A MICROSSOCIOLOGIA DE GABRIEL TARDE


Eduardo Viana Vergas

 

Este texto (1) por tema o discurso microssociológico de Gabriel Tarde (1843-1904). Considerado, durante sua vida (mais especificamente entre os anos de 1890 e 1904), como um dos mais notáveis sociólogos franceses do final do século passado, Tarde participou ativamente do processo de emergência e constituição da sociologia francesa. São vários os sinais que atestam a notoriedade de Tarde. Ele assistiu em vida à publicação de quase toda sua vasta produção intelectual, sendo uma parte expressiva da mesma traduzida para várias línguas. Apesar de ter passado quase toda a vida à margem do sistema universitário estatal francês, tornou-se professor do respeitado Collège de France, onde ingressou atrawés de um processo de seleção no qual superou ninguém menos do que Henri Bergson. Além disso, tomou-se o mais duro e consistente opositor francês contemporâneo de Durkheim, tendo o mérito de ser reconhecido enquanto tal pelo próprio Durkheim e de ter se tornado, ao lado deste, o sociólogo mais citado na França da época. No entanto, apesar de toda essa notoriedade, a obra de Tarde caiu num profundo ostracismo após sua morte; e o ostracismo foi tanto que seu discurso foi praticamente excluído dos quadros do pensamento sociológico.

De imediato, duas questões se colocam: se Tarde foi tão notável, por que foi esquecido? Mas, se ele foi tão esquecido, aponto de hoje a sociologia praticamente prescindir dele, por que um dia fez tanto sucesso?

Ambas questões, e o "retorno" a Tarde nelas implicado, não indicam um interesse meramente anedotário, nem denunciam anacronismos. Ao contrário, se existe algum interesse em rediscutir o discurso microssociológico de Tarde, bem como os problemas colocados pelas questões apresentadas acima, esse interesse é sobretudo atual e diz respeito diretamente às condições atuais de produção dos saberes sociológicos. A esse propósito eu já escrevera:

(...) como Deleuze (1976, pp. 3 ss.) e Foucault (1971 e 1980) assinalaram em suas leituras de Nietzsche, a interpretação não é a elucidação imparcial de símbolos passivos, imóveis e anteriores, nem basta tirar todas as máscaras que se superpõem ao acontecimento analisado para desvelar sua identidade primeira. A interpretação é uma tarefa infinita, inacabável; ela é sempre apropriação, apoderação por violência de um pedaço de realidade que não tem, em si, qualquer significação essencial ou ideal; ela remete constantemente a "máscaras sem rosto", sem identidade e envolve, desde o início, uma pluralidade de sentidos. Nesse sentido, não se trata de assumir partidos (seja o de Tarde, o de Durkheim ou de outros), mas de, pura e simplesmente, assumir que não há posição de neutralidade na relação analítica, ou que o problema da objetividade científica é um falso problema, o que vem a dar nó mesmo (Vargas, 1992, pp. 14-15).

Considerando que qualquer projeto de "retorno" não escapa ao fato de ser necessariamente parcial e fragmentário; que, tal como existem vários Durkheim (Lukes, 1977, p. 3; Chamboredon, 1984, p. 462), pode-se também dizer que existem vários Tarde; e que uma das motivações que anima o desenvolvimento deste texto é procurar desnaturalizar "aquilo que é óbvio"; pode-se dizer, então, que o texto que agora se lê é micropoliticamente orientado. Por isso mesmo, a discussão dessas questões terá inicialmente que passar por um exame crítico do processo de emergência das ciências sociais, e particularmente da sociologia, na França do fim do século XIX, tendo em vista as condições que tornaram possível e necessária a produção de discursos sociológicos como os de Tarde, Durkheim e tantos outros.

Corriqueiramente, quando se pensa no processo de emergência das ciências sociais na França do final do século passado, costuma-se centrar as análises na discussão dos problemas relativos a sua institucionalização, acreditando-se que a institucionalização de um discurso é sua condição de sobrevivência, sua garantia de futuro. Tudo se passa como se a condição de existência de um saber fosse unicamente sua forma institucionalmente reconhecida. Neste caso, não é surpreendente que as análises relativas ao contexto francês tendam á privilegiar quase exclusivamente o ingresso das ciências sociais nas instituições universitárias do Estado francês como o momento crucial desse processo. Trata-se de uni equívoco: como, de acordo com os valores atuais, as instituições universitárias se encontram no cume da hierarquia das instituições consagradas à produção e reprodução do saber, acredita-se que, naquela época, dava-se o mesmo, o que não corresponde aos fatos. (2)

Colocando as coisas dessa maneira, não é surpreendente que, no que diz respeito particularmente à sociologia, as análises tendam a convergir para a consagrada figura de Durkheim. Considerado um dos grandes "pais fundadores" dá sociologia, a Durkheim é creditado seu estabelecimento como uma disciplina científica e autônoma, berra como sua institucionalização nos quadros do sistema público de ensino superior da França. Ainda hoje é quase impossível se referir ao processo de emergência da sociologia na França sem fazer uma reverência ao mestre que teria liberado a sociologia de seus velhos misticismos, convertendo-a em disciplina científica, mediante o estabelecimento de um plano de consistência específico do social. Na hagiografia peculiar ao »zétier, tomando emprestada de Viveiros de Castro (1987, p. XVIII) a fórmula que ele aplicou a Curt Nimuendaju, a aura que cerca o nome de Durkheim já ganhou foros de lenda.

Se chamo a atenção para o caráter mítico ou hagiográfico com que freqüentemente se revestem as indagações sobre esse processo não é, de forma alguma, para escamotear a importância do papel nele desempenhado por Durkheim, mas Pará apontar que essa mitificação, essa teatralização esconde mais coisas do que revela. O fato que deploro é que a supervalorização do papel de Durkheim relegou às sombras, ao anonimato, ou então desqualificou pura é simplesmente, uma série de outros agenciamentos contemporâneos ao empreendimento durkheimiano e que, tal como este, visavam a constituição de discursos sociológicos. Esses agenciamentos não só enunciavam discursos sociológicos que apontavam vias analíticas diferentes daquelas propostas por Durkheim, constituindo-se em seus francos concorrentes, como também foram indispensáveis à constituição da própria sociologia durkheimiana. (3) Pois, apesar do lugar-comum, é preciso não esquecer que a sociologia durkheimiana não nasceu pronta; muito ao contrário, ela foi sendo produzida pouco a pouco e no contexto de intensas polêmicas. O agenciamento microssociológico levado a cabo por Gabriel Tarde é, em mais de um sentido, exemplar com relação a essas questões.

E a importância dessa multiplicidade de agenciamentos não diminui, caso se considere que foi a sociologia durkheimiana, e não as outras, que sobressaiu, sobreviveu; "ficou". As motivações para que ainda hoje se fale mais de Durkheim do que de qualquer outro sociólogo francês do fim do século passado não se encontram em considerações intrínsecas ao discurso científico, isto é, em argumentos do tipo: Durkheim "ficou" porque seu discurso erá o mais "científico", o mais "consistente", o mais "rigoroso", aquele perto do qual os outros não eram senão discursos pré ou pseudocientíficos, de qualquer modo, obra de amadores, de diletantes... Longe de ter apenas motivações dessa ordem, o sucesso durkheimiano está fundamentalmente atado, a meu ver, às tensões e rupturas que marcaram o campo intelectual da época, bem como àquelas que marcam o campo intelectual atual.

Caso se queira considerar essa multiplicidade de agenciamentos e evitar a trilha fácil dos reducionismos, cabe operar um deslocamento de perspectivas. Inicialmente, é preciso que o processo de emergência da sociologia deixe de ser considerado um movimento originário, ou seja, é preciso evitar a representação idílica da origem segundo a qual a sociologia, enfim científica, enfim liberta das representações errôneas que viviam embotando a percepção do social, de uma vez e para todo o sempre instalada na plenitude da razão, teria enunciado á descoberta, num lugar longínquo perdido na noite dos tempos, da reluzente e preciosa pérola do social; como se ela enfim houvesse revelado "a" verdade do e sobre o social.

