Em seu livro mais
recente, The consciente of the eye, de 1990, Richard Sennet retoma os
mesmos temas que já havia trabalhado em O declínio do homem público e,
segundo sua própria apresentação, em um romance, Palais Royal. Buscando
encerrar uma trilogia, retoma o argumento de que a cultura moderna sofre de uma
cisão entre interior e exterior, entre as experiências mais subjetivas e as
mais mundanas, entre o self e a cidade. Sua intenção é demonstrar que o
medo de exposição que experimentamos, essa barreira entre a vida interior e
exterior foi socialmente construída. Mais: foi solidamente edificada pela
cultura cristã ocidental, inscrita em seus edifícios e cidades, que nossos
olhos, sem o saber, captam constantemente. Se Boas no início do século escreveu
ser o olho um órgão de tradição, Sennet lembra que para Santo Agostinho, assim
como para Platão, o olho era um órgão de consciência. Uma leitura mais
influenciada por Bourdieu nos levaria a concluir, após a leitura deste livro,
que o olho é também um órgão portador de habitus, que nosso olhar,
aquilo que podemos ver, carrega a inscrição da estrutura social.
De qualquer forma,
Sennet quer chegar à afirmação de que o olho é tanto um órgão de fé como de
dominação e, buscando dar conteúdo ao seu argumento, vai buscar na cidade
cristã do início da Idade Média o fundamento dos dilemas que ainda hoje os
olhos captam ao atravessar cidades como Nova York.
"De onde vem
nosso medo contemporâneo da exposição pública?", pergunta-se Sennet ao
contemplar os modernos edifícios de vidro de Manhattan. Sua resposta é que esse
medo é o centro, o coração da imaginação da cultura judaico-cristã. Seu
exemplo, primoroso, é o da construção da cidade cristã no século VII. Santo
Isidoro, que concebeu seu plano, tinha no dicionário etimológico que elaborou
uma distinção entre urbes e cidade. O primeiro termo se
referia às pedras da cidade, aos caminhos traçados pelo comércio para abrigo,
descanso e para troca. Cidade tinha a ver com civitas, com as emoções, rituais
e concepções que tomam a forma de uma cidade. Não poderia ser a urbes o
lugar do cristianismo, pois os espaços sagrado e secular não poderiam ter
semelhança física. Assim, enquanto os edifícios seculares podiam se erguer
amontoados em ruas entrecortadas e de fluxo ineficiente, as igrejas deviam ter
sua localização estudada precisamente, seu desenho calculado. A igreja gótica
criou suas abóbadas e arcos com o mínimo de material e o máximo de exatidão,
pois a precisão, perante o entorno, possuía um valor espiritual. A igreja
precisava estar no centro, ser o ponto de referência da cidade: um centro
grande, visível e sólido, a claridade da presença de Deus em contraste com a
diversidade de experiências da urbes.
Nesse espaço claro
e preciso, a caridade era uma obrigação: ao redor da igreja crianças eram abandonadas
e vítimas da peste se estabeleciam. A entrada da igreja tornou-se uma zona de
imunidade, de transição entre o caos da cidade e o silêncio de seu interior.
Qualquer necessitado sabia aonde ir embora pagando, é claro, o preço da
submissão, caso necessitasse de auxílio. Hoje, contrasta Sennet, temos que
definir qual a origem do mal para nos dirigirmos ao local especializado: é
melhor um portador de Aids ir ao médico que à igreja.
Foi edificando
esse contraste entre o interior e o exterior do espaço da igreja na cidade que
a cultura cristã deixou marcado no território um dualismo, que Sennet considera
corrosivo, entre interior e exterior. Eis então uma das raízes históricas de
nosso medo de exposição: a dor, o pranto, eram tolerados nesse espaço de transição,
enquanto a cidade do mundo secular permanecia amorfa, violenta, o espaço do
esquecimento social.
Se o espaço
interno do catolicismo era físico, um espaço que as pessoas podiam
compartilhar, o espaço interno do puritanismo era imaterial, era o espaço de um
individualismo radical. "O olho do puritano só podia ver dentro dele
mesmo", afirma Sennet, "e fora não havia nada." Enquanto o
espaço do santuário expressava o desejo de se colocar alguém nas mãos da
autoridade, o espaço da imaginação protestante expressava o desejo de um poder
egoísta. A luta interior era de tal intensidade que o exterior devia ser
neutralizado. A presença de necessitados e perturbados nas ruas era cima
invasão. Não é por acaso, diz Sennet, que palavras usualmente empregadas pela literatura
para falar da cidade moderna americana - impessoalidade, frieza, vazio - são
palavras centrais no léxico protestante. E o autor vai então buscar o desenho
com o qual o protestante elaborou as cidades americanas, na verdade uma imagem
urbana muito antiga: a de uma cruz dentro de um círculo - a malha quadriculada.
É interessante
lembrar que há quase sessenta anos o também weberiano Sergio Buarque de
Holanda, em um capítulo de seu Raízes do Brasil, falava da malha
quadriculada como uma demonstração de poder político, comparando o colonizador
português ao espanhol. Este, escreveu, tomou posse do território conquistado,
estabelecendo ali cidades que seguiam tratados, onde a igreja ocupava a praça
central e as ruas partiam em perpendiculares e paralelas. A cidade brasileira,
em contraste, seguia o caminho das serras, das encostas, e se localizava na
orla marítima, voltada que estava para Portugal. E Lúcio Costa, ao apresentar
anos depois o plano piloto de Brasília, que tem também o desenho de uma cruz, definiu
seu gesto como o de uma conquista, de uma tomada de posse do Oeste.
Na história do
urbanismo ocidental, diz Sennet, a malha teve usos freqüentes quando se tratava
de construir um novo espaço ou de renovar um espaço destruído. Mas nenhum
desenho, adverte, carrega um sentido permanente. Se os romanos usavam a malha
para obter um desenho carregado de emoções, os protestantes americanos foram os
primeiros a usa-la com o propósito de negar a complexidade e a diferenciação
existente no ambiente. Ela é desse modo o desenho protestante da cidade neutra:
a malha foi usada como um plano para neutralizar o entorno.
A segunda forma
geográfica de espaço neutralizado é a perda, a anulação do centro: mesmo que
exista o desejo de um ponto central, diz Sennet, é difícil deduzir onde devem
ser os espaços públicos se o mapa mostra apenas mais e mais retângulos de
terra. Eis para Sennet a ética protestante do espaço: um terreno para a
competição econômica, um tabuleiro de xadrez, um espaço neutro que nega à
natureza qualquer valor em si. Quando já do alto de um capitalismo mais
avançado os americanos passaram a pensar em alternativas à malha cartesiana, a
escolha não recaiu em ruas mais complexas, praças ou locais para se
experimentar a vida da cidade, mas em um bucolismo oposto, do qual a construção
do Central Park no século XIX é o exemplo mais acabado.
Com esses exemplos
entre outros, Sennet estabelece ricas relações entre cultura e política,
examinando a inscrição desta no espaço compartilhado mediante a explicação histórica.
Sua análise é erudita e detalhada, e os nexos que constrói são com freqüência
surpreendentes. Sennet retoma os princípios católicos e protestantes para
localizar o nascimento daquilo que na verdade gostaria de ver superado: a cisão
esquizofrênica entre interior e exterior. Superado, porque ele conclui seu
trabalho assinalando que precisaríamos estimular o oposto do que observamos nas cidades, que deveríamos poder ver Apoio, e
não o deus do sofrimento cristão, nos espaços das ruas. A riqueza desse recurso
à história é trazer à tona uma gama de articulações que de outra forma não
poderiam ser construídas: o credo agostiniano e a praça da igreja, o ethos protestante
e a malha da cidade. Por outro lado, sua história é um tanto despovoada de
atores, e nela há mais Idade Média, Iluminismo, século XVIII ou XIX que homens,
com exceção das personagens de literatura que toma de empréstimo para reiterar
suas hipóteses.
