LIDERANÇAS EMPRESARIAIS E PROBLEMAS DA ESTRATÉGIA LIBERAL NO BRASIL (*)

 

Eli Diniz & Renato R. Boschi

 

A partir da segunda metade dos anos 80, o Brasil vem atravessando uma conjuntura de crise e de transição quê pôs em xeque a estratégia de industrialização por substituição de importações e o padrão de ação estatal que lhe deu sustentação, impondo simultaneamente a ruptura com o passado autoritário e a construção de uma ordem democrática. Conjunturas desse tipo, que abalam os alicerces de um dado modelo de expansão capitalista, abrindo o caminho para novas alternativas, estimulam a reflexão sobre o papel de atores estratégicos na redefinição da antiga ordem, vindo à tona a discussão sobre a capacidade de resposta de tais atores aos desafios com que se defrontam.

Foi assim nos anos 30, quando a crise da república oligárquica e do modelo agroexportador desencadeou um amplo debate sobre as potencialidades dos grupos emergentes - empresários, trabalhadores e setores médios urbanos -, bem como sobre o papel das elites técnicas e militares na instauração da ordem industrial. No momento atual, marcado pela ênfase nas diretrizes neoliberais, o foco da atenção recai sobre o empresariado, sobretudo em sua fração industrial, tendo em vista o papel que dele se espera na passagem para um modelo cuja eficácia depende da vitalidade do mercado. Estarão os empresários aptos a responder criativamente aos imperativos da mudança ora em curso? É possível apontar a existência de um novo empresariado identificado com o esforço de implantação da nova ordem?

Como é sabido, a formação e consolidação do empresariado industrial remonta às décadas de 30 e 40, num contexto marcado pelo fechamento do sistema político e pelo fortalecimento dos mecanismos de centralização do Estado e de sua capacidade de intervenção na vida econômica e social, paralelamente ao esvaziamento da arena parlamentar-partidária e à montagem do modelo corporativo de intermediação de interesses. A incorporação dos atores emergentes - empresários e trabalhadores urbanos - ao sistema político se fez através de sua inserção nessa estrutura altamente hierarquizada e subordinada ao Estado. Definidas como entidades paraestatais, as organizações empresariais e sindicais viriam a depender de um aporte obrigatório de recursos - o imposto sindical - razão pela qual não se viram na contingência de oferecer a seus membros incentivos suficientes para deles extrair os recursos necessários para sua sobrevivência e expansão.

Entre 1930 e 1945, o empresariado industrial consolidou sua posição econômica e conquistou um espaço político próprio, definindo sua identidade em relação aos grupos dominantes tradicionais representados pelo núcleo agroexportador. Os empresários adaptaram-se ativamente ao corporativismo varguista, mantendo, ao lado das organizações oficiais, formadas pelos sindicatos, federações e confederações patronais, uma estrutura integrada pelas associações setoriais independentes. Instaurou-se a partir daí o sistema dual de representação de interesses, que o empresariado industrial mantém até hoje em vigor. Os vínculos com o aparelho burocrático estatal permitiriam a abertura de arenas de negociação entre elites técnicas e empresariais, transformando-se o executivo na arena privilegiada para o encaminhamento das demandas empresariais. Esse padrão perdurou até as fases mais avançadas da industrialização por substituição de importações, que se estenderam pelos anos 60 e 70.

São três as principais características desse período. Em primeiro lugar, o intercâmbio com o Estado, dotado de fortes instrumentos de controle e de cooptação, marginalizando a mediação partidária, foi crucial para a constituição do empresariado enquanto ator político, o que reduziu substancialmente a autonomia do conjunto da classe. Em segundo lugar, a estrutura organizacional baseou-se na especialização e setorização dos interesses, evoluindo para um padrão fragmentado e diferenciado de articulação de demandas. Finalmente, o corporativismo estatal viabilizou a participação das elites industriais nas estruturas de poder, mas excluiu os trabalhadores, institucionalizando um estilo de intercâmbio bipartite, envolvendo empresários e elites burocráticas em torno da formulação de políticas específicas. Dessa forma, esse tipo de estrutura corporativa reduziu os incentivos à cooperação, gerando uma lacuna quanto à formação de arenas comuns de negociação interclasse. Não é por acaso que não se observou, no Brasil, a formação de organizações de cúpula voltadas para a representação dos interesses do conjunto da classe empresarial. Esforços esporádicos nessa direção tiveram resultados parciais e transitórios, como ocorreu com a criação da UBE (União Brasileira de Empresários) por ocasião das discussões sobre a ordem econômica e social no Congresso Constituinte. Em síntese, o empresariado definiu sua identidade e seu perfil enquanto ator político fora da arena parlamentar-partidária, desenvolvendo um estilo de ação tópico, calcado na defesa de interesses particulares e de curto prazo. Em conseqüência, uma de suas limitações básicas consistiu na dificuldade de formular plataformas de teor abrangente e propostas de alcance geral, capazes de expressar os interesses do conjunto da classe.

Durante a década de 80 ocorreram mudanças substanciais que tiveram um impacto sobre a organização e o comportamento político do empresariado.

Assim, por exemplo, alterações profundas na ordem econômica e social levaram à proliferação de diversas formas de participação, que se desenvolveram à margem da estrutura corporativa, esvaziando-a em sua capacidade de exercer o monopólio da representação dos interesses. Esta não se esgota em um único modelo, traduzindo-se por formatos diferenciados que se complementam, numa interação que não obedece à dinâmica de jogo soma zero. Dessa forma, ao longo das duas últimas década, a complexidade crescente da sociedade brasileira levou ao reforço das tendências pluralistas, resultando na emergência e proliferação de associações de profissionais liberais, professores, funcionários do setor de serviços e de empresas estatais, entre outras. Efeitos similares decorreram da expansão dos movimentos sociais, englobando desde associações de moradores, até grupos étnicos, ecológicos e feministas. O caso brasileiro é, portanto, um caso típico da tendência mais geral no sentido da conformação de um sistema híbrido, atestando a complexidade crescente da estrutura de intermediação de interesses em seu conjunto. Esta se caracteriza pela coexistência de diversos padrões, com a persistência do corporativismo tradicional - embora bastante atenuado em sua rigidez original - e o desenvolvimento de grupos organizados segundo a lógica pluralista, sobretudo nos grandes centros urbanos, ao lado do surgimento do neocorporativismo como alternativa de participação dos grupos privados em certas arenas de decisão, notadamente em certas áreas de política econômica e ambiental.

A década que se inicia revela o reforço dessas tendências. Quanto ao empresariado industrial, as mudanças levaram ao aprofundamento da diferenciação e complexidade crescentes das entidades de representação dos interesses de seus vários segmentos. Assim, surgiram novas organizações como o IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), o PNBE (Pensamento Nacional das Bases Empresariais) e os Institutos Liberais, como os do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul.(l) Os novos núcleos abrem canais alternativos de participação, à margem da estrutura oficial. Suas lideranças questionam as entidades tradicionais e preconizam não só a maior autonomia e independência da representação empresarial, como a necessidade de formular propostas globais, que transcendam o universo de óticas setoriais e permitam a ruptura com a prática de defesa de interesses meramente corporativos. Além disso, propõem a difusão de valores ligados à defesa da economia de mercado e da livre iniciativa.

O maior pluralismo da estrutura de representação dos interesses industriais, gerando o aumento da competição entre formas distintas de conceber o papel e a atuação do empresariado na esfera econômica e política, tende a desencadear um novo surto modernizador pela busca de maior eficácia das organizações empresariais na defesa das posições relativas da classe. Por outro lado, o grande número de organizações aumenta a diversidade e o conflito, sem a contrapartida da criação de uma entidade de cúpula, de caráter abrangente, capaz de atenuar os efeitos centrífugos das diferenças setoriais. A inexistência de uma central empresarial e o baixo grau de concentração da estrutura organizacional anteriormente descrita não permitem antever uma evolução na direção de formas mais unitárias de atuação. A predominância de uma visão setorial e a ausência de incentivos à cooperação entre seus diferentes segmentos persistem como traços marcantes da classe empresarial. No momento atual, essa dispersão tem, porém, efeitos homogeneizadores do ponto de vista ideológico e valorativo. Em primeiro lugar, o aumento da competição entre antigas e novas organizações tende a imprimir maior maleabilidade às estruturas tradicionais. Além disso, pode desencadear um processo capaz de levar à renovação de lideranças, à atenuação do hiato entre a cúpula e as bases organizacionais ou ainda à elaboração de uma nova cultura empresarial.

O que se quer salientar aqui é o fato de que o aprofundamento de uma estratégia de desenvolvimento fundada na presença marcante do Estado concorreu tanto para a elevação da estrutura produtiva a um patamar de extrema complexidade comparativamente ao de outras sociedades latino-americanas, quanto para uma progressiva adaptação das mediações Estado/sociedade. Conquanto a estrutura de representação de interesses tivesse se revelado maleável e dinâmica o suficiente para atender aos requisitos desse modelo mais completo de estrutura industrial, findo 0 ciclo, com o advento da retirada do Estado, colocar-se-iam desafios que tal estrutura de intermediação não estaria mais apta a responder. Tais inadequações, ainda que não impliquem a rejeição do legado corporativo, estão na origem do processo adaptativo em curso, cuja especificidade é um questionamento mais profundo de alguns de seus aspectos, tais como o autoritarismo do processo decisório, a dissociação entre cúpula e bases, a oligarquização dos cargos de direção.

Assim, o avanço da modernização capitalista e do processo de democratização no Brasil não levam à ruptura com o antigo padrão de articulação Estado/sociedade, embora algumas mudanças importantes estejam em curso. Com relação ao setor empresarial, ainda não é possível detectar com clareza a formação de um novo empresariado. Por outro lado, rompeu-se a rigidez da estrutura legada pelo velho estilo de industrialização tributária do Estado, aguçando a crise de representatividade do conjunto do sistema de intermediação.

Este constitui o aspecto central da presente análise, na qual se procurará destacar, com base numa série de entrevistas em profundidade realizadas com lideranças tradicionais e emergentes do empresariado industrial, diferentes aspectos das mudanças nos recortes Estado/sociedade impostas pela estratégia liberal.

