FAZENDO A "COISA CERTA":

REGGAE, RASTAS E

PENTECOSTAIS EM SALVADOR (*)

 

Olívia Maria Gomes da Cunha


I am a missionary preaching the words of righteousness decorated by music.

Peter Tosh

À primeira vista essa definição de Peter Tosh surpreende, dita por um cantor de reggae cuja imagem está indissoluvelmente ligada a um comportamento visto socialmente como transgressor, com o consumo de maconha. Já em 1976, em seu álbum Legalize it (Virgin, V 2061), Tosh faz apologia da erva como panacéia capaz de curar todos os males. Sua legalização é reivindicada em nome de suas propriedades medicinais e seu poder de "elevar espiritualmente".(l) Paralelamente, tal imagem nos surpreende porque evoca também uma ética própria frente a um estilo musical, onde o cantor de reggae aparece como "pregador".

Numa entrevista dada à revista High Times em 1981, Peter Tosh definiu o reggae como sendo uma "música espiritual": "And reggae music is a very spiritual music. You have to be spiritual to enter the garden of inspiration. When you enter the garden of inspiration there's so much different music, it's like going to a flower garden where you see blue flowers, white flowers, pink flowers, green f lowers. All of them is beautiful. So when you go and explore that garden you can pick, choose and refuse because the inspiration is unfinishable.(2) Inspiração, ação e espiritualidade são categorias recorrentes utilizadas por Tosh para descrever o poder da música. Nessa mesma entrevista o cantor sugere que a revelação é ao mesmo tempo mística e política.(3) A espiritualidade e a inspiração são decorrentes da capacidade do reggae de "hipnotizar" e fazer o ouvinte "sair de si", isto é, a música é capaz de provocar no ouvinte o acesso a outros "estados de consciência".

A noção de "estados de consciência" é utilizada de forma recorrente nos trabalhos que analisam as representações que têm as chamadas "substâncias alucinógenas" e o comportamento de seus usuários. Tais "estados" constituiriam momentos de "elevação", "êxtase", predomínio do inconsciente, e uma ruptura com a "consciência ordinária". Assim, poderíamos fazer dessa "propriedade" uma analogia com o "poder" da música - tal qual sugere Tosh - de provocar esses "estados", posto que, como sugere Perlongher, "as drogas psicodélicas não são o único meio de induzir a entrada num EMC(4), nem sequer o mais freqüente. Corresponde esse privilégio às mais diferentes e heteróclitas formas de exercício místico (...) haveria então certa equivalência entre estados místicos atingidos mediante o uso de drogas e aqueles aos quais se chega através da meditação e da oração." (1991:6). Essas experiências, contudo, não são possíveis sem que lhes sirva de base um substrato cultural referencial.

O conteúdo "místico" que subjaz e fundamenta tais "estados", no caso do reggae, se refere a um intrincado conjunto de idéias e práticas políticas , religiosas e culturais conhecido como rastafarianismo. No imaginário rastafari esses "estados de consciência" são ao mesmo tempo fonte de conhecimentos e comunicação com o sagrado, provocados não só pela música como pela erva, pelo contato com elementos da natureza, pelos sonhos e pelas visões. Homiak (1987), pesquisando o que chama "comunicação visionária" entre os rastas jamaicanos, analisa relatos acerca de inúmeros temas relacionados com suas histórias de vida produzidos a partir de sonhos e visões. Essas formas de comunicação seriam poderosas fontes de criação e inspiração da própria ideologia racial presente no rastafarianismo.

Questões relacionadas com esse "poder de comunicação" tanto social quanto subjetivo da música ao "falar algo" e "revelar coisas" são parte constitutiva de muitas das experiências vividas por um grupo de jovens negros em Salvador. Não só a música, mas temas aparentemente inconciliáveis como política, consumo de maconha, candomblé, pentecostalismo e vida "comunitária" fazem parte de um debate mais amplo envolvendo a juventude negra da cidade frente a formas diferenciadas de discriminação racial. Tal diversidade aponta para um amplo contexto ligado às esferas de produção cultural, militância política, construção e "invenção" de territorialidades e singularidades geográficas, religiosas, étnicas e pessoais inspiradas nas idéias rastafari e desenvolvidas por uma parcela da juventude no decorrer dos anos 80.

A noção de rastafarianismo à qual faço referência neste artigo é produto de uma versão. O que chamamos rastafarianismo constitui, um amplo conjunto de práticas e idéias que começaram a se esboçarem movimentos político-religiosos, e sobretudo étnicos, na Jamaica desde o século XIX. Tais movimentos, intimamente relacionados com a luta contra a opressão da estrutura escravista britânica, tinham vínculos com associações religiosas, organizações e igrejas do sul dos Estados Unidos e do Caribe que, a partir de uma interpretação étnica da Bíblia, começaram a fazer junto aos negros jamaicanos pregações nas quais o "paraíso" e a Terra Prometida se localizavam na Etiópia/África. Tal territorialização do mito bíblico permitiu uma ruptura radical com toda uma ideologia colonial e protestante que durante séculos justificou a escravidão apoiada em interpretações religiosas.

A África, mais especificamente a Etiópia, seria então a terra dos ancestrais míticos dos negros, identificados como os verdadeiros hebreus e descendentes de Cam. Durante os séculos XVIII e XIX eclodiram na Jamaica diversos movimentos anticoloniais, antiescravistas e messiânicos relacionados com o revivalismo -um culto sincrético que assimila elementos religiosos protestantes e afro-caribenhos -, envolvendo lideranças negras, ex-escravos e pastores.

Já na década de 20 deste século, o líder negro da UNIA, Marcos Garvey, incorporando e aliando esse discurso religioso à luta por direitos civis e aos ideais pan-africanos, prevê o surgimento e a coroação do verdadeiro Messias Negro na Etiópia. Quando, em 1930, o imperador etíope Ras Tafari é coroado com o nome de Hailé Selassie, uma série de grupos começa a formar-se em Kingston em torno da pregação de três diferentes religiosos negros também ligados a grupos garveyistas. A coroação de Selassié teria sido o sinal para o repatriamento dos "africanos da diáspora". Alguns desses grupos organizam-se em comunidades urbanas e rurais, passando a ser identificados como rastafaris - ou rastas. Essas comunidades observam uma série de regras de alimentação e vestuário (destacando-se o uso de enormes tranças, quase sempre disformes, conhecidas como dreadlocks),(5) utilizam a ganja (maconha) como erva de adoração, obedecem a tabus sexuais e têm uma visão de mundo baseada numa leitura étnica da Bíblia. Essa interpretação insiste na redenção, através do repatriamento, do povo negro que vive em cativeiro desde a escravidão.

Por fim, já nos anos 60, a partir da incorporação de parte dessas idéias pela juventude negra dentro e fora da Jamaica, elas são apropriadas como leitura de valores étnicos capazes de serem contrapostos à ideologia dominante, branca e eurocêntrica. Sua divulgação ocorre principalmente através do reggae, música a elas associada. É assim que ganham um sentido de versão, ou mesmo, entre os jovens baianos, de reinvindicação. Estão referenciadas às "filiais" (as várias experiências empreendidas pela juventude negra em torno da cultura de massa e da mídia em lugares como Londres e Nova York, por exemplo) e não à "matriz" jamaicana.

Neste trabalho desejo enfocar apenas uma das dimensões presentes na articulação entre a música como fonte de "inspiração", "revelação" de símbolos étnicos e religiosos, e outros "estados de consciência". Ou seja, o lugar da música - o reggae - como um dos principais elementos de articulação entre estilos de vida diferenciados. As representações que tem a música no cotidiano desses jovens figuram como elementos capazes de operar com diferentes visões de mundo, estilos de vida, concepções políticas, étnicas e religiosas.

Para focalizar algumas das múltiplas traduções possíveis, elegi como personagens principais jovens de um grupo identificado pela comunidade negra da cidade como de "crentes" ou "ortodoxos". Eles tinham em comum o fato de terem pertencido à Legião Rastafari, uma experiência associativa inspirada nos emblemas e no imaginário rastafari, e, posteriormente, terem se convertido a uma igreja pentecostal.

No início não era o verbo

A Legião Rastafari se configurou na primeira tentativa de aglutinação de jovens interessados no reggae e no rastafarianismo em Salvador. Começa a formar-se no início da década de 80 em torno de um ateliê de dois jovens negros, artistas plásticos do bairro da Liberdade. Num primeiro momento, o ateliê sé torna um "ponto de encontro" de parte da juventude local, que já então adota os dreadlocks como estilo de cabelo, inspirando-se principalmente nos cantores de reggae jamaicanos. Numa fase posterior, a Legião passa a atrair um público mais variado, de militantes e artistas, interessados em discutir o "desenvolvimento" das idéias rastafari na cidade. Sua formação, entretanto, não se deveu ao interesse desses jovens de identificar-se exclusivamente com as idéias rastafari, incorporando práticas que caracterizam o movimento, mas antes no desejo de conhecê-las.

