Ela é o resultado de
entrecruzamentos, feixes ou nós de relações que são múltiplas e fragmentárias e
que não se encerram em campos fechados: há sempre um vazio, uma distância entre
essa multiplicidade de agenciamentos que mantém constantemente em aberto o
campo das ciências sociais.
Isto posto, já é hora de
atacar o ponto central deste texto. Para tanto, é preciso saber, afinal, quem
foi Gabriel Tarde, esse ilustre desconhecido.
Tarde nasceu Jean-Gabriel
em 1843, em Sarlat, pequena vila da Dordogna, sudoeste da França. Filho único,
aos 7 anos perdeu o pai, um juiz. Foi criado pela mãe, que só o deixou ao
morrer, quando Tarde contava 48 anos. Foi educado no rígido Collège des
Jésuites de Sarlat e cogitou estudar na Ecole Polytéchnique, em Paris, até que
uma grave doença nos olhos lhe impôs uma mudança de planos. Seguindo o exemplo
da família, acabou dedicando-se ao Direito, inicialmente na Faculdade de
Toulouse e, no último ano, em Paris. Terminados seus estudos, Tarde retornou a
Sarlat como magistrado e ocupou, de 1869 a 1894, uma série de postos nas cortes
da região. Em 1894, tornou-se diretor do setor de estatística criminal do
Ministério da Justiça e mudou-se para Paris. Sua primeira experiência no
magistério aconteceu em 1896, quando passou a ministrar um curso por ano na
Ecole Libre des Sciences Politiques; apartir de 1897, proferiu cursos e
conferências no Collége Libre des Sciences Sociales; em 1900, assumiu a cátedra
de filosofia moderna no Collège de France - onde foi preferido, em detrimento
de Bergson - e foi eleito para a Académie des Sciences Morales et Politiques.
Tarde morreu em Paris, em 1904.(14)
A biografia de Tarde
compõe um caso peculiar, se comparada às de vários outros pensadores da época.
Pode-se dizer que Tarde foi praticamente um autodidata: sua formação
universitária se resumiu aos anos em que cursou Direito e sua primeira
experiência no magistério se deu quando ele tinha 53 anos. No entanto, as
linhas gerais de seu discurso estavam traçadas desde os tempos de Sarlat,
quando o isolamento da vida provinciana só era quebrado pela intensa
correspondência que mantinha. Foi nesse clima pacato que Tarde veio a esboçar
boa parte dos problemas que iria abordar em mais de quinze livros e em cerca de
75 artigos em revistas especializadas. Totalizando cerca de 5 mil páginas,
esses livros e artigos começaram a ser publicados em 1880, mas foi sobretudo a
partir de 1890, quando publicou Les lois de l'imitation, seu livro mais
conhecido, que Tarde começou a ganhar a fama que viria a se consolidar em 1894
- com sua ida para Paris e a publicação de La logique sociale no ano
seguinte - e a culminarem 1900 quando, três anos após publicar L'opposition
universelle, ele foi para o Collège de France e se tornou membro da
Académie.
Da província à metrópole,
do anonimato à notoriedade, a bem-sucedida trajetória em vida de Tarde
encontrou suas condições de possibilidade, a meu ver, no cruzamento entre o
interesse geral pela produção de discursos sociológicos, fossem eles quais
fossem, ao menos a princípio, e o caráter extremamente singular de seu discurso
microssociológico, e mesmo de sua biografia. O clima na metrópole era. de uma
demanda ansiosa por discursos que fizessem do social seu objeto, o que tornou
possível o despontar em vida de vários outros pensadores que, então famosos,
tal como Tarde, hoje são praticamente desconhecidos. Nesse clima, Tarde foi
capaz de lidar com temas "quentes", tais como o crime, a moda, os
indicadores econômicos e a comunicação de massas, o socialismo e a democracia,
além das diversas formas de sociabilidade, de um modo bastante bizarro. E
bizarro porque, atento ao que costuma passar despercebido, isto é, aos detalhes
infinitesimais, o que fazia de seu discurso um discurso deslocado em relação
aos outros que disputavam a hegemonia do saber na época, ou seja, os que se apoiavam
na aristocrática metafísica espiritualista e os que faziam da moral cívica
republicana sua palavra de ordem. Em um tempo ávido por novidades, foi essa
atenção ao que costuma passar despercebido que garantiu notoriedade à
microssociologia de Tarde. Em suma, Tarde não conheceu a fama dos que têm a
sensibilidade para enunciar o que a sociedade reclama naquele lugar e momento,
mas a celebridade dos que não sentem necessidade da concordância com um sistema
de referências comum para estabelecer as condições de validade de seu discurso,
a singular celebridade dos excêntricos.