Isso gera um
descompasso no livro quando ele finalmente chega à contemporaneidade. Aqui,
Sennet parte de sua própria percepção da cidade: o distanciamento histórico é
substituído por uma narrativa entre etnográfica e literária do próprio autor
caminhando por Nova York. Nesse momento o livro poderia crescer agregando
história e antropologia, diacronia e sincronia, informações de segunda mão com
observação e pesquisa empírica. Mas, ao invés disso, caímos num certo
impressionismo, surpreendentemente auto-referente. O mesmo Sennet que gostaria
de ver superada a cisão entre exterioridade e interioridade torna-se um autor
de um subjetivismo extremo, que causa problemas ao seu livro. A Nova York
apresentada ao leitor é aquela de seu caminho para almoçar, quando sai de seu
apartamento no Greenwich Village; suas impressões sobre tais ou quais
bares, seus sentimentos em relação aos drogados e homeless que ele
nos apresenta. Mesmo seu filho e suas lições de música são chamados para
compor o quadro que quer pintar, de uma cidade distante, hostil, cheia de gente
mas ainda assim descarnada. O subjetivismo de seu romance Palais Royal, que
pretendia unir à crítica social de seus outros livros, comparece, mas ao preço
de tomar seu presente trabalho desigual e cindido. Se o distanciamento histórico
tivesse sido substituído por um distanciamento etnográfico, se Sennet tivesse
se imposto o desafio de praticar o estranhamento, talvez ele se permitisse
encontrar surpresas em seus caminhos diários. Ou se, indo em outra direção
teórica, ele tivesse levado às últimas conseqüências seu exercício de
subjetividade, transformando-a em intersubjetividade, certamente teria podido
extrair dessa proximidade uma análise inovadora. Mas não é o que podemos ver em
seus roteiros.
Se em sua análise
visual retrospectiva ele havia eleito como foco as cidades do catolicismo e
protestantismo, no período atual ele elege a arquitetura dos edifícios de
vidro. Há uma noção interessante e pouco explorada de que a malha se
verticaliza na cidade contemporânea, de que o poder está agora expresso nos
arranha-céus de vidro e aço. Se a cidade cristã conferia valor à interioridade,
a cidade iluminista passou a ver as pessoas do lado de fora, e não
necessariamente em multidões.
O ideal iluminista
de totalidade, argumenta, passou para a modernidade como um ideal de
integridade dos objetos bem realizados. É por isso que surge um conflito entre
alguns edifícios e seus usuários: o valor de certas construções como obra
compete com seu valor enquanto uso, e uma das formas como isso se manifesta é
nas maneiras como os agentes da preservação histórica interferem nas cidades,
tentando fazer destas mais um museu de edifícios intocáveis do que. um lugar
para se viver.
Quando Sennet
analisa aquele que considera o exemplo mais acabado do medo contemporâneo da
exposição, o edifício de vidro de onde vemos a rua e a praça mas não as
tocamos, seu subjetivismo cresce a ponto de comprometer a análise. Como se
sabe, o criador dessa estrutura serial de metal para ser preenchida com vidro
foi o alemão Mies van der Rohe, que fez parte da Bauhaus. Mies elaborou nos
anos 30, 40 e 50 alguns edifícios segundo esse modelo, entre os quais o mais
conhecido é o da Seagram's, em Nova York. Essa cidade, assim como muitas
outras, está hoje repleta de edifícios envidraçados que se refletem uns nos
outros, e um dos promotores desta vulgarização é o arquiteto Philip Johnson.
Esses edifícios
geram, segundo o olhar de Sennet, uma estranha combinação
de visibilidade e isolamento, de penetração visual entre exterior e interior. Mas
é claro, diz ele, que os primeiros grandes arquitetos modernistas jamais
desejaram que isso acontecesse, pois eram socialistas, iluministas, e queriam
com sua arquitetura conceber uma sociedade mais unificada e coerente. Ele
admite que a arquitetura urbana, ao contrário de esculturas e poemas, é um
processo complicado que envolve Estado, banqueiros e clientes, mas é incapaz,
como fez, por exemplo, David Harvey em A condição pós-moderna, de ver aí
uma contradição do modernismo arquitetônico: estruturas metálicas, esclarece
Harvey, servem tanto para construir os belos edifícios de Mies como as
horrendas construções da costa de Las Vegas, pois são eficientes, rápidas e
baratas, e nos anos 50 a construção ou reconstrução veloz era uma questão
importante tanto nos Estados Unidos como na Europa. Foi então que o modernismo
tornou-se um estilo oficial.
Apesar dessas
restrições, Sennet considera Mies o maior artista de seu tempo, e seu edifício,
que é comprometido pelo uso, como se alguém tocasse uma peça de Beethoven
livremente, é uma expressão moderna do sublime. A obra de Mies van der Rohe
depende de equilíbrios tão precisos que o espaço se torna um espaço em si,
alheio aos homens: os objetos se divorciam de seus usuários, investidos de seu
próprio mana; enquanto Philip Johnson é apenas um skilled craftsman (Sennet
deve saber que o popular Johnson já teve simpatias nazistas e que afirma
construir para quem quer que financie suas obras).
Se, ao olhar a
forma passada, ou a forma urbana presente mas herdada do passado, Sennet foi
capaz de decompor as dimensões de poder, economia e cultura que estavam por
detrás delas, quando ele chega ao exemplo contemporâneo fica paralisado por
seus próprios gostos e preconceitos. A paralisia diante da beleza de um
edifício de Mies (ponto sobre .o qual estamos de acordo) não poderia obscurecer
a análise. Ao chamar os modernos de iluministas e socialistas, ele parece estar
tomando um discurso nativo como categoria explicativa, esquecendo-se de que Le
Corbusier trabalhou tanto no Brasil de Getúlio Vargas como em Moscou e na Vichy
ocupada pelos nazistas. Esta trama complexa entre ideário estético e político e
condições reais de produção não é enfrentada em momento algum.
Recentemente
pudemos observar uma emergência de estudos sociológicos e antropológicos sobre
a cidade. Uma boa parte da literatura sobre a pós-modernidade trata desse tema,
pois, como aponta Harvey, a cidade é tanto um cadinho que molda sensibilidades
como um resultado de forças políticas e econômicas. Além disso sua arquitetura
vem sendo palco de debates sobre a cultura posterior aos anos 50. Nessa
tendência alinham-se tanto autores como Fredric Jameson e Sharon Zukin, que
escreveram sobre modernidade e pós-modernidade tomando cidades como exemplo,
quanto James Holston em sua detalhada análise de Brasília.
O trabalho de
Sennet tem um mérito inegável, o de não tratar a forma do objeto analisado como
mero epifenômeno, algo menos relevante do que as condições sociais que
permitiram sua construção. Mas ao contrário de Holston, que extrai
considerações perturbadoras sobre a primazia do público ou do privado de uma
comparação entre o desenho urbano de Ouro Preto e o de Brasília, ou de Sharon
Zukin, que examina os processos pelos quais bairros históricos são reabilitados
enquanto novas construções tentam inventar tradições, Sennet parece ter perdido
parte da capacidade de unir uma análise audaciosa a um profundo conhecimento
histórico, como em O declínio do homem público, um pouco do conhecimento
de sociologia urbana que acumulou em sua coletânea Classic essays on the
culture of the chies, assim corno a capacidade de redigir um texto
analítico e pleno de atores como em The hidden injuries of class.
Esperamos que sua promessa de chegar ao ponto culminante de uma trajetória
venha a se cumprir em seu próximo livro.
Silvara Rubino é doutoranda em
Ciências Sociais pela UNICAMP, professora da FAU-PUCCAMP e pesquisadora do
IDESP.
A temática do
estreitamento da classe média norte-americana foi acrescida de dois livros complementares
que merecem destaque. De um lado, Declining fortunes, de Katherine
Newman, descreve os caminhos através dos quais a geração dos babyboomers (nascidos
durante a expansão econômica das décadas de 1950 e 1960) norte-americanos
percebe a dificuldade de alcançar um status de classe média equivalente ao de
seus pais. Essa percepção fica clara principalmente quando a aquisição da
residência ampla de subúrbio, equivalente àquela de seus pais, torna-se um
sonho inacessível e quando se aproxima o momento de mandar os primeiros filhos
para a faculdade, cujas mensalidades ficaram além da capacidade de
financiamento de grande parte das famílias médias. O centro de seu material
empírico são entrevistas com os membros de diversas gerações de moradores num subúrbio
típico de classe média do estado de Nova York. Por sua vez, Michael Useem, em Executive
defense, mostra os constrangimentos originários do mercado financeiro que
produziram os grandes realinhamentos organizacionais imperantes no universo
empresarial norte-americano a partir da década de 1980, os quais, por sua vez,
levaram ao advento da "organização enxuta". A grande empresa
norte-americana estreita cada vez mais o espaço para o desenvolvimento de
carreiras executivas e é cada vez mais pressionada por atores externos às
corporações no sentido de "cortar as gorduras", os privilégios de
diversas ordens conseguidos pelos seus trabalhadores graduados e que sustentam
o padrão de vida da parcela mais significativa das classes médias afluentes dos
Estados Unidos. A partir da análise de sete casos representativos de
"enxugamento organizacional" de grandes empresas, o autor descreve as
mudanças da cena oferecida pelas grandes corporações e suas conseqüências.
