EMBLEMAS DA NACIONALIDADE: O CULTO A 

EUCLIDES DA CUNHA (*)

Regina Abreu 

"Percorro toda a nossa história e penso que Os Sertões serão no futuro, para o Brasil, o grande livro nacional; o que Dom Quixote é para a Espanha ou Os Lusíadas para Portugal; livro em que a raça encontra a floração de suas qualidades; o espinheiral dos seus defeitos, tudo o que, em suma, é sombra ou luz na vida dos povos. "

E. Roquette Pinto

Apresentação

O ano de 1992 foi pontuado por celebrações. Duzentos anos da morte de Tiradentes, quinhentos anos da descoberta da América, setenta anos da Semana de Arte Moderna, setenta anos da derrubada do morro do Castelo e da criação do Museu Histórico Nacional. Os festejos estavam por toda parte. Comemoraram-se até os oitenta anos do bondinho do Pão de Açúcar!

Em meio a tantas celebrações, uma cidade no interior de São Paulo mobilizou-se para uma festa especial. Em São José do Rio Pardo, de 9 a 15 de agosto, os moradores se reuniram para realizar mais uma "Semana Euclidiana". Celebraram-se naquela cidade os noventa anos de publicação de Os Sertões e os oitenta anos de comemorações euclidianas.

Já há muitos anos, São José do Rio Pardo tornou-se a meca do euclidianismo. Para lá, todo o ano, durante o mês de agosto, dirigem-se admiradores do escritor Euclides da Cunha com o intuito de realizar um culto a sua memória. O Prefeito, políticos locais, intelectuais, comerciantes, escolas – enfim, toda a cidade participa anualmente desse ritual celebrativo.

De que maneira uma pessoa é escolhida para representar a nacionalidade? Ou seja: além de bandeiras, hinos, objetos relacionados a acontecimentos cívicos, pessoas seriam convertidas em emblemas nacionais. Como se verifica esse processo? No caso do culto a Euclides da Cunha, que representações de nação estariam sendo atualizadas ritualmente? Interessa-me aqui analisar a identificação da nacionalidade brasileira com determinados indivíduos considerados "autênticos" representantes da brasilidade.

Nesse sentido, vale a pena lembrar Dumont. Segundo esse autor, a nação moderna se caracteriza por ser concomitantemente uma "coleção de indivíduos" e um "indivíduo coletivo". A nação apresenta-se em geral como uma entidade autônoma, definida independentemente de suas relações com o todo social (ou cósmico). E desse modo ela pode ser identificada com indivíduos reais, sendo portadora dos mesmos atributos desses: caráter, personalidade, autonomia, vontade, memória, entre outros (Dumont, apud Gonçalves, 1988). Nesses casos, a nação é associada a personalidades que, por sua vez, são transformadas em símbolos ou emblemas da nacionalidade. Essas personalidades são qualificadas de diversas maneiras como "o grande escritor nacional", o "artista nacional", "o nosso maior político".

Essa metamorfose implica uma monumentalização da pessoa. Do mesmo modo que alguns "bens materiais" são tombados por um órgão destinado à preservação do patrimônio histórico e artístico nacional, essas pessoas adquirem uma "aura" e uma significação especial, passando a integrar o patrimônio cultural de uma nação. (1)

Na maior parte dos Estados-nações em que se observa esse fenômeno, a monumentalização de pessoas não está associada a nenhuma política deliberada de um órgão específico criado para esse fim. Ela ocorre como um fenômeno social, resultado de embates de um complexo jogo de forças sociais. Trata-se de um fenômeno até certo ponto invisível e de difícil apreensão. (2)

No caso brasileiro, o processo de monumentalização de indivíduos evidencia-se especialmente significativo. Como assinalou José Murilo de Carvalho, o Brasil, comparado com outros Estados-nações como a França e os Estados Unidos, parece carecer de símbolos realmente fortes capazes de aglutinar a população em torno de uma tradição nacional. Carvalho sinaliza o quanto essa carência de símbolos vem contribuindo para fragilizar a construção de uma identidade nacional: sendo as nações modernas essencialmente "comunidades imaginárias", fundadas até certo ponto arbitrariamente, o poder unificador dos símbolos tem emergido muitas vezes como crucial. E também através dele que tem sido possível garantir a adesão social necessária ao projeto nacional, formando o que Baczco chamou "comunidade de sentido". (3)

Mas se de fato existe uma carência de símbolos no cenário nacional, o processo de monumentalização de indivíduos pode estar apontando para um desses casos de exceção. Freqüentemente deparamo-nos com indivíduos (vivos e mortos) consagrados e identificados com a nacionalidade. Há o culto aos mortos, como o culto a Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo, o culto a Monteiro Lobato em Taubaté, o culto a Luiz Gonzaga em Exu, o culto a Vitalino em Caruaru. Entre a escolha em vida de indivíduos para simbolizar a nação, parece-me exemplar a escolha do escritor Barbosa Lima Sobrinho como cidadão número um do Brasil durante o processo de votação do impeachement do Presidente Collor.

Refletir sobre o processo de identificação de nacionalidades com indivíduos pode fornecer pistas importantes para a compreensão de representações da nacionalidade. Por meio deste artigo viso apresentar uma atualização da idéia de nação no caso brasileiro através do culto a um indivíduo-monumento. Procuro analisar os grupos sociais envolvidos no processo de construção desse bem simbólico. Apresento ainda uma característica bastante peculiar do culto a Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo: a luta por espaço intelectual frente ao poder hegemônico dos grandes centros.

Lugares de memória

A expressão "lugares de memória", formulada pelo historiador francês Pierre Nora, pareceu-me instigante para a análise do euclidianismo em São José do Rio Pardo. No entender desse autor, nas sociedades modernas a acentuada fragmentação da vida coletiva e a crescente valorização do indivíduo estariam gerando uma tendência à desagregação dos laços de continuidade. O advento da modernidade no Ocidente teria sido responsável pelo declínio de um tipo de sociedade que tinha na memória um de seus principais sustentáculos. Essas sociedades, chamadas "tradicionais", asseguravam a passagem regular do passado ao futuro ou indicavam, do passado, o que era necessário reter para preparar o futuro. Num processo crescente, os tempos modernos estariam sinalizando o enfraquecimento dessas. sociedades-memória ou com forte capital memorial, tal como certos agrupamentos familiares. (4)

Nora indica que teria surgido a necessidade de criação de "lugares" para a preservação de memórias coletivas antes geridas pelos próprios grupos sociais: Assim, chama "lugares de memória" tanto lugares materiais como museus, órgãos criados para a preservação do património nacional e arquivos, quanto lugares pouco palpáveis ou imateriais como aniversários, celebrações, elogios fúnebres (Nora, 1984).

As indicações de Nora sobre as conseqüências do advento da modernidade sobre a vida social têm o mérito de sublinhar questões específicas relativas ao campo da memória. Mas é importante assinalar que outros autores, embora não tenham se detido na temática específica da memória, também se destacaram com importantes contribuições sobre o tema do impacto das grandes transformações nas sociedades modernas. Entre eles encontram-se obras de Karl Polanyi, Norbert Elias, Louis Dumont e Pierre Bourdieu. (5)

Um dos propósitos de Pierre Nora tem sido organizar, com o auxílio de colaboradores, um inventário dos "lugares de memória" na França. O historiador francês propõe a exploração de todos os sentidos da categoria "lugares", dos mais materiais e concretos – como os monumentos aos mortos e os arquivos nacionais – aos mais abstratos e intelectualmente construídos, como a noção de linhagem, de geração, ou mesmo de região e de "homem-memória": do lugar mais sacralizado, como Reims, ao mais humilde manual com ensinamentos sobre a nação para crianças. Das crônicas de Saint-Denis, do século XIII, até o Trésor de la langue française, ainda inacabado; passando pelo Louvre, a Marseillaise e a enciclopédia Larousse. Nora sugere ainda que ao lado dos "lugares" inevitáveis da memória nacional, sejam buscados os lugares menos evidentes, como o calendário republicano, e mesmo os lugares desconhecidos, como a biblioteca popular do Marais ou o Dicionário de pedagogia de Ferdinand Buisson. São esses lugares sem glória, pouco freqüentados pela pesquisa e desaparecidos de circulação, que explicitariam melhor o que se designa por "lugares de memória".

 


 

 

 

A expressão "lugares de memória" serve como ponto de partida para este artigo. Dela retenho a idéia central de um "lugar" onde o tempo transcorre num ritmo diverso daquele em vigor num mundo em permanente e acelerado processo de transformação. Nora assinala que a razão de ser fundamental de um "lugar de memória"consiste em bloquear o trabalho do esquecimento, fixar um estado de coisas, imortalizar a morte, materializar o imaterial para guardar o máximo de sentidos num mínimo de signos. Por outro lado, os "lugares de memória" vivem de sua aptidão à metamorfose, nas incessantes transformações de suas significações e em suas ramificações imprevisíveis.