Quanto ao fracasso
póstumo, isso foi motivado por uma série de fatores, entre os quais se contam o
caráter relativamente precário e tardio, apesar de bem-sucedido, da trajetória
acadêmica de Tarde, bem como o fato de ele não ter envidado esforços no sentido
de formar discípulos, ou mesmo de orientar teses de alunos, ou até mesmo de
escrevê-las. Além disso, muito contribuiu para o fracasso sua posição
relativamente minoritária no campo intelectual da época, no que se destaca a
situação de antagonista radical de um dos mais articulados agenciamentos
sociológicos da virada do século, vale dizer, o agenciamento durkheimiano.
Mas, tanto o sucesso
quanto o fracasso, Tarde deve-os, em boa parte, ao discurso que enunciou.
Quanto a esse ponto, problema principal deste texto, minha tese é que Tarde
elaborou um articulado discurso microssociológico, muito distinto daqueles
produzidos pelos durkheimianos e pelos outros que, nessa mesma época, se dedicaram
à produção de discursos sociológicos. O discurso de Tarde se constituiu,
polemicamente, em favor de uma sociologia francamente diferenciada daquela
elaborada por Durkheim, sendo que a diferença básica entre os dois autores se
situa no fato de que, enquanto Durkheim privilegiava as análises macrossociais
e os fenômenos de semelhança, Tarde dedicava sua microssociologia à análise dos
fenômenos infinitesimais e encarava de modo problematizante os fatos
semelhantes. É que, longe de tomar esses fatos como dados ou objetos naturais,
Tarde (1890b, pp. 65, 77-8; e 1901, p. 461) elaborou sua microssociologia
perguntando-se como pôde ser produzida essa "similitude de milhões de
homens", tão cara a Durkheim, o que o levou a centrar suas análises no problema
da diferença. (15)
Tornou-se comum referir-se
ao discurso de Tarde, quando ele chega a ser citado, como se fosse obra de
psicologia e padecesse de forte inclinação individualista. É fundamentalmente
em torno dessa tachação da microssociologia de Tarde como uma sociologia
individualista que giravam as críticas levantadas pelos durkheimianos contra o
discurso de Tarde. Do ponto de vista de Durkheim, isso consistia uma aberração
entre termos, já que o social era considerado um plano cuja consistência
específica passava longe do plano do livre-arbítrio individual.(16)
No entanto, essa
(des)qualificação do discurso microssociológico de Tarde não resiste autua
análise mais acurada de sua obra. Inicialmente, é preciso destacar que essa
imagem do discurso de Tarde como mais psicológico e individualista do que
sociológico só tem sentido quando se toma como parâmetro de avaliação discursos
como o de Durkheim, nos quais a oposição indivíduo/sociedade e o desequilíbrio
em favor do segundo termo têm alcance de princípios epistemológicos.
Considerando que, no caso, o critério de avaliação está integralmente
comprometido com o que é avaliado, o que invalida a avaliação, a classificação
do discurso de Tarde como "psicológico" ou "individualista"
não revela outra coisa senão as distinções totêmicas e as divisões de tarefas e
de competências, características do métier.
Nesse sentido, é preciso
ter em vista que uma das mais fortes clivagens do campo intelectual da época se
dava em torno da polêmica entre o determinismo e o livre-arbítrio. No caso da
sociologia nascente, essa polêmica se rebatia na dicotomia sociedade/indivíduo.
