Os estudiosos, de modo
geral, identificam sobredeterminação e incapacidade de arbitrar empiricamente
hipóteses rivais é quando não é possívél fazer refinadas análises
multifacetadas, pois as hipóteses concorrentes são demasiado numerosas em
relação à quantidade de casos disponíveis.(1) John Stuart Mill e Emile
Durkheim já tinham observado que a sobredeterminação é uma das maiores
dificuldades da pesquisa comparativa. De fato, Adam Przeworski chega a afirmar
que a sobredeterminação é o problema central da pesquisa transnacional.(2)
Seguem dois exemplos. As
diferenças observadas, entre nações, nos gastos com a assistência social podem
ser explicadas por nível de desenvolvimento econômico, cultura, predomínio dos
partidos de esquerda, centralização dos sindicatos, corporativismo, pequenas
dimensões dos mercados locais, abertura comercial e outros fatores. Muitas dessas
características ocorrem simultaneamente nos países escandinavos e a influência
causal de cada fator não pode ser isolada (Przeworski, op. cit., p. 39). Outro exemplo de
sobredeterminação vem da obra de Francis Castles eVance Merrill (Castles e
Merrill, 1988). Eles afirmam que tanto as características nacionais dós
ingleses quanto a ausência de uma estrutura neocorporativista de mediação de
interesses têm nítida relação com o fraco desenvolvimento econômico e com os
baixos níveis de proteção social. De acordo com eles, quase todas as
democracias capitalistas economicamente avançadas ou são de modelo inglês, ou
são neocorporativistas.(3) As típicas características nacionais inglesas
e o neocorporativismo têm conseqüências que são virtualmente a imagem espelhada
uma da outra; o impacto causal dos dois fatores não pode ser diferenciado
(Castles e Merrill, op. cit., pp. 5 e 8).
A sobredeterminação pode
ser interpretada de duas maneiras (Przeworski, op. cit., p: 39). As variáveis
independentes covariantes podem ser consideradas potencialmente independentes
uma da outra e, nesse caso, o
problema é de colinearidade. Este é o argumento desenvolvido neste artigo. Em
princípio, por exemplo, não é necessário que a dominação social-democrata e o
corporativismo ocorram juntos. Também é possível que todos ou alguns dos
fatores - pequeno tamanho, dominação social-democrata e corporativismo - sejam
uma síndrome. Nesse caso, ás variáveis independentes não são separáveis uma da
outra, constituindo, em vez disso, uma variável com finalidades explicativas.
Premissas
subjacentes
A sobredeterminação só se torna um problema quando a pesquisa
comparativa procura explicações gerais.' Esse objetivo considera que os mesmos
padrões causais operam através do tempo e do espaço. Para realçar as
implicações dos diferentes objetivos da pesquisa, consideremos brevemente um
modelo alternativo de pesquisa coW pá
rativa, proposto por Charles Ragin.
Do ponto de vista de
Ragin, a sobredeterminação não é um problema (Ragin, 1987, pp. 10-11 e 162).
Segundo ele, "tipicamente, há várias combinações de condições que devem
produzir os mesmos fenômenos emergentes ou a mesma mudança"(5) e,
"em certos contextos, uma certa causa pode ser relevante para dado
resultado; em outros, pode ser irrelevante; em outros, ainda, a ausência dessa
condição pode ser causalmente significativa para esse resultado" (Idem,
ibidem, p. 166). No modelo de múltipla causalidade conjuntural não se estima a
influência relativa das causas hipotéticas distintas ao longo de todas
as observações (Idem; ibidem, p.
64). Para Ragin, o objetivo da pesquisa comparativa não é a busca de
explicações gerais. De acordo com ele, "o problema não é especificar um só
modelo causal que melhor se adapte aos dados (...) mas determinar o número e o
caráter dos diferentes modelos causais existentes entre" casos de um
acontecimento particular.(6)
Cada modelo de causa
social torna necessária uma concepção de escolha teórica. Ragin é de opinião
que uma teoria não deixa de se corroborar ao ser confrontada com evidências em
contrário. Uma teoria é aceitável enquanto estiver apoiada em algumas
observações. A contraprova empírica para uma teoria serve para distinguir
subtipos de um fenômeno e para elaborar teorias de subtipo específico.(7)
Na abordagem de Ragin, "a tarefa da ciência social comparativa deixa de
ser testar teorias jogando uma contra a outra - a competição para explicar a
variação - e passa a ser determinar os limites e fronteiras das perspectivas
concorrentes".(8) Ele não considera 'que diferentes teorias;
procurando explicar o mesmo fenômeno, sejam vistas como explicações
concorrentes.