Segundo depoimentos, eram muitos os jovens negros - dreadlocks ou carecas (aqueles que não usam dreadlocks) - que se reuniam para conversar, fumar maconha, namorar, ouvir e dançar reggae, discutir questões de militância ou mesmo beber. As reuniões permitiam o encontro, a "toghetherness", como diz Maffesoli (1989), mas também o conflito, com tensões e disputas pessoais, políticas, amorosas e religiosas. Contudo, tanto nos conflitos como nos encontros, o tema em questão eram os limites e a propriedade da adoção de um "estilo de vida rastafari" em Salvador.

A denominação "rasta", no contexto baiano, é utilizada de diferentes maneiras, de forma a enfatizar, mais ou menos, questões relativas ao "conhecimento" do assunto, à estética, à opção religiosa e à posição política, entre outras. Diferentes nomes conjugados a diferentes adjetivos que explicitam "graus de comprometimento" com tais temas são evocados pelas múltiplas vozes que compõem o universo simbólico e geográfico que envolve o rasta. Mas o reggae e a apropriação de toda uma iconografia e gestualidade veiculadas principalmente pela mídia é que possibilitaram uma constante reinvenção desse personagem.

Outros elementos têm sido igualmente importantes na caracterização do rasta, como o uso da maconha e o penteado típico, por exemplo. O consumo da maconha - que entre grande parte dos rastas baianos toma emprestada a denominação rastafari jamaicana ganja - tem sido identificado com o rasta, muito embora esse fato não seja visto corri bons olhos por eles. Não obstante o estigma que faz com que sejam vistos quase sempre como "sujos", "maconheiros" e "ladrões", principalmente pelos setores policiais, essa associação mais vulgar torna-se alvo de intensas discussões entre rastas de todos os matizes. Os dreadlocks, entretanto, figuram como um dos emblemas mais visíveis de que o rastafarianismo é um referencial estético importante para aquele que o adota.

Mas foi principalmente com o advento do reggae na cidade - tocado em bailes da periferia, feiras, reuniões e ensaios de blocos afro desde o final da década de 70 - que tudo começou. A música reggae tem se caracterizado, conforme Nettleford (apud Owens,1989:xi), por ser uma espécie de "púlpito secular". Todavia, o reggae não se resume a tematizar as pregações acerca da fé no Messias Negro e na África/Etiópia como lugar da redenção: ele fala dos "sentimentos" do rasta. Ao mesmo tempo, a música funciona como elemento "sugestivo", ao suscitar a adoção de práticas a ela relacionadas no imaginário da juventude.

Em função do reggae, e particularmente em torno da figura do cantor/músico Bob Marley, realiza-se uma série de atividades cotidianamente freqüentadas por rastas e não-rastas. Foi a seu encontro que rumou parte importante da juventude negra da cidade. A influência da música jamaicana em Salvador tem provocado não só o surgimento do rasta - em sua gama de versões -, como uma reorganização da própria negritude baiana em direção à produção, consumo e discussão dessa música. Ao mesmo tempo que ela se mistura ao calendário de festas e eventos políticos, tem seu lugar específico e reservado. São as homenagens ao "rei" Marley, no Carnaval (como resultado de uma gramática musical e temática muito particular, elaborada pelo bloco afro Muzenza), nos meses de fevereiro e maio, datas de morte e aniversário do cantor, e mesmo em seminários, vídeos, programas de rádio e shows realizados num exercício contínuo da memória do "regueiro" mais popular na cidade. É principalmente em torno deles que a expressão do rastafarianismo, enquanto estilo identificado à juventude negra, pode ser pensada.

Para além de sua associação com os circuitos de lazer e festa, o reggae representará para muitos uma importante fonte de informação sobre as idéias rastafari, mesmo que nem sempre elas estejam sendo propriamente tematizadas nas músicas consumidas. Tal associação é anterior e precede o conteúdo. É o que diz Miro, um músico dreadlock que participa ativamente das atividades promovidas pelos "convertidos":

Foi através das músicas, ou melhor, dos sons, que eu queria saber o que estava sendo falado nas músicas. Eu fui um dos que se interessaram muito. Porque eu sentia quando estava ouvindo reggae. Eu sentia algo diferente. Aquela música que entrava em mim, que me dava desejos diferentes, vontades diferentes de fazer as coisas abrindo a minha mente e assim eu trabalhava melhor. Eu fazia melhor as coisas quando eu estava ouvindo reggae (...) porque através da música eu me sentia eu mesmo. A música me levava para dançar e eu não conseguia ficar parado quando ouvia reggae, o ritmo, o swing, aquela coisa que misticamente penetrava em mim. E outra coisa: o sentimento que o Bob Marley e outros cantores de reggae cantavam, aquela coisa entrava em mim, eu chegava aponto de chorar, como se eu estivesse entendendo antes de ter a tradução das músicas.

Assim, é corrente entre os rastas de uma maneira geral, a idéia de que o reggae veicula mensagens étnico-políticas, contra o Sistema e a Babilônia,(6) principalmente a partir de sua representação como sinônimo de "consciência". Sistema é um tema caro ao imaginário rastafari, podendo referir-se a uma série de mecanismos agenciados a partir de regras de conduta, padrões culturais, meios de comunicação, regimes políticos, etc., no sentido de manter a dominação. É principalmente nas letras das músicas que se estimula a busca por outros referenciais que não os divulgados pelo Sistema, a partir de uma "outra história", construída de forma a restabelecer vínculos míticos, históricos e políticos com a África/ Etiópia, ao contrário da orientação eurocêntrica difundida pelo "opressor". Fala-se do inimigo e ele estaria presente em todos os momentos da vida cotidiana. Por vezes são os não-negros em sua articulação política, imprimindo o racismo de forma a manter o que Bob Marley chama "escravidão mental". Em outros momentos o campo de aliados se amplia, tornando-se os primeiros apenas "oprimidos", sem distinção racial. Na interpretação de Linton Kwesi Johnson, um misto de poeta, teórico e cantor de reggae, as letras tematizam a experiência cotidiana dos afro-americanos, além de estimular a "consciência": "The popular music of the people is an essentially experimental music, not merely in the sense that the people experiente the music, but also in the sense that the music reflects the historical experiente. It is the spiritual expression of the afro-Jamaican. In making the music, the musicians themselves enter a common stream of consciousness, and what they create is an invitation to the listeners to be entered finto that consciousness - which is also the consciousness of their people.” (1976:398).

Nesse sentido é que para alguns o reggae é visto como um hino ou, na visão de Hebdige, a "celebração da negritude" (1979:31). Nas palavras de um conhecido cantor de reggae baiano (ele mesmo um "rasta a sua própria maneira") o reggae falaria de questões próximas ao negro. Aqui, o termo identidade aparece já substantivado:

O reggae é uma forma musical de se identificar com alguma coisa. Já que é tão difícil a gente se identificar aqui nesta terra, onde nós nos identificamos mais foi através da musica reggae. Porque é uma música que cuida dos nossos problemas. É uma música de proposta, onde o negro mostra a visão dele da sociedade, a preocupação do resgate da identidade. Então eu me identifico com a música reggae.

Por outro lado o reggae, tal como outras formas de expressão musical, não estaria imune ao que Constant chama "ambivalência" (1982: 141). Ou seja, ele é ao mesmo tempo uma tentativa de furar o bloqueio político-cultural imposto pelo sistema e, paradoxalmente, de fazê-lo através de um dos seus mais eficazes instrumentos de propagação de idéias, a mídia. De "música do povo", na expressão de Johnson, o reggae de certa maneira tornou-se uma espécie de "hino nacional da Jamaica". Anita Waters e o próprio Johnson demonstraram como o reggae foi utilizado pelos partidos políticos jamaicanos e mesmo pela indústria do turismo como um produto "popular" do Caribe. Em Salvador é principalmente a Jamaica enquanto "pátria" do reggae que figura como tema central de uma parcela da produção musical que Constant chama "estandardizada". Um exemplo bastante interessante desse processo "antropofágico" do próprio reggae e das experimentações musicais realizadas em torno dele ocorre com as músicas produzidas pelo bloco afro Muzenza, nas quais a associação reggae-Jamaica-Bob Marley é constante nos temas e refrões.