Mas se a expressão "lugares de memória" parece instigante e pode servir como ponto de partida, ela também oferece alguns riscos e problemas. Um dos mais graves consiste na excessiva generalidade do conceito. Para a análise que nos propomos realizar, é fundamental qualificar as modalidades de memória a que estamos nos referindo. De um lado, estamos trabalhando com a construção de uma memória individual. Entendemos memória individual no sentido durkheimiano, sentido esse fartamente explorado por Maurice Halbwachs, ou seja, a memória individual enquanto expressão de uma memória coletiva (Halbwachs, 1968). De outro lado, estamos enfocando uma vertente bastante específica da memória social: a memória nacional. Criada arbitrariamente, a memória nacional é uma aquisição relativamente recente, tendo surgido com a implantação dos Estados-nações no Ocidente e se consolidado durante os séculos XIX e XX. Norbert Elias observou que nesse período o desenvolvimento de ideais nacionais impregnou o mundo ocidental. As totalidades sociais passaram a ser representadas pelo conceito de nação. Ao lado de outros símbolos, a memória nacional vem desempenhando nos contextos nacionais um importante papel no sentido da agregação social (Elias, 1978).

O fato de o culto a Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo inscrever-se no contexto da memória nacional confere a esse "lugar de memória" um sentido definido, articulando-o a outras manifestações aparentemente pouco visíveis do campo da memória social.

A invenção da tradição euclidiana

O historiador inglês Eric Hobsbawm detectou um aspecto peculiar no estudo das tradições nas sociedades modernas. Muitas vezes tradições que parecem ou são consideradas antigas são bastante recentes, quando não inventadas. As tradições inventadas podem estar significando "reações a situações novas que ou assumem a forma de referência a situações, anteriores, ou estabelecem seu próprio passado através da repetição quase obrigatória" (Hobsbawm, 1984: 10). As tradições inventadas implicam automaticamente uma continuidade em relação ao passado. No processo de invenção das tradições, a legitimidade é alcançada por meio de repetições rituais de histórias sobre origens.

Hobsbawm assinala um paradoxo curioso: "as nações modernas, com toda a sua parafernália, geralmente afirmam ser o oposto do novo, ou seja estar enraizadas na mais remota Antiguidade, e o oposto do construído, ou seja, ser comunidades `naturais' o bastante para não necessitarem definições que não a defesa dos próprios interesses" (Hobsbawm, 1984: 22).

Desse modo, a história relatada pelos "inventores" de uma tradição adquire os contornos de uma história mítica, cuja função consiste em construir um centro ou um ponto de referência a partir do qual todo o resto é inscrito numa relação de continuidade. Em outras palavras, a invenção de uma tradição (e também a construção de um lugar de memória) implica o estabelecimento de uma origem e de uma história. Lembramos ainda que a existência de uma tradição está condicionada a sua permanente atualização. Para essa dinâmica, o simples ato de narrar história de fundação constitui um dos pilares de sustentação. (6)

Os adeptos do culto a Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo, situam como marco de origem o dia 15 de agosto de 1912, quando a morte trágica de Euclides da Cunha completava três anos.

O que detonou o culto? Por que Euclides da Cunha passou a ser cultuado em São José do Rio Pardo?

O motivo básico enunciado relaciona-se ao fato de ter sido naquela cidade que o escritor escreveu sua obra consagrada, Os Sertões, aproveitando momentos de folga da tarefa de reconstrução de uma ponte sobre o rio Pardo, enquanto engenheiro de obras públicas. Euclides da Cunha morou com sua família em São José do Rio Pardo durante os anos de 1898 e 1901.

Alguns rio-pardenses haviam conhecido o escritor e com ele mantido alguma proximidade. A passagem do aniversário de sua morte suscitava nessas pessoas o ensejo de uma homenagem póstuma. Alguém teve a idéia de sair de preto em direção à cabana nas margens do rio Pardo, local onde o escritor havia escrito seu mais famoso livro. À hora combinada, um grupo de cerca de seis pessoas iniciou uma romaria da porta da Prefeitura Municipal até a cabana à beira do Rio Pardo. Durante a caminhada, a população da cidade foi aos poucos aderindo à manifestação. Era o início da "romaria cívica" em prol da memória de Euclides da Cunha. Romaria que se prolongou por vários anos, transformando-se em festa oficial da cidade de São José do Rio Pardo e do governo do Estado de São Paulo.

A "terra santa" de Euclides da Cunha foi sendo esculpida aos poucos. O primeiro trabalho para o cultivo da memória de Euclides da Cunha consistiu em limpar a área ao redor da cabana que, em situação de abandono, havia sido ocupada por um matadouro próximo. Prevaleceu a idéia de autenticidade. Os cidadãos rio-pardenses almejavam reconstituir o ambiente que cercou a criação de Os Sertões. Na cabana, foi instalada a mesa onde Euclides escreveu e o banco de madeira onde ele se sentou para escrever. Procurou-se resgatar o clima sagrado da criação, preservando cada detalhe do entorno. A velha paineira sob cuja sombra Euclides descansava e que aos poucos morreu foi substituída por outra semelhante.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Houve uma intenção clara de resguardar do esquecimento os objetos sagrados, os instrumentos que serviram para a criação da obra consagrada. Verificou-se inclusive a preocupação em reter a paisagem que os olhos do escritor teriam conservado na retina. Os comuns mortais buscavam alcançar senão o gênio e a genialidade do escritor, ao menos tudo o que o circundava, a "aura" de Euclides. Os rio-pardenses inventavam uma nova qualidade para aquela cidade perdida no interior de São Paulo, grande produtora de cenoura, cebola e, a partir de então, da memória de Euclides da Cunha.

Dessa forma, a cidade foi magicizada. Com a invenção de uma terra santa de um grande escritor nacional, São José do Rio Pardo adquiria uma feição incomum: a paisagem bucólica da cabana à beira do rio Pardo indicava que tinha sido ali, e não em qual quer outro lugar do Brasil, que Euclides da Cunha teria escrito Os Sertões. E Os Sertões era o grande livro nacional. Como assinalou Roquette Pinto, se Portugal tinha Camões e Os Lusíadas, se a Espanha tinha Cervantes e Dom Quixote, o Brasil tinha Euclides da Cunha, o Brasil tinha Os Sertões!

Na invenção da tradição euclidiana estabeleceu-se claramente uma relação metonímica entre proprietário e propriedade e entre monumento e passado. Como assinalou Reginaldo Gonçalves em trabalho recente, quando isso ocorre "monumentos são considerados parte orgânica do passado e, na medida em que os possuímos ou os olhamos, estabelecemos, por seu intermédio, uma relação de continuidade com esse passado" (Gonçalves, 1988).

Na simbiose entre proprietário e propriedade, a nação estaria sendo identificada com o escritor e com seus atributos. A cidade de São José do Rio Pardo onde o escritor viveu, a cabana onde ele escreveu sua principal obra, seriam testemunhos materiais de sua presença, evidenciando uma relação íntima entre coisas e espíritos Preservando os objetos mais "autênticos" do escritor, sua "aura" estaria sendo preservada. A relação metonímica dos objetos preservados com o passado do escritor era assim ampliada para uma relação metonímica do escritor e da cidade de São José do Rio Pardo com a identidade nacional.

A preocupação com a "autenticidade'" disseminava-se por toda parte: o escritor "autenticamente" nacional, a obra que expressaria a "autêntica" nacionalidade, a preservação do exato lugar onde o escritor escreveu o livro consagrado (a cabana "autêntica", a paisagem "autêntica" que o escritor via enquanto escrevia), enfim um conjunto de associações que terminavam por criar uma ilusão conforme os objetivos dos organizadores do culto: a ilusão de que São José do Rio Pardo, pequena cidade do interior de São Paulo, guardava uma relíquia valiosa da nacionalidade. Nessa relação metonímica entre proprietário e propriedade, São José do Rio Pardo metamorfoseou-se numa cidade nacional por excelência (como Ouro Preto, como Aparecida).
 

A conquista do imaginário social

Uma vez inventado o culto a Euclides da Cunha, como ele adquiriu legitimidade? Como se processaram as adesões?

