Há um reconhecimento
generalizado da influência que as idéias cientificistas exerceram sobre o
pensamento latino-americano, sobretudo nos cinqüenta anos compreendidos,
aproximadamente, entre 1870 e 1920. Esse reconhecimento, no entanto, é bastante
disperso, pois existem diferenças profundas na caracterização do tipo de
cientificismo ou positivismo influente, na avaliação de sua participação na
configuração dos novos Estados nacionais e das incidências positivistas sobre
as mentalidades e, em especial, sobre a cultura política. No fundo discutem-se,
de modo geral e com ênfase particular no caso brasileiro, os benefícios ou
custos do positivismo na formação dos Estados nacionais e sua vinculação com os
autoritarismos. O leque de questões envolvidas é significativo e variado.
Os
analistas do positivismo latino-americano encaminham geralmente suas reflexões
a partir da definição registrada por Lalande. Segundo este, o positivismo se
caracterizaria pela crença de que: a) somente ë fecundo o conhecimento dos
fatos; b) a certeza é dada pelas ciências experimentais; e c) o contato com a
experiência e a renúncia a todo tipo de a priori é a forma de se evitar o erro
e o verbalismo. O positivismo pressupõe o cientificismo, isto é, a idéia de que
o espírito e os métodos científicos devem estender-se a todos os domínios da
vida intelectual, política e moral sem exceção (1).
Há,
entretanto, um outro sentido em que podemos entender o positivismo: como crença
na capacidade da ciência de “fechar” o campo do conhecimento, quer esse
fechamento já tenha ocorrido, quer venha a se realizar no futuro. Nessa
dimensão, o positivismo se contraporia a uma visão “aberta” ou “inesgotável” do
conhecimento e da atividade científica. Devemos esclarecer que, nas últimas
décadas, passou-se a denominar “cientificista” o pesquisador preocupado apenas
com a produção de conhecimento e seguidor dos valores e das regras da vida
científica ou acadêmica. Tal deslocamento de sentido parece ocultar a atitude
cientificista da intelectualidade latino-americana que, a partir da
autovalorização do conhecimento cientifico da realidade, legitima sua vontade
de interferir, ou intervir, de forma privilegiada na sociedade (2). Utilizarei
neste texto o termo positivismo no seu sentido clássico, reservando “academicismo”
para designar a posição do pesquisador apenas comprometido com o conhecimento,
os valores e as regras de jogo da comunidade científica. Assim, academicista
será quem separa política de ciência, embora essa separação possa ser
considerada, pelo avesso, como uma estratégia política (3).
Observemos;
para exemplificar a distância ainda existente entre as avaliações sobre os
positivismos, que, no caso da Argentina, os positivistas são dominantemente
situados por analistas e críticos na onda emancipatória do esclarecimento,
vinculados à defesa do liberalismo e à implementação de uma convincente
política educacional, sob o ponto de vista ideológico. Em contrapartida, no
Brasil, domina a percepção de que o positivismo tem vinculação com o
organicismo, com o autoritarismo, tendo pouca ou nenhuma influência “positiva”
sobre a educação, embora os objetivos de povoar e educar fossem partilhados por
positivistas de ambos os países (4). No Brasil, a dominância do comtismo foi
vinculada ao reconhecimento de uma cultura ibérica - anti-individualista,
coletivista e integrativa - que melhor corresponderia à direção em que evoluía
a humanidade, de acordo com essa corrente (5).
Quando
nos situamos na perspectiva política comparativa entre países da América
Latina, como no presente ensaio, os cientificismos ou positivismos aparecem
caracterizados por uma dupla variabilidade: de um lado, as diferenças nacionais
na apropriação e recriação das idéias sociais e das orientações políticas de
cunho positivista; de outro, a variedade das interpretações e avaliações, por
vezes francamente divergentes, de suas realizações em cada país. Poderíamos
designar as primeiras diferenças como variabilidade do “objeto”, e as segundas,
do “intérprete”. Conseqüentemente, a variabilidade, em ambos os níveis,
torna-se objeto espontâneo de reflexão. A variabilidade dos positivismos
argentinos e brasileiros será o objeto destas notas, que, destacamos, apenas
pretendem enunciar linhas possíveis de abordagem.
O objeto
variabilidade é, no entanto, confuso e mesmo ardiloso. A análise de sua
enunciação leva a supor a presença natural de séries de diferenças: a dos modos
de existência dos positivismos e a dos modos de sua interpretação. Supõe-se,
por conseguinte, a independência entre os positivismos existentes (o plano do,
objeto) ‘e suas interpretações (o plano da atividade do sujeito). Sabemos que
essa independência é falsa em dois sentidos. Em primeiro lugar, porque cada
geração, como é amplamente reconhecido, afirma-se reinterpretando o passado, a
história; em segundo lugar, porque essa reinterpretação pode também estar presa
à história, isto é, às próprias tradições nacionais. Digamos, portanto, que a
interpretação dos positivismos não pode ficar alheia aos efeitos dos
positivismos no campo do pensamento que os toma por objetos.
Esta é
uma hipótese de leitura: a variabilidade da interpretação dos positivismos é
devedora e está marcada pela própria interpretação que os positivismos fizeram
das realidades nacionais e, especialmente, pelas suas reconstruções históricas.
Assim, levando-se em conta a forma pela qual os positivistas diagnosticaram o
presente e apresentaram suas propostas de futuro, é estratégico o modo como se
situaram em relação a cada história nacional e, em especial, em relação aos
confrontos em torno de sua construção.
No
desenvolvimento de nosso marco de leitura, daremos importância à descrição das
variabilidades filosóficas e políticas dos positivismos argentinos e
brasileiros. No plano interpretativo, nos apoiaremos, de um lado, nas versões
positivistas das histórias nacionais; e, de outro, nas oposições - autonomia,
ou autoctonia, versus heteronomia, temporalidade versus espacialidade e continuidade versus ruptura - que permeiam os discursos
dos analistas e historiadores dos positivismos. O significado dessas oposições
e seu papel estratégico se esclarecerá ao longo do texto.
