IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO 

Os judeus na esfera política e a imagem na comunidade (*)

Roberto Grun 

Povo de intelectuais ou povo de comerciantes? Esta é uma dúvida que atravessa a comunidade judaica, aparecendo nas suas estratégias de auto-representação e dessa forma determinando a produção de identidades entre seus membros.(1) Uma vez que o campo político é uma esfera pública por excelência, nele se manifestam de forma exemplar os constrangimentos da "dupla identidade", e explorar essa tensão passa a ser a principal pista deste estudo.(2) Por se tratar de um tema ainda não explorado pela análise sociológica brasileira, a falta de controle externo para as análises obriga o registro de suas conclusões como aproximativas.

Todas as etnias que imigraram para o Brasil sofreram algum tipo de valoração negativa. Em geral, o preconceito criou-se diretamente na interação dos imigrantes com o meio social que os absorvia. No caso dos judeus, temos a particularidade de já existir um estereótipo mundial bem sedimentado pesando sobre o grupo, que será simplesmente acionado entre nós. Contrapondo-se a essa dificuldade, a diáspora judaica organiza-se internacionalmente, na vigilância e denúncia de atividades que possam ter conotações anti-semitas e na produção de artefatos culturais que referendem sua ação. Conforme já desenvolvemos a respeito daformação das identidades armênias no Brasil (Grün, 1992), a luta ideológica travada pelas colônias contra seus detratores produz uma auto-identificação que se inscreve duravelmente nas velhas gerações de imigrantes e depois é transmitida a seus descendentes. No caso judaico, essa articulação ajuda a criara notável similaridade de posicionamento social existente entre os judeus em todo o mundo ocidental.

Para tentar dar conta da questão do comportamento eleitoral dos judeus paulistas, começarei por uma análise esquemática dos estudos sobre os judeus nos países anglo-saxões. Diante das ponderações sobre a abrangência do preconceito antisemita e da organização internacional dos judeus para fazer frente a ele, a comparação com os casos já estudados pela literatura se impõe. Posteriormente, contrastarei as evidências obtidas sobre a realidade paulista com as diversas e conflitantes proposições avançadas pelos autores que se ocupam dos casos acima. As nuances da situação observada pela pesquisa permitem uma série de inferências sobre a relação peculiar dos judeus com a esquerda do espectro político. Analisarei essa questão fazendo uma divisão entre o que chamo "pré-história esquerdista", ou seja, a fase em que a atividade política dos judeus transcorria principalmente no lado esquerdo do espectro político, e a "história burguesa", quando o comportamento político eleitoral dos judeus parece começar a se conformar aos padrões típicos dos estratos sociais de onde são provenientes. Embora haja um período de interseção cronológica entre as duas épocas, elas se desenvolvem segundo lógicas distintas, justificando o corte.

Por fim, examinarei a questão da vivência dos políticos judeus no Brasil, colocados entre as regras de funcionamento do sistema político real, centralizado nos diversos níveis do poder executivo, enxertado pelo velho patrimonialismo, e um sistema ideal, totalmente aberto às iniciativas dos representantes dos interesses minoritários, onde sua condição de representantes da comunidade judaica atingiria uma dimensão maior que a atualmente existente. Os políticos, cuja dimensão pública é imediata, são colocados no centro dessa arena, sendo intensamente "supervisionados" pela comunidade zelosa de sua imagem. Neste texto utilizaremos indistintamente os termos "comunidade", que normalmente faria referência a um grupo religioso, e "colônia", que diz respeito a um agrupamento de origem étnica comum. Esse posicionamento pode ser criticado em sua generalidade. Mas, em relação ao problema específico de que estamos tratando, coletamos dados que mostram a enorme "força moral" das instituições da comunidade sobre o comportamento político dos judeus paulistas, produzindo a identidade entre os dois conceitos. É claro que não podemos eliminar apriori aexistência do free rider, o político de origem judaica que correria em raia própria, independentemente do pensamento coletivo da comunidade. Mas, conforme veremos no decorrer do texto, é notável a capacidade de enquadramento da colônia judaica sobre seus membros atuantes na esfera política.(3)

A literatura sobre o comportamento político dos judeus

O comportamento eleitoral dos judeus é em geral considerado um problema para a análise política. Estudos realizados em vários países onde existe uma diáspora judaica relevante demonstram uma "predileção pela esquerda" incongruente com a posição sócio-econômica alcançada pelos membros daquela etnia nas sociedades. Isto é, os estratos sociais a que pertence a maioria dos judeus, medidos pela posição ocupacional e nível de renda, votam e postulam candidaturas majoritariamente em zonas mais à direita do espectro político dos países considerados. Essa particularidade atrai de tal maneira os esforços intelectuais dos cientistas sociais- judeus em sua grande maioria, em diversos níveis e estilos de carreira, que vão de cadeiras de estudos judaicos patrocinadas por organismos da colônia até cientistas consagrados na arena mais internacional da disciplina, como Seymour Lipset -que podemos falar num verdadeiro "subcampo" do comportamento político judaico nos estudos eleitorais norte-americanos, onde o peso numérico dos judeus é relevante, além de séries de estudos mais recentes, mas já seguidos de réplicas e tréplicas em outros países anglo-saxões, como o Canadá, Grã-Bretanha, Austrália e a África do Sul. (4)

Encaixando a discussão numa camisa-deforça generalizante, podemos dizer que os argumentos dividem-se em substancialistas e posicionais. Argumentos substancialistas são aqueles que explicam o posicionamento político dos judeus a partir de alguma característica essencial da cultura religiosa ou política judaica. Argumentos posicionais procuram entender as opções políticas dos judeus em função da posição dos membros da colônia na sociedade.

A primeira posição, defendida pelo decano dos estudos eleitorais judaicos nos EUA, Fuchs (1956,1976), considera que os valores maiores do judaísmo expressos no Talmud, o livro de comentários rabínicos autorizados sobre a Torah - o pentateuco na versão judaica-,seriam responsáveis por uma conduta liberal (no sentido norteamericano) e pela tendência ao favorecimento do welfare state pelos judeus norte-americanos. Essa argumentação é sustentada principalmente pelos jamais alcançados níveis de votação judaica em F.D. Roosevelt - o iniciador e campeão do Estado assistencialista nos EUA-nas eleições presidenciais das décadas de 1930 e 1940, quando aquele político recebeu mais de 90% dos votos judeus, ao mesmo tempo em que a quase totalidade dos votos "burgueses" era por seus oponentes republicanos, que no centro de sua propaganda eleitoral repudiavam a intromissão do Estado nos "assuntos de caridade". Os oponentes mais jovens de Fuchs contestam a explicação interna do fenômeno lembrando - esse parece-me o argumento mais forte - que quanto mais ortodoxo o judeu - e portanto mais exposto aos valores da educação religiosa -, mais ele tende a votarem candidatos conservadores. É claro que a contestação pode ser rebatida lembrando-se a existência de uma cultura judaica leiga e ainda assim particular, progressista e generalizante, influenciada apenas indiretamente pelos valores religiosos. Nesse sentido aparecem os exemplos oferecidos pelos múltiplos comentaristas da Viena fin-de-siècle (5) ou pela corrente cultural leiga mais diretamente influenciada pelos valores religiosos - considerados uma expressão cultural - cujo representante mais conhecido é Gerschon Scholem (1980). Mas, curiosamente, a hipótese do fascínio intelectualista entre os judeus, empurrando-os para posições políticas mais próximas do socialismo, não é levantada.

Entre os analistas que trabalham argumentos posicionais, as contribuições variam, começando por aqueles que procuram as mínimas indicações de que "o voto judaico na última eleição começa a conformar-se aos determinantes macro-sociais mais clássicos da explicação das preferências eleitorais". Desde a década de 1960 podemos coletar uma sucessão de trabalhos nesse sentido, focalizando principalmente as eleições majoritárias norte-americanas e britânicas. (6) No outro extremo do argumento posicional, temos os analistas que vão buscar no papel do Estado jacobino, na emancipação dos judeus na Europa Ocidental, uma explicação para a "vocação esquerdista". Associam-se os Partidos de direita modernos aos movimentos anti-semitas da Europa, em geral patrocinados pelos Partidos mais tradicionais daqueles países, e considera-se a direita americana uma extensão dessa corrente de pensamento. Numa variante, enxergam-se resquícios de anti-semitismo nos colégios e clubes de elite norte-americanos, por onde passam muitos dos políticos republicanos, e a associação dos republicanos com o estamento WASP (branco, anglo-saxão e protestante) dominante é imediata. Mas nada se fala sobre a passagem, pelas mesmas instituições, dos jovens aspirantes a políticos democratas daquele país. Nessa vertente, de uma maneira geral, os Partidos de centroesquérda são considerados os herdeiros da tradição do Estado forte que tem poderes para fazer descer a igualdade jurídica dos judeus goela abaixo dos conservadores.

Finalmente, um novo tipo de substancialismo aparece quando alguns autores, influenciados pelas teorias da "escolha racional", tentam estabelecer e imputar uma "teoria geral dos interesses políticos judeus" na diáspora (p. ex. Medding, 1977). Em síntese, essa corrente predica que os dois maiores interesses dos judeus são a preservação do pluralismo - sem precisar se só religioso ou também político e social (7) - e o apoio ao Estado de Israel, considerado o garante, em última instância, da segurança e da auto-estima dos judeus em todo o mundo. As preferências político-eleitorais dos judeus ficariam então determinadas pelas duas balizas acima: quanto mais próximo o postulante a cargo público estivesse da defesa dos interesses do Estado de Israel, mais deveria contar com o voto judeu; quanto mais defensor do pluralismo, também mais próximo do eleitor judeu. É interessante notar que as duas "idéias-força" que devem nortear o julgamento eleitoral judaico correspondem de perto aos esforços de propaganda e intervenção dos órgãos comunitários filiados ou mais próximos do Comitê Sionista Mundial. Dessa forma, é difícil deixar de notar seu caráter prescritivo.

A predileção dos judeus norte-americanos pela esquerda do espectro político de sua sociedade, representada pelo Partido Democrata, começa a esmaecer na eleição presidencial que opôs Nixon a McGovern. O candidato da esquerda democrata, fortemente apoiado pelas então florescentes correntes da New Left, que defendi am explicitamente a causa palestina, embora não obtendo o tradicional apoio maciço do eleitorado judaico, foi beneficiado pela abstenção de parcelas significativas da comunidade judaica. Nessa eleição, mais que nunca, o eleitorado de classe média média e alta votou maciçamente nos republicanos, enquanto seus componentes judeus não chegaram a atravessar a ponte. Ainda assim, esse episódio eleitoral marcou o ocaso de um capítulo da história da comunidade judaica dos Estados Unidos. Ilustrando essa mudança, temos o estudo antropológico de um bairro onde convive uma população judaica com uma de origem italiana em Nova York, realizado no fim dos anos 70 e início dos 80 e mostrando como uma comunidade distrital judaica abandonou sua tradição democrata e liberal sob o impacto da "ação afirmativa" pró-minorias estigmatizadas (negros e hispânicos). O autor (Rieder, 1985) mostra como o impacto do aumento da taxa de criminalidade na região, atribuído à instalação de conjuntos habitacionais subsidiados, destinados às mencionadas minorias, bem como o busing escolar e as tentativas de membros da classe média negra de adquirir residências na região, tornam o antigo e já clássico liberalismo dos professores secundários e pequenos empresários judeus um luxo insustentável.(8)

Na Inglaterra, o fascínio pela esquerda, ali representada pelo Partido Trabalhista, irá desvanecer-se muito antes. Nesse país com regime político parlamentarista e praticando eleições distritais, a importância do voto judeu concentrado em alguns distritos pode fazer pender a balança do poder para um dos lados, o que confere grande importância prática aos humores eleitorais da comunidade, avaliada em 600 mil judeus em 1990.(9) À vitória do Partido Trabalhista em 1945 seguiu-se uma política exterior britânica pelo menos ambígua em relação aos esforços sionistas pela criação do Estado de Israel. Mais recentemente, Alderman (op. cit. p.148-9) relata uma tentativa bem-sucedida dos conservadores de mobilizar o apoio judaico para a eleição de Margareth Thatcher em 1978, lançando mão do repertório "anti-imigração".

