A REPRESENTAÇÃO COMO ESPELHO

Universo cultural e político das candidaturas populares (*)

 

Irlys Alencar Firmo Barreira



Introdução

"Um bom vereador deve passar na pele o que o povo passa". A frase, escrita no quadro de uma escola situada em bairro popular, ilustrava uma das reuniões preparatórias para escolha de candidatos a cargo de vereador nas eleições de 1988 em Fortaleza. Seguiam-se a ela outros atributos valorativos, considerados imprescindíveis à ocupação do cargo. Tais atributos significavam a busca de uma forma diferente de participação política, novos critérios de representação condizentes com a experiência de um grupo de moradores organizado, cercado pelos dilemas e limites que acompanham a inserção de setores excluídos dos espaços de poder. Por outro lado, apontavam a condição enigmática do líder-representante; seu dever de identificação "na própria pele" com segmentos populares dos quais pretendia ser porta-voz.

A particularidade dessa situação aponta um quadro paradigmático que supera o local e contexto de ocorrência. A representatividade e suas formas diferentes de expressão é um tema clássico que tem ocupado o pensamento filosófico e sociológico, voltado às questões da legitimidade e democracia. Em situações concretas, essas questões são repostas com novos matizes, especialmente em períodos eleitorais, onde ocorre, usando a terminologia de Lefort (1983), uma espécie de vazio de poder. É nessas circunstâncias que as formas de acesso a cargos políticos são desnaturalizadas è possíveis interrogações são colocadas na ordem do dia.

Muito embora o período eleitoral evoque uma espécie de cena original do contrato político, os processos que antecedem a formação de candidaturas são, muitas vezes, pouco explícitos. Candidatos são percebidos como tendo capacitação unicamente pessoal, o que torna natural a distância entre representantes e representados. Todavia, na instituição de candidaturas firmadas em bases de poder pouco reconhecidas é que os questionamentos a respeito das regras políticas estabelecidas e das formas convencionais de seu exercício afloram em profusão.

As "candidaturas populares", advindas de setores excluídos de benefícios sociais e políticos, oportunizam discussões de rica complexidade. Em lugar de simplesmente aludirem ao processo eleitoral, apontam valores culturais, estratégias de comunicação e mesmo dimensões individuais que se radicalizam nessa ocasião oportuna de exacerbação das diferenças. Supostos éticos são também acionados quando se trata de denunciar as desigualdades de acesso e controle sobre os mecanismos de poder.

O espaço de elaboração da política, em suas dimensões explícitas e implícitas, não pode ser entendido sem que se recuperem outras perspectivas que fazem parte da trajetória pessoal e coletiva de grupos sociais envolvidos na questão. No âmbito dos movimentos sociais, em que a história das candidaturas se efetiva de forma peculiar, esse espaço é um dado fundamental de análise. Ele se configura como uma "escola de formação política", espécie de treinamento que capacita e potencializa lideranças para o desempenho de novas funções. O surgimento das candidaturas nomeadas populares é, nesse sentido, expressão de um percurso anterior que se fundamenta na busca de uma identidade referenciada na relação entre representantes e grupos sociais organizados.

Este artigo pretende discutir, com base em pesquisa sobre os pleitos eleitorais de 1988 e 1992 à Câmara de Vereadores, as conexões entre estratégias culturais e políticas que informam a prática de setores organizados em entidades associativas de bairros populares. Será enfocada a trajetória política de lideranças populares, incluindo as concepções culturais e subjetivas que se relacionam a práticas de participação política. Nesse contexto, emergem as dificuldades e dilemas da incorporação de regras específicas do campo político que se expressam no desejo de "entrar no jogo" e ao mesmo tempo tentar transformar seus princípios. A experiência cotidiana de organização e representação no interior do bairro, ao lado da existência de uma visão de mundo que se antagoniza com os privilégios de poder, definem uma espécie de habitus que se choca com as disposições políticas vigentes (Bourdieu, 1992). O espaço de fomação de lideranças, as regras de conduta ou a "preparação" para o ingresso na política, tornam clara a distância que existe entre "política partidária" e "política comunitária", para usar uma expressão dos próprios moradores.

A teia de significados que aflora no momento da "opção para se candidatar" explicita significados culturais que não se resumem somente ao cerne da política, tocando também questões de mobilidade e identidade. Avultam, assim, sentimentos de inclusão/exclusão, que acompanham a prática de movimentos sociais preocupados em construir uma noção eficaz de representação. Essa noção, estando colada aos grupos de referência, dá realce às hierarquias sociais, às estratégias defensivas que constroem identidades, formas de percepção e regras de ação social.

O material empírico que serviu de base às idéias discutidas neste artigo envolve duas etapas. Em primeiro lugar, informações de pesquisa junto aos movimentos sociais da década de 80 em Fortaleza, no estado do Ceará, enfatizando regras de sociabilidade e formação de reivindicações coletivas. A pesquisa mais recente destaca a constituição de candidaturas populares surgidas no espaço dos movimentos sociais. A utilização de informações sobre o tema oriundas de outros contextos e sistematizadas em artigos ou livros representaram os subsídios para se pensar de forma mais abrangente a relação entre movimentos sociais e participação política institucional.

Em termos de estratégia de investigação, foram observadas reuniões "preparatórias" para a indicação de candidatos, a formação de lideranças por meio dos processos coletivos de organização, além das práticas de campanha. As entrevistas e depoimentos enriqueceram as percepções dessas lideranças a respeito do poder e da sociedade.