Por trás da
situação descrita por Newman reside uma questão de inadequação demográfica: as
famílias de classe média norte-americana geraram, nas décadas de 1950 e 1960,
mais candidatos a empregos e oportunidades que conduzem a altos salários que a
economia pode oferecer no momento. Isso não só pelo crescimento demográfico
absoluto como também pela incorporação no mercado de trabalho formal de um
contingente feminino que na outra geração se recolhia à economia doméstica.
Além da pressão feminina, a "ação afirmativa" em prol dos grupos
étnicos estigmatizados coloca na mesma competição os membros das minorias
afro-americanas e hispânicas, que estavam praticamente fora do mercado de
trabalho para ocupações de classe média na geração anterior.(1)
A geração dos baby-boomers
é dividida por Newman em dois segmentos cronológicos: grosso modo, os
nascidos até 1960 e os que nasceram na década de 1960. Os fatos marcantes na
socialização dos primeiros estão ligados à vaga de contestação de costumes e
política dos anos 1960, que produziria um ethos altruísta na coorte. Essa
sensibilidade seria responsável pela procura de oportunidades de inserção
econômica em diversas ocupações no campo do trabalho social. Atingidos pela
reversão de expectativas na esfera do consumo, os membros desse contingente
apresentaram defesas cognitivas importantes vinculadas ao minimalismo em
relação aos bens materiais ofertados pela sociedade local, que atualiza as
atitudes antünstitucionais da década da contestação. Para os membros do segundo
segmento cronológico o mundo parece mais cruel. Tendo sido
socializados na mouvance da era Reagan, os membros da segunda leva dos baby-boomers
desenvolveram uma sensibilidade mais individualista e aplicaram seus
esforços escolares em carreiras que prometiam facilidades na busca de posições
garantidas no universo empresarial. Mas, "tendo feito tudo certo",
eis que a economia em contração e as empresas em enxugamento fizeram aparecer
um mercado de trabalho incapaz de satisfazer as ambições da maior parte do
contingente geracional.
Os empregos
remuneram proporcionalmente menos que na geração anterior, e mesmo os lares com
dois salários - a grande maioria agora - têm dificuldade de fazer frente às
despesas consideradas normais para uma família de classe média. Vista do
Brasil, é curiosa a dificuldade com que os entrevistados lidam com o fenômeno
da inflação: para eles é chocante que a renda nominal dos membros da nova
geração seja incomparavelmente mais alta que a memória dos salários dos membros
da geração precedente, e, mesmo assim, tais rendimentos são insuficientes para
proporcionar o nível de vida alcançado pelos pais dos profissionais que
ingressaram no mercado de trabalho nos anos 1980. A especulação imobiliária é
um fator importante na trama, já que faz disparar os preços das sonhadas
"casas individuais de quatro dormitórios em estilo colonial" nos
subúrbios, principal investimento das famílias de classe média, que seus pais
tinham conseguido comprar com alguma facilidade no período de expansão do
crédito doméstico mas que estão vedadas para a nova geração, que se candidata à
aquisição da casa própria no mesmo período em que assiste ao naufrágio do
sistema de "savings & loans" (poupança e empréstimos, que
financiava os investimentos imobiliários). Da mesma forma, as taxas escolares
para a faculdade subiram, justamente no momento em que o meritocratismo
escolar, a credential society, afirma-se mais presente. Acentua-se o
sentimento de despossessão: o padrão de vida dos baby-boomers fica
comprometido não só no cotidiano como também em relação às perspectivas profissionais
de seus filhos. Só sendo possível a aquisição de residências em bairros
modestos (leia-se: interétnicos), o padrão das escolas públicas freqüentadas
pelos filhos da nova geração também se rebaixa é a bola-de-neve da decadência
social se alimenta.
A percepção da
situação no seu conjunto configura-se como uma reversão de expectativas, de
imensas conseqüências. O "sonho americano" sempre indicou que as
gerações futuras, desde que se esforçassem corretamente, iriam desfrutar de um
padrão de vida superior ao gozado por seus pais. Pela primeira vez na história,
essa expectativa não irá se realizar:
Na melhor das
circunstâncias, somente uma pequena parte dos milhões de baby-boomers verá
sua promoção para o nível gerencial. Muitos verão chegar o ápice de suas
carreiras aí pelos quarenta anos de idade, deixando os vinte ou trinta anos
seguintes de suas vidas de trabalho sem nenhum avanço (se tiverem a sorte de
escapar das pressões do enxugamento organizacional ou dos problemas econômicos
gerais). Além da pasmaceira que o não-avanço produz, aparecem suas importantes
conseqüências financeiras: os boomers não terão os incrementos salariais
que os colocariam no mesmo patamar um dia alcançado por seus pais. O
não-avanço, ao lado das cada vez mais freqüentes recessões e a pressão
inflacionária contínua, terão como conseqüência, a longo prazo, a erosão do seu
padrão de vida, um padrão que já fica abaixo de suas expectativas iniciais.
[p.l6]
E necessário
reforçar as tintas: num livro anterior,(2) a autora faz uma etnografia
de setores decadentes específicos das classes médias - mulheres divorciadas,
executivos desempregados, trabalhadores especializados que perdem suas defesas
corporativas etc. num subuniverso que totalizaria 20% do contingente associado
àquela condição social. Agora, trata-se de uma análise sobre o centro mesmo das
novas gerações das classes médias, anunciando um mundo muito menos promissor
que aquele prometido pelo American dream, mesmo para a maior parte dos
atores sociais que seguiram à risca a receita do sucesso, mesmo para aqueles
que dispunham, aparentemente, de todas as propriedades raciais e sociais para
galgar posições na sociedade. Dessa forma, podemos dizer que a reversão de
expectativas de mobilidade social ascendente, detectada no Brasil por Pastore e
Haller, (3) deve fazer parte de um processo mais geral do mundo
capitalista, vinculado às transformações nas esferas do trabalho e do welfare
e extremamente reforçado pela prevalência de ideologias individualistas. (4)
Diante do impasse,
a autora mostra um leque de elaborações que vai desde a culpabilização das
minorias raciais e sexuais "privilegiadas" pela ação afirmativa até
questionamentos mais amplos da justeza do tecido social norte-americano. Outro
ponto de grande interesse é o aparecimento de um conflito geracional distinto
dos padrões anteriores. Agora, "nos escombros do welfare State", a
geração dos baby-boomers luta pela continuidade dos subsídios federais
às escolas e pelo crédito habitacional mais barato, contra a geração
anterior, mais interessada em orçamentos governamentais que privilegiem a
melhoria da assistência médica e valorização das aposentadorias e, no plano
municipal, em baixas taxas de moradia que acabam prejudicando o financiamento
da escola elementar pública. Uma vez que a geração do atual gray power está
mais bem representada nas esferas governamentais por meio dos diversos lobbies,
as batalhas desse conflito costumam ser vencidas pelos advogados da geração
dos já aposentados. Também merece destaque a análise em que a autora aponta a
maior facilidade organizacional de se construir uma pauta de reivindicações de
interesse dos aposentados - bem unidos por essa condição - em face da dispersão
dos interesses da geração que está em atividade profissional, entrecortada pelos
conflitos que seus membros travam entre si no mercado de trabalho (pp. 219-9).