Para a América Latina as referências são escassas e carecem de embasamento empírico. O texto mais conhecido faz parte de uma coletânea que trata genericamente de todo o continente, tendendo mais para os pontos de vista posicional e "racional". Segundo o autor (Avni, 1972):

"Uma vez que em todo o continente os judeus situam-se majoritariamente nas classes médias, sua resposta ao contexto econômico e político é igual aos demais membros de sua classe. Para um considerável número de judeus, essa reação essencialmente conservadora pode chocar-se com as crenças socialistas de sua juventude, e outros encontram-se em conflito não só consigo mesmos, mas também com seus filhos, particularmente quando eles são estudantes universitários. Mas, querendo ou não, as realidades sociais e econômicas parecem impor-se sobre os desejos, gerando uma necessidade de identificação política com o status quo ".

Os dados existentes para São Paulo não permitem grandes análises que confirmem um ou outro dos lados da polêmica. Confeccionamos listas de candidatos judeus a postos legislativos e investigamos a distribuição de votos nas regiões da cidade de São Paulo, onde existem maiores concentrações de moradores judeus. Cruzando essas duas bases, com todos os erros que podem advir da proxi pouco acurada "bairros de concentração residencial judaica", podemos entretanto indicar algumas constâncias e peculiaridades. Além disso, podemos reproduzir, matizando-o, o conhecimento intuitivo dos políticos entrevistados e o registro das diversas manifestações políticas da colônia. A população judaica no Brasil foi estimada em 200 mil pessoas pelo Censo Demográfico de 1991 (10)- 50% morando em São Paulo (OESP, 26.07.92, p. 15). Podemos então inferir um máximo de 60 mil eleitores judeus em São Paulo, os quais dificilmente justificariam uma pesquisa de preferências eleitorais financiada por algum órgão dispondo de grande orçamento. Esse pequeno número (em torno do milésimo) também torna pouco saliente o contingente eleitoral judaico para "pegar uma carona" numa pesquisa mais geral, com amostras de 1.000 a 2.000 eleitores. De qualquer forma, no decorrer da pesquisa colhemos dados suficientes para desenvolver a idéia de que os judeus, devido à proeminência alcançada em alguns campos, são considerados mais importantes como cabos eleitorais e financiadores de campanhas que propriamente como eleitores, exceção feita para os candidatos judeus a cargos proporcionais claramente apoiados pela colônia.

Nossas principais observações dizem respeito à relação entre os políticos e a comunidade judaica: as formas através das quais a colônia alavanca ou não seus membros na vida política e os sistemas categoriais empregados pelos judeus inseridos no campo político para dar conta de suas experiências. No primeiro tópico, observaremos a relação tensa e cercada de ambigüidades que une os políticos à comunidade. Os primeiros tentam afirmar a existência de seu capital político individual,enquanto a segunda tenta fazer registrar um tipo de "delegação imperativa" em que o representante dos judeus está praticamente tutelado pelos seus eleitores. Quanto à questão da alavancagem, em estreita consonância com o item anterior, observamos que a comunidade tenta sistematicamente fazer eleger suas "estrelas internas" - indivíduos detentores de capital político construído exclusivamente nos órgãos da colônia - para cargos legislativos municipais, estaduais e federais, muitas vezes com esquemas de campanha profissionais, sem entretanto obter êxito. Por fim, as formas através das quais nossos entrevistados se apresen ettil em relação à colônia e sua vida política em geral refletem as ambigüidades que anotamos.

Em relação ao debate internacional sobre o voto judaico, nossas observações aproximam-se mais da vertente "posicional" da literatura. Em São Paulo, tivemos uma primeira fase em que a esquerdaprcdominou nadisputapelaspreferências judaicas, mas isso principalmente devido a uma situação em que candidatos judeus só apareciam nessas siglas. Uma vez franqueada a porta dos Partidos situados mais ao centro do espectro político aos filhos de imigrantes, as preferências eleitorais judaicas aproximaram-se do "padrão burguês". Esse mornento, situado, segundo os depoentes, no início dos anos 1950, coincide com o alinhamento do nascente Estado de Israel com o Ocidente na Guerra Fria, o que torna difícil estabelecer uma seqüência causal precisa. Finalmente, num país onde o patrimonialismo está longe de virar história, observamos que o central da atividade política de coordenação entre os interesses da comunidade judaica e as altas instâncias governamentais é feito pelos grandes empresários, os líderes "naturais" da coletividade; numa atualização do antigo e tradicional papel dos "judeus de corte".(11)

A primeira fase esquerdista

Podemos falar de vida política interna à comunidade judaica em São Paulo a partir da formação de uma massa crítica de imigrantes, oriundos em sua enorme maioria da Europa Oriental - Polônia e império czarista principalmente -, que se produz entre os anos 1910 e 1920, com a criação das primeiras entidades comunitárias. (12)Concentrados no bairro do Bom Retiro, os judeus daquela origem desenvolveram suas entidades comunitárias concentradamente naquele bairro (com exceção dos clubes esportivos, que precisavam de áreas amplas, caras naquele bairro central). É interessante notar, de início, que essas organizações eram herdeiras de uma forte tradição associativa característica das comunidades judaicas da Europa Oriental, onde a prática de auto-governo já era antiga. Os judeus organizavam-se internamente às suas comunidades, os shetls (nome, em iídiche, das pequenas cidades de população judaica da Europa Oriental) e, em tempos normais, apenas seus líderes relacionavam-se diretamente com as autoridades civis do império russo e austro-húngaro, assim como, para a maior parte dos judeus orientais, do império otomano.(13)

Em geral, a atuação política dessas comunidades nos países que as abrigavam consistia em simplesmente conquistar os favores dos governantes para conter as eventuais maltas anti-semitas. Em função disso, no fim do século passado, quando começou a imigração maciça para o Brasil, a comunidade judaica dos países da Europa Oriental estava dividida da seguinte forma: havia uma maioria, em que se incluíam os responsáveis pelo auto-governo, que tinha uma visão de completa não-interferência nos assuntos políticos dos países em que estavam estabelecidos, inspirados em geral numa visão religiosa quietista, clássica no judaísmo pré-sionista. Por outro lado, apareciam os sionistas e socialistas de diversos matizes, que pregavam a atuação na sociedade política dos países europeus, ainda que com várias nuances (Deutscher, 1969). A primeira geração de judeus no Brasil do século XX reproduziu essa clivagem, embora num ambiente social e político completamente diferente. A maior parte dos judeus recém-chegados estava ocupada em estabelecer-se economicamente no Brasil, enquanto uma das tarefas fundamentais dos órgãos comunitários recém-criados era ajudar na acolhida das levas contínuas de recém-chegados, que estavam sendo expulsos maciçamente da Europa Oriental e Alemanha (Lesser 1989). A experiência anterior dos imigrantes os levava a manter distância da política do país, enquanto as instituições da República Velha inibiam em grande parte a participação de estrangeiros. (14)

A redemocratrização de 1945 trouxe os judeus, assim como outros grupos étnicos, para mais perto da arena política (Tabela 1, em anexo, relacionando os candidatos judeus mais expressivos em termos de votos que concorreram à Assembléia Legislativa de São Paulo e à Câmara dos Deputados entre 1950 e 1990). Não por acaso, os primeiros judeus a postular cargos eletivos estavam inscritos em Partidos de esquerda, de onde se lançaram a partir de cacifes políticos não originários da comunidade judaica. Aparecem assim as figuras de Mário Schemberg, Maurício Grabois e Salomão Malina no PCB, e Febus Gikovate no PSB. Segundo nossos informantes, Mário Schemberg, candidato comunista com notoriedade intelectual que transcendia os circuitos esquerdistas, foi bem votado na comunidade judaica em 1945, embora pouco se esforçasse para atrair esses votos.

É interessante notar que, conforme relatam dois entrevistados, os métodos organizativos utilizados pelas "organizações de massa" filo-comunistas judaicas no Brasil foram as principais experiências prévias de que se nutriu o Partido comunista recém-legalizado na sua organização de massas nascente.(15) O ocaso da influência direta dos comunistas na comunidade judaica pode ser datado com a ocorrência do Pacto de Bagdá, em 1952, quando o recém-nascido Estado de Israel declara resolutamente sua fidelidade ao lado ocidental na Guerra Fria, obrigando os judeus a escolher entre os dois lados, com evidente adesão maciça às opções maiores da política exterior do governo israelense. De qualquer forma, não parece temerária a afirmação - afinada com a França e a Alemanha pré-hitleriana - de que os Partidos de esquerda foram os pontos de maior permeabilidade do campo político para os judeus no Brasil, assim como, provavelmente, para quaisquer outras minorias estigmatizadas.

A defasagem temporal existente entre a conquista da permeabilidade alcançada nas escolas superiores formadoras de quadros e aquela apresentada pelas grandes corporações de Estado, os alvos mais ambicionados pelos jovens então saídos das escolas de nível superior, ajuda a explicar a inadequação. O sistema escolar abre suas portas aos imigrantes e seus descendentes antes das corporações do alto serviço público, como a magistratura e o serviço diplomático. Cria-se uma decalagem entre a qualificação formal - puramente escolar - dos jovens de origem imigrante e a qualificação real - onde a origem familiar conta muito-exigida para o ingresso nas corporações. As corporações resistem à transformação da qualificação nominal em real, mantendo por mais tempo a homogeneidade oligárquica. Está, assim, formada uma fonte para o vapor anti-establishinent que poderá levar para a esquerda as vocações políticas dos "estrangeiros" que passaram pelos ambientes acadêmicos. (16)

 

Um outro fator é a maior facilidade de entrada nos Partidos de esquerda, que pode também ser simplesmente imputada a uma prosaica questão de oferta e procura de espaço na política e de legendas eleitorais em específico. À medida que os Partidos tradicionais são pouco propensos a acolher militantes e muito menos aceder legendas a candidatos de origem imigrante, os Partidos de esquerda surgem naturalmente como alternativas para vocações políticas já radicalizadas pela exclusão. As formas como ocorrem essas exclusões, tanto do sistema político quanto das corporações, podem não ser diretas. Nossos depoentes falam na "vergonha" sentida por seus predecessores judeus na política e no campo jurídico pelo fato de se aproximarem dos Partidos tradicionais ou mesmo de prestar concursos públicos para as carreiras da magistratura. Eles não se sentiam "à altura" dos grandes cargos e reverenciavam seus concorrentes "quatrocentões", mesmo quando considerados medíocres pornossosentrevistados. Num ótimo exemplo de atuação da violência simbólica de Bourdieu (1980), eles "jogavam a toalha antes mesmo de subirem no ringue". Nos casos em que a aproximação ocorria, a mesma era imputada à ação "mágica", uma simpatia desenvolvida sem razão aparente, de um padrinho de origem oligárquica, que teria apoiado o jovem bacharel de origem judaica.

Entretanto, candidatos de outras etnias "comerciantes" - sírios & libaneses e armênios - lidavam com a questão da oferta de legendas de outra forma, procurando Partidos menos expressivos ou pouco caracterizados por posições ideológicas claras. Um -entrevistado de origem armênia - deputado estadual por duas legislaturas e federal por uma durante a década de 1950 e início dos 60 - disse-nos mesmo que: "cansado de ter de comprar legenda em tolas as eleições, ele acabou `comprando' um Partido e invertendo o processo: tornando-se um "atacadista de legendas". Sobra-nos assim um resíduo inexplicável pelas leis mais prosaicas da interação entre oferta e demanda.