Desde o início, Durkheim se colocou clara e obstinadamente do lado do primeiro
termo, o que em sua obra apareceu sob a figura do determinismo social. Mas o fato
é que o processo de emergência da sociologia se desenrolava de tal maneira que
não haviam muitas alternativas, ao menos do ponto de vista dos durkheimianos:
quem não estava do lado de Durkheim não era determinista, logo, era partidário
do livre-arbítrio, em suma, arauto do individualismo. O problema é que a
microssociologia de Tarde está longe de depender do livre-arbítrio, "essa
noção ambígua e perigosa" que, já notara Favre (1983, p. 8), Tarde
descarta completamente. Mas se Tarde descarta o livre-arbítrio, ele também não
se volta para os determinismos estreitos e reificantes, que denuncia de forma
tão veemente quanto o faz com o primeiro (Tarde, 1899x, pp. 246 ss.). Se ainda
se pode considerar Tarde como um sociólogo da liberdade, como já se disse, é com
a condição de que se deixe de entender liberdade no velho sentido do
livre-arbítrio escolástico. No lugar de liberdade, diz Tarde (1901, p. 466),
"digamos originalidade, diversidade". Tarde (1895b, p. 158) sintetiza
sua posição sobre estas questões da seguinte maneira: "Pode-se ser
determinista e transformista como ninguém e afirmar a multiplicidade de
desenvolvimentos possíveis (...) em toda ordem dos fatos sociais e mesmo
naturais. Não é necessário admitir, para isso, a intervenção de, um livre-arbítrio,
de um livre capricho humano ou divino que, entre todas essas vias ideais,
escolheria a seu bel-prazer; é suficiente crer na heterogeneidade, na autonomia
inicial dos elementos do mundo". Cabe acrescentar ainda que,
fundamentalmente, a qualificação do discurso de Tarde como psicológico ou
individualista não é apropriada porque, para Tarde, o que conta não são os
indivíduos, mas as microrrelações de repetição, oposição e adaptação que se
desenvolvem nos indivíduos, ou entre eles, ou melhor, em um plano
no qual a distinção entre o social e o individual perde toda nitidez. (17)
É em atenção a essas
microrrelações, tão infra-sociais quanto supra-individuais, que Tarde vai
articular sua microssociologia em torno do interesse pelo mundo dos detalhes e
dos acontecimentos infinitesimais. E é em razão desse interesse que Tarde
sustenta duras críticas contra o que ele considera dois erros da sociologia: o
erro "panorâmico" e o "desenvolvimentista". Para Tarde, o
erro "panorâmico" consiste em crer que, para ver aparecer a
regularidade, a ordem e a lógica dos fenômenos sociais, é necessário deixar de
lado seus detalhes, essencialmente irregulares, e se elevar a um ponto onde
seja possível abarcar de modo panorâmico apenas os grandes conjuntos. Já o
segundo equívoco consiste em sujeitara marchadas sociedades, sob seus diversos
aspectos, a passar e repassar pelos mesmos caminhos, em fases sucessivas
arbitrariamente traçadas.(18)
Para Tarde, esses dois
pontos de vista configuram erros, porque existe mais lógica em uma frase do que
em um discurso, "em um rito especial do que em todo um credo" (1898x,
p. 126). Isso equivale a dizer que, de acordo com ele, a lógica que anima os
fenômenos sociais não é uma lógica da totalização, mas uma lógica da adaptação,
da invenção e da co-produção de sentido. A lógica dos fatos sociais é a
modalidade segundo a qual eles são produtores de laços sociais. De acordo com
Tarde, os laços sociais não são orgânicos, nem panorâmicos, nem tampouco estão
amarrados por qualquer espécie de "solidariedade", seja ela
econômica, jurídica ou moral. Em vez disso, eles são cerebrais e microfísicos,
são a simultaneidade das convicções e das paixões, a consciência de que tal
crença ou tal desejo é partilhado, em um mesmo momento, por grande
número de homens. Ao que Tarde acrescenta que os laços sociais nada têm de
natural, posto que eles são o resultado de propagações imitativas. (19)
Diante disso, desvela-se o
estatuto do social em Tarde: considerando que só existe ciência do que se
repete ou do que pode se repetir, Tarde garante a autonomia da sociologia
enquanto disciplina científica, na medida em que postula uma modalidade de
repetição especificamente social, qual seja, a imitação, que vem a ser o
correlato sociológico da geração biológica e da ondulação física. E a imitação
é a modalidade especificamente social da repetição, na medida em que nada tem
de natural, pois consiste em uma impressão mental produzida a distância,
através da qual um cérebro reflete sobre outro cérebro suas idéias, vontades,
maneiras de sentir etc. Daí Tarde ser levado a conceber as relações sociais
como uma féerie d'idées, isto é, como relações que não se reduzem a
grandes objetos naturalizados ou reificados, nem se substancializam em unidades
materiais tomadas a priori. (20)
É preciso ter em vista, no
entanto, que a possibilidade de articulação de um discurso microssociológico se
encontra fundamentada, em Tarde, em uma cosmologia cujos princípios básicos são
os postulados da indeterminação do real e da existência como diferença. Com o primeiro
princípio, Tarde afirma que o real é apenas um caso do possível, do necessário
sob condição. Para Tarde, o que existe no real são emergências produzidas pelos
encontros fortuitos e inumeráveis de séries repetitivas, mas emergências que só
são inteligíveis com relação a infinitas séries de relações ou
"encontros" virtuais. Nesse sentido, há que se considerar a
indeterminação do real, mas também, e sobretudo, há que se convencer da riqueza
do real, da infinidade de- suas formas, da multiplicidade de seus recursos.