Executive defense trata de uma série
de fenômenos muito explorados na cinematografia hollywoodiana - por exemplo no
filme Com o dinheiro dos outros, (5) onde um tubarão de Wall
Street (DeVitto) tenta realizar, mediante a aquisição de ações, a compra
litigiosa de uma empresa metalúrgica da Nova Inglaterra, cujo proprietário
original é protagonizado por Gregory Peck. Evidentemente, diante da perspectiva
do desmembramento dos ativos da empresa e da drástica diminuição do seu número
de empregados, com o conseqüente prejuízo para toda a cidade, a pequena
comunidade local tenta apoiar Gregory Peck, para manter a empresa funcionando
no seu ritmo tradicional. Nesse filme, como em outros do gênero,(6)
escapam da trama uma série de atores coletivos cinzentos, cuja construção
enquanto personagens "de novela" é mais difícil. E são justamente
essas as personagens do livro de Useem: os fundos de pensão e os fundos de
investimento. A pressão contra as empresas "inchadas", que aparece na
mídia como um esforço protagonizado apenas pelos corporate raiders, como
a personagem de DeVitto, é também exercida por fundos de pensão, principalmente
de funcionários públicos - como o Calpers, dos
funcionários públicos do estado da Califórnia ou o fundo de pensão dos
funcionários da prefeitura de Nova York, que chegavam a aplicar, no início da
década de 1990, recursos da ordem dos 56 bilhões de dólares o primeiro, e 45,2
o segundo. Comparativamente, o valor de mercado da AT&T, maior empresa
norteamericana por esse parâmetro, era de 39,1 bilhões, o da General Motors, a
segunda, era de 36,3 (LJseem, p. 256, Tab. A.3).(7)
Quando o mercado
de ações era dominado por atores individuais, no momento em que um acionista se
mostrava descontente com uma determinada empresa o comportamento mais freqüente
era vender suas ações e comprar de outras empresas, o exit de
Hirschmann. Os fundos de pensão, que movimentam quantias enormes, são obrigados
a dispersar seus investimentos em centenas de empresas, de forma que o exit
não lhes é permitido. Eles passam a exercer seu direito, até então teórico, de
participar dos conselhos de administração das empresas, com propostas de
conduta que procuram maximizar o retorno de seu investimento em ações no curto
prazo, questionando drasticamente uma série de prerrogativas do management, principalmente
no que diz respeito a salários e bônus recebidos sem relação com a performance
da empresa, excessiva quantidade de gerentesg e benefícios não salariais. O
processo de adequação das grandes empresas às restrições impostas pelos
acionistas faz-se por meio de uma pressão contínua das altas direções sobre os
níveis intermediários da gerência, impondo a busca de resultados a curto prazo,
ao mesmo tempo que aumenta a autonomia relativa dos médios gerentes nas suas
operações cotidianas. Desta forma, o processo é contraditório nas consciências
dos gerentes médios: de um lado, aumenta a pressão e muitos perdem o emprego,
por outro, para os que permanecem na empresa, o,aumento de autonomia, o empowerment,
é visto positivamente. (9) Nesse processo esvaziam-se literalmente
os escritórios centrais dos conglomerados: num caso famoso, o buyout (fechamento
do controle acionário de uma empresa pela compra das ações que estavam
anteriormente disponíveis no mercado) da KKR/Nabisco, dramatizado em filme, (10)
os escritórios centrais da empresa, que contavam com quatrocentos executivos
passam, depois da aquisição, a trabalhar com apenas treze gerentes.
A resposta do business
ao desafio dos atores externos é muito curiosa: depois da ofensiva dos anos
1970 e 1980 contra a interferência do governo.na atividade econômica, as
grandes corporações buscam agora proteção dos governos estaduais contra o takeover
(aquisição do controle de uma empresa sem o consentimento de sua direção) e
outras intervenções menos drásticas dos acionistas, mediante uma legislação que
restringe a ação dos atores externos sobre as empresas (pp. 173 ss.). Como as
grandes corporações e sindicatos operários - irmanados nessa ação - têm grandes
investimentos políticos regionais, as legislações em geral são aprovadas. Para
quem acompanhou a trama descrita no livro anterior de Useem (1984) - quando o business
repudiava com fervor missionário os excessos intervencionistas dos governos
inspirados no neokeynesianismo, ajudando a instituir a década de Reagan - a
nova configuração guarda uma pitada de ironia.
Em nível
microssociológico, merecem também destaque as constatações do autor a respeito
da relação que os executivos têm com a ciência do management - seus entrevistados
utilizam quaisquer materiais, apontando quaisquer evidências, que suportam ou
não suas atuações nas empresas, como indicações do acerto das estratégias
empresariais que estão empreendendo. Embora não haja nenhuma evidência
científica razoável de que a nova empresa enxuta seja mais eficiente que sua
antecessora mais burocratizada, a nova forma organizacional adquire status de
paradigma incontestável, corroborando a hipótese neo-institucionalista sobre a
difusão de formas organizacionais. (11) Assim, num quadro
de "profecia auto-realizante", a eficiência acaba sendo gerada pela
legitimidade, quando credores consideram as empresas assim gerenciadas como
eficientes e diminuem a pressão sobre elas, executivos e empregados em geral
trabalham mais animados nas empresas consideradas de alta performance, os
vários níveis de governo apóiam as demandas da empresa considerada enxuta, o
mercado de ações recebe bem as solicitações de capitalização, e assim por
diante. (12) Um corolário importante é que as organizações não
lucrativas, das agências governamentais às instituições de filantropia,
passando por escolas e museus, acabam tendo de conformar-se ao novo modo de
gestão, dada a influência que tem o business em toda a sociedade.
Somando-se o
quadro descrito em cada um dos livros, eis que temos um mundo pouco promissor
para os jovens oriundos das classes médias norte-americanas. K. Newman
apresenta-nos uma situação de conflito em várias frentes: entre as gerações,
pela definição e apropriação dos serviços sociais; entre os membros da mesma
geração dos baby-boomers, por posições no mercado de trabalho, e, mais
genericamente, uma luta para definir o sentido das carreiras pessoais e
.profissionais. M. Useem mostra como a redução do número de quadros nas grandes
empresas virou um verdadeiro princípio organizacional, criando uma situação de
difícil reversão, onde a conquista de um lugar ao sol é cada vez mais
problemática, contribuindo para o advento de uma sociedade cada vez mais
dicotomizada e revertendo o padrão secular que indicava o aumento relativo dos
contingentes de classe média nos países do capitalismo central.
1. Sobre os efeitos dessa concorrência no
recrudescimento do racismo, ver J. Rieder, Cmursie: the Jews niul Italinns uf Brvoklyn against liberalism. Harvard University Press, 1985.
3. J. Pastore
& A. Haler, "O que está acontecendo com a mobilidade social no Brasil?
In J. P. Reis Velloso & R. Cavalcanti de Albuquerque, Pobreza e
mobilidade social. São Paulo, Nobel, 1993, pp. 25-49.
4. Sobre a mutação ideológica dos anos 1980 e suas relações com as expectativas de curso de vida das classes médias,
a autora se apóia em grande parte em B. Ehrenreich, Fear of falling: the innern of the middle class, Harper, 1990. Sobre as transformações econômicas propriamente
ditas, a principal referência do livro é The
great U-turn: corporate restructuring anil lhe polarizing of America, de B. Harrison e B.
Bluestone, Basic Books, 1988.
5. Other's people money, dirigido por Norman Jewinson, com Danny DeVitto e Gregory Peck, disponível em vídeo no Brasil.
6. Sobre a lógica
da construção dessas personagens e sua relação com o momento ideológico
norte-americano, ver E. G. Traube, Dreaming iderrtities: class, geruter anil
generation in 1980 :c Hollywood movies, Wesvlew, 1992.
7. Esse dado deixa muito o que pensar a respeito da atual ofensiva de diversos órgãos da imprensa contra os fundos equivalentes brasileiros. Trata-se de um ator importantíssimo na trama dos mercados financeiros dos países modernos que, a exemplo do que se fez com os fundos de pensão administrados pelos sindicatos de trabalhadores brasileiros de antes do golpe de 1964, pode escapar do controle dos atores econômicos "tradicionais".
8. Seria de se
indagar se a disposição dos fundos de pensão em investir contra as
prerrogativas já tradicionais do management não representa uma reação ao ataque cerrado que o business empreendeu contra o setor público norte-americano no decorrer da década
de 1980, descrito pelo mesmo autor em The inner circle: large corporations and
the rise of business political activity in the U.S. and U. K., Oxford, Oxford
University Press, 1984, e por B. Ehrenreich (cit.). Segundo Useem, dado o
"recentramento" nas atividades-fim das empresas que se segue ao
advento do poder dos acionistas, a capacidade de ação política concentrada que
o business
demonstrou na década passada, analisada em The inner circle, diminuiria bastante na década de 1990.
9. V. Smith, em Managing in the corporate interest: control and resistance in an American bank, University of California Press, 1990, apresenta, em nível monográfico, um processo da natureza dos que Useem descreve em termos macro, mostrando os instrumentos utilizados pela alta direção de um grande banco da Califórnia no aggiornamento de sua média gerência.
10. Selvagens em Wall Street [Barbarians at the Gate], dirigido por Glenn Jordan, com James Garner e Jonathan Pryce nos papéis principais, disponível em vídeo no Brasil.
12. Um exemplo da avaliação positiva das novidades no business norte-americano pode ser encontrado em "Ready to take on the world", in The Economist (15/1/94, pp. 65-6), que é justamente, ao lado do Wall Street Jouneal, um dos principais formadores de opinião dos gerentes e grandes empresários do mundo anglo-saxão. Sobre essa influência dos órgãos da imprensa de negócios na criação de um "senso comum" do mundo dos negócios, ver W: Parsons, The power of firuutcial press, Rutgers University Press, 1990.
