O segundo sexo do comércio: CAMPONESAS E NEGÓCIO NO NORDESTE DO BRASIL 

 

Marie-France Garcia 

 

A exclusão das mulheres dos espaços públicos tem sido um dos indicadores mais evidentes da discriminação que elas sofrem em diferentes sociedades. Mas o aumento da participação relativa das mulheres em espaços públicos significaria necessariamente um maior equilíbrio da relação entre os sexos? 

O próprio processo de entrada das mulheres em espaços de que estavam excluídas é que deve ser investigado. O estudo das modalidades deste ingresso pode ser revelador do sentido em que se alteram (ou reafirmam) as divisões entre atividades femininas e masculinas, mundo doméstico e mundo extra-doméstico, espaço privado e espaço público etc. Ou ainda: como as categorias sociais e culturais instituidoras das diferenças sexuais ou de relação de gênero (1) são reelaboradas e se transformam, quais são os traços de continuidade ou descontinuidade com relação aos padrões sociais vigentes em momentos anteriores? A análise etnográfica e estatística de uma seqüência histórica particular, de um “caso concreto”, irá nos servir de instrumento para pensar tais questões. 

Um crescimento significativo da presença feminina nas feiras do Nordeste do Brasil, espaço tradicionalmente masculino, é suficiente para afirmar-se que a divisão sexual do trabalho, muito acentuada e que restringia as mulheres ao universo doméstico, está sendo questionada? A região passou, durante os últimos 50 anos, por transformações econômicas e sociais bastante profundas, que tiveram, entre outras conseqüências, importantes repercussões sobre as redes de comercialização, provocando um forte crescimento do número de vendedores nas feiras, em especial do número de mulheres. Recenseamentos de feirantes por nós efetuados em 1982 e 1989 (2) em uma feira situada no limite da zona úmida do estado da Parai’ba revelaram um crescimento de 49% no número de vendedores durante este período (o que significa uma taxa de crescimento de 5,9% por ano), enquanto o número de mulheres cresceu 60% (taxa de crescimento: 7%); em 1989, elas ocupavam 26% dos pontos de venda. 

Até os anos 50, relações de dependência personalizada estruturavam o espaço social rural e isolavam os trabalhadores residentes, os moradores, dentro das grandes propriedades, excluindo-os das atividades urbanas, inclusive das feiras semanais. Com a quebra do modo de dominação tradicional - em parte pela decadência econômica das grandes plantações açucareiras, pela possibilidade de saída em massa em direção aos mercados de trabalho industriais do Sul, pelo impulso das associações camponesas e pela criação de um novo quadro institucional e legal -, assistiu-se a uma mudança de estratégia dos grandes proprietários e à conseqüente expulsão dos trabalhadores residentes. Em decorrência disso, as migrações aceleraram-se, as cidades conheceram um crescimento espetacular e as relações mercantis tiveram um grande impulso (3): o que era antes objeto de auto-consumo para os trabalhadores residentes tornou-se objeto de trocas mercantis. O campesinato oriundo das regiões mais secas ou liberado pelo desmembramento das plantações canavieiras - ameaçado em sua reprodução pela expansão do gado, pelo recente crescimento dos canaviais para produção de álcool e pelo fracionamento das terras por herança - passou cada vez mais a utilizar a atividade mercantil regular como forma de contrabalançar os efeitos da escassez de terra, ou até de conseguir ter acesso ao mercado de terras. Em 1982, na feira de Remígio, 96% dos vendedores eram intermediários; entre eles, a maioria era composta de camponeses livres (64% dos pontos de venda). Os trabalhadores residentes nas grandes propriedades representavam somente 2,5 % dos vendedores, e os trabalhadores alugados, 2%. 

Nesse contexto, tornam-se bastante significativos os dados a respeito do crescimento do número de mulheres na feira, tanto mais que os estudos sociológicos sobre a região e nossas observações de pesquisa indicam uma forte divisão sexual do trabalho, em especial quando se trata de relações com o mundo extra-doméstico (4); embora o chefe da família tome, no roçado, as decisões relativas à produção e aos investimentos futuros, existe uma colaboração estreita entre homem e mulher, mesmo quando o trabalho feminino, seja qual for o nível de sua participação, é considerado ajuda (5). Mas a participação das mulheres da região estudada no mercado de trabalho é muito menos freqüente, sejam elas assalariadas nas grandes propriedades locais (6), sejam migrantes para as grandes metrópoles do Centro-Sul. 

Diversamente da inserção da mulher no mercado de trabalho, na qual o empregador impõe os limites, o exercício de uma atividade autônoma deixa às mulheres e aos seus cônjuges a tarefa de definir o espaço de inserção possível; e deixa à comunidade constituída pela feira o cuidado de censurar (sancionando a transgressão, por exemplo, com uma recusa de comprar) ou de ratificar a posição da mulher. 

No caso do mercado de trabalho industrial na França e na Inglaterra, examinado por Lóuise Tilly e Joan Scott (1987, p.20), são em grande parte as decisões dos empregadores que estimulam e suscitam a “segregação sexual no mercado de trabalho”. No caso analisado aqui, as mulheres que querem entrar na feira são confrontadas sobretudo com elas mesmas e com a avaliação de suas chances de sucesso. Não é necessário - como de resto para os homens - ter uma quantia inicial para investir; algumas adquirem os produtos para vender a crédito, e outras encontram-nos em seu próprio ambiente (ervas medicinais, por exemplo). Mas é preciso que todas as que entram na feira acreditem em suas chances de sucesso no ramo de negócio que escolheram. 

As feiras do Brejo da Parai’ba são espaços públicos muito especiais. Para o campesinato, a feira fornece, de uma certa forma, uma imagem dele mesmo, do seu lugar e da sua função no espaço social. De fato, se no começo do século XX as praças de mercado da região eram o lugar de escoamento dos produtos nobres (algodão, rapadura, produtos dos engenhos), hoje em dia elas são o lugar de escoamento e de abastecimento preferenciais do campesinato, que gosta de fazer ali as compras semanais de produtos alimentares e de ali adquirir todo tipo de produto e serviço. Além do mais, quando os camponeses vão à feira, não é somente para comprar ou vender um determinado produto, mas também para ver a produção “de exportação”, isto é, a produção que abastece os grandes centros urbanos ou outras regiões do Brasil, ou, até mesmo, outros países. Essa é a expressão, a seus olhos, da importância do campesinato na divisão social do trabalho. Reunindo a cada semana a população urbana que ali se abastece de alimentos (7) e sobretudo a população camponesa, que constitui uma grande parte dos intermediários, o ambiente que reina na feira é o reflexo do que acontece na sociedade camponesa: assim, quando a seca ameaça, a tensão e a agressividade sobem sensivelmente. Reflexo do que se passa no nível do grupo, a feira é também o lugar onde o indivíduo se situa no grupo. Quando se deseja tornar público um fato, basta ir à feira. É em geral no dia de feira, na feira e em seus arredores que se praticam os crimes de honra (8). A feira é um lugar em que são medidos não só o valor dos produtos, mas também o valor dos homens. 

Como explicar, então, que um espaço onde o cuidado com a apresentação de si mesmo é elevado ao máximo seja o lugar privilegiado de uma mudança de atitudes relativas às atividades socialmente definidas como masculinas e femininas? A presença das mulheres na feira, como vendedoras, é o resultado de uma transformação histórica do espaço social no decorrer do qual a enorme migração em direção às cidades do Sul do Brasil deslocaria o espaço percebido localmente como estritamente masculino em direção às grandes metrópoles? Ou, então, esta presença seria o resultado de urna transgressão imposta pela pressão da urgência das necessidades do grupo doméstico, quando as condições sociais não permitem mais ao chefe de família fazer face às suas obrigações? 


Feira e espaço social

A feira é um espaço social hierarquizado econômica e simbolicamente. Os produtos oferecidos não são agrupados nem ordenados ao acaso. Sem que existam disposições legais a respeito, os vendedores agrupam-se em função dos produtos ou de grupos de produtos oferecidos (9), formam setores cuja posição relativa é recorrente de uma feira para a outra (10). Esses diversos setores assim constituídos exigem tempo, capital, competências diversas e comportam riscos muito diferenciados. 

Segundo o tipo de produto ou serviço com o qual se quer realizar transações, o capital inicial varia: os temperos, as balas, o carvão, o artesanato de palha e as ervas medicinais fazem parte dos produtos que exigem menor liqüidez. Por outro lado, para instalar-se no setor das frutas, dos pães, dos refrescos, ou, mais ainda, quando se trata da farinha, é necessário dispor de um certo capital. Mas são sem dúvida os produtos manufaturados - o feijão, a carne -, a venda dos produtos agrícolas por atacado ou o transporte coletivo (11) que exigem um fundo inicial mais vultoso. São em parte os recursos dos vendedores que determinam o número de feiras por eles percorridas durante a semana, e, portanto, de dias dedicados ao comércio. Alguns vendedores, principalmente os de produtos manufaturados, chegam a percorrer seis feiras por semana. No pólo oposto, encontram-se aqueles que dispõem de pouco capital e freqüentam uma feira por semana: “a feira do pobre é um dia por semana. “

Esse capital inicial pode ser compensado por um estoque de relações sociais que facilite a obtenção do crédito ou o adiantamento in natura, e permite a venda em consignação (12). Ter parentes instalados na feira, sobretudo atacadistas, ou pertencer a uma clientela política facilitam o estabelecimento de vendedores (13). 

Mas se os pequenos produtores têm a vantagem de conhecer os produtos - pelo menos os produtores que vêm do campo -, a atividade mercantil exige um saber específico: é necessário contar rapidamente, dirigir-se aos compradores eventuais e convencê-los da compra, escolher o momento propício para baixar os preços etc. A venda de produtos manufaturados, em especial de confecção e de tecidos, exige não só o conhecimento dos produtos - o que a condição de usuário não permite, sobretudo quando se leva em conta g poder aquisitivo destas populações -, como também do meio urbano e dos centros de comércio; e requer, sobretudo, um conhecimento prático dos gostos da potencial clientela. 