Tarde é um desses filósofos que concebem o real não como pleno, nem como se ele
fosse marcado pelo signo de qualquer carência, mas em excesso.(21)
A esse princípio do real
em excesso, Tarde acrescenta o princípio cosmológico que afirma que existir é
diferir. Problematizando o privilégio analítico dos fatos de semelhança, Tarde
postula o caráter infinitesimal do real, afirmando que é a diferença, e não a
semelhança ou a identidade, o princípio efetivamente explicativo. Com isso,
Tarde desenvolve uma crítica contra os que acreditam que a marcha das
sociedades consiste em um processo cada vez mais abrangente e inelutável de
diferenciação que partiria de semelhanças primordiais até chegar ao estágio
atual, marcado por uma intensa divisão do trabalho. De acordo com Tarde, a
diferença vai diferindo sem, no entanto, ir aumentando ou diminuindo. Isso não
quer dizer que Tarde se deixe levar pelo atomismo. Ao contrário, ao afirmar que
tudo parte da diferença e que tudo a ela retorna, Tarde postula paralelamente
que tudo que existe no mundo é composto de relações, e não de unidades
compactas e fechadas sobre si mesmas. Daí, o que interessa a Tarde são sempre
relações, mas relações que, enquanto infinitesimais, são dessubstancializadas.(22)
De acordo com Tarde, são
três as modalidades de relações que regem todos os fenômenos observados ou
concebíveis no universo: as de repetição, oposição e adaptação. Deslocando o
privilégio explicativo dos fatos de semelhança, Tarde afirma que todas as
similitudes encontradas no universo, com exceção do espaço, são resultado de
processos repetitivos. Para Tarde, toda repetição procede de uma inovação
qualquer ou, o que vem a dar no mesmo, toda repetição é uma inovação que se
propaga. Daí poder-se dizer, tendo em vista os princípios cosmológicos
enunciados acima, que a lei da repetição consiste na tendência a fazer passar,
pela via da amplificação progressiva, de um infinitesimal relativo a um
infinito relativo. No tocante ao mundo social, os processos repetitivos se
desenvolvem sob a forma de radiações ìmitativas, ao que Tarde acrescenta que a
imitação é o processo social por excelência, sendo a vida social composta
especificamente de radiações imitativas que escapam de um ponto de
singularização ou de inovação qualquer. Cabe acrescentar ainda que, a
princípio, a imitação consiste em uma inovação que se propaga em escala
geométrica e que, enquanto tal, almeja a conquista do infinito, o que ela
conseguiria não fosse o fato de, ao se propagar, encontrar outras séries
ímitativas que com ela interferem.(23)
Antes, porém, de analisar
as modalidades de interferências, cabe saber o que é imitado. De acordo com
Tarde, a imitação é a forma do ato social elementar, mas esses atos são feitos de
outra coisa que não a imitação. Desde logo, não são sensações, modelos de
comportamento ou representações que são imitados. O que é imitado, diz Tarde, é
sempre uma idéia ou um querer, um julgamento ou um desígnio, onde se exprime
uma certa dose de crença e de desejo. Tarde afirma ainda que as crenças e os
desejos são as forças plásticas e as forças funcionais que animam a vida
social. Mais do que isso, elas são as verdadeiras "quantidades
sociais", são o fundo de toda disposição
social. Dai que, o que se repete em matéria social são fluxos intensivos e
moleculares de crenças e de desejos que constituem toda uma matéria
sub-representativa. Nesse sentido, enquanto a repetição marca a passagem ou a
propagação de um fluxo de crença e de desejo pelo campo social, a oposição
marca a intervenção de um fluxo sobre outro, sob a forma de um choque binário,
enquanto a adaptação marca a conjugação de múltiplos fluxos de crenças e de
desejos. Tendo isso em vista, Tarde afirma que o que cabe à sociologia não é o
estudo das representações coletivas, como queria Durkheim, mas o estudo das
correntes de crença e de desejo no campo social. (24)
Considerando que a
imitação diz respeito à propagação de fluxos de crenças e de desejos, Tarde
afirma que, ao se propagarem, esses fluxos interferem mutuamente entre si.