Movimentos sociais como espaço de construção de uni capital político

"Eu aprendi na luta", costuma ser uma frase repetida por segmentos das classes populares que firmaram sua experiência de inserção política no âmbito dos movimentos sociais. De fato, a aquisição de práticas de reunião, as mobilizações para obtenção de melhorias urbanas nos bairros e, sobretudo, a experiência de reivindicações coletivas, são elementos que se consolidam e se transmitem cumulativamente, constituindo uma espécie de capital político com vital importância em momentos oportunos de exercício da representatividade. No interior desse espaço surgem pessoas que se destacam pela fala, pela iniciativa e conseqüente transição da condição de líderes comunitários para participantes no âmbito da política eleitoral. A introjeção dessa experiência, por meio do papel do líder, demanda uma análise das relações que se estabelecem entre o plano individual e o coletivo, entre a cultura política de grupos organizados e as esferas institucionalizadas de poder.

A rigor, a temática dos movimentos sociais nasce fora das categorias formais da ciência política clássica, atentando principalmente para as questões ligadas à cultura e ao cotidiano. É possível dizer que o horizonte teórico que serviu de base explicativa a esse objeto realçou uma espécie de "cena dos bastidores". Um repensar sobre um outro lugar e forma de fazer política, distinto dos critérios convencionais de delegação de poderes e representação. (Evers, 1984)

As discussões teóricas efetivadas em torno da temática dos movimentos sociais enfatizaram práticas que estavam fora de lugares institucionalizados de exercício da política, tais como partidos e sindicatos, para englobarem outras dimensões amplas de sociabilidade. Nesse sentido, a constituição de uma identidade de interesses superpunha-se ao aspecto das diferenciações internas ao grupo, criando no interior dos movimentos um imaginário de comunidade. (Duhran,1984) Não por acaso, a evidência de diferenciações internas emerge nas circunstâncias em que as mobilizações se encontram em refluxo.

A própria presença mais marcante do Estado, mediante o incremento de programas sociais de cunho participativo, faz aparecerem grupos diferenciados de lideranças, criando antagonismos e convocando questionamentos acerca do caráter legítimo de representatividade nos bairros. (Barreira & Braga, 1991)

Em uma outra perspectiva mais abrangente que a delegação de demandas afetas aos bairros, o surgimento de candidaturas populares amplia as discussões sobre significado e legitimidade de líderes colocados na função de interlocutores de interesses coletivos do bairro.

As reflexões relativas ao papel das lideranças retomam também a complexa relação entre espaços organizados da sociedade civil e instâncias governamentais, distanciada no curso da experiência do autoritarismo. É sobretudo a partir da década de 80 que candidaturas oriundas de segmentos populares multiplicam-se e acionam estratégias capazes de assegurar o ingresso na Câmara de Vereadores e Assembléia Legislativa do Estado. Aproximadamente treze candidaturas po pulares disputaram o cargo de vereador nos pleitos eleitorais de 1988 e 1992, sendo apoiadas por diversos partidos políticos, comunidades eclesiais de base e principalmente por associações de bairro da periferia urbana. É necessário salientar que todos os candidatos foram presidentes de associação de moradores ou participantes ativos de mobilizações referentes a reivindicações urbanas. A peculiaridade dessas candidaturas não consiste apenas no fato de estarem corporificadas em indivíduos integrantes de segmentos populares. Os movimentos sociais urbanos constituem suporte para candidatos que justificam sua participação política na esfera institucional com base em princípios valorativos como priorizar a "nossa política" em lugar da política "dos outros". ( Caldeira, 1984) Admitir essa opção significou, no entanto, a recusa de um lugar político de exclusão que caracterizou as manifestações iniciais dos movimentos urbanos, ressentidos pelo descrédito nas instâncias governamentais.

De fato, se observamos as primeiras manifestações que marcaram a presença de setores populares da periferia urbana no cenário das cidades, podemos constatar que elas se contrapunham à política, vista como pólo negador dos anseios populares. A título de exemplo, vale a pena mencionar que grande parte das reuniões realizadas em associações de moradores reforçava o caráter "apolítico" dessas entidades, visto como um valor positivo que se diferenciava de possíveis manipulações de vereadores ou cabos eleitorais, presenças constantes em conjunturas anteriores. A associação imaginária entre precárias condições de vida e má administração de recursos justificava também as críticas feitas às instituições políticas. Estas eram percebidas como espaço viabilizador de privilégios, restando aos setores organizados o âmbito das reivindicações só obtidas pela pressão coletiva. Não é possível, no entanto, pensar as percepções dos movimentos sociais a respeito do mundo da política sem se reportar à existência de uma simbologia oposicionista emergente, integrada aos partidos de esquerda e setores progressistas da Igreja católica, que priorizava a denúncia ao poder como parte relevante de uma estratégia discursiva. Não seria exagerado afirmar que o espaço das mobilizações populares constitui um lugar fecundo de enunciação da crítica política, importando e reelaborando criativamente atitudes, crenças e valores produzidos por esse lugar relevante de enunciação simbólica, atuante no período de redemocratização da sociedade brasileira.

As aproximações posteriores entre Estado e movimentos sociais, mediante programas que acenavam com intercâmbios com entidades populares e a participação destas em pleitos eleitorais, expressam diferentes fluxos de comunicação ocorrentes em momentos variados. Essa cadeia de relações conforma uma experiência de "saber acumulado" que se cristaliza em aprendizado político. Assim, "aprender na luta" confere às lideranças uma espécie de passaporte para o ingresso nos canais institucionalizados de representação - instrumentalização que, sendo reserva de saber, é conseqüente dotação de capital político. Nessa perspectiva, é importante assinalar algumas características referentes à trajetória das lideranças.