A partir de uma análise prévia das mudanças recentes na estrutura de representação empresarial, foram realizadas trinta entrevistas com as lideranças mais expressivas de FIESP, IEDI, PNBE e representantes dos Institutos Liberais do Rio de Janeiro e de São Paulo. O roteiro das entrevistas teve por objetivo detectar a percepção dos empresários acerca das características do antigo modelo de desenvolvimento e do processo de redefinição na direção neoliberal, focalizando aspectos econômicos e políticos dessa transição. Um núcleo central de questões concentrou-se na percepção do padrão vigente de intermediação de interesses; contrastando antigas e novas organizações no que diz respeito a sua capacidade de resposta aos desafios do momento. Através de um terceiro conjunto de questões, procurou-se apreender a percepção das elites empresariais acerca de alguns dos itens básicos da pauta de reformas, como privatização, liberalização, abertura da economia e integração regional. Finalmente, foram focalizados problemas ligados às relações do empresariado com sindicatos operários e à viabilidade política de soluções negociadas para o enfrentamento da crise.

Estratégias de desenvolvimento e a alternativa liberal

Tal como foi ressaltado em trabalho anterior,(2) há uma certa sobreposição entre as lideranças das antigas e das novas organizações, não tendo ocorrido um processo radical de renovação, excetuando-se o caso do PNBE integrado por uma nova geração de empresários ligados à pequena e a média empresas. Não obstante, é possível detectar diferenças importantes na percepção das elites entrevistadas acerca de questões cruciais, como o conteúdo do novo projeto de desenvolvimento, as maneiras de viabilizá-lo politicamente e o próprio papel da estrutura de representação de interesses.

No que se refere à percepção da redefinição de rumos para o desenvolvimento econômico do país, observa-se um consenso básico acerca do esgotamento da industrialização por substituição de importações sob a égide do Estado. Conquanto isso hoje possa parecer trivial, é útil lembrar que até recentemente havia controvérsias sobre a possibilidade de uma sobrevida daquele modelo e, particularmente, sobre a definição dos limites do intervencionismo estatal. Há uma visão relativamente uniforme de que o modelo nacionalista, estatista e autárquico do passado está superado. Este deve ser rejeitado em função das distorções que gerou, tais como o cartorialismo, a regulação excessiva, a baixa competitividade e produtividade, o atraso tecnológico e a aversão ao risco. Em contraste, o novo modelo, associado à recuperação do papel da empresa privada e do mercado, permitiria a recuperação da dimensão da eficiência necessária à superação dos impasses atuais. Em suma, o questionamento do velho modelo centra-se menos na virtualidade do papel do Estado como promotor do desenvolvimento do que na dimensão operacional, o que levaria à necessidade de definir claramente gruas e esferas do intervencionismo estatal. Nesse sentido, é também consensual a noção de que o Estado deveria se restringir às funções sociais e de direcionamento geral da economia evitando posições extremadas, seja em termos da onipresença do Estado ou de sua total retirada, tais como expressas nó estatismo nacionalista ou no liberalismo exacerbado. Esta última posição, identificada com um antiestatismo mais radical, é mais típica das lideranças ligadas ao Instituto Liberal.

Embora enfatizando a adequação das diretrizes liberais em face das exigências de reordenação do capitalismo brasileiro, os entrevistados chamaram a atenção para a ausência de um projeto estruturado, quer da parte do empresariado, quer da parte do governo. Avaliando a ação do governo, foi ressaltado que um projeto liberal existe pela negativa, já que a equipe governamental estaria sendo eficaz no desmantelamento da antiga ordem - em termos apenas de sua desorganização - sem o correspondente esforço de reconstrução.(3) Além disso, foi salientado o descompasso entre o discurso e a prática governamentais, na medida em que a proposta de recuperação do mercado estaria sendo implementada pela via de um alto grau de intervencionismo estatal. No que diz respeito à importância da definição desse novo projeto, os integrantes do PNBE ressaltaram que o mesmo deve ser fruto de um amplo debate nacional, contando com a participação da sociedade e das forças políticas, principalmente dos partidos e do Congresso. As prioridades não devem ser definidas de forma autoritária mas, ao contrário, devem resultar de um entendimento nacional ou de acordos negociados.(4)

Na definição desse novo modelo dentro da ótica de um liberalismo mitigado, as lideranças das novas organizações ressaltaram a questão da responsabilidade social do Estado. No caso do PNBE, fez-se mesmo alusão à necessidade de que esse processo de reestruturação se paute por uma visão social-democrata, notadamente quanto à promoção da justiça social, à redução das desigualdades e à incorporação dos setores marginalizados. Já as lideranças do IEDI destacaram a relevância de um investimento maciço em educação como requisito para a implantação do novo modelo.(5)

Através de um outro conjunto de questões, procurou-se apreender a percepção das elites empresariais acerca do desempenho do atual governo na execução de sua proposta mais geral e de itens específicos da pauta de reformas, como a privatização, a abertura ao exterior, ou ainda a integração regional. No que se refere ao desempenho governamental como um todo, os empresários, independentemente de sua filiação institucional, foram unânimes em apontai a falta de uma perspectiva de longo prazo e de um projeto bem definido quanto ao conteúdo das propostas. A preocupação com o combate à inflação é a meta principal, o que aprisionaria o governo em práticas corretivas que se expressam através de medidas de curto prazo e emergenciais. Além do predomínio do enfoque imediatista, a sucessão de planos de estabilização levaria a uma grande instabilidade das regras do jogo, criando mesmo, nas palavras de alguns, um clima de incerteza e de excessiva conturbação. Tal instabilidade estaria inviabilizando o funcionamento de uma economia de mercado, na medida em que os atores econômicos seriam induzidos a comportamentos predatórios, incapazes por isso mesmo de gerar eficiência para a superação da crise. Nesse contexto, pautar-se pelas regras do jogo significaria agir irracionalmente, beneficiando aqueles atores que as burlam, ou que se antecipam defensivamente a possíveis alterações de rota por parte do governo.(6)

Com relação à forma de execução das políticas governamentais, grande parte dos entrevistados salientou o estilo autoritário, caracterizado pelo uso indiscriminado de medidas provisórias, pela tomada de decisões sem consulta ou diálogo com setores da sociedade, e particularmente com o próprio empresariado. Em alguns casos, frisou-se o impacto negativo dessa tática, configurando-se uma situação de isolamento do governo.(7)

Considerando os aspectos específicos do programa de reformas, há um grande consenso quanto à meta da privatização, embora haja discordâncias quanto a sua amplitude. A maioria advoga uma privatização em todos os setores industriais, mas há os que defendem a preservação de estatais em áreas estratégicas. Quanto à forma de execução do programa - ainda bastante incipiente na época do trabalho de campo - predomina uma visão bastante crítica. Em primeiro lugar, os empresários observam que a política de privatização deveria estar subordinada a uma definição prévia de prioridades; em segundo lugar, quanto ao método de execução, o programa deveria resultar de diálogo e negociação com o setor empresarial para decidir qual a empresa envolvida, a que ritmo e através de que mecanismos o programa poderia ser levado a cabo; e finalmente, as entrevistas. sugerem alguma descrença quanto à própria viabilidade da proposta em seu conjunto, nos moldes em que era conduzida.

A questão da abertura da economia para o exterior constitui uma das mais polêmicas para os entrevistados. As posições do empresariado revelam-se cautelosas, ainda que, no geral, o discurso aponte a relevância de superar a herança protecionista e autárquica do modelo anterior. A abertura indiscriminada é vista como prejudicial por seus efeitos destrutivos sobre a capacidade instalada da indústria brasileira. Em contrapartida, a maioria das lideranças entrevistadas preconiza uma abertura gradual, seletiva e programada, subordinada a uma estratégia mais global. Entre as lideranças do PNBE, um aspecto ressaltado foi a necessidade de que o programa de abertura esteja vinculado a um projeto de soberania nacional, sem o que haveria o risco de acentuar a dependência do país em relação aos mercados internacionais, contrariando 0 objetivo precípuo da abertura, que consistiria no fortalecimento da posição do país no sistema internacional. De forma similar, entre os empresários do IEDI houve referências sistemáticas à noção de competitividade sistêmica, que significa que o processo de abertura não pode ser tratado enquanto meta isolada. Ao contrário, deve ser inserido numa formulação política mais abrangente, ao lado de um conjunto de medidas complementares - tais como a modernização do sistema portuário e dos transportes terrestres, além de uma melhoria profunda do sistema educacional -, apontadas em sua interdependência como condição essencial para o país tornar-se competitivo. Nesse aspecto específico, há também uma certa convergência com pontos de vista defendidos por alguns empresários ligados ao Instituto Liberal.(8) Um aspecto também apontado nas entrevistas refere-se às conseqüências negativas sobre a transferência de tecnologia advindas da ênfase unilateral na eliminação de barreiras alfandegárias via redução de tarifas. Assim, na perspectiva do investidor externo, a expectativa de tarifas reduzidas poderia cancelar a transferência gradual de tecnologia pela colocação de um produto acabado no mercado.

Quanto a esse tópico, tal como em relação a outros itens da pauta de reformas, a concordância com respeito aos princípios mais gerais da proposta governamental foi acompanhada de críticas contundentes a sua forma de execução. Assim, por exemplo, a implementação do Programa de Competitividade Industrial foi questionada, em função da ausência de critérios quanto ao recrutamento dos empresários integrantes da comissão formada para executar o programa e da eventual transformação dessa comissão em instância de mera ratificação de decisões prévias. No processo de constituição desta como de outras instâncias de consulta e implementação, tenderiam a prevalecer critérios personalistas, dando continuidade a um estilo tradicional de condução da política econômica, no qual a abertura de espaços de participação nas arenas decisórias se faz pelo desprezo às regras de representação.(9)

No que diz respeito à questão da integração regional, houve uma concordância em que se tratava, em princípio, de um item desejável na pauta de possíveis estratégias para a superação da crise e retomada do desenvolvimento. Contudo, a integração foi tratada secundariamente e com pouca ênfase pelos entrevistados que deram alguma atenção ao tema.

Até aqui foram tratadas questões ligadas à percepção do empresário acerca da forma de atuação do governo quanto à implementação de diferentes itens da proposta liberal. Basicamente, foram apontadas inadequações nas maneiras de relacionamento entre o Estado e a sociedade, tendo sido destacada a insuficiência de mecanismos representativos necessários à implementação de um programa de reformas liberais dentro de um contexto democrático. Um certo anacronismo expresso pela vigência de práticas autoritárias num quadro de institucionalidade democrática reforçaria a progressiva inadequação dos recortes Estado/sociedade às exigências do novo ciclo de desenvolvimento. Em particular, a revitalização dos partidos e do Legislativo seriam importantes elementos para a atual carência de estruturas de mediação política.