Mas, para demarcar as fronteiras entre nossos entrevistados e seus êmulos levantinos, devese levar em conta que, pelo menos os armênios que entrevistamos, eram filhos de grandes empresários que, "colocando o filho na política", resolviam, ao menos provisoriamente, conflitos na gestão e sucessão dos negócios familiares.(17) O apoio à postulação política de um filho era considerado compensação razoável para seu afastamento da direção da empresa. Evidentemente, a socialização desses "filhos de nababos" tenderia a fazê-los encaixar-se mais naturalmente no papel de empresários. Não é, assim, por acaso que vemos muitos políticos dessa origem agirem de forma a tentar estender as regras de funcionamento do universo empresarial onde haviam sido criados para a esfera política. Ora, a incompatibilidade com a "cidade mercantil" é uma condição prévia para o bom funcionamento da "cidade cívica", o mundo onde a política adquire sua maior expressão e legitimidade social (Boltanski & Thevenot, 1991, pp. 318-9). Assim, a atuação desse gênero de políticos, que obviamente transcende o universo étnico de que estamos tratando, ajuda a referendar as mais impiedosas caracterizações do campo político como "um mercado", numa espécie de denúncia constante da atividade política como a busca de interesses pessoais numa arena onde deveriam prevalecer os interesses maiores da coletividade. Sem dúvida, esta é uma das principais fontes de alimentação do humor anti-político existente na sociedade brasileira.

Pelo que pudemos constatar, nossos entrevistados judeus não dispunham de antecedentes familiares semelhantes aos de seus concorrentes das outras "etnias comerciantes". (18)Pelo contrário, parecem políticos self-made,que vivem ela política porque vivem para a política, jogando nesse campo todas as suas cartas (Bourdieu, 1989). Mas essa variável isolada também não explica a situação. As biografias dos primeiros políticos nikkey - descendentes de japoneses - em São Paulo também registra jovens bacharéis de origem não abastada, igualmente com poucas chances de ingressar nas corporações do Estado mas postulando candidaturas tios Partidos do oficialismo (Sakurai, 1993).

Minha hipótese para explicar a singularidade do posicionamento dos judeus no campo político é que as necessidades da luta contra o preconceito restringem a possibilidade do aparecimento de empresários da política na colônia. Diante do quadro de constrangimentos carregado pela etnia judaica em todo o mundo ocidental, a eles não é permitido transformar o dinheiro em moeda para fora da esfera econômica sem o enorme risco de reiterar o pré-conceito do judeu ávido, cuja única preocupação e escala é o dinheiro. Se porventura algum ator isolado ensaia algum passo nessa direção, é rapidamente "enquadrado" pela comunidade, ou deixa-a. Pelo contrário, o dinheiro judaico deve ser enobrecido pela adesão de seu possuidor aos valores mais altos da cultura. Assim, não é por acaso que vimos dois grandes empresários judeus - José Mindlin e Max Feffer - sucederem-se na pasta de secretário da cultura do governador paulista Paulo Egydio Martins na década de 1970, cargo em geral considerado "decorativo" pelos políticos nacionais, mas altamente emblemático para os judeus. (19)Essa tendência atinge o paroxismo quando os judeus modernos enfrentam situações de forte preconceito anti-semita. São emblemáticas nessa rubrica as situações enfrentadas pelos judeus na Áustria e na Alemanha do entreguerras, onde podemos explicar a adesão total dos intelectuais judeus aos valores específicos do campo intelectual e a adesão total dos políticos judeus aos valores do campo político por essa tendência. (20)A comparação esboçada com os políticos de origem armênia, que pode também ser estendida aos descendentes de sírio-libaneses, as etnias mais próximas dos judeus em termos de inserção sócio-econômica típica, oferece-nos uma boa medida brasileira para esse fenômeno, que acredito ter alcance bastante amplo.

No campo político, o recurso ao repertório anti-semita parece uma arma recorrente dos adversários de qualquer candidato judeu. Nossos entrevistados "de esquerda" falam desse temade maneira quase automática, como se a denúncia do antisemitismo fosse parcela integrante da denúncia das mazelas do capitalismo em geral, o que não é surpresa. Mais interessante é notar que também os "direitistas" apontam o anti-semitismo como um recurso comum de seus concorrentes goyim (gentios, ou não judeus), os quais, em geral, situam-se à esquerda do espectro político. Assim, um político atualmente filiado ao Partido Trabalhista Brasileiro, situado à direita do espectro político regional com base eleitoral no ABC paulista (cidades de Santo André, São Bernardo e São Caetano, subúrbios de São Paulo), principal zona de influência do Partido dos Trabalhadores, que, por sua vez, situase na extrema esquerda do espaço, informa-nos que seus adversários regionais referem-se a ele nas campanhas como "judeu capitalista", mobilizando dessa forma uma mescla de sentimentos anti-capitalistas e anti-semitas.

Diante do resíduo aparentemente inexplicável, reaparecem as análises substancialistas. Considerando-se as impugnações impostas aos trabalhos de Fuchs (op. cit.), parece-me que as fontes do esquerdismo devem ser buscadas não diretamente na Zedakah (a virtude da caridade, na tradição instaurada pelo Talmud), mas alhures. Além disso, pudemos notar que os políticos mais identificados com os segmentos religiosos da comunidade - fundamentalmente os que fazem propaganda e recrutam cabos eleitorais e recursos nas sinagogas e entidades anexas - tendem a abraçar Partidos e causas situados à direita do espectro político. Mais que isso, ao acompanhar a descrição da trajetória política de um de nossos entrevistados, pude constatar sua inflexão à direita caminhando pari passu a um processo que ele descreveu como sendo uma: "maravilhosa iluminação mística", propiciada pelo contato com um grupo hassídico,(21) o que parece corroborar as teses dos autores que contestam Fuchs.

As organizações juvenis judaicas do Bom Retiro, tanto as sionistas quanto as não sionistas, por onde passaram praticamente todos os nossos entrevistados e que foram pontos fundamentais em sua socialização, estavam influenciadas diretamente por algum tipo de socialismo, seja sionista, seja marxista. Mesmo as organizações mais moderadas reclamavam abraçar os ideais da Internacional Socialista. (22)Assim, eles estavam colocados diante de um tipo de aprendizado político onde o repertório de temas e métodos de análise era circunscrito aos tipificados à esquerda. Diante da situação mais geral dos judeus atingidos pelo nazismo e outras formas de anti-semitismo, essas organizações, representando talvez a única forma de reação terrestre sistemática aos perigos que rondavam e atingiam os judeus, gozavam de uma legitimidade muito forte na comunidade. É assim que, mesmo num universo imigrante, onde a regra mais geral era a "racionalidade adaptativa" (Fernandes, 1975; pg.135), o comportamento pessoal estritamente dirigido à conquista de posições melhores na estrutura econômica do país, a possibilidade de encontrar ânimo e justificativas para sair do particularismo e dedicar-se ao simples enriquecimento individual estava associada à grandeza das causas socialistas. As marcas deixadas por essa socialização esquerdista são indeléveis para nossos depoentes. Mesmo os que hoje se situam à direita do espectro político, explicitamente na mouvance do malufismo, não deixam de expressar sua adesão juvenil com orgulho, dizendo-se "ainda socialistas, embora não radicais".

O início da era moderna

Enquanto nossos entrevistados começavam suas carreiras no âmbito do Bom Retiro, o grande empresário Horácio Lafer (1900-1965) postulava candidaturas pelo PSD com bastante sucesso. (23)Era sobrinho de Maurício Klabin e dirigente do grande grupo empresarial fundado por aquele imigrante.(24) Na época que estamos abordando ele já era um político veterano, tendo sido designado representante classista dos empresários na Assembléia Nacional Constituinte de 1933 e eleito deputado federal pelo Partido Constitucionalista em 1934, além de Ministro da Fazenda de Getúlio Vargas entre 1950 e 1953. Mas o caminho político de Lafer tinha sido construído a partir de sua inserção econômica e transcendia de muito a comunidade judaica, já que ele era considerado um dos mais próximos colaboradores de Getúlio Vargas em São Paulo.(25) Aparentemente ele, bem como Cunha Bueno(26) capturavam grande parte dos votos judeus na década de 1940 e início dos 50 (poucos, já que a maioria da colônia não era nascida no Brasil e apenas começava a naturalização maciça).

Embora a família Cunha Bueno mantenhase na disputa do voto judaico e candidatos considerados esquerdistas na colônia, filiados ao PMDB, PSDB, PDT ou PT, continuem a tentar arrebatar parcela dos votos judeus, surge um novo padrão a partir da postulação de Jacob Salvador Zveibel (1921-1986) em 1955. O aparecimento desse político assinala uma nova fase bem característica, que irá perpetuar-se até a atualidade. Este antigo professsor do Colégio Comercial 30 de Outubro, localizado na zona leste da cidade de São Paulo, herda a clientela política do dono do estabelecimento, o deputado Odelvir Alegretti e, com esse capital, lança-se na política partidária pelo Partido Republicano, primeiro como vereador e em seguida como deputado. Segundo seus opositores no espectro político da época, a clientela inicial de Zveibel era mantida pela concessão de bolsas de estudo no colégio, que por sua vez eram conseguidas no Ministério da Educação num esquema de favorecimento. Seja como for, ele é eleito vereador em 1955 e deputado estadual em 1956, quando, ungido pelo público externo, passa a ter o apoio ostensivo de setores expressivos da colônia e, com esse suporte, passa a disputar as eleições seguintes (ver Tabela l). Esse padrão primeira eleição ancorada no eleitorado exterior à colônia; aproximação & reconhecimento da côlonia & apoio = votos e principalmente patrocínio econômico a partir da segunda postulação, irá repetir-se, principalmente para os candidatos considerados de direita e centro, mas também, com menor intensidade, na chamada faixa esquerda da colônia.(27)As tensões em torno desse padrão parecem-nos fundamentais para explicar a relação entre a colônia e seus políticos/representantes. Para explorá-la, é interessante registrarmos que, desde o início do período que estudamos, vários membros dos órgãos comunitários judaicos tentaram aceder a cargos eletivos, principalmente a partir dos votos amealhados tio exíguo corpo eleitoral da colônia, esperando um controle do comportamento de seus correligionários que, em verdade, não pode ser encontrado neta nos mais remotos grotões do país. Os entrevistados registram sistematicamente nessa rubrica as diversas postulações de Moyses Kauffmann à Assembléia Legislativa na década de 1950 e da candidatura de Jacob Timoner à Câmara de Vereadores na década de 1970.

Zveibel & Dejtiar

Podemos acompanhar o posicionamento dos políticos judeus na arena eleitoral paulista através do exemplo dos desempenhos dos dois principais candidatos a deputado estadual da colônia no início dos anos 1960: o nosso já conhecido Zveibel e Helio Dejtiar, um guarda-livros e posteriormente advogado com banca no Bom Retiro. Nas eleições de 1962 e 1966 esses dois políticos judeus eram os principais postulantes aos votos da comunidade para a Assembléia Legislativa. O confronto entre os dois é fortemente representativo das disputas eleitorais travadas no interior da coletividade (ver Tabela 2).

A análise de suas performances eleitorais nos dois pleitos permite-nos fazer uma série de inferências. A primeira e mais óbvia delas é que ambos são candidatos quase exclusivamente paulistanos, com 90% de seus votos amealhados na capital, muito embora, como suas cifras estão muito perto dos pontos de corte (o mínimo de votos necessários para a eleição), os 10% conseguidos no interior, na verdade em São Bernardo do Campo e Santo André e São Caetano do Sul, cidades situadas na Grande São Paulo, são essenciais para a viabilidade eleitoral. Depois, eles disputam os mesmos distritos eleitorais onde se concentra a maioria da população judaica recenseada, as regiões centrais da cidade - Bom Retiro, Jardim América, Campos Elísios, Santa Efigênia, Higienópolis, Santa Cecília, Vila Buarque, Ibirapuera, Indianópolis, Bela Vista, Cerqueira César, Vila Madalena, Perdizes, Jardim Paulista, Santo Amaro, Ipiranga, Sé, Lapa, Cambuci, Moóca; mas têm distintas zonas de influência na periferia. Se observarmos isoladamente a evolução de Zveibel entre 1962 e 1966 podemos notar a manutenção da sua magnitude eleitoral nos bairros de concentração judaica, com a conseqüente não-conquista relativa dos votos novos, o que denota um forte componente geracional para os eleitores do candidato. Seu concorrente não pode ser avaliado na mesma rubrica, pois postula sua candidatura em 62 pelo inexpressivo Partido Rural Trabalhista (PRT), um dos chamados "Partidos de aluguel", saindo em 1966 pelo MDB, uma sigla muito mais forte, enquanto Zveibel sai pela ARENA. Se observarmos a Tabela 2, com a ponderação entre os votos somados de Zveibel e Dejtiar e a evolução dos contingentes eleitorais dos distritos, podemos notar uma razão em torno de 1, denotando uma forte constância, o que nos induz a pensar que os judeus novos possuidores de títulos eleitorais mantinham o "voto endogâmico". Como Dejtiar postulou sua candidatura pelo MDB, é razoável supor que a parcela mais jovem do novo contingente preferisse o "judeu da oposição".