A
definição clássica do positivismo inclui escolas de pensamento diferenciadas
como o comtismo, o agnosticismo spenceriano, o darwinismo, o materialismo e o
cientificismo, entre outras. Sob o ponto de vista dessa classificação, nos
deparamos com diferenças significativas no desenvolvimento dos positivismos na
Argentina e no Brasil. E largamente apontado o fato de que o positivismo
comtiano e a corrente do Catecismo da Humanidade, exerceram reduzida, ou quase
nula; influência filosófica na Argentina, desconhecendo-se ali tentativas
significativas de se fundar uma Igreja Positivista. No início do século, o positivista
comtiano Pedro Scalabrini, fundador da Escuela Normal de Paraná, perguntava-se
quais as razões da baixa penetração da doutrina no país. Alfredo Ferreira,
discípulo e continuador de seu trabalho educacional, atribuía tal fenômeno à
própria ortodoxia comtista internacional. O próprio Leopoldo Zea (1963), quando
toma Ferreira como exemplo do comtismo na Argentina, apresenta uma imagem tão
distante do comtismo ortodoxo que quase impossibilita seu reconhecimento
enquanto tal (6).
Os
historiadores das idéias e da cultura argentina repetidas vezes enfatizam a
presença do darwinismo, do monismo evolucionista fundamentado nas concepções de
Darwin, Lamarck, Spencer, Sergi e Ardigo (7). Mais ainda, questionam que uma
mentalidade positivista no tratamento da realidade social tenha emergido como
resultado da influência comtiana. Como veremos adiante, os intérpretes atribuem
aos positivismos nacionais um caráter autóctone e endógeno, desde as análises
pioneiras de Alejandro Korn (8).
Diferente,
quase oposto, é o caso do Brasil. Destaca-se geralmente a influência marcante
do positivismo comtiano, que se iniciaria com a penetração das obras
científicas de Comte nas escolas politécnicas e militares. Essa influência
teria sido ampliada pela presença de Benjamin Constant, que, se não chegou a
figurar na história da ciência no Brasil, assegurou seu lugar na política, por
sua participação na instauração da República. Salienta-se o trabalho de difusão
da doutrina positivista, realizado principalmente por Miguel Lemos e Teixeira
Mendes, a partir de suas conversões ao comtismo sob a condução de Lafitte, após
rejeitarem o seco eruditismo de Littré (9). Embora o Apostolado Positivista
tenha contado com poucos adeptos, considera-se significativa sua influência
durante os anos iniciais da Primeira República. Benjamin Constant pertenceu às
suas fileiras até ser expulso por suas diferenças com Teixeira Mendes, um
caráter rigoroso, ou fanático, que, conta-se, mandou queimar os livros de
Lafitte depois que este aceitou cargos no Estado francês.
A
dominância do comtismo parece haver sido profunda. Um testemunho indireto é
proporcionado por Anatole France. Em 1908, em conferência pronunciada na
Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, Anatole constrói seu discurso
para um público definido como positivista comtiano. Por isso, ataca as
contradições e as práticas de Lafitte, mostrando seu oportunismo político e
suas vinculações com a reação conservadora, autoritária e católica na França
(10). Anatole France não tem dúvidas de que no Brasil, ou pelo menos na sua
capital política, domina o positivismo
comtiano. Testemunhos da época e revisões históricas posteriores batem na mesma
tecla.
Na
própria história da ciência no Brasil pode ser vista a incidência do
positivismo comtiano. Afirma-se que, no plano da orientação da produção
científica, sua força teria sido um empecilho ao desenvolvimento da ciência por
sua pretensão de havê-la concluído. Os historiadores salientam o papel de
abertura realizado pelas críticas de Otto de Alencar e Amoroso Costa no seio da
Academia de Ciências e, ainda em 1925, a importância da visita de Albert
Einstein ao Brasil, para remover os obstáculos do comtismo, embora as reações a
suas teorias continuassem sendo fortes entre os comtianos (11). De modo geral,
a remoção de sua influência se apresenta como condição ao desenvolvimento da
idéia de ciência aberta, nunca concluída no Brasil.
A
abundância de indicadores do peso da filosofia e doutrina comtiana no Brasil
não implica a ausência de outras correntes positivistas nem o confronto com
seus críticos: A Escola de Recife, em oposição ao Rio de Janeiro, será
destacada pela sua difusão das idéias spencerianas, sobretudo no vigoroso
trabalho de Silvio Romero, que atacará duramente os comtistas (12). São Paulo,
outro centro regional importante, será considerado um campo no qual domina um
positivismo comtiano “não-ortodoxo”. Tal definição foi produzida sobretudo por
assumidos comtistas que, no plano político, defendiam valores e instituições
não-autoritárias. Figuras como as de Pereira Barreto e Alberto Sales seriam
expoentes de um comtismo politicamente democrático ou liberal (13). Contudo,
segundo depoimentos da época e interpretações posteriores, como veremos
adiante, o evolucionismo darwiniano e haeckeliano não prosperariam
suficientemente, mantendo-se a importância do comtismo, quer democrático, quer
autoritário, por estar mais adequado às condições intelectuais e organizacionais
da sociedade brasileira (14). Essa linha interpretativa foi retomada, entre
outros, por Sérgio Buarque de Holanda.
Essa
proeminência filosófica do comtismo somente pareceria fazer sentido quando
correlacionada com sua presença política. Segundo Paim, sob o ponto de vista
filosófico, o comtismo estaria em decadência em meados da década de 1880, e sua
ascensão deverse-ia, sobretudo, à ação política e atuação no campo da prédica
moral, realizada nos jornais e na publicação dos opúsculos do Apostolado Positivista.