Se da visão sobre a forma de atuação do governo resultam aspectos negativos para a instauração da nova ordem, há também deficiências no tocante à própria situação do empresário enquanto ator coletivo, tais como expressas na percepção dos entrevistados sobre as debilidades da classe empresarial. Três foram os principais componentes desse despreparo do empresário enquanto ator coletivo. Em primeiro lugar, os entrevistados salientaram o predomínio de uma visão imediatista e da prática de defesa de interesses corporativos, pautadas, ademais, por comportamentos individualistas. Em segundo lugar, foi salientado que o empresariado, em geral, ainda se ressente de uma herança do antigo modelo, caracterizada pela sua excessiva dependência do Estado. Finalmente, um outro fator responsável pela fragilidade da classe empresarial seria sua própria estrutura de representação de interesses, que estaria a requerer um profundo processo de modernização.

Percepção da estrutura de representação do empresariado e do papel das novas organizações

A análise das entrevistas revela que o empresariado em seu conjunto tem uma visão bastante crítica a respeito de certos aspectos organizacionais e operacionais da sua estrutura de representação de interesses. Avaliando-a globalmente, ressaltaram que se trata de uma estrutura arcaica, ultrapassada e pouco ágil, além de mal aparelhada tecnicamente e, portanto, incapaz de fornecer ao governo uma base para a sustentação de políticas. Reivindicando que o governo não tem incorporado o empresário ao processo decisório, reconhecem, no entanto, que o empresariado não dispõe de uma estrutura que facilite tal incorporação.

Grande parte do despreparo da classe para influir nas decisões governamentais decorreria das limitações típicas da estrutura oficial corporativa. Criadas sob a égide do poder público, essas entidades sofreriam de um mal de origem, qual seja, o atrelamento ao Estado, o predomínio de um estilo de ação reativo e a preocupação de estar sempre bem com o governo. Em segundo lugar, tais entidades, especializadas na defesa de interesses específicos, careceriam de mecanismos para uma atuação voltada ao longo prazo. Em outras palavras, não estariam elas aptas a superar uma ótica essencialmente setorial. Em terceiro lugar, a baixa representatividade foi identificada como um dos problemas centrais das estruturas tradicionais. Entre outros fatores, a dissociação entre as cúpulas e as bases, a baixa rotatividade das lideranças e as distorções no peso relativo da representação - induzidas por uma fórmula de organização territorial e por ramos industriais - foram todos apontados como determinantes desse quadro. Um aspecto particularmente enfatizado foi o mecanismo eleitoral, que confere o mesmo peso a todos os sindicatos, independente do poder e da força do setor que ele representa, além de diferenciais na base geográfica de sua representação.

Por contraste, os empresários manifestaram uma avaliação relativamente mais positiva das associações civis que atuam paralelamente à estrutura corporativa, como a ABDIB (Associação Brasileira para o Desenvolvimento das Indústrias de Base), ABINEE (Associação Brasileira da Indústria Eletro-Eletrônica), ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) e outras. Em primeiro lugar, os empresários valorizam o fato de essas entidades terem surgido sem interferência do Estado, por iniciativa do próprio setor privado, como alternativa à estrutura oficial. Por isso mesmo, a filiação não é compulsória, contando as organizações com a contribuição financeira voluntária de seus membros. Tais condições contribuiriam para um maior interesse em participar. Em segundo lugar, até como decorrência desse quadro, os empresários salientam que a estrutura de representação paralela tenderia a corrigir algumas das distorções de representação identificadas no caso das organizações corporativas, na medida em que sua base de representação, ainda que setorial, é nacional e por empresas individuais. Ademais, tais organizações, exatamente por serem setoriais e defenderem interesses bastante específicos em plano nacional, são vistas como mais ágeis e eficazes. Na medida em que não têm de expressar interesses da classe empresarial em seus diferentes segmentos, as associações paralelas disporiam de maior autonomia de ação, além de internamente apresentarem maior grau de democracia.(10)

Grande parte da avaliação acerca do processo de criação e do papel das novas organizações empresariais, tais como o IEDI.e o PNBE, prende-se a essa visão crítica das limitações da atual estrutura de representação de interesses. Assim, os empresários ligados a essas novas associações afirmaram que sua emergência resultou do descontentamento dos empresários com as entidades tradicionais e da necessidade de preencher uma lacuna na representação dos interesses empresariais. Por exemplo, no caso do PNBE, essa afirmação é especificada em termos da alusão à falta de espaço para as pequenas e médias empresas na estrutura oficial de representação. Por outro lado, no caso do IEDI, foi apontada a ausência de um espaço para o livre debate de idéias com relação a um projeto de desenvolvimento para o país.

Examinando mais detalhadamente as avaliações dos empresários ligados a cada uma dessas organizações sobre seu papel no meio empresarial e na sociedade em geral, alguns aspectos merecem registro. Entre as lideranças do PNBE, o cerne da avaliação reside na ênfase sobre a dimensão política interna e externa à própria organização. Internamente, observa-se uma grande ênfase em questões como a democratização das instâncias de direção, com a instauração de mecanismos de participação direta nos destinos da organização, a transparência das decisões, a rotatividade nos cargos de coordenação e o próprio caráter coletivo da direção. Esse tipo de concepção reflete-se no desenho dos cargos de direção, constituído por um conjunto de vinte coordenadores, sem hierarquia, eleitos anualmente. Do ponto de vista externo, registra-se a preocupação com o papel que a organização pode ter no estabelecimento de vínculos entre o Estado e a sociedade, funcionando como difusora de valores e da conscientização do empresariado e de outros segmentos sociais, contribuindo mesmo para a formulação de um projeto para o país. Em última análise, a organização pretende atuar como instrumento de mudança, tanto da estrutura de representação de interesses do empresariado como da sociedade como um todo. Além do papel de renovação da mentalidade empresarial, há uma preocupação com a ruptura com práticas tradicionais, reforçando procedimentos democráticos como negociação e representação, expressos na necessidade do estabelecimento de pactos. O fato de se tratar de uma organização multissetorial e de abrangência nacional facilitaria a concretização desse papel político externo, pelo menos no que diz respeito ao próprio empresariado como um todo.(11)

De maneira semelhante à função social preconizada pelo PNBE, os empresários do IEDI também destacam o papel da organização no sentido da conscientização da classe empresarial e formulação de um projeto nacional para superação da crise e retomada do desenvolvimento. De sua criação, participou um núcleo de empresários que teve uma atuação marcante no início da Nova República, participando de discussões voltadas para a formulação de alternativas naquele sentido. Dessa forma; o IEDI surgiu como um espaço para a definição de uma estratégia de desenvolvimento. Na percepção de seus integrantes, o principal objetivo é agir como centro irradiador de idéias e de produção de consenso na sociedade. Diferentemente do PNBE, contudo, o IEDI não visualiza seu papel como ligado precipuamente a uma função representativa frente ao empresariado, ou mesmo de mediação entre a sociedade e o Estado.l2 A tônica geral do discurso do IEDI dirigiu-se à questão da relevância das novas organizações para a formulação de um projeto adequado à nova fase que atravessa o capitalismo brasileiro. Nesse sentido, um dos depoimentos foi particularmente claro em identificar as sucessivas adaptações das entidades empresariais às várias fases da industrialização. Assim, ao estágio inicial da industrialização por substituição de importações correspondeu a implantação da estrutura corporativa; a seu aprofundamento a partir de finais dos anos 50 correspondeu a proliferação das associações paralelas; finalmente, como resposta aos desafios colocados pela crise dos anos 80, observou-se o surgimento de novas organizações empresariais.(13)

Em contraposição, as lideranças da FIESP, embora reconhecendo a necessidade de modernizar as entidades tradicionais, afirmaram que isso deveria ser feito mediante um processo de autoreforma, e não por uma pressão exercida por novas organizações de fora para dentro. Alguns entrevistados mencionaram uma conseqüência negativa resultante da proliferação de novas organizações, pois estas contribuiriam para a divisão da classe empresarial. Alternativamente, o caminho mais adequado seria, na percepção desses empresários, o do fortalecimento da unidade. A dispersão tenderia a agravar as dificuldades atuais, enfraquecendo o poder de barganha da classe empresarial em seu conjunto. 14 Por outro lado, foi enfatizado, em alguns casos, o esforço modernizador da FIESP, através, por exemplo, da dinamização de núcleos como o Instituto Roberto Simonsen, além do privilegiamento de consultorias externas e do financiamento a pesquisas econômicas e sociais.

Finalmente, cabe registrar a existência, no meio empresarial, de uma organização ligada ao setor de autopeças, que talvez não seja um fenômeno isolado, mas aponte na direção de um esforço adaptativo às novas condições de mudança econômica. Trata-se da União pela Modernização da Indústria de Autopeças, que tem também a preocupação com a renovação de aspectos importantes da atividade empresarial e apresenta algumas especificidades em relação aos grupos abordados no presente estudo. Integrada por cerca de 140 empresas do setor referido, é uma associação voluntária cuja proposta é, através de uma atuação dentro de cada empresa, preparar o empresário e os respectivos trabalhadores para os requisitos de eficiência e competitividade exigidos pela fase que se inicia. Na percepção do empresário que lidera esse movimento, à diferença do PNBE - voltado para uma ação essencialmente política para fora da empresa-, o objetivo da União seria provocar uma mudança no âmbito interno da empresa, em dimensões como a organização, a produtividade e a capacitação tecnológica, entre outras. O princípio básico é o da auto-reforma como condição de mudança na sociedade.

A dimensão política da modernização: pacto social, relações capital/ trabalho e o novo empresariado

Em anos recentes, a preocupação com a articulação de grandes acordos, pacto social, concertação ou entendimento nacional tem emergido na agenda pública como uma das maneiras possíveis de enfrentamento da crise provocada pelo esgotamento do antigo modelo de industrialização. Durante o governo Sarney e nos dois primeiros anos do governo Collor, houve algumas tentativas sem êxito de articulação de pactos. Entre os entrevistados da presente pesquisa, a avaliação do insucesso de tais esforços destaca aspectos referentes à posição relativa de cada um dos atores - governo, empresariado e trabalhadores -,tendo em vista a possibilidade de alcançar um núcleo de consenso em torno de propostas básicas. Embora idealmente apontada como desejável, a articulação de pactos para a execução de políticas de ajuste e reforma é vista como altamente improvável, seja por aspectos já reportados nesta análise sobre as inadequações da estrutura de representação de interesses, seja por características do desempenho do governo no enfrentamento da crise, seja também por traços típicos da cultura brasileira (a valorização da "esperteza", de "levar vantagem" sempre) acentuados pela conjuntura de crise.