Isto posto, é pertinente indagar: o rasta, em sua "versão baiana", seria um aficionado por reggae e consumidor de maconha? Todo dreadlock é rasta? Todas essas questões envolvem a elaboração de uma série de limites em torno das formas de adoção do rastafarianismo como um estilo de vida (ou mesmo como referencial político, como quer uma parcela do discurso militante) que permitiu a rastas, não-rastas, simpatizantes, amantes do reggae, militantes e outros se expressarem. Essas outras questões permitiram longas e fortes discussões, que culminaram em rupturas. Talvez a mais "divergente" do contexto tenha sido aquela que permitiu que uma parte dos jovens oriundos da Legião se convertesse à fé pentecostal. E é justamente destacando a experiência desse pequeno grupo de rastas-convertidos que desejo encaminhar minha análise.

É importante salientar que a denominação utilizada se presta a identificar o principal elemento que distingue esse grupo de jovens dos demais rastas - a conversão ao pentecostalismo. Cabe observar que não se trata de uma "categoria nativa", mas de uma tentativa de classificação e interpretação de uma experiência limite na adoção de um estilo de vida que tem algumas das idéias e práticas identificadas com o rastafarianismo como fonte de inspiração. As divergências quanto à assimilação do que concebiam como uma "prática religiosa dos rastas" suscitou, a meu ver, um debate bastante interessante acerca da interseção entre o secular e o religioso, as "coisas de Deus" e o "mundão", com uma dimensão mais subjetiva vivida cotidianamente por esses jovens - os problemas familiares, o desemprego, as questões amorosas, o racismo e a repressão policial e, sobretudo, a busca de "verdades". Essas questões aparecem mais explícitas nos relatos que descrevem a transformação, o momento da conversão.

Os rastas completam o rebanho: os rebeldes, a musica e a palavra

Faz-se necessário observar que os rastas-convertidos, ao optarem por uma "nova vida" através do batismo "nas águas e no espírito", não afirmam necessariamente o abandono de um estilo de vida que se concebia como radical, ao confrontar diretamente o sistema. A proximidade entre as duas experiências - a rastafari e a cristã -, sobretudo no aspecto religioso, é citada com recorrência por eles, figurando apentecostal como umaformade "radicalização" de elementos de fé e crença que teriam apenas se esboçado no rastafari. Contudo, a análise dessa passagem requer uma investigação mais criteriosa no que diz respeito aos elementos apontados por fazerem parte tanto de estilos de vida como de discursos religiosos.

O que está presente nas várias falas é o desejo de vivenciar experiências de cunho espiritual julgadas mais verdadeiras. Como desdobramentos que também influíram nessa parcial ruptura, fala-se em enfraquecimento de laços de amizade, falta de confiança, dureza dos mecanismos de repressão, do trabalho e de outras formas de sobrevivência, da solidão e da maior compreensão do verdadeiro significado de idéias e práticas que eram até então apenas tangenciadas.

Por outro lado, a reelaboração de algumas idéias a partir da conversão é apontada como tendo sido necessária como recurso de purificação de um primeiro estágio onde reina a mistura, a confusão, o contágio e a ingenuidade. O momento da conversão é sobretudo o momento do recebimento do conhecimento da Palavra, dos dons, dos poderes divinos e portanto do entendimento. Mas, paradoxalmente, não se fala em mudança. Os depoimentos apontam para uma idéia de transição e passagem que faria ligar rastafarianismo a pentecostalismo. Esse encontro só é possível porque não se mencionam experiências religiosas e estilos de vida totalmente distintos, ou melhor, não são vistos assim, isoladamente, por esse grupo de jovens.

O encontro dos castas com o "mundo protestante" se deu a partir do desejo de experimentar livremente o contato com a Palavra e ter acesso ao entendimento através da leitura da Bíblia, que fundamenta toda a crença rastafari. "Experimentar", expressão recorrente entre esses jovens, move investidas e rupturas em estilos de vida, demarcando bem o caráter provisório de tais ações. Os primeiros questionamentos eram sobre expressões referidas nas letras do reggae: Jah, Rastafari,Babilônia, Dreadlocks etc. Nessa procura e pesquisa de significados envolveram-se jovens com distintas formações religiosas. Alguns já possuíam informações anteriores devido à formação religiosa das famílias; outros, que são a maioria, tiveram seu primeiro contato com a Bíblia através das reuniões da Legião. Se por um lado essa aproximação sem qualquer direcionamento a nível doutrinário possibilita maior liberdade de leitura, na maioria das vezes ela ocorre quando se trata de fundamentar esta ou aquela prática que se concebe como típica do rastafarianismo: o uso da ganja; da alimentação natural, dos dreadlocks e o tratamento dispensado às mulheres dentro do movimento. Na falta de informações, a Bíblia, livro de inspiração, passa a ser para alguns uma espécie de manual e obra de referência seletiva.

E é em busca de informação que alguns jovens começam a aproximar-se de certas igrejas evangélicas. Essa procura deixou de fora as igrejas batista e adventista, pois a estrutura organizativa e a prática religiosa de ambas constituíram impedimento para uma efetiva aproximação dos rastas. Em relação à batista, justificam que o tradicionalismo e a rigidez dos trajes entravam em contradição direta com a liberdade que muitos defendiam, de usarem os cabelos na forma de dreadlocks, acreditando ser esse o sinal mais visível da "pureza" de suas propostas: a não-violência e a "vida natural". Vestir-se como os batistas significava aderir ao Sistema, usando terno e gravata e, sobretudo, cortando os cabelos. Por outro lado, a rejeição parece ter sido recíproca, com as portas das igrejas fechadas para os castas e a discriminação dos fiéis

Quanto aos ádventistas, o impedimento parece ter sido em relação a uma interpretação doutrinária: guardar os sábados, segundo a leitura da Bíblia feita pelos castas, representava uma forma de paganismo. Já no período da Legião, parte do grupo teria vivido a experiência da "guarda do sábado", o que pode ter despertado,seu interesse pelos adventistas:

Naquela época a gente se baseava muito no Levítico e no Êxodo. A gente guardava muito a lei do sábado. No sábado a gente trabalhava pouco, às vezes nem trabalhava. Mas Jesus, quando ele veio à terra, ele aboliu a lei do sábado. Porque ele fez uma cura num dia de sábado: ele curou um cego e um aleijado, o que levou mais à perseguirão dele.

Já com relação à Igreja Pentecostal Jesus de Nazareno, situada no bairro de Brotas, parece ter havido um clima de ampla receptividade inicial no contato entre castas e fiéis. Mas tal aproximação não parece ter enveredado por caminhos que culminassem de forma tão evidente com a conversão. Um primeiro dreadlock gaúcho, que freqüentava a igreja e havia participado da Legião durante um curto período, era uma referência importante. Para eles, era um sinal de que a igreja aceitava os dreads. Por outro lado, na maioria das vezes o processo de conversão que envolveu os rastas ocorreu nas ruas e não no templo.

É na atividade cotidiana desses jovens, músicos e artesãos, nas ruas do centro, onde vendem seus trabalhos, que se dá o contato com outros "irmãos". E estes não são evangelizadores da IPJN que estão nas ruas visando ampliar o rebanho da igreja. Outrossim, esses "irmãos" fazem parte de um grupo cujo processo de separação da IPJN já estava em curso. Denominados "rebeldes" pelo pastor e pelos demais crentes fiéis a ele, realizavam cultos e reuniões fora da igreja. Tal desterritorialização do ritual, tanto geográfica quanto simbólica, colaborou para acirrar as discussões. Conflitos devido a disputa de liderança, autonomia no uso de dons e interpretação das Escrituras, entre outras questões, mobilizavam as conversas entre os rastas e seus "irmãos", em meio às bancas de produtos que mantinham nas ruas e o retorno para casa no final do dia. Assim como os "irmãos" não pregavam a Palavra enclausurados em ternos escuros e usando megafones e alto-falantes, mas através de mecanismos que envolviam um "convencimento" diário em conversas, no testemunho usando linguagem coloquial, na relação igualitária que mantinham com os rastas.- repelidos devido a sua aparência na maioria das vezes. Ali, a "opção preferencial pelas ruas" dos irmãos, que falavam sobretudo que a qualquer um era dado o direito de ascender ao "Reino do Pai" através das práticas que "estavam escritas", funcionava como real possibilidade de aproximação com o sagrado. Essa aproximação não seria mediada nem pela rigidez dos costumes nem pela figura do pastor.