Roberto Grün é professor do
departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal de São Carlos e
pesquisador no IDESP. E também doutor em Ciências Sociais (Unicamp, 1990) e
autor de Armênios em São Paulo: negócios & famílias (Sumaré, 1992).
Força sindical: uma análise
sócio-política
de
Leôncio Martins Rodrigues e Adalberto Moreira Cardoso.
Rio
de Janeiro, Paz e Terra, 172 pp.
O movimento
sindical brasileiro encontra-se, nesta década de 90, numa encruzilhada. Vivemos
num contexto produtivo marcado por uma globalidade desigualmente
estruturada, onde a velocidade das transformações tecnológicas tem como
conseqüência imediata a nefasta exclusão de enormes contingentes de
trabalhadores, intensa nos países centrais e brutal nos países de Terceiro
Mundo industrializado como o nosso. Essa prevalência da lógica do capital tem
ainda como resultante a desorganização das classes trabalhadoras, atingindo
diretamente seus organismos de representação. Se na Europa, EUA e Japão os
sindicatos vivenciaram uma crise intensificada ao longo da última década, no final
dos anos 80 e início dos 90 a crise atingiu com intensidade o sindicalismo
brasileiro.
A CUT, que se
iniciou em 1983 enquanto movimento sindical de inspiração
anticapitalista e fundada num ideário com contornos socialistas, vive hoje um
momento difícil. Arrisca-se a perder o que de mais importante conseguiu
conquistar - uma expressiva e diversificada base social
assalariada - ao longo de seus dez anos. Mas, se até pouco tempo ela não tinha
um contraponto efetivo, a partir de 1991, com o nascimento da Força Sindical
(FS), viu esse quadro alterar-se ainda mais. Efetuando uma mescla entre o velho
sindicalismo atrelado e um ideário neoliberal agudamente pró-capitalista e
privatizante, a FS veio preencher um espaço para o qual o velho peleguismo se
mostrava incapaz: veio para se constituir na nova direita, orgânica,
atuante e dinâmica no sindicalismo brasileiro.
O livro Força
sindical, de Leôncio Martins Rodrigues e Adalberto Cardoso, oferece-nos um
retrato dessa nova variante do sindicalismo brasileiro: aproveitando-se do
congresso de fundação da central sindical, os autores fizeram uma detalhada
pesquisa empírica, tanto dos delegados quanto da cúpula da FS. Não se trata,
portanto, de um estudo sobre a atuação concreta, sindical e política da
FS. O que o livro nos oferece é uma radiografia do momento constitutivo da
central, expondo algumas tendências que permitem visualizar suas dimensões
básicas.
A primeira
constatação importante, presente nos primeiros capítulos do livro, é dada pela
forte presença da burocracia sindical no interior da FS. Perante, de um
lado, a oposição que o velho sindicalismo fazia à CUT e, de outro, a
inoperância da CGT, a FS mostrou-se como o caminho natural de um grande
contingente de "dirigentes sindicais" que faziam renhida oposição ao
sindicalismo combativo e que se sentiam pressionados a diferenciar-se do
peleguismo sindical de que faziam parte. Dois fatos confirmam essa hipótese
levantada pela pesquisa: a idade relativamente avançada dos delegados do
congresso e seu prolongado tempo de permanência nas diretorias dos sindicatos.
Dizem os autores:
"[...]
especialmente para os diretores de pequenos sindicatos com fraco poder de
barganha, a adesão à Força Sindical significaria não somente um apoio no que
tange às relações com o patronato como também uma proteção contra as investidas
de ativistas ligados à CUT."
E mais: se uma das
marcas da FS é sua presença na velha burocracia, sua fragilidade é reafirmada
pela inexpressiva representação dos trabalhadores no seu congresso de fundação,
basicamente composta pelos metalúrgicos de São Paulo, trabalhadores da
alimentação, do comércio e serviços, que juntos compreendiam quase 70% dos
congressistas. Praticamente nada do mundo assalariado rural, nada do
sindicalismo dos funcionários públicos, nada dos núcleos de ponta do operariado
brasileiro.
Comparado aos
congressos da CUT, como o livro evidencia, a diferença é enorme. Na verdade,
trata-se de uma central totalmente embasada na velha estrutura sindical burocratizada
e que conta com uma liderança sindical nacional, Luís Antônio de Medeiros, que
está política e ideologicamente articulada e sintonizada com os interesses das
ciasses dominantes e que cumpre papel de relevo na desorganização das classes
trabalhadoras.
O capítulo que
trata da participação feminina confirma o burocratismo intrínseco da central:
somente 14% do total dos delegados eram compostos por mulheres, muitas delas
oriundas da burocracia de apoio dos sindicatos (datilógrafas, secretárias da
diretoria etc.), e não por membros da direção sindical propriamente dita.
O capítulo que
trata das orientações políticas (preferência/filiação partidária e votação
presidencial) tem indicações curiosas: o PT foi o partido preferido pelos
delegados (17,7%), seguido muito de perto pelo PMDB (16,9%), PDT (16,6%) e PSDB
(13,5%). Entretanto, quase 20% declararam não ter preferência partidária, sendo
que aproximadamente 24% dos delegados não responderam a essa pergunta, o que
possibilita supor a presença de uma simpatia (camuflada) a Collor. Na direção
nacional da FS, o PDT liderava com 27,8%, seguido pelo PMDB com 23%, o PSDB com
13,1 %, o PCB com 11,5% e o PT, por último, com 3,3%. Lula foi o mais votado
pelos delegados no primeiro turno (27,4%), seguido por Covas, Brizola, Collor e
Freire. Na direção nacional, Brizola aparece em primeiro com 31,7% e Lula cai
para quinto, com 9,5%. Cerca de 75% dos delegados não estavam filiados a nenhum
partido e 67% não tinham participado de nenhum congresso sindical anterior. Há,
como se pode ver, algumas disjunções entre "base" e cúpula, mas, na
ação concreta da FS, a cúpula, mais coesa ideologicamente, acaba impondo o
ritmo de atuação da central.
Outras informações
sobre profissão, idade, sexo, atuação sindical e concepções políticas são
oferecidas no livro, o que possibilita a formulação, pelos autores, de inúmeras
hipóteses/conclusões, muitas das quais provocativas e que poderiam ser
problematizadas. Cito duas que me parecem mais polêmicas: primeira, a que
minimiza a dimensão ideológica da FS, dotada de "baixo teor de
ideologia", mais "corporativa" e "trabalhista". Creio,
entretanto, que a FS é altamente ideologizada, tendo um ideário
claramente burguês, em nítida sintonia com o conservadorismo neoliberal. A FS é
a expressão sindical da jocosa onda Fukuyama. O apoio de Medeiros a Collor, bem
como a campanha dessa central a favor das privatizações, só para dar dois
exemplos, confirmam tal dimensão.
Segunda hipótese
polêmica: a que sugere uma vantagem do sindicalismo de participação e de
cooperação, preconizado, segundo os autores, pela FS, em face de um
sindicalismo de confronto e dotado de inspiração anticapitalista. Nas palavras
dos autores:
O modelo de
sindicalismo de participação e cooperação com outras forças políticas,
preconizado pela Força Sindical, parece mais adaptado às condições atuais da
tecnologia e da organização empresarial e da ampliação dos espaços de atuação
democrática, do que o modelo de confrontação, de "negociação
adversária", defendido pela CUT.
Parece-me,
entretanto, que a FS, embora flerte com a direita da socialdemocracia, acaba
inspirando-se mais no postulado neoliberal, no sindicalismo de negócios. E
acrescentaria: a crise aguda do sindicalismo europeu ao longo da década de
80 também não parece um exemplo que beneficie os defensores do sindicalismo de
participação. Num momento em que as perdas dos direitos sociais têm sido uma
constante até mesmo nos países capitalistas avançados que ainda convivem com um
desemprego estrutural explosivo, terá futuro o transplante, para
nós, de um modelo sindical que está em crise no centro? Estas e outras
indagações são suscitadas a partir dessa pesquisa empírica bem realizada, que
oferece uma radiografia detalhada das tendências que conformam a FS no seu
momento de constituição. E que, acrescida do entendimento da sua atuação
concreta, ajuda-nos a entender o significado real dessa vertente que efetuou
uma simbiose entre o velho sindicalismo da estrutura sindicai herdada do
getulismo e o ideário neoliberal e conservador do sindicalismo de negócios. Plenamente
integrada aos interesses da ordem.
Ricardo Antunes é
doutorem sociologia e professor de sociologia do trabalho na Unicamp. É autor
de A rebeldia do trabalho (Campinas, Editora da Unicamp) e O novo
sindicalismo (São Paulo, Scritta), entre outros livros.