No que diz respeito à atuação do governo, salientou-se a perda de credibilidade em conseqüência dos sucessivos fracassos das políticas de estabilização econômica, além do prevalecimento de uma postura voluntarista e mesmo autoritária na condução da política econômica O ponto central das críticas ao governo tem a ver com a falta de flexibilidade e de disposição para negociar, freqüentemente trazendo soluções prontas e acabadas frente às quais não restaria aos outros atores senão a alternativa de submissão. Considerando a tentativa específica do governo Collor, esboçada entre setembro e dezembro de 1990, os empresários apontaram outro traço negativo da atuação governamental na condução de pactos. Este se prende à escolha dos interlocutores empresariais com base em critérios pessoais e, portanto, não legitimados pelos canais de representação. Em síntese, tais interlocutores dificilmente poderiam ser reconhecidos como porta-vozes do conjunto do empresariado.

Com relação aos trabalhadores, o cerne da avaliação consiste na dificuldade de formular uma visão uniforme e uma linha comum de atuação, em virtude da divisão entre várias centrais sindicais. Esse tipo de dificuldade está relacionado com uma questão mais geral, salientada pelos entrevistados, acerca da baixa representatividade das lideranças e organizações de classe.

Finalmente, quanto aos empresários, ressaltou-se também a inexistência de unidade de pontos de vista e de atuação, o que impossibilitaria a definição de acordos entre as lideranças e, mais ainda, a obtenção de apoio por parte das bases empresariais. A atual estrutura de representação, como se teve oportunidade de analisar, é vista apresentando distorções. Ao mesmo tempo, as novas entidades, na medida em que não foram criadas com o fim precípuo de suprir falhas na representação, também não estariam aptas a desempenhar um papel aglutinador no âmbito do empresariado. A defasagem entre a valorização de uma solução concertacional e sua viabilidade prática transparece na visão relativamente cética dos entrevistados acerca das possibilidades de êxito dessa estratégia para o Brasil.

Contudo, entre as novas organizações empresariais, os integrantes do PNBE revelaram-se particularmente favoráveis à idéia de uma via negociada para a saída da crise econômica, dada a ênfase atribuída por esse grupo à dimensão política da superação da crise e da retomada do desenvolvimento. Por outro lado, mostraram-se igualmente pessimistas quanto à viabilidade de pactos nacionais, preconizando, alternativamente, uma proposta mais realista de articulação de acordos localizados regional ou setorialmente. Alcançar o entendimento geral só seria viável, portanto, procedendo por etapas. A valorização do acordo faz parte de uma ênfase mais ampla, no discurso do. PNBE, conferida à questão da representatividade política expressa na dissociação entre lideranças e diferentes segmentos sociais.(15)

Um aspecto compartilhado por empresários dos diferentes grupos refere-se às dificuldades de articulação de pactos decorrentes da ausência de um consenso em torno da via mais adequada para a solução dos impasses presentes, bem como das formas de levá-la a cabo. Na percepção das lideranças empresariais, quase todos os itens da agenda liberal, como se viu, são desejáveis. Como admitem os próprios empresários, falta-lhes, por outro lado, clareza quanto às diretrizes e ao conteúdo específico de um programa de desenvolvimento e quanto à forma de implementá-lo.(16)

De forma similar, observa-se uma falta de clareza no que diz respeito à reestruturação das relações capital/trabalho e à integração da classe trabalhadora no processo de desenvolvimento. Verifica-se uma postura generalizada a favor de uma sociedade mais participativa, pluralista, mais democrática e menos desigual, além do reconhecimento da necessidade de modernização das relações entre o empresariado e a classe trabalhadora. Entretanto, tal percepção não se traduz na defesa de propostas mais específicas acerca das mudanças que podem ser introduzidas nessa área. À luz das entrevistas, é exatamente no que diz respeito aos itens integrantes da pauta sindical de reformas que se manifesta o principal foco de resistência da classe empresarial. Questões como participação nos lucros e na gestão das empresas, organização de comissões de fábrica e outras são altamente polêmicas. Entre os que aceitam a pertinência dessas demandas, sobressai a visão de que tais itens devem ser resolvidos através da livre negociação e não por imposição de dispositivos legais. Em outros termos, o que se preconiza é a desregulamentação, deixando ao mercado a aplicação e generalização dessas práticas. Por outro lado, há uma ampla aceitação da livre negociação e uma visão mais favorável, não à participação nos lucros, mas à participação nos resultados. Sintetizando, os empresários estariam a favor de uma descentralização maior das relações capital/trabalho, trazendo-as parcialmente para o âmbito das empresas, mas sem a correspondente eliminação do histórico papel de árbitro que o Estado exerceu, no Brasil, sobre o conflito distributivo.(17)

Um último aspecto focalizado nas entrevistas refere-se à percepção das lideranças empresariais acerca da existência de um novo empresariado. Nesse particular, alguns empresários ligados às entidades tradicionais não vêem diferenças significativas entre o antigo e o novo empresariado. Por outro lado, um grupo considerável menciona a emergência de um segmento renovador, que se define muito mais por uma mentalidade modernizante do que propriamente pelo surgimento de novos setores vinculados diferencialmente à estrutura da produção industrial. Entre os empresários do PNBE, não apenas foi enfatizado o surgimento de uma postura que rompe com o passado, como também essa postura foi identificada com as posições preconizadas pelo próprio grupo. Nesse sentido, os integrantes do PNBE se auto-identificaram como um segmento empresarial que propugna por uma nova forma de pensar o papel do empresariado como ator social e político. O novo residiria em seu papel como cidadão, aberto à sociedade e à política, com uma certa consciência de sua responsabilidade social. No caso do IEDI, além da ênfase na formação de uma nova mentalidade empresarial como decorrência dos desafios ligados à mudança de paradigma, foram apontados alguns setores que, seja pela posição estratégica face ao comércio internacional, seja pelo nível de desenvolvimento tecnológico alcançado, expressariam a emergência de um novo empresariado. Em síntese, ainda que não se tenha aludido, nas entrevistas, à extensão do fenômeno, esse potencial ator traduziria uma mentalidade jovem, uma visão progressista, no sentido de estar sintonizado com as exigências de uma sociedade em mudança.(18)

Considerações finais

A avaliação da situação do empresariado no processo de transição que o país atravessa requer uma referência ao contexto mais geral marcado pela reestruturação do sistema internacional e pelas possibilidades de retomada do desenvolvimento. É dentro desse processo mais amplo que se insere a discussão em torno das estratégias de administração da crise e dos caminhos da consolidação democrática. A complexidade do quadro é tanto maior quando se tem em conta a simultaneidade dos desafios de enfrentamento da crise, instauração de um novo modelo de desenvolvimento e consolidação da democracia.

Sob o impacto das pressões advindas do sistema internacional, ocorreu um processo interno de adaptação que se traduziu, recentemente, por uma mudança substancial na agenda governamental, sem a correspondente eficiência no plano da implementação. A reorientação que se verificou teve um impacto desestruturante e desorganizador, porém não foi eficaz quanto à construção da nova ordem. Dessa forma, tornou-se evidente o esgotamento do modelo de industrialização por substituição de importações e do padrão de ação estatal que lhe deu suporte, mas não se observou a definição de um projeto alternativo capaz de imprimir um rumo à reconversão da economia e impulsionar a retomada do desenvolvimento. Há uma sinalização clara quanto à nova direção, sem, contudo, haver indicação dos caminhos a serem seguidos. Há um acordo tácito acerca dos itens da nova agenda, tais como desregulamentação, privatização, abertura da economia e reforma do Estado, mas não uma articulação entre as metas que, freqüentemente, implicam estratégias desencontradas e mesmo contraditórias.

Como vem o empresariado reagindo a tais mudanças? Tal como foi salientado no decorrer da presente análise, as novas condições levaram os empresários a um intenso processo de adaptação, que implicaria o questionamento das bases tradicionais da representação de interesses e a necessidade de redefinição de seu papel político e social. Sob o impacto da erosão do antigo modelo e do aguçamento das dificuldades econômicas, acentuou-se a crise de representatividade do conjunto do sistema de intermediação, traduzindo-se na multiplicação de canais de participação e de organização da classe.

Um aspecto que, desde logo, ressalta da análise das entrevistas é a postura generalizada de apoio às diretrizes neoliberais. Existe um consenso sobre o anacronismo do projeto de teor estatista, nacionalista e autárquico que informou o processo de desenvolvimento industrial até a década de 80. De forma similar, observa-se uma ampla aceitação de alguns dos itens da agenda de reformas, como a redução do intervencionismo estatal, a desregulamentação e a privatização. Enquanto metas a serem alcançadas, tais itens são valorizados, embora haja discordância sobre a maneira de implementá-los. Em contraste, o problema da integração regional mereceu pouco destaque na avaliação dos líderes empresariais. Trata-se de um item que, embora não tivesse sido descartado como alternativa possível, não foi tampouco valorizado como saída para as dificuldades do país.

Por outro lado, a abertura da economia para o exterior revelou-se um ponto bastante controvertido. Segundo as lideranças entrevistadas, a abertura deve fazer parte de um conjunto integrado de reformas, devendo ser implementada de forma gradual e seletiva. Antes de constituir uma reiteração da visão nacionalista que prevaleceu no passado, a preferência por uma abertura controlada e programada parece refletir a preocupação com a estrutura de oportunidades para a inserção do país no sistema internacional.

Essa percepção do empresariado acerca do impacto desestruturador da desindustrialização é respaldada pela realidade do grau de complexidade alcançado pelo processo de industrialização no Brasil. Em contraposição com outros países da América Latina, é possível afirmar que o risco de desindustrialização seria fatal para qualquer possibilidade de inserção do país no sistema internacional, ao mesmo tempo que inviabilizaria uma estratégia combinada de abertura e de ampliação para o mercado interno. A referida complexidade, ao mesmo tempo que constitui um elemento positivo do ponto de vista da retomada do desenvolvimento, onera o processo de implementação, tornando inadequada a mera transposição de fórmulas bem-sucedidas em outros contextos. Nesse sentido, nem uma integração periférica como a que norteou a abertura chilena, nem a integração a um dos blocos constituídos pelos recortes do mundo desenvolvido, como a alternativa mexicana parece indicar, seriam adequados ao caso brasileiro.