Essa "dessacralização" da Palavra manifestava-se a partir de uma reelaboração da imagem que esses jovens possuíam do próprio crente. A possibilidade de manutenção de "relações igualitárias" entre rastas e crentes explicita-se na construção de redes de solidariedade que emergem da "irmandade na fé", partindo do princípio de que "todos são iguais perante Deus", portanto não deveriam fazer sentido as diferenças entre negros e brancos, ou rastas e crentes. Burdick (1989:46) faz interessantes observações sobre o que chama "ambivalências e contradições de uma aparente igualdade racial". E no caso dos gastas e pentecostais baianos, estas se dão de maneira bem mais explícita nos conflitos que ocorrerão no interior da igreja. Isso porque, diante dos primeiros sinais de rejeição de determinados fiéis com relação aos rastas devido a sua imagem já muito associada aos "rebeldes", uma outra leitura desses acontecimentos é elaborada pelos rastas.

Num primeiro momento, a participação dos rastas nos cultos dominicais da IPJN parece ter sido precedida por um "estranhamento" do conjunto da comunidade para com seus trajes e cabelos. Essas atitutes, explicam, foram isoladas e partiram de alguns fiéis. O pastor, afirmam, recebera-os calorosamente. Entretanto esses conflitos, a nível pessoal, criaram uma base de descontentamento dos crentes: os "rebeldes" impunham a suas vidas um clima de vigilância. Os "rebeldes" acusavam muitos de não viverem verdadeiramente o que "estava escrito", quando a prática aceita por todos era a de não interpelar os irmãos acerca de suas condutas fora do templo.

Entretanto, em algumas conversas com os rastas pude perceber que eles interpretavam de maneira distinta os problemas que os tinham afastado da igreja, levando-os a procurar um caminho próprio. Para os rastas, as hostilidades aos irmãos "rebeldes", mas brancos, deviam-se a uma atitude autoritária e à má interpretação "do que está escrito". Contudo, em relação a eles se somava o racismo, o qual, tinham consciência, não estava de maneira alguma ausente entre os crentes. Portanto, quando a situação emergia de um conflito no plano coletivo que se referia à atitude de um grupo de "cristãos" ao "seguir a Palavra", a causa era de interpretação da doutrina. Ao contrário, quando as diferenças eram pessoais, o conflito era debitado ao racismo.

Mas não era na igreja que estava a salvação. A igreja é vista pelos rastas como uma extensão do "mundão", com seus erros, vícios, intrigas, ciúmes e violência. A salvação estaria nas práticas e na . Assim, os conflitos entre os "rebeldes" e o pastor envolvendo interpretações do texto bíblico e autonomia quanto ao uso de dons veio de encontro a uma das principais dúvidas dos rastas com relação aos crentes. O que movia a aproximação e a posterior conversão não se resumia à busca da cura ou mesmo da salvação, mas do entendimento. Mas esse era um entendimento distinto do pretendido na leitura da Bíblia no tempo da Legião.

O tempo da Legião é tratado como se tivesse sido um tempo de ignorância. Ali, o contato com as escrituras teria sido permeado por atos de idolatria e misturas . Embora tenha sido uma leitura livre de mediação e direcionamento, ela prescindiu da compreensão. Na busca pelo "entendimento das escrituras", a rejeição à rigidez dos costumes de certas atitudes religiosas e às lideranças parece ser um dos critérios para a aproximação. Nas palavras do artesão Beto:

A própria Palavra de Deus fala que não devemos seguir a doutrina do homem. Eu tive conhecimento da Palavra do Senhor através da Legião Rasta, o que muitos negam. Estamos no nosso próprio direito: se é pra seguir, vamos seguir mesmo. A gente tinha a etnia, mas não sabia de nada do que estava escrito, não sabia a coisa certa [sicJ, sabia algumas coisas.

A desconfiança em relação à disciplina de algumas igrejas protestantes vinha, em parte, da consciência de que a leitura da Bíblia por si só possibilitava o entendimento, muitas vezes obscurecido pela figura do pastor. O contato com Deus através da leitura da Bíblia era mediado pelo contato com coisas criadas pela divindade, que seriam os elementos da natureza. Previamente havia uma recusa em substituir esse contato, que se dava pela experimentação, pela intermediação da figura humana.

A gente procurou saber de que forma poderíamos ser batizados, porque a gente não conseguia ir para a igreja por causa dos falsos pastores, dos falsos profetas e dos falsos apóstolos. Mas somente depois de ter esse conhecimento, quando comecei a orar, eu realmente comecei a querer que Deus orasse comigo. Como é que eu poderia fazer? (...) Então o que a gente pensava? Será que se eu for para a igreja aquele pastor é digno de me batizar? Será que ele é homem fiel e temente a Deus? Será que ele pratica como está escrito aqui dentro? Então vinha essas dúvidas na gente. Por isso a gente não se congregava, por isso a gente não se batizava. Também por causada aceitação, porque a gente não queria cortar os nossos cabelos e nós tínhamos uma visão de que a pessoa que ia pra igreja, ela tinha que entrar no regime, entrar no padrão social, uma coisa que a gente fugia, que a gente não queria. Então, tudo isso afastava a gente. Depois eu comecei a entender que se os homens, os pastores, os que diziam que serviam a Deus, iam pagar pelo que eles faziam, eu me tomei como um inocente e fui. Mas fui com o propósito de não aceitar igreja e de não aceitar doutrina dos homens.

Na maioria dos depoimentos, os rastas que se converteram ao pentecostalismo parecem estabelecer algumas relações de continuidade entre as duas experiências. Nos relatos sobre a Legião Rasta é enfatizada sua importância como espaço para propiciar a descoberta da Palavra, ainda que permeada pela falta de entendimento. Esse primeiro contato com a Bíblia os teria levado a postular a imprescindibilidade da fé, condição primeira para o entendimento. Contudo, essa fé é seletiva: "não é para muitos". O caminho para a radicalização daquela que parece ser a "verdadeira" experiência rastafari se dá através da conversão, batismo e conseqüente "iluminação", que os dota do poder do entendimento. Essa experiência, que se acredita radical e verdadeira, não se comprova na compreensão a nível doutrinário ou filosófico, mas na vivência cotidiana, no viver em "contato direto com as coisa do Senhor", através de uma purificação tanto física quanto moral:

A gente tava numa tarde de domingo olhando o pôr-do-sol, fumando muita erva e falando a palavra do Senhor, e teve uma palavra que a gente não entendeu. Já estava na hora da rapaziada ir embora, já estava escurecendo. E aí eu dei a idéia: "que tal a gente se reunir todas as quintas-feiras lá em casa para ler a palavra do Senhor, praticar mais e ficar mais junto?" (...) E na realidade a vivência rastafari mesmo, radical, é a que nós estamos vivendo hoje. [grifo meu]

O processo de conversão dos rastas se dará de maneiras diferenciadas, nas quais o próprio batismo não será necessariamente a primeira etapa e muito menos a igreja terá uma influência direta em suas práticas. Para os rastas, o batismo de certa maneira representou uma forma de aceitação. Significou também a quebra dos laços com o "mundão", anterior e exterior à nova situação. Essa nova vida inscreve-se nos limites da busca por uma integridade física e moral, que aproxima aquele que "nasce de novo da água e do espírito" das coisas de Deus. O batismo delimitaria as margens da santidade. Representa. colocar-se à margem do "mundão", ou seja, de tudo aquilo que não se enquadra nos limites do sagrado. Nos depoimentos, as "prostituições", o "cigarro branco" e o álcool surgem como metonímias na representação da impureza. Entretanto, dos espaços do "mundão" não faz parte a vivência que se experimentara na Legião, inspirada no rastafarianismo, mas as misturas, as deturpações e as concessões dela decorrentes: a proximidade com o candomblé e com a "marginália" (que se misturava aos rastas em busca da ganja).

O batismo distingue, estabelece um novo recorte e inaugura um novo tempo. Segundo Douglas: "O trabalho de Deus através da bênção é, essencialmente, criar a ordem pela qual os negócios prosperam. A fertilidade das mulheres, da criação e dos campos, é prometida como resultado da bênção, e isso pode ser obtido pela manutenção de um pacto com Deus e pela observância de todos os seus preceitos e cerimônias" (1977:66). Esse "pacto" de que fala Douglas estaria mediado pela seletividade da escolha. A idéia é tornar-se cristão, não crente.

É no percorrer de complicados caminhos que os castas, agora convertidos, adotam novas condutas morais, deparam-se com estruturas institucionais e disciplinares, dotam de novos termos o discurso da diferença, estabelecem um confronto onde política e religião são inconciliáveis do ponto de vista étnico, ampliam o universo de relações interpessoais e, por fim, chocam-se com uma rígida e explícita delimitação de fronteiras da própria experiência religiosa.