Temas e causas dos políticos judeus

Perguntamos aos políticos entrevistados(28) quais os temas e causas judaicas patrocinados por eles no âmbito do poder legislativo. Os entrevistados relataram quase exclusivamente atos de homenagem por ocasião das efemérides judaicas, 
concessões de títulos honoríficos a personalidades judaicas nacionais ou estrangeiras ou pequenas intervenções junto a autoridades governamentais de diversos níveis, objetivando estender linhas de ônibus para mais perto de um clube ou do cemitério judaico ou a efetivação de um retorno na rodovia Raposo Tavares mais próximo ao cemitério Israelita. Um outro ponto ressaltado é o acompanhamento das principais autoridades executivas do estado ou do país às principais sinagogas por ocasião das grandes festas judaicas. Essa tarefa é considerada fundamental pelos informantes "de direita", que nos dizem que essas atividades ficam muito bem marcadas pelos freqüentadores das sinagogas e seus parentes e conhecidos, já que "quem freqüenta a sinagoga é mais o pessoal mais velho, que ainda é imigrante, que contrasta esse respeito das autoridades brasileiras com as perseguições que sofriam na Europa Oriental ou no Líbano e Egito. "

Os entrevistados contam com detalhes as diversas formas de cortejo que se formam nas várias sinagogas, cujos ritos e costumes costumam variar com a nacionalidade de origem das congregações. Pela ênfase colocada na questão, não resta dúvida de que "acompanhar o governador", ou o prefeito, ou algum outro grande político, é uma manifestação inequívoca de prestígio do político judeu. Essa atividade parece realmente essencial. Quando perguntamos a um líder comunitário sobre as razões do fracasso eleitoral de Alberto Goldmann em 1986, ele nos disse, sem um segundo de reflexão: (29)"Ele não compareceu às festas do clube, nem mesmo mandou representante. E ainda saiu pelo PCB. O que ele queria? que a gente fizesse campanha para ele?

Posteriormente, nossos entrevistados relataram episódios nos quais agiram enquanto personalidades destacadas, intercedendo em favor de grupos de judeus ou da coletividade em geral, junto a diversos níveis de autoridades do poder executivo. Em geral esse gênero de atividade consiste em "desamarrar" processos que dependam de autorização governamental de algum nível. Por exemplo, um dos entrevistados relatounos a forma como conseguiu convencer as autoridades municipais da época a permitir o "habitese" do hotel Eldorado da avenida São Luiz, no centro de São Paulo, de propriedade de um famoso construtor da colônia, já que a construção havia ultrapassado a altura permitida na região. Segundo o depoente: "Eu nem conhecia ele direito, mas ele me pediu e eu fui lá. Foi difícil, mas no final consegui." .

Candidatos legítimos e candidatos ilegítimos

Podemos tipificar duas espécies de políticos, de acordo com sua relação com a colônia: os legítimos seguem mais ou menos a "via real" da política paulista, com carreiras começando na política estudantil, em geral na faculdade de Direito do largo de São Francisco (por exemplo: M. Kertzmann, mais recentemente, F. Feldmann), alavancando sua carreira eleitoral a partir de sua inserção profissional como interface entre os comerciantes judeus e as várias instâncias do aparelho de Estado (advogados, corretores de seguro, professores com acesso aos órgãos fiscalizadores da educação).

Os políticos que chamamos ilegítimos, entre os quais também se incluem os esquerdistas, têm uma origem mais ou menos "espúria", como o exsocialista e ex-comerciante David Roysen. Nossos informantes relatam a postulação de vários empresários a cargos eletivos que fracassavam "porque não tinham nível nem prestígio". A carreira de certo político que foi três vêzes vereador na Câmara de Vereadores de São Paulo (CV) (1968 a 1980) é bastante representativa do padrão: ele nasce e é criado no bairro do Tucuruvi, na periferia da cidade, com pequena população judia e farta agenda de problemas de infra-estrutura. Seu pai é um Klintertchke (vendedor prestamista) clássico, que acaba estabelecendo-se com uma pequena loja de móveis. Ele ajuda o pai e estuda nos interstícios. Começa a freqüentar o Bom Retiro, onde adere ao D'ror (movimento sionista juvenil de corte trabalhista). Passa também a freqüentar reuniões do Partido Socialista Brasileiro (PSB), onde é "adotado" por figuras como Freitas Nobre (que é citado também por Marcos Kertzmann como um "amigo dos judeus" na faculdade de Direito) e tenta fazer uma ponte (fracassada) entre o socialismo sionista do D'ror e o "socialismo utópico" do PSB. Sua formação intelectual autodidata prossegue, freqüentando uma série de cursos livres.(30) Paralelamente, começa a capitanear reivindicações das periferias da zona norte da cidade de São Paulo, região que "conhece corno a palma da mão", como morador e como entregador e cobrador de seu pai. Em 1955, tenta a CV pelo PSB, com votação muito pequena (634 votos).(31)Sobre essa experiência, conta-nos o depoente: "O PSB era um Partido utópico, de intelectuais e pessoas bera intencionadas, mas ruim de voto". Depois da derrota, concentra-se nas atividade familiares - casamento com uma judia de família aparentemente mais rica que a sua, o que obrigou nosso personagem a dedicar-se arduarnente aos Negócios da família, para "poder dar um padrão de vida para minha esposa igual ao que ela tinha em casa.. ". Além disso, cursou madureza e posteriormente, após uma tentativa fracassada de vestibular na São Francisco, cursa Direito ria Universidade Mackenzie. Dez anos depois do seu primeiro fracasso, o embrião adormecido da política desperta em Roysen, que candidata-se à CV pelo MDB do seu bairro. Tem votação expressiva na região e, nas outras eleições, vai conquistando progressivamente votos nas regiões da cidade de São Paulo mais habitadas pelos judeus, aproximando-se cada vez mais de Paulo Maluf e da Seita Judaica Lubavitch, de origem hassídica. No seu relato, fala-nos das diversas intervenções corajosas que realizou em prol da colônia, destacando-se um episódio, no início dos anos 70, auge da ditadura militar, quando "um desfile no Bom Retiro em comemoração do cinqüentenário do Colégio Renascença esteve para ser impedido por um coronel do III Exército [não revela o nome] antisemiita, que exigiu do escritório paulista do MEC que mandasse suspender o evento, já que os judeuzinhos não podiam desfilar os seus narizes aduncos pelas ruas de São Paulo impunemente". Os dirigentes da Escola tentaram a intervenção de diversos membros proeminentes da colônia para desobstruir esse impedimento, mas "ninguém teve coragem de ir na boca do lobo falar com os generais. No desespero, chamaram o Davizinho. Eu, que nunca tive medo, fuidireto ao quartel da rua Tutóia onde o pessoal era torturado e disse que não saía enquanto um general não me atendesse. Falei com o comandante, que ligou na hora para o MEC dizendo que era para autorizar o desfile e me agradeceu por eu ter denunciado essa conduta anti-brasileira de um oficial do Exército." [...] "fiquei eufórico, fui direto falar com o diretor do Renascença, que só faltou beijar o meu pé." Depois, quando teve a eleição e fui pedir para fazer propaganda para os pais de aluno, ele não deixou. Depois, tive um problema financeiro e pedi bolsa de estudo para minhas filhas, ele negou, dizendo que se eu era político, tinha dinheiro de sobra ". Aparentemente, esse ato repercutiu na colônia e nosso vereador passa a conquistar uma expressiva votação nos bairros que assinalamos corno judaicos. Concorre em 1972, tendo como oponente judeu J. Timoner (Arena, apoiado fortemente pela Federação Israelita, como vimos), conseguindo 23196 votos (último candidato do MDB eleito), contra 13844 de seu oponente, quando os candidatos a vereador pela Arena necessitavam de pelo menos 31301 votos. Sua outra grande intervenção em prol da comunidade deuse mais próximo da eleição de 1976, quando capitaneia um grupo expressivo de judeus com experiência militar, que impedem a realização de um ato.público no Diretório Distrital do MDB de Pinheiros, onde falaria um representante da Organização pela Libertação da Palestina (OLP). Além das intervenções corajosas, nosso constituinte relatou um momento interessante de sua carreira, que mostra de maneira expressiva seu caráter de representante "ilegítimo": nas décadas de 20 e 30 existia uma zona de prostituição no Bom Retiro onde operavam as famosas "polacas" e respectivos cafetões. Na verdade erarn todos judeus, alguns de origem polonesa, mas outros não. (32)Os membros desse microssistema social eram impedidos sistematicamente de freqüentar quaisquer órgãos da comunidade, não tendo sequer o direito de serem enterrados no cemitério judeu. Diante disso, constituem uma sociedade que monta um pequeno cemitério conforme aos preceitos judaicos na zona leste de São Paulo. Corra o fim da zona de prostituição, o cemitério é progressivamente desativado, ficando sem curador. Nos anos 70, o terreno onde está localizado é desapropriado, havendo portanto necessidade de exumação dos corpos. Evidentemente, nenhum organismo judaico quer mostrar qualquer espécie de parentesco em relação aos mortos ali enterrados. Segundo nosso entrevistado, diante da recusa de todos, toma a causa a si e negocia o "re-enterro" dos corpos num pedaço afastado do cemitério do Butantã. Contando com mais essa realização em seu portfólio, concorre às eleições de 1976, quando obtém 38331 votos pelo MDB, sendo seu principal oponente judaico D. Gorodeski, da Arena, que amealha apenas 14175 votos. Além disso, no decorrer de seu depoimento, ele relata várias melhorias urbanas conseguidas nos bairros da Zona Norte da Capital, onde atuava sistematicamente.

Em contraste absoluto com Roysen, M. Kertzmann relata sua participação, em 1967, em uma manobra parlamentar dos deputados e senadores judeus que desejavam impedir um discurso do embaixador da então República Árabe Unida (Egito + Siria), no momento imediatamente posterior à Guerra dos Seis Dias. Outro feito narrado por nosso deputado foi interceder junto ao então governador do estado de São Paulo, Abreu Sodré, através de seu secretário, Oscar Klabin Segall, para efetivar a prisão do carrasco nazista Stangl, estabelecido na represa de Guarapiranga e alugando um hidroavião para passeios panorâmicos. Segundo nosso informante, sua pronta ação, aliada ao interesse e disponibilidade do governador, foram os responsáveis pela realização da prisão, já que "se vazasse a informação de que havíamos descoberto Stangl, ele fugiria ou alguém iria impedir a prisão".(33) Mas esse informante relata-nos que sua experiência mais importante como deputado foi sua participação numa Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou a situação dos índios brasileiros na década de 1960. Foram contadas muitas atrocidades por ele denunciadas, peripécias associadas às dificuldades e perigos dos transportes da época para as regiões habitadas por índios, além das tentativas de defesa daquela população.