A identificação com valores da modernidade liberal, presente no discurso da elite entrevistada, não se coaduna com a avaliação que a própria liderança faz do conjunto do empresariado. Na caracterização das principais debilidades do setor privado, foram ressaltadas dimensões como a excessiva dependência em relação ao Estado, o apego a práticas protecionistas, o temor ao risco e a arraigada atuação de oligopólios. Isso sugere que, na percepção das elites, ainda sobrevivem, no meio empresarial, traços bastante visíveis do antigo padrão de relacionamento com o Estado e das características do padrão de industrialização anterior, a despeito da valorização do novo. Assim, é possível supor que a execução da agenda liberal não se fará sem resistências. Além das dificuldades relacionadas com a sobrevivência do tradicional, há ainda aquelas ligadas ao estilo e às estratégias de implementação adotados pelo governo.

Sob esse aspecto, os entrevistados chamaram a atenção para a ineficácia das formas de execução predominantes e para certas características do processo decisório que, longe de atenuar as resistências, tendem mesmo a exacerbá-las. Trata-se de um estilo de execução que coloca em segundo plano a negociação, pautando-se por decisões sem consulta e sem observância do sistema de representação vigente.

Se esses aspectos podem ser considerados como externos à classe empresarial, outros existem que dizem respeito à própria dinâmica do sistema de representação. Este, na percepção dos empresários, revela algumas inadequações, tais como o atrelamento ao Estado, a visão imediatista e de curto prazo na definição dos interesses a serem defendidos, além de distorções que têm a ver com o desempenho organizacional do sistema. O descontentamento com as entidades tradicionais levou à criação de novas organizações que, como se salientou no decorrer da análise, propõem uma renovação das práticas e do pensamento do empresariado. A multiplicação de grupos e organizações é interpretada de formas distintas e mesmo antagônicas. Enquanto do ponto de vista de lideranças da FIESP a expansão dos canais de participação é avaliada por seus efeitos positivos, mas também em seus aspectos negativos em termos do acirramento das divisões internas do empresariado, na percepção dos líderes dos grupos recém-criados são ressaltados os aspectos positivos relativos à difusão de novos valores.

Esse tipo de percepção coloca em evidência o caráter contraditório dos efeitos desencadeados. Apesar de a dispersão ter sem dúvida se acentuado, o impacto da pluralidade de grupos não é necessariamente desagregador, dado que o aumento da competição introduz um efeito de emulação no interior dessa estrutura de representação de interesses. Em última análise, o confronto entre visões alternativas tenderia a pressionar no sentido da modernização das entidades tradicionais, produzindo uma certa convergência no plano valorativo. Por outro lado, o movimento de renovação não tenderia a reverter a fragmentação típica da estrutura de representação dos interesses industriais no Brasil.

No processo de reordenação ideológica impulsionado pelo acirramento do debate entre antigas e novas organizações, fica patente a percepção por parte das lideranças entrevistadas de que a ruptura com o modelo de desenvolvimento anterior é irreversível. Dessa forma trata-se, de fato, de um momento de reconstrução, que exige uma readaptação por parte do conjunto da classe empresarial. É aí que se situa o papel das novas organizações, precipuamente voltadas, segundo suas lideranças, para a difusão de novas idéias e novas formas de atuação.

A marca desse novo estágio seria uma forte ênfase na dimensão política, tanto no que se refere à constituição do empresariado enquanto ator, como no privilegiamento da necessidade de um marco institucional estável. Dentro dessa perspectiva, observa-se a valorização dos mecanismos representativos e da negociação como forma de encaminhar a administração da crise e a recuperação econômica. Nesse particular, salienta-se a postura do PNBE, fortemente voltada para uma ação para fora da empresa, frente à sociedade e ao sistema político.

A despeito de toda essa movimentação em torno de novas idéias, observa-se um descompasso entre a percepção da irreversibilidade da mudança e a capacidade do empresariado de intervir de forma eficaz para viabilizar a execução da agenda de reformas. Tal hiato está relacionado com o despreparo do empresário para agir enquanto ator coletivo tendo em vista a consecução daquelas metas, na medida em que a dependência em relação ao Estado ainda é grande e o quadro de alternativas é, na maior parte, definido por pressões internacionais. Apesar dos esforços de renovação realizados nos últimos anos, o empresariado não conseguiu resolver a crise de representatividade que ele próprio aponta como fator de cerceamento de suas condições de atuação política. Por um lado, não se observou a constituição de uma instância mais ampla de formulação de uma agenda mínima capaz de obter o respaldo do conjunto da classe. Dessa forma, nenhuma das organizações, tradicionais ou emergentes, tem condição de falar na qualidade de porta-voz do empresariado em seu conjunto; nenhuma delas é reconhecida como intérprete legítimo dos interesses coletivos. A realidade é a de um contexto marcado pela competição entre diferentes organizações, sem uma clara predominância de uma delas. Uma conseqüência disso é a inviabilidade de um processo interno de negociação que, transcendendo as divergências setoriais, expressasse uma unidade de propósitos. Por outro lado, não se configurou ainda a formulação de um projeto alternativo capaz de integrar os diferentes itens da nova agenda num conjunto coerente, estabelecer prioridades e definir cursos de ação voltados para alternativas como poupança versus consumo, mercado interno versus mercado externo, importação versus produção de tecnologia, entre outras.

Em função desse cenário mais amplo, que se pode traçar a partir das visões da liderança empresarial, cumpre salientar que a problemática de superação da crise, com a conseqüente retomada do desenvolvimento, está subordinada à produção de uma lógica de ação coletiva impulsionada pela existência de um quadro institucional estável. Sob esse aspecto, as condições políticas e institucionais prevalecentes são particularmente desfavoráveis. O alto grau de instabilidade das regras e a exacerbação da incerteza quanto ao resultado das políticas e aos rumos da mudança estimulam comportamentos maximizadores de curto prazo, nos quais a tônica passa a ser a prevalência, no conjunto, de ações movidas pelo cálculo individual. Assim, o contexto fica definido pela própria instauração das lógicas individuais como padrão dominante, impedindo uma dinâmica coletiva propícia para a consecução das metas almejadas. Esse círculo vicioso só seria quebrado com a difusão da crença em um quadro institucional estável e a conseqüente definição de um conjunto de regras do jogo compartilhadas pelos diferentes atores. Assim, o fortalecimento da democracia adquire centralidade entre os fatores necessários ao êxito econômico. Na ausência de tais condições, tenderiam a prevalecer, de um lado, a condução da política pela via do ensaio e erro e, por outro, a tentativa de produzir convergências tópicas através de acordos setorializados.

Notas

* Trabalho apresentado no seminário internacional "Estratégias liberais de refundação, dilemas contemporâneos do desenvolvimento", IUPERJ/CLACSO/ISA, Rio de Janeiro, 19-21 de agosto de 1992. Apresentado também no XVI Encontro Anual da ANPOCS, em Caxambu (MG), de 20 a 23 outubro de 1992.

Nossos agradecimentos a Mauro Arruda (EM), Og Doria (ME), Alexandre Guasti (Instituto Liberal do Rio de Janeiro), Manoel Augusto Teixeira (Instituto Liberal de São Paulo), e a todos os empresários que nos concederam as entrevistas nas quais esta análise se baseia. Agradecemos ainda à FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) que nos forneceu o financiamento necessário para a realização das entrevistas.

 

1. DINIZ, E. & BOSCHI, R. (1993).

 

2. DINIZ, E. & BOSCHI, R. (1993). Ver também BOSCHI, R. (1991).

 

3. "O papel do governo é muito eficaz do ponto de vista da desestruturação do velho. Isso ele está fazendo com grande eficácia, com grande determinação. Agora, a montagem, isto é, a construção do novo, em primeiro lugar, nós temos que ver que o governo sozinho não vai fazer isso. Não há condições dentro desse novo paradigma de fazer isso, por mais competente que seja. Essa construção do novo tem que ser um processo mais coletivo, mais participativo. A sociedade para fazer isso precisa entender o que está se passando, precisa organizar-se adequadamente e passar a influir" (entrevista com empresário do IEDI realizada em 13/3/1991).

 

4. Entrevistas realizadas com integrantes do PNBE em 24/4/ 1991, 18/3/1991, 214/1991 e 25/7/1991.

 

5. Quanto a esse aspecto, cabe destacar a visão de um dos entrevistados de que a iniciativa empresarial poderia dar conta, com êxito, das funções sociais do Estado, notadamente na área de formação e assistência de saúde. De fato esse empresário desenvolveu um projeto pioneiro nesse sentido no âmbito da empresa e do município em que atua (entrevista realizada em 9/ 5/1991).

 

6. Os seguintes trechos de entrevistas são ilustrativos desta visão:

"A aspiração por um modelo menos estatista (...) é geral. Para isso, porém, é preciso uma estabilidade política, uma estabilidade de regras de funcionamento e uma moeda estável, que permita planejar atividades. Nós entramos num caminho em que é extremamente difícil para o empresário fazer um planejamento, já não digo a longo, mas mesmo a médio prazo. Quase todos os planejamentos estratégicos das empresas brasileiras são, em boa parte, exercícios numéricos sujeitos a chuvas e trovoadas e a revisões constantes. Hoje, um planejamento de cinco anos tem muito mais incertezas do que certezas, porque as regras mudam rápido, há um excesso de legislação, portarias, decretos, medidas provisórias, todo exercício de autoridade sem preocupação de legalidade. Muitas medidas são tomadas e publicadas para verificar depois se são ou não legais, mas já tendo causado efeitos difíceis de corrigir. O clima é um clima bastante conturbado. Então, eu acho que a maior parte do empresariado gostaria de ter o sossego de voltar a uma coisa que existiu num passado não muito remoto que foi uma economia de mercado" (Entrevista realizada com empresário da FIESP em 19/3/ 1991).

"Tem plano? Sou contra! Podia advogar todas as medidas contidas no Plano Collor II. Só que sou absolutamente contrário a todas elas porque vêm desta forma. O Lula declarou dois dias depois do Plano: `Se eu fosse empresário comprava dólar e botava lá fora'. E é isso que empurra a parcela bem-intencionada para a marginalidade, cada plano desses. Quem não aumentou seus preços defensivamente, quem deixou as aplicações feitas aqui (...)" (entrevista realizada com um empresário do PNBE em 3/4/1991).