É no plano de determinadas práticas que podem ser observadas algumas transformações, ou pelo menos deslocamentos do foco de atenção, por parte dos rastas-convertidos. Ao contrário dos crentes, submissos ao pastor e às regras da igreja "criadas pelo homem como forma de opressão", ser cristão é crer em Cristo, sendo santo através das práticas. E é essa a nova identidade religiosa postulada pelos rastas. Se na experiência anterior a ligação com elementos purificadores (tanto mentais como físicos) se dava através do contato com a natureza, agora são as práticas que purificam, além da sensação de que é através delas que se dá o contato "direto com a divindade" (Bastide, 1985:511). Os rastas-convertidos, agora unidos aos rebeldes, denominam-se cristãos, diferenciando-se dessa maneira dos crentes. Os primeiros estão "em qualquer lugar", nas praças e favelas, enquanto os segundos restringem-se ao templo. Assim, como afirma Rubem Cesar Fernandes, "a resposta pentecostal parece absurdamente simples: a Salvação é fácil, basta aceitá-la. Mas como é difícil dizer `sim' ! Os pregadores que encontramos pelas praças ou estações de trem estão a malhar este ponto: `abra' o coração, esqueça os pseudoprotetores, diga sim ao único, primeiro e último, Cristo, o Redentor. Retomam a intuição fundamental de Lutero, no início da Reforma. A Salvação é um dom gratuito, um ato puro de amor (mas quem é que acredita no 'Amor'?), não carece de obras, ritos, obrigações. Não depende do pertencimento a esta ou aquela ordem, não se ajusta a hierarquias" (1990:4).

Para os castas-convertidos, o Cristo adorado no templo é Jeová, o mesmo Jah a quem se referem os rastafaris jamaicanos. Só que na Jamaica as deturpações fizeram com que acreditassem também na figura de Hailé Selassié como representante da presença do Messias ao qual se refere a Bíblia. É também do "Deus-Vivo" que falam os rasta.faris, mas "vivo em espírito", após o batismo nas águas, no coração e nas práticas de cada cristão. Ao contrário de Selassié, Cristo deixou os dons espirituais:

Ras quer dizer cabeça, Tafari quer dizer Leão: "Cabeça de Leão". E o Cabeça de Leão é o Jesus Cristo, é o próprio Leão de Judá. Agora, quanto ao Hailé Selassié e essas coisas todas (...) os próprios rastas jamaicanos o veneram pelo grau de parentesco. Porque ele era o duzentésimo vigésimo quinto da ordem de Salomão, então ele tinha um parentesco meio próximo com a descendência de Salomão. O que deixava realmente mais perto de Jesus Cristo. Mas só que é super deselegante saber por exemplo que ele morreu, não ressuscitou - como Gandhi, Buda e outros pensadores - e nem me deixou dons espirituais.

Até mesmo sem saber eu chamei Ras Tafari de Deus. Mas eu via e eu sentia que não era o verdadeiro Deus. Porque Deus é espírito e ele pode habitar dentro da gente, agora através das nossas práticas (...) E o tempo passou e eu vi que a vida que eu levava não era realmente a vida que eu queria. E aí eu comecei afazer um pacto, renovar as coisas, começar a me afirmar numa nova vida. E aí eu já tinha um bom conhecimento das escrituras sagradas.

Reggae: música de adoração versus mensagem oculta

Se de fato o reggae, tanto no plano da festa e do lazer quanto em suas representações mais políticas, consegue num duplo movimento ser a tradução e ao mesmo tempo ser traduzido pela juventude negra baiana, que lugar passaria a ocupar no cotidiano dos rastas-convertidos? Essa indagação se deve ao fato de que a conversão reconstruiu, em certa medida, as redes de sociabilidade em torno desses jovens. Quando mencionei uma outra "realidade" encontrada por eles em sua aproximação com os pentecostais e me referi a uma certa "disciplinarização" de algumas condutas e ao mesmo tempo a uma ampliação das relações interpessoais, quis dizer que esse movimento implicou numa constante reelaboração de algumas práticas e idéias extremamente valorizadas na experiência anterior. O que não significou, de maneira alguma, o abandono da vida material em detrimento da busca pela salvação, ou mesmo simplesmente trocar a "solução prática" pela "solução religiosa", na expressão de Bastide (1985:493).

Ainda que mediadas por uma nova separação, desta vez da maior parte dos fiéis, no plano do ritual e das atividades comunitários da IPJN, outras práticas ligadas ao cotidiano dos rastas puderam coexistir. Na busca de diferenciar-se tanto dos crentes e serem cristãos, quanto dos falsos rastas para sê-lo de maneira radical, realizam um culto onde a figura do pastor não existe. Junto aos "rebeldes" estruturam o ritual de forma a tornar a participação extensiva. É importante assinalar que é principalmente (e não exclusivamente) em torno das práticas rituais que o dançar e cantar o reggae como música de adoração se farão presentes. Neles a música não terá função "decorativa" (Hopkins,1979:34) nem representará uma entre outras formas de participação mais ativa dos fiéis no culto, mas será o núcleo da própria produção ritual.

No período em que o grupo de rastas-convertidos esteve participando dos serviços religiosos da IPJN houve várias tentativas tanto de introduzir o reggae na igreja quanto de participar do conjunto musical lá existente, o "Estado de Alerta", tocando instrumentos e compondo músicas. A introdução do reggae como mais um ritmo entre outros tocados nos cultos não foi problema; entretanto, participai do conjunto musical constituiu uma demonstração de que a "liberalidade" daquela igreja muitas vezes estava limitada a grupos fechados, mesmo que a interdição a princípio estivesse implícita em mecanismos sutis. O "Estado de Alerta" era constituído por rapazes e moças da "ala jovem" da igreja, entre os quais três filhos do pastor. 0 manejo de sofisticados instrumentos e aparelhagens de som parecia mesmo exercer certo fascínio sobre os outros jovens e principalmente sobre os rastas. O som é de boa qualidade, as músicas bem arranjadas, os músicos bem vestidos, brancos e bem-nutridos. O conjunto já tinha um "demo" tocando em rádios evangélicas da cidade. Seu baterista tinha participado do extinto conjunto de rock baiano "Camisa de Vênus", estando agora convertido e "louvando ao Senhor". Mas de que maneira se dava o impedimento à participação dos rastas?

As tentativas de aproximação consistiam, muitas vezes em oferecer músicas para serem cantadas nos cultos, mas havia um boicote e eram privilegiadas as músicas do próprio conjunto. Isso porque ter uma composição executada durante o culto parecia corresponder a uma forma de status que os rastas (devido a sua proximidade com os "rebeldes") não estavam "prontos" para obter. Significava também o acesso ao palco, ao microfone e ao uso da palavra. Segundo o pastor, deveria haver uma preparação. Contudo, a preparação exigia um conhecimento técnico. Os rapazes que lá tocavam eram músicos, o que não acontecia com os rastas. A preparação significava também uma forma de "ascensão" gradual e "natural" nas atividades do templo.

Nas atividades rituais que realizam na Gamboa, ao contrário, não é postulado qualquer tipo de preparação. São os rastas que compõem e interpretam os louvores durante todo o culto. Mas tal tarefa não é vedada a não-rastas, que muitas vezes compõem e interpretam junto com os primeiros, ensinam acordes e dão opinião.

Antes de representar uma forma de louvor que estabelece a ligação com outros elementos do culto, como as orações e a ceia, a música é a principal forma de expressão dos rastas e de sua fé. A produção e o "consumo" do reggae não só permanece entre eles, como para alguns é a forma privilegiada de afirmação da fé. A música figuraria como rama linguagem preferencial por trabalhar com códigos importantes no imaginário de parcela da juventude negra baiana.

Eu tinha o dom de fazer música, de cantar o sofrimento e fazer músicas que mexiam com o Sistema e com a sociedade. Hoje, eu tenho pra mim que passou a raiva. Mas era, o que eu chegava a dizer através da música, e. eu pedi a Deus que ele renovasse esse dom em mim, mas de outra forma. Que eu pudesse cantar e falar das obras dele através das minhas músicas. E contar da minha vida, da forma que ele tinha transformado. E eu consegui. E eu achei gostoso que a única coisa que não mudou foi o ritmo. Porque eu. acho que tem uma coisa diferente, esse rit mo é diferente do bolero, do rock, do jazz, do blues, penetra mais nas pessoas.