Essas interferências se dão, por sua vez, sob a forma de interferências-lutas e
de interferências-combinações. A oposição corresponde à primeira. modalidade de
interferência, isto é, àquela que coloca em binarìedade os fluxos de crenças e
de desejos. Mas a oposição não é, como se acreditava naquela época- e como
ainda hoje se postulaa forma privilegiada das relações de diferença. Segundo
Tarde, ela não é um "máximo de diferença", mas uma espécie singular
de repetição: aquela de duas coisas semelhantes que são próprias a se entre
destruírem em virtude de sua própria similitude. É que, segundo Tarde, toda
oposição supõe uma similitude de fundo entre os termos contrapostos. Daí a
categoria de oposição ocupar um lugar bem mais secundário na economia global do
discurso de Tarde do que seríamos levados a pensar a princípio, tendo em vista
seu interesse pelo problema das diferenças. Tarde acrescenta ainda que a
oposição social elementar deve ser procurada dentro de cada indivíduo social,
todas as vezes que ele hesita entre a adoção ou a rejeição de uma série
imìtativa que chega até ele. A hesitação, essa minúscula batalha interior,
marca o ponto de indiferença absoluta entre a afirmação e a negação de
uma corrente imítativa e, enquanto tal, ela assinala a forma especificamente
social da oposição elementar.(25)
Já a adaptação é a última
e a primeira categoria do discurso de Tarde. Em Tarde, ela não é um mero
meio-termo entre a adição de duas coisas semelhantes pela via da repetição e
sua destruição pela via da oposição. De acordo com ele (1898x, p. 10), a
adaptação diz respeito diretamente ao campo das diferenças e se define enquanto
relação de "co-produção verdadeiramente criativa". Propriamente
falando, uma coisa diferente da outra não se adapta a essa outra; em vez disso,
o que se produz entre elas é uma relação de co-adaptação que, enquanto tal,
envolve a criação de uma nova diferença. No plano da vida social, a adaptação
assume a forma da invenção, que não é o resultado da atividade de um indivíduo
que agiria de maneira autônoma, mas um lugar de extrema singularidade, onde se
produzirá o encontro necessário entre diversos fluxos sociais que darão origem
a novos fluxos sociais. Considerando que, para Tarde, a lógica que anima os
fatos sociais não é uma lógica da totalização, mas sim da invenção e da
co-produção de sentido, ele é levado a postular que as relações sociais não se
apresentam necessariamente sob a forma de uma relação entre uma cópia e seu
modelo, mas sim como uma resposta a uma questão. Nesse sentido, pode-se dizer
que toda invenção que eclode é um possível realizado entre mil outros que
seriam possíveis, mas que deixaram de sê-lo no momento da atualização da
primeira invenção, que tornou possível a emergência de uma infinidade de outras
que não o eram anteriormente. E é nesse intrincado jogo de possibilidades que a
invenção, ponto minúsculo e preciso de máxima singularidade, marca a
simultaneidade criativa de um novo fluxo molecular de crença e de desejo, que é
por onde tudo começa e onde tudo termina em matéria de vida social. (26)
A partir disso pode-se
levantar a possibilidade, sugerida por Tarde, de estabelecer uma espécie de
"fenomenologia clínica" dos processos de subjetivação, que se
articularia em torno das figuras do idiota, do sonâmbulo, do tímido e do louco.
Sucintamente, o idiota ou o homem das multidões seria a figura clínica da
inadaptação, na medida em que se caracterizaria pelo fato de os processos
repetitivos nele funcionarem em corrente contínua e se alimentarem de contatos
físicos e onde a repetição objetivaria a reprodução do semelhante, sem
complicação. Já o sonâmbulo ou o hipnotizado seria a figura clínica das
correntes de imitação social, na medida de sua passividade, docilidade e
credulidade repetitiva. Como diz Tarde (1890b, pp. 82 ss.), "ter apenas
idéias sugeridas e crê-Ias espontâneas: tal é a ilusão própria ao sonâmbulo e
ao homem social". É nesse sentido que o sonambulismo indicaria uma espécie
de assujeitamento (ou de conformação crédula e dócil dos sujeitos) às
séries repetitivas da vida social. O tímido ou o intimidado é, por sua vez, a
figura clínica dos processos de oposição social, isto é, da hesitação. E a
hesitação se deixa apreender sob a figura da timidez, na medida em que marca a
entrada em cena de uma força de resistência às radiações ünitativas que
assujeitam o ser social. Na timidez, a resistência é forte o suficiente para
que o tímido não se deixe atravessar de modo dócil ou crédulo por uma corrente
imitativa qualquer, mas não o suficiente para que ele se entregue sem peias à
corrente imitativa que se contrapõe à primeira, o que o conduz a essa
"espécie de paralisia momentânea do espírito, da língua e dos braços,