Líder de bairro: percurso de uma formação

Os mecanismos que propiciam a formação de lideranças populares parecem distintos daqueles que caracterizam as regras institucionais e formais de representação existentes em outras esferas sociais. O espaço político construído por movimentos sociais apresenta outras formas de aprendizagem referentes a atributos tais como: "firmeza", "combatividade", ou participação em diferentes episódios de mobilização coletiva.

Se essas qualidades podem ser comumente encontradas em instituições como sindicatos ou outros setores profissionais, é possível aventar a hipótese de que, no interior dos movimentos sociais urbanos, o "aprendizado na luta" aponte um atributo substituto de outros, tais como escolaridade, prestígio etc. Esse ethos da representação refere-se assim a características de cunho moral vinculadas a qualidades que ligam o líder a determinados grupos de referência.

E importante frisar que no interior dos movimentos sociais há toda uma rede de sociabilidade (Scherer,1987) e espaços de transmissão de experiência que ocorre sob influência da Igreja, partidos políticos e outras entidades profissionais. Trata-se de um aprendizado não formalizado, mas relevante para instituir um trajeto de mobilidade social e política. Essa aquisição de saber não institucionalizado constrói-se cotidianamente, na experiência concreta dos diferentes bairros.

Em termos genéricos, os representantes populares de bairro podem ser classificados em:

· líderes de formação religiosa;

· líderes de formação partidária;

· líderes formados com base em programas governamentais.

A influência religiosa nos bairros da periferia é fato comprovado pela maioria dos trabalhos de pesquisa que se ocupam da temática da organização popular. (Doimo,1990; Barreira,1992) A técnica de reuniões, a formação de grupos ou outras estratégias que visam recuperar a "fala dos atrasados" constituem pontos relevantes, capazes de configurar o que poderia ser denominado de capacitação para o exercício da política.

Em outra perspectiva, o líder de vinculações partidárias participa não só de eventos coletivos do bairro, como também de reuniões restritas, nas quais a relação com "outros companheiros" permite uma espécie de socialização política peculiar à dinâmica das regras partidárias.

A liderança formada com base em programas governamentais denominados participativos possui natureza distinta das demais. Construída no decorrer da gestão desses programas, sua vinculação com o grupo de referência é percebida às vezes como não legítima, criando conflitos sobre a capacidade de representar de modo autônomo os interesses do bairro.

A mudança da condição de "líder de bairro" para "candidato popular" aponta um outro patamar de representatividade: um lugar de articulação entre moradores e o campo específico da política. Essa passagem de uma situação de liderança restrita às demandas internas do bairro para uma outra, ampliada ao âmbito da atuação política, traz implícita a reformulação de valores, discursos e práticas sociais. Adquirir a experiência da fala autorizada, dominar as técnicas de comunicação que permeiam o jogo político, passam a ser condições requeridas no curso dessa travessia.

Candidaturas populares: designação de classe e marca de identificação

As lideranças que personificam candidaturas populares nem sempre possuem condição socioeconômica semelhante. A própria qualificação de "popular" passa a constituir, no início dos anos 80, um atributo legitimador de candidaturas diferenciadas, que buscam, nessa perspectiva, atingir segmentos excluídos da participação política. Para efeito das discussões propostas neste artigo, considera-se que as candidaturas populares referem-se substancialmente a lideranças cuja base de sustentação efetiva-se fundamentada em um capital político acumulado pelos processos que se ligam aos movimentos sociais. Elas estão, portanto, referidas a um lugar simbólico de contestação, que se notabiliza por uma conjugação de interesses firmados na crítica nas formas estabelecidas de poder. Por esse motivo, a designação de "popular", atribuída a postulantes a cargos eletivos, estende seu alcance a diferentes segmentos sociais que se identificam com os espaços de contestação elaborados por setores populares.

A rigor, as candidaturas populares constroem sua identidade valendo-se de dois requisitos básicos: um que se refere a participação nas lutas sociais (fábrica, bairro, sindicato) e outro que designa uma condição de vida similar. Com um perfil de escolaridade média, incluindo também semi-analfabetos, são raros os que têm formação universitária. Ter participado de diferentes movimentos e se destacado como liderança demarca um perfil de considerada autenticidade. Os processos de valorização do candidato passam, portanto, por características que dizem respeito a um ideal de fidelidade grupal, baseado na conjugação de interesses.

A constituição de um grupo de referência com base em requisitos de identificação não omite, entretanto, o papel importante atribuído às origens socioeconômicas. Nas circunstâncias aqui analisadas, tais origens conferem distintivos de inclusão e credibilidade. As regras de identificação que permeiam as candidaturas populares passam pela vigência de uma condição social semelhante, partilhando-se valores culturais e políticos. Remetem freqüentemente a problemas advindos do distanciamento dos espaços de poder e mecanismos de controle sobre o desempenho de um cargo político que significa prestígio e ascensão social.

A memória legitimada: um currículo de lutas

Uma espécie de "currículo de lutas" demonstra a capacidade dos candidatos de. imprimir seu lugar no espaço da política. A título de exemplo, é importante observar como alguns candidatos se apresentam por intermédio dos folhetos de propaganda.