Desse ponto de vista, é a profundeza da "origem" que importa, e importa na medida em que, investida enquanto lugar privilegiado da revelação da incontestável verdade que teria tornado possível a formulação do discurso sociológico, é convertida em ponto de apoio fora do tempo, em espaço coeso e uniforme que sustentará a pretensão dos domínios científicos. Mas, como Hobsbawn (1984, p. 9) assinalara, esse tipo de "recuperação" da história de uma disciplina não indica outra coisa senão a invenção de uma tradição, ou seja, esse processo sempre seletivo de institucionalização de determinada "escola" de pensamento, a constituição de uma "história oficial" que fixe e relativamente aprofunde a dominância dos padrões "majoritários" de interpretação de determinada "corrente sociológica", em suma, a ambição de poder que a pretensão de ser uma ciência traz consigo nas profundezas da origem, mas cuja recuperação tem um interesse sobretudo atual.

Em vez disso, proponho pensar esse processo de emergência da sociologia como um processo historicamente constituído, cujas motivações se encontram no contexto sociopolítico da época. Esse deslocamento implica necessariamente o reconhecimento da multiplicidade de agenciamentos que participaram desse processo, colocando-o para funcionar, como também o reconhecimento de que, no começo, há a discórdia, ó disparate e a intriga.(4)

Nesse sentido, não é em relação a nenhum "pai fundador", nem a nenhum movimento "originário", que a emergência da sociologia se situa. Como disse Foucault (1971, p. 24), citando Nietzsche, a emergência se produz com a entrada em cena de forças que marcam uma interrupção, um corte, uma descontinuidade, com o salto pelo qual elas passam dos bastidores para o teatro; mas, mesmo aí, a emergência não designa um campo fechado, um plano de igualdade onde se desencadearia a luta, mas essa cena na qual os fortes e os fracos se distribuem uns diante dos outros, uns acima dos outros, esse espaço que os divide e se abre entre eles, esse vazio através do qual eles trocam suas ameaças, esse "não-lugar" que é "pura distância". Citando Foucault (ibidem, grifo meu), "(...) o fato de os adversários não pertencerem ao mesmo espaço. Ninguém é, portanto, responsável por uma emergência. Ninguém pode se vangloriar por ela. Ela sempre se produz no interstício".

Se insisto na necessidade desse deslocamento de pontos de vista, se afirmo que o que é preciso procurar no começo não é a revelação da verdade sociológica, mas a intriga e a ruptura, não é por preferência de um paradigma em detrimento de outro, mas simples e tão-somente por uma razão de fato: não vislumbro outro modo de pintar com suas devidas cores o agitado contexto do processo de emergência da sociologia francesa e mostrar os "domínios mal partilhados" do conhecimento, onde "jazem os problemas urgentes", esses "terrenos baldios" onde, segundo a expressão que Mauss (1934, p. 211) tomou emprestado de Goethe, "os professores se devoram entre si".

Daí ser necessário investigar o contexto que tomou possível e necessária a produção de discursos sociológicos, pois é somente diante de uma investigação desse gênero que se pode tornar inteligíveis as questões inicialmente levantadas por este texto, vale dizer, as motivações quer do sucesso em vida do discurso de Tarde, quer de seu fracasso póstumo. O que, a reboque, tornará necessária a discussão do relativo sucesso, ou do "semifracasso", como assinalara Karady (1976), do discurso durkheimiáno.

A sociologia francesa não nasceu em meio à calmaria. Pelo menos desde a Revolução de 1789, a França vinha passando por uma série de profundas transformações políticas, econômicas e sociais. Sumariamente, o quadro era o seguinte: a Revolução havia decretado o fim dos pilares do Antigo Regime, fazendo ruir a monarquia absolutista, o regime feudal e o poder católico. Concomitantemente, a entrada em cena do capitalismo produziu uma radical metamorfose no âmbito das relações sociais, sobretudo ao alterar as relações de produção e as relações de poder. Mas, se a Revolução decretou o fim do Antigo Regime e abriu as portas para o capitalismo, a França pós-revolucionaria não produziu de imediato uma organização social estável, se é que algum dia ela pôde fazê-lo plenamente. Ao contrário, o que se vê na França ao longo de todo o século passado é um campo social imerso em profundas mutações, sujeito a inusitadas revoltas e reviravoltas políticas e sociais. Para se ter uma idéia desse quadro de instabilidade, basta lembrar que a França conheceu nada menos do que nove regimes de governo, entre impérios, monarquias e repúblicas, e produziu mais de unia dezena de constituições nos cem anos que se seguiram à revolução, sendo freqüentemente banhadas em sangue as passagens de um regime a outro, de uma constituição a outra.

Essa difícil situação, arrastada ao longo de todo o século, recrudesceu em suas últimas décadas e ajudou a compor o clima de instabilidade e depressão que fermentou a constituição da sociologia na França. Encontram-se sinais desse clima na derrota francesa frente a Alemanha na guerra de 1870, no levante popular que produziu a Comuna de Paris e na imediata e violenta repressão, em 1871, bem como na difícil implantação da III República. Pode-se encontrá-los ainda lias primeiras crises econômicas do capitalismo e, conseqüentemente, no desemprego, nas greves e manifestações operárias e nos escândalos do caso Panamá, em 1892, e do caso Dreyfus, entre 1894 e 1905.

Mas, se a instabilidade era uma marca inequívoca do contextó da época, a ambivalência era outra mais fundamental, pois é preciso não esquecer que o século passado foi também uma época de grandes desenvolvimentos técnicos e científicos, ou de "progresso", como queriam os contemporâneos. Esses desenvolvimentos implicaram expressivas mudanças nas condições de vida e nos meios de existência de muitas pessoas. Foi uma época – principalmente se considerarmos as últimas décadas do século passado, quando se efetivou a emergência da sociologia – que viu aparecerem ou se difundirem, numa escala sem precedentes, meios de transporte mais rápidos e baratos, meios de comunicação mais ágeis e eficazes, novos modos de aquecimento, saneamento e iluminação pública, e um melhor acesso ao vestuário e à alimentação. Além de assinalar a crescente urbanização da França, esses desenvolvimentos tornaram possível que se abandonasse o regime quase medieval de vida no campo, ao qual estava submetida grande parte dos franceses, ainda que em favor do surgimento de novas formas de miséria, tal como a das novas populações urbanas que vieram a compor o lumpemproletariado. Euforia tecnológica e científica, instabilidade política e social, depressão moral e econômica, o contexto que tornou possível e necessária a produção de discursos sociológicos na França estava pintado com essas cores.

O fato é que essa ambivalência difundiu a impressão da existência não de uma nação francesa, quando o problema da formação dos estados-nações estava na ordem do dia no mundo ocidental, mas de "duas Franças": "uma civilizada, culta, herdeira da revolução e do espírito iluminista; outra selvagem, rude, infensa às transformações, conservadora de um modo de sé rcaracterístico do Ancien Régime" (Ortiz, 1989, p. 7). E, divididas entre essas "duas Franças", as pessoas se inquietavam com praticamente tudo: com as cidades que cresciam demais, com os carros que corriam demais, com as massas que se agitavam demais, com os pobres que eram demais... E se inquietavam, sobretudo, por se verem mergulhadas até a cabeça num duro e multifacetado processo de desterritorialização (5) que levou de roldão os antigos princípios da vida política, social, econômica e moral dos franceses e que era capaz de levá-los à beira da guerra civil.

Mas, se é possível encontrar ao longo do século passado claros sinais de todo esse processo de desterritorialização, foi sobretudo á partir da década de 1870 que ele se tornou, de uma forma intensa, objeto de inúmeras atenções, vindo a. constituir uma das preocupações centrais dós intelectuais que produziram a idéia laica do regime da III República. E ó impressionante disso tudo é que a maioria das tentativas de lidar com esse processo de desterritorialização fez do investimento na. produção do saber um instrumento de salvação política da França. No que diz respeito à constituição da sociologia, esse investimento político na produção do saber visou, sobretudo, embora não exclusivamente, uma reforma radical no sistema público de ensino francês e a produção de saberes relativos ao "social" ou à constituição do "social" como objeto do saber.

As repercussões da humilhante derrota francesa frente à Alemanha na guerra de 1870 são particularmente esclarecedoras quanto à urgente necessidade de um sistemático investimento político na produção do saber. Isso porque um discurso largamente atualizado então enunciava que "a vitória alemã foi a vitória da ciência" (E. Remam La réforme intelectuelle et morale, 1872, apud Lukes, 1977, p. 86). Mais do que isso, ele enunciava ainda que, se a França efetivamente queria recuperar seu prestígio e se reconstituir como nação, era necessário, antes de mais nada, investir na produção de conhecimentos, de discursos, de saber. Por essa. época, o estado decadente do pensamento francês, bem como as conseqüências funestas dessa decadência, foi amplamente atestados. Durkheim (1900, pp. 121-2 e 136) chegou mesmo a falar de urina espécie de "torpor mental", de uma estagnação intelectual que havia desonrado o meado do século e que seria o responsável pela desorganização moral do país.