Isso, conseqüentemente, nos leva em direção à variabilidade política.
Escolheremos
dois conjuntos de questões na apresentação das diferenças políticas dos
positivismos argentino e brasileiro. Correspondem ao primeiro conjunto as
avaliações sintéticas do papel dos positivismos: teriam agido em favor da
emancipação e da modernidade ou teriam feito parte da reação a elas? Situam-se
como continuidade da tradição do esclarecimento ou, pelo contrário, aliam-se à
reação? Embora qualquer questão dessa natureza seja simplificadora, parece-nos
que essa abordagem pode ser usada de forma heurística enquanto estivermos
cientes de seus limites e se levarmos em consideração que essas são questões
colocadas pelos próprios atores políticos.
O
segundo conjunto de questões situa-se no campo dos recorrentes dilemas
políticos latino-americanos: autoritarismo versos democracia, direitos
econômicos versos políticos, eficiência e saber versos participação e
representação. São dilemas que conformam eixos recorrentes da discussão
ideológica na América Latina. Como importante pano de fundo, coloca-se a
atuação dos positivistas na orientação e realização das políticas públicas.
O leque
de questões envolvidas nos impõe a obrigação de sermos sintéticos e, o que é
mais grave, por vezes inconclusivos, dado o caráter das próprias questões e as
limitações da pesquisa. Contudo, nos parece que a aproximação de algumas
indicações será suficiente para mapear as principais diferenças.
Os
positivistas argentinos se identificam e são identificados com a emancipação e
com os valores do iluminismo. Situam-se como seguidores dos fundadores da
emancipação argentina, da Revolución de Mayo de 1810, entendida, num
mesmo movimento, como independência da Espanha e ruptura com suas tradições
políticas. Mayo significará, ao mesmo tempo, separação política,
aspiração democrática de igualdade e liberdade e recusa dos valores da
contra-reforma ibérica. De modo geral, os positivistas assumem-se como herdeiros
da tradição de Mayo, que interpretam ser devedora das revoluções
Francesa e Americana. A guerra civil posterior a Mayo, o despotismo e a
anarquia, são interpretados como produto da reação à emancipação e como
continuidade da contra-reforma espanhola. O próprio José Ingenieros levará essa
interpretação da luta entre o bem - a emancipação e a razão - e o mal - os
valores da contra-reforma - a uma exposição maniqueísta e quase caricata (15).
Os valores de liberdade e igualdade, a defesa do direito de pensar por si mesmo
em oposição ao preconceito, à autoridade e à tradição, são assim constitutivos
da tradição positivista argentina, para os próprios positivistas, seus
intérpretes e críticos posteriores.
Os
críticos argentinos do cientificismo, do materialismo e do positivismo - isto
é, os que podem ser incluídos na reação espiritualista, como Korn - não negam
que os valores da emancipação orientem os positivistas argentinos. Suas
críticas caminham sobretudo no sentido de apontar a “irrealidade” das posições
que estes assumem - o conhecido tema, tanto no Brasil quanto na Argentina, da
democracia ideal ou formal, sempre importada ou inautêntica, em confronto com
sua inexistência real - e de questionar o apagamento dirigido dos
pertencimentos - pela imposição de códigos culturais transplantados (16). Em
verdade, a crítica de Korn pode ser lida como reconhecimento da eficácia dos
positivistas argentinos na construção do Estado e no campo de suas políticas
públicas, em especial da educacional, que teve como uma de suas orientações
dominantes a de formar a nacionalidade argentina. Ortega y Gasset, em suas
primeiras visitas à Argentina, em 1916, observou argutamente que o Estado
argentino era desproporcional em relação à sociedade. Tratava-se, para ele, de
um “artifício”, legítimo e poderoso, que não correspondia à organização da
sociedade.
Análises
posteriores, como as de Ricaurte Soller, reafirmam o caráter emancipatório do
positivismo argentino, embora este também seja qualificado por alguns autores
como “burguês” ou “a serviço das classes dominantes” (17). Há, portanto, uma
grande confluência - na vinculação do positivismo argentino ao movimento de
emancipação - que abrange positivistas, críticos e analistas posteriores. E
como se uma das tradições de interpretação da história nacional - na qual os
positivistas se reconhecem e para a qual colaboram - mantivesse sua força ainda
nas análises mais próximas de nós (18).
Em avaliação recente, Schuster faz o seguinte
comentário: “El cientificismo se presentará como una arma poderosa
para enfrentar a las fuerzas sociales enemigas del laicismo, del liberalismo y
de la descolonización de la nación argentina. Y es en este sentido que el
positivismo argentino posee una significación sociopolítica ligada al
pensamiento que sirvió de base al liberalismo democrático en vias de
institucionalizarse” (1985:326).
Diferente
é o caso no Brasil. Os desenvolvimentos do positivismo comtiano, na política e
na religião, podem ser entendidos como recusa dos valores individualistas e
mesmo do progresso material e temporal, sem as necessárias limitações
espirituais. Contudo, essa recusa não é radical; significa antes uma transação
ou conciliação entre “razão” e “fé” ou “sentimento” (amor, piedade etc.). O
entendimento realizado pelos positivistas brasileiros enfatiza a conciliação,
noção que se tornou um potente operador na interpretação da história
brasileira. Esse entendimento será reafirmado por Jackson de Figueiredo, que
salienta a manutenção da espiritualidade e do amor em Comte, apesar ou acima de
seu cientificismo (19).
Está
ausente de nosso trabalho a preocupação com a fidelidade interpretativa dos positivistas
do Apostolado em relação ao mestre Comte. Assim, entende-se aqui por comtismo a
apropriação da doutrina pelos positivistas brasileiros e, especialmente, por
duas grandes figuras do Apostolado: Miguel Lemos e Teixeira Mendes. Suas
posições filosóficas e políticas gerais, tanto quanto as particulares, foram
difundidas pelos jornais da época e pelas edições de opúsculos e outros textos
da Igreja e Apostolado Pozitivista do Brazil (20).