Parece existir uma correspondência entre a hierarquia dos alimentos e a hierarquia dos setores na feira; para a população rural, as refeições são compostas por adição (14): feijão e farinha de mandioca constituem os elementos essenciais e indispensáveis. A eles agrega-se, quando a renda permite ou de acordo com o tipo de refeição - refeição simples ou de dia de festa -, a carne ou seus substitutos mais baratos, como o peixe seco ou a rapadura. Esses elementos formam a mistura, que pode ser completada com a verdura, elemento secundário, composto de temperos e legumes. A mistura, eventualmente acompanhada de verdura, constitui a comida, refeição principal, ingerida no almoço, e que se opõe às refeições menores, durante as quais são consumidos pão, mandioca e batata-doce. As frutas, consumidas fora das refeições, ocupam o lugar mais baixo na hierarquia dos produtos alimentares. 

A farinha, o feijão e a carne são expostos no lugar mais protegido, no coração da feira, no, mercado. A verdura e as frutas (frutas e tubérculos consumidos nas refeições menores) são expostos fora, a primeira, na vizinhança imediata do mercado, as segundas, na periferia da feira (ver esquema 1). 

Diversamente dos setores de produtos alimentares, freqüentados por consumidores de todas as posições sociais, os produtos não-alimentares e demais serviços oferecidos ria feira, procurados basicamente pela população camponesa, são muito variados: pode-se comprar roupas, miudezas, objetos de ornamentação, livros escolares, animais de criação, ou pode-se ainda procurar os serviços de barbeiros, pedreiros ou carpinteiros. 

Em uma feira, quando existe um setor de venda de produtos agrícolas por atacado, os camponeses a ela se referem como um feirão, por oposição às feirinhas, que só abastecem a população local urbana ou a população camponesa. São os feirões que os camponeses querem mostrar a todo custo aos pesquisadores (15). 

O setor do gado, ou a feira do gado, é também um dós mais importantes para a população camponesa, não somente pelo valor elevado das transações, mas também porque é através do gado que, para os camponeses, se realiza a poupança. 

No pólo oposto, encontram-se os setores de mangaio; são assim designados os setores onde são vendidos bens fabricados a partir de subprodutos de colheita (junco, palha etc), de extração (argila) ou de sucata; e que empregam uma mão-de-obra tornada ociosa por falta de terra para trabalhar ou de mercado de trabalho em que se integrar (16). 

Toda feira comporta um setor de troca, onde são transacionados produtos industrializados de um certo valor, de segunda mão (relógios, aparelhos de som, bicicletas etc). Ali se encontram muitas vezes pessoas que atravessaram momentos difíceis e que são obrigadas a se desfazer de objetos para equilibrar o orçamento; ou, ainda, receptadores de objetos roubados. Aqui, não são os objetos que definem o setor, mas as pessoas que trocam: “pessoas de uma moral duvidosa”, já que vendem produtos que não lhes pertencem ou que se aproveitam da situação de privação em que se encontram aqueles que são obrigados a entrar na troca. 

O setor de confecção é o mais colorido: algodão florido, náilon rosa-choque, cópias grosseiras dos modelos das grandes metrópoles; mulheres e moças gostam de passear neste setor; um grande número de garotos costuma vender ali balas e sorvetes. Ao contrário do que acontece no setor de farinha ou de feijão, onde circulam muitos mendigos, mulheres e crianças que catam os cereais caídos no chão, este é um setor que demonstra um certo bem-estar. 

A composição social da feira é muito heterogênea segundo os setores, e as condições de acesso variam muito segundo a posição social ocupada pelo vendedor. Para os trabalhadores da rua - que trabalham nos engenhos, mas moram nas periferias das cidades - e para os moradores, as condições de acesso à feira como intermediário são muito reduzidas: a maior parte das vezes, endividados nas vendas (armazéns onde os trabalhadores, via de regra, compram fiado e a preço maior do que no comércio da cidade ou na feira) para fazer frente às necessidades do grupo familiar, os trabalhadores de rua não dispõem de nenhuma liquidez para investir na atividade mercantil. Para os moradores, a falta de liberdade torna sua inserção ainda mais difícil: a submissão à vontade do patrão vai além do trabalho nos canaviais, e eles devem, a todo momento, ficar à inteira disposição do patrão. 

Entre as categorias sociais que aspiram à condição de intermediários na feira, os pequenos produtores (sobretudo os que são proprietários) são os que mais facilmente chegam a agricultores-comerciantes (17). A inserção dos pequenos produtores é duplamente facilitada: a colheita pode lhes servir de fundo inicial para adquirir o primeiro estoque, e o fato de eles terem que vendê-la periodicamente lhes permite obter uma familiaridade com a praça de mercado, diferentemente do simples consumidor. Esta combinação de atividades agrícolas e mercantis apresenta, aliás, inúmeras vantagens: por um lado, o comércio nas feiras permite aos camponeses completar seus rendimentos sem perder certa autonomia, como aconteceria se fossem oferecer seus serviços como trabalhadores nas grandes e médias propriedades, situação que, de uma certa maneira, lembra a sujeição (18). Por outro lado, a atividade mercantil fornece aos pequenos produtores uma renda apreciável durante a entressafra e sobretudo durante o período que precede a preparação do cultivo, momento do ano nó qual, muitas vezes, é necessário lançar mão de trabalhadores alugados. Enfim, a atividade mercantil regular e sobretudo o conhecimento de várias feiras aumentam consideravelmente a noção da oferta e da demanda e permitem que os pequenos produtores reajam mais favoravelmente aos mecanismos de mercado (19). 

Os agricultores-comerciantes que têm maiores superfícies de terra - a superfície média de terra dos agricultores que praticavam agricultura e negócio era, segundo o recenseamento realizado na feira de Remígio, em 1989, quatro hectares - situam-se nos setores mais capitalizados, tais como feijão, carne, produtos alimentares industrializados ou venda no atacado, enquanto os meeiros e rendeiros, que em geral dispõem de menos terra, concentram-se nos setores tais como mangaio, frutas, verduras, carvão etc. 

Os agricultores alfabetizados encontram-se nos setores de produtos manufaturados e de produtos agrícolas que pagam ICM. Aí, deve-se lidar com notas fiscais. Nestes setores, a proporção de analfabetos, que é de 66% na população de Remígio (IBGE, recenseamento de 1980), e de 26% para o conjunto de intermediários instalados na feira, cai para 2,25% (recenseamento de 1989). Um certo capital escolar é, assim, condição essencial para o acesso aos setores mais “nobres” das feiras. O volume e a estrutura dos capitais possuídos (sobretudo o acesso à terra e ao capital escolar) condicionam claramente a participação diferencial dos indivíduos nos diversos setores. 

Os grandes proprietários, contudo, não vendem mais os produtos nobres das grandes plantações na feira. Hoje em dia, a comercialização desses produtos é assegurada por organismos do Estado, empresas internacionais ou pelo comércio estabelecido. São suas mulheres que fazem a feira (cuidam do abastecimento de suas casas). Eles só vão lá eventualmente para vender gado, recrutar mão-de-obra ou para assegurar maior número de votos nas ocasiões de eleição. 

 

 



Embora apresentem uma ampla diferenciação interna, são as categorias sociais intermediárias do espaço social as mais representadas nas feiras da região. Trata-se de indivíduos que passam uma grande parte do dia na feira, comprando, vendendo sua produção, ou comprando e revendendo; é a sua presença que materializa a feira. Para eles, esse é um lugar de conversa, de observação, de divertimento, porque o tempo da feira nutre-se do seu tempo. Para as outras categorias sociais, a feira é um lugar de abastecimento, e seu tempo de permanência nela é mais reduzido. 

Com o fim das relações de dependência personalizada que estruturavam as grandes plantações, com a expansão dos pastos, que diminui a quantidade de terras acessíveis aos camponeses, e com a menor absorção de mão-de-obra pelo mercado de trabalho das metrópoles do Sul, o número de pessoas que se quer instalar na feira tende a aumentar consideravelmente. Como dar conta do forte crescimento das mulheres nesse espaço? Onde se situam as mulheres em espaço tão - sensivelmente estruturado? 

Setores da feira e participação das mulheres 

A participação das mulheres não é uniforme nos diferentes setores da feira (ver tabela 1). Elas estão ausentes daqueles setores que mais contribuem para dar ao campesinato uma imagem de sua riqueza e prosperidade, isto é, da venda dos produtos agrícolas por atacado e da venda do gado. É preciso notar que a exclusão das mulheres não se limita às transações de animais tradicionalmente do domínio masculino, mas também lhes escapa a venda dos animais tradicionalmente criados por mulheres (20). 

Constata-se a ausência de mulheres em todas as posições em que é necessária a arte de convencer; e em todas em que a palavra do vendedor se dirige a um público mais amplo e indefinido, como é o caso dos camelôs, cantores de cordel e autores de desafio. Dito de outra forma, as mulheres estão ausentes de todas as situações em que seriam levadas a se manifestar publicamente de maneira mais audaciosa (21). No setor de divertimentos masculino. - jogos de azar, loterias, jogos de bilhar, bares, lugares onde se escutam os cordelistas - pode haver mulheres, empregadas de bar ou parceiras dos cantores, mas sua reputação fica fortemente comprometida; as ruas adjacentes são conhecidas como lugares de prostituição. 

As mulheres, portanto, encontram-se somente nos setores de venda a varejo, e, mesmo assim, distribuídas de maneira muito heterogênea. É raro encontra-las nos setores de produtos alimentares mais nobres, tais como farinha de mandioca, cereais e carne. Estas são atividades definidas socialmente como “muito pesadas” (22), nas quais, no entanto, um certo número de mulheres chega a tentar a sorte. Diversamente dos setores que são imediatamente reconhecidos como espaços masculinos, os diferentes setores de produtos alimentares admitem um certo número de mulheres como compradoras. De fato, se entre os camponeses, como veremos adiante, na divisão sexual do trabalho, cabe aos homens o abastecimento do grupo doméstico, as mulheres que têm que assumir o papel de chefe da família, as viúvas ou as separadas do marido fazem as compras semanais. 


 

Por outro lado, a feira é um lugar de abastecimento também freqüentado pela população urbana mais abastada, para quem fazer feira “é coisa de mulher”. Sem dúvida, é por isso que, apesar de a quase totalidade dos vendedores ser constituída por homens, um certo número de mulheres sente-se autorizado a entrar nesses setores. Inúmeras entrevistas testemunham essas tentativas, que, em geral, resultam em fracasso. 