 

7. "O que está acontecendo de novo é um processo autoritário. A gente acaba sabendo das coisas - tanto o empresário, quanto o consumidor, quanto o trabalhador - no momento que abre o jornal e lê" (entrevista realizada com empresário do PNBE em 2/4/1991).

"Eu acho que nós vivemos hoje no país num estado policial, não é um estado democrático de fato. Acho que tem liberdade de imprensa, liberdade de palavra, até o momento em que você incomoda. É um estado policial inclusive em que existem ameaças concretas, que se configuram concretamente; não é apenas uma coisa no nível jurídico institucional, em que se abusa de medidas provisórias, em que se passa por cima do Congresso, em que o Congresso fisiológico não faz seu papel, mas tudo isso configura um quadro autoritário do ponto de vista jurídico-institucional" (entrevista realizada com empresário do PNBE em 2/4/1991).

 

8. Veja-se a respeito da abertura e da competitividade os seguintes trechos de entrevistas:

"Fala-se na abertura do país ao comércio internacional. Esse discurso vem atrás do discurso da modernidade, da modernidade do Primeiro Mundo; o que na verdade não se discute é o que é moderno. O que é essa modernidade que estamos querendo para o Brasil? É simplesmente redução de tarifas? Com isso nós vamos chegar ao Primeiro Mundo? Nós estamos correndo o risco, primeiro, de uma desindustrialização brutal do Brasil e de uma satelitização do país em relação aos mercados internacionais (...) Se o país, ainda internamente, está dando os primeiros passos no seu processo de abertura, desregulamentação, descentralização de setores econômicos, como é que ele vai entrar na competição internacional? Segundo, não existe uma estratégia de inserção do país no mercado internacional. Enquanto não houver essa estratégia-que setores, de que forma, em que grau, em que velocidade? -, enquanto não houver essa definição de estratégia, nós não podemos começar a expor o Brasil de uma forma irresponsável (entrevista com empresário do PNBE realizada em 18/3/91).

"(...) Eu acho que o Brasil para se juntar ao Primeiro Mundo precisa fazer um processo aberto para a sua economia (...). A abertura é importante porque é ela que vai lhe dar condições de competitividade mais adequada, condições de qualidade muito mais adequadas; para a sociedade, o grande benefício, é realmente a melhoria de qualidade e de preço. Agora, desses pontos todos [das reformas], esse é o mais delicado pela sua enorme abrangência (...) e pelo fato de que se quer com ele construir e não destruir (...). A discussão sobre a abertura não está ocorrendo de forma abrangente. E o governo tem enfocado no processo de alteração das alíquotas e de tarifas de importação. E este é . apenas um dos diversos ângulos da abertura. (...) Ao fazer esse processo de abertura, nós temos que dar ao produtor nacional condições de se adaptar, se ajustar e se preparar para competir num mercado aberto (...). É preciso que haja um tempo de ajuste" (entrevista realizada com empresário ligado ao Instituto Liberal de São Paulo em 1/7/91).

"(...) Eu acho que [o Programa de Competitividade Industrial] está indo depressa demais, no sentido de que ele se baseia em algumas informações que o governo acha que tem, mas eu acho que está longe de uma análise completa, vamos dizer, da competitividade dinâmica que cada setor poderia ter e que deveria ser a base da racionalidade para saber quais setores deveriam ser apoiados e quais não deveriam ser. Se nós partirmos do princípio de que, se o país busca a competitividade em termos internacionais, ele não pode ser competitivo em todos os setores,( ...) a grande tarefa é buscar quais aqueles setores em que o Brasil tem ou terá uma vantagem comparativa clara e dinâmica. Eu acho que nós já nos afastamos do conceito de vantagens comparativas históricas, quer dizer, baixo custo da mão-de-obra, de matéria-prima e assim por diante. Então nós temos que achar quais são esses setores. E esse processo tem que ser um processo racional. Ele não pode ser movido a custa de pressão e de lobby" (entrevista com empresário do IEDI realizada em 25/3/91).

 

9. "Eu acho que a intenção [de formar a comissão] é até boa no sentido de abrir o diálogo; só que eu sinto que isso não vai levar a nada porque a discussão vai ser completamente desordenada. Eu entendo que a idéia desses grupos é a de que em cada um deles exista uma amostragem dos diversos setores da economia. (...) São grupos que têm um coordenador, que é um dos empresários, que ninguém sabe como foi escolhido, com que critério. É o critério do maior lobista, aquele que está mais presente em Brasília, geralmente é quem aparece como coordenador (...). Eles se deixaram levar outra vez pelo mesmo tipo de atitude que prevaleceu em todos os governos anteriores" (entrevista com empresário do IEDI em 25/3/91).

Em outra entrevista, após comentar vários exemplos em que o governo chamava empresários ao diálogo enquanto, simultaneamente, as decisões eram tomadas em círculo fechado, um empresário da FIESP comenta: "Se na comissão do Programa de Competitividade Industrial acontecer coisa parecida, isto é, os grupos de empresários se reúnem, formulam sugestões e em paralelo existe um grupo interno [ao governo] fazendo a mesma coisa, então é algo que vai frustrar novamente, porque isso compromete, sem que tenha havido oportunidade efetiva de participar, de contribuir. A sensação de que a gente está num comitê para sacramentar coisas que foram estudadas e decididas em outro fórum é desagradável" (entrevista realizada em 19/3/ 91).

 

10. Os seguintes trechos de entrevistas ilustram as avaliações relativas às entidades de classe oficiais e paralelas:

"Acho que as entidades tradicionais na área empresarial, sem falarem algumas figuras de lideranças individuais, como 0 Mário Amato, (...) a estrutura de representação brasileira formal é arcaica. É antiga, nasceu por volta do Estado Novo, sob a ditadura de Getúlio Vargas. Ela foi um grande avanço na época, mas ficou absolutamente cristalizada. Então isso criou constrangimentos que foram enfrentados (...) através da criação das associações setoriais como a ABDIB, a ABIQUIM, ABINEE e ABIMAQ. As associações setoriais vieram preencher essa lacuna e trouxeram um sopro renovador para a representação empresarial. Mas acho que esse modelo se esgotou porque sua natureza é setorial, de defesa dos setores que estavam sendo implantados no país durante a substituição de importações. E elas, por definição, negligenciam a questão maior, quer dizer, qual é a estratégia do país, voltando-se para questões setoriais. Mas de qualquer forma, durante as décadas de 60 e 70, foram um sopro renovador da representação empresarial, suprindo essa falha da cristalização dessas estruturas mais antigas" (entrevista com empresário do IEDI em 20/3/91).

"(...) Uma limitação básica é de organização e representatividade (...). Há essa limitação porque nossa estrutura de repre sentação também está toda ela construída para o paradigma antigo. As estruturas empresariais existentes foram dimensionadas, foram azeitadas para operar os interesses empresariais no paradigma velho. Estamos em transformação sob vários aspectos no sentido de atender a esse desafio (...). Eu digo, por exemplo, a FIESP (...) nós temos o sindicato de guarda-chuvas, o sindicato de sabões, cordoarias, velas, vidraria, perfumes etc. Quer dizer, que, na realidade, foi uma estrutura que se montou na década de 30 para construir esse tipo de indústria. Este é apenas o exemplo caricatural do tipo de organização que se montou. E que, em grande parte, prevalece até hoje, porque isso tem amarrações institucionais, políticas, o processo eleitoral desses sindicatos que têm voto equivalente a sindicatos dos setores mais dinâmicos e de maior peso na economia nesse início da década de 90. -As associações nacionais já são um pouco diferentes. Elas já representam um estágio um pouco mais avançado (...). Normalmente, você tinha um sindicato em São Paulo, depois os sindicatos, por razões A, B, ou C deram origem a associações nacionais. O Sindimaq e a ABIMAQ, o Sindiquem e a ABIQUIM. Em vários setores era assim. Por quê? Porque a indústria em determinados momentos deixou de ser exclusivamente paulista (...). Então, as associações nacionais, em primeiro lugar, já têm uma dimensão menos regional e já representam um avanço. Em segundo lugar, foram construídas por iniciativa dos próprios empresários. Seu processo de representatividade, hoje, é um processo mais aberto do que o da FIESP; há voto, o voto é feito por todos os associados em eleições diretas. (...) A modernização que sofre avanços e retrocessos e vai se construir (...). Veja, por exemplo, o caso da FIESP (...). O estatuto, o processo institucional legal, jurídico, é um processo todo ele muito limitante, impedindo modificações rápidas. A própria eleição de um novo presidente da FIESP - se a FIESP tivesse um processo de eleições diretas -,com toda a indústria de São Paulo votando para presidente da FIESP, eu não tenho dúvida de que essa modificação seria mais rápida" (empresário do IEDI, entrevista em 13/3/91).

"Nós temos alguns erros históricos. O sistema brasileiro de representação dos empresários é feito de cima para baixo, é feito a partir de um voto unitário por federação, o que faz com que regiões não-industriais, por exemplo, escolham lideranças industriais do país. É completamente absurdo. E sem solução, quer dizer, o Nordeste sempre escolherá o líder industrial do país sem ter indústria praticamente" (entrevista com empresário da FIESP/ANFAVEA em 23/4/91).

"Hoje, as [organizações] não-oficiais que começam a prosperar, os sindicatos, tudo foi montado na base da estrutura oficial mesmo. O poder das lideranças defendendo os interesses corporativos muito específicos, sem necessidade de ter uma atuação maior, porque os recursos já vinham de graça, já vinham compulsoriamente. Eram basicamente despachantes de luxo. Eles vão a Brasília, vão e voltam, representam, tentam quebrar galho aqui nesse ministério, nessa repartição, você vê esses presidentes de sindicatos e associações viajando a torto e a direito a Brasília (...). E a visão do empresário brasileiro é a de que a atividade política empresarial é uma atividade que tem de ser corporativa, defendendo os interesses específicos de seu setor, (...) sem ter uma visão do que é realmente importante, do que seja seu interesse, pensando que o país indo bem, a atividade econômica, o desenvolvimento, isso facilita todo o resto. (...) [As associações paralelas] são entidades que nasceram espontaneamente, sem nenhuma lei que as obrigasse a nascer; são associações onde a filiação não é compulsória, é voluntária. Então, há uma participação, porque as pessoas querem participar (...). Há um esforço para angariar recursos e para que a aplicação desses recursos tenha sentido para a classe. Há regras democráticas internas de participação (...). As próprias associações é que formulam as suas regras. Elas têm que apresentar resultados, o próprio presidente tem que apresentar, porque senão, não é reeleito. (...) Tem uma abrangência nacional, então consegue conglomerar as diversas regiões com suas experiências e tenta conciliar esses interesses. (...) Não são submetidos a nenhuma estrutura de poder. (...) Elas têm uma independência completa de atuação" (entrevista com empresário do PNBE em 12/4/91).