Por mais paradoxal que aparente, a reestruturação, tanto de uma rede de sociabilidade erigida basicamente em torno de noções de etnicidade para uma outra construída em função das "práticas" e da fé, quanto da representação que alguns elementos têm dentro de ambas, significou uma posição bastante ambígua dos rastas-convertidos em relação a esses dois "mundos", para eles perfeitamente interpenetráveis. É importante enfatizar a possibilidade de duplicidade nas experiências vividas cotidianamente. Como apontam Fry & Howe, "ainda que a conversão a uma fé religiosa possa ser entendida e publicamente expressa em termos do relacionamento homem/divindade, também envolve certas modificações no relacionamento homem/homem. Deixar um conjunto de crenças por outro implica modificações no intercâmbio social" (1975:83).

Quanto às modificações, no caso específico da produção e do consumo do reggae, elas se farão muito mais explícitas no plano das representações que tais elementos terão no cotidiano desses jovens. Porque na esfera do comportamento, ou seja na freqüência desses jovens às atividades e ambientes do reggae, não ocorrerão transformações substanciais. Eles continuarão a freqüentá-las ao lado de rastas e não-rastas.

Os rastas-convertidos estabelecerão novos significados para as "mensagens" veiculadas nas letras de reggae, antes expressão de uma "consciência" étnica da negritude. Afirmam todos ter sido através do reggae que foram tomados os primeiros contatos com as idéias rastafari, assim como com a Bíblia. A partir da "nova vida" a música passa a ser inspirada pelos salmos bíblicos. O reggae falaria de uma "consciência" étnica e política, mas também de amor a Deus e de não-violência:

O reggae era uma coisa assim meio política, falava muito da questão do sofrimento do povo e do sofrimento do povo negro. Mas não adianta a gente falar e não dar jeito. Porque Deus pede que a gente louve a ele, porque é ele quem pode dar solução. O homem em si, ele jamais pode resolver o problema de outro homem. Porque muitas músicas daqui falam muito da questão racial do povo negro, mas no fundo, no fundo, depois que eles ganham uma posição no Sistema eles esquecem, não passam nos lugares mais carentes. Isso foi uma coisa que me levou a também me afastar do movimento, porque não existia verdade, só falsidade.

Não que o reggae tenha perdido seu lugar de destaque na vida desses jovens, mas sim o que tem sido tematizado nas suas letras:

Se levantar contra o Sistema é perder tempo, saber que eles estão com as armas na mão, eles estão com o poder. A tendência deles é eliminar um por um. Então eu acho que não é muito válido e eu acho que existe uma forma só: a gente falar de Deus pra eles já é uma agressão. Porque a gente está vivendo na justiça. Está dizendo não para a injustiça e dizendo sim para as coisas boas. Então basta a gente falar de Jesus para o Sistema que já é uma grande agressão para eles. Porque eles não aceitam. Porque todos os temas têm uma proposta política, é a de que sejamos verdadeiros, é a de que sejamos justos o tempo todo e de que procuremos as coisas boas da vida.

Se lutar contra o Sistema não é mais o objetivo do reggae é porque agora ele ganha outra função: ser instrumento de adoração ao Senhor. Na "nova experiência de vida" ele mantém um lugar especial em meio a outros ritmos que também são formas de louvor:

A gente faz um reggae pra Jesus. É o mesmo ritmo, é a batida que toca no nosso coração. É regar, é uma coisa forte, é crescer e trazer as pessoas para um mundo novo. Em relação ao ritmo, a gente pode tocar qualquer um, que não influi. Porque algum tempo atrás o reggae que a gente fazia era um reggae superpolítico, né? Um reggae que falava do Sistema, que falava da política racial, uma coisa cultural. Protestava contra a violência, falava sobre a fome. Mas aí a gente teve a consciência de que tudo isso tem que se cumprir, porque foi profecia. Mas com tudo isso a gente fala de amor para as pessoas na nossa música. A gente não vai dexar de fazer a nossa música, não vai deixar de usar os nossos cabelos grandes. Não vamos deixar de praticar certos hábitos que está escrito [sic], porque o que a gente vivia era sempre baseado nas Escrituras.

Eu sempre tive uma ligação com o ritmo reggae, inclusive eu tenho louvores hoje que é só ritmo reggae. Eu só sei fazer reggae. Para louvar a Deus, eu só sei fazer reggae. Inclusive eu tenho uma música, um louvor que eu fiz ao Senhor, que está sendo cantado numa congregação mas num outro ritmo. Deve ser porque eu dei para ser cantada na forma que eles quisessem cantar.. Mas eu só sei cantar ela no ritmo que eu fiz. Mas isso não quer dizer que a gente só louve com reggae, nós cantamos em outros ritmos. Mas essa coisa de reggae partiu de nós.

As mensagens veiculadas nos reggaes, contudo, nem sempre são distinguidas entre "políticas" e de "adoração". Os rastas-convertidos fazem uma outra diferenciação entre elas. Embora muitas vezes as músicas sejam salmos e passagens extraídos da Bíblia para louvar o Senhor, em outras elas servem de instrumento a "espíritos malignos" para incitar os "inocentes" a louvá-los, justamente por ser uma música que "mexe com a consciência das pessoas". Através de grunhidos, línguas estranhas e sons na maior parte das vezes ininteligíveis, estariam sendo veiculadas as "mensagens ocultas". Estas seriam uma espécie de contrapartida de alguns músicos de reggae (embora não exclusivamente) famosos que, tal como Fausto, ter-se-iam vendido ao maligno em troca do sucesso.

O mundo material é paralelo ao espiritual, a mesma coisa que tem no direito, tem no esquerdo. Politicamente falando, existe a direita e a esquerda. Essa regra é para tudo na vida, positivo e negativo. Por exemplo, eu descobri que o que não é alto, é baixo. O que não é magro, é gordo. O que não é redondo, pode ser retangular ou quadrado. Se não é Deus é o Maligno.

A descoberta da outra metade, dos dois "mundos" paralelos, poderia ser verificada de forma simples. Em muitas ocasiões o grupo insistiu para que eu presenciasse uma experiência que consistia em girar um disco no sentido anti-horário, revelando então o que estava oculto.

A maioria dos cantores (... ) alguns deles (... ) têm pactos que eles oferecem em comum a Cosme e Damião e a outros. E dentro desse pacto eles têm que lançar uma mensagem oculta. E a maioria dos discos de reggae aqui, a gente rodou, e muitos estavam realmente louvando ao diabo e falando assim: isso se chama mensagem oculta . Muitos dão a bênção ao diabo, muitos falam "que satanás viva". São louvores autênticos ao diabo. A palavra de Deus fala que "nada é estranho ou oculto." Não existe nada de oculto que não deva ser revelado. A Palavra de Deus fala que quem não louva a Deus, louva ao Diabo. Eu gosto de ouvir os reggaes que eu faço, os que os meus irmãos fazem, que são uns reggaes superbonitos, uns reggaes voltados e inspirados no Espírito Santo.

Em que medida poderiam ser pensados esses deslocamentos ocorridos tanto no plano das representações quanto no lugar que a música reggae ocupava no cotidiano desses jovens? Tal indagação por certo não se encerra na conclusão de que a conversão à fé pentecostal limita a esfera da vida material às fronteiras do sagrado, posto que no caso em questão a transformação é necessariamente parcial. Por um lado ocorre o que Rolim chama de "sacralização do social" (1985:230), com a celebração da África, da negritude, do gueto e a recusa ao "Sistema" concentrada na identificação do "maligno", mas como a ênfase do pentecostalismo está muito mais calcada na experiência do que propriamente na doutrina, há também um contínuo "reaproveitamento" de alguns elementos da dimensão material.

Não obstante, essa interpretação passa pela compreensão desses jovens de que existem determinados limites. Estes estão nitidamente expressos no desejo de assumir um "identidade religiosa" que não represente submissão - "ser crente" -, por exemplo não deixando de usar o penteado e a vestimenta que mais lhes agrada. O que se postula é uma vida "santa" na fé e nas práticas, e menos nas aparências e nos costumes. Uma vez obtidos os dons de profecia, clarividência e capacidade de falar em línguas estranhas através do batismo e do "entendimento" das escrituras, a aproximação do maligno pode ser evitada, pois ele já foi reconhecido. Sabe-se que ele está presente em quaisquer formas de prostituição, no "cigarro branco", no álcool e no ódio ao "irmãozinho branco". A ganja seria de fato uma erva santa, uma erva de adoração ao Senhor quando utilizada da maneira certa. Cura doenças, mas também tem sido utilizada pelo "maligno", através do vício e da contaminação que seu uso propicia. Sua presença é constatada, também, nas formas de "adoração ao maligno", identificadas principalmente no candomblé. A informação de que a ganja é utilizada em certos rituais de candomblé permitiu uma reinterpretação de sua "santidade". Tal qual o reggae, sua utilização é mediada por uma "atitude", um "fim" e uma "intenção".