A redução do número
de variáveis como solução para a sobredeterminação
Theodore Meckstroth afirma
que a pobreza de observações não é a dificuldade básica para estabelecer
explicações em pesquisa comparativa; o problema é se as muitas explicações
concorrentes são plausíveis (1975, p: 134). Ele sustenta que a sobre
determinação pode ser evitada usando-se o critério de relevância teórica para
limitar o número de variáveis independentes relevantes. Arend Lijphart
recomenda estratégia semelhante (1971, p. 690). Aconselha-nos a reduzir o
número de variáveis independentes na pesquisa comparativa, focalizando as
variáveischave. Más essa estratégia não é eficiente, pois requer a solução pára
resolver o problema (TeW e, 1975, p. 196). Como saber quais são as variáveis-chave?
Responder a esta pergunta é o motivo para fazer a pesquisa.
Os projetos de
sistemas mais semelhantes
Projetos de pesquisa comparativa são estratégias para reduzir o número de variáveis relevantes
que explicam um fenômeno. Tais projetos eliminam a necessidade de levar em
conta variáveis plausíveis que podem ser consideradas irrelevantes.
De acordo com Lijphart,
pode-se reduzir consideravelmente o número de variáveis operacionais usando o
projeto de sistemas mais parecidos (op. cit., p. 687). No entanto, Lijphart
adenite que, nos projetos de sistemas mais semelhantes, as variáveis
independentes que estão sendo estudadas tendem a covariar em relação a
variáveis extrínsecas, mas potencialmente influentes: Sugere, no entanto, a
escolha de casos que atenuem essa dificuldade (Idem, 1985, pp. 163-164). Mas o
ponto importante não é o que se deveria encontrar, e sim o que se encontra
efetivamente. A Tabela 1 - uma variação de uma tabela apresentada por
Przeworski e Teune (1970, p. 37) - mostra o projeto de sistemas mais
semelhantes.
Nesse projeto, o resultado
dependente Y varia ao longo das observações. Excetuado esse ponto, os casos
devem ser tão semelhantes quanto possível. Os traços semelhantes (X1,...,Xk)
são causalmente irrelevantes para explicar Y, pois são constantes enquanto o
fenômeno dependente variar. Por sua vez, os traços que covariam em relação a Y
ao, longo dos casos (Xk+1,...,Xk+n) constituem hipóteses concorrentes.
Eis um exemplo. Harold
Saetren tenta explicar vários graus de implementação de uma política pública
análoga, adotada mais ou menos na mesma época na Finlândia, na Noruega e na
Suécia (Saetren, 1985). Ele argumenta que os países escandinavos se aproximam
da amostragem ideal, no que se refere à satisfação do critério de uso dos projetos
de sistemas mais semelhantes. No entanto, acaba concluindo que vários fatores
concorrem como explicação para o fenômeno analisado. Reconhece que "ainda
existem, é claro, muito poucos fatores explicativos potencialmente importantes
que têm de ser considerados, porque tais fatores têm diferentes valores em cada
país".(10) Este é precisamente o resultado previsto por Przeworski
e Teune. O projeto de sistemas mais semelhantes parece não resolver o problema
da sobredeterminação, pois, "embora o número de diferenças entre países
similares seja limitado, ele será, quase invariavelmente, grande o suficiente
para `sobredeterminar' o fenômeno dependente" (Przeworski e Teune, 1970,
p. 34).
O projeto de sistemas mais diferentes
Uma idéia que gerou ampla
discussão na obra de Przeworski e Teune é a dos projetos de sistemas mais
diferentes. John Frendreis alega que os projetos de sistemas mais semelhantes e
mais diferentes são os mesmos, porque em ambos o critério para determinar a
relevância das variáveis independentes é a covariação entre o fenômeno
dependente e os fatores causais potenciais (Frendreis, 1983, pp. 256 e
262-263). Mas, nesse sentido, todos os métodos científicos são os mesmos.