Onésimo, candidato a vereador pelo PT nas eleições de 1992:

"São 26 anos a serviços dos pobres: participação e acompanhamento em reuniões e organizações das comunidades aos órgãos públicos."

Leonardo, candidato pelo PSB a vereador nas eleições de 1992:

"Participei do processo de luta, ao lado da Associação de Moradores, para implantação do Pró-Favela... assessorei o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas do Estado do Ceará."

Ana do Lagamar, candidata a vereadora pelo PT nas eleições de 1988:

"Durante sua vida sempre se dedicou às lutas do povo pobre."

João da Cruz, candidato a vereador pelo PCB em 1992:

"Razões de eu ser candidato: porque tendo sido dirigente de diversos movimentos e entidades populares, assessor sindical, assessor de associação de moradores e militante comunista, entendi que somente lutando se pode conseguir vantagens da classe trabalhadora".

O ponto convergente na apresentação dessas candidaturas diz respeito à valorização das lutas do passado. Estas, funcionando como uma espécie de memória legítima, dão o credenciamento para efetivação de um lugar na política institucional. Os atributos de "luta" seriam compensações substitutivas de requisitos de escolaridade estatus social: a "escola da vida": a experiência acumulada que se opõe a outros critérios de reconhecimento baseados no prestígio ou desempenho anterior de cargos políticos.

Essa valorização de participação nas lutas, como garantia de credibilidade política, não ocorre apenas em candidaturas urbanas referentes ao cargo de vereador. O candidato a deputado federal Antonio Amorim, pelo Partido dos Trabalhadores, PT, também contrapõe sua experiência a outras formas de sabedoria baseada na escolaridade. "Eu senti que mesmo a gente sendo ignorante em várias coisas, a gente trabalha com a prática que tem, sem se preocupar com o que os outros são em termos de sabedoria". (Aciolly,1989)

Os exemplos citados são significativos para se perceber a construção de um espaço político efetivado pelas candidaturas populares. Trata-se de um lugar que aponta linguagens comuns, vivências semelhantes e outras características que podem ser pensadas como requisitos de uma identidade política. Trata-se, como veremos mais adiante, de uma identidade atravessada por dilemas e paradoxos advindos da condição de exclusão, que ora restringe as adesões a uma espécie de "grupo fiel", ora necessita ampliá-las para concorrer com eficácia no jogo das disputas políticas.

Mecanismos de produção de imagem

A produção de imagem de algumas candidaturas populares efetivada durante as campanhas eleitorais de 1988 e 1992 apresenta aspectos interessantes à análise:

Um trabalho que produz:

Vereador João da Cruz.

 

Vote com decisão:

vote em Carlão.

 

Ana Maria:

a vez da periferia.

 

Onésimo PT:

um povo que quer viver.

 

Maria da Hora:

está sempre com você nas horas

certas e incertas.

 

Toinha da Comunidade,

na luta para mudar.

 

Antonio Falcão,

o candidato do povão.

 

Joãozinho da Coelce,

uma luz que não se apaga.

Chama atenção inicialmente, nesses slogans, o uso de rimas que procuram relacionar o nome próprio dos candidatos a qualidades que expressam signos de reconhecimento relativos ao contexto cultural dos grupos envolvidos. Invoca-se a periferia, o povo, a comunidade, como consumidores por excelência de atributos de identificação. É importante ressaltar a recuperação dessas categorias sociais como referência legitimadora de uma opção de representatividade. Se essa característica pode ser encontrada na maior parte das candidaturas para o cargo de vereador, acentua-se, na situação analisada, a idéia de que a representação popular restringe-se a indivíduos portadores de certos requisitos. É na marcação de diferenças referentes a atitudes, lugares e convicções que os candidatos passam a integrar o campo das disputas políticas, opondo-se a outras formas de representação consideradas não condizentes com interesses populares.

O uso de rimas pode também ser observado como parte de valores próprios da cultura popular, comumente encontrados em cordéis e músicas. São combinações sonoras de fácil assimilação que unem o caráter específico do nome a qualidades gerais que justificam a representação. Por outro lado, a ligação do nome próprio aos predicados da rima confere a esta uma espécie de naturalização de atributos. A "forçada periferia" vem de Ana Maria e o "candidato do povão" é Carlão. Essa conotação associativa de termos, que efetivamente possui eficácia na memória popular, torna viável a propaganda. Avulta, nesse sentido, uma afirmação de signos, jargões e representações de uma cultura popular (Canclini,1983) que são reapropiadas no plano da política.

A imagem fotográfica dos candidatos, veiculada por meio dos "santinhos", expõe fisionomias que irradiam otimismo, simplicidade e coragem. Acompanhadas de slogans e aspectos programáticos, as fotografias apontam a tentativa de corresponder à dignidade do enunciado. Durante as campanhas, elas constituem o veículo mais comum, tendo em vista o acesso precário a outras formas de comunicação visual, a exemplo da televisão.

Invocações ao popular no âmbito da política

As concepções populares que cercam o fenômeno da representação política baseiam-se em critérios normativos. Um passado limpo, isento de máculas do poder, ao lado da "experiência nas lutas", são requisitos atenuantes para enfrentar uma sociedade hierárquica, regida por valores de prestígio, origem social e saber acadêmico. Assim, a valorização do "popular" constitui uma virtualidade que substitui a ausência de características de reconhecimento social. Um espaço coletivo imaginário solidifica laços de coesão, suprimindo eventuais afirmações de individualismo. Ao ser "expressão do movimento popular", as características individuais dos candidatos são minimizadas e a condição de porta-voz assume sua feição mais autêntica.