Eu li um versículo na balia que dizia assim: "Todo o ser que respira louva a Deus, canta a Deus, porque Deus se agradava com isso ". Isso me fez entender que aquelas pessoas que não cantavam pra Deus, cantavam pro mundo. Não bendiziam a Deus com suas palavras, porque apesar de suas obras, eles mostraram que só eram amigos de boca, de lábios. Eu vi essa liberdade através disso. Porque as verdades são paralelas umas com as outras, se o Deus ao qual eu sigo é misericordioso, é bom comigo, o mundo que não serve a Deus faz festa, dança e canta promundo. Por que eu não posso cantar e dançar para o Deus ao qual eu sigo? Eu tomei essa consciência comigo mesmo. Apesar de algumas igrejas terem cânticos e dança. Mas o que me deu o maior entendimento foi um salmo de Davi. Porque o próprio Davi vinha saltitando diante de Deus e vinha danando diante de Deus e louvando. O que nos levou a ter essa consciência foi isso, os salmos da palavra de Deus. Ela [a  Palavra] testifica que o próprio que salmodiava, danava. Sendo eu que nem ele, por que não dançaria também? Nosso objetivo, fazendo o trabalho na Gamboa, foi para que as pessoas tivessem melhor liberdade [sic], não fosse uma coisa doutrinada pela igreja.

A situação dos rastas-convertidos, em sua tentativa de distanciar-se duplamente, da vivência do crente "doutrinado pelas igrejas" e do mundo das "misturas" e da contaminação com os "vícios", parece resultar numa posição bastante ambígua do grupo em relação aos dois comportamentos. É que essa ambigüidade pode ser verificada tanto em suas práticas rituais e nas relações que mantêm com a IPJN, quanto na rede de sociabilidade que se forma em torno da produção, consumo e discussão do reggae e dos temas rastafari. Assim, .uma série de conflitos irrompeu dessa dupla desterritorialização, ao. se colocarem além dos limites erigidos pelos segmentos político-religiosos do campo afro-brasileiro e aquém das formas de pertencimento ao "mundo protestante", sobretudo o de tipo pentecostal. Para a qualificação dessa posição ambígua do grupo frente á essas duas experiências, poderia ser empregada a idéia de um "status desviante", tomada por empréstimo da análise que Fry & Howe fazem para a comparação entre umbanda e pentecostalismo (1975:199). Afirmam os dois autores que: "A unicidade do deus pentecostal se traduz num código consistente e unificado do comportamento diário, código este extraído da tradução bíblica e da inspiração direta do `espírito santo'. Esse código seria o meio para se alcançar a salvação, através da observância de certos tabus puritanos, tais como os referentes a bebidas alcoólicas, televisão, cinema e cigarro. Esses tabus têm como efeito destacar publicamente os pentecostais do resto da população. Eles assumem seu status religioso desviante." Pergunto-me se seria a busca da salvação que teria levado os rastas ao encontro dos pentecostais.

O princípio de exclusão estaria também presente nos postulados do rastafarianismo, nos quais a santidade estaria fortemente representada em atitudes referentes à alimentação e aos cuidados corporais. É principalmente o corpo, em contato direto com Deus (imagem e semelhança do homem) através da natureza, que deve ser preservado e nutrido de elementos que garantam sua pureza. Os cabelos, que no imaginário rastafari significam a manutenção de uma estética de aproximação com o sagrado pela ausência de adulteração e contato com elementos considerados poluidores (químicas não-naturais), seria um dos sinais externos mais visíveis da busca de integridade física. Seriam condutores da energia divina, colocando em relação o homem e a divindade por tornar o homem mais primitivo (portanto africano) e mais próximo da natureza; os dreadlocks significariam para a sociedade a falta de higiene e o desvio. Aqueles que os adotam, sejam eles rastas ou não, são vistos ora como perigosos marginais ora como espécie de dropouts.

Outro ponto que contribui para esse "status desviante" dos rastas seria a associação de seu contato com a ganja, vista como uma droga capaz tanto de aliená-los como de impeli-los à violência. Paradoxalmente, na ideologia rastafari, a ganja, uma erva "espiritual" e "sagrada", com seu uso concebido como poderoso instrumento de purificação físico-mental que amplia a capacidade de percepção de quem dela faz uso em relação si próprio e ao mundo em que vive. Seriam considerados drogas o cigarro e o álcool, que provocam doenças, vícios e "alimentam" o sistema.

A vivência rastafari, em seu sentido mais "radical" postulado pelo grupo de convertidos, seria uma metáfora dessa busca de santidade e, ao mesmo tempo ortodoxia (Soares, 1990). Isto porque a "nova vida" implicou em separações e ao mesmo tempo em questionamento de um "estilo de vida" anterior. Os namoros, o cotidiano da convivência entre outros rastas, os ambientes do reggae, o contato com a ganja, a afirmação de uma "consciência racial", o elogio ao gueto e à negritude, entre outras questões, foram objeto de reformulações quanto ao lugar e à representação que têm na nova experiência. Quanto às separações, há uma preocupação em distinguir (através do uso dos dons, das práticas e da fé) "falsos rastas" dos demais, que têm contato com elementos poluidores como "cigarro branco", álcool, e consumo da ganja em função do vício.

O que me parece estar em jogo nessa nova vida postulada pelos rastas-convertidos está longe de ser definido como troca de "identidade religiosa". As contradições que emergem da nova experiência reproduzem dimensões vinculadas aos sentimentos, à busca de "verdades", à autonomia religiosa, à fé e aos vínculos com o sagrado. Ao mesmo tempo, tais dimensões não anulariam o reconhecimento de certos limites presentes na "nova vida", cuja compreensão parece ter sido elaborada na experiência anterior, isto é, na representação de certas noções de etnicidade. Por outro lado, tais representações estariam em constante conflito porque fazem parte dá um discurso étnico-político, portanto se inserem no plano da unidade e não da singularidade . Na outra esfera estariam as dimensões mais particularizadas da experiência humana, as "aflições", "angústias" e "conflitos amorosos e existenciais" que afetariam indivíduos independentemente de diferenciações de raça e classe (Fry & Howe,1977). Se é verdade que a etnicidade tem um peso importante, ou seja, como a define Bacelar (1989) se ela é um "referencial básico" entre os segmentos negros em Salvador, na "nova vida" experimentada pelos convertidos ela seria inexistente? Ao contrário, os rastas a definem como uma experiência rastafari radical. Isto porque a radicalidade não reside no plano do discurso étnico-político, mas nas dimensões mais subjetivas que foram "aprofundadas" e "entendidas" na "nova vida" - usando termos chaves da narrativa sobre a conversão. Nela, outras esferas, a-significantes quando contrapostas ao discurso que chama ao recentramento, a unidade e a identidade parecem ter encontrado lugar, ainda que a percepção da diferenciação étnica não tenha deixado de existir.

Entretanto, a situação dos rastas-convertidos parece-me substancialmente diferente da articulação negro/crente, cuja análise foi feita por Novaes & Floriano (1985). Isto porque o fato de que a distinção, o "destaque da experiência pentecostal", é explicitada no campo da fé e não mais (como na experiência rastafari) em termos de diferenças étnicas, não representa que esta última seja ausente no imaginário desses jovens. É fundamentalmente em termos da fé que uma possível interseção é pensada por eles em relação às duas experiências. Portanto, a relação negro/crente, objeto da análise que busca compreender o lugar que a questão racial ocupa no chamado "mundo" do protestantismo histórico, se colocaria de forma diametralmente oposta no caso dos rastasconvertidos; porque sua experiência põe em questão o lugar da fé no campo das relações raciais e, ainda mais, na esfera da produção de enunciados étnico-políticos.

Procurando compreender quais seriam os motivos que levariam os negros às "religiões da glória", Bastide afirmava: "(...) não nos parece que o negro procure nessa religião a satisfação de tendências ancestrais. Ele procura outra coisa. Mas o quê? A `religião da glória' é uma religião puritana, proíbe beber, fumar, dançar. Ora, os negros que se convertem, antigos bêbados e vagabundos, sobre os quais pudemos nos documentar, são atormentados pelo desejo de sair de suas vidas de `pecadores' e, de fato, após a sua conversão (...) se tornaram cidadãos honestos. O que lhes permite, em troca, por causa dessas qualidades morais, subir na escala social (...) Assim, nessa religião de transe místico, o que nos parece dominante para o homem de cor é essa vontade puritana, esse esforço para sair da classe baixa e, por assim dizer; se aburguesar. É no momento em que, agitado por tremores, falando línguas estrangeiras, dominado pelo Espírito Santo, ele tem o ar de estar mais próximo da África, que está, com efeito, mais longe dela e que mais se ocidentaliza" (1985:511-2). Ao contário do que afirmara o autor, penso ser a experiência-limite de jovens baianos na adoção do rastafarianismo como estilo de vida e seu contato com o pentecostalismo, um exemplo de que uma análise acerca do lugar que ocupam os negros no chamado "mundo protestante" não pode estar restrita a conclusões que digam respeito a uma busca de "status social".