Meckstroth vê o projeto de sistemas mais diferentes como uma grande inovação
(1975, pp. 132 e 136). Lijphart equipara esse projeto à análise estatística.(11)
De Felice reconhece que o projeto de sistemas mais diferentes tem a mesma lógica do método de acordo de Mill.
No entanto, DeFelice não considera que os dois projetos sejam o mes mo, porque ele também associa o projeto de sistemas
mais diferentes com o exame de dados quantitativos (DeFelice, 1986, pp. 423,
426 e 429). Mas a aplicabilidade do projeto de sistemas mais diferentes não se
limita aos dados estatísticos. A Tabela 2 representa o projeto de sistemas mais
diferentes.
Esse projeto parte do
princípio de que o fenômeno dependente é invariante ao longo das observações.
Visando a reduzir o número de variáveis independentes viáveis, o projeto busca
a heterogeneidade máxima entre os casos. Considerando que Y não varia ao longo
dos casos, Xk+1 até Xx+npodem
ser eliminados como relevantes.
Uma questão que surge ao
comparar os projetos de sistemas mais semelhantes e mais diferentes é saber
qual deles é mais eficiente para reduzir o número de fatores causais
potenciais. Um projeto não controla necessariamente mais variáveis exógenas que
o outro. O projeto de sistemas mais semelhantes elimina como variáveis
independentes apropriadas as características compartilhadas (X1,...,Xk); enquanto o projeto de sistemas mais diferentes
faz o mesmo com os traços variantes (Xk+n,...,Xk+n)' O projeto de sistemas mais semelhantes procura
maximizar k, enquanto o objetivo
do projeto de sistemas mais diferentes é maximizar n. A capacidade de um ou
outro projeto eliminar um número maior de fatores causais plausíveis depende de
k > n ou de k < n.
Análise macrohistórica
Theda Skocpol discordou
dessa conclusão, argumentando que os projetos de pesquisa são
estratégias adequadas para enfrentar a sobredeterminação na pesquisa
comparativa. De acordo com Skocpol, "a análise histórica comparativa é, na
verdade, o modo de análise multifacetado ao qual se recorre quando há muitas
variáveis e não há casos suficientes" (Skocpol, 1979, p. 36).
No entanto, o que Skocpol
chama de análise macrocausal, ou análise histórica comparativa, não é um método
de pesquisa distintivo. Nada há de especificamente histórico na lógica da
pesquisa em análise histórica comparativa. Todos os casos são históricos, já
que os analisamos ex post facto.
Skocpol afirma que o
método de inquérito histórico comparativo busca estabelecer explicações válidas
de duas maneiras: 1) através daquilo que Mill chama de "método de
acordo"; e/ou 2) pelo que ele chama de "método da diferença"
(Skocpol, 1979, p. 36; idem, 1984, pp. 378-379). A Tabela 3 mostra como Skocpol
e Margaret Somers descrevem o método do acordo; e aTabela 4 faz o mesmo em
relação ao método da diferença (Skocpol e Somers, 1980, p. 184).
A lógica do método da diferença, no entanto, é a mesma do método de sistemas mais
semelhantes. Em ambos, o fenômeno dependente varia entre as observações.
Comparem-se observações em que a variável dependente e uma ou mais variáveis
independentes hipotéticas estão presentes com casas em que tanto o
acontecimento a ser explicado quanto o(s) fator(es) causal(is) presumidos)
estão ausentes. Com exceção dessas diferenças, tanto os exemplos positivos (nos
quais a variável dependente e a causa estão presentes) quanto os casos
negativos (nos quais as duas variáveis estão ausentes) deveriam sertão
semelhantes quanto possível. As características compartilhadas pelas
observações positivas e negativas são causalmente irrelevantes.
Por outro lado, a lógica
do método de acordo é a mesma do projeto de sistemas mais diferentes. Em ambos,
a variável dependente deveria ser invariante, ao longo dos casos. As diferenças
entre as observações são irrelevantes para explicar o acontecimento analisado e
os traços semelhantes podem ser fatores explicativos potenciais.