De um lado, aparece a evidente diferença nos níveis de atuação dos dois políticos, assinalando a categorização que lhes imputamos. Roysen relata episódios em que sua função de intermediário produz-se junto a setores obscuros do aparelho de Estado ou diante das vergonhas de sua comunidade. Kertzmann conta-nos sobre sua participação em manobras realizadas seja no "primeiríssimo plano", como as reuniões da "bancada judaica" no Congresso Nacional e sua intercessão junto a altas autoridades do estado de São Paulo, numa manobra que recebeu muita publicidade, inclusive na imprensa internacional. No relato de suas atividades voltadas para fora da coletividade judaica, aparece também uma forte diferença no grau de generalidade das causas defendidas. Enquanto Roysen fica no nível de seu bairro, Kertzmann fala-nos de questões que envolvem um crime caracterizado como de genocídio, uma causa de toda a humanidade e um ponto de honra para os órgãos representativos dos judeus, que a cada denúncia de caso do gênero mobilizavam-se e tomavam a linha de frente do combate contra, numa reação que obviamente voltava a colocar em primeiro plano o genocídio perpetrado pelos nazistas contra os judeus, com todos os rendimentos simbólicos daí advindos.

Mas também aparece um notável ponto de convergência, talvez mais importante que as diferenças: ambos narram-nos casos onde o anti-semitismo, em algum ponto do aparelho de Estado, é mais que sugerido, mas ambos negam - como os outros entrevistados - que exista anti-semitismo no Brasil ou que esse sentimento tivesse de alguma forma influído em suas carreiras. A ambivalência diante do preconceito é uma questão complexa. A idéia de que o Brasil é um país aberto, que permite a igualdade de chances para todos os seus cidadãos, parece pesar nos relatos de nossos entrevistados. A possibilidade mesma do judeu entrar no campo da política surge como um dom, retribuído com o reforçamento da crença na igualdade de chances, ou pelo menos na idéia do país "sem preconceito de raça ou de cor", numa espécie de "efeito-censura" gerado pelo investimento emocional na esfera política (Bourdieu, 1980, pp. 216-7). Dessa forma, os episódios onde o anti-semitismo aparece são considerados resíduos de uma situação anômala que tende a desaparecer com o tempo, ou, ainda, simplesmente como um acidente.

Sobre o financiamento de suas campanhas políticas, nosso candidato "ilegítimo" refere-se com amargura aos big shots da colônia, os tradicionais financiadores de campanha, como os industriais do ramo de papel e celulose (ver Grün, 1994, op. cit.). Faz uma volta para fornecer um exemplo de como se formam seus grupos de apoiadores:

"Um dia, veio no meu gabinete um grupo de industriais judeus alemães [...] Eles queriam construir um distrito industrial numa cidade da periferia de São Paulo. O prefeito da cidade tinha prometido fazer a terraplanagem de graça. Quando eles foram confirmar o projeto, o prefeito pediu uma propina [...] Você sabe como são os alemães, eles gostam de tudo preto no branco, certinho. Não toparam e vieram falar aqui com o Davizinho. Eu nem conhecia eles, mas fui falar com o tal prefeito e disse que se o empreendimento não saísse por causa da propina, eu ia pôr a boca no mundo, ia fazer o maior escândalo e ele não ia ser mais eleito nem para síndico de prédio. O homem perdeu a coragem e assinou o protocolo, daí o pessoal construiu as fábricas e até hoje quando eu preciso de papel, de camisetas, mesmo de pessoal para distribuir material de campanha, é só avisar que eles providenciam..."

Para nosso político "legítimo", os financiadores judeus parecem nunca ter faltado:

"Quando eu preciso de papel, se o Leon Feffer não pode dar na hora ele arruma com o genro, que também imprime material [...] nunca tive nenhum problema nesse sentido."

Seu depoimento sobre o assunto é muito mais rápido que o de seu colega. Ele parece receber o apoio da colônia devido a sua notoriedade evidente, sem ligação com algum episódio de ajuda localizada, a algum grupo particular. Os recursos para suas campanhas surgem naturalmente - afinal ele é um representante inconteste da colônia. Enquanto isso, seu colega "ilegítimo" tem de produzir sistematicamente eventos que tornem a provar que ele "está lá para defender os judeus..". Podemos, assim, dizer que primeiro político corresponde mais de perto ao figurino através do qual os setores mais abastados da comunidade se auto-representam. Como diria Bourdieu (1980, pp. 220 e ss.), ele já dispõe de uma massa de capital simbólico consolidado, enquanto seu colega/concorrente precisa reproduzir continuamente sua legitimidade.

Também é interessante notar que nosso político "legítimo" percorre uma trajetória onde o posicionamento no subespaço de centro-esquerda é uma constante- início da carreira no Movimento Trabalhista Renovador, próximo ao PTB Varguista, depois no MDB, cassação em 1966 e, depois da anistia, PMDB; no momento da entrevista (1992), PSDB. O político "ilegítimo" começa sua carreira na esquerda, ingressa no PMDB, mas vai progressivamente se aproximando de Paulo Maluf e seus seguidores.(34) Nas eleições para a Câmara Municipal de São Paulo em 1992, postula sua candidatura pelo PDS. Reaparece-nos assim a "incongruência" entre a situação sócio-econômica dos judeus e seu posicionamento na arena política.

Políticos judeus & judeus na corte

Um ponto que nossos entrevistados ressaltam como típico do eleitorado judeu é sua `falta de respeito pelo deputado". Com diversas nuances, os legítimos menos abertamente que os ilegítimos, todos afirmam que seus eleitores (ou pretensos) judeus cobram prestações de contas de suas atividades, em geral de maneira pouco elegante. Não só os dirigentes das entidades comunitárias, mas "quase todo mundo encontra a gente na rua e vai logo dizendo `votei em você, tô de olho, não vai fazer besteira que a gente depois te ferra'". A relação estabelecida com a parcela do eleitorado judeu contrasta com os eleitores de outros espaços: "o pessoal do Tucuruvii [podia ser Cidade Ademar ou Cangaíba, dependendo do candidato - RG] é mais respeitador, pede licença para falar comigo, não levanta a voz, não dá de metido... ". Encontramos afirmações desse tipo em todo o nosso espectro, denotando um certo incômodo por parte dos políticos em relação a esse comportamento, que parece configurar uma impugnação à grandeza que pretendem para si. Como veremos em seguida na sua dimensão estrutural, esse sentimento não aparece por acaso. A interação representante-representado, o tipo de delegação oferecido pelo eleitorado judaico, são realmente distintos da experiência típica de representação política existente no país. Nesse micro-espaço social, temos uma relação de delegação onde o representado judeu, normalmente um indivíduo de mesmo nível cultural e social que seu representante, julga-se efetivamente no direito de cobrar satisfações de seus deputados.(35) Essa relação de simetria não se coaduna com as experiências mais comuns dos políticos. Estes atuam num tipo de esfera política onde os "representados-padrão" são pessoas de poucos recursos econômicos e sociais, normalmente pedindo, de maneira servil, apenas pequenos favores a seus deputados. Dessa forma, o comportamento destoante dos eleitores judeus é realmente considerado ofensivo.

No íntimo mesmo da relação particular de representação que estamos pesquisando, existe uma divergência de conceitos e interpretação, separando representantes e representados. Para os políticos, o sistema eleitoral vigente, em que o deputado amealha votos de maneira dispersa, dá poucas indicações precisas sobre a fidelidade declarada de seus eleitores.(36) Além disso, o habitus político brasileiro não fornece esquemas de percepção para entender a cobrança sistemática dos representantes pelos representados e mais uma vez, agora fisicamente, a dispersão do corpo eleitoral impede sua consulta sistemática.

Já para os eleitores judeus, qualquer correligionário na esfera pública é um representante da comunidade, seu representante, portanto, além de ter a obrigação evidente de zelar pela imagem de grandeza da colônia perante o resto do país. Os constrangimentos da formação da auto-imagem da colônia canalizam-se diretamente sobre o político, sem dar-lhe chances de esquivar-se, por menos que os judeus possarn ser responsáveis pelo sucesso individual por ele obtido. Nesse sentido, é interessante lembrar o depoimento de um político esquerdista, votado principalmente em bairros periféricos da capital, que diz ser impossível

"sair na rua no Bom Retiro sem escutar gracinhas, besteiras e reclamações sobre a ligação que eles acham que eu tenho com os árabes. E o pior é que você tem de responder com elegância e tratar bem todo mundo, senão eles espalham que você foi grosseiro, ou que admitiu que é pró-árabe, e daí já viu... ".

O sentido sociológico da divergência entre a percepção que os representantes e os representados fazem da situação de representação aparece com nitidez quando articulamos "no laboratório" as várias fases dos depoimentos.(37) Instados a falar sobre a importância de sua atuação na arena política para o bem-estar e prosperidade da colônia judaica, nossos entrevistados respondiam às perguntas com manifestações de incredulidade a respeito da importância de suas possibilidades de interferência em prol da comunidade. Em outros segmentos das entrevistas, eram freqüentes as alusões à estruturação política da comunidade judaica nos Estados Unidos, com seus lobbies agindo a céu aberto e porta-vozes bem caracterizados, em que a principal dimensão do trabalho político de representação seria efetivamente a dimensão explícita de que nossos entrevistados se encarregam no Brasil. Os políticos judeus brasileiros demoravam um bom tempo descrevendo aspectos da atuação de seus congêneres norte-americanos, frisando seu conhecimento detalhado daquela situação e o caráter "superior" da coordenação dos interesses judaicos nos EUA.(38) Dois deles reivindicavam abertamente uma estruturação semelhante para o ishuv brasileiro.

Nos dois segmentos de seus depoimentos, nenhum dos entrevistados fez qualquer esforço para contextualizar as diferenças de organização das comunidades como respostas aos sistemas políticos dos EUA e brasileiro. A maior ou menor efetividade do jogo parlamentar, a diferença nos mecanismos decisórios de alocação de recursos, a proeminência dos mecanismos de palácio e a domesticidade do poder político no Brasil, a questão do "presidencialismo imperial" da tradição política nacional(39), nem mesmo a questão da ditadura militar sob a qual nossos entrevistados fizeram a maior parte de suas carreiras, nada disso foi lembrado quando o tópico foi a comparação entre a colônia no Brasil e nos EUA.(40) A não reivindicação de um sistema político mais aberto e dotado de autonomia, onde seu papel de "representantes do povo" pudesse desenvolver-se mais abertamente, denotam uma certa conformidade dos políticos judeus ao patrimonialismo brasileiro, como se este fosse um dado natural, imutável. Poderíamos também pensar numa adesão primária às formas oficiais de representação da sociedade brasileira, um "efeito de campo" análogo ou mesmo contínuo em relação ao arrazoado que propomos sobre a questão do anti-semitismo.

Na verdade, como chegam a apontar nossos entrevistados, para suas grandes questões os judeus brasileiros têm como negociadores e porta-vozes os grande empresários da colônia. A situação repõe - mutatis mutant'li - o tema dos judeus de corte. Não se trata evidentemente da situação das cortes medievais do Ocidente ou do Oriente Médio. O "modelo" mais próximo para comparação, descrito pela literatura, é o da Prússia da segunda metade do século XIX e da Alemanha unificada de Bismarck (W. Mosse, 1987, cap.2).(41)

Na situação vivida pela Alemanha da segunda metade do século XIX, numa economia em rápido processo de expansão capitalista, os judeus de corte passavam da rubrica de financiadores do kaiser para o papel de capitalistas empreendedores, festejados pela introdução, ali, de uma série de produtos e processos que colocavam a economia daquele país em fase com a Inglaterra e a França. A economia do país progredia intensamente, mas o sistema político continuava guardando peculiaridades autocráticas. A reação aos desenvolvimentos gerados pelo capitalismo em expansão jogava muita água no moinho do anti-semitismo e os grandes empreendedores judeus eram ao mesmo tempo heróis do novo tempo, e portanto retratos vivos das "boas qualidades dos judeus" e alvos preferenciais dos cultuadores do völkich germânico. Apesar de capitalistas modernos, ou melhor, modernizadores, eles intercediam pela comunidade judaica num ambiente político de palácio. A abertura, para os judeus, de uma série de campos de atuação, era assim "concedida" pelo kaiser ou seus ministros a partir de pedidos dos empreendedores, numa atualização do papel do judeu de corte.