E
conhecida a história da conversão de Miguel Lemos e Teixeira Mendes à prédica
do “segundo Comte”, o da Religião da Humanidade, a partir da influência de Lafitte
(21). Para os nossos positivistas, a elaboração da Religião da Humanidade teria
sido possível pela junção do pensamento científico de Comte com a espiritualidade
de Clotilde de Vaux. Comte teria tornado científico o estudo dos fenômenos
sociais ou políticos pela introdução do método. Entretanto, o “problema da
regeneração humana exigiu ainda que a elaboração filosófica de Augusto Comte se
combinasse com a evolução moral de Clotilde de Vaux. Dessa colaboração resultou
enfim a Religião Universal, em virtude do predomínio da humanidade sobre as
Pátrias e as Famílias, mas também sobre os Deuses que a mesma Humanidade
espontaneamente inventou...” (22).
Essa afirmação
da participação da mulher na formulação da Religião da Humanidade não possui um
sentido igualitário construído de forma individualista. O contrário aproxima-se
mais da intenção original. Trata-se da construção do todo, da unidade, a partir
das diferenças. O homem, Comte, manifesta sua superioridade científica ou
intelectual; a mulher, Clotilde, entra com sua força moral e afetiva. A ordem é
a contribuição das diferenças. Essa construção orgânica e seu valor já tinham
sido reconhecidos na crítica ao cientificismo e ao materialismo, realizada pelo
escritor uruguaio J. E. Rod6, no livro Ariel, de 1900. Diríamos, copiando
Octavio Paz, que o casal formado por Augusto Comte e Clotilde de Vaux é, para
os positivistas, “la metáfora del universo”. Tal metáfora se constrói com os
contrários, ao invés de se apoiar na semelhança ou igualdade, na “atomística”
dos contratualistas.
Na
percepção da ordem como contribuição das diferenças, há lugar também para a
desigualdade entre as raças. Torna-se possível atribuir a cada raça
propriedades especiais, que podem e devem ser organizadas num todo orgânico, a
partir do conhecimento e da intervenção científica positivista. E nessa
cirurgia cientificamente realizada que as propriedades consideradas valiosas
devem ser separadas para sua reintegração no todo orgânico. Há uma espécie de
teoria compensatória, pois cada raça contribui para o equilíbrio do todo,
minimizando as propriedades negativas das outras. Passamos assim de uma
contraposição ou contrapeso das paixões, no sentido elaborado por Hirschmam
(1978), para a contraposição das propriedades das raças ou de homens e
mulheres.
A
distância em relação aos valores individualistas do iluminismo e dos
positivismos evolucionistas é notória.
Embora a emancipação por vezes não desapareça, quando presente, é situada no
contexto de uma integração entre razão e sentimento, entre indivíduo e grupo,
que difere do caminho individualista e da seleção natural que teriam dominado
na Argentina. Nesta, a esperança passa pela sobrevivência triunfante dos traços
considerados positivos das melhores raças que, como é sabido, residem nos
brancos e, sobretudo, entre os não-mediterrâneos. O darwinismo ou evolucionismo
social argentino não pretende conciliar ou contrabalançar. Trata-se de apostar
nas melhores características da raça branca, aumentando sua participação por
meio da imigração e melhorando o estoque de traços existentes com uma enérgica
ação educacional.
As
diferenças no plano da emancipação incidem sobre nosso segundo conjunto de questões:
a política e seus dilemas. No caso dos positivistas argentinos, é amplamente
salientado que eles foram liberais no plano político e que muitos se inclinaram
pelo socialismo, como o próprio José Ingenieros e Juan B. Justo, o fundador do
Partido Socialista Argentino, que teria procurado integrar evolucionismo e
marxismo (23). Situando-se na tradição de Mayo, os positivistas argentinos
aceitaram a democracia; a separação dos poderes executivo, legislativo e
judiciário e o sufrágio universal, baseado no axioma “a cada cabeça um voto”,
embora a ordem constitucional elaborada por Alberdi mantivesse a vigência de um
colégio eleitoral, um contrapeso à democratização (24). Durante longo tempo
esses intelectuais perceberam democracia como um sistema competitivo eficiente
no aperfeiçoamento das instituições e dos homens. O antiliberalismo não foi
marca dominante dos positivistas argentinos, ainda que alguns mostrassem
simpatias pelo socialismo, como Ingenieros, que saúda em discurso memorável a
Revolução Soviética é destaca o valor de sua elite na condução do povo (25).
Sem
dúvida, liberais positivistas e socialistas compartilhavam, na virada do século
na Argentina, valores e ideais semelhantes aos descritos por Isaias Berlin
(1981) para o panorama europeu daquele momento. Destacava-se, entre eles, a
confiança na persuasão, fundada na crença na razoabilidade dos homens, cujas
vias fundamentais de exercício seriam o espaço público e a educação.
Entendia-se por educação não somente a educação básica, - defendida igualmente
pelos positivistas brasileiros - mas também a universitária, a favor da qual
trabalharam os argentinos, em oposição aos comtianos brasileiros,
“democráticos” ou “autoritários”, que lutaram contra sua constituição. A
posição anti-universidade, no Brasil, foi defendida pelo comtiano Pereira
Barreto, considerado democrático ou não-ortodoxo. Segundo Barreto, a anarquia
das idéias vigentes no país (isto é; a confusão dos estágios) impediria uma
ação universitária coerente e homogênea. No fundo, foi a idéia liberal de
universidade, enquanto campo de diálogo, crítica e confronto, a que foi
rejeitada, tanto pelos positivistas democráticos quanto pelos autoritários no
Brasil.