Já que os métodos de
acordo e de diferença são respectivamente os mesmos que os projetos de sistemas
mais diferentes e mais semelhantes, o argumento acima, que se refere às
limitações dos últimos dois quanto à sobredeterminação; também se aplica à
análise histórica comparativa.
Na representação do método
de acordo, na Tabela 3, e do método de diferença, na Tabela 4, o que Skocpol e
Somers chamam de semelhança ou diferença crucial é apenas uma hipótese possível
para a variável dependente. A situação usual é que os casos não sejam
parecidos, ou dessemelhantes, em apenas uma variável que possa ser considerada
crucial ao se fazer o levantamento dos fenômenos dependentes
.
Aumentar o número de casos como
solução para a sobredeterminação
Outra solução para a
sobredeterminação pode ser aumentar o número de observações. Lijphart sugere
que se tente aumentar tanto quanto possível o número de casos, por exemplo,
ampliando o âmbito geográfico da pesquisa (Lijphárt, 1971, p. 686). Przeworski
observa, e com razão; que o viés injustificado de fazer o estudo por regiões -
Europa Ocidental, OECD, América Latina - exacerba a sobredeterminação
(Przeworski, 1987, pp. 39-41). Mas até que ponto podemos aumentar 9 número de
exemplos ampliando a busca geograficamente? Bruce Russett chama a atenção para
o fato de que "análises multifacetadas de dados em que a nação - ou Estado
- é a unidade de análise logo esbarra na limitação decorrente de só existirem,
no mundo contemporâneo, cerca de 130 Estados soberanos, por mais generosa que
seja a definição do termo" (Russett, 1970; p. 430). Embora existam
atualmente mais de 130 países, o argumento permanece válido. Outro caminho é
tentar aumentar o número de observações por meio da pesquisa histórica, mas
essa abordagem traz seus próprios problemas, devido ás dificuldades para obter
informações suficientes.
Dois fatores determinam o
número de casos: 1) o que se encontra na natureza: por exemplo, existem apenas
tantos países; e 2) o fenômeno que queremos explicar. Alguns estudiosos,
percebendo que o número de observações é pequeno em níveis macro, recomendam
que, ao lidar com a sobredeterminaçãó, a macroanálise seja abandonada.
Brian Barry observa que,
em estudos macrossociais; é aparentemente impossível decidir-se empiricamente
por hipóteses derivadas de teorias concorrentes.(12)Afirma que tal
situação é razão suficiente para procurar uma alternativa 'a pesquisa
macrossocial. Segundo Russett, sempre que o número de casos para um
procedimento correlaciona) adequado for muito pequeno, uma maneira de enfrentar
a limitação é verificar os mecanismos específicos na relação causal entre
variáveis e mudar o nível da análise (Russett, 1970, p. 434).
Russett não desenvolve
essa sugestão, mas fica implícito que, se assim for feito, o número de
observações aumentará. Seu conselho pode admitir duas possibilidades: mudar o
nível das variáveis independentes, ou o das variáveis dependentes.
Mudar as variáveis
independentes relevantes do nível macro para o micro pode dar a impressão de
que o número de exemplos aumenta. As microunidades - por exemplo,
comportamentos individuais - são mais numerosas dó que as macro - por exemplo,
estruturas de classe. Mas as mudanças no nível das variáveis independentes não
alteram o número de observações.
As diferenças nas taxas de
crescimento econômico, por exemplo, podem ser explicadas pelo nível de
motivação empreendedora dos indivíduos para o progresso.(13) Um país no
qual haja um grande número de pessoas com alto nível de motivação empreendedora
deve passar por um crescimento econômico mais rápido. Pessoas com grande
interesse pelo progresso têm espírito empreendedor, que as leva a explorar as
oportunidades e a assumir riscos calculados. Outra explicação para as
diferenças de nível de crescimento econômico é em termos de regime político. Um
argumento primordial é que o nível de consumo que a população pode atingir numa
democracia é um obstáculo para o nível de investimento. Há uma permuta entre a
democracia è o crescimento; o autoritarismo conduz a índices mais altos de
crescimento econômico. (14) Para estudar os índices de crescimento
econômico em um determinado país usando a primeira explicação, a variável
independente estará no nível dos indivíduos, enquanto na segunda explicação a
variável independente estará no nível do sistema político; no entanto, a
variável dependente - os índices de crescimento - não se altera.