Como ressalta Mosse (op. cit), o principal interesse das autoridades imperiais germânicas do período que destacamos, em relação aos judeus, era encontrar empreendedores capazes de mobilizar conexões econômicas e tecnológicas internacionais, objetivando ajudar a prover o país de uma infra-estrutura econômica que assegurasse seus desejos de grandeza política e principalmente militar. Nesse sentido, boa parte dos judeus com destaque no campo econômico constituía-se de fornecedores de artigos militares. Tudo isso se passava num momento em que o capitalismo alemão ainda não dispunha de empresários e quadros preparados para lidar consistentemente com as complexas questões organizacionais e científicas do capitalismo monopolista. Num outro registro, a questão do anti-semitismo e das maneiras de se fazer frente a esse problema era tema absolutamente crucial na situação dos judeus na Alemanha. Essas duas condições não têm paralelo no Brasil, relativizando a comparação. Embora se possa falar numa quantidade expressiva de grandes empresários judeus no Brasil e mesmo da sua expressão em alguns setores importantes para as políticas industriais e tecnológicas de desenvolvimento - merecem destaque o peso dos judeus nos ramos de papel e celulose e de autopeças-os caminhos econômicos e políticos traçados pela sociedade brasileira são completamente diferentes e, principalmente, a questão do anti-semitismo não é um grande tema por aqui.(42)

A pauta dos "interesses judaicos" no Brasil é relativamente pequena, mas a existência de um sistema econômico complexo, articulado a uma esfera política peculiar a nossa herança colonial lusitana, onde o patritnonialismo se refaz a todo instante e onde a própria modernidade se produz como um enxerto aplicado sobre a velha ordem, geram situações que alguns analistas intitulam capitalismo "tardio", ou "via prussiana". (43) Aqui, os contenciosos relevantes costumam ser decididos em palácio e a res publica tem dificuldade de se estabelecer - o que não significa que não seja um ideal. Não é, assim, por acaso que a representação explícita dos judeus tem de ser realizada em seu espaço legítimo, por menor que seja a sua eficiência e por mais ressentidos que sejam seus titulares.

As questões importantes são administradas pela representação implícita feita pelos grandes empresários. Nos momentos e situações-chaves, são eles que aparecem - ainda que - e sobretudo, discretamente. Para saber mais sobre eles, um editorial de O Estalo de S. Paulo de 09.05.91, dia em que a principal manchete era a queda da Ministra Zélia Cardoso de Mello, conta-nos que:

"...Seria uma audiência rápida, de dez minutos, que Collor concederia aos líderes da comunidade judaica de São Paulo. O encontro, porém, acabou se estendendo por quase uma hora, e foi além da mera troca de gentilezas protocolares. A delegação era constituída de oito pessoas, entre as quais o empresário Leon Feffer, cônsul honorário de Israel em São Paulo e presidente do grupo Suzano (papel e celulose), o banqueiro José Safra, que, além do Banco Safra, controla um dos dez grandes bancos americanos, o Republic, e o presidente do maior clube judaico do Brasil, A Hebraica, o também empresário Jack Terpins (grupo Lojas Marisa/Lojas Brasileiras) [...] Feffer começou a conversa explicando que a comitiva viera oferecer a colaboração da comunidade judaica aos esforços de Collor para `fazer do Brasil um país mais moderno, mais eficiente e mais justo'. E esclareceu: `Não viemos pedir nada, presidente'. Collor agradeceu: "Raramente ouço o que os senhores estão dizendo"...

Uma primeira observação diz respeito à estruturação da representação da colônia: para nossos propósitos, a primeira observação é que não está listado nenhum nome ele político judeu. Em seguida, eis que o empresário que tomou a iniciativa de falar ao presidente foi Leon Feffer, que também é cônsul honorário de Israel em São Paulo. Esse líder comunitário está presente em praticamente todos os grandes empreendimentos dos judeus paulistas desde a década de 1940. Todos os nossos entrevistados referem-se a ele como o grande fornecedor de papel e financiador de campanhas de políticos judeus. Alguns falam dele com reverência, principalmente os que denominamos "legítimos", outros com distância, são os auto-denominados "de esquerda"; um deles, menos caracterizado, fala com rancor do "rico empresário que ajuda muito alguns políticos e muito pouco a outros". Na conversa com o Presidente, este "elogiou o empresário Leon Feffer, cujo grupo está aplicando US$ 1 bilhão na ampliação de atividades". José Safra é considerado o principal líder do segmento sefaradí (os judeus de origem oriental) da comunidade: a maior parte dos empreendimentos culturais da comunidade contam com seu patrocínio. Collor também frisa a importância do banqueiro, que faz parte de uma família de financistas com importantes ramificações nos EUA, tocando na questão da negociação da dívida externa. Jack Terpins é sócio de Bernardo Goldfarb, figura de proa nas articulações do Esporte Clube Corinthians Paulista, o time de futebol considerado mais popular no estado.

Segundo ventilou-se posteriormente, os dois principais objetivos dos big-shots da colônia eram opinar sobre um nome para o ministério da Fazenda (44)e tentar influenciar na reconsideração do famigerado - para os judeus brasileiros – voto brasileiro na ONU, na resolução que considera o sionismo um racismo. Como na época corriam boatos insistentes sobre convites feitos a empresários judeus para assumir a pasta, todos recusados, a primeira questão parece ter sido tratada como um "problema de Estado-Maior" na colônia, que assim envia seus representantes mais expressivos para a corte na tentativa de manter intato o seu bom nome. Já a segunda é a principal "dívida" dos judeus brasileiros com relação à diáspora e ao Estado de Israel: uma colônia que se preze, atuando num país aberto, não poderia deixar de influenciar seu governo no sentido de reverter aquela posição que colocou o Estado de Israel na berlinda. É claro que não podemos atribuir a mudança da posição brasileira a respeito do caráter do sionismo a uma simples manobra de relações públicas da comunidade judaica, principalmente num momento de realinhamentos geopolíticos no mundo inteiro. Mas é inegável que o tema mobilizou profundamente a coletividade judaica, que fez tudo o que estava a seu alcance para alterar a situação. O "Eu raramente ouço o que os senhores estão dizendo" atribuído ao presidente da República é uma manifestação clara do sucesso da ação visando criar uma atmosfera de boa vontade entre a principal autoridade do país e a comunidade judaica - e suas reivindicações.

Dados os constrangimentos do processo de formação de identidades judaicas no Brasil, que exploramos no decorrer do texto, o tema "judeus de corte" é um ponto de muita sensibilidade para a colônia. Em 1984, uma pequena polêmica causada pela indicação de um secretário da cultura do município de São Paulo pelo então prefeito de São Paulo, Jânio Quadros, fornecenos material para explorar o tema (Encontro, junho/julho 1986, pp. 4-8). Zveibel teria sido convidado para o cargo, mas faleceu antes de sua possível posse. Em seguida, Hélio Dejtiar foi indicado por Jânio para ocupar a pasta enquanto "líder comunitário judaico". Uma vez que, principalmente depois de uma entrevista desastrada à imprensa, sua nomeação foi impedida por uma barragem de protestos, Jânio convida o presidente da Federação Israelita de São Paulo (José Knoplich) para indicar algum nome da comunidade, que se "auto-convida". O editor de uma revista de esquerda da colônia (Roney Cytrynowicz) protesta, entre outras razões porque a idéia de um indivíduo instalado como "representante da colônia judaica" no secretariado municipal ressuscitaria a idéia do judeu de corte que compra os favores dos governantes oferecendo em troca seu dinheiro e eficiência financeira, num esquema rastejante. Em suas palavras:

"[...] É a figura do "judeu de corte", que traduz a insegurança de parte dos judeus ao ter de enfrentar o público, a democracia aberta. Melhor fazer acertos entre amigos, manter sempre a política na esfera do privado (dentro de casa, às escondidas, onde a hierarquia e as relações são conhecidas.. Os judeus de corte garantem essas ligações, os acertos com o poder, sem qualquer escrúpulo político.." Eis a conclusão da resposta do Presidente, após um longo arrazoado: "

[...] gostaria de rearmar que os judeus, para preservar seu direito de serem minoria, devem lutar por isso, estando no poder e não nos bastidores. Como minoria, dificilmente chegam lá, por isso deve-se, nesse jogo político, aproveitar toda e qualquer ocasião, por mais cínica (ou política?) que seja essa afirmação. Agora que estamos em Purim, (45) basta lembrar que a Rainha Ester livrou os judeus de um massacre porque estava junto ao poder. Isso prova que um judeu na corte não traduz insegurança, como afirma Roney (o primeiro articulista), mas, ao contrário, possibilidade de influir nas deliberações".

Além da diferença de peso institucional dos debatedores, que pode explicar por que Knoplich é bem menos direto e mais prudente que Cytrynowicz, além da aparente a-historicidade de seu argumento, é difícil pensar uma articulação totalmente aberta dos interesses da comunidade numa sociedade na qual o palácio nunca deixou de ter grande poder de decisão, se não real, pelo menos na aparência. Por outro lado, a impugnação de Cytrynowicz não cai no vazio, merecendo uma resposta retorcida e claudicante, mostrando assim os limites da adaptação dos judeus às conveniências mais práticas do jogo político brasileiro. E, por que não, um sinal de que os pressupostos da convivência democrática passam a ter algum peso nas consciências, circunscrevendo o repertório retórico dos debatedores.

Conclusão

O caminho da política é uma via de ascensão limitada para os membros de uma etnia pouco expressiva numericamente, a não ser que o agente transcenda os limites de seus correligionários. Nenhum dos. políticos judeus listados tentou a eleição para um cargo majoritário, onde poderíamos sentir o peso eventual de uma impugnação anti-semita.(45) Ao contrário, na análise explodida do desempenho dos candidatos judeus de que dispomos, verificamos que, conforme o candidato se firma no campo, sua votação tende a concentrar-se cada vez mais nos distritos de concentração judaica. O caso de Zveibel nos anos 1960 é bem representativo dessa tendência; I. Zekcer, o único deputado estadual judeu na legislatura 1990-1993, atualiza a tendência para as décadas de 1980/90. Ele começa a sua carreira principalmente com os votos amealhados em Santo André e seu mix vai se alterando no decorrer das sucessivas eleições, aumentando significativamente o peso dos votos obtidos nos bairros de concentração judaica da capital.

A candidatura de Fabio Feldmann à prefeitura da cidade de São Paulo pelo PSDB em 1992, um cargo majoritário, poderia servir para examinarmos a possibilidade de reversão dessa tendência. Entretanto, sua postulação não teve sucesso suficiente para torná-lo alvo prioritário de seus adversários e, portanto, denegri-lo não foi uma questão relevante para seus concorrentes. De qualquer forma, sua condição de ecologista, tema considerado positivo universalmente, transforma-se num forte escudo contra eventuais pregações anti-semitas. Podemos enxergar o empenho de Kertzmann na causa dos índios, nos anos 1960, como um prenúncio dessa tendência, embora na época o tema não tivesse, evidentemente, o destaque de que goza vinte anos depois. Além disso, sua cassação em 1967 interrompeu a evolução no sentido das causas universais, que poderiam ser refinadas numa trajetória normal. Por sua vez, os esquerdistas reivindicaram, em vários momentos de seus depoimentos, a universalidade de suas causas. Mas essa pretensão parece soar abstrata ou falsa pelos eleitores que deveriam sancioná-la. Em relação ao estado de São Paulo, não podemos avançar mais nas especulações, mas certamente a compreensão dos limites impostos à carreira de políticos israelitas no Brasil ficaria bem mais nítida com estudos comparativos que enfocassem a trajetória do paranaense Jaime Lerner e do carioca Arão Steinbruk.(46)

Ao comparar a atuação dos judeus na política com seus êmulos armênios ou com o caso expressivo de Paulo Maluf, aventei a possibilidade de que o comportamento observado por aqueles políticos das demais "etnias comerciantes" dificilmente poderia ser seguido pelos judeus. Ainda que estes por ventura abracem as causas e a visão de mundo de seus congêneres, a pressão da comunidade judaica no sentido de evitar a reiteração dos preconceitos anti-semitas tem sido decisiva para corrigir a rota dos malufistas ou janistas mais efusivos, conforme podemos ver nas polêmicas que explodem periodicamente nos órgãos da imprensa comunitária. Essa peculiaridade mostra o papel de uma intelligentsia judaica, portadora de valores universalistas, que fala com voz forte dentro da colônia e é ouvida. Julgo que estamos diante de uma particularidade regional de uma situação quase universal na diáspora judaica. A comparação da inserção dos judeus na política brasileira com aquela alcançada pelos armênios e sírio-libaneses, que costumam ocupar posições análogas na estrutura sócio-econômica, mostra contrastivamente o complexo processo de formação da identidade judaica. A nação universalmente estigmatizada pela cupidez não pode permitirse apoiar com todas as letras a colonização da cidade cívica pela cidade mercantil, ainda que esse desejo brote naturalmente no espírito de parte dos que empresariam a vida comunitária, criando uma tensão que parece eternizar-se. Mutatis mutandi, essa dinâmica poderia explicar o comportamento político-eleitoral "anômalo" dos-judeus nos países ocidentais de um modo geral. É interessante reforçar o registro de que o despertar das vocações políticas observadas em São Paulo, mesmo as que o tempo e os ventos da conveniência levaram para a direita, sempre surgiram da esquerda do espectro político.