Se a maior parte das mulheres interioriza o fato de que vender esses produtos alimentares mais nobres cabe mais aos homens, estes não se sentem à vontade para regatear com mulheres. O regateio é um tipo de duelo entre dois parceiros que lutam não só pela medida de valor do objeto da troca, mas também pela medida do próprio valor de cada contendor. Um homem pode se medir com uma mulher? Ora, nesses setores, ao contrário da venda de café ou de comida pronta, por exemplo, regateia-se. Esta prática é, na maior parte das vezes, um ritual a mostrar que cada parceiro da troca conhece bem a qualidade dos produtos e a variação dos preços; em suma, ambos se equivalem como indivíduos aptos a comerciar entre si. 

Nos setores de produtos alimentícios complementares (óleo, sal, açúcar, café) e de produtos secundários (verdura e frutas), o número de homens e de mulheres é bem mais equilibrado, mas são outras as modalidades da venda. De fato, na feira de Remígio; em 1989, contavam-se seis mulheres para 11 homens no setor de verdura e 12 mulheres para 24 homens no setor das frutas. 

No roçado, são as mulheres que cultivam a verdura, seja nos arredores da casa, seja no final das plantações do roçado familiar. Quando vendem na feira, elas expõem a mercadoria no chão, como fazem os pequenos produtores que vendem farinha ou feijão de sua produção própria; vender no chão é identificar-se com esses camponeses que comerciam a sua produção. Somente quando a quantidade de produtos se torna muito importante é que as mulheres expõem os produtos em cima dos bancos. Mas os homens expõem a verdura nos bancos, qualquer que seja o volume das transações. Assim, eles salvam as aparências, forjando uma identidade de comerciante; colocando os produtos no chão, eles se apresentariam como produtores que vêm casualmente à feira para vender o excedente de uma produção de bens secundários, condição socialmente considerada própria das atividades femininas (23). Trata-se, na maioria das vezes, de rapazes novatos no comércio, pequenos meeiros ou trabalhadores alugados que não têm recursos suficientes para inserir-se em setores mais capitalizados. 

São os bancos de café que contam com maior número de mulheres (16, em 1982, e 17, em 1989); aí a presença feminina é quase exclusiva, em especial quando se trata de cozinhar no local. Nesses bancos, pode-se consumir café, bolos e, eventualmente, cachaça. São pontos de encontro, lugares onde se deixam as compras para andar mais livremente na feira. Quando as mulheres que tomam conta desses bancos são originárias de um sítio ou povoado vizinho, é comum que as pessoas daquele local ali se encontrem; nesse caso, as relações com a dona do banco podem ser pensadas não apenas como relações mercantis, mas também como relações de reciprocidade. “Eu não posso contar o número de cafés que eu ofereço a um, ofereço a outro, eu não procuro enriquecer... Olha como as pessoas são gentis! Acabo de receber feijão verde”, declarou uma senhora que tinha um banco de café. 

Alguns bancos constituem pequenos restaurantes onde se pode fazer uma refeição ou discutir negócios. São lugares calmos, onde é possível sentar em paz. Exigindo pouco investimento inicial - os utensílios domésticos podem ser usados para “botar banco” -, é um setor em que são valorizados o conhecimento e o habitus feminino: fazer refeições, guardar as armas dos compradores e vendedores, eventualmente cuidar de uma gripe com um chá, ser discreta e amável, são estas as atividades e qualidades para as quais as mulheres são socializadas desde a infância no seio da unidade doméstica (24). É também um setor em que elas não sofrem a concorrência masculina. De fato, para os camponeses, a atividade culinária é a atividade feminina por excelência, e não pode ser executada em público pelos homens (25). 

Em várias ocasiões, no decorrer da sua estada no Sul, quando moravam sem a família no canteiro de obras, quando iam trabalhar na área açucareira, ou quando o roçado é longe demais para voltarem casa na hora do almoço, os homens cozinham para si próprios. Mas na feira eles não podem desempenhar atividades socialmente concebidas como femininas (26). 

Os setores ligados ao vestuário (confecção, tecidos, miudezas, sapatos) constituem o topo da hierarquia dos bens femininos. Quase todas as mulheres gostariam de participar deste setor. A despeito disso, aí também elas não são majoritárias. Por oposição ao setor de farinha, feijão, carne, percebidos como demasiadamente “pesados”, e aos bancos de café, bastante remuneradores, mas em que é preciso botar a mão na massa, nos setores de vestimenta “não se sujam as mãos e é uma maneira de ganhar dinheiro, de deixar a casa e quebrar a monotonia das tarefas domésticas. “ Os setores de tecidos, de miudeza, “são bons setores porque têm gente boa, (e onde) pessoas que não têm dinheiro não aparecem “. “E se tivesse um capital, eu não venderia verdura, venderia roupas!”

Mas um certo investimento inicial não é o único elemento necessário: nem os diferentes tecidos, nem os lugares onde se abastecer são muito familiares para as mulheres. Sobretudo o fato de elas terem vivido apenas no mundo doméstico as torna menos capazes para reconhecer nos diversos produtos oferecidos em centros de comércio as “novidades” que podem atrair as categorias sociais compradoras desses produtos na praça de mercado (27). Se algumas aproveitam o fato de saber costurar e vendem uma confecção mal cuidada, em geral destinada às crianças, na maior parte do tempo este .é um setor ocupado por feirantes profissionais originários dos centros urbanos, ou por mulheres de origem relativamente mais alta, cuja trajetória foi cortada por uma viuvez ou separação. 

Vê-se que a inserção das mulheres como intermediárias nos diferentes setores é, de uma certa maneira, o resultado da transposição dos conhecimentos adquiridos no seio do grupo doméstico, e, portanto, fora da feira, e que reproduzem de certa forma o estado anterior da divisão sexual do trabalho, calcada na divisão das tarefas domésticas. Em todo caso, as mulheres reativam as disposições e habilidades que foram em grande parte adquiridas fora do negócio na feira. E é provavelmente a homologia entre as práticas femininas na feira e as práticas atribuídas às mulheres no universo doméstico que facilita o reconhecimento de suas atividades pela comunidade constitutiva da feira. 

Se a posição social dos indivíduos é um elemento fundamental para o acesso (ou não) ao negócio na feira e influi também sobre as chances de atingir cada posição na hierarquia dos diversos setores, não resta dúvida de que o comércio é um espaço específico, que tem uma dinâmica própria. A inserção nos setores que requerem mais conhecimentos específicos suscita sempre, por parte dos agentes, uma racionalização que atribui àqueles que têm mais sucesso qualidades inerentes à sua pessoa: localmente, diz-se que aqueles têm a arte do “comércio” ou a “estrela do negócio”, como se o sucesso fosse um destino inscrito no cosmos. 

Em vez de aceitar essa explicação determinista, tentaremos analisar as condições sociais nas quais os indivíduos têm oportunidade de valorizar seu capital econômico e os conhecimentos adquiridos anteriormente, e de internalizar os “mecanismos de mercado”, que, não sendo codificados, se adquirem na prática (28), freqüentemente por simples imitação. Nesse sentido, parece-nos necessário analisar a socialização diferencial dos diversos indivíduos, em especial a das mulheres, e sobretudo o seu ciclo de vida, evidenciando as diferentes posições que elas podem ocupar no grupo doméstico e as diferentes relações com o mundo extra-doméstico que daí resultam. 


Socialização e ciclo de vida

De maneira geral, os meninos do campo do Brejo da Parai’ba são socializados para “enfrentar o mundo” e obter os recursos necessários às suas necessidades, e, mais tarde, às necessidades da família da qual serão chefes. Já as moças são preparadas para viver no universo doméstico, tomar conta da casa e criar os filhos. Se há um reconhecimento social de que as mulheres têm uma renda própria, da qual dispõem para cuidar da casa e vestir os membros da família, as atividades que dão origem a essa renda, no entanto, são exercidas no seio do universo doméstico: criação, costura, artesanato e ensino (29). 

O comércio com o cultivo da terra é uma das atividades mais valorizadas, mas somente as crianças cujos pais já estão integrados na feira - o que corresponde, grosso modo, aos filhos de agricultores e feirantes - recebem uma socialização sistematicamente voltada para isso. Para os pequenos proprietários, em particular, o estímulo às atividades mercantis deve permitir que um ou mais filhos tenham uma futura especialização no comércio, evitando, assim, a divisão do patrimônio fundiário. 

Por volta dos dez anos, os meninos cujo pai é intermediário podem acompanhá-lo à feira mais próxima e aprender com ele as diferentes operações. Outros exercem uma atividade independente: recebem do pai uma pequena soma de dinheiro ou alguns produtos que podem ser vendidos a varejo, ou trocados por outros mais facilmente vendidos por uma criança; outros, ainda, utilizam o produto do cultivo que fazem no roçado. 

Para as moças, o fato de ter um pai na feira não quer dizer que elas estejam integradas nessas atividades. Às vezes são levadas a ajudá-lo, quando se trata de um setor onde sua presença é admitida, ou quando não há, no grupo doméstico, meninos em idade de faze-lo. As meninas não são encorajadas a entrar no negócio. Menos ainda quando pertencem a uma família mais abastada. Até as viúvas que negociavam na feira, quando indagadas a esse respeito, insistiam sobre o fato de que levavam suas filhas à feira nos sábados e domingos, mas que elas deviam estudar durante a semana, porque, “para uma mulher, a feira não tem futuro.”

A maior liberdade desfrutada pelos meninos, aliada à idéia que lhes é inculcada de que “é preciso se virar na vida”, permite que os filhos de trabalhadores - alugados, cujos pais via de regra são excluídos das atividades mercantis, se iniciem na feira, começando a prestar pequenos serviços aos vendedores e consumidores. Para aqueles que não dispõem de um pequeno fundo inicial e que têm conhecimentos entre os vendedores ou consumidores, é possível obter uma certa quantia em produtos em consignação. Nesse caso, eles vendem coisas que exigem pouco investimento e que são preferencialmente procuradas pelas crianças (sorvetes, balas, temperos etc.). Para isso, os meninos deslocam-se continuamente na feira, o que aumenta seu conhecimento dos diversos setores. As meninas filhas de trabalhadores alugados, por sua vez, não têm possibilidade de iniciar-se nas atividades mercantis. 