Na
Argentina, o movimento da Reforma Universitária, iniciado em Córdoba em 1918,
que pretendia reformar uma universidade vivida como escolástica e distante das
necessidades da nação e do povo, foi apoiado pelos positivistas, que também
contribuíram para a constituição de novas universidades, sendo o caso mais
notório o da universidade de La Plata, na qual se destacou Joáquin V. González
(26).
E
amplamente reconhecido pelos positivistas argentinos o axioma de que o piano
das idéias não pode nem deve ser assimilado ao das práticas. De fato, até a
ampliação do sufrágio em 1912, pela chamada Lei Saenz Pena, vigora na Argentina
um sistema político amplamente excludente (27). Os direitos econômicos são mais
reais do que os políticos, num país cuja proporção de imigrantes estrangeiros é
desmesurada. Os positivistas se encarregariam de nacionalizá-los por meio da
reforma do sistema escolar, destacando-se aí Ramos Mejía. Os conteúdos e
rituais criados naquele tempo ainda marcam a escola argentina. Alguém observou
que se é francês por se escrever corretamente nessa língua. Diríamos, parafraseando,
que se é argentino por haver passado pela escola argentina. Estamos diante da
nacionalidade escolar que, no caso, é significativamente mais importante que o
sangue ou a terra (28).
Entretanto,
na historiografia argentina, não há uma tendência que procure, nas formulações
e ações dos positivistas, as bases conceituais da ideologia autoritária nem os
instrumentos dos autoritarismos posteriores. Em verdade, os sinais de evolução
do autoritarismo argentino são rastreados, preferencialmente, na “tirania” rosista
e na posterior restauração nacionalista, que se inspiraria em idéias e
mentalidades espiritualistas, num movimento para retomar o que fora rejeitado
em Mayo, especialmente a herança hispânica. Em contrapartida, no Brasil,
analistas importantes rastreiam ambas as dimensões nas influências ideológicas
e político-institucionais do positivismo comtiano (29).
A
elaboração ideológica do autoritarismo nas obras de Torres, Viana e Amaral,
produzidas no essencial entre 1914 e 1940, para citar apenas alguns dos nomes
mais significativos, pode ser entendida como descendência da linhagem
cientificista comtiana e denominada de “autoritarismo instrumental”, como
sugere Wanderley Guilherme dos Santos (30). Os eixos dessa elaboração, que
estariam já presentes nas críticas de Torres e Viana ao funcionamento e à
ideologia da Primeira República, baseiam-se na pretensão de realizarem uma
análise científica, que permitisse a crítica das propostas “liberais” como
ilusórias (31).
Assim,
haveria um país real, que os construtores do autoritarismo declaram conhecer
cientificamente, contraposto a um país ideal, inventado ou copiado pelos
ideólogos “liberais”. O problema, então, é o da inexistência de adequação entre
o país real e o “idealismo na constituição”. A sociografia científica do país
real indicaria que as instituições liberais não lhe são adequadas. Essa falta
de adequação ou correspondência apenas poderá ser superada pela ação de um
Estado autoritário, que pode ser um “instrumento” de mediação e construção das
condições sociais, econômicas e culturais adequadas às instituições políticas
liberais (32).
De acordo com essa
linha de argumentação, os “intelectuais” são os que podem entender
cientificamente a “realidade”. Desse entendimento deriva a legitimidade de suas
intervenções e a própria validade das novas ordens político-institucionais, que
postulam como necessárias ou adequadas. A presença reiterada da matriz
cientificista é evidente. A contigüidade entre Comte e os autoritaristas
brasileiros poderia, por hipótese, haver sido favorecida pela matriz ibérica,
que teria incidido na aceitação e divulgação do comtismo. Nesse caso,
existiriam condições culturais favoráveis para a recepção da doutrina
positivista no Brasil. Argumentação e conteúdos semelhantes haviam sido
desenvolvidos por Comte na fundamentação da conveniência ou adequação da
Ditadura Republicana aos franceses e na rejeição das instituições políticas
inglesas: boas para a Inglaterra, não o seriam, porém, para a França (33).
Os autoritários
brasileiros repisam os mesmos argumentos. Não se trata de discutir abstrata ou
idealmente (no fundo eticamente) se a democracia é melhor ou pior que a
Ditadura Republicana. Trata-se de adequar as instituições políticas às
condições de cada país. Assim, o critério é de adequação ou correspondência e
são os analistas científicos que podem determiná-la. A razão instrumental -
adequação ou correspondência - ocupa o lugar dos ideais valorativos ou éticos.
O Estado deve ser elaborado cientificamente e deixar de lado as nebulosas
“teológicas” ou “metafísicas” que, por falta de adequação, geram crises
permanentes e são anárquicas. Desse marco geral deriva, entre outras
afirmações, o privilégio da competência sobre a participação e o papel
intervencionista e regulador do Estado (34).
Encontramos
então no Brasil uma elaboração bastante sólida da doutrina autoritária, de
linhagem comtiana, realizada em nome da ciência por intelectuais de prestígio
nacional e por vezes internacional. São intelectuais que atuam com destaque
durante os governos autoritários de Getúlio Vargas. Este, por sua vez, viria
formado pela experiência castilhista do Rio Grande do Sul, onde devem ser
procuradas as realizações positivistas no campo das políticas públicas (35).
O movimento
comandado por Júlio de Castilhos instaurou um regime político-institucional
explicitamente inspirado na doutrina de Augusto Comte sobre a Ditadura
Republicana, forma de governo e constituição cuja defesa foi realizada em
importantes trabalhos por Joaquim Osório e Monte Arraez (36). Moralidade e competência seriam os valores
orientadores e legitimadores da Ditadura Republicana no Rio Grande do Sul.