É na seqüência desse diagnóstico do fracasso na guerra contra a Alemanha que o investimento político na produção do saber aparece como elemento essencial de um receituário de cura capaz de reorganizar o desestruturado campo social francês. Como disse há pouco, foram duas as vias principais de que os franceses se valeram para materializar essa necessidade de investimento político na produção do saber: a via da educação e a da sociologia. Se insisto nesses dois pontos é porque os homens da III República fizeram da sociologia e da educação elementos fundamentais de suas estratégias políticas de coesão social.

De acordo com os intelectuais da época, para que fosse possível agir sobre o conturbado campo social francês, reordenando-o, era preciso, primeiro, conhecer o que havia a ser reorganizado, isto é, a sociedade. Em boa parte tendo em vista motivações como esta, muitos intelectuais se colocaram, nas últimas décadas do século passado, na posição de produzirem uma profusão de discursos que tomavam o "social" por objeto. Mas esse conhecimento da sociedade não podia ser um conhecimento qualquer, pois era absolutamente necessário que ele estivesse de acordo com o que, na época, passou a ser considerado o "discurso verdadeiro".

Quanto a isso, é preciso ter em vista que o século passado também foi palco do que se poderia chamar, sob inspiração de Foucault (1971, 1976 e 1977), de um radical deslocamento dos discursos da verdade, mediante o qual aqueles discursos que até então eram considerados como os únicos habilitados a enunciar a "verdade", mais especificamente os discursos de cunho teológico ou metafísico, deixaram de sê-lo, tornando-se discursos não-qualificados, ao mesmo tempo que se investia nos discursos científicos como os únicos qualificados, a partir de então, para enunciar a "verdade". E o problema aqui não é o de um suposto avanço do conhecimento que teria motivado a substituição dos discursos metafisicos pelos científicos. O problema aqui é de outra ordem e diz respeito diretamente às mutações dos regimes de poder que atravessaram de alto a baixo a França do século XIX. Não é porque abandonaram suas ilusões medievais que os franceses passaram a se dedicar ao pensamento científico, ou a saber mais. É porque as relações de poder mudaram, radicalmente e de modo geral que, usando a aguda expressão de Weber, o "mundo se desencantou" e tornou anacrônicos os discursos metafísicos, ao mesmo tempo que qualificou os discursos científicos como os mais adequados a enunciar o que as relações de força predominantes na época passaram a estabelecer como a "verdade". E é aqui que, a meu ver, se insere todo o interesse pela constituição da sociologia enquanto ,saber e, mais especificamente, como disciplina científica, nos últimos anos do século passado.

Foi também nesse contexto que se deu a radical reforma educacional promovida pelos republicanos. A esse respeito, é preciso não perder de vista a existência das "duas Franças" e o fato de que, até 1863, "um quarto da população não falava sequer o francês, vivendo em comunidades que possuíam idiomas próprios" (Ortiz, 1989, p. 7). Diante de um quadro como esse e da necessidade de fazer da França uma nação e uma nação unida e articulada com o novo regime de economia política que então se implantava, os republicanos acabaram por eleger a educação como a grande panacéia capaz de erradicar todos os males da combalida França. E eles puseram mãos à obra, alterando radicalmente o ensino público francês, que passou a ser responsável por todo o ensino básico, a partir de então tornado laico, obrigatório e gratuito. Com isso, os republicanos visavam garantir a socialização dos novos cidadãos franceses, bem como fazer com que ela se desenvolvesse segundo o novo credo cívico, racional e laico da III República. Além da transformação do ensino básico em ensino obrigatório, gratuito e laico, os republicanos também promoveram a expansão do ensino secundário, abrindo vários liceus onde antes eles não existiam.

Além disso, eles promoveram significativas mudanças no ensino superior, graças às quais as ciências humanas, em geral, e as sociais, em particular, puderam ser introduzidas no sistema universitário. Com isso teve início o processo de institucionalização da sociologia na França, mas não seu processo de emergência, posto que este vinha se desenrolando há vários anos em instituições para-universitárias. As mudanças promovidas pelos republicanos no ensino superior objetivavam uma crescente especialização do ensino e da produção de conhecimentos, o que eles procuraram atingir por dois caminhos diversos: mediante a especialização de disciplinas canônicas - como a filosofia, o direito e a história - e mediante a criação de novas disciplinas. De um modo ou de outro, passaram a figurar como disciplinas do ensino superior, entre outras, a pedagogia, a psicologia, á geografia, a história contemporânea, a economia política, o direito constitucional e internacional e, sob diversos nomes, menos este, a sociologia. Apesar da obviedade, é preciso não esquecer que, naquela época, não existiam sociólogos, pedagogos, psicólogos ou geógrafos diplomados, simplesmente porque esses cursos não estavam regulamentados. Se me detenho sobre essa obviedade é apenas e tãó-somente para que não se perca de vista que, naquela época, o discurso da competência, ou a competência do discurso, não estava depositado formal e especificamente na mão de ninguém, sendo essa competência um dos maiores pontos de tensão, ruptura e inovação do campo intelectual da época.(6)

Foi através dessa reforma educacional que a sociologia se institucionalizou nos quadros universitários; e foi pelas mãos de Durkheim, de seus seguidores e dos republicanos que esse processo de institucionalização tomou corpo. E se Durkheim é comumente apontado como o grande artífice desse processo, é porque ele se encontrava precisamente no ponto de derivação da bifurcação republicana, isto é, com um pé na educação e outro na sociologia. Pois é preciso não esquecer que, além de suas preocupações sociológicas, Durkheim também se dedicou com entusiasmo, ao longo de toda sua carreira, a pensar e problematizar a educação. Com isso, ele acabou se tornando um dos arautos, não só da sociologia, como também da pedagogia laica dos republicanos, vindo a publicar uma série de livros e artigos, além de ministrar diversos cursos, tendo por tema a educação.(7) Daí poder-se arriscar a dizer que o sucesso da sociologia durkheimiana não se prende exclusivamente, sequer prioritariamente, a seus méritos científicos, mas sim a sua incrível adequação aos problemas da época, à aguda atualidade de seu discurso no contexto da época. A meu ver, o sucesso durkheimiano está fundamentalmente relacionado com ó fato de Durkheim ter sido um homem que respirava profundamente os ares de seu tempo. Mais precisamente, ele está relacionado com a grande afinidade entre seu discurso e a política republicana, embora nem .o discurso de Durkheim se reduza à política republicana, nem esta àquele.

Mas se foi a sociologia durkheimiana que se tornou hegemônica, a tal ponto que ainda hoje Durkheim é considerado um dos "pais fundadores" da sociologia, é preciso não perder de vista que inúmeras outras tentativas foram feitas em favor da produção de discursos sociológicos. Mais uma vez, embora esse interesse pela constituição da sociologia remonte ao início do século passado, com Saint-Simon, Comte, Le Play e outros, foi principalmente após a década de 1870 que esse interesse chegou ao paroxismo.

Tendo em vista que a sociologia não era produzida apenas no âmbito das universidades oficiais francesas e que não havia, propriamente falando, nenhum "sociólogo" diplomado, é significativo saber que, a partir da segunda metade do século passado - e particularmente após 1870 - , professores, filósofos, historiadores e também médicos, advogados, jornalistas e leigos curiosos em geral criaram, na França, inúmeras instituições de ensino, sociedades de erudição e revistas especializadas qite se dedicavam a discutir, produzir e difiundir cursos que faziam do "social" seu objeto temático. Entre essas instituições, sociedades e revistas para-universitárias contam-se aquelas criadas por Le Play e seus seguidores, tais como a Société d'Economie Sociale, de 1856, que reunia bas awente o clero e a aristocracia de província, o periódico Les Ouvriers de Deux Mondes, a partir de 1857, que reunia monografias e estatísticas sobrças condições de vida dos trabalhadores na Europa e na América, e as revistas La Réforme Sociale, de 1881, e La Science Sociale Suivant la Méthode de Le Play, de 1886, que reuniam, após a morte de Le Play e a ruptura entre seus seguidores, á primeira, os leplaystas mais ligados à ideologia,política conservadora e aristocrática de refórmá social de Le Play, e a segunda, os le-playstas que diziam mais interessados nos aspectos científïcos e metodológicos da obra de Le Play. Estes últimos vieram ainda a fundar, em 1904, a Sóciété Internationalle de Ia Science Socialé.(8)