Mesmo quando são introduzidos na feira pelos pais, começando no mesmo banco, por volta dos 14 anos (30), os meninos estabelecem um ponto de venda independente. É nesta ocasião que eles adquirem o senso de lucratividade, já que depende de sua boa gestão obter uma soma de dinheiro suficiente para continuar no circuito mercantil e para ter algum lucro. E também nessa idade que os meninos começam a realizar um circuito de feira diferente do pai e que deixam de vender produtos nitidamente identificados com a infância para passar à venda de frutas, verduras, passarinhos, carvão, produtos artesanais, tudo o que compõe os setores da adolescência ou os setores que, embora ocupados por adultos, são os menos capitalizados da feira. 

Em torno dos 18 anos, idade em que se obtêm documentos de identidade, um grande número de rapazes vai para as metrópoles do Sul. Quando ele volta, isso redefine, entre outras coisas, a posição do rapaz na feira: é aí que ele adquire não só os fundos para comprar pontos de venda ou o estoque inicial para entrar em um setor mais capitalizado, mas também conhecimentos técnicos (31). 

As meninas entram mais tarde na feira e somente quando ali está o pai ou um parente mais velho (32). Elas ajudam os pais ou as mães, ou mesmo um parente, nos setores mais femininos. Ao contrário dos meninos, quando elas começam na feira, ficam sempre no mesmo lugar. Mas quando têm um ponto de venda independente, este é situado de tal maneira que as relações com outras pessoas são sempre filtradas pela presença de um adulto a quem pertencem os produtos vendidos. Enfim, as meninas geralmente vão à feira somente quando moram na cidade. E vão mais freqüentemente às feiras da cidade onde residem. Elas chegam mais tarde e saem mais cedo, porque não são elas que cuidam de instalar ou de guardar o banco e os produtos. 

Enquanto para os meninos a posição de intermediário é considerada uma alternativa das mais promissoras - e a autonomia e a mobilidade tornam possível essa posição, de resto estimulada pelos pais -, as meninas não são incentivadas a se ocuparem com isso. Os pais vêem na atividade mercantil um paliativo, e têm mais em vista os postos de funcionárias ou professoras primárias, e até mesmo secundárias, dando prioridade, portanto, à educação das mulheres. 

Não estimuladas pelo grupo familiar a se tornarem vendedoras nas feiras, as meninas são também praticamente excluídas, até mesmo como consumidoras e vendedoras, da própria produção para comercialização. 

As camponesas, como consumidoras, vão menos à feira do que os camponeses. São eles que fazem a feira, isto é, fazem as compras semanais de produtos alimentícios (33), enquanto as mulheres compram os objetos necessários à manutenção da casa e as roupas dos diversos membros do grupo familiar, na época do Natal ou de São João. As camponesas fazem, portanto, menos compras. E quando fazem, tendem a considera-las fúteis: “Eu não vou muito à feira, e quando vou, compro besteiras”. A estas besteiras opõe-se a feira, feita pelo marido, que constitui a compra importante e legítima. 

As meninas só vão à feira com a mãe. Na maior parte das vezes, são encarregadas de preparar o almoço ou de tomar conta dos irmãos mais novos. No roçado, as meninas têm uma pequena produção autônoma: dispõem de uma ou várias aves, de um minúsculo roçado e aprendem, assim, a criar e cultivar. Podem utilizar o produto da venda desses bens para suas necessidades pessoais. Mas, como para a mãe, a venda dos produtos, coisa que poderia servir de aprendizado do comércio, é feita pelo pai ou por um irmão mais velho. 

O casamento é uma ocasião importante no ciclo de vida de homens e mulheres. Ele redefine as posições dos indivíduos no espaço social. Para o homem, casar-se é assumir a responsabilidade de prover as necessidades do novo grupo doméstico constituído e de tentar aumentar as rendas. Para os homens que já exercem atividade mercantil regular, este é o momento de passar para setores mais rentáveis da feira, como o da farinha, do feijão e dos produtos alimentares manufaturados (estivas).

As mulheres, por sua vez, tendem a deixar a feira por ocasião do casamento, mesmo quando nela conseguiram adquirir posição satisfatória. Parece que o período que se segue à constituição do casal é o momento em que o ideal camponês, segundo o qual o homem é a cumeeira da casa, se realiza. O casal ainda não tem filhos e a renda é mais equilibrada. Nota-se também a ausência das mulheres na feira quando as crianças são pequenas (quando elas têm de 25 a 35 anos, recenseamento de 1982, tabela 2). Somente quando os filhos atingem uma certa idade a presença das mulheres se intensifica (na faixa de 35 a 44 anos situa-se o valor modal da presença das mulheres). 

 



 
 

As vendedoras são sobretudo as mulheres casadas residentes na cidade (em 1982, elas representavam 81,3% das mulheres; em 1989, 63%). A diminuição do estoque de terras cultivadas por famílias camponesas e a tendência a procurar na cidade melhores serviços de educação e saúde e até mesmo melhores condições do exercício do negócio fixaram um grande número de agricultores nos perímetros urbanos. Privadas da atividade de criação que exerciam nos arredores da casa, no campo, as mulheres de agricultores que negociam e residem na cidade são estimuladas pela proximidade da feira e vendem, na maioria das vezes, em companhia do marido (quando ele faz parte de um setor que admite a presença feminina). As mulheres raramente são responsáveis pela gestão de um banco (34) (isto é, da procura do ponto, da compra dos produtos etc.). Enquanto o marido percorre várias feiras por semana, elas ajudam o marido, que gere o negócio e toma as decisões. Elas só vão à feira no lugar onde residem: chegam mais tarde, quando o banco já está armado, ao mesmo tempo que os primeiros compradores. Mesmo quando têm um banco independente, as mulheres casadas, como as moças e os meninos, encontram-se geralmente em meio a uma vizinhança conhecida, são acompanhadas pelos chefes de família, enfim, acham-se em um ambiente que não propicia as interações com desconhecidos aos grupos domésticos sem que exista uma presença familiar e “protetora” nos arredores imediatos. 

Algumas mulheres de pequenos produtores relativamente bem-sucedidos só estão presentes na feira graças à posição que o marido ocupa na hierarquia dos diferentes setores. Por outro lado, são eles os gerentes, são eles que tomam as iniciativas e assumem as responsabilidades, enquanto as mulheres ficam em posição de auxiliar nas tarefas em que os riscos são limitados, como a venda a varejo. 

O número de mulheres residentes no campo, embora menor do que o número de mulheres casadas morando na cidade, cresceu acentuadamente na feira; em 1982, elas representavam 18% das mulheres casadas, enquanto em 1989 representavam 32,6%. As entrevistas efetuadas na feira ou fora dela revelaram que as mulheres dos pequenos proprietários, dos meeiros e rendeiros mais bem-sucedidos tendiam a não vender na feira. Paradoxalmente, é entre os camponeses sem terra ou com pouca terra - para quem, segundo sua própria expressão, a inserção na feira é “trancada” - que se encontra o maior número de mulheres que “negociam”. Elas aí não entram para adquirir com o produto da venda as “besteiras” (roupa, louça), cuja compra lhes é normalmente atribuída na divisão sexual do trabalho, crias para adquirir bens de primeira necessidade, produtos alimentares habitualmente adquiridos pelos maridos, que têm cada vez mais dificuldade de arranjar terra para trabalhar ou de oferecer seus serviços como trabalhadores alugados, e, portanto, encontram cada vez mais obstáculos para prover as necessidades básicas do grupo doméstico. Do ponto de vista econômico, a venda de um produto qualquer é sempre possível (a exemplo da venda de ervas medicinais conhecidas por todos, ou de vendas em consignação), mas a tentativa de penetrar na feira em momento de dificuldades financeiras não tem o mesmo significado para homens e para mulheres adultas: é preciso expor-se publicamente, como os meninos que iniciam suas atividades mercantis. 

Embora o trabalho alugado seja humilhante para os pequenos produtores autônomos que não estão sujeitos a um grande proprietário, por outro lado, ele permite que todos aqueles que a ele recorrem em situação adversa se comportem como “homens”, efetuando trabalhos penosos. Em compensação, para as mulheres, a venda de produtos secundários e de menor valor na feira está mais de acordo com a representação que os homens fazem delas. É melhor enfrentar um conjunto de pessoas em público do que se Submeter ao trabalho alugado, ou seja, ás ordens diretas do patrão no campo, espaço masculino e privado por excelência. Mais sensíveis às urgências impostas pela presença de uma família para sustentar - são elas que cozinham, fazendo face, portanto, à escassez dos alimentos em cada refeição, são elas que convivem mais com as crianças -, as mulheres estão dispostas a transgredir para enfrentar uma situação difícil. Os maridos não podem criticá-las, pois não estão em condições de sustentar o grupo familiar, perdendo, com isso, um dos fundamentos da sua autoridade tradicional (35). 

Sendo o espaço da feira masculino, a presença das crianças é uma garantia sob vários aspectos: a mãe acompanhada de seus filhos tem uma imagem mais respeitável, tanto aos olhos da comunidade que constitui a feira como aos olhos do marido. Por outro lado, os filhos beneficiaram-se muitas vezes de uma escolaridade maior do que a mãe, e esta passa a contar com as crianças para ajudar nos cálculos das transações. Em vários casos, o marido acompanha a mulher discretamente, em particular quando ela tem um banco de café. Como b homem deve fazer a feira, não se sabe muito bem se ele está na feira para comprar ou para acompanhar sua mulher. Esta é uma situação ambígua, que permite ao homem controlar o ambiente no qual a mulher evolui, e salvaguardar a honra, sem expor-se a uma situação passiva e de segundo plano (36). 

Um certo número de mulheres é levado a assumir o papel de chefe de família pela viuvez, quando marido sofre de deficiência física ou mental ou quando ele migrou para as metrópoles do Sul do país e aí fundou outra família. Este é um fenômeno bem freqüente pela importância da mão-de-obra proveniente do Brejo nos mercados industriais do Rio e de São Paulo. Essas mulheres auto-designam-se viúvas de marido vivo. A incapacidade ou a desaparição do marido provoca, na maior parte das vezes, a perda dos recursos familiares. Mesmo quando é o grupo familiar que trabalha a terra, não se aluga um roçado a uma mulher, a menos que ela tenha um filho com idade suficiente para tomar o lugar do pai, ou quando as relações entre proprietário da terra e família a quem ela é concedida são peculiares (por exemplo, compadres ou parentes). Ceder terras em arrendamento ou parceria pode ser, aí, uma forma de prestar assistência, de proteger mulheres de uma mesma rede de parentesco (37). 