Em uma outra perspectiva, as conexões que parecem acompanhar o uso associado dos termos popular e política apresentam complexidades. A invocação do povo como sujeito ou objeto da política tem pontos de encontro em várias situações presentes na realidade brasileira. Foi, sobretudo, durante o populismo, como já analisou Weffort (1978), que os apelos ao popular firmaram um tipo de ideologia invocadora da participação e legitimadora de lideranças governamentais. Posteriormente, à época do processo de redemocratização, os apelos ao popular dirigidos sobretudo à massa dos excluídos assumem uma conotação diferente. Eles reconhecem a instituição de grupos organizados e as próprias entidades populares atuam como espaços representativos de demandas e direitos sociais. Constata-se que, no campo da política, a "presença do povo" serve de instância legitimadora a candidaturas de oposição, sendo também recorrente o caso de candidatos que utilizam os velhos esquemas do populismo. É mediante uma construção simbólica de "povo organizado", em substituição à linguagem de "massas destituídas", que candidaturas representativas de segmentos populares criam espaços para uma presença ativa ao invés da mera adesão. Observando-se várias campanhas televisivas para a ocupação de cargos políticos, incluindo os majoritários, durante os pleitos eleitorais de 1985 e 1988, percebe-se a presença de entidades associativas populares que, em nome de seus representados, justificam uma opção de voto.

No espaço das candidaturas populares, a idéia de representação se constrói no elo imaginário que liga grupos organizados a líderes escolhidos com base em discussões e programas. Nesse contexto, dimensões éticas e concepções sobre o poder e a sociedade afloram com freqüência.

A construção de lideranças populares: supostos éticos

Talvez uma das questões mais difíceis de serem equacionadas no fenômeno da representação entre setores populares, especificamente aqueles organizados em movimentos sociais, seja a do lugar do líder. A visão do intelectual orgânico como porta-voz dos interesses populares parece evidente em alguns supostos ideológicos que informam a construção do papel de liderança. No entanto, no interior dos movimentos sociais, os requisitos que apontam e qualificam a representação política são permeados de alguns paradoxos.

Aparece nessa situação uma identidade que supõe a afirmação de um espaço coletivo e, simultaneamente, expressa uma diferenciação baseada em qualidades que distinguem o líder de seu grupo. O singular e a subjetividade convivem com a premissa de uma vontade geral, repondo os dilemas clássicos dos limites e possibilidades de convivência entre interesses individuais e coletivos. A condição de liderança é, portanto, viabilizadora de processos de identificação e projeções de caráter individual e social. (Lavieri, 1993)

É sob a ótica do não distanciamento em relação aos grupos de referência e autonomia em face das instâncias governamentais que setores populares, notadamente organizados em movimentos sociais, têm firmado um ideal de representação transparente.

Algumas das concepções acerca do caráter de autenticidade atribuído às lideranças são importantes para esta discussão:

"Aqui no Lagamar surgiram lideranças novas por conta do governo do Estado. Elas ficam cegas porque estão ligadas ao governo, não são críticas." (Líder do bairro Lagamar, candidata a vereadora pelo PT em 1998.)

"O verdadeiro líder comunitário é aquele que vive sem dinheiro. Vive só com o coração e a mente na luta por conseguir algo para si e para todos." (Líder do bairro Granja Portugal.)

"A liderança comunitária não trabalha por dinheiro, ela não Mede distância, ela não ta nem vendo ser sacrificada, ela não defende os interesses dela, mas os interesses coletivos." (Liderança do bairro Água Fria, candidata a vereadora, em 1988, pelo PMDB.)

Esses depoimentos, colhidos em bairros diferentes com entrevistados de várias filiações partidárias, convergem para um ponto comum: a necessidade de afirmar princípios éticos capazes de diferenciar o "verdadeiro" líder dos demais considerados não legítimos. A perspectiva de representatividade, não obstante as distâncias que possam existir entre discurso e prática, fundamenta-se em um ideário de igualdade e conseqüente dotação de qualidades que capacitam o desempenho do papel de representante político. Trata-se de uma delegação de poderes acompanhada de uma vigilância que pensa a política como instância dotada de vulnerabilidade. Nesse sentido, é possível levantar a hipótese de que a participação dessas lideranças está próxima de uma ética de convicção conforme a caracterização de Max Weber (1968). A necessidade de participar da política carrega o fantasma do distanciamento real de acesso às decisões, isto é, o fenômeno do desapossamento ou entrega total de poderes. (Bourdieu,1989)

Uma visão negativa da política, mesmo entre aqueles que se dispõem a participar das regras do poder, pode ser sentida a partir do seguinte depoimento:

" Se a política é uma coisa suja e para chegar ao poder tem que ter o conduto do partido que se materializa no Estado, é preciso transformar a corrupção em não corrupção[...] tem que trabalhar para a formação não só de um líder, mas milhares de líderes." (Morador do bairro Jardim Iracema, técnico em Educação popular, ex-candidato a vereador, em 1988, pelo PCB e candidato a vereador pelo PSB em 1993. )