Fechadas as janelas do universal e das tendências que ainda apenas se esboçam, os políticos judeus batem no muro do sistema político que mantém o poder decisório firmemente enfeixado nas autoridades do poder executivo. As esferas de atuação abertas àqueles que só dispõem de capital político são muito limitadas. Em contraste com os grandes empresários, o papel dos políticos judeus enquanto porta-vozes dacolônia se apequena, reinstituindo-se em bases modernas o papel dos judeus de corte. Más as mesmas forças centrífugas que impedem a aparição de um "Maluf judeu" ou o apoio declarado da comunidade judaica ao político de origem libanesa que iniciou sua carreira como representante dos comerciantes, criam obstáculos à plena vigência do princípio da intermediação dos interesses judaicos pela via indireta. Essa dinâmica não é só interna à comunidade, mas decorre das próprias vicissitudes e das dificuldades de implantação dos princípios da convivência democrática no Brasil. De um lado temos praticamente todos os atributos da democracia formal juridicamente em vigor no país (com a importante exceção da representação proporcional na Câmara dos Deputados, que atinge também os judeus, já que estes estão concentrados nos Estados mais populosos da federação, portanto sub-representados). Do outro, temos a realidade do poder concentrado, influenciável muito mais via palácio que via Parlamento. É nessa arena que os judeus jogam o jogo da representação, que deve sêr jogado nas duas frentes. Por menor que seja a influência da ação parlamentar, ela é um espaço aberto onde alguns vão buscar a glória. O eleitorado composto pelos correligionários é uma fonte evidente de votos e apoio para esses políticos. Ainda que ele não surja espontaneamente nas primeiras postulações, aparece conforme se delineia o sucesso do político. Mas o apoio dos correligionários também custa obrigações. Muito; mais que os rituais de enaltecimento das grandes datas e figuras judaicas, trata-se de mostrar para o público externo a cara da comunidade. E é justamente esta que é cobrada.

NOTAS

*. Agradeço as críticas e sugestões dos colegas do grupo de imigração do Idesp, de Fernando Antonio de Azevedo, Jeff Lesser, Mônica Grin, Manoel Correia de Andrade e Giralda Seyferth. Todos partilham dos méritos do trabalho, mas não de suas falhas.

1. A escolha de parceiros para os "casamentos preferenciais" das filhas dos grandes comerciantes judeus da Europa Oriental no período anterior à emancipação napoleônica ilustram bem o padrão de excelência vigente na etnia. A literatura judaica registra a procura sistemática de rabinos ou futuros rabinos promissores para a realização das uniões. A atualização pósemancipação faz-se com a procura de intelectuais leigos. O relato da forma como se casaram Mina e Jenny , as filhas de Maurício Klabin, o judeu brasileiro mais rico do início do século XX, respectivamente com o arquiteto Gregório Warchavchik e com o pintor Lasar Segall, ambos representantes expressivos das vanguardas artísticas da época, é altamente representativa dessa tendência modernizada (relato datilografado de Mina Warshavchik-Arquivo das Indústrias Klabin). Análises mais gerais sobre as estratégias das famílias abastadas do judaísmo ocidental para o casamento de suas filhas encontram-se em Kaplan (1985) e W.Mosse (1987).

2. A pesquisa que originou este artigo, apoiada pelo CNPq através da concessão de bolsa de pesquisa, foi desenvolvida no Idesp em conjunto com trabalhos que focalizaram a atuação política de descendentes de sírios & libaneses e japoneses, a cargo, respectivamente, de Oswaldo Truzzi e Célia Sakurai. Foi fundamentalmente um estudo exploratório, realizado na seqüência de trabalhos do grupo de estudos sobre imigração do Idesp, liderado por Boris Fausto.

3. Sobre a generalidade da questão "free-rider" x "constrangimentos da coletividade", ver o esclarecedor texto de M. Douglas (1986).

4. Para uma análise da produção até 1975, ver Fuehs (1976).

5. Corno mostra Pollak (1987) a propósito do advento da psicanálise no ambiente intelectual majoritariamente judaico da Áustria da virada do século, o caráter de "interface" entre diversas nações e culturas é uma "particularidade generalizante" da posição dos judeus naquele país. Particularidade da posição do judeu, colocado na encruzilhada entre diversas tradições culturais c portanto capaz de realizar generalizações impensáveis a partir da socialização em apenas uma vertente intelectual.

6. Na Inglaterra, a comunidade judaica atinge 600 mil pessoas, concentradas em menos de 5% dos distritos eleitorais, o que confere grande importância prática ao voto judeu. Uma visão geral da experiência política dos judeus britânicos pode ser encontrada em Alderman (1983)

7. Uma vez que a bibliografia está centrada na observação das democracias análo-saxãs, a questão da democracia política é um dado estrutural não sujeito a abalos.

8. Convergindo na linha argumentativa, podemos registrar o estudo de B. Ehrenreich (1990: p. 161), onde a autora mostra como intelectuais universitários judeus classicamente liberais como Irving Kristol e Seymour Lipset, sob o impacto da contestação estudantil do fim dos anos 1960, tornaram-se a linha de frente do neo-conservadorismo que dominou a cena intelectual dos Estados Unidos nos anos 1980.

9. As vissicitudes da política comunitária judaica inglesa fizeram com que os órgãos da colônia negassem quase sempre a existência de um voto típico judeu, estimando que qualquer exibição de particularismo poderia gerar uma contrapartida anti-semita.

10. Este número pode estar superestimado, segundo a visão corrente na comunidade, que prefere a cifra de 150 mil judeus no Brasil, mantendo-se as proporções.

11. A descrição do judeu de corte "clássico" pode ser encontrada em Poliakov (1979). Para uma biografia colorida de um judeu de corte ibérico, ver Dines (1990).

12. Registra-se durante todo o período colonial a existência de judeus de procedência ibérica no Brasil. Mas só se pode falar de vida comunitária organizada no interregno do Brasil Holandês do Nordeste, que se trasladou para Nova Amsterdã após a conquista portuguesa. Depois disso, tivemos na segunda metade do século XIX uma imigração mais organizada de judeus marroquinos, dirigida especificamente para a Amazônia, onde os imigrantes dedicavam-se principalmente ao comércio de drogas e borracha. Registra-se a primeira sinagoga do "Brasil moderno", justamente em Belém do Pará. Também em São Paulo, a primeira Sinagoga registrada, no fim do século XIX, é a chamada Sinagoga Portuguesa, instalada por judeus orientais, descendentes dos expulsos da península Ibérica pela Inquisição. Entretanto, a partir do início do século XX o fluxo imigratório muito mais intenso dos judeus oriundos da Europa Oriental irá moldar as formas de organização comunitárias. A sinagoga é a célula básica de organização da vida comunitária judaica desde pelo menos o início da Era Cristã (Momigliano, 1992: p. 188).

13. O registro civil de nascimentos, casamentos, divórcios ou óbitos, assim como as desavenças e crimes cometidos internamente à comunidade, eram julgados e registrados pelas autoridades rabínicas. Para uma descrição da vida comunitária dos judeus nos países muçulmanos e suas relações com o conjunto daqueles países, ver Lewis (1990).

14. Não era a mesma coisa no Pará e Amazonas, onde a comunidade judaica de origem marroquina estava estabelecida desde o fim do século XIX, numa região em que o sistema político parecia menos fechado. Para ancorar uma generalização sobre a relação dos judeus com a política brasileira, seriam necessários estudos sobre o tema nos diversos estados que receberam quantidades expressivas de judeus - pelo menos Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Pará e Amazonas.

15. Principalmente do grupo "Cultura e Progresso", que depois transformou-se na "Casa do Povo", que ainda subsiste, mantendo um teatro (Teatro Artístico Israelita Brasileiro) e atividades na rua Três Rios, em São Paulo.

16. A situação exemplar descrita pela literatura é a da Alemanha pré-hitleriana, onde, havendo uma imensa quantidade de advogados judeus, numa situação de não permeabilidade das corporações do Estado (alvo prioritário dos bons alunos de Direito "gentílicos") nem dos partidos políticos tradicionais, levou os bacharéis judeus primeiramente a se transformarem nos finais brilhantes advogados privados e, em menor número, aos postos dirigentes cios partidos de esquerda (JARAUSCH, 1991).

17. Estamos falando principalmente de Ubirajara Keutenedjian (ver Griin, 1992, p. 57). Informações complementares que obtivemos junto a antigos parceiros econômicos de Varam Keutencdjian dão conta de uma imensa quantidade de recursos empregada nas sucessivas eleições de seu filho, que seriam responsáveis pela descapitalização de suas empresas (Lanifício Varam, atual Vicunha; Hotel Danúbio; importadora de veículos, etc..). O outro grande político armênio da época, Carlos Kherlakian, que não conseguimos entrevistar, parece ter percorrido um caminho análogo. Em fins da década de 1980, o conflito pelo controle acionário da "Eucatex", empresa controlada pela família do político de orillem libanesa Paulo Maluf, opondo o líder da direita paulista e o resto de sua família, personificada pela mãe, D. Maria e seu irmão Roberto, parece ilustrar o mesmo princípio.

18. Nossa entrada no universo de pesquisa judeu foi diferente da obtida na comunidade armênia, o que pode explicar parte das diferenças. Conhecendo previamente pelo menos parte do relevo estrutural judaico, fui a campo com uma idéia pré-concebida do que iria encontrar. Já entre os armênios, realizei duas bolas de neve a partir da representação oficial da colônia.

19. A nota 1 infra mostra a prevalência anterior dessa tendência a partir do "mercado de casamentos". Veremos adiante o mesmo fenômeno da importância dada pelos judeus à cultura aplicado durante a composição do secretariado do Prefeito Jânio Quadros em 1986.

20 Ver, a respeito, a coletânea Jews, anti-semitism and culture in Vienna" (Oxaal, 1987). No mesmo sentido, pode ser avaliada a reação puramente intelectual dos intelectuais judeus alemães - e dos judeus em geral - face ao recrudescimento do antisemitismo no início do século XX, até a instalação definitiva do nazismo (BACHARACH, 1980).

21. Os hassídicos são seitas judaicas místicas surgidas depois do retumbante fracasso do messias judeu Sabbetai Tzvi no século XVII. Eles tiveram sua principal base na Polônia do século XVIII e posteriormente se institucionalizaram através da instauração de dinastias de rabinos considerados iluminados pelos seus seguidores: os "Tzadikkim". Essas seitas têm a peculiaridade de ter todos os aspectos da vida privada de seus seguidores rigidamente acompanhados pelas autoridades religiosas internas. Ver, a respeito, Scholem, 1972 (pp. 327 e ss.).