Rejeição à vida parlamentar, limitada à aprovação do orçamento, e reeleição do
governante são algumas das características institucionais marcantes desse
regime, vinculadas à valorização da organização e da ordem sobre a
participação. No autoritarismo instrumental, a categoria de organização do
Estado, da Nação ou do povo é uma categoria central. Segundo analistas de peso,
Vargas retomaria nas suas gestões presidenciais fórmulas e intenções de sua
ativa e juvenil experiência castilhista (37). Haveria assim uma continuidade da
doutrina e da prática do autoritarismo, reforçada por novas elaborações
intelectuais que, ainda cientificistas, abandonam as particularidades do
pensamento de Comte, embora conservem como referência significativa uma cultura
do autoritarismo baseada numa visão cientificista, fundamento também de
legitimação da intervenção ou interferência dos intelectuais (38). Sugerimos a
hipótese de que o espírito, mentalidade ou cultura, da doutrina comtiana começa
a realizar-se quando seus agentes abandonam o hábito de nele se fundamentar de
forma explícita. A citação cede seu lugar ao hábito do pensamento.
Durante a Primeira
República, o positivismo, sob ponto de vista liberal, teria constituído um
freio ao desenvolvimento de idéias, práticas e instituições liberais em nível
nacional. Carregaria, então, um sentido negativo. Suas realizações positivas,
no campo da organização institucional e das políticas públicas, apenas
começariam a acontecer a partir de 1930. Antes desse período apenas no Rio
Grande do Sul teríamos a vigência de políticas diretamente inspiradas na letra
comtiana.
Os
positivistas ortodoxos, especialmente os do Apostolado Positivista, apresentam
como principal realização política da Primeira República o Serviço de Proteção
ao Índio, em cuja fundação e orientação se destaca o marechal Cândido Rondon (39).
Apesar de. suas prédicas e polêmicas no campo do direito, da saúde e da
educação, avalia-se que os positivistas não teriam conseguido uma implementação
significativa de suas idéias. No plano da política educativa, o positivismo
teria conseguido orientar o Estado para assumir responsabilidades na educação
básica. Mas sua influência não teria ido além da formulação de alguns programas
educativos e obras que não modificaram a falência da política social no Brasil.
Digamos que os positivistas não influíram ativamente em políticas que
permitiriam mudar os indicadores sociais do Brasil.
Entretanto,
a prédica positivista teria efetivamente contribuído para retardar a emergência
da universidade brasileira. Acompanhando Comte, tanto ortodoxos (ou
autoritários) quanto heterodoxos (ou democráticos) insistiram sobre a
não-competência do Estado no campo universitário, especialmente por causa da
anarquia na arena das idéias que impediriam um espírito e uma ação
universitária coerentes e homogêneas. Os positivistas assim teriam contribuído
para o atraso na criação de universidades no Brasil, cuja implementação apenas
passaria a ser cogitada de modo “positivo” nos anos 20, após a reação contra a
concepção de ciência comtiana e a formação do movimento educacional liderado
pela Associação Brasileira de Educação (ABE). No caso argentino, aceita-se com
consenso significativo a influência dos positivistas no campo educacional, da
saúde e do direito (40). Os positivistas argentinos, ao contrário dos
brasileiros, teriam contribuído para modificar os indicadores sociais. Os
críticos do positivismo argentino reconhecem, na própria crítica dos valores e
procedimentos, o poder de mudança de suas políticas.
O
positivista ilustrado Pereira Barreto coincide, em termos das grandes orientações
políticas, com o pensamento dos fundadores da organização social e da nação
argentina: Alberdi e Sarmiento. Os grandes objetivos do Estado eram a educação
e o povoamento efetivado preferencialmente pela imigração européia e/ ou
branca. Embora o positivismo argentino estivesse dominantemente imbuído do
racismo biológico e da crença na superioridade da raça branca - e admitisse ser
a população nacional a mais européia da América Latina, o que, vinculado ao
momento de violentíssimo progresso econômico, conduziu a um
“argentinocentrismo” e mesmo a propostas de imperialismo argentino (41) -, essa
corrente de pensamento não subestimou a educação como intervenção capaz de
melhorar os indivíduos e formar uma classe produtora, colaborar para o
progresso, criar a nacionalidade e integrar a ela as sucessivas levas de
imigrantes estrangeiros. Num contexto de relativa homogeneidade racial,
decorrente da violenta destruição da população indígena e do pouco peso da
negra, as diferenças porventura existentes poderiam ser compensadas pela
educação, sem se ignorar os efeitos dos cruzamentos. Foi na educação que os
positivistas argentinos tiveram seu êxito maior. De modo geral, poder-se-ia
afirmar que enfrentaram com bastante competência a produção de indicadores sociais
modernos.
Não
sendo o positivismo comtiano dominante, os positivistas argentinos ignoraram
sua oposição à intervenção do Estado no campo universitário. Ao contrário,
estimularam a criação de universidades e se promoveram socialmente ocupando
cátedras. Joaquin González, que elaborou um código protecionista do trabalho
semelhante em vários sentidos às propostas do Apostolado Positivista do Brasil,
inspirou a Universidade de La Plata e, desenvolvendo os objetivos educacionais,
criou a primeira carreira em Ciências da Educação (42). Há outros campos de
políticas públicas, como saúde e criminalidade, onde os positivistas argentinos
agiram destacadamente. Entretanto, há consenso de que sua maior incidência foi
no campo educacional. Outras diferenças políticas entre brasileiros e
argentinos poderiam ser expostas, porém as já listadas parecem ser suficientes
em número e complexidade para tornar estimulante o exercício de interpretação
proposto adiante.
Sob o
ponto de vista da classificação filosófica, o positivismo comtiano teve ampla
repercussão no Brasil. Admite-se que os textos de Comte sobre as ciências
exatas foram o caminho de seu ingresso nas escolas politécnicas e militares
antes de 1870, decorrendo disso sua influência entre as classes médias e,
especialmente, entre seus segmentos intelectuais. O Comte científico teria sido
conhecido antes do político e do religioso, no campo educacional e no ensino
científico e militar, em que Benjamin Constant se destaca.