É a transformação da
variável dependente que poderia gerar casos suficientes para superara
sobredeterminação. Mudar o nível da variável dependente é o que Ivan Vallier
aparentemente sugere ao dizer que "o problema central é desenvolver regras
de procedimento que nos permitam mergulhar até as unidades sociais de nível
mais baixo como fonte de informação - podendo, assim, aumentar N - e,
subseqüentemente, afastar-nos desse dados Pará podermos inferir a respeito da
sociedade como um todo (...) tentamos, assim, tratar as unidades de ordem menor
como `amostras' do fenômeno social" (1971, p. 216).
A pergunta é se um
fenômeno dependente que ocorra menos freqüentemente na natureza é um caso de
outro acontecimento dependente que seja mais numeroso. Na pesquisa comparativa,
a reformulação das variáveis dependentes para aumentar o número de observações
freqüentemente distorce as nossas perguntas.
O exemplo seguinte mostra
o risco que há em partir do princípio de que um fenômeno é o subtipo de outro.
Peter Calvert afirma que a essência das revoluções é "a mudança de governo
num ponto claramente definido do tempo, pelo uso das armas ou pela ameaça digna
de crédito de que elas serão usadas" (1970, p. 4). Ao definir as
revoluções dessa maneira, ele classifica todos os tipos de fenômeno - golpes,
assassinatos de chefes de Estado - como revoluções. De forma não surpreendente,
ele vê as revoluções como ocorrências extremamente comuns. Em sua lista de
revoluções encontramos acontecimentos tão diversos quanto a Revolução Chinesa
de 1949, o assassinato do presidente John Kennedy em 1963 e o golpe de 1952 em
Cuba. Com um conceito tão amplo do que é uma revolução, ele enumera 363 delas,
entre 1901 e 1960 (Idem, ibidem, pp. 30-31 e 203). Mas a resposta para a
pergunta: "Por que as grandes revoluções ocorreram?" não é a mesma
que para a questão: "Por que os golpes de Estado foram tão freqüentes na
América Latina e na África?"
Perceber um fenômeno como
subvariedade de um acontecimento mais numeroso relaciona-se com uma certa noção
de generalidade teórica. A crença, neste caso, é que uma teoria mais geral explica
uma gama maior de fenômenos. Uma teoria menos geral pode ser deduzida de outra
mais geral. Ao examinarmos o que Imre Lakatos chama de "falsificacionismo
metodológico sofisticado", vemos que, nas ciências naturais, essa
concepção de generalidade é um fator-chave para a escolha teórica.
Lakatos afirma que, nas
ciências naturais, as teorias substituem-se umas às outras de acordo com os
critérios a seguis (1978, p. 32). A teoria T' supera a teoria T se, e apenas
se: 1) T' tem um excesso de
conteúdo empírico em relação a T , ou seja, T' prevê novos fatos que são
improváveis à luz de T, ou até mesmo proibidos por T; 2) T' explica o sucesso
anterior de T, ou seja, o conteúdo de T' inclui todo o conteúdo não refutado de
T; e 3) parte do conteúdo empírico excessivo de T' é corroborado, ou seja, T'
leva à descoberta de fatos novos.
Se T' dá conta de tudo
aquilo que foi explicado por T e ainda fornece fatos novos, está implícito que
T' explica uma gama maior de fenômenos do que T; e T explica um fenômeno que é
um tipo de outro resultado explicado por T'. Portanto, aumentos no número de
observações resultantes de mudanças na variável dependente acarretam a proposta
de uma teoria mais geral. É como se dispuséssemos da teoria T, que explica as
revoluções, e uma teoria mais geral T', que explica não só as revoluções como
também os golpes de Estado, assassinatos de líderes políticos etc. A teoria T'
seria mais geral do quer no sentido do falsificacionismo me todológico
sofisticado. No entanto, como sugere o exemplo de Calvert, na política
comparada é difícil determinar se uma teoria é mais geral do que outra no
sentido acima mencionado. Na pesquisa social comparativa, a referência à
generalidade teórica significa, usualmente, que uma teoria oferece a mesma
explicação para o mesmo fenômeno em dois ou mais sistemas sociais.