As mulheres que ajudavam os maridos antes de eles morrerem ou adoecerem tendem a continuar na mesma atividade. Seu sucesso depende grandemente do grau de integração anterior (conhecimento dos lugares de abastecimento e de fornecedores, sobretudo quando as compras se fazem a crédito) e do caráter mais ou menos feminino do setor de atividade: uma viúva de comerciante, por exemplo, tinha retomado a atividade do marido; ela acompanhava-o quando ele percorria o campo para comprar gado para o matadouro, cortava a carne e vendia na feira. Viúva, ela continuava no mesmo setor, ajudada pelo filho; em especial, ela deslocava-se para adquirir gado, e sublinhava, no relato que fazia das suas atividades: “eu faço tudo como um homem, menos matar animais”.

Para as mulheres que não tinham atividade mercantil antes de assumir o papel de chefe de família, o fato de serem intermediárias na feira representa uma das alternativas mais vantajosas do ponto de vista econômico e da aceitação do grupo. Mas essa é uma alternativa raramente factível. 

A migração, solução mais freqüente para enfrentar uma falta de recursos, é quase exclusivamente masculina. “Se eu fosse um homem, eu teria ido para o Sul”, disse uma mulher que vivia de trabalho alugado com seus três filhos, e cujo marido, um meeiro, morrera em um desastre. 

Em casos excepcionais, a maneira como são vividos esses deslocamentos dá conta da transgressão que eles representam e do investimento material e psicológico que exigem. A maneira como a mãe de uma viúva de marido vivo conta como sua filha foi para São Paulo trabalhar como empregada doméstica é prova disso. Ela começa por contar o casamento da filha, que parecia “tudo direitinho”; depois, como o marido não correspondeu às expectativas da mulher, trabalhando pouco e gastando muito dinheiro com bebidas e outras compras supérfluas, situação em que ela se encontrou com duas crianças, sem recursos, e decidiu ir para São Paulo; contou, enfim, a intervenção de um irmão que trabalha em São Paulo, que financiou a viagem, e que, sobretudo, lhe arranjou emprego em uma casa por ele considerada de confiança. 

Quando os pais da mulher vivem em condições materiais que permitem acolhê-la com seus filhos, esta pode voltar à casa paterna. Caso contrário, as mulheres viúvas são obrigadas a oferecer seus serviços como trabalhadoras alugadas (38) nas grandes plantações por salários nitidamente inferiores aos dos homens, ou a lavar roupa para famílias abastadas, o que lhes assegura uma remuneração equivalente e até mesmo inferior, mas permite que elas ganhem roupas velhas e outros objetos, e que fiquem entre mulheres. 

Socialmente admite-se que as mulheres cujos filhos são pequenos ou cujo estado de saúde não permite enfrentar o duro trabalho no campo peçam esmola na feira. O diálogo recolhido entre uma mulher acompanhada de seus filhos de um e de três anos e um homem que vendia ossadas ilustra bem esse fato: a mulher estendeu ao vendedor sua cesta e pediu-lhe alguma coisa. Este exclamou: “Você não tem marido para te sustentar?” Resposta da mulher: “Você acha que se eu tivesse marido estaria aqui pedindo?” O vendedor então separou uma ossada para lhe dar e a mulher continuou o seu caminho entre os diferentes vendedores, pedindo as coisas de que precisava. 

Esta é uma prática comum e tão aceita que os vendedores trazem separadamente produtos para vender e produtos de menor qualidade para dar de esmola. Não é bem-visto, contudo, chamar a atenção para a sua própria carência: uma mulher acompanhada de um bebê, e que cantava sentada no chão de uma ruela da feira, provocou várias reações de indignação entre pessoas que consumiam café e bolo em um banco próximo; sua condição de mulher só e com crianças muito pequenas que a impediam de exercer atividade remunerada deveria ser suficiente para que a comunidade se encarregasse dela e fossem feitos donativos in natura ou em dinheiro. 

Apenas uma pequena parte das mulheres sozinhas consegue se estabelecer na feira. Muitas delas são mulheres de vendedores que já freqüentavam a feira antes de ficar sozinhas e de ter que assegurar a renda do grupo familiar. Ou eram ainda mulheres de origem social mais alta, para quem o fato de ser intermediário ou feirante representava uma decadência social, mas que não encontravam nenhum obstáculo maior para ali se instalar. As mulheres de origem mais modesta - sobretudo aquelas que moram no campo - muitas vezes tentam se inserir na. feira somente depois de ter passado a residir na cidade e de ter exercido atividades penosas (economicamente mal remuneradas e simbolicamente desvalorizadas). Só depois de conseguir realizar seu intento é que elas “armam um banco” (39).

Trajetórias masculinas e femininas

Se tanto os setores femininos como os masculinos admitem uma hierarquização, as mulheres tendem a ficar no mesmo setor, enquanto os homens tendem a passar dos setores menos capitalizados para os mais capitalizados. As vezes, os homens participam da feira desde a infância, cedo adquirindo o princípio de hierarquia dos setores e da possibilidade de mudança. A combinação da agricultura e do negócio ou a migração são essenciais para a passagem de um setor para outro, mudança muito mais freqüente entre homens do que entre mulheres. 

A agricultura facilita os investimentos e diminui os riscos. A possibilidade de utilizar os serviços de trabalhadores alugados permite multiplicar o número de dias dedicados ao comércio, sem prejuízo do roçado. As mulheres, por sua vez, devem fazer os serviços domésticos que só são transferíveis para as meninas. Por outro lado, quando elas combinam o comércio com outra atividade, é raro que esta seja suficientemente rentável para enfrentar os riscos de uma mudança de setor. Obrigadas a fazer frente às despesas básicas, elas não têm meios de abstrair o presente mais imediato, a urgência das necessidades, para programar o futuro. Uma renda maior serve mais para fazer face às despesas eventuais - como a compra de roupa ou objetos de manutenção da casa - do que para realizar um investimento mais arriscado. Enfim, é freqüente, durante as longas viagens que os vendedores fazem juntos para ir às feiras de seu circuito regular, que se criem amizades preciosas, alargando o circuito das relações ligadas à feira, que vêm se somar às relações de vizinhança e de parentesco. Ora, as mulheres raramente participam dessas viagens, porque vendem fundamentalmente na feira do município em que residem. 

O confronto das trajetórias femininas e masculinas no negócio torna evidentes as razões do efeito diferencial do comércio, ao permitir á mobilidade ascendente. O trecho a seguir, destacado da entrevista concedida por uma mulher separada do marido, ressalta as dificuldades que a mulher sozinha tem para realizar uma trajetória ascendente nos negócios, sobretudo se pesa sobre ela a responsabilidade de sustentar os filhos. O marido era ex-morador de engenho. Durante o tempo de casado, ele trabalhava por empreitada na cana-de-açúcar e praticava agricultura em terra cedida em regime de meação. Note-se que a entrada da mulher na feira data do tempo de casada, quando comerciava as mercadorias produzidas pelo marido, que não se prestava a esta tarefa por ser “coisa de mulher”. Ela estava consciente, portanto, de que, “para vender; basta saber não perder”. Após a separação, a mulher continuou a vender verduras, graças ao apoio de uma amiga, que a acompanha para as compras no atacado, em Campina Grande, das mercadorias que ela vai revender nas feiras de Areia e da usina de açúcar daquele município. A falta de capital comercial de que se queixa está relacionada com as dificuldades vividas na relação conjugal, com a obrigação de assumir simultaneamente “tarefas de mulher” e as responsabilidades do marido, para não deixar a família “acorrer de fome”. Tendo que fazer face sozinha aos encargos que normalmente são exercidos pelo casal, ela não consegue juntar um capital e “achar um dinheiro”. A dificuldade daí decorrente é tão grande que seu discurso assinala uma equivalência entre os momentos de antes e de depois da separação: o homem está ausente hoje, como esteve ausente quando foi para São Paulo; quando estava em casa, gastava o dinheiro com bebidas. O “roubo” do carvão doméstico dramatiza a reciprocidade negativa do tempo de casada. Em certo sentido, é como se ela tivesse estado sempre condenada a contar apenas consigo mesma. 

Comecei vendendo verdura na feira, porque meu marido inventou de fazer hora e tinha vergonha de vender na feira l...l Eu vou à feira de Areia (onde atualmente reside) e à feira da usina. O dinheiro que eu apuro serve para fazer a feira (compras semanais de produtos alimentícios), porque meu marido não traz dinheiro para casa. A primeira vez, eu pedi a uma amiga para ir com ela fazer as compras em Campina Grande. Ela estava doente e seu marido me levou. Fui com a minha filha. Ele me ensinou tudo, e agora eu vou sozinha. Eu compro duas caixas de tomate que vêm com um homem que vende verdura e queijo e tem uma caminhonete. Eu pago Cr$ 50, 00 por caixa. Também vendo chuchu, que compro quando vou à feira. Tenho conhecimento: eu compro 20 quilos de cebola de um, uma caixa de tomate de outro... Aí eu vou comprando aqueles troço tudo fiado, né? Quando acaba a feira, eu pago os vendedores. Domingo de manhã meu dinheiro está livre, porque paguei tudo de véspera. O que ficar, eu compro uns trocinho para comer. Vou para a usina de caminhão; ele vem pegar carne no matadouro e transporta muita gente. Quando eu tenho capital, vou para Campina Grande comprar ... Tenho cinco filhos, um filho epilético, uma menina de oito anos, uma filha casada com pedreiro que trabalha na cozinha de um convento, uma outra casada que mora em São Çarlos, no Sul, e uma outra em São Paulo, e outro filho pedreiro. Eu sou empregada da Prefeitura, mas com o que ganho não dá para pagar a luz. Mas, na sexta-feira, eu saio, eu compro 15 de um, dez de outro, eu não tenho medo ... Já fui casada. Faz oito anos que nós estamos separados. A gente trabalhou muito na agricultura como meeiros... Moramos em Alagoa Grande, Guarabira, com seu Henrique, em Areia, com seu Severino. Depois moramos na rua de Areia, trabalhava de segunda a sexta. Os vizinhos olhavam as crianças ... Meu marido bebia muito e quando chegava sábado não tinha dinheiro para fazer a feira. Que Deus me perdoe, como é triste uma casa sem nada para comer na segunda-feira... Meu marido foi para São Paulo. Ele queria vender a casa para pegar o dinheiro e ir para São Paulo. Ele passou uns três meses, uns quatro meses lá. Quando ele chegou, foi na noite de São João. Sabe o que ele trouxe? Um quilo de carne velha com sebo em cima para nós. Sabe como eu escapei? Ele me deixou nessa casa. Sabe o que a gente fazia, mais as meninas? Sem ter quem ajudasse, sabe o que eu fazia para não morrer de fome? Ele deixou uns pés de mandioca. Eu ia arrancar mandioca com um pau comprido... Botava na casa de farinha, pagava esse homem que está aqui, esse vizinho meu, viu. Eu levantava de madrugada, pegava um caldeirão, ia para o matadouro. Trazia um caldeirão de sangue. Aí eu pegava aquele sangue, escaldava, fazia escorrer bem. Botava a peneirinha, escorria, aí saía para a rua. “Toma um pedacinho”. A senhora estava comendo farinha, dava um pedacinho... Outra dava uma colher de café. Eu dava um pouco a uma outra que me dava fumo em troca. Eu distribuía tudo para poder achar o que comer. Sofri tanto nessa Chã do Galo. O vagabundo não me pagava para comprar umas coisinhas para as meninas. Ele fazia carvão. Roubava dele e mandava meu menino vender o carvão na feira para poder comer. Eu sei fazer carvão, eu trabalhava com ele! Eu me lembro quando Helena fez a primeira comunhão. Como eu sofri para comprar sapatos para ela!... Mas meu marido não morre de fome, é um homem forte, ele tem outra mulher. Ele é feliz, a agricultura esse ano foi boa... Desde que eu casei, sempre vendi troço: alho, mangas, mandioca, eu sei vender tudo isso. A única coisa que eu não sei vender é roupa. Para vender, basta saber não perder. Se eu tivesse capital, eu poderia achar um dinheiro, se eu tivesse um mês para fazer as compras da semana, eu poderia me virar! Mas eu compro verdura que eu revendo, e quando faço as contas, só dá para comer um pouco de farinha, de feijão, às vezes um pouco de carne. Eu sempre soube negociar, porque ele tinha uma horta, e quando parou de ter verdura, eu já sabia onde era o ponto na feira. Tenteie fiquei. Porque eu não tenho nada, somente o amor de Deus e mais nada. 