(...) a essa despossessão de si que se chama intimidação" (Tarde, 1890b,
p. 93). Nesse sentido, a timidez indica momentos de dessubjetivação ou de
suspensão subjetiva: o fato de que todo processo social comporta uma parte de
opacidade intrínseca. Já a figura do louco diz respeito à adaptação social
elementar, à invenção. Nos termos de Tarde (1895b, p. 77), "por sua
estranheza, sua monomania, sua fé imperturbável e solitária em si mesmo e em
sua idéia (...), o inventor é uma espécie de louco". Além disso, Tarde
(1890b, p. 95) acrescenta que para inovar é necessário escapar momentaneamente
à sociedade e ser supra-social mais do que social, "tendo essa audácia tão
rara". E é nessa condição minoritária, supra-social, que um pequeno homem,
munido de idéias e paixões minúsculas, encontra-se em posição de criar um novo
fluxo molecular de crenças e de desejos, um novo processo de subjetivação. (27)
Em um balanço geral, cabe
acrescentar que o discurso de Tarde se articula basicamente sobre duas
categorias: a de repetição e a de diferença. Em um primeiro plano, a repetição
é a categoria mais importante, na medida em que é a diferença que aparece entre
duas repetições. Nesse plano, a oposição seria apenas a figura sob a qual uma
diferença se distribui na repetição, quer para limitá-la, quer para abri-Ia a
uma nova ordem, enquanto a adaptação seria a figura sob a qual as correntes
repetitivas se cruzam é se conectam em uma repetição superior. Mas, em outro
plano, é a repetição que aparece entre duas diferenças, é a repetição que se
diferencia; enfim, é a diferença a categoria fundamental. Nesse plano, a
repetição, a oposição e a adaptação existiriam "para" a diferença,
sendo a repetição o processo através do qual se passaria de uma ordem de
diferenças à outra, isto é, o diferenciador da diferença. A meu ver, toda a
microssociologia de Tarde parece estar articulada sobre a afirmação dessa
diferença "que não se opõe a nada, que não serve para nada, pois ela não é
semelhante nem assimilável a nada, e que parece ser o fim final das
coisas" (Tarde, 1897, p. 445). E é na afirmação dessa diferença que
encontro um dos pontos mais originais e atuais do discurso microssociológico de
Tarde.
Isto posto, é hora de
concluir este texto, que vem se tornando demasiado longo. E, como as questões
inicialmente levantadas aqui (se Tarde foi tão notável, por que foi esquecido?
Se Tarde foi esquecido, por que havia sido notável outrora?) já tiveram suas
respostas sugeridas,(28) cabe concluir atacando uma terceira e última
questão, esta efetivamente capital: a da atualidade do discurso de
Tarde.
Esta questão é de difícil
resolução e, ao mesmo tempo, muito simples de ser respondida. É de difícil
resolução precisamente porque sua posição é estratégica: dela dependem todas as
outras. Creio ser desnecessário dizer que não tenho condições de resolvê-la
plenamente no momento, o que não me impede de apontar alguns pontos
fundamentais, principalmente o seguinte: a atualidade do discurso de Tarde deve
ser procurada em seu caráter microssocial, que fez de sua sociologia uma
sociologia menor, ao menos em dois sentidos. Em um primeiro sentido,
como sociologia elaborada a partir de uma posição relativamente minoritária no
campo intelectual da época, o que de certa forma a liberava para a produção de
um discurso que não sentia necessidade de concordância com um sistema de referências
comum para estabelecer condições de validade. Discurso menor do descentrado,
discurso crítico do excêntrico. Mas menor também, e fundamentalmente, em outro
sentido, por ser um discurso que buscou se singularizar tomando por alicerce o
campo movediço das diferenças. Discurso microssociológico dos detalhes
infinitesimais, discurso molecular da diversidade.
Ao mesmo tempo, a resposta
é inequívoca. Tarde não é um sociólogo atual, não restam dúvidas quanto a isso:
seus textos há muito não são lidos, publicados ou debatidos em qualquer parte
do mundo; as referências a seu nome escassearam de vez, ou então pertencem ao
fértil campo dos anedotários da história dessa disciplina; enfim, as
possibilidades de que seu discurso venha a ser difundido, debatido, publicado e
discutido hoje em dia são irrisórias. Por outro lado, existem exceções na
França, nos Estados Unidos, existe este texto.
Então, talvez a melhor
maneira de descrever a singular condição de (in)existência atual do discurso de
Tarde seja prestar atenção ao sentido difícil de uma passagem escrita por ele
mesmo:
(...) solitários, alguns
espíritos selvagens, estrangeiros, (...) no tumulto do oceano social onde eles
se encontram mergulhados, ruminam aqui e ali problemas bizarros, absolutamente
desprovidos de atualidade. E são estes os inventores de amanhã (Tarde, 1890b,
p. XIII).