Como o capítulo
anterior, os capítulos IV e V referem-se ao momento de transição democrática no
Brasil e "examinam casos específicos de reações populares" (p. 10). O
capítulo IV, "Que há de novo nos movimentos sociais no campo?", tem
como preocupação central verificar o quê, em "termos de cultura política e
de princípios éticos", está emergindo nos "movimentos sociais no
campo" (p. 10). Destacam-se os movimentos das Barragens, dos Sem-terra e o
de Mulheres agricultoras em sua contextualização histórica e os pré-requisitos
para as suas formações, seus alcances e limites, tanto de âmbito interno como
em relação aos contramovimentos e ao Estado. A maior preocupação do artigo são:
"os desafios para superar a tendência às análises fragmentadas da
realidade" que afastam os estudiosos dos MS da "visão do inter-relacionamento
das forças sociais ou, pelo menos, dos potenciais de articulação destas"
(p. 76). Já em "Projetos de grande escala, a ocupação do espaço e a reação
popular" (capítulo V), a autora "discute as formas de defesa dos
explorados e expropriados em conseqüência desses projetos de grande escala
durante o período autoritário, e as possibilidades de organização e
interferência nos processos de planejamento estatal no período de
democratização" (p. 11). Apesar de consciente dos custos sociais que implica
a execução desses projetos e do impacto destes sobre populações
"indiretamente atingidas" (p. 87), a autora deixou de incluir no
artigo os custos em termos de impactos sócio-ambientais, o que teria ampliado
as chances de se pensarem as possíveis articulações desses mesmos atores com os
dos movimentos ambientalistas. Porém, essa articulação será a base para o
artigo que compõe o capítulo seguinte.
"Movimentos
sociais rurais e meio ambiente" verifica "as condições (reais e
possíveis) de articulação entre a luta pela preservação da natureza e as lutas
pela preservação de um determinado modo de vida (esta última como predominante
nos movimentos sociais rurais)" (p. 95). Além disso, ressalta a
preocupação de "explorar em que medida existe uma questão ética na articulação
entre natureza (expressa nas lutas ecologistas) e humanidade (expressa nas
lutas pela sobrevivência)" (p. 96). O artigo, de 1990, situa a autora
entre os cientistas sociais brasileiros preocupados com a problemática
ambiental,3 na medida em que ela se preocupa com "verificar que tipo de
articulações concretas vêm se realizando entre movimentos sociais rurais e
ecologistas [...] e sob quais condições" (p. 96). Partindo da constatação
de que "de um modo geral não há uma consciência ecológica mais abrangente
entre as populações rurais" e de que "ela apenas aparece quando é
diretamente relevante para as condições de sobrevivência do próprio grupo"
(p. 99), Scherer-Warren observa que a luta pela preservação da natureza só faz
sentido enquanto luta pela preservação de um modo de vida. Afirma que é num
"contexto histórico, em que os movimentos vêm assumindo as formas de redes
com conteúdos éticos, que se iniciam as articulações entre a luta pela
sobrevivência e a defesa da natureza" (p. 104). Aqui se analisa como se dá
essa articulação entre os MS rurais, Movimento contra as Barragens, Movimento
Indígena e Movimento dos Seringueiros, do Brasil. Conclui que, situando-se tal
articulação em seu contexto histórico de desenvolvimento dos MS e "da
crise do Estado contemporâneo para atender as demandas populares", resta
verificar se esses movimentos rurais não estariam utilizando o discurso
ecológico apenas para relegitimar as suas necessidades, sem adquirir "uma
objetiva consciência ecológica" (p. 110). Esse artigo, apesar de inicial,
expressa preocupações que os cientistas sociais que trabalham a problemática
ambiental nem sempre visualizam, sendo por isso mesmo uma importante
contribuição para essa área de interesse.
No último capítulo
do livro, "Redes de movimentos: uma perspectiva para os anos 90",
Scherer-Warren denomina "as condutas sociais (ou coletivas) da sociedade
brasileira dos anos 90", como "sociedade atomizada",
"condutas de crise" e "movimentos sociais e condutas
defensivas". Após explicitar os três tipos de conduta a autora destaca, no
terceiro, como se constitui, nos anos 90, o processo de articulação em formas
de redes. Afirma que "o princípio de articulação define-se [...], a partir de uma identidade que se constrói no plano dos valores, em
torno de uma concepção de mundo" (p. 119). Ainda que de forma hipotética,
sugere que as redes de movimentos que vêm se formando no Brasil apresentam
algumas características comuns, como a "busca de articulação de atores e
movimento sociais e culturais, transnacionalidade, pluralismo organizacional e
ideológico, atuação nos campos cultural e político" (p. 119). Após
explicar cada uma dessas características, conclui deixando algumas
"questões/guias para investigação futura, que levam a pensar sobre significados
políticos potenciais para as redes de movimentos", tais como:
"construção de novas utopias", "práticas democráticas mais
tolerantes com a diversidade, mas não à desigualdade", "um novo
imaginário social de paz e não violência", e "em que medida a atuação
das redes de movimentos nos campos cultural e político constitui-se em
possibilidades de penetração/participação da sociedade civil na transformação
da sociedade política propriamente dita" (p. 123). Aproveitamos para
parabenizar a editora Loyola por sua nova coleção Estudos Brasileiros, que
pretende ser um espaço de divulgação para trabalhos significativos de análise
da nossa realidade, e também por ter-nos proporcionado uma sugestiva capa.
Iara Maria Chaves é professora do
Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Catarina. Tem
desenvolvido seu trabalho de pesquisa nas áreas de Ecologia Política e
Movimentos Sociais.
Etnografia e indigenismo: sobre os Kaingang, os Ofaié-Xavante e os
índios do Pará,
de Curt
Nimuendajú. Organização e apresentação de
Marco Antonio Gonçalves.
Campinas,
Editora da Unicamp, 1993, 160 pp.
"[...] quando
eu começo a falar sobre índios é sempre um nunca mais acabar", escreve
Nimuendajú no final de uma longa carta que contém várias informações sobre
alguns grupos indígenas do Pará: Aparai, Wayana, Tiryó, Kaiapó, Mundurucu,
Tembé, Arara, entre outros. A carta é endereçada ao indigenista Luiz Bueno
Horta Barbosa, residente na cidade do Rio de Janeiro, e foi escrita em julho de
1920 em Belém do Pará. Nela, Nimuendajú reconhece que suas informações sobre os
índios daquele estado eram ainda insuficientes e fragmentárias e que pouco
acrescentavam ao já conhecido, a não ser o fato de que, agora, seriam por ele
confirmadas. O destinatário da carta sabia bem o que aquela
"confirmação" significava: um trabalho minucioso de reunião de
informações, de leitura atenta de relatórios e periódicos, de entrevistas com
índios e habitantes do local, de expedições às áreas afastadas: enfim, um
cuidadoso trabalho de levantamento e conferência de informações que permitisse
a elaboração de uma síntese do que se sabia, até esse momento, a respeito
daqueles índios naquela região.
Tal carta precede
outras duas - escritas em dezembro de 1920 e janeiro de 1921, e endereçadas ao
mesmo indigenista - nas quais, entre outras questões, Nimuendajú faz ressalvas
ao fato de o governo brasileiro estar apoiando a expedição do gen. P. H.
Fawcett, qualificando-o de embusteiro; como aquele tipo que "se serve do
índio como rótulo para obter subvenções e favores".
As
três cartas foram publicadas no último capítulo do livro Etnografia e
indigenismo: sobre os Kaingang, os Ofaié-Xavante e os índios do Pará, de Curt Nimuendajú, com organização e
apresentação de Marco Antonio Gonçalves, professor da Universidade Federal do
Rio de Janeiro. O livro é composto por três partes onde são publicados
relatórios e correspondências de Nimuendajú endereçadas a Luiz Bueno Horta
Barbosa, "inspetor de índios" do estado de São Paulo e que em 1910,
ano da criação do Serviço de Proteção aos índios, empregou Nimuendajú como
funcionário do novo órgão para integrar as expedições de reconhecimento das
áreas indígenas do interior do estado de São Paulo.
Os manuscritos
permaneceram guardados no arquivo pessoal do indigenista Horta Barbosa por
setenta anos, até que em 1983 os originais foram doados, pela filha do
indigenista, ao organizador do livro. Esses textos de Nimuendajú, juntamente
com outros materiais que fazem parte do Arquivo Horta Barbosa, encontram-se
microfilmados no Centro de Documentação Etnológica do Museu do índio, no Rio de
Janeiro.