O pólo simétrico pode ser observado no trecho da entrevista que vem a seguir, dada por um agricultor que paga trabalhadores alugados em seu roçado e que também é negociante por atacado na mesma CEASA em que se abastece a senhora anteriormente citada. 

Ressalta como bem cedo o pai socializou-o no negócio, e como o tio, posteriormente, apoiou seus passos iniciais em negócio próprio. A vivência prolongada do comércio permitiu que respondesse a momentos difíceis, à “crise da Parai’ba”, com a intensificação de negócios arriscados: a viagem para outros estados devia durar 15 dias; durou quatro meses. Ao voltar para casa, ele encontrou a mulher no mesmo canto, com mais um filho, continuando a cuidar da casa, do roçado, a criar porcos e galinhas. Sua prosperidade leva-o a proporcionar à mulher e à família o conforto necessário para que ela não precise “vender na feira”; ela até “gostaria”, mas ele admite que “não quer saber disso não”.

Tenho oito irmãos, mas sou o único que negocio; meus irmãos foram criados em casa, criando e trabalhando; três foram para São Paulo: um é mecânico, outro é motorista e outro é vigia num banco. Entre meus irmãos que moram na Paraíba, um tem 16 hectares. Meu pai tem 14 hectares. Ele comprou terras pouco a pouco no tempo em que negociava. Meu irmão que tem 16 hectares não negocia... Eu comprei essa casa e tudo que tinha dentro. Hoje eu crio um pouco, é meu filho e minha mulher que cuidam. Eu boto trabalhador para plantar. Foi meu pai que me levou para a feira. Quando eu tinha dez anos, eu ia com meu pai á Guaribas para comprar cebola. Naquela época, a gente morava no Riacho do Meio. Mas o lugar onde a gente guardava a mercadoria era em Lagoa do Mato, um lugar de passagem para todos aqueles que iam a Campina Grande. Pouco apouco eu comecei a vender cebola em Campina Grande. Um dia, meu pai não foi, eu fui sozinho. Meu tio vendia verdura, vendia mais semente de coentro. Eu ia com ele, botava minhas coisas perto dele. Comecei a vender [a retalho] na feira porque eu não tinha conhecimento. Mas chegou um momento em que eu vendia a quase todo mundo (em grosso) na feira. O negócio aumentou e eu comprei um carro. Meu pai deixou de transportar a mercadoria nas costas de animais. Em 1970, eu caseie fui morar em Lagoa do Mato, contra a vontade de meu pai: eu disse para ele que eu não queria trabalhar na agricultura; Lagoa do Mato tem todas as facilidades para negociar, porque é central, é um lugar de passagem. Aluguei uma casa... em 1975, eu saí daqui para Montes Claros. Estava uma crise que não tinha mercadoria nenhuma. Eu fui a Esperança, arrumei um caminhão de seu Anísio, eu fui para Minas. Aluguei um caminhão para partir sem destino. É I S dias a minha viagem /../Fui a Mossoró (RN): queria comprar jerimum. Minha mulher ficou; estava grávida de sete meses... Mas não tinha jerimum, tinha maracujá de maio..., e aquele melão japonês, mas não quis porque não estava bem ambientado com esse negócio de lá l...lAí comprei sal. Joguei em cima do caminhão e fui para Montes Claros, em Minas Gerais. Quando passeia Conquista, na Bahia, comecei a vender o sal. Há um frete bom, daqui para o Sul, para o sal... Em Itanhambira... comprei mangas. Tinha tantas mangas! Eram baratas, e eu fui vendê-las no Rio. Tenho um cunhado que vende na feira de São Cristóvão. A viagem devia durar I S dias e durou quatro meses. Quando cheguei em casa, minha mulher tinha dado à luz. Mas eu aprendi a vender mangas, e agora conheço os lugares. Eu conheço todas as culturas do estado de Minas Gerais e seu tempo de colheita. Eu compro e revendo no CEASA de Campina Grande l...l Minha mulher toma conta do roçado perto de casa, cria porcos, galinhas 1../Minha mulher, vender na feira? Ela gostaria, mas eu não quero saber disso não...

Longe de evidenciar uma tendência geral ao nivelamento das possibilidades de permutação das posições potenciais dos homens e das mulheres, a análise mostrou que os setores mais nobres e mais capitalizados continuam sendo monopólio dos homens, enquanto os setores tradicionamente ocupados pelas mulheres (banco de café especificamente) continuam sendo de exclusividade feminina. Se as posições polares nunca são atingidas pelos dois sexos, as razões são diferentes e assimétricas: as mulheres carecem tanto dos meios materiais e das disposições adquiridas que a questão, muitas vezes, nem se coloca. Quanto aos homens, não é a falta de meios e de habilidades que os impede de encarar essa possibilidade, mas a recusa de serem assimilados à condição feminina com a correlativa conotação de fragilidade. 

A presença feminina ficou mais evidente nos setores da feira que se situam em posições intermediárias. A análise morfológica da feira mostra, assim, que ao invés de assistirmos a uma mudança radical da divisão sexual do trabalho, assiste-se a uma translação global da distribuição entre as posições masculinas mais valorizadas e as posições femininas menos conceituadas (40), reproduzindo a representação tradicionalmente interiorizada de que são os homens que “têm a arte do comércio”, enquanto as mulheres, inclusive as mais hábeis, só conseguem “se virar”. 

No entanto, o universo das mulheres que chegaram à feira conheceu um certo número de modificações, tanto mais profundas quanto mais a observação se situa no nível mais baixo da escala social. As mulheres cujo marido ou pai freqüentam os setores mais nobres orientam-se para os setores reconhecidos como inferiores, ou ocupam posições subordinadas no mesmo setor (ajuda ao marido). Mesmo quando elas gerem seu próprio banco, entram em competição com homens de origem social inferior. 

O fato de o grupo doméstico ser bem-sucedido não corresponde necessariamente a uma presença mais forte das mulheres nas praças de mercado. É o contrário que se observa. A exclusão das mulheres da feira tem razões opostas se observamos a diferenciação, ou mesmo a polaridade da situação feminina. As que estão em melhor situação tendem a deixar a feira ou a se colocarem posições muito protegidas. As mais desprovidas não conseguem inserir-se na feira (e são condenadas ao trabalho alugado, a pedir esmola etc.). São justamente as mulheres cujos maridos não conseguem sustentar a casa - e puja autoridade, portanto, se encontra estremecida - que investem mais no negócio; para elas, a feira torna-se um meio de independência econômica e está também na origem de uma diminuição de dependência em relação ao marido. Paradoxalmente, é a ameaça à reprodução do grupo doméstico que parece criar uma situação mais favorável à independência: contudo, além de certos limites, esta ameaça impede que as mulheres invistam em atividades mais lucrativas, como o comércio. 

- Por outro lado, vimos também que as trajetórias ascendentes são menos freqüentes e mais curtas entre as mulheres. Aquelas que estariam prontas para penetrar em setores dominados por homens não têm condições de passar de um setor para o outro, porque têm crianças pequenas para cuidar. Aquelas que, graças à sua posição no grupo doméstico, têm uma condição melhor, não tendem a passar para os setores mais nobres e tradicionalmente masculinos, porque o preço a pagar seria a perda de ‘uma certa tranqüilidade que o universo doméstico lhes fornece. De fato, mais do que um espaço de trocas econômicas, a feira é um lugar de enfrentamento entre os indivíduos que têm finalidades diferentes e recursos desiguais. O desafio, e, portanto, o risco são tão mais importantes quanto mais nobre é o setor e quanto mais altos são os ganhos. A trajetória ascendente das mulheres na feira acarreta custos psicológicos mais elevados à medida que é mais confortadora a situação doméstica inicial. 

A feira não é um lugar público como os outros, ela é mais inclusiva do que qualquer reunião política (comício, associação sindical etc.); a participação nela é um bom índice dos efeitos da liquidação das relações de dependência personalizada que estruturavam o espaço social. Examinando de mais perto a maior participação das mulheres nesse espaço, constata-se que a transformação da divisão social do trabalho (fim das relações- personalizadas) não acarretou até agora um questionamento tão radical da divisão sexual do trabalho. Ao fim de um tipo de dependência (senhor de engenho/morador) não se segue o fim de toda e qual-, quer dependência, muito menos daquela que está ligada à dominação masculina no espaço público. Para a maioria dos trabalhadores, a conquista da liberdade, com o fim da dominação tradicional senhor de engenho/morador, esteve ligada às crescentes dificuldades de vida que afetam a constituição de caminhos próprios, independentes. A construção da dependência personalizada não foi banida da vida pública, e muito menos foi posta em xeque a dominação masculina no espaço público. 