NOTAS
1. Este texto, que é uma síntese de Gabriel Tarde e a
microssociologia (Vargas, 1992), foi apresentado no GT "A
construção social da diferença", durante a XIX reunião da ABA realizada em
Niterói, de 27 a 30 de abril de 1994.
2. Herdeiros da
institucionalização., para nós não é fácil perceber que as coisas poderiam ter
sido diferentes. Mas Thibaudet (1972, p. 123) já. observara que, naquela época,
mesmo em Paris, "as grandes corporações da inteligência são a Academia, o
Instituto, a literatura, o Jornalismo, a Advocacia: a Universidade só vem em
seguida e em uma posição secundária". A situação só viria a mudar e a se
aproximar do que é hoje com as reformas educacionais implementadas pelos homens
da III República que, ver-se-á mais tarde, foram fundamentais para o
desenvolvimento de alguns, mas não de todos os discursos sociológicos que então
estavam emergindo.
3. Quanto aos diversos
aspectos da constituição da sociologia durkheimiana, ver Revue Française de
Sociologie, n° XVII/2, abril/junho de 1976, "A propos de
Durkheim", e XX/1, janeiro/ março de 1979, "Les Durkheimiens". A
respeito dos concorrentes de Durkheim, ver n° XXII/3, julho/setembro de 1981,
"Lés concuizents du group durkheimien".
4. P Veyne (1983, p.
48) lançou a noção de intriga para pôr em evidência algumas coisas muito
precisas: que os fatos não existem isoladamente e que "o tecido da
história é uma mistura, muito humana e bem pouco `científica' de causas
materiais, de fins e de acasos" ou, o que vem a dar no mesmo, que a
história é uma "fatia de vida" e que os acontecimentos só existem
relacionados.
5. Uso aqui a noção de
desterritorialização em um sentido próximo ao que Deleuze e Guattari (1980, pp.
253-83) emprestam ao termo. Trata-se de uma noção complexa; melhor, trata-se de
uma das disposições da complexa noção de "territorialidade", ou de
"códigoterritório". Como assinalara Donzelot (1976, pp. 176-7), esta
noção tentaria escapar às distinções entre essencial e marginal, infra e
superestrutural, definindo-se como o modo inextricável das relações entre os
processos produtivos (econômicos e desejantes), os códigos sociais e o corpo
pleno da terra. Fala-se sempre de processos de territorialização e de processos
de tenitorialização necessariamente relativos. Assim, os processos de
desterritorialização indicariam certos agenciamentos de produção (econômica,
política, social etc, mas também desejante) que tenderiam a operar sob a forma
de massas ou de fluxos em fuga. Já os processos de reterritorialização
indicariam agenciamentos de produção que tenderiam a operar sob a forma de
classe ou de enquadramento dos fluxos decodificados. Na aplicação em questão,
os processos de destenitorialização estão do lado daqueles que fizeram ruir o
Antigo Regime e, com isso, tornaram possível a constituição de uma nova ordem
que irá se articularem torno da figura do Estado-nação; ruas também estão do
lado. daqueles que desde o início colocam em risco e fazem falhar o próprio
modelo do Estado nacional. Já os processos de reterritorialização estariam do
lado daqueles que tentariam segurar ou canalizas esses fluxos liberados durante
o fim do Antigo Regime na direção de sua sobredeterminação pela ordem do Estado
nacional.
6. Sobre as reformas
educacionais promovidas pelos republicanos, ver Charle, 1983; Kuady,1976, 1979
e 1983; Thibaudet,1972; e Weisz, 1977 e 1979.
7. É curioso notar que a
entrada da sociologia durkheimiana no Brasil se deu por trilhas bem próximas,
ainda que algumas décadas mais tarde, ao modo como ela ocorreu na França, sendo
que, também aqui, a sociologia durkheimiana teve um forte apoio na pedagogia. A
esse respeito, ver Guedes (1994).
8. Sobre Le Play e os
le-playstas, ver Savoye, 1981, pp. 315-44, e Clark, 1973, pp. 104-11.
9. Sobre Worms e as
instituições que criou, ver Geiger, 1981, pp. 345-60, e Clark, 1973, pp.
147-54.
10. Sobre Dick May e as
instituições que ajudou a fundar, ver Clark, 1973, pp. 155-60, e Weisz, 1979,
pp. 100-1.
11. Sobre Boutmy e a
"Sciences Po", ver Favrè, 1981, pp. 429-65; Damamme,1987, pp. 314-46;
e Clark, 1973, pp. 111-3. Sobre a ascensão da meritocracia no contexto da III
República, ver Karady, 1983 e 1976, p. 271; e Charle, 1983, pp. 77 e 89.