Outro que se destacou no processo de emergência da sociologia foi Renê Worms, principalmente pelas instituições e revistas que criou. Entre elas contam-se a Revue Internationale de Sociologie, o Institut International de Sociologie, os Annales de l'Institut International de Sociologie e a Bibliothèque des Sciences Sociales, todas no mesmo ano de 1893. Uma das principais características dessas instituições e revistas era o fato de, diferentemente das dos le-playstas, serem abertas às mais variadas tendências, o que lhes garantiu um expressivo público cativo e fez com que elas se pautassem por um grande ecletismo. Worms criou ainda, em 1895, a Société de Sociologie de Paris, da qual Tarde veio a se tornar presidente, e que reunia os membros do Institut que moravam em Paris.(9)

Nesse universo majoritariamente masculino, uma mulher foi a responsável pela criação de duas instituições de ensino pára-universitárias que acolheram as ciências sociais emergentes. Seu nome era Jeanne Weil, mas ela ficou conhecida como Dick May. Secretária do conde de Chambrum, um mecenas das ciências humanas na França do século passado, Dick May tinha trânsito suficiente entre as autoridades competentes e a intelectualidade parisiense para poder criar, em 1895, o Collège Libre dés Sciences Sociales e, em 1900, a Ecole des Hautes Etudes Sociales. Tal como as instituições criadas por Worms, estas também eram instituições ecléticas e reuniam uma clientela cativa entre profissionais liberais e leigos. (10)

Emile Boutmy foi um dos que mais se afinaram com o clima de época ao criar, em 1871/72, a ainda hoje renomada Ecole Libre des Sciences Politiques. No ato de fundação, Boutmy declarou que estava criando a escola porque havia uma necessidade inadiável de refazer a nação moralmente destroçada pela derrota na ensandecida guerra com a Prússia e que, para que a nação francesa fosse refeita, era preciso refazer suas elites, instruindoas e educando-as (Emile Boutmy, Quelques idées sur la création d'une Faculté Libre d'Enseignement Supérieur, apud Damamme, 1987, p. 33). Além disso, tratava-se de implantar a III República, o que, no contexto da época, implicava reestruturar o Estado, reconstituindo seu quadro administrativo, que passou a ser recrutado mediante critérios meritocráticos e não mais em função de privilégios estamentais. Pois a "Ecole" vem suprir essa necessidadé recém-criada de profissionalizar a administração do Estado, colocando-o nas mãos de pessoas "competentes", investindo justamente na formação dos novos quadros administrativos. Com isso, Boutmy cria uma concorrida instituição de ensino que viria a abrigar os mais variados expoentes do pensamento social do final do século passado, tornando-se uma peça-chave do processo de emergência das ciências sociais.(11)

Cabe acrescentar que os positivistas mais ligados ao "primeiro" Comte, o Comte "científico", se reuniam em torno da Société de Sociologie e da revista La Philosophie Positive, criadas por Littré na segunda metade do século passado, enquanto os que seguiam o "segundo" Comte, o Comte "religioso", reuniram-se em torno de Pierre Laffitte e vieram a inspirar o conservadorismo católico do grupo da Action Française, no início deste século. Mas a maior propagação do pensamento de Comte, principalmente de seu positivismo científico, não se deu por meio de instituições, mas de uma maneira difusa que se realizou plenamente durante a III República, com a disseminação da crítica à metafísica, do culto ao progresso e à ordem e da crença na eficácia da ciência como ordenadora moral da sociedade.(12)

Até o momento, destaquei basicamente aquelas instituições para-universitárias que podem ser consideradas como tendo feito, com maior ou menor intensidade, concorrência à sociologia: durkheimiana. Além disso, destaquei-as considerando basicamente os espaços para-universitários que elas ocupavam no campo intelectual da época. Já quanto aos espaços mais institucionalizados, pode-se dizer que, enquanto os le-playstas ocupavam cargos na administração do Estado, onde difundiram o uso político-governamental da estatística, a maioria dos que freqüentavam ás outras instituições era egressa das Faculdades de Direito, ou ocupava postos nelas. Enquanto isso, ,o espaço privilegiado dos durkheimianos no campo intelectual da época era constituído pelas Faculdades de Letras, onde a grande maioria do grupo tinha se formado e onde vários davam aulas, o que fez com que essa divisão entre as Faculdades de Letras e as de Direito marcasse de alto a baixo o processo de institucionalização da sociologia francesa. Mas como, para se institucionalizar, a sociologia francesa precisou antes emergir e ocupar espaços nem sempre tão oficiais, os durkheimianos também criaram suas instituições para-universitárias. Entre estas, a mais importante, sem dúvida, foi o Annéé Sociologique, verdadeiro laboratório de produção ou máquina de guerra do durkheimianismo, criado por Durkheim em 1897. Pode-se acrescentar ainda a revista Notes Critiques - Sciences Sociales e a Bibliothèque Socialiste, organizadas por Simmiand em 1900, que reuniam os durkheimianos mais afinados com os problemas colocados pelo socialismo.(13)

Da mesma maneira que os durkheimianos e seus concorrentes dividiam os territórios universitários dedicados à sociologia, eles também repartiam aqueles ocupados pelas instituições parauniversitárias, de tal modo que, enquanto nenhum concorrente de Durkheim teve assento nas instituições criadas pelos durkheimianos,' estes tampouco tiveram muito espaço nas instituições dos concorrentes de Durkheim, sendo muito episódico o comparecimento dos durkheimianos às instituições não controladas por seu grupo. Já se disse que esse distanciamento que os durkheimianos mantinham com relação à concorrência fazia parte de uma estratégia que eles teriam levado a cabo deliberadamente, em função da conquista de espaços que qualificassem sua démarche como aquela eminentemente "sociológica" (Besnard, 1981, p. 311). Mas isso só é verdade até certo ponto, pois se os durkheimianos se recusariam, de modo geral, a participar das revis tas e instituições criadas e controladas por seus concorrentes, eles não deixaram de participar óu mesmo de criar outras revistas e instituições parauniversitárias. Nesse sentido, a não-participação dos durkheimianos nas revistas e instituições de seus concorrentes também pode ser compreendida como um indício dos limites, que não foram poucos, do empreendimento durkheimiano.

Quanto a Gabriel Tarde, é importante notar que ele teve participação ativa em todas essas instituições e revistas, menos naquelas criadas pelos leplaystas e pelos durkheimianos. Mas Tarde ainda participou de outras: tal é o caso, por exemplo, da Ecole Russe des Hautes Etudes Sociales – organizada em 1901 pelos emigrados russos que eram membros do Institut International de Sociologie e da Société de Sociologie de Paris –, onde Tarde deu conferências, bem como dos Archives d'Anthropologie Criminelle, revista fundada em 1886 pelo jurista A. Lacassagne e da qual Tarde se tornou colaborador assíduo, de 1887 até sua morte, e co-diretor a partir de 1893.

Em suma, o processo de emergência das ciências sociais na França do século passado não foi nem homogêneo, nem coeso, muito menos obra de alguns poucos grandes homens. Daí se conclui que a unidade da sociologia é um mito que só tem sentido enquanto peça parcial e mutilada da emaranhada rede de intrigas tecida por uma multiplicidade de agenciamentos que não tinham a mesma força, a mesma orientação, os mesmos objetivos. É por isso que é tão difícil, a meu ver, falar da "sociologia" no singular, bem como confundir seu processo de emergência com sua institucionalização. A sociologia não é outra coisa senão o correlato de práticas que a objetivam enquanto tal e, como essas práticas são heterogêneas, a sociologia é necessariamente plural. Ela é o resultado de entrecruzamentos, feixes ou nós de relações que são múltiplas e fragmentárias e que não se encerram em campos fechados: há sempre um vazio, uma distância entre essa multiplicidade de agenciamentos que mantém constantemente em aberto o campo das ciências sociais.

Isto posto, já é hora de atacar o ponto central deste texto. Para tanto, é preciso saber, afinal, quem foi Gabriel Tarde, esse ilustre desconhecido.