A candidatura de Ana Maria, em 1988, residente no bairro Lagamar, significou um exemplo interessante à análise. Fruto de discussões e reuniões com apoio significativo das comunidades eclesiais de base e do Partido dos Trabalhadores, essa candidatura explorou de forma sistemática as razões e justificativas necessárias à constituição de uma forma ideal de representatividade. Esta deveria expressar idéias e necessidades dos que se sentiam pouco reconhecidos ou ignorados na gestão de serviços públicos; era o momento de Ana Maria: "a vez da periferia". Na ocasião foram discutidas as motivações para ocupação de cargos públicos, bem como os requisitos para escolha de candidatos e estratégias de obtenção de votos. Foi assim que, em reunião realizada em março de 1988, já referida no início deste artigo, enunciouse uma série de qualificações capazes de apontar o "candidato da luta do povo das favelas":

· passar na pele o que o povo passou;

· não sair do bairro de origem;

· ser comprometido com a causa do povo;

· entender as necessidades e interesses do povo;

· ser capaz de enfrentar a oposição;

· olhar as necessidades gerais e não seus interesses próprios;

· denunciar os que estiverem contra os pequenos;

· saber ter malícia para entender o jogo da política;

· não fazer promessas e desaparecer;

· colocar seu mandato a serviço do bairro;

· não abandonar o povo.

Essa lista de valorações substantiv,:s, que pode ser considerada uma espécie de síntese do ideário político popular, traz implícito e explícito o perfil do candidato considerado verdadeiro, em oposição aos nomeados candidatos tradicionais.

Entre as várias qualidades exigidas para o desempenho político satisfatório, surge a questão da identificação como um elemento fundamental. Vir do povo, sentir seus problemas, não apenas no plano da semelhança de idéias, mas na perspectiva de "sentir na própria pele". No reforço a essa argumentação, muitos moradores mencionaram que, em eleições anteriores, alguns candidatos que se colocavam a favor das causas populares haviam deixado de lado a participação popular tão logo ocorrera a ocupação do mandato.

O segundo requisito, "não sair do bairro de origem", reproduz a idéia anterior, reforçada pela suposição de que permanecer no mesmo local de origem possibilita não "esquecer" as condições anteriores de vida e, conseqüentemente, não perder as ligações com os setores representados.

Essa ameaça de distância a uma condição de origem integra o universo perceptivo das classes populares em situações de mobilidade social. (Hoggart, 1970) O cruzamento de hierarquias que emerge na ocupação de um cargo político de prestígio repõe, nesse sentido, discussões acerca das regras de pertencimento e distanciamento baseadas nos conflitos entre a .ocupação de uma posição social anterior e posterior.

A capacidade de enfrentar a oposição revela uma característica interessante, pois constata a necessidade de requisitos importantes além do mero compromisso. Supõe a idéia de que existem acordos e alianças que demandam um "saber fazer" que vai desde o uso devido da linguagem até o reconhecimento de quem são os aliados. É interessante observar que, nas discussões sobre essa questão, surge a preocupação de saber argumentar e munir-se dos instrumentos capazes de traduzir os interesses em leis e programas.

O exercício da política compreendido como "arte de fazer promessas" atravessa visões de mundo oriundas não só de moradores da cidade. "Antes das eleições se promete tudo", diz o discurso popular, referindo-se às idéias de campanha, notadamente aquelas que acenam com a adesão de setores excluídos de benefícios sociais. Fazer promessa e desaparecer faz parte, nesse sentido, de opiniões já sedimentadas sobre o poder político, personificado essencialmente na figura de candidatos profissionais cuja carreira política firma-se à base de clientelas.

Em síntese, essas considerações destacam princípios éticos que não só questionam o lugar convencional da política como também instituem pontos de referência para seu exercício.

A afirmação das origens como virtualidade a ser preservada constitui uma postura ética que traz por conseqüência uma situação de duplicidade: o líder membro de seu grupo e ator do cenário político. Esse fenômeno, observado por Maresca (1981) quando analisa a representação camponesa na França, chama atenção para a especificidade de formas de representação vindas de categorias sociais que se impõem a simultânea tarefa de manterem a referência de origem e serem profissionais da política.

A duplicidade de papéis repete-se também por ocasião do desempenho político na Câmara de Vereadores ou na Assembléia Legislativa. Ser um profissional competente no trabalho político e estar "junto às massas" constitui um difícil equilíbrio, tendo em vista a existência de espaços sociais cotidianamente separados. Nas palavras de um depoente:

"Se sua tarefa é fiscalizar o Executivo e legislar e você não faz isso, então os caras começam a colar em você. Eles dizem: mas você não fez o projeto de lei, só vem no dia com a massa, a galera? Você só está aqui para marcar posição? Nós tínhamos que estar no movimento popular, mas, sobretudo fazer nossa presença forte na Assembléia Legislativa". (Vereador eleito pelo PC do B e deputado estadual em 1990. Foi presidente da Federação de Bairros e Favelas de Fortaleza em 1985. )

No âmbito da ação partidária, as separações entre formas diferentes de atuação são também mencionadas:

"Eu sempre separo o trabalho comunitário e o trabalho da política partidária. Se você realmente luta em defesa do povo e tem compromisso com as necessidades de seu bairro, não devemos pensar `eu vou fazer isso porque sou do lado do PMDB'. Existe então a política da necessidade e a política partidária. Se a gente tem compromisso com o povo, deve separar uma coisa da outra." (Líder comunitária, expresidente da Associação de Moradores do bairro Água Fria, candidata a vereadora pelo PMDB em 1988. )

As opiniões convergem no sentido de uma distinção entre o trabalho político cotidiano e o trabalho político profissional. As contradições e os limites desse lugar de representação acompanham as formas de exclusão dos setores populares receosos de fazer parte das regras de um jogo desconhecido e, portanto, passível de repetir os espaços de segregação e distanciamento.