Notas

* Uma primeira versão deste artigo foi publicada em Information sur les Sciénces Sociales, vol. 30, Sage Publications, setembro de 1991. 

1 - Ao estudar os termos sexo e gênero como categorias sociais, Eleanor Maccoby (1990) rejeita a distinção que se faz a priori entre sexo, para abranger aspectos biológicos, e gênero, para designar aspectos socioculturais. Para essa autora, descobrir as determinações biológicas e sociais do comportamento é um dos objetivos da pesquisa. Por isso, tais determinações não poderiam ser pressupostas a partir de uma escolha terminológica prévia. A categoria gênero (gender) é preferida pelas feministas norte-americanas. Mas o emprego da palavra correspondente, genre, em francês, é contestado pelas feministas da França. O texto de Eleanor Maccoby foi publicado nos Estados Unidos sob o título “tender as a social category”; na França, recebeu o nome de “Le sexe, catégorie sociale”. Em respeito, portanto, aos procedimentos mais comuns em Antropologia Social, o presente artigo conserva o uso alternativo de sexo e gênero para designar diferenças sociais e culturais. 

2 - Este trabalho é o desdobramento de uma pesquisa cujo objetivo era o estudo das feiras e de sua importância na reprodução econômica e social do campesinato na região do Brejo da Paraíba (Garcia, M-F., 1984). Em outra ocasião, junto com Beatriz Heredia e Afrânio Raul Garcia Jr. (1984), tentei refletir sobre a divisão sexual do trabalho entre os camponeses pernambucanos, no âmbito da unidade de produção, da casa e da feira, a partir de trabalhos de pesquisa anteriores (Heredia e Garcia Jr., 1971; Garcia Jr., 1984; Garcia, 1977; Heredia, 1979). A pesquisa realizada no Brejo da Paraíba evidenciou a presença significativa de mulheres em um grande número de feiras; interessamo-nos pelos significados desta presença e aproveitamos o material colhido e os contextos existentes para realizar uma pesquisa específica sobre o assunto. Com este intuito, em 1989, realizamos um recenseamento da feira de Remígio, complementar ao que realizáramos em 1982; queríamos determinar o número de pequenos produtores que eram também intermediários, e que conseguiam, por essa via, se manter como pequenos produtores, ou até mesmo acumular. Na ocasião dos dois recenseamentos, a observação direta e as entrevistas prévias nos permitiram conhecer os diferentes setores e identificar as horas de movimento intenso, que evitamos na aplicação do questionário. A apuração do número de talões da taxa paga na ocasião das exposições dos produtos (o “chão”) no período de um ano, selecionando um dia por mês, nos forneceu a base estatística necessária para evitar as variações por estação ou as possíveis falhas do próprio recenseamento. A observação dessa mesma praça informou-nos sobre a presença e as atividades de um certo número de vendedores que escaparam ao recenseamento ou à fiscalização, seja porque se deslocavam na feira, seja porque o acerto sobre a troca de bens ou serviços é concluída nesta mesma feira, mas concretizada fora dela. A observação de outras praças de mercado nos permitiu controlar o que é próprio da feira de Remígio e o que é comum a todas as praças de mercado da região. 

3 -Para um estudo das transformações da dominação tradicional na área, ver Garcia Jr. (1990); e Palmeira (1971), a respeito deste processo em Pernambuco e dos efeitos sobre a circulação dos bens. Para um estudo da interveção do Estado na área do Brejo e suas repercussões sociais e políticas, ver Potengy (1984). 

4 - Embora revele um notório crescimento do número de mulheres no movimento sindical rural no estado da Parai’ba, nos últimos anos, o trabalho de Paola Giuliani (1987) é indicador de uma divisão sexual do trabalho no âmbito político bastante significativa. Para um estudo sobre o sindicalismo no estado da Paraíba, ver Novaes (1987). 

5 - Essa divisão sexual do trabalho é recorrente em vários estados, em especial nos de Pernambuco (Heredia e Garcia Jr., 1971; Garcia, 1977; Heredia, 1979; Garcia Jr., 1983), Paraíba (Garcia, 1984; Garcia Jr., 1990) e Minas Gerais (Eigenheer, 1982). 

6 - O trabalho de Maria Inez Paulilo (1982) a respeito das mulheres do Brejo da Paraíba revela que, na amostragem construída, somente mulheres viúvas ou.que deviam assumir o papel de chefe da família trabalhavam como assalariadas nas grandes propriedades. 

7 - Se, para toda a população local, a feira é um lugar de abastecimento, este não tem a mesma importância e não é utilizado da mesma maneira pelos diferentes grupos sociais. Enquanto campesinato compra produtos alimentares que não produz e todos os outros bens e serviços de que necessita, os grandes proprietários compram sobretudo produtos agrícolas, e preferem os centros de comércio estabelecidos nas cidades para a aquisição de todos os outros tipos de bens. 

8 - Assim, em 1977, um homem com a camisa manchada de sangue percorria a feira para mostrar que ele tinha sido vítima de uma agressão. Para descrições de crimes de honra e sua localização, ver Almeida (1958). 

9 - A farinha de mandioca, por exemplo, é vendida separadamente; no mesmo ponto de venda, o feijão pode ser eventualmente acompanhado por milho seco em grão, enquanto as espigas de milho frescas são vendidas junto às frutas frescas, e o feijão verde, em outro setor etc. 

10 - A recorrência da posição relativa dos setores nem sempre é evidente; ela depende das mudanças históricas da disposição das ruas ocupadas pela feira. Em Areia, a lógica da disposição dos setores só ficou clara quando soubemos que a feira ocupava antes a praça do centro da cidade. As pequenas lojas que ocupavam outrora a parte de trás da feira, tomando o centro da cidade por referência, encontram-se hoje na entrada. 

11- No dia da feira, jipes e caminhonetes fazem idas e vindas entre as diferentes cidades ou povoados dos arredores para transportar vendedores e compradores. 

12 - A venda em consignação consiste em fornecer produtos a uma pessoa que só pagará após a feira. O vendedor não faz nenhum adiantamento em dinheiro, não corre risco e ganha uma pequena comissão. 

13 - No Brejo da Paraíba, o caso de um meeiro que foi para São Paulo tentar a sorte mostra bem a importância dos laços familiares; quando voltou, pensando em comprar um lote de terra com suas economias, estas lhe foram roubadas. Ficou sem nada para comprar a terra cobiçada ou para fazer face às despesas mais imediatas. Seu irmão, meeiro que dividia o tempo e os recursos entre o cultivo de três hectares de terra e um negócio de produtos artesanais e plantas medicinais, cedeu-lhe uma parte de seus produtos, um espaço para ele se instalar perto do seu banco, e lhe “emprestou” o filho de 13 anos que iria ensiná-lo a vender. Note-se que banco é um termo local para designar o que no Centro-Sul chamamos de barraca. 

14 - As diferenças entre as refeições consumidas por pessoas mais abastadas e pessoas de origem mais popular se expressam menos em função do tipo de produto consumido - mesmo quando é possível estabelecer, por exemplo, uma hierarquia entre a carne de boi, de porco e de bode - do que pelo leque dos produtos que as compõem; assim, por exemplo, na mesa de um grande proprietário, servem-se habitualmente carnes e peixes em uma mesma refeição, enquanto na mesa de uma família camponesa, em um dia de festa, há, além da farinha e do feijão, massas e arroz, mas um único prato de carne. Para um estudo dos hábitos alimentares das populações de baixa renda em Campina Grande, ver Marin (1977). 

15 - Os feirões situam-se nas regiões mais secas, onde a composição social ,dos municípios é mais tipicamente camponesa; as feirinhas localizam-se em municípios em que predomina o cultivo dá cana-de-açúcar, mesmo que haja uma venda importante no varejo. A distinção entre feirinha e feirão corresponde aproximadamente à distinção entre feira de consumo e feira de distribuição, estabelecida por Shepard Forman a respeito das feiras de Alagoas. Para este autor, as feiras de consumo são aquelas em que os pequenos produtores levam sua produção para venda direta, sem que ela seja suficiente para abastecer outros centros de consumo (Forman & Riegelhaupt, 1970). No caso estudado, as feirinhas podem ser quase exclusivamente receptoras de produtos agrícolas, sem que haja necessariamente pequena produção local: por exemplo, na área da cana, onde os trabalhadores não têm mais roçado para plantar. 

16 - O termo mangaio designa as frutas e a verdura, por oposição aos produtos mais nobres, no contexto da feira; não é o valor de uso que está em jogo, mas a junção de produtos de pouco valor e que exigem trabalho penoso ou pouco rentável. Da mesma maneira, chamam-se, por oposição ao comércio estabelecido, mangaieiros aos vendedores por atacado de frutas ou cereais que fazem transações a partir das.feiras. Destarte, mangaio e mangaieiro não apontam para uma categoria específica de produtor ou setor, mas para atividades que têm uma conotação negativa em oposição às demais. 

17 -Este termo é meu; esses agricultores-comerciantes definem-se, antes de tudo, como agricultores. 

18 - Situação na qual empregado e empregador estão ligados por uma relação personalizada que se estende para além das relações de trabalho. Para uma análise das relações de sujeição, ver Palmeira (1976), Sigaud (1980), Leite Lopes (1976), Garcia Jr. (1989: 1N9p) 

19 - Para uma análise da combinação dessas atividades e de seus efeitos sobre as estratégias de luta contra a proletarização e até mesmo para a acumulação, ver Garcia Jr. (1990). 

20 - As mulheres criam porcos, cabras e aves; a renda obtida com a venda desses animais lhes pertence; com o dinheïro, elas compram roupa para o grupo doméstico, utensílios de cozinha, toalhas de mesa, panos e outros objetos pessoais. Quando essas transações são realizadas entre vizinhos, em seus próprios sítios, são as mulheres que as realizam; na feira, são os homens (Garcia, 1984). 