Tarde nasceu Jean-Gabriel em 1843, em Sarlat, pequena vila da Dordogna, sudoeste da França. Filho único, aos 7 anos perdeu o pai, um juiz. Foi criado pela mãe, que só o deixou ao morrer, quando Tarde contava 48 anos. Foi educado no rígido Collège des Jésuites de Sarlat e cogitou estudar na Ecole Polytéchnique, em Paris, até que uma grave doença nos olhos lhe impôs uma mudança de planos. Seguindo o exemplo da família, acabou dedicando-se ao Direito, inicialmente na Faculdade de Toulouse e, no último ano, em Paris. Terminados seus estudos, Tarde retornou a Sarlat como magistrado e ocupou, de 1869 a 1894, uma série de postos nas cortes da região. Em 1894, tornou-se diretor do setor de estatística criminal do Ministério da Justiça e mudou-se para Paris. Sua primeira experiência no magistério aconteceu em 1896, quando passou a ministrar um curso por ano na Ecole Libre des Sciences Politiques; apartir de 1897, proferiu cursos e conferências no Collége Libre des Sciences Sociales; em 1900, assumiu a cátedra de filosofia moderna no Collège de France - onde foi preferido, em detrimento de Bergson - e foi eleito para a Académie des Sciences Morales et Politiques. Tarde morreu em Paris, em 1904.(14)

A biografia de Tarde compõe um caso peculiar, se comparada às de vários outros pensadores da época. Pode-se dizer que Tarde foi praticamente um autodidata: sua formação universitária se resumiu aos anos em que cursou Direito e sua primeira experiência no magistério se deu quando ele tinha 53 anos. No entanto, as linhas gerais de seu discurso estavam traçadas desde os tempos de Sarlat, quando o isolamento da vida provinciana só era quebrado pela intensa correspondência que mantinha. Foi nesse clima pacato que Tarde veio a esboçar boa parte dos problemas que iria abordar em mais de quinze livros e em cerca de 75 artigos em revistas especializadas. Totalizando cerca de 5 mil páginas, esses livros e artigos começaram a ser publicados em 1880, mas foi sobretudo a partir de 1890, quando publicou Les lois de l'imitation, seu livro mais conhecido, que Tarde começou a ganhar a fama que viria a se consolidar em 1894 - com sua ida para Paris e a publicação de La logique sociale no ano seguinte - e a culminarem 1900 quando, três anos após publicar L'opposition universelle, ele foi para o Collège de France e se tornou membro da Académie.

Da província à metrópole, do anonimato à notoriedade, a bem-sucedida trajetória em vida de Tarde encontrou suas condições de possibilidade, a meu ver, no cruzamento entre o interesse geral pela produção de discursos sociológicos, fossem eles quais fossem, ao menos a princípio, e o caráter extremamente singular de seu discurso microssociológico, e mesmo de sua biografia. O clima na metrópole era. de uma demanda ansiosa por discursos que fizessem do social seu objeto, o que tornou possível o despontar em vida de vários outros pensadores que, então famosos, tal como Tarde, hoje são praticamente desconhecidos. Nesse clima, Tarde foi capaz de lidar com temas "quentes", tais como o crime, a moda, os indicadores econômicos e a comunicação de massas, o socialismo e a democracia, além das diversas formas de sociabilidade, de um modo bastante bizarro. E bizarro porque, atento ao que costuma passar despercebido, isto é, aos detalhes infinitesimais, o que fazia de seu discurso um discurso deslocado em relação aos outros que disputavam a hegemonia do saber na época, ou seja, os que se apoiavam na aristocrática metafísica espiritualista e os que faziam da moral cívica republicana sua palavra de ordem. Em um tempo ávido por novidades, foi essa atenção ao que costuma passar despercebido que garantiu notoriedade à microssociologia de Tarde. Em suma, Tarde não conheceu a fama dos que têm a sensibilidade para enunciar o que a sociedade reclama naquele lugar e momento, mas a celebridade dos que não sentem necessidade da concordância com um sistema de referências comum para estabelecer as condições de validade de seu discurso, a singular celebridade dos excêntricos.

Quanto ao fracasso póstumo, isso foi motivado por uma série de fatores, entre os quais se contam o caráter relativamente precário e tardio, apesar de bem-sucedido, da trajetória acadêmica de Tarde, bem como o fato de ele não ter envidado esforços no sentido de formar discípulos, ou mesmo de orientar teses de alunos, ou até mesmo de escrevê-las. Além disso, muito contribuiu para o fracasso sua posição relativamente minoritária no campo intelectual da época, no que se destaca a situação de antagonista radical de um dos mais articulados agenciamentos sociológicos da virada do século, vale dizer, o agenciamento durkheimiano.

Mas, tanto o sucesso quanto o fracasso, Tarde deve-os, em boa parte, ao discurso que enunciou. Quanto a esse ponto, problema principal deste texto, minha tese é que Tarde elaborou um articulado discurso microssociológico, muito distinto daqueles produzidos pelos durkheimianos e pelos outros que, nessa mesma época, se dedicaram à produção de discursos sociológicos. O discurso de Tarde se constituiu, polemicamente, em favor de uma sociologia francamente diferenciada daquela elaborada por Durkheim, sendo que a diferença básica entre os dois autores se situa no fato de que, enquanto Durkheim privilegiava as análises macrossociais e os fenômenos de semelhança, Tarde dedicava sua microssociologia à análise dos fenômenos infinitesimais e encarava de modo problematizante os fatos semelhantes. É que, longe de tomar esses fatos como dados ou objetos naturais, Tarde (1890b, pp. 65, 77-8; e 1901, p. 461) elaborou sua microssociologia perguntando-se como pôde ser produzida essa "similitude de milhões de homens", tão cara a Durkheim, o que o levou a centrar suas análises no problema da diferença. (15)

Tornou-se comum referir-se ao discurso de Tarde, quando ele chega a ser citado, como se fosse obra de psicologia e padecesse de forte inclinação individualista. É fundamentalmente em torno dessa tachação da microssociologia de Tarde como uma sociologia individualista que giravam as críticas levantadas pelos durkheimianos contra o discurso de Tarde. Do ponto de vista de Durkheim, isso consistia uma aberração entre termos, já que o social era considerado um plano cuja consistência específica passava longe do plano do livre-arbítrio individual.(16)

No entanto, essa (des)qualificação do discurso microssociológico de Tarde não resiste autua análise mais acurada de sua obra. Inicialmente, é preciso destacar que essa imagem do discurso de Tarde como mais psicológico e individualista do que sociológico só tem sentido quando se toma como parâmetro de avaliação discursos como o de Durkheim, nos quais a oposição indivíduo/sociedade e o desequilíbrio em favor do segundo termo têm alcance de princípios epistemológicos. Considerando que, no caso, o critério de avaliação está integralmente comprometido com o que é avaliado, o que invalida a avaliação, a classificação do discurso de Tarde como "psicológico" ou "individualista" não revela outra coisa senão as distinções totêmicas e as divisões de tarefas e de competências, características do métier.

Nesse sentido, é preciso ter em vista que uma das mais fortes clivagens do campo intelectual da época se dava em torno da polêmica entre o determinismo e o livre-arbítrio. No caso da sociologia nascente, essa polêmica se rebatia na dicotomia sociedade/indivíduo. Desde o início, Durkheim se colocou clara e obstinadamente do lado do primeiro termo, o que em sua obra apareceu sob a figura do determinismo social. Mas o fato é que o processo de emergência da sociologia se desenrolava de tal maneira que não haviam muitas alternativas, ao menos do ponto de vista dos durkheimianos: quem não estava do lado de Durkheim não era determinista, logo, era partidário do livre-arbítrio, em suma, arauto do individualismo. O problema é que a microssociologia de Tarde está longe de depender do livre-arbítrio, "essa noção ambígua e perigosa" que, já notara Favre (1983, p. 8), Tarde descarta completamente. Mas se Tarde descarta o livre-arbítrio, ele também não se volta para os determinismos estreitos e reificantes, que denuncia de forma tão veemente quanto o faz com o primeiro (Tarde, 1899x, pp. 246 ss.). Se ainda se pode considerar Tarde como um sociólogo da liberdade, como já se disse, é com a condição de que se deixe de entender liberdade no velho sentido do livre-arbítrio escolástico. No lugar de liberdade, diz Tarde (1901, p. 466), "digamos originalidade, diversidade". Tarde (1895b, p. 158) sintetiza sua posição sobre estas questões da seguinte maneira: "Pode-se ser determinista e transformista como ninguém e afirmar a multiplicidade de desenvolvimentos possíveis (...) em toda ordem dos fatos sociais e mesmo naturais. Não é necessário admitir, para isso, a intervenção de, um livre-arbítrio, de um livre capricho humano ou divino que, entre todas essas vias ideais, escolheria a seu bel-prazer; é suficiente crer na heterogeneidade, na autonomia inicial dos elementos do mundo". Cabe acrescentar ainda que, fundamentalmente, a qualificação do discurso de Tarde como psicológico ou individualista não é apropriada porque, para Tarde, o que conta não são os indivíduos, mas as microrrelações de repetição, oposição e adaptação que se desenvolvem nos indivíduos, ou entre eles, ou melhor, em um plano no qual a distinção entre o social e o individual perde toda nitidez. (17)