José Murilo de Carvalho utiliza a expressão "batalha de símbolos e alegorias" para enfocar o processo através do qual foram sendo implantados alguns dos principais símbolos nacionais na fundação da República brasileira. Guardando as devidas diferenças, o estabelecimento de um culto a um morto nacional implica sempre uma batalha. por adesões. Essa "batalha de símbolos e alegorias" tem como meta a conquista do imaginário social. Como ocorre em qualquer culto religioso, a implantação de um novo culto depende de aceitação e eficácia. "Um símbolo estabelece uma relação de significado entre dois objetos, duas idéias, ou entre objetos e idéias, ou entre duas imagens. Embora o estabelecimento dessa relação possa partir de um ato de vontade, sua aceitação, sua eficácia política, vai depender da existência daquilo que Baczko (Baczko, 1984) chamou comunidade de imaginação, ou comunidade de sentido. Inexistindo esse terreno comum, que terá suas raízes seja no imaginário preexistente, seja em aspirações coletivas em busca de um novo imaginário, a relação de significado não se estabelece e o símbolo cai no vazio, se não no ridículo" (Carvalho, 1990).

Como, efetivamente, o culto a Euclides da Cunha se implantou? Quais foram seus principais adeptos? De que maneira o culto se consolidou e se ampliou, chegando a completar oitenta anos?

Em 1918 os rio-pardenses ajardinaram a área e construíram a "herma de Euclides da Cunha". O jornal "O Estado de São Paulo" representou a primeira adesão significativa. O "Estadão" vinculava seu nome a um empreendimento que imbricava-se com sua própria história, já que nos primeiros anos da República esse jornal havia enviado o jovem repórter Euclides da Cunha para registrar a Guerra de Canudos. O ingresso do jornal foi acompanhado de importante donativo ao monumento e à cidade: um medalhão de bronze com um verso autobiográfico esculpido: "misto de celta, tapuia e grego". Esse donativo não era casual. Lembremo-nos que ao morrer, Euclides teve seu cérebro retirado e enviado ao Museu Nacional para estudo. Como um cérebro de um indivíduo que personificava a miscigenação racial poderia ter produzido obra tão genial? A antropologia física passou longas tardes buscando resolver esta questão tão crucial para a época.

Euclides personificava o gênio da raça. Da miscigenação nos trópicos, algo havia dado certo. Euclides simbolizava o homem brasileiro viável, possível, e mais do que isso, genial. Como ressaltou Afrânio Garcia Jr., desde a segunda metade do século XIX os intelectuais brasileiros debatiam o tema da raça, a partir principalmente das questões postuladas por Gobineau e Lapouge, que consideravam a raça mestiça como um estágio inferior. Os Sertões representou o primeiro esforço de revalorização dos mestiços brasileiros. O próprio Euclides da Cunha via a si mesmo como um mestiço, auto-referindo-se como "misto de celta, tapuia e grego" (Garcia Jr., 1993:24).

Por meio do medalhão de bronze o jornal "O Estado de São Paulo" marcava para sempre sua presença no culto a Euclides da Cunha, ao mesmo tempo em que enfatizava uma questão que se tornaria um dos principais aspectos do culto euclidiano. Cultuar Euclides da Cunha passou também a significar a difusão da crença num Brasil viável; posto que formado por brasileiros viáveis. Crença que implicava na condenação de um outro Brasil. inviável ou ao menos pouco representativo da autêntica nacionalidade: o Brasil do litoral. Na visão de Euclides da Cunha os mestiços do litoral, ao contrário dos sertanejos do interior, seriam incapazes de construir uma civilização autenticamente nacional devido à vulnerabilidade e à instabilidade causadas, pelas ligações muito próximas com as grandes metrópoles da Europa e da América.

A adesão do "Estadão" sinalizava para uma outra característica. As elites paulistas reiteravam o espírito bandeirante., Através de um jornal paulista, o escritor fora enviado a Canudos. Numa cidade paulista concluíra o grande trabalho redentor da nacionalidade. São Paulo mais uma vez adiantava-se, fundando e patrocinando a memória do grande escritor.

Em 1925, a Câmara Municipal aprovou projeto de Lei instituindo o dia 15 de agosto como feriado municipal na cidade de São José do Rio Pardo. A partir de então, a cidade passou a ter dois feriados: o dia 19 de março, data de fundação da cidade, e o dia 15 de agosto, data da morte de Euclides da Cunha.

Em 1928, a Prefeitura Municipal construiu uma, redoma protetora para a cabana, protegendo-a dos efeitos corrosivos do tempo. A redoma de vidro conferia uma aura toda especial ao barracão de zinco que serviu de refúgio para o escritor. "Ai que saudades do meu escritório de zinco em São José do Rio Pardo – diria ele numa carta ao amigo rio-pardense Francisco Escobar. – Creio que se persistir nesta agitação estéril, nada mais produzirei de duradouro." A frase de Escobar foi gravada e afixada na cabana. Com ela a força mágica, opoder especial de criação da cabana de zinco em São José do Rio Pardo era acentuado. Longe de sua cabana à beira do Rio Pardo, Euclides, nada mais havia produzido de duradouro, de eterno, de imortal. Imortalizando a cabana, retinha-se seu fluxo sagrado. A cabana era uma relíquia da manifestação da divina força poética que se manifestou no escritor. A redoma de vidro seria então capaz de imortalizar a cabana que imortalizou o escritor que produziu a obra imortal. Pois para que existem as redomas, senão para proteger as relíquias ou as imagens dos santos e das divindades?

Em 1935, dois paulistas decidiram criar novos eventos, contribuindo decisivamente para a consolidação das comemorações em torno da figura de Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo. Um médico, o Dr. Oswaldo Galotti, então com cerca de 34 anos, instituiu as "semanas euclidianas", organizando de forma sistemática comemorações que até então eram dispersas. Urn professor de português, recém-formado na USP, o Prof. Hercílio Ângelo, instituiu as "maratonas intelectuais euclidianas", visando atrair jovens de todo o Brasil para participar de estudos euclidianos e, durante as semanas comemorativas, responder sobre o escritor. As "maratonas" foram organizadas de maneira a estimular a competição entre os jovens. Os cinco primeiros lugares passaram a receber prêmios.

Com as "semanas euclidianas", a cidade de São José do Rio Pardo, passou a convidar intelectuais de renome nacional para que proferissem uma conferência. Essa tornou-se o ponto alto das semanas, com a presença de grandes personalidades na cidade. Em 1936 o convidado oficial foi o historiador Pedro Calmon. Nos anos subseqüentes, a cidade contou com a presença, entre outros, de Roberto Simonsen, Cassiano Ricardo, Guilherme de Almeida, Tristão de Athayde, Plínio Salgado, Gustavo Barroso, os tradutores de Os Sertões para o francês, para o inglês e para o alemão.


 


 
 

No início quase todos os conferencistas vinham do Rio de Janeiro, então capital e detentora da hegemonia intelectual no país. Aos poucos parece ter havido uma tendência de deslocamento para a esfera intelectual paulista. Nos três últimos anos, os conferencistas vieram da Universidade de Campinas, cidade bem próxima de São José do Rio Pardo.

Em 1946 o governo do estado de São Paulo fundou a "Casa Euclidiana", após a restauração e o tombamento da casa onde Euclides morou com sua família nos anos em que viveu em São José do Rio Pardo. Os procedimentos de organização da "Casa Euclidiana" seguiram os mesmos princípios adotados durante a restauração da "cabana". A intenção consistia em preservar a aura de Euclides através de seus objetos mais autênticos. Como a maior parte dos móveis e pertences do escritor dispersou-se após sua morte, os organizadores poderiam ter optado por criar reconstruções e ambientações a partir de documentos originais, como acontece em grande parte dos museus americanos. Entretanto, não foi essa a opção seguida. O "falso absoluto" descrito por Umberto Eco, que parece predominar em toda a América do Norte em reconstruções de ruas, casas e muitas vezes cidades inteiras, não parece ter dominado. Pelo contrário, mesmo deixando enormes espaços vazios no interior da antiga residência do escritor, a preferência recaiu sobre a documentação "autêntica". A "Casa Euclidiana" tendeu a constituir-se em pequeno museu um pouco desordenado, onde balas e armamentos usados em Canudos passaram a conviver lado a lado com fotografias do escritor e de sua família, árvores genealógicas, fotografias dos militares e dos sertanejos em Canudos, quadros pintados por artistas locais tematizando a paisagem bucólica de São José do Rio Pardo, com a ponte e a cabana em primeiro plano. Em vitrines, dispostas geralmente no meio e nos cantos das salas, passaram também a ser exibidos objetos antigos doados por famílias de rio-pardenses, sinalizando a busca de inserção no templo sagrado de Euclides da Cunha.

A "Casa Euclidiana", nesse contexto, emergiu como um misto de museu e arquivo do escritor e antiquário da cidade. E foi a partir de sua criação, enquanto lugar de memória oficial, legitimado pelo governo do estado de São Paulo, com funcionários exclusivos pagos pelo governo estadual, que o euclidianismo consubstanciou-se definitivamente.