Sobredeterminação e
escolha da teoria
Nenhuma das estratégias
discutidas acima resolve o problema da sobredeterminação na pesquisa comparada.
Em certos casos, essas estratégias podem ser bem-sucedidas, mas em outros á
sobredeterminação permanece. Senão se pode decidir entre uma e outra hipótese
com bases empíricas, o que isso significa para o desenvolvimento da ciência na
indagação social comparativa?
Herbert Blalock pergunta:
"O que acontece a uma disciplina acadêmica quando as teorias não podem ser
eliminadas numa base empírica? O campo fica atulhado de alternativas que devem
ser avaliadas de acordo com critérios diferentes" (1984, p. 140). São
selecionados os membros de maior destaque na profissão, ou a escolha é feita de
acordo com predisposições ideológicas.- Usando tom semelhante, Vallier afirma:
"Quando os cientistas sociais não são capazes de testar e rejeitar
hipóteses, as considerações políticas e ideológicas têm a chance de desempenhar
papel importante na determinação das conclusões" (1971, p. 228). Se as
proposições de Blalock e Vallier estiverem corretas, a obra de Thomas Kuhn é
relevante para a escolha dá teoria na indagação comparativa (Kuhn, 1970).
Embora desenvolva sua
discussão em termos de paradigmas, e não de teorias, Lijphart afirma que; no
campo das relações internacionais, há dois paradigmas: o tradicional e o
comportamental. A mudança em notoriedade daquele para este seguiu muito de
perto o projeto das revoluções científicas de Kuhn (Lijphart, 1974, pp. 41-42,
58-61 e 68-69).
Kuhn afirma que a rejeição
de um paradigma previamente aceito, ou a adoção de outro, "não resulta de
um processo de confirmação ou falsificação de paradigmas" (1970, pp. 8 e
151). A seleção não pode ser feita com base na evidência empírica (idem,
ibidem, p. 148). Os cientistas adotam individualmente novos paradigmas por todo
tipo de razão: pela nacionalidade, ou devido à reputação anterior de um
cientista que defendia o paradigma (idem, ibidem, pp. 152-156).
Embora Kuhn rejeite
explicitamente a relevância de seus argumentos para as ciências sociais, sua
formulação do processo de escolha do paradigma elucida o que tende a acontecer
na indagação social comparativa quando as hipóteses se encontram numa situação
de sobredeterminação.
A reconstrução da história
da sociologia americana, feita por Norbert Wiley, autoriza a expectativa de que
os fatores sociais desempenhem um papel significativo na seleção a ser feita
entre teorias concorrentes. Na história da sociologia americana, razões
irrelevantes para o valor científico das teorias foram importantes para
determinar a escolha teórica (Wiley, 1979, pp. 47-49). "Se uma idéia ou
teoria é malsucedida, nem por isso ela é menos verdadeira ou menos meritória do
que as que não foram bem-sucedidas" (Idem, ibidem, p. 48). Wiley cita
alguns fatores sociais que são determinadores importantes da seleção teórica.
Um deles é se um grupo bem organizado apóia a teoria; o outro é o grau de
controle que esse grupo tem sobre os meios de produção intelectual. Este termo
refere-se às publicações jornalísticas, às colocações profissionais, aos estudantes graduados, ao dinheiro para
pesquisa e ao controle das estruturas organizacionais e cerimoniais das
principais associações profissionais de determinada disciplina.
No entanto, Terence Ball
contesta a possibilidade de aplicar a visão que Kuhn tem da escolha de
paradigmas à investigação social comparativa. Ball sugere que as idéias de
Lakatos sobre o desenvolvimento das
ciências naturais estão muito próximas da ciência política (Ball, 1984, pp.