É em atenção a essas microrrelações, tão infra-sociais quanto supra-individuais, que Tarde vai articular sua microssociologia em torno do interesse pelo mundo dos detalhes e dos acontecimentos infinitesimais. E é em razão desse interesse que Tarde sustenta duras críticas contra o que ele considera dois erros da sociologia: o erro "panorâmico" e o "desenvolvimentista". Para Tarde, o erro "panorâmico" consiste em crer que, para ver aparecer a regularidade, a ordem e a lógica dos fenômenos sociais, é necessário deixar de lado seus detalhes, essencialmente irregulares, e se elevar a um ponto onde seja possível abarcar de modo panorâmico apenas os grandes conjuntos. Já o segundo equívoco consiste em sujeitara marchadas sociedades, sob seus diversos aspectos, a passar e repassar pelos mesmos caminhos, em fases sucessivas arbitrariamente traçadas.(18)

Para Tarde, esses dois pontos de vista configuram erros, porque existe mais lógica em uma frase do que em um discurso, "em um rito especial do que em todo um credo" (1898x, p. 126). Isso equivale a dizer que, de acordo com ele, a lógica que anima os fenômenos sociais não é uma lógica da totalização, mas uma lógica da adaptação, da invenção e da co-produção de sentido. A lógica dos fatos sociais é a modalidade segundo a qual eles são produtores de laços sociais. De acordo com Tarde, os laços sociais não são orgânicos, nem panorâmicos, nem tampouco estão amarrados por qualquer espécie de "solidariedade", seja ela econômica, jurídica ou moral. Em vez disso, eles são cerebrais e microfísicos, são a simultaneidade das convicções e das paixões, a consciência de que tal crença ou tal desejo é partilhado, em um mesmo momento, por grande número de homens. Ao que Tarde acrescenta que os laços sociais nada têm de natural, posto que eles são o resultado de propagações imitativas. (19)

Diante disso, desvela-se o estatuto do social em Tarde: considerando que só existe ciência do que se repete ou do que pode se repetir, Tarde garante a autonomia da sociologia enquanto disciplina científica, na medida em que postula uma modalidade de repetição especificamente social, qual seja, a imitação, que vem a ser o correlato sociológico da geração biológica e da ondulação física. E a imitação é a modalidade especificamente social da repetição, na medida em que nada tem de natural, pois consiste em uma impressão mental produzida a distância, através da qual um cérebro reflete sobre outro cérebro suas idéias, vontades, maneiras de sentir etc. Daí Tarde ser levado a conceber as relações sociais como uma féerie d'idées, isto é, como relações que não se reduzem a grandes objetos naturalizados ou reificados, nem se substancializam em unidades materiais tomadas a priori. (20)

É preciso ter em vista, no entanto, que a possibilidade de articulação de um discurso microssociológico se encontra fundamentada, em Tarde, em uma cosmologia cujos princípios básicos são os postulados da indeterminação do real e da existência como diferença. Com o primeiro princípio, Tarde afirma que o real é apenas um caso do possível, do necessário sob condição. Para Tarde, o que existe no real são emergências produzidas pelos encontros fortuitos e inumeráveis de séries repetitivas, mas emergências que só são inteligíveis com relação a infinitas séries de relações ou "encontros" virtuais. Nesse sentido, há que se considerar a indeterminação do real, mas também, e sobretudo, há que se convencer da riqueza do real, da infinidade de- suas formas, da multiplicidade de seus recursos. Tarde é um desses filósofos que concebem o real não como pleno, nem como se ele fosse marcado pelo signo de qualquer carência, mas em excesso.(21)

A esse princípio do real em excesso, Tarde acrescenta o princípio cosmológico que afirma que existir é diferir. Problematizando o privilégio analítico dos fatos de semelhança, Tarde postula o caráter infinitesimal do real, afirmando que é a diferença, e não a semelhança ou a identidade, o princípio efetivamente explicativo. Com isso, Tarde desenvolve uma crítica contra os que acreditam que a marcha das sociedades consiste em um processo cada vez mais abrangente e inelutável de diferenciação que partiria de semelhanças primordiais até chegar ao estágio atual, marcado por uma intensa divisão do trabalho. De acordo com Tarde, a diferença vai diferindo sem, no entanto, ir aumentando ou diminuindo. Isso não quer dizer que Tarde se deixe levar pelo atomismo. Ao contrário, ao afirmar que tudo parte da diferença e que tudo a ela retorna, Tarde postula paralelamente que tudo que existe no mundo é composto de relações, e não de unidades compactas e fechadas sobre si mesmas. Daí, o que interessa a Tarde são sempre relações, mas relações que, enquanto infinitesimais, são dessubstancializadas.(22)

De acordo com Tarde, são três as modalidades de relações que regem todos os fenômenos observados ou concebíveis no universo: as de repetição, oposição e adaptação. Deslocando o privilégio explicativo dos fatos de semelhança, Tarde afirma que todas as similitudes encontradas no universo, com exceção do espaço, são resultado de processos repetitivos. Para Tarde, toda repetição procede de uma inovação qualquer ou, o que vem a dar no mesmo, toda repetição é uma inovação que se propaga. Daí poder-se dizer, tendo em vista os princípios cosmológicos enunciados acima, que a lei da repetição consiste na tendência a fazer passar, pela via da amplificação progressiva, de um infinitesimal relativo a um infinito relativo. No tocante ao mundo social, os processos repetitivos se desenvolvem sob a forma de radiações ìmitativas, ao que Tarde acrescenta que a imitação é o processo social por excelência, sendo a vida social composta especificamente de radiações imitativas que escapam de um ponto de singularização ou de inovação qualquer. Cabe acrescentar ainda que, a princípio, a imitação consiste em uma inovação que se propaga em escala geométrica e que, enquanto tal, almeja a conquista do infinito, o que ela conseguiria não fosse o fato de, ao se propagar, encontrar outras séries ímitativas que com ela interferem.(23)

Antes, porém, de analisar as modalidades de interferências, cabe saber o que é imitado. De acordo com Tarde, a imitação é a forma do ato social elementar, mas esses atos são feitos de outra coisa que não a imitação. Desde logo, não são sensações, modelos de comportamento ou representações que são imitados. O que é imitado, diz Tarde, é sempre uma idéia ou um querer, um julgamento ou um desígnio, onde se exprime uma certa dose de crença e de desejo. Tarde afirma ainda que as crenças e os desejos são as forças plásticas e as forças funcionais que animam a vida social. Mais do que isso, elas são as verdadeiras "quantidades sociais", são o fundo de toda disposição social. Dai que, o que se repete em matéria social são fluxos intensivos e moleculares de crenças e de desejos que constituem toda uma matéria sub-representativa. Nesse sentido, enquanto a repetição marca a passagem ou a propagação de um fluxo de crença e de desejo pelo campo social, a oposição marca a intervenção de um fluxo sobre outro, sob a forma de um choque binário, enquanto a adaptação marca a conjugação de múltiplos fluxos de crenças e de desejos. Tendo isso em vista, Tarde afirma que o que cabe à sociologia não é o estudo das representações coletivas, como queria Durkheim, mas o estudo das correntes de crença e de desejo no campo social. (24)

Considerando que a imitação diz respeito à propagação de fluxos de crenças e de desejos, Tarde afirma que, ao se propagarem, esses fluxos interferem mutuamente entre si. Essas interferências se dão, por sua vez, sob a forma de interferências-lutas e de interferências-combinações. A oposição corresponde à primeira. modalidade de interferência, isto é, àquela que coloca em binarìedade os fluxos de crenças e de desejos. Mas a oposição não é, como se acreditava naquela época- e como ainda hoje se postulaa forma privilegiada das relações de diferença. Segundo Tarde, ela não é um "máximo de diferença", mas uma espécie singular de repetição: aquela de duas coisas semelhantes que são próprias a se entre destruírem em virtude de sua própria similitude. É que, segundo Tarde, toda oposição supõe uma similitude de fundo entre os termos contrapostos. Daí a categoria de oposição ocupar um lugar bem mais secundário na economia global do discurso de Tarde do que seríamos levados a pensar a princípio, tendo em vista seu interesse pelo problema das diferenças. Tarde acrescenta ainda que a oposição social elementar deve ser procurada dentro de cada indivíduo social, todas as vezes que ele hesita entre a adoção ou a rejeição de uma série imìtativa que chega até ele. A hesitação, essa minúscula batalha interior, marca o ponto de indiferença absoluta entre a afirmação e a negação de uma corrente imítativa e, enquanto tal, ela assinala a forma especificamente social da oposição elementar.(25)