Infelizmente não
há no livro informações sobre Horta Barbosa nem as cartas que este teria
enviado para Nimuendajú, o que possibilitaria, sem dúvida alguma,
contextualizar melhor o material ora publicado e avaliar a relação entre estas
duas personagens da história do indigenismo brasileiro. O organizador não
enveredou por esse caminho, que teria permitido esclarecer a natureza da
relação de Nimuendajú com um alto funcionário do SPI, desvendando uma parte,
entre outras ainda obscuras, da biografia de um etnólogo que marcou a etnologia
de nosso país.
Na introdução,
Marco Antonio Gonçalves explicita o caminho que preferiu seguir:
Toda
vez que se tem a oportunidade de publicar os trabalhos de Curt Nimuendajú é
praxe que o organizador faça também uma introdução comentando não só a nova
publicação como também a vida e a obra desse homem que melhor dominou o
conhecimento sobre os índios do Brasil na primeira metade.deste século. Portanto, não seremos
exceção. Em nossa apresentação, sua vida e sua fibra serão destacadas com o
duplo objetivo de lhe prestar uma homenagem e salientar, ainda mais, o alcance
de sua empresa etnológica. [p. 9]
O organizador
apresenta sucinta biografia de Nimuendajú baseada em dados de outras biografias
e comentadores, seguida da apresentação dos textos inéditos que integram o
livro. A partir daí, procura estabelecer uma relação entre as datas e locais
das expedições de Nimuendajú e os seus resultados, isto é, as publicações.
Tem-se, então, um panorama das contribuições do etnólogo que, durante mais de
quarenta anos em contato direto com quase meia centena de grupos indígenas,
produziu obra vasta e diversificada que se ramifica pela etnologia,
arqueologia, lingüística, cartografia, história, museologia e indigenismo.
A vasta produção de
Nimuendajú contabiliza-se em cerca de setenta trabalhos - entre monografias,
artigos, relatórios e levantamentos lingüísticos - publicados em diferentes
periódicos e por importantes instituições acadêmicas, abordando temas como
organização social, mitologia, cultura material, história, língua, religião e
fornecendo informações gerais sobre os grupos indígenas estudados. Seus textos
de caráter indigenista e as correspondências como as que aqui se publicam são
frutos de suas viagens de reconhecimento ou de acompanhamento da situação de
diversos grupos indígenas, empreendidas a cargo do SPI em diferentes
localidades do país.
Alguns desses
relatórios e cartas foram publicados em 1982 no livro Textos indigenistas (coordenação
de Paulo Suess e introdução de Carlos Moreira Neto), que reúne textos escritos
por Nimuendajú ao longo de toda a sua atuação. O livro ora publicado, por sua
vez, reúne alguns dos materiais produzidos enquanto Nimuendajú residia em São
Paulo, e alguns outros produzidos depois de sua mudança para Belém do Pará. São
textos, portanto, que marcam o período inicial de sua produção.
Já se tinha
notícia dos apontamentos sobre os Kaingang e sobre os Ofaié-Xavante, aqui
incluídos, por meio das publicações de Von Ihering (1910 e 1912) e de Métraux
(1947), que se utilizam dos dados de Nimuendajú sobre esses índios. Mas o
próprio Nimuendajú reconhecia, em carta a Mansur Guérios, datada de 1944, que
suas informações sobre os Kaingang eram incompletas e não se atrevia ainda a
publicá-las, esperando poder um dia completar seus levantamentos (cf. pp. 28-9
da Introdução). Em uma nota de pé de página, o organizador justifica a
oportunidade e o interesse de se publicarem tais relatórios: eles contêm dados
importantes, do início do século, sobre os grupos indígenas, a respeito dos
quais as informações até o dia de hoje são escassas.
O capítulo sobre
os Kaingang é composto por três textos e dois vocabulários, em que Nimuendajú
compara o levantamento lingüístico que realizou entre os "Coroados
Kaingygn" com os de H. Seusch, entre os Botocudo Aweikoma, e o de F.
Krause, entre os Caiapó do rio Araguaia. Em "Notas sobre a organização
religiosa e social dos índios Kaingang", escrito em abril de 1913, ele faz
uma reconstituição histórica, que vai das denominações atribuídas aos Kaingang
e seus significados à apresentação do mito de origem do grupo, onde emergem
dois heróis culturais que marcam o pensamento dualista dos Kaingang, divididos
em dois clãs exogâmicos. Finaliza o texto com a descrição das práticas e
crenças associadas à morte. Os outros dois textos são curtos: "Notas sobre
a festa kikio-ko-ia dos Kaingang" e "O jaguar na crença dos Kaingang
do Paraná". Tratam, respectivamente, da festa do milho e da representação
do jaguar na cultura Kaingang.
No capítulo sobre
os Ofaié-Xavante são publicadas quatro cartas escritas entre janeiro de 1912 e
março de 1913, de Porto Tibiriçá e Alegre, relatando o desenvolvimento de suas
expedições para estabelecer contatos com os Ofaié e fazendo recomendações para
ações futuras do SPI. Num longo relatório sobre os Xavante do Mato Grosso
datado de 1913, Nimuendajú dá conta da história e dos desencontros dos Ofaié
com os brancos, reunindo fatos e dados que pôde coletar durante sua permanência
na área.
O interesse pelo
conjunto do material reunido no livro extrapola, sem dúvida, a mera curiosidade
por informações etnográficas pontuais. Revela muito sobre as condições nas
quais Nimuendajú realizava suas expedições, informando não só sobre suas
dificuldades, mas também sobre seus métodos de trabalho. Nas cartas há
descrições impressionantes que nos permitem avaliar com mais objetividade as
vicissitudes por ele enfrentadas na época, ao realizar seu trabalho de
localização e identificação dos grupos indígenas, e de escolha de locais para
instalação de postos do SPI: dificuldades em conseguir meios e recursos para os
levantamentos, inexistência de informações atualizadas sobre a localização dos
grupos, o que prolongava o tempo de realização das expedições em territórios
pouco explorados e de difícil acesso, além da animosidade da população regional
contra os índios e contra os funcionários do governo que procuravam melhor
sorte para eles.
A narrativa
econômica e precisa de Nimuendajú nos revela a dinâmica de atrocidades e de
violência que dominava o sertão e que caracterizava a relação entre índios e
moradores. Longe dos centros urbanos, onde o extermínio dos índios causava
controvérsia, a realidade do sertão era permeada por disputas que resultavam em
uma prática de matanças e escravidão de índios, contra a qual o Estado,
embebido por ideais positivistas, pouco conseguia fazer.
O cenário que
emerge dessas cartas, a compilação do que se sabia na época sobre os grupos
indígenas mencionados e as informações etnográficas coletadas por Nimuendajú e
apresentadas nesses relatórios até agora inéditos, fazem deste livro referência
obrigatória para a comunidade de etnólogos, sempre ávida por novos materiais
sobre essa figura ímpar que marcou o desenvolvimento da etnologia brasileira.
Luís Donisete
Benzi Grupioni é mestrando em Antropologia Social na USP e bolsista do CEBRAP.
1
Este estudo de
Wilma Mangabeira é uma importante contribuição para o preenchimento das lacunas
ainda existentes na bibliografia sobre movimento operário no Brasil.
A autora elegeu um
tema importante, o sindicalismo dos metalúrgicos da Companhia Siderúrgica
Nacional (CSN) de Volta Redonda, e o enfocou de um modo complexo e pouco
presente na bibliografia. Um dos eixos da pesquisa consiste no esforço para
unir a análise sociológica das relações de trabalho na Usina Siderúrgica de
Volta Redonda com a análise política das contradições do processo de
redemocratização no Brasil, criando um quadro rico de determinações para o
estudo da ação sindical dos metalúrgicos da Companhia Siderúrgica Nacional. O
movimento dos "operários do aço" aparece como a ação coletiva de um
grupo particular, enfrentando os problemas específicos da usina de Volta
Redonda, e, ao mesmo tempo, inserido no conjunto do movimento sindical
brasileiro e sujeito às injunções complexas da conjuntura política e econômica
nacional.
Um segundo eixo da
pesquisa consiste em caracterizar os metalúrgicos de Volta Redonda como um caso
típico do denominado novo sindicalismo, e a partir daí refletir sobre as
propostas e os limites do novo movimento sindical brasileiro. É polêmico e
interessante o balanço crítico que a autora faz, com base no estudo do caso de
Volta Redonda, desse novo sindicalismo. Considera que, em grande parte, esse
movimento não teria atingido o proclamado objetivo de democratizar o movimento sindical.