Consideravelmente
distinto é o panorama na Argentina, onde o positivismo comtiano não teria tido
suficiente penetração. De fato, foram o evolucionismo e o biologismo, e
sobretudo o spencerianismo, que contaram com maior número de adeptos e discípulos,
mesmo tendo essas correntes de pensamento entrado tardiamente na Argentina.
Segundo Alejandro Korn, as obras de Comte e Spencer não teriam tido qualquer
influência no ensino secundário até depois de 1880 e no universitário teriam
entrado ainda mais tarde (43). Em 1916, Ortega y Gasset surpreende-se que se
ensine aquela “morria de Spencer” na cátedra de filosofia da Universidade de
Buenos Aires.
Enquanto
no Brasil se atribui ao positivismo uma origem externa - seria um “transplante
que pegou de galho”, segundo a conhecida expressão de Cruz Costa - na Argentina
formula-se a hipótese da existência de um positivismo autóctone, nacional,
presente nas elaborações de Alberdi e Sarmiento. Essa interpretação, formulada
por Korn no início do século, marcou de forma duradoura a interpretação do
positivismo argentino (44). Observe-se que estamos no campo das interpretações,
onde se coloca a contraposição entre “transplante” e “autoctonia”. De fato, os
desenvolvimentos nacionais resultam, em termos gerais, da interação entre
tradições, influências externas e diagnósticos das condições locais. Mas este
processo complexo não é o fulcro de nossa argumentação.
Temos
assim uma primeira grande oposição, além da propriamente filosófica, entre o
positivismo dos dois países: origem autóctone versus origem exógena. Temos, em
verdade, mitos de auto-representação opostos: a fertilidade brasileira é
receptiva; a argentina é proclamada como autóctone. Sob o ponto de vista
taxionômico, distingue-se no Brasil entre um positivismo comtiano heterodoxo ou
ilustrado e um ortodoxo. O primeiro se caracterizaria principalmente por
manter, no plano político, uma atitude liberal, embora adotando categorias de
análise comtianas (a Lei dos Três Estados, por exemplo), como no caso de Pereira
Barreto. O positivismo ortodoxo é caracterizado pela adoção substantiva do
programa comtiano e, em especial, pela aceitação da Ditadura e da Religião da
Humanidade.
Essa
taxionomia inexiste na Argentina, onde não há ortodoxos e heterodoxos. É como
se o positivismo argentino fosse preferencialmente de tipo “metodológico”, isto
é, adotasse princípios filosóficos e metodológicos, modelos de análise e por
certo preconceitos, ao invés de respostas substantivas, decorrendo daí que não
ocupe lugar significativo a aceitação da Ditadura Republicana e da Religião da
Humanidade, ainda entre aqueles que se manifestam como comtianos. Tudo se passa
como se na Argentina as diferenças filosóficas não estivessem correlacionadas
com diferenças políticas. Os positivistas argentinos, sejam quais forem, aderem
geralmente a uma democracia de formato liberal.
Em
contrapartida, no Brasil, o positivismo comtiano é diretamente citado como
influência na conformação do autoritarismo em duas direções. Por um lado, na
criação difusa de mentalidade autoritária. Esse argumento, por certo, é de
difícil avaliação em termos de pesquisa, mesmo se reduzido à formação da
mentalidade das elites. Por outro, e isto parece ser mais relevante, na
instalação de um governo no Rio Grande do Sul, a partir da ação de Júlio de
Castilhos, e na continuidade de Borges de Medeiros e Getúlio Vargas, baseados
nos predicados da Ditadura Republicana de Comte. Outros positivismos, o
comtiano não-ortodoxo e a Escola de Recife, serão associados à defesa dos valores
e princípios liberais. O próprio Silvio Romero envolveu-se na polêmica sobre a
Constituição do Rio Grande do Sul, criticando sua legitimidade e os valores
não-democráticos nela presentes. Temos então no Brasil uma associação
considerável entre posição filosófica e política e uma correlação significativa
entre a situação regional e a posição política e filosófica.
Entre os
historiadores e críticos do positivismo no Brasil, há uma acentuada atividade
historiográfica para esclarecer a entrada e o conhecimento dos positivismos, em
especial o comtiano, no país. Essa preocupação teve pouca importância na
Argentina, pois seus positivistas foram “originais”, quer no sentido de
autóctones; quer no sentido de apenas terem utilizado instrumentos positivistas
para pensar por si próprios. Como é sabido, o pensar por si próprio tornou-se o
valor dominante da filosofia e do pensamento social e político
latino-americano. No Brasil, a questão da “entrada” do positivismo comtiano
vincula-se estreitamente à interrogação sobre seu enraizamento e difusão.
Já no
início do século, temos o importante trabalho de José Veríssimo, que tenta
responder à questão do enraizamento. Segundo o crítico, a doutrina comtiana
teria a vantagem de permitir juntar a teoria com a prática, isto é, a descrição
do mundo com a prescrição sobre o modo de nele agir. Contudo, essa vantagem
realizou-se pelas “carências” da. sociedade brasileira que, sem tradição
intelectual e organização própria, se viu tomada de assalto por um pequeno
grupo de comtianos organizados.
Explicação
análoga aparece em Sérgio Buarque de Holanda. O sucesso do positivismo comtiano
no Brasil explica-se por este haver trazido uma imagem firme do mundo para um
contexto carente de instrumentos culturais de organização. Como afirma Sérgio
Buarque: “É possível compreender o bom sucesso do positivismo entre nós e entre
outros povos parentes do nosso, como Chile e México, justamente por esse
repouso que permite ao espírito as definições irresistíveis de Comte. Para seus
adeptos, a grandeza, a importância desse sistema prende-se exatamente à sua
capacidade de resistir à fluidez e à mobilidade da vida” (Buarque, 1956:230). E
mais adiante comenta: “Mas os positivistas foram apenas os exemplares mais
característicos de uma raça humana que prosperou consideravelmente em nosso
país, logo que este começou a ter consciência de si. De todas as formas a
evasão da realidade, a crença mágica no poder das idéias pareceu-nos mais
dignificante em nossa adolescência política e social” (idem: 233).