A partir de então tudo passou a ser arquivado, documentos e fotografias da vida e obra de Euclides da Cunha e toda a documentação do próprio culto euclidiano. Com a "Casa Euclidiana" o dever da memória (memória encompassada pela história) fez-se presente. Os moradores de São José do Rio Pardo passaram a pesquisar obsessivamente sobre suas origens e sobre possíveis relações de seus ancestrais com o ilustre escritor que ali habitou. Francisco Escobar, o prefeito da cidade quando Euclides da Cunha por ali passou, foi retirado do limbo do esquecimento. Histórias começaram a ser relatadas sobre "a provável amizade entre os dois". As filhas de Escobar passaram a participar do culto como convidadas de honra. As famílias rio-pardenses remexiam seus baús de família procurando toda a sorte de objetos e documentos que lhes parecessem significativos sobre a passagem do escritor pela cidade, sobre a origem da cidade e sobre suas próprias histórias.

Num movimento análogo, a "Casa Euclidiana" iniciou uma ampla documentação sobre o próprio culto. As conferências, os discursos, as fotos das "semanas euclidianas", enfim, tudo ou quase tudo passou a ser armazenado. O euclidianismo escrevia sua própria história, seguindo o movimento assinalado por Nora, onde cada disciplina passou a percorrer sua própria constituição, reclamando sua própria história.

Etnografia da Semana Euclidiana

Em agosto de 1992, verificou-se que efetivamente o culto à memória de Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo constituía um evento consolidado, contando com a liderança dos euclidianistas e a adesão da população da cidade e de elementos de cidades próximas.

Nos últimos anos, a programação ampliou-se, contando com vários eventos: um "Desfile de Abertura", a "Gincana Euclidiana", a "Maratona. Euclidiana", a "Conferência" seguida de um "Concerto", a "Romaria Cívica" e o "Baile Branco".

O "Desfile de Abertura" é o momento em que a população da cidade mais participa, através das escolas, clubes, entidades, associações, bandas e fanfarras. Geralmente, são organizadas alas que representam de forma lúdica temas vinculados ao euclidianismo. Em 1969, por exemplo, uma das alas apresentava meninas vestidas com roupas típicas dos países para os quais o livro Os Sertões foi traduzido. Cada uma trazia nas mãos o livro com a respectiva tradução. Em 1992, devido à passagem dos oitenta anos de comemorações euclidianas, foram organizadas alas lembrando as principais, conferências e os nomes dos conferencistas que passaram pelas semanas através dos anos. O clima nessas ocasiões é de festa, com grande participação de bandas e grupos artísticos locais.

A "Gincana Cultural Euclidiana" é voltada para alunos das escolas de São José do Rio Pardo (são dez escolas ao todo). Os alunos se reúnem num grande estádio e uma equipe de cada colégio responde a perguntas formuladas por euclidianos e professores de história, geografia e literatura sobre temas da vida, e obra do escritor. Ao final uma das escolas ganha a taça Euclides da Cunha, além de prêmios que algumas vezes são oferecidos por comerciantes locais. A "Gincana" acontece há apenas dois anos, mas é um evento que vem mobilizando bastante os estudantes, reunindo. mais de mil deles no estádio.

Uma breve análise das perguntas formuladas aos estudantes durante a "Gincana" permite entrever o trabalho de construção da memória de Euclides da Cunha. Nesse caso depreende-se uma forte tendência a apresentar o escritor como detentor de três qualidades básicas: atual, profético, precursor da literatura brasileira.
 

"P.-Um tema bem atual é focalizado por Euclides da Cunha no livro Contrastes e Confrontos. Qual é ó tema?

R. - `O homem fazedor de desertos', isto é, o homem queimando as florestas para plantar, realizando as tradicionais `queimadas'."

Ou ainda:

"P. - Além de revelar uma nova realidade telúrica, o livro Os Sertões apresenta outro aspecto de importância. Qual é esse aspecto?

R. - É o ponto de partida para a.literatura brasileira moderna."

Ou ainda:

"P. - No estudo `Primado do Pacífico', que foi publicado no livro À Margem da História, Euclides previu em 1909 um acontecimento que se concretizaria na Primeira Guerra Mundial em 1921. Qual foi esse confronto?.

R. - O conflito entre os Estados Unidos da América e o Japão."

Euclides é também apresentado como um homem adiante de seu tempo, incompreendido pela maior parte de seus contemporâneos. Outro assunto enfocado refere-se às sucessivas mudanças de Euclides pelo Brasil, fruto de uma insatisfação constante, de exílios que o escritor impunha-se a si mesmo após sucessivos empreendimentos frustrados. Além destas e de outras questões genéricas relativas à vida obra do escritor, os euclidianos indagam ainda sobre a construção da memória de Euclides; historicizando o próprio culto que idealizaram.

"Em que ano foram criadas as `semanas euclidianas'? Quem foi o idealizador? Em que ano foi inaugurado o mausoléu de Euclides da Cunha? Que restos mortais ele guarda? Qual o trecho da carta gravado no monumento? A quem Euclides escreveu essa carta?..."

Curiosamente, o colégio vencedor tem sido o "Colégio Euclides da Cunha", um colégio público estadual considerado por muitos o melhor da cidade.

A "Maratona Euclidiana" vem se realizando há mais de cinqüenta anos ininterruptamente. Trata-se do maior foco de difusão do pensamento sobre Euclides da Cunha. Durante uma semana, estudantes de vários pontos do país (a maior parte vem de São Paulo) assistem palestras proferidas por euclidianos e professores visitantes também adeptos do culto. Ao final da "Semana Euclidiana" os estudantes reúnem-se numa ampla sala e prestam exame. Os cinco primeiros lugares são premiados.

Os estudantes que chegam a São José do Rio Pardo são selecionados em suas cidades por professores (em geral de literatura) associados à rede do euclidianismo. Alguns desses estudantes iniciaram seus estudos em São José do Rio Pardo ainda no primeiro grau ("Mini-Ciclo de Estudos Euclidianos"), continuando no segundo grau ("Introdução aos Estudos Euclidianos"). Muitos vêm diversas vezes a São José do Rio Pardo durante as "Semanas Euclidianas".

Alguns dos euclidianistas que hoje coordenam as atividades (sacerdotes do culto) passaram pela condição de "maratonistas". É o caso de Adelino Brandão, vencedor das maratonas de 1952 e 1955, que atualmente exerce a função de orador oficial do euclidianismo.

Em geral, os "maratonistas" são jovens na faixa de 15 a 18 anos, tanto do sexo feminino quanto masculino. A maior parte é originário de cidades próximas a São José do Rio Pardo e da cidade de São Paulo.

A "Conferência" é realizada no auditório mais elegante da cidade, em tom muito solene. O conferencista ganha uma placa de bronze com os agradecimentos da cidade por sua participação, que "contribuiu para abrilhantar a semana". No ano de 1992 o conferencista foi um jovem Doutor em Letras da Universidade de Campinas, com tese orientada pelo Professor Antônio Cândido, o Prof. Antonio Arnoni Prado.

Ao iniciar a conferência, Prado lembrou de sua infância no interior de São Paulo, quando ouvia falar das célebres "Conferências de São José do Rio Pardo". Sentia-se pois honrado ao ser incluído num panteão de homens tão brilhantes e sábios como os que o haviam antecedido.

A "Conferência" constitui uma das principais instâncias de legitimação do culto euclidiano. A vinda de um intelectual consagrado por um grande centro de produção intelectual cumpre basicamente duas funções: difundir o evento e a cidade de São José do Rio Pardo; formar um panteão de nomes consagrados e consagradores, ou seja, transformar a "Semana Euclidiana" num mecanismo de consagração no mercado de produção intelectual.

A "Conferência" atende ainda ao objetivo de enaltecer a figura de Euclides. No caso da conferência do jovem professor de Campinas, um fato chamou a atenção: a ênfase na representação de Euclides como um autor onde vida e obra se mesclavam. O conferencista classificou Euclides como um autor "que se jogava no mar alto da vida como Lima Barreto e Augusto dos Anjos". A comparação positiva de Euclides da Cunha com Lima Barreto é recorrente entre os euclidianos. Nessa direção, menciona-se a coragem de ambos no sentido de emitir suas idéias sem se subjugar.

O "Concerto de Música", que se realiza após a "Conferência"; fica a cargo de um músico de renome. No ano de 1992 coube à pianista Eudóxia de Barros, que procurou executar ao piano clássicos nacionais, terminando apoteoticamente com o "Hino Nacional".