Já a adaptação é a última e a primeira categoria do discurso de Tarde. Em Tarde, ela não é um mero meio-termo entre a adição de duas coisas semelhantes pela via da repetição e sua destruição pela via da oposição. De acordo com ele (1898x, p. 10), a adaptação diz respeito diretamente ao campo das diferenças e se define enquanto relação de "co-produção verdadeiramente criativa". Propriamente falando, uma coisa diferente da outra não se adapta a essa outra; em vez disso, o que se produz entre elas é uma relação de co-adaptação que, enquanto tal, envolve a criação de uma nova diferença. No plano da vida social, a adaptação assume a forma da invenção, que não é o resultado da atividade de um indivíduo que agiria de maneira autônoma, mas um lugar de extrema singularidade, onde se produzirá o encontro necessário entre diversos fluxos sociais que darão origem a novos fluxos sociais. Considerando que, para Tarde, a lógica que anima os fatos sociais não é uma lógica da totalização, mas sim da invenção e da co-produção de sentido, ele é levado a postular que as relações sociais não se apresentam necessariamente sob a forma de uma relação entre uma cópia e seu modelo, mas sim como uma resposta a uma questão. Nesse sentido, pode-se dizer que toda invenção que eclode é um possível realizado entre mil outros que seriam possíveis, mas que deixaram de sê-lo no momento da atualização da primeira invenção, que tornou possível a emergência de uma infinidade de outras que não o eram anteriormente. E é nesse intrincado jogo de possibilidades que a invenção, ponto minúsculo e preciso de máxima singularidade, marca a simultaneidade criativa de um novo fluxo molecular de crença e de desejo, que é por onde tudo começa e onde tudo termina em matéria de vida social. (26)

A partir disso pode-se levantar a possibilidade, sugerida por Tarde, de estabelecer uma espécie de "fenomenologia clínica" dos processos de subjetivação, que se articularia em torno das figuras do idiota, do sonâmbulo, do tímido e do louco. Sucintamente, o idiota ou o homem das multidões seria a figura clínica da inadaptação, na medida em que se caracterizaria pelo fato de os processos repetitivos nele funcionarem em corrente contínua e se alimentarem de contatos físicos e onde a repetição objetivaria a reprodução do semelhante, sem complicação. Já o sonâmbulo ou o hipnotizado seria a figura clínica das correntes de imitação social, na medida de sua passividade, docilidade e credulidade repetitiva. Como diz Tarde (1890b, pp. 82 ss.), "ter apenas idéias sugeridas e crê-Ias espontâneas: tal é a ilusão própria ao sonâmbulo e ao homem social". É nesse sentido que o sonambulismo indicaria uma espécie de assujeitamento (ou de conformação crédula e dócil dos sujeitos) às séries repetitivas da vida social. O tímido ou o intimidado é, por sua vez, a figura clínica dos processos de oposição social, isto é, da hesitação. E a hesitação se deixa apreender sob a figura da timidez, na medida em que marca a entrada em cena de uma força de resistência às radiações ünitativas que assujeitam o ser social. Na timidez, a resistência é forte o suficiente para que o tímido não se deixe atravessar de modo dócil ou crédulo por uma corrente imitativa qualquer, mas não o suficiente para que ele se entregue sem peias à corrente imitativa que se contrapõe à primeira, o que o conduz a essa "espécie de paralisia momentânea do espírito, da língua e dos braços, (...) a essa despossessão de si que se chama intimidação" (Tarde, 1890b, p. 93). Nesse sentido, a timidez indica momentos de dessubjetivação ou de suspensão subjetiva: o fato de que todo processo social comporta uma parte de opacidade intrínseca. Já a figura do louco diz respeito à adaptação social elementar, à invenção. Nos termos de Tarde (1895b, p. 77), "por sua estranheza, sua monomania, sua fé imperturbável e solitária em si mesmo e em sua idéia (...), o inventor é uma espécie de louco". Além disso, Tarde (1890b, p. 95) acrescenta que para inovar é necessário escapar momentaneamente à sociedade e ser supra-social mais do que social, "tendo essa audácia tão rara". E é nessa condição minoritária, supra-social, que um pequeno homem, munido de idéias e paixões minúsculas, encontra-se em posição de criar um novo fluxo molecular de crenças e de desejos, um novo processo de subjetivação. (27)

Em um balanço geral, cabe acrescentar que o discurso de Tarde se articula basicamente sobre duas categorias: a de repetição e a de diferença. Em um primeiro plano, a repetição é a categoria mais importante, na medida em que é a diferença que aparece entre duas repetições. Nesse plano, a oposição seria apenas a figura sob a qual uma diferença se distribui na repetição, quer para limitá-la, quer para abri-Ia a uma nova ordem, enquanto a adaptação seria a figura sob a qual as correntes repetitivas se cruzam é se conectam em uma repetição superior. Mas, em outro plano, é a repetição que aparece entre duas diferenças, é a repetição que se diferencia; enfim, é a diferença a categoria fundamental. Nesse plano, a repetição, a oposição e a adaptação existiriam "para" a diferença, sendo a repetição o processo através do qual se passaria de uma ordem de diferenças à outra, isto é, o diferenciador da diferença. A meu ver, toda a microssociologia de Tarde parece estar articulada sobre a afirmação dessa diferença "que não se opõe a nada, que não serve para nada, pois ela não é semelhante nem assimilável a nada, e que parece ser o fim final das coisas" (Tarde, 1897, p. 445). E é na afirmação dessa diferença que encontro um dos pontos mais originais e atuais do discurso microssociológico de Tarde.

Isto posto, é hora de concluir este texto, que vem se tornando demasiado longo. E, como as questões inicialmente levantadas aqui (se Tarde foi tão notável, por que foi esquecido? Se Tarde foi esquecido, por que havia sido notável outrora?) já tiveram suas respostas sugeridas,(28) cabe concluir atacando uma terceira e última questão, esta efetivamente capital: a da atualidade do discurso de Tarde.

Esta questão é de difícil resolução e, ao mesmo tempo, muito simples de ser respondida. É de difícil resolução precisamente porque sua posição é estratégica: dela dependem todas as outras. Creio ser desnecessário dizer que não tenho condições de resolvê-la plenamente no momento, o que não me impede de apontar alguns pontos fundamentais, principalmente o seguinte: a atualidade do discurso de Tarde deve ser procurada em seu caráter microssocial, que fez de sua sociologia uma sociologia menor, ao menos em dois sentidos. Em um primeiro sentido, como sociologia elaborada a partir de uma posição relativamente minoritária no campo intelectual da época, o que de certa forma a liberava para a produção de um discurso que não sentia necessidade de concordância com um sistema de referências comum para estabelecer condições de validade. Discurso menor do descentrado, discurso crítico do excêntrico. Mas menor também, e fundamentalmente, em outro sentido, por ser um discurso que buscou se singularizar tomando por alicerce o campo movediço das diferenças. Discurso microssociológico dos detalhes infinitesimais, discurso molecular da diversidade.

Ao mesmo tempo, a resposta é inequívoca. Tarde não é um sociólogo atual, não restam dúvidas quanto a isso: seus textos há muito não são lidos, publicados ou debatidos em qualquer parte do mundo; as referências a seu nome escassearam de vez, ou então pertencem ao fértil campo dos anedotários da história dessa disciplina; enfim, as possibilidades de que seu discurso venha a ser difundido, debatido, publicado e discutido hoje em dia são irrisórias. Por outro lado, existem exceções na França, nos Estados Unidos, existe este texto.

Então, talvez a melhor maneira de descrever a singular condição de (in)existência atual do discurso de Tarde seja prestar atenção ao sentido difícil de uma passagem escrita por ele mesmo:

(...) solitários, alguns espíritos selvagens, estrangeiros, (...) no tumulto do oceano social onde eles se encontram mergulhados, ruminam aqui e ali problemas bizarros, absolutamente desprovidos de atualidade. E são estes os inventores de amanhã (Tarde, 1890b, p. XIII).

NOTAS

1. Este texto, que é uma síntese de Gabriel Tarde e a microssociologia (Vargas, 1992), foi apresentado no GT "A construção social da diferença", durante a XIX reunião da ABA realizada em Niterói, de 27 a 30 de abril de 1994.