21-Embora tratando-se de uma situação histórica e social diferente, o paralelo com o estudo de Monique de Saint-Martin (1990) sobre a entrada das mulheres no campo literário francês do século XIX pode ser interessante: descritas sobretudo como promotoras de salões, quando elas eram percebidas como escritoras, eram-no no sentido de estarem estritamente aptas a escrever poesias no estilo sentimental; segundo o visconde de Broc, as mulheres não podiam ser bem-sucedidas no gênero lírico, épico, na história ou na ciência. O acesso a novos modos de palavras públicas não liquida com a divisão entre formas em que cabe “à mulher o sentimento, a sensibilidade, a ligeireza, a conversa sem propósito definido, a intuição, a intimidade, o interior, e, aos homens, a razão, a inteligência, a profundidade, a criação, o exterior e o domínio público, a história” (1990, p. 53).

22 - Heredia e Garcia Jr. (1971), a respeito de pequenos produtores de Pernambuco, mostram que a oposição entre tarefas “pesadas” e tarefas “maneiras” não se vincula ao esforço físico, e sim a uma concepção social hierarquizada das esferas de atividades masculinas e femininas. 

23 - Um trabalhador alugado, que tinha conseguido arrendar uma pequena área de terra propícia à plantação de verdura, cultivava-a para aumentar sua renda. Se ele achava possível fazer essa operação no roçado, devido à precariedade da sua situação, para vender na feira era diferente, e ele pedia à mulher que ó fizesse, porque ele ‘tinha vergonha’. O exemplo ilustra a análise feita por Pierre Bourdieu em relação à dominação masculina: “Os homens também são prisioneiros e dissimuladamente vítimas da representação dominante tão favorável a eles/.../ e o privilégio [de ser homem] encontra sua contrapartida na tensão e contenção permanente, às vezes levadas até o absurdo, que impõem a cada homem o dever de afirmar a sua virilidade” (Bourdieu, 1990, p. 21). 

24 - A respeito do secretariado, Josiane Pinto (1990) mostra que o “ofício de secretária dificilmente pode ser definido por critérios formais, estáveis, uniformes.” A competência técnica é somente um aspecto de uma competência social global que utiliza aptidões nunca apresentadas sob formas codificadas. A definição do cargo é integralmente determinada pela sua natureza feminina. São competências femininas (gentileza, charme, discrição etc) que permitem à mulher de origem social média, ou em ruptura de trajetória, pela perda de um pai ou marido, entrar no mercado de trabalho sem decair, tirando o melhor proveito das características dessa trajetória, e, por isso mesmo, que permitem a elas assegurar a reprodução do grupo ao qual estão ligadas. Em relação às operárias de uma indústria de eletrodomésticos em São Paulo, contratadas exatamente pelas competências femininas adquiridas no trabalho doméstico e dentro da família, tais como destreza manual, minúcia, habilidade, paciência, obediência etc., Hirata (1983) mostra que estas qualidades não são reconhecidas pela direção da fábrica. 

25 - O fato de cozinhar parece ser um elemento de forte conotação feminina. E no matadouro, lugar masculino por excelência, são as mulheres que tratam das vísceras do boi. 

26 - Apesar de não dispor de dados a respeito, é lógico pensar que as feiras sempre aceitaram no passado essas posições femininas. 

27 - É interessante notar que, geralmente, a trajetória dos vendedores desse setor registra um deslocamento para o Rio ou São” Paulo, ou seja, uma história de vida que lhes permite fazer melhor a mediação entre mundo urbano e mundo rural.

28 - “O comércio constitui sem dúvida uma das práticas para as quais seu domínio não implica ou exclui o domínio da lógica que nela se exprime” (Bourdieu, 1980, p. 25). 

29 -,As moças chegam, em geral, a ter um nível de escolaridade mais alto do que os rapazes, sem que isso no entanto transforme a natureza de sua dependência com relação ao pai ou marido. Na ausência de uma redefinição da profissão de professora, segundo critérios independentes dos princípios clientelistas que estruturam o espaço social, a freqüência à escola não significa necessariamente um capital suplementar que pode ser valorizado, e não é agora decisivo para a transformação da posição das meninas em relação aos meninos da mesma geração. A atribuição e o controle do posto de professora se fazem no plano municipal e ficam submetidos ao princípio do clientelismo político: a atribuição dos cargos é a contrapartida de uma fidelidade política, e não dos diplomas acumulados. As professoras, mesmo quando recebem uma formação completa da Escola Normal, fazem jus a salários inferiores aos dos trabalhadores alugados, razão pela qual elas permanecem dependentes do chefe da família. A escola é percebida como uma extensão do universo doméstico, e não como uma instituição que contribui para a socialização dos filhos. A não-autonomização do sistema escolar com relação ao poder político parece constituir um dos maiores empecilhos para uma maior autonomia das trajetórias femininas. 

30 - As etapas de ciclo de vida de cada indivíduo são definidas mais social do que biologicamente, e estão diretamente associadas à diferenciação das posições femininas e masculinas. A plena masculinidade ou feminilidade estão associadas ao casamento, e não à idade cronológica, o que se materializa nas expressões “homem” e “mulher”, para indivíduos casados, e “moça velha” ou “rapaz velho”, para solteiros de certa idade. Para a análise do ciclo de vida de grupos domésticos camponeses no Nordeste, ver Heredia e Garcia lr. (1971). 

31 - É assim que um grande número de meninos adquire, no “Sul”, carteiras de motorista e compram carros usados espaçosos para transportar as pessoas nos dias de feira. 

32 - A tabela 2 não evidencia as diferenças de freqüência na faixa de idade entre dez e 17 anos; fizemos apelo, portanto, à observação direta. 

33 - Lena Lavinas observa a mesma atribuição das compras semanais e o controle da subsistência familiar entre os pequenos produtores de Juazeiro, na Bahia (Lavinas, I 991). 

34 - A freqüência maior das mulheres em posições subordinadas e menor nas posições de gestão tende a ocorrer também em empresas capitalistas, tal como assinalam M. C. Bruschini e F. Rosemberg (1982, p. 15). 

35 - Verena Stolcke (1986) mostra, a respeito dos trabalhadores das grandes fazendas de café no estado de São Paulo, que “o trabalho assalariado individual, que veio substituir o trabalho familiar do colonato, despojou os maridos/pais de alguns dos mais importantes atributos que legitimavam sua autoridade dentro da família, corroendo assim. ainda mais a organização familiar tradicional” (p. 372). 

36 - O único homem que declarava acompanhar sua mulher e que se sentava ostensivamente em um murete, junto ao banco de tecidos dela, era um pequeno proprietário bem-sucedido. irmã desta mulher, viúva, vivia da venda de tecidos em outras feiras. A situação da irmã despertou a atenção da informante sobre a fragilidade de sua situação de bem-estar associado ao fato de ter um marido para sustentá-la). 

37 - Nesse sentido, ainda que não se trate do mesmo estado, é interessante notar que Lygia de Albuquerque e Isaura Rufino (1987) apontam também para a discriminação exercida pelo Incra, no caso do projeto Caxangá, em que uma mulher sem dependentes não podia conseguir o lote rural quando o marido já tivesse ultrapassado a idade limite, fixada em 60 anos. 

38 - Neste sentido, a remuneração do trabalho na área acompanha a tendência mais geral: Helieth Saffioti (1982) menciona que, embora a legislação brasileira proíba a discriminação de base sexual, geralmente as mulheres, em qualquer ramo da atividade, ganham menos do que os homens. Mais especificamente no estado de São Paulo, as trabalhadoras rurais recebiam em média entre 76,6% e 85,7% dos salários masculinos, em 1979-80 (Saffioti e Ferramte, 1982, p. 124). No Brejo, durante a pesquisa de campo, a diária das mulheres era 75% da diária paga aos homens. 

39 - Uma comparação sistemática com os trabalhos de S. Mintz (1967, 1971 e 1980) sobre a importância das mulheres nas feiras do Haiti seria altamente interessante, pois, neste caso, elas são amplamente majoritárias nas praças de mercado em que se comercializam produtos de abastecimento do “mercado interno”. O simples confronto revela que nada há de “natural” ou “universal” na relação entre mulheres e feiras camponesas. Contudo, quando o autor tenta ir além e busca dar conta da lógica das variações para captar os invariantes, percebemos que vários elementos - como a descrição da estrutura familiar, os modelos de autoridade doméstica, as formas de gestão do orçamento doméstico associadas às atividades agrícolas e ao comércio, lugar que ocupam as feiras freqüentadas por mulheres dentro das redes de comercialização e da estrutura social - não ultrapassam as meras hipóteses. Mintz menciona em vários momentos, por exemplo, que os produtos de exportação, que supomos serem mais valorizados e “nobres”, são comercializados exclusivamente por homens; enquanto isso, o abastecimento doméstico é feito, pelas mulheres diariamente nas feiras. Haveria uma hierarquia das atividades comerciais? Por hora, os resultados da comparação seriam mais sugestivos do que demonstrativos; explicitar tais dificuldades é ser fiel ao método relacional, pois toda oposição sobre a tão naturalizada diferença entre “masculino/feminino” só adquire cabimento com relação à teia dos elementos significativos em que está inserida. 

40 - A análise de Rose-Marie Lagrave (1987) sobre a participação política das dirigentes rurais na França revela a mesma relação homotética: produziu-se a abertura do campo político de atividades sindicais às agricultoras, mas “a decalagem entre os homens e as mulheres se mantém, mas deslocada, transposta para a decalagem das competências atribuídas, na distinção dos títulos”, ou seja, na hierarquia dos postos ocupados por dirigentes sindicais homens (mais altos) e por mulheres (mais baixos). O uso da noção de translação da estrutura não é uma mera variação de vocabulário: o que persiste na mudança são diferenças significativas e a ordenação hierárquica dessas diferenças. Longe estamos da concepção de “reprodução de estrutura” por simples atualização de regras invariantes contidas numa mesma matriz cultural. Joan Scott (1988) sublinha a necessidade de uma nova perpectiva para o estudo histórico das relações de gênero: “Também insiste na necessidade de examinar o gênero concretamente e dentro de um contexto e considerá-lo como um fenômeno histórico, produzido, reproduzido e transformado em diferentes situações ao longo do tempo (...) A história não é mais sobre coisas que aconteceram para as mulheres e homens e como eles reagiram a elas; ao contrário, é sobre como os significados subjetivos -e coletivos de mulheres e homens como categorias de identidade foram sendo construídos” (Scott, 1988, p. 6).

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