A "Romaria Cívica" ocorre sempre no último dia da "Semana Euclidiana", exatamente no dia da passagem do aniversário de morte do escritor. A banda da cidade "Corporação Musical Euclides da Cunha" sai da porta da "Casa Euclidiana", rememorando o ato dos contemporãneos de Euclides em 1912, em direção ao sacrário do escritor à beira do rio Pardo, entre a ponte e a cabana.

A banda é seguida por um batalhão de soldados do exército local, pelo Prefeito e sua comitiva, pelos euclidianistas, pelos maratonistas e finalmente pela imprensa. Ao passar pelas casas, a romaria é saudada pelos moradores. Alguns a acompanham.

À porta da cabana, as autoridades locais ocupam um pequeno palanque e discursam para a população. A sessão tem início com execução do Hino Nacional. O orador solicita que todos se perfilem em sinal de respeito. O orador convidado para essa cerimônia mais uma vez tece elogios a Euclides. A certa altura a palavra é franqueada ao público. Nessa ocasião discursos políticos inflamados sobre a situação do país são proferidos. Os euclidianistas nesse momento aproveitam para enfatizar a atualidade de Euclides da Cunha em face das "dificuldades pelas quais o país vem passando". O prefeito fecha a sessão. A população assiste apinhando-se por toda a volta. O som dos alto-falantes repercute pela cidade.

O fechamento do evento fica por conta do "Baile Branco". Nele, as damas devem vestir-se de branco. Alguns atribuem essa tradição às visões de Euclides, que sistematicamente era tomado por delírios onde via mulheres de branco esvoaçantes. A decoração do baile busca criar um clima místico: uma esvoaçante manequim envolta em véus brancos, suspensa por cordas no meio do salão, paira sobre as cabeças dos convidados. O euclidiano mais antigo, o médico Dr. Oswaldo Galotti, abre o baile.

Os euclidianistas

No entender dos euclidianistas o escritor Euclides da Cunha seria um precursor da literatura brasileira moderna. Euclides da Cunha teria também inaugurado uma maneira de pensar e conceber o Brasil e a brasilidade.

Os euclidianistas percebem-se como apóstolos e discípulos, pregando e.difundindo as lições do mestre. São também continuadores de sua missão intelectual, acrescentando com novos trabalhos, aspectos inconclusos da obra de Euclides da Cunha. Entre os inúmeros artigos e ensaios publicados por eles, a "Enciclopédia de Estudos Euclidianos", editada em 1982, durante a passagem dos oitenta anos da publicação de Os Sertões, enuncia a dimensão da tarefa que esses intelectuais se auto-impõem nessa direção. Nessa coletânea de textos os autores se preocupam em prosseguir o trabalho do mestre, seguindo pistas que teriam sido deixadas por Euclides em artigos como por exemplo "As trilhas que partem de Os Sertões e de Euclides" (Francisco Marins); "Revisão Histórica de Canudos" (Honório de Sylos); "As Mulheres de Os Sertões" (José Calasans).

 


 


 
 

Mas afinal quem são os euclidianistas? Qual a extensão do culto a Euclides da Cunha? O que visam atualizar, na difusão de um pensamento euclidiano?

Num levantamento preliminar, detectamos em torno de oitenta a cem euclidianistas sistemáticos e fiéis. Esse grupo comparece às solenidades em São José do Rio Pardo e também em Cantagalo, cidade natal do escritor, onde há uma "Casa Euclidiana" e, anualmente, comemora-se a data de nascimento do escritor. Além disso, desenvolvem atividades em outras cidades, notadamente na capital e no interior paulista. Há basicamente quatro gerações de euclidianistas que vêm se sucedendo desde 1912. O recrutamento de novos adeptos se faz de forma privilegiada, por meio das maratonas ou ciclos de estudos euclidianos.

A escolha dos elementos para ocupar posições de prestígio no euclidianismo ocorre com base no desempenho intelectual entendido como alto grau de conhecimento da vida e da obra do escritor (um conhecimento em que pesa a correta memorização de dados factuais), capacidade de falarem público (a oratória é extremamente valorizada), participação ativa nas solenidades.

Grande parte dos euclidianistas são egressos de cidades do interior paulista (Jundiaí, Campinas, Ituverava, Bragança Paulista, Franca, Botucatu, Orlândia, São José do Rio Pardo, Dourado, Espírito Santo do Pinhal). Há ainda elementos oriundos da capital paulista, de Belém, de Aracaju, de Serrinha (Bahia), do Rio de Janeiro, entre outras cidades do país.

Os descendentes de Euclides da Cunha desempenham papel decisivo, conferindo legitimidade ao culto. Até bem pouco tempo suas netas, Eliete da Cunha Tostes e Norma da Cunha Póvoa eram vivas e participavam das solenidades, embora não realizassem atividades intelectuais. Com a morte das duas, o herdeiro oficial da família é o marido de Eliete, Joel Bicalho Tostes: Este atua como euclidianista, estudando e publicando sobre Euclides da Cunha.

Em termos sócio-econômicos, os euclidianistas estão situados nós estratos das camadas médias. Com relação ao campo intelectual, é comum encontrar entre esses intelectuais, profissionais liberais corri certa "formação enciclopédica autodidata" exercendo várias atividades que se combinam. Advocacia, magistério, jornalismo, política, literatura são as mais recorrentes. É curioso notar que suas trajetórias aproximam-se bastante da trajetória do próprio Euclides da Cunha, que combinava a engenharia com a literatura, o jornalismo, a sociologia, a formação militar. Euclides da Cunha expressou de, forma exemplar um momento de transição entre um modelo de intelectual que se desenvolvia basicamente por meio da literatura e um outro modelo posterior associado a novas formas de saber, normatizadas pela produção científica. Os intelectuais, associados ao primeiro modelo eram regidos por instâncias de produção de saber como as academias de letras, os institutos históricos e geográficos, as faculdades de direito, de medicina e de engenharia. Já no segundo caso, novos centros universitários gradativamente implantados no país tornaram-se hegemônicos na condução da vida intelectual.

Euclides da Cunha foi um dos primeiros a esboçar uma análise científica. A constatação desse fato levou o crítico Antônio Cândido a comentar que a publicação de Os Sertões assinalava "um fim e um começo: o fim do imperialismo literário; o começo da análise aplicada aos aspectos mais importantes dá sociedade brasileira" (Cândido, 1980:133 apud Pontes, 1989:362). Entretanto, a hegemonia da literatura e a ainda frágil organização do campo propriamente científico da produção intelectual caracterizou o perfil do mundo intelectual em que vivia Euclides da Cunha. Os euclidianistas, sob certos aspectos, parecem sinalizar a sobrevivência e a atualização desse modelo de intelectual, onde análises que se pretendem científicas apresentam-se mescladas a formas literárias. Para esses intelectuais, as academias de letras locais são parâmetros importantes, além de lugares privilegiados de produção de saber.

Uma outra instância relevante para a veiculação das idéias dos euclidianistas é a imprensa. Nesse caso, estamos nos referindo a jornais de circulação restrita nas cidades onde atuam. Nesses jornais os euclidianistas são intelectuais bastante considerados. Ocupam um espaço de peso em pequenos jornais, um lugar que parece ter sido quase banido da grande imprensa: os artigos de opinião. São artigos em que os autores escrevem com imensa carga de subjetividade, enunciando estilos próprios e peculiares. Os euclidianistas consideram esses artigos como parte da estratégia pedagógica do culto: servem para difundir valores. Nessa direção, a retórica é decisiva. Mais do que o tema, o conteúdo ou as idéias, explicita-se uma maneira de dizer onde os autores deixam claro o compromisso com seus ideais. Aspectos da trajetória de Euclides da Cunha são narrados de forma exemplar, permitindo a emissão de juízos de valor sobre a relação dos indivíduos com a nacionalidade. Em alguns casos esses artigos constituem verdadeiras aulas de cidadania ou civismo.

Há grande incidência de euclidianistas que completaram estudos superiores em suas cidades de origem (Faculdade de Ciências e Letras de Bragança Paulista, Faculdade de Educação Artística da Escola Superior de Belas Artes Santa Marcelina de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Franca (SP), Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Pardo são alguns exemplos). No campo da formação intelectual, a situação do interior do estado de São Paulo parece diferir bastante se comparada à de outros estados. Não são poucas as cidades que detêm boas escolas e faculdades. Vale lembrar que o estado de São Paulo é um dos estados mais ricos da federação e que algumas dessas cidades do interior estão entre as mais ricas do país. As cidades do interior paulista abrigam inclusive intelectuais de outras cidades, especialmente do Norte e do Nordeste.