12. Sobre Comte e os positivistas, ver Clark, 1973, pp. 99-104; Verdenal, 1981, pp. 213-46; Moraes Filho, 1983,
pp. 7-49; e Lepenies, 1988, pp.19-46.
13. Sobre o Année
Sociologique, ver Besnard, 1979; sobre Notes Critiques e Bibliothèque, ver
Clark, 1973.
14. Sobre a vida de Tarde, ver De Tarde, 1909; e Milet, 1970.
15. Ver ainda Deleuze,
1968, pp. 104-5; e Deleuze e Guattari, 1980, pp. 267-8.
16. Note-se ainda que essa
interpretação "individualista" ou "psicologizante" da
sociologia de Tarde não foi obra apenas de seus concorrentes, mas também de
alguns de seus comentadores, tais como Milet (1972), Rocheblave-Spenlé (1973) e
Lubeck (1981).
17. Sobre esse plano
supra-individual e infra-social ver Tarde, 1890x, pp. 155 ss.; ver ainda
Deleuze, 1968, p. 105; e Deleuze e Guattari, 1980, pp. 267-8.
18. Sobre os dois erros
sociológicos, ver Tarde 1890b, pp. 213-4; 1893d, pp. 1-13 e 162 ss.; e 1898x,
pp. 25 e 124-5.
19. Sobre os laços
sociais, ver Tarde, 1890b, p. 65; 1898a, p. 35; e 1893b; ver ainda Joseph, 1984,
p. 549.
20. Sobre a imitação como
modalidade social da repetição e sobre as relações sociais como féerie
d'idées, ver Tarde, 1890b, pp. 164;1890c, pp. 358-65;1895b, p.VIII;1898a,
pp. 22 e 39;1898b, pp. 42-5; e 1901, p. 463; ver ainda Joseph, 1984, p. 549.
21. Sobre o princípio
cosmológico da indeterminação do real e do real em excesso, ver Tarde, 1874a,
pp.14-5;1890b, p. XXIII; 1895b, pp. 159-61; ver ainda Joseph, 1984, p. 550.
22. A esse respeito, o
longo artigo "Monadologie et Sociologie" (Tarde, 1893a) é um trabalho
fundamental. Ver também Tarde, 1974b.
23. Sobre repetição e
imitação, Les lois de l' imitation
(1890b) é o trabalho defintivo, mas ver também Tarde, 1890c; e 1898x, pp.
15-56.
24. Sobre crença e desejo,
ver Tarde, 1880;1890b, pp.157 ss; e 1895b, pp. 25 ss; ver ainda Deleuze e
Guattari, 1980, pp. 267-8; e Joseph, 1984, pp. 552-3 e 557.
25. O texto fundamental,
no qual Tarde insiste na distinção entre diferença e oposição, é L'opposition
universelle (1897); sobre esse tema, ver ainda Tarde, 1898x, pp. 57-112 e
1890b, pp. 157-67.
26. Sobre a invenção como
forma social da adaptação, ver Tarde 1895b, pp. 151-226;1898a, pp.
113-55;1890b, pp. 167-87; ver ainda Reynié, 1989, pp. 10-1.
27. Sobre o idiota e o
homem das multidões, ver Tarde 1890a, pp. 323 ss.; 1892; 1893b; 1893c; e 1899b.
Sobre o sonâmbulo e o hipnotizado, ver 1890b, pp. 82 ss.;1895b, p. 77. Sobre o
tímido e o intimidado, ver 1890b, pp. 93 ss. e 1890a, pp. 360 ss. Sobre o louco
e o inventor, ver 1895b, pp. 77, 167 e 173 e 1890b, p. 95. Sobre uma proposta
semelhante de fenomenologia clínica em Tarde, ver Joseph, 1984, p. 562.
28. Recorde-se que, quanto à primeira questão, sugeri que o
esquecimento póstumo de Tarde foi o resultado quer da carência de uma
estratégia que deliberadamente garantisse a Tarde a continuidade póstuma de seu
discurso, quer da fortíssima oposição que sofreu por parte dos partidários da
sociologia durkheimiana, que estava bem mais afinada aos novos tempos
republicanos na França do que a micros sociologia de Tarde. Quanto à segunda
questão, sugeri que a notoriedade de Tarde em vida foi o resultado do
cruzamento de uma demanda geral pela produção de discursos sociológicos, com o
caráter singular ou excêntrico que dava o tom do discurso microssociológico de Tarde.
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