Concluindo, gostaria ainda de mencionar possíveis articulações-limites entre essas duas experiências - a rastafari e a pentecostal -, embora, como foi observado, elas já estejam anteriormente marcadas por mecanismos bastante específicos quanto à forma de "adoção" por aqueles que denominei rastas-convertidos. Poderíamos sugerir que tanto a busca pela santidade/integridade física e mental presente em ambas, quanto a "estranheza" das articulações ali produzidas - um possível diálogo entre pentecostalismo e um discurso étnico - em relação à sociedade brasileira num plano geral (e à "realidade baiana" em particular) poderiam ser abordadas como ponto de partida para a compreensão do processo de conversão. Ser ao mesmo tempo rasta e cristão coloca duplamente em questão a religiosidade e a esfera das relações raciais na sociedade brasileira.

Para tentar entender algumas dessas questões suscitadas pela posição dos rastas-convertidos frente a essas duas experiências - um estilo de vida inspirado em alguns dos postulados rastafari e a conversão à fé pentecostal -, é importante detectar e analisar separadamente alguns dos elementos que figuram como pontos de encontro dessas duas visões de mundo. Evidentemente esse cruzamento só é possível porque se insere dentro de um contexto, o dos rastas baianos em suas várias tentativas de vivenciar o que entendem por "estilo de vida rasta", seja através da experiência da fé, como fizeram os convertidos, seja na busca das "raízes africanas" (que em última análise os leva a repensar o papel do próprio candomblé), na oposição ao Sistema através da afirmação de outros valores estético-políticos e até em sua exaltação como forma de gozar de certo status dentro de um determinado território de relações sociais. E importante ressaltar que a questão do rastafarianismo ou o binômio de idéias/práticas a ele associado, no caso baiano se coloca como um ideal, um plano de representações diversificadas, do qual o espelho - no caso a assunção ou adoção de um estilo rasta em Salvador - emite em forma de prisma as imagens refletidas, já mediadas por novas interpretações do conjunto simbólico primeiro. Não se trata de versões, mas de reinvenções onde não existem cópias, mas experimentações e desejos.

O reggae como importante espaço de experimentação será apropriado de maneiras diferenciadas de forma a dar conta da vida "em santidade" postulada pelos convertidos. Agora, a revelação e a inspiração produzidas pelo reggae são dons da divindade. Assim, o conteúdo político é relativizado, pois o "inimigo" deixa de ser o Sistema e passa a ser o Maligno. O racismo e a opressão perdem sua dimensão histórica e passam a resistir como "desvios pessoais", "perturbações" e má interpretação da palavra. Curiosamente, não são negados em nome da "irmandade na fé".

A operação que fornece novos conteúdos às representações da música entre os rastas não pode ser classificada como uma espécie de "troca de identidades", sejam elas definidas como sociais ou como religiosas. A "identidade", vista pela ótica do discurso militante, não se coloca como questão, nem mesmo se faz presente como "categoria nativa". Ao invés de apropriar seu sentido substantivado, a experiência dos "rastasconvertidos" parece processar uma operação demolidora. Implodem a unidade de referência e trocam um discurso essencialisfa pela experimentação. Como dissemos no início do artigo, experimentar constitui uma "ação" imperativa para a juventude negra baiana que investe em estilos de vida inspirados no rastafarianismo. Isto porque não há uma, mas múltiplas formas de adotar estilos.(8) Ao mesmo tempo, a experiência pentecostal não pode ser vista como mais um caso de conversão e aceitação das práticas e da crença religiosa. Os rastas convertidos realizam um movimento desigual e não-linear.

Dessa forma, na narrativa da conversão, o momento que envolve simultaneamente a ganja, o reggae e a oração na história contada por Beto, "fazer a coisa certa", significou um processo de escolha, que pode ser definido também por sua virtual contingência. Ao invés de "troca de identidades", a conversão envolve noções de singularidade, desejo e possibilidades de experimentar e tangenciar visões de mundo, práticas, fé e sentimentos sem contudo apropriar-se dos conteúdos subjacentes.

Notas

* Nota Metodógica: O material recolhido para o presente artigo foi analisado detalhadamente e constitui parte de minha dissertação de mestrado - "Corações Rastafari; lazer, política e religião em Salvador"-defendida em 1991 no Museu NacionaVUFRJ. Foi recolhido durante o período que compreende os anos de 1989 a 1991. A pesquisa procurou focalizar a trajetória pessoal de alguns jovens que se autodenominam ou são vistos pela "comunidade negra" como "rastas". A partir de entrevistas e de "observação participante", tanto cultos como shows de reggae foram espaços privilegiados para o acompanhamento do processo de transformação de uma parcela de jovens oriundos do grupo conhecido como Legião Rastafari em "cristãos". É preciso reafirmar o caráter excepcional dessa experiência de conversão de um estilo de vida inspirado no imaginário rastafari à fé pentecostal e reafirmar a heterogeneidade de vivências que envolvem a adoção de um estilo rasta. Neste artigo procuro focalizar o caso dos rastas convertidos, que de maneira alguma pode servir de paradigma para a presença do rastafarianismo entre a juventude negra de Salvador. Entretanto constitui um material bastante interessante para um duplo questionamento, que diz respeito à ênfase na unidade, tanto no discurso étnico-político dos movimentos negros quanto no imaginário pentecostal.

                                  

1. Na própria capa do disco, a foto de Tosh em meio a uma plantação da erva remete-nos à figura do bush doctor, muito popular entre a população pobre e negra de cidades como Kingston. Toda uma cultura e literatura popular sobre os "efeitos benignos" da erva tem sido produzida em forma de folhetos e panfletos entre os rastafari jamaicanos, ressaltando justamente seus poderes curativos e espirituais. Dessa forma, a luta pela legalização da maconha ganha um conteúdo cultural e religioso. A respeito, ver o significativo trabalho de Dennis Forsythe (1983).

 

2. Entrevista dada a John Swesan na revista Hight Times em novembro de 1981.

 

3. Afirma Tosh: "The police are being influenced by the music and that only proves the potential of reggae music to the world. That reggae has a potential, because the political shitstem (sistema de merda) to keep black people down they would prefer to have the police establish reggae music (...)" (idem, p.34)

 

4. "Estados Modificados de Consciência" (Lapassade, apud Perlongher, 1991).

 

5. "Dreadful People" era a forma como os setores das classes dominantes se referiam aos negros barbados e com longas tranças que começam a aparecer nas ruas de Kingston já nos anos 40. Mais tarde, com valor simbólico invertido, o termo transformou-se em identificação dos próprios rastas (dreads) e de seus cabelos (dreadlocks). A esse respeito ver: Nettleford, R. e outros, 1967.

 

6. No imaginário rastafari existe uma oposição cosmológica e geográfica entre a Etiópia (e a África, num sentido mais abrangente) e a Babilônia, que na tradição bíblica seria território de opressão e cativeiro. Estar na Babilônia significa portanto viver em estado de subordinação e, na reinterpretação dos convertidos, viver em pecado. Adjetivar algo como "babilônico" é defini-lo como impuro e, no plano político, instrumento de dominação. A África e tudo o que dela deriva representa libertação, pureza, verdade e história. É na forma sob a qual determinadas idéias, práticas e elementos da natureza se enquadram nesse sistema classificatório que se constrói a homologia entre o "paradigma cosmológico" e o "paradigma geopolítico" (Homiak,1987:222).

 

7. Gamboa é uma pequena favela, ou invasão, espremida numa das encostas da baía. Numa casa bastante simples pertencente a um dos rastas, mas que eventualmente serve de moradia temporária a outros, realiza-se semanalmente um culto pentecostal produzido pelos rastas e seus "irmãos".

 

8. A noção de estilo, nos termos propostos por Hebdige e Clarke, refere-se, em linhas gerais à produção ou incorporação de elementos visuais, estéticos, gestuais e discursivos apropriados por determinados grupos ou indivíduos, visando imprimir uma marca distintiva dos "outros" sujeitos sociais com os quais se relacionam. Assirri-como sua conjugação consiste em uma forma específica de "comunicação intencional". Ver: Clarke, John (1982); Hebidge, Dick (1979).

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