A valorização do interior, notadamente do interior paulista, fica explicitada quando esse grupo de intelectuais, em grande parte oriundos do interior paulista, enfatiza o fato de ter sido numa cidade do interior de São Paulo que Euclides obteve as condições necessárias para produzir sua obra consagradora.

As trajetórias de alguns euclidianistas indicam certo movimento ascendente através de vários estabelecimentos de ensino em cidades do interior de São Paulo, atingindo a capital paulista. Há alguns elementos com diplomas de pós-graduação em Letras e História obtidos em universidades paulistas, notadamente USP e PUC.

Os euclidianistas movem-se no campo da produção intelectual. Nesse campo, a posição dominante é ocupada por grandes centros universitários e academias consagradas. No contexto universitário destaca-se o papel catalizador de produção e difusão do conhecimento; especialmente na área das chamadas Ciências Sociais, da Universidade de São Paulo. Os euclidianistas tomam principalmente a USP e a Universidade de Campinas (talvez pela proximidade com a cidade de São José do Rio Pardo) como referências para seus trabalhos. Percebe-se um duplo movimento. Por um lado os euclidianistas buscam a legitimação e a consagração desses grandes centros, o que se observa principalmente nos convites emitidos a intelectuais de renome para proferir conferências ou participar das semanas, e também no fato de alguns desses intelectuais realizarem cursos de pós-graduação ou mesmo de graduação nessas universidades. Por outro lado, esses grandes centros são muitas vezes questionados, chegando mesmo, em alguns casos, a serem relegados a um segundo plano.

Nos últimos anos, elementos mais jovens e mais afinados com novas tendências e correntes de pensamento difundidas pela Universidade de São Paulo e pela Universidade de Campinas vêm se contrapondo aos mais velhos. Esses chegaram a formar uma "Associação de Estudos Euclidianos" e através dela organizar eventos paralelos aos organizados pelos diretores da "Semana Euclidiana". O objetivo principal desses eventos consiste em trazer para São José do Rio Pardo professores universitários considerados mais modernos.

Esse tem sido um foco de grande tensão entre os euclidianistas, provocando acirradas polêmicas durante os encontros.

Os euclidianistas, de uma maneira geral, são intelectuais de renome em suas cidades de origem, mas que não participam da rede de relações e que não manipulam certos códigos dos grandes centros. É interessante observar que muitos deles são sócios e membros de Grêmios e Academias Literárias de cidades do interior (Grêmio Euclides da Cunha, Centro de Estudos Euclidianos de São Paulo, de São José do Rio Pardo, de Araçatuba, de Jundiaí, Academia Paulista de Letras, Academia Jundiaiense de Letras, Academia Sorocabana de Letras). Foram também agraciados com prêmios, medalhas e diplomas de distinção e louvor dessas instituições.

Entretanto, esses mesmos intelectuais não têm acesso a entidades de maior peso na hierarquia nacional. Quando um jornal da grande imprensa edita uma matéria sobre Euclides da Cunha, os euclidianistas poucas vezes são chamados para emitir suas opiniões. Quando isso ocorre, o texto é editado e padronizado, diferindo bastante do padrão editorial dos jornais onde esses intelectuais estão habituados a escrever. Como Euclides da Cunha constitui um tema bastante freqüentado pela chamada grande imprensa, são freqüentes as polêmicas. Alguns euclidianistas queixam-se freqüentemente de injustiças cometidas por esses jornais, sendo que uma das mais recorrentes diz respeito à não-publicação de artigos e cartas remetidas por eles. Há uma tensão permanente entre euclidianistas que se consideram legítimos divulgadores do pensamento de Euclides da Cunha e representantes dessas instâncias consagradas, seja a grande imprensa, a Academia Brasileira de Letras ou os grandes centros universitários. Um euclidianista, por exemplo, referia-se indignado ao ingresso do médico Dr. Ivo Pitanguy na ABL. "Onde já se viu um médico na Academia Brasileira de Letras? Onde é que isto vai parar, é uma desmoralização!" Ou ainda: "Eu conheço poetas ótimos em Belém, em cidades no interior do Nordeste, na cidade onde moro, mas a Folha de S. Paulo só publica esses garotinhos que não sabem escrever!"

A Academia Brasileira de Letras povoa de maneira especial o imaginário dos euclidianistas, sendo reconhecida como importante instituição consagradora. Talvez para isso tenha contribuído o fato do próprio Euclides da Cunha ter ocupado nessa academia uma cadeira, a mesma que pertenceu a Castro Alves.

A posição dos euclidianistas no campo intelectual hegemônico não é exatamente uma posição dominada,.de intelectuais que entraram recentemente e disputam a posição dominante. Ela me parece uma posição de exclusão. No cume da hierarquia não. há lugar para os euclidianistas. Estes não parecem dispor do capital necessário para entrar na concorrência: acesso a determinadas redes de relações, inserção e recqnhecimento nos. grandes centros acadêmicos (Bourdieu,1975).

Uma das estratégias acionadas consiste na permanente ênfase na importância do interior enquanto cerne da realidade nacional autêntica. Os euclidianistas buscam repetir a trajetória de Euclides da Cunha, um intelectual do interior que alcançou a posição de renome nacional.

Por outro lado, não deixa de ser significativo que o euclidianismo continue a crescer, angariando novos adeptos a cada ano, sobretudo entre os mais jovens. De fato, esse movimento vem ocupando um extenso circuito de cidades, academias, jornais e tribunas do país. Independentemente das polêmicas com instituições de maior peso na hierarquia nacional, que por vezes ocorrem, o euclidianismo parece possuir um espaço próprio de realização já consolidado e institucionalizado.

A difusão da palavra de Euclides

Uma característica marcante do euclidianismo relaciona-se à preocupação em difundir a palavra do escritor. O tema do nacionalismo é o mais recorrente. Difundir a palavra de Euclides significa difundir valores onde uma certa vertente de nacionalismo desponta em primeiro plano.

A principal representação de nação que – é atualizada diz respeito à autenticidade do interior (do sertão), por oposição aos estrangeirismos do litoral, que mesclam e falseiam.

Lembremo-nos que uma das teses centrais de Os Sertões funda-se nesse tema. Euclides da Cunha chamava a atenção para a distância entre as visões de mundo que prevaleciam no litoral e aquelas compartilhadas pelos habitantes do interior. O sertanejo era apresentado por ele como "antes de tudo, um forte", como fonte e substrato da nacionalidade. Os brasileiros do interior seriam, num certo sentido, mais brasileiros, já que o interior, livre das influências estrangeiras, poderia preservar uma cultura autêntica capaz de fornecer as bases para a constituição de uma cultura nacional. Aos brasileiros do litoral restaria a tendência à imitação, à cópia. Tomando como referência o Brasil do litoral, a nação brasileira seria inviável, pois nada teria de próprio, de singular, de autêntico. As influências estrangeiras e o cosmopolitismo ocasionariam no litoral uma "civilização de empréstimo". Assim, denunciou o escritor, ao massacrarem os sertanejos de Canudos, as elites demonstraram estar "cegas aos quadros reais" das vidas da maior parte do povo brasileiro – substrato da nacionalidade.

Primeiro lema: "quantidade não significa qualidade ".
 


 

Barbosa, Afrânio Peixoto. Estes teriam produzido uma obra extensa (deixaram cada um deles mais de cem livros publicados), enquanto que Euclides da Cúnha teria deixado "obra de poucos títulos". Entretanto, suas poucas palavras teriam um significado decisivo, mais importante do que as muitas palavras de seus contemporâneos. O primeiro lema serve para introduzir o tom profético que perpassa pela representação euclidianista da obra de Euclides.

Segundo lema: a genialidade do escritor

A vida literária de Euclides da Cunha é resumida em sete anos. Os limites vão da publicação de Os Sertões (1902) até a preparação dos originais de À Margem da História (1909). Os euclidianistas fazem uma distinção entre a vida biológica e a vida literária do escritor, enfatizando o pouco tempo dispendido na produção de obra tão significativa (genialidade).

 

 


 

A distinção entre vida literária e vida biológica explica em parte o fato de São José do Rio Pardo – cidade onde o escritor escreveu sua obra consagradora – ter-se constituído na meca do euclidianismo. Cantagalo no Rio de Janeiro – cidade natal do escritor – abriga festejos por ocasião da passagem da data de nascimento do escritor. Para lá se dirigem os euclidianistas na ocasião. Há inclusive uma disputa velada entre as duas cidades pela hegemonia nas comemorações euclidianas. Durante a remoção dos restos mortais do escritor do cemitério São João Batista no Rio de Janeiro houve um debate para a escolha da cidade que deveria abrigá-los em definitivo. A cidade de São José do Rio Pardo saiu vencedora. Pesou nesse caso o fato de que não se estava tratando dos restos mortais da pessoa Euclides da Cunha, mas sim do escritor Euclides da Cunha. E nesse caso o verdadeiro nascimento teria ocorrido na cidade paulista, já que foi lá que ele escreveu sua primeira e consagrada obra literária.