 

 11. Esse tipo de avaliação apareceu em todas as entrevistas realizadas com integrantes do PNBE. A título de ilustração, veja-se:

"O que distingue o PNBE é que ele tem uma identidade única. Primeiro, ele é uma entidade de empresários, não de empresas. É uma entidade nacional que tem empresário do Brasil inteiro, tem empresários de todos os setores - agricultura, bancos, comércio e indústria - e que, por todas essas características, não defende interesses corporativos de nenhum setor. É uma entidade que busca uma participação política e busca a defesa de interesses comunitários, e não uma defesa de interesses empresariais. (...) E tem uma visão muito abrangente (...). Acreditamos que o processo tem de ser democrático. Internamente a entidade é superdemocrática, tudo é decidido por voto e por assembléia e, como ela é nacional, por voto eletrônico" (entrevista realizada em 2/4/91).

"(...) a linha de atuação que o empresariado defende é que o empresariado comece efetivamente a se conscientizar e atuar politicamente, não só por intermédio de partidos políticos, mas se posicionar politicamente frente à sociedade como um todo. (...) Está na hora do empresariado, como 'parcela importante da elite do Brasil, saber não só qual é sua função social, mas também cumprir uma função social. (...) Quer nós queiramos ou não, existe uma malha de interligação em que, se nós atuarmos de maneira irresponsável com relação à questão social mais ampla, nós vamos pagar por isso mais à frente. (...) O empresariado, como uma das partes responsáveis da elite e que tem um peso econômico muito forte, tem a responsabilidade e a noção, nesse momento, de liderar um processo de atuação política com "P" maiúsculo, não mesquinha, de médio e longo prazo, sinalizando para a sociedade que existe um novo caminho. É um caminho de fortalecimento da sociedade civil e não de enfraquecimento, mas de colocação do Estado no seu devido lugar" (entrevista em 18/3/91).

"(...) O movimento não é de dissidência da FIESP, ele é um movimento de empresários que entendiam que a defesa corporativa de interesses, que tinha ocorrido durante os últimos quarenta anos e durante todo o período da industrialização brasileira, não estava levando a lugar nenhum. (...) Essa própria defesa corporativa de interesses por via de trocas fisiológicas com o governo e inviabilizando algumas das áreas sociais de investimento, (...) isso não estava levando a lugar nenhum. E esses empresários, então, iniciaram um movimento para defender a sociedade civil e levar o Brasil para um outro projeto de desenvolvimento" (entrevista em 2/4/91).

 

12. "(...) o caso do IEDI é clássico. Inicialmente, o grupo de empresários que fundou o IEDI, (...) todos nós tentávamos operar esse projeto do IEDI dentro da FIESP, dentro da CNI e encontramos dificuldades operacionais imensas. Então, pareceu mais eficaz constituir uma organização especificamente voltada para essa atividade, para essa finalidade a que nos propusemos. Em primeiro lugar, pensar de maneira ordenada esse novo paradigma de desenvolvimento. Quais são as condições limitantes e quais são as condições que nos ajudariam a aperfeiçoar o desenvolvimento industrial brasileiro? Tentar fazer isso de maneira sistemática. Este é um objetivo de médio e de longo prazo, que não se confunde com o interesse individual de nenhuma das empresas ou dos empresários participantes do IEDI. (...) A idéia era formar um consenso um pouco mais organizado a respeito de algumas questões centrais do desenvolvimento brasileiro e desta fase crítica que estamos atravessando. (...) É um processo que imaginamos, em primeiro lugar, que partia desse consenso começando dentro da organização. Em seguida, buscamos a ampliação desse consenso junto à comunidade acadêmica, junto à comunidade política, junto a outras entidades empresariais. Esse é o projeto do IEDI: (entrevista em 13/3/91 com integrante do IEDI).

 

13. Veja-se a propósito os trechos de entrevistas com empresários do IEDI citados na nota 10.

 

14. Veja-se os seguintes trechos de entrevista com dirigentes da FIESP:

"(...) as entidades [oficiais] deveriam ser reestruturadas ou corrigidas de dentro para fora, e não de fora para dentro. (...) É possível reformar, porque se você, em vez de reformar, destrói, você elimina os fatores negativos, mas suprime também os positivos. Vamos aproveitar os positivos e eliminar os negativos. (...) Eu não aceito a idéia de destruir uma estrutura sem pensar o que se vai colocar no lugar. (...) Eu acho que [a criação das novas organizações] é uma reação contra as debilidades das entidades tradicionais, uma tentativa de mudança, de correção de erros no relacionamento entre o empresariado e o Estado, o que, a meu ver, poderia ser feito dentro da FIESP. (...) O PNBE tem elementos de muito boa qualidade, mas acho que também deveria se integrar à FIESP e lutar dentro da FIESP. (...) Eu acho que é viável uma aproximação. O governo tem todo interesse em que haja diversidade" (entrevista em 19/3/91).

"Andou acontecendo ao longo desses últimos anos, uma dispersão muito grande do empresariado, (...) se juntando em pequenos grupos, formando diferentes associações. Eu diria que teria acontecido em nosso meio empresarial mais ou menos aquilo que está acontecendo com os partidos: tinha só dois partidos na época da ditadura, de repente, quando se fez a abertura nós fomos aí para essa quantidade enorme de partidos, que me parece estar beirando os cinqüenta, ou coisa parecida. Conosco acabou acontecendo mais ou menos a mesma coisa. Acho que com isso você tem uma profunda dispersão dos empresários, porque quando você vai conversar com o governo, o governo, muitas vezes, procura ouvir várias entidades de classe, porque ele até usa essas diferentes opiniões que existem para que, inclusive, nessa divisão no meio empresarial, ele possa então governar e acabar implementando aquilo que ele quer. Acho que isso é extremamente danoso para os empresários e acaba sendo danoso para o próprio governo, porque ele tem diferentes opiniões, de diferentes entidades, o que acaba levando o governo a tomar sua própria decisão e acaba contrariando todos esses grupos. Então, acho que a necessidade que nós estamos tendo agora é exatamente fazer com que nós tenhamos poucas e muito fortes entidades, e todos os problemas que existirem entre diferentes setores acho que primeiro têm que ser discutidos dentro das entidades de classe, antes de serem levados ao governo. (...) Eu acho que essas estruturas tradicionais devem continuar a existir, mas com perfis diferentes. Nós temos, por exemplo, uma FIESP que (...) é uma entidade reconhecida a nível nacional. Ela é conhecida, senão em todos os Estados, na grande maioria dos Estados, e isso foi graças a um trabalho que vem sendo feito ao longo dos anos, um trabalho de modernização interna, mas que precisa ainda se modernizar muito mais. Acho que as outras deveriam se espelhar na própria FIESP para que se pudesse ter uma modernização em todos os estados" (FIESP, 14/ 8/91).

 

15. No que se refere à questão do pacto social, os seguintes relatos são significativos:

"Bom, a experiência em que chegamos mais perto do pacto foi essa última tentativa, no ano passado [1990] em torno do entendimento nacional, patrocinado pelo ministro Passarinho, onde eu acho que houve um tremendo avanço do lado dos trabalhadores e dos empresários. O governo é que não correspondeu nessa questão, e o governo é uma parte muito importante. Quando eu falo governo, não falo só o Executivo; é o Legislativo também. Mas acho que nós estamos caminhando em direção a um pacto. Um pacto desses, na realidade, ele só tem seu momento histórico num momento de crise. Acho que a crise é que cria o ambiente para o pacto. E, por definição, o pacto tem que ser um entendimento que nasça da reunião dos diversos segmentos em torno de uma mesa onde se discuta a minimização das perdas, e não a maximização dos ganhos. Tem que haver uma percepção por parte do empresário, por parte do trabalhador, por parte do governo e da União, até dos estados e, principalmente, do Legislativo de que, se não houver o pacto 0 prejuízo será maior. Então o pacto (...) tem de ter como objetivo minimizar os efeitos da crise para cada um dos membros. Então, não tem sentido o empresário sentar à mesa e dizer `como é que eu vou recuperar o meu preço?'; ou o trabalhador sentar à mesa e dizer `eu quero recuperar as perdas que tive no Plano Bresser, no Plano Cruzado, quatrocentos e cinqüenta por cento de aumento' " (entrevista com empresário do IEDI em 20/3/91).

"(...) eu tenho certeza de que há absoluta necessidade de nós caminharmos para isso, seja o chamado pacto social, seja o entendimento nacional. Algumas tentativas foram feitas e eu basicamente acho que elas não deram certo por duas razões: primeiro, porque diferentes segmentos que foram participar dessa negociação partem do pressuposto de que não podem perder nada e até, em alguns casos, acham que têm a necessidade de ganhar alguma coisa. Acho que o pressuposto básico, na situação em que o país se encontra, é de que você tem que ir para uma reunião como essa partindo~do princípio de que todo mundo tem de perder alguma coisa. Se alguém ganhar ou levar

vantagem, esse entendimento já começou errado. Há necessidade de sacrifício por parte de todos os segmentos. (...) E nós voltamos àquele problema de que falávamos anteriormente, o da credibilidade. Se eu não acredito no meu parceiro, eu também posso começar a colocar coisas inatingíveis, portanto, estou tentando levar vantagem" (FIESP, em 14/8/91).

"Eu acho que faltou vontade política do governo. Não faltou vontade política dos trabalhadores e empresários, tanto que, pela primeira vez, se chegou a um documento histórico, subscrito sem nenhuma ressalva pelos empresários e pelos trabalhadores. Na hora de o governo receber o documento e implementálo, ele simplesmente rejeitou o documento por extemporâneo, [em face] da política econômica que estava sendo seguida. (...) Eu definiria em duas palavras: faltou vontade política. (...) Porque eu acho que [o governo] acreditava ainda que conseguiria combater ou reduzir as taxas de inflação apenas com a química de seus economistas, esquecendo que era fundamental o apoio da sociedade, que era exatamente a destinatária das experiências que, em laboratório, estavam sendo feitas lá pela equipe econômica" (entrevista com empresário da FIESP em 20/5/91).