3845). Mas, como já se afirmou anteriormente, no progresso científico por meio
de programas de pesquisas está implícito um tipo de generalidade teórica que é
difícil conseguir na investigação social comparativa. Além disso, segundo
Lákatos, quando uma teoria supera outra em um programa de pesquisa, algum tipo
de corroboração da melhor teoria serve de contraprova para a pior (Lakatos,
1978, pp. 35-37). Ao conceituar os contra-exemplos na lógica dos programas de
pesquisa, Lakatos afirma que "a contraprova de T1 é a corroboração
de T2 a qual ou é inconsistente em relação a T1ou independente dela (com a condição de queT2
seja uma teoria que explique satisfatoriamente o sucesso empírico de T1)" (Idem, ibidem, 35-36). Esse cenário parece
improvável na pesquisa comparativa quando as hipóteses derivadas de teorias
concorrentes estão em uma situação de sobredeterminação. Se as variáveis
independentes de duas hipóteses rivais covariam nos casos disponíveis, é
improvável que se possa refutar ou corroborar uma hipótese sem fazer o mesmo
com a outra.
Conclusão
As controvérsias na
metodologia comparativa pro vêm de diferentes suposições acerca do objetivo da
pesquisa comparativa e do modelo de causação social que deve prevalecer. Este
ensaio procura esclarecer esse debate, explicitando as premissas subjacentes à
concepção de sobredeterminação, que é problemática na pesquisa comparativa. O
problema da sobredeterminação pode ser evitado pela adesão a postulados
contrários; mas, nesse caso, depara com outras sérias dificuldades.
Este artigo também tenta
elucidar alguns equívocos a respeito das estratégias pára lidar com a sobre
determinação. Apesar dos méritos dessas estratégias, elas tendem a não superar o
problema. Aparentemente, não há melhor forma de enfrentar as muitas e variáveis
facetas da sobredeterminação, a não ser aplicando uma ou mais das abordagens
aqui discutidas. É tampouco provável que o número de casos disponível para
análise possa ser suficientemente aumentado expandindo-se a pesquisa geográfica
é/ou historicamente. A sobredeterminação continua a ser um problema fundamental
na investigação comparativa: ela aumenta a influência dos fatores sociais como
determinantes na seleção teórica.
O fenômeno dependente que
desejamos explicar determina, em grande parte, o número de observações
disponível para análise. Quando a variável dependente está em um nível micro,
devese deparar menos freqüentemente com situações de sobredeterminação - ou
talvez ela nem se manifeste - do que quando essa variável sé encontra em um
nível macro.(15) Assim, a influência dos fatores sociais deve variar de
acordo com o campo acadêmico.
(16)Quando a investigação social busca explicar fenômenos numerosos, os estudiosos têm melhores
condições de arbitrar empiricamente entre as hipóteses, e os fatores sociais
desempenham um papel menos importante .na escolha teórica do que nas
investigações em que as variáveis dependentes são poucas, como em uma investigação macrossocial.
A sobredetermiriação pode
ser resolvida se pudermos decidir que uma teoria é mais geral ao longo dos
fenômenos do que as suas rivais. O número de observações poderia aumentar por
uma mudança nas variáveis dependentes; o maior número poderia possibilitar a escolha
empírica entre as hipóteses. Além disso, como nas ciências naturais, a noção de
generalidade implícita nas mudanças na variável dependente poderia ser usada
como um critério-chave para a escolha teórica.
No entanto, nas ciências
sociais, é difícil determinar que um certo fenômeno é um subtipo de uma classe
mais geral. A capacidade de decidir se uma teoria engloba a outra é um desafio
que as ciências sociais enfrentam ao seguir o projeto das ciências naturais. A
possibilidade de que a sobredeterminação seja: superada na investigação
comparativa parece depender, da medida em que possamos enfrentar esse desafio.
Tradução de Lauro Machado Coelho
* O autor agradece a Adam Przeworski, David Colher, Arend Lijphart, Henry Teune e David Laitin pela ajuda que lhe deram na preparação deste artigo. A ANPOCS agradece ao professor Jorge Zaverucha (UFPe), membro do Conselho Editorial da R.B.C.S., pela revisão da tradução deste artigo.