2. Herdeiros da institucionalização., para nós não é fácil perceber que as coisas poderiam ter sido diferentes. Mas Thibaudet (1972, p. 123) já. observara que, naquela época, mesmo em Paris, "as grandes corporações da inteligência são a Academia, o Instituto, a literatura, o Jornalismo, a Advocacia: a Universidade só vem em seguida e em uma posição secundária". A situação só viria a mudar e a se aproximar do que é hoje com as reformas educacionais implementadas pelos homens da III República que, ver-se-á mais tarde, foram fundamentais para o desenvolvimento de alguns, mas não de todos os discursos sociológicos que então estavam emergindo.

3. Quanto aos diversos aspectos da constituição da sociologia durkheimiana, ver Revue Française de Sociologie, n° XVII/2, abril/junho de 1976, "A propos de Durkheim", e XX/1, janeiro/ março de 1979, "Les Durkheimiens". A respeito dos concorrentes de Durkheim, ver n° XXII/3, julho/setembro de 1981, "Lés concuizents du group durkheimien".

4. P Veyne (1983, p. 48) lançou a noção de intriga para pôr em evidência algumas coisas muito precisas: que os fatos não existem isoladamente e que "o tecido da história é uma mistura, muito humana e bem pouco `científica' de causas materiais, de fins e de acasos" ou, o que vem a dar no mesmo, que a história é uma "fatia de vida" e que os acontecimentos só existem relacionados.

5. Uso aqui a noção de desterritorialização em um sentido próximo ao que Deleuze e Guattari (1980, pp. 253-83) emprestam ao termo. Trata-se de uma noção complexa; melhor, trata-se de uma das disposições da complexa noção de "territorialidade", ou de "códigoterritório". Como assinalara Donzelot (1976, pp. 176-7), esta noção tentaria escapar às distinções entre essencial e marginal, infra e superestrutural, definindo-se como o modo inextricável das relações entre os processos produtivos (econômicos e desejantes), os códigos sociais e o corpo pleno da terra. Fala-se sempre de processos de territorialização e de processos de tenitorialização necessariamente relativos. Assim, os processos de desterritorialização indicariam certos agenciamentos de produção (econômica, política, social etc, mas também desejante) que tenderiam a operar sob a forma de massas ou de fluxos em fuga. Já os processos de reterritorialização indicariam agenciamentos de produção que tenderiam a operar sob a forma de classe ou de enquadramento dos fluxos decodificados. Na aplicação em questão, os processos de destenitorialização estão do lado daqueles que fizeram ruir o Antigo Regime e, com isso, tornaram possível a constituição de uma nova ordem que irá se articularem torno da figura do Estado-nação; ruas também estão do lado. daqueles que desde o início colocam em risco e fazem falhar o próprio modelo do Estado nacional. Já os processos de reterritorialização estariam do lado daqueles que tentariam segurar ou canalizas esses fluxos liberados durante o fim do Antigo Regime na direção de sua sobredeterminação pela ordem do Estado nacional.

6. Sobre as reformas educacionais promovidas pelos republicanos, ver Charle, 1983; Kuady,1976, 1979 e 1983; Thibaudet,1972; e Weisz, 1977 e 1979.

7. É curioso notar que a entrada da sociologia durkheimiana no Brasil se deu por trilhas bem próximas, ainda que algumas décadas mais tarde, ao modo como ela ocorreu na França, sendo que, também aqui, a sociologia durkheimiana teve um forte apoio na pedagogia. A esse respeito, ver Guedes (1994).

8. Sobre Le Play e os le-playstas, ver Savoye, 1981, pp. 315-44, e Clark, 1973, pp. 104-11.

9. Sobre Worms e as instituições que criou, ver Geiger, 1981, pp. 345-60, e Clark, 1973, pp. 147-54.

10. Sobre Dick May e as instituições que ajudou a fundar, ver Clark, 1973, pp. 155-60, e Weisz, 1979, pp. 100-1.

11. Sobre Boutmy e a "Sciences Po", ver Favrè, 1981, pp. 429-65; Damamme,1987, pp. 314-46; e Clark, 1973, pp. 111-3. Sobre a ascensão da meritocracia no contexto da III República, ver Karady, 1983 e 1976, p. 271; e Charle, 1983, pp. 77 e 89.

12. Sobre Comte e os positivistas, ver Clark, 1973, pp. 99-104; Verdenal, 1981, pp. 213-46; Moraes Filho, 1983, pp. 7-49; e Lepenies, 1988, pp.19-46.

13. Sobre o Année Sociologique, ver Besnard, 1979; sobre Notes Critiques e Bibliothèque, ver Clark, 1973.

14. Sobre a vida de Tarde, ver De Tarde, 1909; e Milet, 1970.

15. Ver ainda Deleuze, 1968, pp. 104-5; e Deleuze e Guattari, 1980, pp. 267-8.

16. Note-se ainda que essa interpretação "individualista" ou "psicologizante" da sociologia de Tarde não foi obra apenas de seus concorrentes, mas também de alguns de seus comentadores, tais como Milet (1972), Rocheblave-Spenlé (1973) e Lubeck (1981).

17. Sobre esse plano supra-individual e infra-social ver Tarde, 1890x, pp. 155 ss.; ver ainda Deleuze, 1968, p. 105; e Deleuze e Guattari, 1980, pp. 267-8.

18. Sobre os dois erros sociológicos, ver Tarde 1890b, pp. 213-4; 1893d, pp. 1-13 e 162 ss.; e 1898x, pp. 25 e 124-5.

19. Sobre os laços sociais, ver Tarde, 1890b, p. 65; 1898a, p. 35; e 1893b; ver ainda Joseph, 1984, p. 549.

20. Sobre a imitação como modalidade social da repetição e sobre as relações sociais como féerie d'idées, ver Tarde, 1890b, pp. 164;1890c, pp. 358-65;1895b, p.VIII;1898a, pp. 22 e 39;1898b, pp. 42-5; e 1901, p. 463; ver ainda Joseph, 1984, p. 549.

21. Sobre o princípio cosmológico da indeterminação do real e do real em excesso, ver Tarde, 1874a, pp.14-5;1890b, p. XXIII; 1895b, pp. 159-61; ver ainda Joseph, 1984, p. 550.

22. A esse respeito, o longo artigo "Monadologie et Sociologie" (Tarde, 1893a) é um trabalho fundamental. Ver também Tarde, 1974b.

23. Sobre repetição e imitação, Les lois  de l' imitation (1890b) é o trabalho defintivo, mas ver também Tarde, 1890c; e 1898x, pp. 15-56.

24. Sobre crença e desejo, ver Tarde, 1880;1890b, pp.157 ss; e 1895b, pp. 25 ss; ver ainda Deleuze e Guattari, 1980, pp. 267-8; e Joseph, 1984, pp. 552-3 e 557.

25. O texto fundamental, no qual Tarde insiste na distinção entre diferença e oposição, é L'opposition universelle (1897); sobre esse tema, ver ainda Tarde, 1898x, pp. 57-112 e 1890b, pp. 157-67.

26. Sobre a invenção como forma social da adaptação, ver Tarde 1895b, pp. 151-226;1898a, pp. 113-55;1890b, pp. 167-87; ver ainda Reynié, 1989, pp. 10-1.

27. Sobre o idiota e o homem das multidões, ver Tarde 1890a, pp. 323 ss.; 1892; 1893b; 1893c; e 1899b. Sobre o sonâmbulo e o hipnotizado, ver 1890b, pp. 82 ss.;1895b, p. 77. Sobre o tímido e o intimidado, ver 1890b, pp. 93 ss. e 1890a, pp. 360 ss. Sobre o louco e o inventor, ver 1895b, pp. 77, 167 e 173 e 1890b, p. 95. Sobre uma proposta semelhante de fenomenologia clínica em Tarde, ver Joseph, 1984, p. 562.

28. Recorde-se que, quanto à primeira questão, sugeri que o esquecimento póstumo de Tarde foi o resultado quer da carência de uma estratégia que deliberadamente garantisse a Tarde a continuidade póstuma de seu discurso, quer da fortíssima oposição que sofreu por parte dos partidários da sociologia durkheimiana, que estava bem mais afinada aos novos tempos republicanos na França do que a micros sociologia de Tarde. Quanto à segunda questão, sugeri que a notoriedade de Tarde em vida foi o resultado do cruzamento de uma demanda geral pela produção de discursos sociológicos, com o caráter singular ou excêntrico que dava o tom do discurso microssociológico de Tarde.

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