A busca de uma representação diferente da convencional constitui um dos elementos essenciais que fazem do líder popular a expressão das dificuldades e dilemas presentes no mercado desigual da política.

A apresentação desses elementos aqui especificados de modo rápido, aponta de maneira peculiar recursos lingüísticos e simbólicos envolvidos no momento de uma candidatura com apoio das Comunidades Eclesiais de Base. É possível, entretanto, considerar que essas percepções integram uma espécie de tipo ideal weberiano, variável conforme diferentes experiências de socialização política. Candidaturas sob influência partidária aceitam com maior naturalidade os meandros da prática política. Ao contrário, candidaturas com maior influência da Igreja defendem um ethos grupal baseado no sentimento de comunidade, que rejeita disputas políticas principalmente entre as bases supostamente coesas. Esse fato pode explicar por que candidaturas diretamente apoiadas por Comunidades Eclesiais de Base, como é o caso de Ana Maria (1988) e Onésimo (1992), acentuam de forma mais nítida regras de conduta e valores normativos que são também compatíveis com o universo perceptivo dos movimentos sociais.

A busca de um novo caráter de representatividade no âmbito dessas lideranças, vigente sobretudo no período eleitoral, afirma a percepção, mesmo que desconfiada, de um poder capaz de ser questionado ou modificado em situações oportunas. A ocupação concreta de novos espaços segundo a lógica da identificação coloca, no entanto, outros dilemas. Entre eles, a perspectiva de uma lógica particularista que, em nome da representação por categoria, termina paradoxalmente reproduzindo espaços de exclusão no interior do campo político.

Essa é uma questão passível de aprofundamento com base na gestão política de candidatos eleitos nas circunstâncias antes mencionadas. Ressalta-se, no entanto, que a maioria dos candidatos com as características aqui enunciadas não lograram atingir o número de votos exigidos para a ocupação de cargos de vereador. Essa situação põe em evidência os limites de uma forma restrita de adesão eleitoral conformada ao grupo de referência.

"Alguém como nós": questões de identidade política

O papel do líder é complexo, a partir da premissa de denegação individual e a conseqüente encarnação de uma vontade geral. O contraponto sempre estabelecido entre interesses individuais e coletivos condiciona a necessidade de processos de identificação sempre postos à prova. Ser "alguém como nós" enquanto condição essencial do porta-voz, é continuar como nós e conosco, única forma viável de estar na política.

A formulação de um "nós" em oposição aos "outros" acompanha o espaço das classificações sociais não restrita ao âmbito da política. Trata-se de uma forma de classificação polarizada, que atravessa o conjunto das relações sociais e se recompõe no imaginário político. "Por que votar neles e não em nós" constitui o título significativo de um encontro realizado em maio de 1993, que reunia candidatos insatisfeitos por haverem perdido as eleições.

A concepção que divide espaços sociais em pólos antagônicos, como observou Pinto (1990), possibilita uma construção de identidade que atua como grupo de defesa em situações que se reportam ao universo cultural das classes populares, criando o sentimento de coesão com base na situação de exclusão. (Hoggart, 1970)

Os valores constitutivos dessa, identidade política se fazem, nesse sentido, no contraponto a atribuições consideradas negativas, radicalizadas sobretudo em situações de enfrentamento. Por outro lado, na medida que fazer parte da representação institucionalizada significa ascender na hierarquia social, torna-se necessário estabelecer mecanismos de controle. Eles se erguem com base na afirmação simbólica de negação do individual: "o verdadeiro líder não faz trabalho para querer aparecer." (Frase pronunciada durante um encontro de lideranças realizado em 16/ 10/93.)

A percepção sobre o fenômeno da representação entre setores populares apresenta dilemas e paradoxos que não podem ser interpretados como sendo unicamente parte de uma "ética da resistência". A elaboração de supostos normativos ocorre na confluência de tensões culturais sociais e psicológicas que constituem fértil terreno para formação de ideologias. (Geertz, 1978) Assim, a projeção de um referente utópico para a função de líder aparece como um recurso normativo que traduz o medo do distanciamento, isto é, a ameaça de que o compromisso com o candidato se efetive somente no momento do voto, anulando a virtual condição de compromisso. O sentido de realidade oferecido pela trajetória de exclusão se compensa na criação de um universo imaginário destituído das teias de dominação.

Também a experiência vivida por movimentos sociais, na sua recusa inicial ao âmbito institucional do poder, reforça a construção dessa matriz perceptiva.

Uma espécie de visão negativa da política integra grande parte da visão de mundo de amplos segmentos sociais (incluindo também a classe média), fazendo com que a representatividade seja uma idéia de sustentação duvidosa. Recentemente, os debates sobre a forma ideal de sistema político existentes no confronto parlamentarismo versus presidencialismo, atestaram fragilidades presentes na idéia de representação, desenraizada do pensamento político brasileiro, como mostram as análises de cientistas políticos. (Lamounier, 1981; Cintra, 1974)

Não é de estranhar, portanto, que a constituição dessa identidade política contrastiva esteja cercada por uma aura de pureza: a busca de um espaço significativo em que os preceitos de verdade e justiça apareçam de forma evidente. Não importa, nos limites dessa discussão, apontar ilusões ou ingenuidades desse imaginário, mas, sobretudo, compreender o surgimento de estratégias discursivas e regras de ação coletiva que se definem com base em uma situação de exclusão. Considera-se, nessas circunstâncias, o cruzamento de diferentes suportes valorativos que evocam tanto percepções críticas como visões instituídas que reafirmam as classificações sociais existentes. O sentido introjetado, mas nem sempre explícito, de um lugar prévio de exclusão - "isto não é para nós" -,caracterizado de forma emblemática por Bourdieu (1992), convive com a visão de um lugar a construir em um espaço político marcado por oposição de princípios e estratégias. Se é relevante aplicar o conceito de habitas no âmbito dos movimentos sociais, constata-se que ele é constituído por essa dimensão paradoxal de inclusão e exclusão que se atualiza e se refaz criticamente em situações cotidianas.