Terceiro lema: a obra em aberto

A periodização da obra sinaliza para o trauma euclidiano: a morte prematura do escritor. O último livro do escritor é uma obra póstuma. Sua publicação apartir de manuscritos incompletos implicou em interpretações, correções, sugestões diversas.

Os euclidianistas protagonizam um debate infindável sobre as infinitas possibilidades do escritor caso a vida não lhe tivesse sido tirada tão cedo. No entender desses discípulos, Euclides da Cunha preparava, com À Margem da História, um livro ainda mais genial e completo que Os Sertões. O fato do próprio escritor não haver tido tempo para terminar sua obra oferece condições para todo tipo de especulação. Seus últimos textos são desvendados como enigmas ou códigos de textos bíblicos. Nessa direção, "a obra" é encarada também como uma obra aberta a que os euclidianistas, com suas interpretações e análises, buscam completar e dar prosseguimento.

Em muitos aspectos, a saga de Euclides da Cunha é comparada com a do próprio Cristo. A morte prematura e trágica abriu caminho para continuadores e pregadores. Estes preocupam-se com a perpetuação da palavra do escritor, que significa também sua atualização permanente. O fato da obra ter permanecido incompleta, sem limites definidos, permite interpretações e associações com temas da vida contemporânea. Previsões do autor são continuamente citadas. As mais recorrentes dizem respeito ao futuro do Brasil e da América Latina.

Os euclidianistas buscam completar a obra de Euclides com todo o tipo de material escrito deixado pelo escritor. Além disso, eles mesmos publicam ou colaboram com as editoras no sentido de dar continuidade à obra do escritor. Foi assim, sob forte influência dos cultuadores de Euclides, que a Editora Aguilar publicou em 1966 as chamadas Obras Completas de Euclides da Cunha.

Quarto lema: a singularidade

A vida e a obra de Euclides da Cunha são interpretadas como singulares. Os Sertões é considerado o maior livro da literatura brasileira. "É um livro singular, que foge a qualquer esquema classificatório e já foi chamado de romance, ensaio, poema-épico, drama, história militar, tratado de geografia militar, reportagem, pesquisa sociológica, poema em prosa, etc." (Brandão, 1982: 12).

Euclides é como sua obra: singular, indefinível. É comum a citação de palavras do crítico José Veríssimo para o Correio da Manhã por ocasião do lançamento de Os Sertões: "Os Sertões é ao mesmo tempo o livro de um homem de ciência, um geográfo, um geólogo, um etnógrafo; de um homem de pensamento, um filósofo, um sociólogo, um historiador; e de um homem de sentimento, um poeta, um romancista, um artista, que sabe ver e descrever, que vibra e sente, tanto aos aspectos da natureza como ao contato do homem, e estremece todo, tocado até ao fundo d'alma, comovido até às lágrimas, em face da dor humana, venha ela das condições fatais do mundo físico, das secas que assolam os sertões do Norte brasileiro, venham da estupidez ou maldade dos homens, como a Campanha de Canudos" (Veríssimo apud Brandão, 1982: 12).

A função da ambigüidade e da singularidade, neste caso, relaciona-se diretamente à construção do sagrado. Situada no terreno do absoluto, a palavra de Euclides, assim como sua própria construção biográfica, não admitem críticas, questionamentos, dúvidas, mas apenas a aceitação e a reverência.

Interessante, nesse sentido, analisar o intenso debate que se travou (com conseqüências judiciais inclusive) sobre a publicação de um livro escrito por uma das filhas da ex-esposa de Euclides da Cunha com o cadete Dilermando de Assis. O livro foi escrito com a intenção de resgatar a imagem de

Anna da Cunha (posteriormente de Assis), muito comprometida após a "tragédia da Piedade". Para defender-se das acusações sobre a idoneidade moral da mãe, a autora acabou revelando supostos aspectos negativos da vida privada do autor de Os Sertões. Como as revelações eram bastante graves (a autora, Judith de Assis, atribuía, por exemplo, a Euclides da Cunha, a total responsabilidade pela morte de um filho de Anna com Dilermando de Assis), os herdeiros na pessoa do euclidianista Joel Bicalho entraram na justiça por danos morais à memória do escritor e aos seus descendentes.

Há um mecanismo de metamorfose de características do temperamento de Euclides que, de uma maneira geral, tenderiam a ser vistas como defeitos, em qualidades. Seus acessos nervosos, suas crises de depressão e angústia, suas ausências no ambiente familiar, a pouca atenção que às vezes dispensava à esposa e aos filhos, enfim, vários atributos desse gênero são mencionados pelos euclidianistas não como defeitos, mas como aspectos decorrentes da personalidade de um gênio.

Euclides da Cunha é apresentado como uma pessoa de temperamento difícil, com tendência ao isolamento, completamente imbuído de sua missão de escritor. A esposa é vista como uma pessoa que não se encontrava à altura do escritor, de sua imensa sensibilidade, de sua superioridade intelectual. De maneira velada, a ela é atribuída parte da responsabilidade pela morte do escritor. Do ponto de vista dos cultuadores de Euclides, a esposa, em sua humanidade menor, não soube compreender e viabilizar as manifestações da inteligência do escritor.

Conclusão

Indefinível, inclassificável, Euclides da Cunha encarna características da própria brasilidade. Indivíduo e nação se identificam pela fusão de atributos físicos, resultado da mistura das raças no corpo do escritor ("misto de celta, tapuia e grego") e disseminada por todo o território nacional. Indivíduo e nação se identificam enquanto entidades que reivindicam a autonomia e o desenvolvimento auto-sustentado (a integridade do self) e são premidas por forças externas: a agitação estéril da vida na grande cidade exposta aos estrangeirismos que não permite que o escritor produza mais nada de duradouro (Euclides da Cunha foi morar no Rio de Janeiro è recordava com nostalgia os tempos passados em São José do Rio Pardo); o assédio permanente dos velhos países civilizados sobre a jovem nação, impedindo o florescimento nacional "autêntico".

Para os euclidianistas, Euclides da Cunha é o Brasil. Deprimido, nervoso e até tuberculoso, mas fundamentalmente o Brasil viável.

A mistura de raças sintetizada no corpo de Euclides teria gerado um gênio nacional, sinalizando assim para a viabilidade da própria nação brasileira e também para a capacidade da nação brasileira de forjar seus próprios intelectuais.

E se Euclides espelha a brasilidade é em São José do Rio Pardo que ela pode realizar-se plenamente. Ou seja, é no Brasil do interior, do sertão, longe das influências nefastas dos estrangeirismos que o Brasil é mais Brasil. E, por excelência em São José do Rio Pardo, berço de Os Sertões, espelho da eternidade do próprio país.

Os Sertões é uma obra de luz, de inteligência, de verdade, versus o obscurantismo em que se vivia até a sua publicação. Nesse livro, Euclides da Cunha "revela o Brasil ignorado em suas bases e raízes, em seu povo, em seu interior, em sua verdadeira nacionalidade" (Brandão, 1982: 13). Euclides da Cunha acompanha a trajetória profética de Antônio Conselheiro. Conselheiro "revelava" a palavra de Deus aos sertanejos no interior da Bahia, Euclides, do interior de São Paulo, irá "revelar" o verdadeiro Brasil aos brasileiros.

Até o lançamento do livro, o Brasil vivia "um equívoco, fruto da ignorância de parte a parte. O Brasil do litoral, o governo, a capital, ignoravam o 'sertão, o homem do campo, a realidade brasileira mais autêntica. O sertão ignorava o litoral, a civilização, a cidade, e cultura imposta contra as tradições. Dessa incompreensão surgiram os conflitos" (Brandão, 1982:13).

Euclides da Cunha inaugura uma nova era. O Brasil pós-Os Sertões é o Brasil da luz, da inteligência, da viabilidade.

Atualizando a palavra de Euclides, os euclidianistas atualizam um paradigma de representação da nacionalidade no caso brasileiro: a oposição interior/litoral, com a valorização do primeiro termo em detrimento do segundo. A identificação do interior, particularmente do sertão, com o cerne da nacionalidade, representa uma tradição com longa vida entre os intelectuais que se dedicaram a interpretar o Brasil, sobretudo nos chamados estudos de folclore.