O novo sindicalismo apresentaria ainda marcas do velho sindicalismo corporativo
e burocrático.
Wilma Mangabeira
efetua uma análise sócio-política da trajetória recente do sindicalismo
metalúrgico de Volta Redonda.
A Companhia
Siderúrgica Nacional foi uma empresa-símbolo da política
nacional-desenvolvimentista do Estado populista. Os funcionários da empresa
estavam sujeitos a um regime de trabalho particular, residiam em casas
fornecidas pela companhia, no sistema de company-town, e eram alvo privilegiado
do discurso e da prática populista. Na década de 1970 essa situação mudou
muito. A geração mais antiga de trabalhadores se aposentou, o regime de
trabalho foi alterado e o novo operariado abandonou a antiga identidade de
"funcionários da companhia" e assumiu a de operários metalúrgicos. Em
1979 organizou-se a oposição sindical à diretoria pelega de Waldemar Lustosa.
Em 1983 a oposição, dirigida por Juarez Antunes, venceu a eleição e assumiu a
direção do sindicato. Em maio de 1984, na conjuntura de crise do regime militar
e sob o impacto do sindicalismo de São Bernardo e da vitória na eleição
sindical do ano anterior, os metalúrgicos de Volta Redonda organizaram a
primeira greve da história da CSN. Uma greve com ocupação da usina que "[
....] estabeleceu nítida diferenciação simbólica entre a nova e a velha geração
de operários" (p.84). A partir de então, os metalúrgicos da CSN realizaram
uma série de greves, algumas delas articuladas com greves gerais nacionais,
recorreram com freqüência à ocupação da usina e foram alvo de violenta
repressão.
Wilma Mangabeira
estuda esse movimento ao longo do período 1984-90 e o divide em três fases.
Entre 1979 e 1984
assistiu-se à formação e afirmação do novo sindicalismo em Volta Redonda, o que
correspondeu à ruptura do novo operariado com a geração de trabalhadores da
época da company-town. Nessa fase inicial, foi decisivo o sucesso da
greve de maio de 1984 e era grande a aceitação das lideranças do novo
sindicalismo junto à base operária.
A segunda fase
delimitada pela autora, que se estende de 1985 a 1987, foi marcada pela nova
política de gestão da CSN. De um lado, flexibilizaram-se os postos de trabalho
e reestruturaram-se as carreiras, afetando o nível de remuneração. De outro
lado, a implantação da Nova República ocasionou a renovação de pessoas e de
mentalidades na direção da CSN, o que redundou numa gestão mais democrática da
empresa. Nesses anos, a insatisfação dos operários diante dos novos critérios
de promoção e remuneração e a sua demanda para que a empresa divulgasse o novo
sistema de classificação de cargos e salários foram encampadas pela diretoria
do sindicato, o que a uniu às demandas operárias que brotavam no interior da
usina. No mesmo período, a diretoria do sindicato conquistou, graças à nova
política de gestão da empresa, o direito de fazer trabalho sindical dentro da
usina.
A terceira e
última fase do período analisado vai de setembro de 1987 a 1990. Após a greve
de agosto de 1987, quando o movimento foi alvo de violenta repressão militar, a
direção da CSN abandonou sua política de democratização da gestão. Foram
demitidos os ativistas sindicais e representantes da CIPA e revogadas as
cláusulas democratizantes que tinham sido acordadas em convenções coletivas
anteriores. A direção da CSN inicia uma batalha pelo aumento da produtividade,
pressionada pela política econômica de contenção do preço do aço e pela
retórica governamental privatista, e aumenta a repressão dentro da fábrica. O
trabalho de organização operária na fábrica passa para a atuação clandestina.
Se nas duas fases anteriores o movimento seguia uma linha ascendente, pode-se
perceber que a partir de 1987 e a crer na análise de Mangabeira, o movimento
acumula dificuldades. A diretoria do sindicato, da qual já tinha sido expulso,
na fase anterior, um grupo de esquerda, expurga, agora, alguns dirigentes mais
conservadores.
Ao tratar dos
conflitos e cisões na diretoria do sindicato, o estudo de Wilma Mangabeira foi
premonitório. Diferentemente do que ocorria em São Bernardo do Campo, a
diretoria antipelega que assumiu o Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda
em 1983 era uma frente instável, sujeita a cisões que vão se sucedendo ao longo
dos anos 80. A autora relata com cuidado essas cisões e aponta, também, a
relação desses conflitos na cúpula com tendências que se verificavam na própria
base do sindicato. De um lado, parece haver um setor radicalizado dos operários
que garante a predominância do grupo de esquerda, expurgado da diretoria do
sindicato, no trabalho sindical e político dentro da usina. De outro lado, no
grupo de operários não ativistas que a autora entrevistou, pôde-se verificar a
existência de uma aspiração ao assistencialismo sindical e ao apoliticismo, o
que servia de base aos dirigentes conservadores. A diretoria do sindicato
vê-se, assim, no final dos anos 80, numa situação delicada: criticada pela
esquerda e pela direita, tendo expurgado por via administrativa as minorias da
gestão do sindicato, defrontava-se, ainda, com o descontentamento crescente nas
bases e com a nova orientação autoritária da direção da CSN.
A derrota da
diretoria cutista na eleição sindical de 1992 para a oposição conservadora
ligada à Força Sindical, episódio ocorrido após o período coberto pela pesquisa
de Mangabeira, não aparece, para o leitor do seu trabalho, como um raio em céu
azul.
A autora pretende
opor o que denomina novo sindicalismo ao sindicalismo populista do pré-64 e ao
sindicalismo burocrático e pelego do período do regime militar. Apresenta como
características do novo sindicalismo: maior combatividade, maior
representatividade, forte inserção nos locais de trabalho, busca da
democratização do sindicalismo, posição contrária ao corporativismo sindical
estatista, politização, presença no cenário político-partidário nacional (pp.
12 e 15). A partir dessas indicações, Mangabeira, surpreendentemente, inclui no
novo sindicalismo praticamente todas as correntes, lideranças e organizações
sindicais existentes no Brasil dos anos 80: a CUT, as duas CGTs, Jair
Meneguelli, Juarez Antunes, Joaquinzão, Antonio Rogério Magri, Luís Antônio
Medeiros etc. (pp. 204-5).
Chama atenção a
heterogeneidade política e ideológica das lideranças e organizações
apresentadas como integrantes do novo sindicalismo. É difícil aceitar que uma
liderança como a de Joaquinzão se caracterizasse por uma "maior
combatividade", ou que Luís Antônio Medeiros tenha procurado ou procure
democratizar o movimento sindical. De resto, as lideranças das CGTs e da Força
Sindical jamais assumiram, nem sequer no plano do discurso, uma posição
contrária à estrutura sindical corporativa. Medeiros por muito tempo rejeitou,
no plano da doutrina, qualquer intervenção política dos sindicatos. No grande
divisor político-ideológico que foi o segundo turno da eleição presidencial de
1989, Medeiros apoiou Fernando Collor, enquanto a CUT apoiou a candidatura
Lula. A pesquisa se ressente da falta de uma definição mais restritiva e
rigorosa do novo sindicalismo.
Talvez a autora
tenha também ignorado os traços de permanência do passado nacional-populista no
movimento operário de Volta Redonda, o que lhe dá uma particularidade dentro do
quadro do novo sindicalismo. Como indica a própria autora, Juarez Antunes, a
liderança sindical mais importante de Volta Redonda nos anos 80, consagrou-se
como liderança política do Partido Democrático Trabalhista, o PDT do líder
populista Leonel Brizola. Antunes se elegeu prefeito e deputado pelo partido
que congrega as lideranças populistas remanescentes. No plano sindical, como
mostra Mangabeira, Juarez Antunes imprimia uma direção de tipo personalista e
paternalista (pp. 146 e 224). A situação da Companhia Siderúrgica Nacional,
empresa estatal e companhia-símbolo do nacional-desenvolvimentismo, não deve
ser assimilada à situação das montadoras de automóveis de São Bernardo,
empresas privadas e multinacionais. Talvez a nova geração de operários da CSN
ainda pague algum tributo à velha geração do tempo da company-town e dos
discursos de Getúlio Vargas em Volta Redonda.
NOTAS
*. Versão modificada da tese de
doutorado da autora, que lhe valeu o prêmio ANPOCS como melhor tese de
doutorado do ano de 1992.
Armando Boito Jr. é professor do
Departamento de Ciência Política da Unicamp e autor do livro O sindicalismo
de Estado no Brasil: urna análise crítica da estrutura sindical. São Paulo,
Hucitec, 1991.