As questões que emergem no âmbito das candidaturas populares não se atêm, no entanto, à lógica dos envolvidos. Ao contrário, evocam temas clássicos da ciência política que merecem ser mencionados.

A representação como espelho

A questão da representatividade política não aparece rio pensamento político clássico e contemporâneo por acaso. Desde o momento em que se estabelece o fenômeno da delegação de poderes, os temas da legitimidade incluindo justeza, lealdade ou os princípios que regulam os sistemas políticos, afloram com nitidez. Da perspectiva filosófica, a vinculação entre representação e liberdade respalda o tema já discutido por Rousseau a respeito da capacidade que tem o povo de permanecer livre quando elege seus representantes. Essa questão é retomada por Sartori quando analisa o dilema da representação: esta deve estar fundada em um grupo de referência ou o candidato representa a nação em seu conjunto?

Em perspectiva mais ampla, a vinculação entre governo e sistema de representação repõe o papel do Estado e da Assembléia como espaços políticos que se complementam ou se contradizem nos diferentes tipos de governo

A discussão dessa problemática não se restringe, no entanto, ao plano da política. De fato, a dimensão simbólica presente desde o início opera como uma espécie de princípio norteador de processos sociais que dão sentido às práticas de representação. No entanto, longe de uma atmosfera consensual, as práticas de representação são momentos de explicitação de conflitos.

No caso de setores sociais submetidos a várias formas de exclusão, a dimensão política aponta um paradoxo: de um lado, se reconhece a esfera da representação como espaço factível de impor mudanças; de outro, a constatação dás dificuldades de conseguir hegemoniano âmbito das decisões. Essa questão aparece sobretudo nos movimentos sociais colocados na opção de atuar nas esferas instituídas de fazer política ou atuar simplesmente como grupo de pressão. Uma certa colagem entre líder e grupo de referência faz com que representar signifique, em muitas das situações, personificar, pertencer a um grupo. A idéia de umarepresentação-espelhoresponde aexigências de ordem simbólicae psicológicaatinentes a grupos que se sentem marginalizados no plano das decisões políticas. (Bobbio 1986)

A assertiva de que nos sentimos representados por quem pertence a nossa matriz de origem, como lembra bem Sartori (1962), encontra grande validade na situação aqui analisada. Talvez não seja exagerado afirmar que quanto mais os setores sociais sentem-se distanciados dos planos decisórios, tanto mais restringem a esfera da representação a grupos de referência. Esse é um dos problemas das candidaturas populares que se afirmam a partir de u m espaço de identidade contrastivo, mas precisam ampliar seu raio de ação para outras esferas sociais como garantia de apoio a mudanças sociais e políticas. Os problemas que lideranças populares articuladas a movimentos sociais enfrentam, na ocupação de espaços institucionalizados do poder, dizem respeito à difícil elaboração de estratégias condizentes com um tipo de vivência política que prioriza reivindicações específicas aos bairros, desconfia das alianças e critica os mecanismos de exclusão presentes na política. É uma vivência que atua como uma espécie de habitas constituído desse conjunto complexo de representações culturais e políticas que funcionam como história incorporada que predispõe estratégias comuns, ao mesmo tempo que acenam com dimensões de criatividade que aparecem na crítica aos privilégios instituídos. Em quem confiar, como negociar e de que forma - eis questões não só relativas à desinformação ou falta de experiência, como também ao sentimento de provavelmente reproduzir no campo da política novos mecanismos de segregação, ou pior, não cumprir devidamente o papel de porta-voz.

Seria possível dizer que o ideal de representação mais recorrente entre os movimentos sociais aproxima-se de uma visão de democracia direta, em que o representante é um porta-voz delegado de seus representados. (Bobbio,1986) E uma forma condizente com experiências efetivadas em associações de bairro que procura ampliar-se para outros espaços de representação.

No entanto, é importante considerar que a visão de mundo e a prática de participação que caracterizam os movimentos sociais no contexto analisado não constituem um fenômeno estanque. Isso considerando-se que as experiências recentes de candidaturas são indutoras de novos espaços de reflexão e crítica.

As candidaturas populares, conforme enfocamos neste artigo, constituem um espaço importante de expressão de uma cultura política advinda de segmentos sociais que vivenciam uma cidadania ambivalente em seus requisitos de inclusão/ exclusão. Nessa esfera representativa, destaca-se a experiência de segmentos sociais que optam pelo desejo da participação institucional, ao mesmo tempo que se ressentem dos dilemas e paradoxos desse ingresso nas esferas de poder.

NOTAS

*. Este artigo constitui uma sistematização de dados de pesquisa efetivada através de bolsa do CNPq. As idéias iniciais desse projeto de investigação foram apresentadas no XVI Encontro Anual da ANPOCS no Grupo de Trabalho "Lutas Urbanas, Estado e cidadania", em outubro de 1992.

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