22. Em fins da década de 1940 e início da década de 1950, quando a maior parte de nossos entrevistados iniciou sua carreira, a quase totalidade do movimento sionista e da representação política no Estado de Israel abraçava a causa da social-democracia, conformando-se às diferenças de estilo a que esta se permitia na época. As formas organizacionais utilizadas pela esquerda do movimento sionista-inspiradas por sua vez nas existentes no Partido Social Democrata alemão do fim do século passado - mostraram-se eficientíssimos nichos de socialização de jovens nos ideais do movimento e organizadores de lealdades de largo espectro e duração. Por isso eles foram copiados - e contrarrestados - pelas alas mais à direita do sionismo e mesmo pelas comunidades religiosas centradas nas sinagogas, também interessadas em criar uma descendência que mantenha os seus particularismos.

23. Conseguimos os votos desse político por distrito eleitoral apenas para a eleição de 1962, quando ele já estava no ocaso (tabela 2b). Para seu desempenho eleitoral a partir de 1945, ver tabela 1.

24. Sobre a relação das atividades políticas com a vida empresarial de Horácio Lafer, ver Grün (1994).

25. Cabe, entretanto, notar que os dados explodidos que coletamos, referentes ao ocaso de sua carreira, mostrem mix de origem geográfica de votos muito próximo ao do "político judeu por excelência" Jacob Salvador Zveibcl, referido adiante.

26. Cunha Bucno foi presidente do Hospital lsraclita Brasileiro Albert Einstein, uma das obras de benelnerência mais importantes e mais visíveis da colônia no início das atividades daquele órgão. Herdou esse cargo cie Oswaldo Aranha, o embaixador brasileiro na ONU e presidente da sessão plenária que decretou a partilha da Palestina em 1947. O atual deputado Cunha Bucno é filho daquele político e ainda é considerado "bom de voto" na coletividade judaica, comparecendo às sinagogas durante as principais festas judaicas e aos demais órgãos quando da celebração de datas civis, como os aniversários da fundação do Estado de Israel. Os órgãos da coinunidade registram outros políticos não-judeus considerados "amigos dos judeus" por diversos motivos, como é o caso de Arnaldo Madeira, que foi presidente da Câmara de Vereadores da cidade de São Paulo (segundo os entrevistados, nesse caso a afinidade produziu-se pelo casamento do político com uma esposa de origem judia).

27. Nossos entrevistados concordam em grandes números numa divisão do voto judaico na proporção de 70% entre direita e centro e 30% à esquerda. Entretanto, o surgimento de políticos ancorados ein novos temas "transclassistas", como é o caso exemplar do ecologista Fábio Feldmann, parece fazer dissolver a clivagem, já que políticos localizados nos dois extremos do arco de preferência judaico alegam ocorrer uma quantidade expressiva de "dobradinhas espontâneas" entre eles e F. Feldmann.

28. Além de diversos líderes comunitários que não se lançaram diretamente na arena política, entrevistamos diretamente Davi Lerer, Israel Zekcer, Marcos Kertzmann e David Roysen. Jacob Salvador Zveibel, Horácio Lafer, Hélio Dejtiar, Alberto Goldmann, Fábio Feldmann e Walter Feldmann tiveram sua atuação mapcada através da imprensa nacional e comunitária. Para o levantamento da atuação da esquerda judaica, nosso principal informante foi Luiz Izrael Febrot, o qual, embora nunca tenha postulado mandato político, é considerado o principal "operador eleitoral" da esquerda e dirigente da Casa do Povo.

29. O entrevistado respondeu às outras questões com muita cautela, pesando as palavras. A ênfase e a presteza, denotando o absurdo do comportamento do político em relação ao esperado pela colônia, sentimento que ele coloca na resposta que relatamos, falam ainda mais forte que as suas palavras.

30. Os cursos livres, oferecidos por intelectuais (judeus e nãojudeus) situados il margem do sistema de ensino regular, aparecem freqüentemente, e com ênfase, nas trajetórias cios entrevistados judeus, de onde podemos inferir chie foram importantes na formação cios futuros políticos. Além da transmissão de conhecimentos em si (filosofia clássica, latim e outras línguas, teoria da relatividade e mesmo alguns esoterismos como teosofia e ufologia), os depoentes falam das pessoas que conheceram naqueles ambientes e que posteriormente se transformaram em colegas e apoios na política.

31. Nesse pleito, além de Roysen, outros dois judeus postulam candidatura: Zveibel é eleito com 3387 votos e Salomão Becker obteve 1615. Em 1951, concorrem S.Fichmann pelo PR, com 588 votos, Salomão Becker, pelo PTB, com apoio da esquerda, conseguindo 741 votos, e A. Felmanas com 687 votos.

32. A história de como a colônia judaica conseguiu fazer com que a sociedade paulista registrasse aqueles profissionais estiblnatizados como polacos, num momento em que todos os judeus tentavam justamente se desfazer da condição de poloneses, inscrita em muitos passaportes, é um interessante problema sociológico em si.

33. Perguntado sobre quem poderia ser esse "alguém", nosso entrevistado se esquivou. Aliás, a recusa em nomear eventuais inimigos ou adversários parece ser a regra nesse campo.

34. Vários dirigentes da colônia manifestaram seu "inalufismo" em diversos momentos da trajetória e postulações daquele político. Aparecem também muitas manifestações de apoio a Maluf na imprensa judaica "oficial", com a alusão vclada de que aquele político seria o representante por excelência elo pequeno empresário. Mas qualquer avanço na identificação Maluf-judeus recebe uma bateria cerrada de críticas por parte dos intelectuais da comunidade, argumentando sobre o parentesco de todas as direitas com o nazi-fascismo e lembrando a aura de corrupto que aquele descendente de sírios-libaneses carrega. Essa barragem tem o poder de provocar a retração dos malufistas. Um estudo aprofundado da relação da colônia com o malufisino poderia mostrar várias linhas de força sobre questões de legitimidade representativa, respeitabilidade dos intelectuais identificados com a comunidade, figura do "judeu-médio" x do "judeu-ideal", etc. De acordo com a digressão exposta na p. 12 infra, a forma "plebéia" de atuação do líder ela direita política paulista e seu comprometimento imputado com a "cidade rnercantil" parecem obstáculos intransponíveis ()ara uilla maior identificação. Não é por acaso que nosso "candidato plebeu" é o único que se permite uma identificação mais forte com Maluf. Como a direita viável eleitoralmente necessita cio recurso populista, onde a deselegância de procedimentos desperta a repulsa estética dos setores intelectualizados da colônia, que têm poder de fogo na formação de opiniões e acesso à imprensa comunitária, seria abstrato pensarmos nos órgãos da comunidade apoiando resolutamente um candidato: "ela direita inas amigo dos judeus".

35. No ano de 1968, data do último censo demográfico disponível sobre a população judaica de São Paulo, registrava-se um total de 4642 diplomados em escolas superiores numa população recenseada de 28508 pessoas, ou seja, 16,3% (Rattner, 1977, pp. 177 e 185). No momento em que entregamos esse artigo, a Federação Israelita do Estado de São Paulo anuncia a realização de um novo censo.

36. Ver a Tabela 2, onde, para realizar os primeiros 50`x; ele seus votos, Zveibel tem de contar com pelo menos 15 distritos, num universo de eleitores 50 vezes superior à cifra cios votos por ele obtidos.

37. Quando digo "no laboratório", pretendo afirmar que o esforço analítico realizado pelo pesquisador exibe um distanciamento pouco provável aos atores diretamente envolvidos no campo.

38. Os aspectos salientados eram a monitoração constante da política exterior cios EUA (questões do Oriente Médio, com especial relevância para o apoio ao Estado de Israel e o envio de armas aos potenciais inimigos do Estado Judeu) e de organizações apontadas como anti-semitas (como a Ku-Klux-Klan). Além disso, eram frisados aspectos organizacionais dos lobbies, como os oráanobralnas, a rede de computadores, a publicação ele listas cios amigos e inimigos dos judeus e do Estado de Israel, etc.

39. Segundo os analistas praticantes da "escolha racional", os interesses específicos das comunidades judaicas minoritárias seriam tanto mais bem servidos quanto mais próximo do parlamentarismo puro estiver situado o sistema político do país considerado, uma vez que nessa situação, os políticos ligados ao lobby fazem valer com mais efetividade sua parcela individual de poder.

40. A Revolução de 1964 foi lembrada em outros tópicos, tais como quando era abordado o poder adquirido por alguns militares anti-semitas. A xenofobia de parte da corporação militar foi também objeto de comentários de políticos de origem armênia entrevistados no segmento anterior da pesquisa. Cumpre notar que as queixas foram até mais fortes por parte dos políticos situados à direita do espectro político, que concordavam em geral com os objetivos do movimento e foram surpreendidos por IPMs e mesmo cassações. Seus concorrentes "de esquerda" julgavam que as perseguições que sofreram eram simplesmente uma parte indiferenciada dos ataques que a esquerda sofria em geral.

41. É claro que qualquer comparação com estruturas sociais e econômicas de outros tempos e latitudes são extremamente perigosas. Mas, para uma etnia que tem uma memória de perseguições e genocídio, a questão:" quais são os melhores países para o.s jttcletts se insularem?" não tem nada de abstrata. Na verdade, desde o estabelecimento da Alliance Israelite Internaiionale, no século XIX, os órgãos internacionais da diáspora judaica mantêm um serviço ativo de verificação das condições de vida da comunidade em diversos países, já que as conseqüências da variabilidade não são negligenciáveis para o destino dos judeus dos países que de alguma forma os ameaçam. Assim, a partir da ação do feixe de entidades comunitárias, institucionalizou-se uma espécie de "pensamento internacional" dos judeus no que diz respeito à fixação de correntes migratórias. Sobre a influência daAlliance no destino dos judeus orientais, ver Lewis (op. cit.). Sobre a influência dos órgãos da diáspora na escolha do Brasil como um possível país para receber os judeus da Europa Oriental e Alemanha, ver Lesser (op. cit.).

42. Ver R.Grün (1994, op. cii.).

43. Cardoso de Mello, J..M.: "O capitalismo tardio", São Paulo, Brasiliense

44. Segundo diversas newsletters,José Mindlin havia sido convidado naqueles dias a ocupar o ministério da Fazenda e teria recusado. Em outros momentos, a imprensa também registrou, discretamente, convites para empresários de origem judaica ocuparem outros postos ministeriais, principalmente os do ramo de papel e celulose para o ministério da Indústria e Comércio.

45. Um livro escrito por historiadores da colônia, de circulação praticamente restrita a seus quadros, registra,que David Campista, aliás, David Moretzsohn Campista, ministro da Fazenda de Afonso Penna, foi pensado para sucessor desse presidente da República, mas a sua condição de judeu teria impedido sua postulação. Os autores (E. & F. Wolff,1988, p. 46) escoram essa afirmação nas seguintes publicações da época: "Jornal do Commercio" de 01/12/1879 e de 21/08/1898, além do "The American Israelite" de 21.12.1911. Não encontrei traços da questão nos analistas "leigos" da época, tendo inclusive feito uma consulta direta a Maria do Carmo Campello de Souza, que estudou o período a fundo. Ainda que se possa pôr em dúvida a informação apontada, fica seu registro como um elemento das estratégias de produção de identidades judaicas no Brasil.

46. Arão Steinbruk disputou várias eleições para o Senado Federal no Rio de Janeiro, em geral pelo PTB, a partir da década de 1960. No momento em que entregamos este texto, o paranaense Jaime Lerner disputa o governo de seu Estado pelo PDT, sendo apontado como um dos favoritos pelas pesquisas de intenção de voto num pleito que se afigura disputadíssimo. O estudo da argumentação "pró-e-contra" nesse pleito traria uma grande contribuição ao entendimento do problema que estamos tratando. De qualquer maneira, no transcorrer da campanha, já pudemos anotar a declaração do pastor Vicente Goulart, candidato a deputado estadual pela coligação que apóia Alvaro Dias, do partido Popular, o adversário de Lerner, feita no horário eleitoral gratuito do rádio: " O fato de não colocar Cristo dentro de seus planos é um problema para todos os cristãos do Paraná. Por isso, eu e todos os evangélicos do Paraná apoiamos Álvaro Dias" (Jornal da Tarde, 07.09.94, p.6). 


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