1. Ver
Russett,1970, p. 430; Barry,1982, p.129; Frendreis,1983, p. 265; Blalock Jr.,
1984, pp. 84-85 e 89-90; Jackman, 1985, p. 164.
2. Przeworski, 1987, pp. 38-39 e 41. Para uma discussão mais recente do problema da sobredeterminação, ver Haggard, 1990, pp. 28 e 161.
3. Observe-se que o argumento se refere apenas aos países capitalistas avançados. Na América Latina, por exemplo, a ausência de neocorporativismo não coincide com as características inglesas típicas. Essas características, portanto, são apenas uma variante de não ser neocorporativista..
4. Este é o objetivo de pesquisa aqui adotado. Além disso. concebo 0 método comparativo como uma estratégia de pesquisa aplicada quando há poucos casos a serem investigados. Esse método lida com o problema do controle pela análise lógica, justapondo semelhanças e/ou diferenças compreendidas confio conjuntos de variáveis. Não se justifica dizer que o método comparativo não é orientado para as variáveis. Todos os métodos científicos podem sei vistos como orientados para as variáveis.
5. Ragin, op. cit., p. 25. Ao apoiar esse ponto de vista, ele usa dados hipotéticos, ou então dá como certos relatos diferentes de determinado fenômeno.
6. Ragin, op. cit., p. 167. Ele também afirma que "quando os comparativistas orientados para a análise qualitativa fazem suas comparações, estudam de que forma as condições ou causas diferentes se ajustam a um determinado ambiente, contrastando-as com o modo como se ajustam em outro ambiente (...)". Idem, ibidem, p.13.
7. Segundo ele, "se há (...)duas combinações de condições que produzem [um dado resultado], as duas combinações são consideradas relatos igualmente válidos do fenômeno, sem levarem conta sua freqüência relativa". Idem, ibidem, p. 15.
8. Ragin, por exemplo, afirma que "[a evidência contrária] (...) fornece um caminho para identificar duais teorias [apropriadamente modificadas] se deve aplicar a cada caso". Idem, ibidem, p. 169.
9. Esse objetivo é amplamente aceito; por exemplo: Przeworski e Teune, 1970, pp. 4 e 17; Holt e Turner, 1970, p. 2; e Lijphart, 1985, p. 162.
10. Isto é, os aspectos organizacionais do processo de tomada de
deci= são, as diferenças constitucionais e institucionais entre os três países,
e o tempo decorrido entre a ocorrência de fatos contextuais e o processo de
tomada de decisão. Saetren,
op. cit., p. 232.
11. Lijphart (1985, p. 164) afirma que o projeto de sistemas mais diferentes só é aplicável quando o número de casos é grande o suficiente para que sejam usadas técnicas estatísticas, porque Przéworski e Teune (1970, p. 34) dizem que o ponto de partida desse projeto é normalmente a análise do comportamento no nível dos indivíduos. Mas a lógica desse projeto não limita sua aplicação à análise do comportamento dos indivíduos.
12. Brian Bawy (1982, p. 129) assim apresenta a questão: "Parece quase inconcebível que (...)seja possível conseguir um conjunto cie condições necessárias e suficientes realmente convincente. Sempre será possível que alguém sugira alternativas que são compatíveis com a evidência, e a evidência nunca será suficiente para solucionar ó problema."
13. Esta ilustração é tirada de McClelland (1966).
14. Para obras que defendam o ponto de vista de que há uma permuta entre democracia e crescimento econômico, ver, por exemplo: Huntington e Nelson, 1976, pp. 23-25 e 36-37; Marsh, 1979, pp. 219 e 444; e Rao, 1984, pp. 74-75.
15. Quando os fenômenos dependentes estão no nível das cidades, por exemplo.
16. De acordo com Vallier (1971, p. 228), "quanto mais baixa a capacidade dos cientistas sociais de testar (rejeitar, verificar, qualificar etc.) hipóteses de importância fundamental em seu campo específico, maior a possibilidade de que a polarização se baseie em posições ideológicas. A partir daí, é de se esperar que campos como os pequenos grupos de estudo experimentais, sobre demografia ou problemas familiares sejam muito menos politizados do que as análises macroestruturais".
BIBLIOGRAFIA
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