Afrânio Garcia Jr. chama a atenção de que Os Sertões funcionou como um verdadeiro mito de origem: o Brasil a partir de então deveria voltar-se para suas raízes, partindo para o interior. O livro de Euclides da Cunha transformou-se no início de uma tradição de estudos e de rupturas estéticas. No campo da literatura desenvolveu-se o romance regionalista do Nordeste que, dos anos 30 em diante, tornou-se o símbolo do romance tipicamente nacional. Entre os escritores consagrados na esteira dessa vertente literária destacarem-se José Américo de Almeida, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Jorge Amado. Em outros campos, como o da arquitetura moderna (Oscar Niemeyer e Lúcio Costa), da música clássica (Villa-Lobos), da pintura (Portinari), da descoberta da arte popular (Mestre Vitalino), observa-se a mesma tendência enunciada em Os Sertões: "o retorno às verdadeiras raízes". A esse conjunto de movimentos somaram-se as "coleções brasilianas", fazendo crer na emergência em todos os planos de uma cultura autenticamente nacional.

Percebe-se entre os euclidianistas uma luta explícita por um lugar no mercado da produção intelectual. Nesse contexto, a atualização desse antigo paradigma desempenha papel crucial. É através dele, por exemplo, que esse grupo de intelectuais encontra munição para pleitear a valorização dos grêmios e associações literárias que integram e até para contrapor-se à Academia Brasileira de Letras.

Identificando São José do Rio Pardo como "o berço da grande obra nacional", os euclidianistas conseguem a adesão da população e das elites locais. Num mercado de bens simbólicos, todos saem vencedores. A pequena cidade transformase em patrimônio nacional e, numa relação metonímica com esse patrimônio, os rio-pardenses alcançam notoriedade em âmbito nacional. Cada um participa a seu modo, seja nas "maratonas euclidianas", seja no "desfile de abertura" onde jovens e meninas dançam e festejam trazendo nas mãos o exemplar da grande obra nacional produzida em São José do Rio Pardo. Há até o dentista que manda estampar no jornal da cidade o anúncio: "Sorria: Euclides está vivo!" Ou ainda as mulheres de branco das visões de Euclides dançando num animado baile. Nesse autênticotato social total, Euclides da Cunha realmente vive. Seus delírios e visões transformaram-se hoje numa fantástica realidade.
 

            NOTAS

(*) A realização da pesquisa de campo em São José do Rio Pardo durante a Semana Euclidiana de 1992 foi realizada com a colaboração do cineasta e fotógrafo Noilton Nunes, que vem trabalhando no projeto de um filme de longa-metragem inspirado na vida e na obra de Euclides da Cunha. Agradeço suas contribuições em todos os momentos da pesquisa e a autoria das fotos. Originalmente, este artigo foi apresentado no curso "Pensamento Social Brasileiro", ministrado pelos professores Luiz de Castro Faria e Afrânio Garcia Jr. no final do primeiro semestre de 1992. Posteriormente foi apresentado, em setembro do mesmo ano, no Grupo de Trabalho da ANPOCS "Pén samento Social Brasileiro". Agradeço as idéias e sugestões de membros do grupo, especialmente de Ângela Castro Gomes, Lúcia Lippi de Oliveira, Helena Bomeny e Marly Silva da Motta. O professor Luiz Fernando Duarte, orientador do projeto de tese que venho desenvolvendo para o doutoramento em Antropologia Social no PPGAS-Museu Nacional, foi também um importante interlocutor para a produção deste artigo. O apoio institucional que venho recebendo da Coordenação de Folclore e Cultura Popular do IBAC-FUNARTE tem sido decisivo para o bom andamento das pesquisas sobre o tema focalizado.

1. Sobre o conceito de "aura" ver BENJAMIN (1987).

2. O caso japonês parece ser uma exceção. Nesse país existe um órgão governamental ligado à defesa do patrimônio cultural que vem implementando uma ação relativa a pessoas. Por decisão de um Conselho nomeado para esse fim, algumas pessoas passam a integrar o chamado "tesouro vivo da nacionalidade". Essas pessoas são escolhidas com base em alguns critérios, como realização de atividades estratégicas para a preservação de tradições japonesas, desempenho de papel considerado relevante para a manutenção da vida coletiva e da preservação do bem público, guarda de saber considerado estratégico para a nação japonesa em diferentes áreas do conhecimento. De certa forma, podemos dizer que essas pessoas são "tombadas" pelo governo japonês. Quando isso ocorre elas passam a receber proventos do Estado para seu sustento e o de seus familiares. Em contrapartida essas pessoas devem, a partir de então, trabalhar no sentido de transmitir às novas gerações os conhecimentos estratégicos de que são detentoras. O Estado cumpre a função de divulgar o trabalho desses "patrimônios vivos da nacionalidade" realizando filmes, programas de televisão, livros biográficos, onde são transmitidos aspectos cognitivos e, fundamentalmente, difundidos valores.

3. Benedict cunhou a expressão "comunidades imaginárias" para qualificar o processo de formação dos Estados-nações no Ocidente moderno durante o século XIX. As sociedades tradicionais vão aos poucos sendo substituídas por sociedades criadas até certo ponto artificialmente. Hobsbawm referiu-se a esse processo exemplificando com o caso francês, quando camponeses foram transformados em cidadãos franceses. Sobre esse tema, ver BENEDICT (1983); CARVALHO (1990); BACZCO (1984).

4. Um exemplo expressivo de agrupamento social cuja identidade esteve sempre fortemente associada à memória é detectado em análises que focalizam a nobreza. Simmel assinalou que o caráter transnacional da nobreza, bem como a atualização de seu prestígio e sua distinção com relação a outros segmentos sociais, estariam calcados num trabalho permanente de rememoração por meio das árvores genealógicas e dos brasões (SIMMEL, 1971). 

Monique de Saint-Martin, ao analisar, na França pós-republicana, os mecanismos de manutenção e reprodução da crença na existência de uma diferença fundamental dos nobres em relação aos não-nobres, também fez referência ao papel da memória (SAINT-MARTIN, 1992). 

Nora assinala o declínio das comunidades campesinas, "coletividades-memória por excelência", como exemplo de alteração histórica da estrutura de uma memória-coletiva enquanto locus da tradição. 

5. A esse respeito ver POLANYI (1980); ELIAS (1990[1939]); DUMONT (1985); BOURDIEU (1974). 

6. Afrânio Garcia Jr. assinala um aspecto que certamente foi decisivo para a consolidação do culto a Euclides da Cunha, embora não tenha sido tematizado pela narrativa dos euclidianistas. A partir da década de 1920 assistiu-se no Brasil à produção de uma literatura nacional. Surgiram nessa ocasião importantes editoras, demarcando a formação de um campo editorial brasileiro. Uma das estratégias dessas editoras foi a organização.de coleções voltadas para a produção e difusão de autores representativos do período e a reedição de autores, especialmente nacionais. Entre as principais coleções estavam a Brasiliana editada pela Companhia Editora Nacional, a Documentos Brasileiros pela José Olympio e a Biblioteca Brasileira pela Martins. Essas coleções constituíam verdadeiros panteãos de valores nacionais. Muitos dos livros editados transformaram-se em `monumentos nacionais'. O livro de Euclides da Cunha Os Sertõesamplamente difundido a partir dos anos 30, é um dos exemplos mais significativos. A difusão de Os Sertõesnesse período (lembremo-nos que ele foi editado pela primeira vez em 1902) correspondeu a uma intenção de inaugurar os chamados "estudos brasileiros", gênero literário que se tornou muito prestigiado a partir de então. O estudo de Euclides da Cunha sobre o movimento messiânico de Canudos no interior da Bahia no início da República mostrava que o desconhecimento do território e da população sertaneja havia pesado fortemente para levar ao massacre dos sertanejos envolvidos com o movimento efetuado pelo Exército. Essa tragédia tornou-se uma parábola da história brasileira a partir da primeira edição de Os Sertõese foi particularmente alimentada após a ampla difusão da obra a partir dos anos 30. (GARCIA JR., 1993:24). 

Heloisa Pontes relata que as mencionadas coleções "semelhantes em vários aspectos, temáticos e formais, apresentam uma estrutura geral similar ao `modelo euclidiano' de apreensão da realidade, tal como aparece em Os SertõesIsto é, trata-se de uma produção centrada sobretudo na caracterização da Terra (leia-se geografia, biologia, botânica, arqueologia), do Homem (viajantes e cronistas, antropologia e etnologia, folclore, memórias, etc.). A Luta, por sua vez, refere-se menos aos aspectos conflitivos da história brasileira e mais à tensão que se pode detectar, no interior da Documentos Brasileiros e da Brasiliana, entre outros ensaios de interpretação sobre o Brasil e os trabalhos de cunho historiográfico" (PONTES, 1989:387-388). 

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