"(...) mas se se quiser trabalhar na direção do chamado entendimento ou pacto de maneira séria, precisaria trabalhar setorialmente, atomizadamente e, em algum momento, aglutinar as forças que possam representar minimamente o sentimento majoritário da sociedade. (...) Então, nessas tentativas mais recentes de produzir o entendimento, entraram algumas entidades empresariais, algumas centrais de trabalhadores, mas o Legislativo ficou fora, os governadores dos principais estados ficaram fora. Então, que pacto é esse em que o Estado de São Paulo, o Estado do Rio de Janeiro [e outros] ficam de fora? (...) Acho que, de um lado, tem que trabalhar setorialmente. Há alguns exemplos impressionantes como o de Sertãozinho, aqui no interior de São Paulo. (...) E se de repente se reproduzisse isso ao nível de um estado, ou de dois, três?" (entrevista com integrante do PNBE, 2/4/91).

"(...) Tem que haver uma consciência das partes de que qualquer projeto nacional só se viabiliza com a participação de todos (...) a confiança entre as partes de que isso é para valer (...) ninguém vai fazer daquilo um projeto pessoal ou setorial. (...) Havia a ausência, da parte do governo (...) não havia disponibilidade de aceitar qualquer coisa que não fosse seu projeto (...) Acho que não havia confiança entre as partes; a CUT não confiava no governo; basicamente a visão das partes era a de que aquilo lá era para resolver o problema de cada um" (empresário do PNBE, em .214191).

"Muitos acreditam que o PNBE é quase uma cruzada pelo entendimento nacional. O entendimento nacional, na verdade, é entendido como uma forma de organização da sociedade. O PNBE quer acreditar que, após um período muito longo de autoritarismo neste país, e a partir de algo que era já anterior a esse autoritarismo, que é uma forma extraordinariamente paternalista e autoritária de administração dos negócios públicos (...) o PNBE quer acreditar que a solução para os problemas que muitas vezes são vistos de maneira míope como de natureza econômica, na verdade passa pela efetiva tomada de responsabilidade pela sociedade dos rumos que vão ser dados à nação, e de maneira democrática" (empresário do PNBE em 2/4/91).

"(...) Chamam-se alguns atores para funcionar nesse pacto. Ninguém tem representatividade, para que possa obrigar o conjunto grande de pessoas, nas circunstâncias atuais, a tomar qualquer procedimento. Não adianta ir lá o presidente do sindicato dos trabalhadores não-sei-de-onde assumindo determinado compromisso, não adianta ir o presidente do sindicato da indústria de tal lugar e assumir o compromisso. Não adianta, ele não tem esse poder, ninguém deu a ele esse poder" (empresário vinculado ao Instituto Liberal de São Paulo, em 1/7/91).

 

16. O seguinte tipo de discurso foi bastante comum entre os empresários:

"(...) não há uma tradição de pensamento e de estruturação desse pensamento sobre a política industrial, o significado da indústria para o desenvolvimento do país (...), como é que ela se insere no mundo, quais são as dimensões críticas. Existe quase uma casquinha de consenso sobre esses pontos, que fica em cima de determinados slogans, que não têm. profundidade

maior. Dessa forma, que temos de ter desregulamentação, estamos todos de acordo. Agora, quando se procura definir com clareza que regulamentação, onde, de que forma, aí realmente já não se vê um consenso tão fácil. Não é porque existam grandes antagonismos. É que essa coisa nunca foi tratada (...). Quando se diz que o Estado terá que ter um novo papel, estão todos de acordo. Mas, qual é o papel do Estado? Qual é a dimensão dessa retirada? Como é que o Estado vai se retirar de determinadas atividades? Quando se fala de privatização, estão todos de acordo. Mas o quê, de que maneira, com que velocidade? Com relação à abertura externa, a mesma coisa. Temos que abrir? Sim. Mas, e as tarifas, como se opera isso, quais são os condicionantes? Essa profundidade de conceito não existe" (entrevista com empresário do IEDI em 11/3/91).

 

17. Observe-se nas seguintes entrevistas trechos que tipificam essa visão:

"Acho que isso [participação na gestão empresarial, nos lucros das empresas, comissões de fábrica] tem que ser deixado para cada empresa definir o que ela acha que funciona melhor para ela. Não acho que naqueles países onde existe melhor bemestar na sociedade, nas suas empresas, nas suas indústrias, essas coisas estejam regulamentadas como sendo mandatárias. Cada empresa tem que buscar, dentro das suas condições, aquilo que é o mais importante para o bem-estar. Isto não pode ser definido de uma forma autocrática, não-democrática ou mandatária. Eu acho que um outro corolário da nossa economia fechada foi um grande paternalismo que nós herdamos e que ainda é a base, talvez, da política sindical e do próprio governo (...) Na nossa empresa, nós acreditamos em participação nos resultados e não nos lucros" (empresário do IEDI, em 25/3/91).

"A questão da participação nos lucros, eu tenho uma certa preocupação com issó porque isto posto na forma da lei, dependendo de como é que isso venha, realmente pode virar um décimo quarto salário. Acho que é um mecanismo importante. Sou totalmente favorável. Só que eu acho que é um instrumento de aumento de ganho de produtividade; ele tem de ser visto assim. Mas não pode ser incorporado na empresa como se fosse

obrigatório a empresa dar um décimo quarto salário. Tem que ser uma coisa conquistada na relação, na negociação e não imposto na forma da lei. (...) Isso poderá ser um mecanismo de inflação. As empresas, na medida em que isso virar um décimo quarto salário, vão colocar no preço do produto (...) Participação na gestão empresarial, comissões de fábrica, acho que são coisas que deveriam estar no âmbito da livre negociação" (empresário do IEDI em 8/4/91).

"A questão da participação nos lucros é outro grande engano, pelo seguinte: a participação nos lucros, no nosso modo de ver, tem a mesma diferença que existe entre entendimento nacional e pacto. Pacto é a conclusão de um processo de entendimento que deve ser a grande força. A grande energia deve ser deslocada para o processo de negociação e não para o acordo final. O acordo sai, se você conseguir dedicar energia ao processo. Participação nos lucros e administração participativa exercem a mesma função: a participação nos lucros é a conclusão de um grande processo empresarial de administração participativa, que é a chave de uma participação. (...) Temos que lutar pela administração participativa, pela aproximação dos trabalhadores da administração da empresa como um todo, uma ligação direta entre o empresário e o trabalhador na própria empresa e, fatalmente, você chega ou na participação nos lucros, ou dividendos, ou ações, ou até nem isso, se os empresários e os trabalhadores em conjunto julgarem que não precisa" (empresário do PNBE em 18/3/91).

"Eu acho que, se você destinar uma parcela do seu lucro para ser distribuída de alguma forma entre os seus empregados, é uma medida boa que estimula a produtividade e que recompensa essa produtividade. Se você disser: fica instituída a participação nos lucros, de uma forma oficial, vai virar bagunça (...) Eu, por enquanto, se você me perguntar se eu sou a favor da introdução da participação nos lucros das empresas, eu diria não" (empresário da FIESP, em 1817/91).

 

18. "Não, eu acho que não há contraposição [entre antigo e novo empresariado]. Existe um movimento, inclusive aqui na Federação. Há mais ou menos uns seis anos, nós criamos no Instituto Roberto Simonsen, por expressa recomendação do Mário Amato, o movimento dos jovens empresários. Nós sentimos que havia, assim, certos obstáculos a serem vencidos para que os jovens passassem a freqüentar, naturalmente, uma casa que é deles também. Então, nós criamos esse movimento de jovens empresários, convidando para a direção do mesmo empresários jovens" (empresário da FIESP, 20/5/91).

"Não é um problema geracional (...) Acho que quando me refiro a jovens empresários, não é jovem de idade somente. É jovem de mentalidade. Eu conheço empresários com 60, 70 anos de idade, que têm um pensamento aberto, um pensamento de jovem de 30 anos. (...) Acho que nós temos necessidade de ter, no nosso meio, pessoas que tenham esse pensamento jovem, essa cabeça aberta, para que se possa colaborar nesse processo

de desenvolvimento do país. (...) Então, essa questão de participação jovem a que eu me refiro, não é jovem de idade, é jovem em termos de pensamento" (empresário da FIESP, 14/8/91).

"Existe [o novo empresariado] e está aí. O PNBE é um exemplo, e outras entidades também; o IEDI tem uma gente boa. Existe o empresariado mais calejado, mais amadurecido, renovado e tendo a oportunidade de se manifestar. Existe um novo movimento empresarial, com certeza (...). Se hoje você nota mudança nos discursos de entidades tradicionais, se deve, até, à vontade de não ficar para trás. (...) Nem imaginava que Mário Amato, FIESP, Albano Franco, falassem certas coisas que eles falam hoje. Eu tenho certeza de que é para não perder a História, para não ficar atrás dos outros, para tentar seguir o avanço de outras entidades. (...) Se não houvesse esse novo empresariado, eu duvido que essas entidades fizessem esforço até em se modernizar (...) para não perder o pé na História" (empresário do PNBE, em 2/4/91.

"Não. Acho que falar assim, latu sensu, não. Acho que você tem hoje bases, estão surgindo situações; toda essa situação que nós estamos falando aqui está levando alguns empresários a mudar a postura, a mudar sua forma de ver as coisas, com outros tipos de preocupação. Sobretudo acho que, com os próprios avanços, não só da questão tecnológica em si, mas da questão do gerenciamento, da profissionalização, a necessidade de exportar, que leva necessariamente o empresário, na medida em que ele encara isso com seriedade (...), isso obriga o empresário a se repensar. (...) Acho que [esse novo empresário] está hoje mesclado nos vários segmentos empresariais e nos vários portes de empresa" (empresário do IEDI, em 8/4/91).

BIBLIOGRAFIA

DINIZ, E. & BOSCHI, R. (1993), "Brasil: um novo empresariado? Balanço de tendências recentes", in Eli Diniz (org.), Empresários e modernização econômica; Brasil, anos 90, Florianópolis, Ed. da DAUFCS/IDACON.

BOSCHI, R. (1991), "Industrial Entrepreneurs: Interest Representation, Leadership, and Dilemmas of Economic Development in Brazil". Trabalho apresentado no seminário Economic Elites in Comparative Perspective, ISA, RC Economy and Society, Central European University, Praga, 2-6 de setembro.