Observemos
que, na interpretação de Sérgio Buarque, o positivismo teria chegado ao
paradoxo de funcionar de modo oposto a suas intenções; isto é, em vez de
impulsionar o conhecimento do real, teria conduzido a uma atitude de crença
mágica no poder das idéias. Maciel de Barros insistirá em formas semelhantes de
interpretação: A categoria da “carência” é conseqüentemente central para
explicação do enraizamento do positivismo comtiano. Salientemos que: a) esse
tipo de explicação implica uma adequação entre a situação nacional de
“carência” e a doutrina positivista; e b) esse modelo explicativo baseado na
adequação é de utilização recorrente no pensamento de Comte.
Há uma
segunda linha de interpretação do enraizamento baseada na noção de interesse. A
produção ideológica e institucional dos positivistas teria estado a serviço dos
poderosos ou das classes dominantes. Nessa vertente interpretativa, a
variabilidade é filha do oportunismo, o cientificismo um instrumento de
controle político e social. As ideologias positivistas limitar-se-iam a
justificar e legitimar o poder das burguesias ou oligarquias locais. Essa
leitura redutora elimina os’paradoxos, e assim os positivistas podem ter a
mesma função, quer escolham Comte, Spencer ou Stuart Mill, como fundamento de suas
elaborações filosóficas e sociais ou como inspiradores de suas propostas
políticas. Os positivismos teriam a mesma função, tanto ao agirem a favor
quanto contra o liberalismo político. Conseqüentemente, a variabilidade seria
meramente marca de superfície, pois, no fundo, os positivismos defenderiam os
mesmos interesses por caminhos diferentes, que apenas estariam mais ou menos
adequados às circunstâncias locais. A adequação às circunstâncias locais seria
meramente “conjuntural”, isto é, não seria relevante para a análise teórica.
Observamos
que as interpretações do positivismo, em termos de adequação a interesses ou ao
estado de carência, são devoradoras de suas próprias formulações. Comte, de
forma clássica, havia procurado demonstrar porque a monarquia constitucional
era adequada à Inglaterra e não podia sê-lo à França, país que requeria a
ditadura republicana para alcançar o progresso nos marcos da ordem.
A
hipótese de adequação entre o político e o social, entre o pensamento e a
realidade, se generalizaria no pensamento político e social latino-americano e,
englobada pelo romantismo, tornar-se-ia o dever ser de pensar por si mesmo. Em
conseqüência, surgiria a reivindicação de filosofias e sociologias nacionais,
isto é, expressivas e autênticas, adequadas à nossa realidade. O argumento
generalizado de maior recorrência para se criticar os positivismos tem assim um
bom modelo na própria obra de Comte, embora se relativize sua visão do
progresso histórico.
A
hipótese da redução pelo interesse é complementar à produzida pelo recurso à
carência. Ambas carregam a possibilidade de pensar a variabilidade enquanto
efeito superficial e sem grande interesse teórico. Ambas, assim, acabam negando
qualquer autonomia à esfera da elaboração teórica ou ideológica. Ambas submetem
os intelectuais à condição e função de meros racionalizadores e publicistas de
interesses e condições alheios. Interesses e condições seriam, nesse caso, o
inconsciente a partir do qual os intelectuais jogam, produzindo atos falhos que
podem ou não dar certo. No seu trabalho clássico sobre o positivismo argentino,
Ricaurte Soller já havia salientado o curto alcance explicativo da categoria do
interesse e o baixo poder explicativo da redução à mera funcionalidade dos
interesses dominantes dá produção positivista. Observemos que a própria reação
espiritualista ao positivismo, cientificismo e materialismo foi, por sua vez,
interpretada como novo caminho de realização dos interesses dominantes. Assim,
as formas de pensamento, reduzidas a mera ideologia, tornam-se meras astúcias a
serviço dos interesses dominantes (45). Esse ceticismo diante das formas de
pensamento, que possui sua forma paradigmática em Pareto, é parcial, pois
apenas se aplica às ideologias concorrentes ou adversárias, jamais à própria
produção. Esse modelo interpretativo, portanto, torna-se um componente
obrigatório do mecanismo acusatório.
Um
segundo contraste parece-nos fundamental. A reflexão sobre o positivismo na Argentina
toma a forma, dominantemente, de uma história nacional. Desenrola-se sobre a
categoria do tempo. Em contrapartida, no Brasil, é uma história regional,
espacializada, que distingue as escolas de positivismo pela sua relação com um
espaço regional. Deixemos essa observação sem desenvolvimento para ser retomada
em outra oportunidade. Conceda-se-nos, por enquanto, a título de hipótese, que
há um caráter espacial no desenvolvimento dos positivismos no Brasil, com
possível relação com a questão dos regionalismos (46). Esse segundo contraste é
um componente importante da variabilidade dos positivismos, como argumentaremos
a seguir.
Partamos
dos mitos sobre os começos da autonomia e da nacionalidade. É um lugar-comum
salientar a diferença entre a independência da América hispânica e da lusitana.
A independência da América hispânica teria significado um corte, uma ruptura,
uma descontinuidade, enfim, independência com separação. Em contraposição, no
caso do Brasil, a independência não se equiparou automaticamente à separação.
As ex-col8nias espanholas, e entre elas a futura Argentina, fizeram guerra à
mãe-pátria, uma guerra heróica, segundo nos contam os manuais escolares.
Estamos no território do mito, mas também no da interpretação histórica.
No caso
da Argentina, como de outros países hispânicos, agrega-se uma nova categoria: a
democracia. Ela teria nascido no mesmo parto que a independência e a separação.
A vocação democrática do grito de independência da Revolução de Mayo é
suficientemente consensual para figurar nos manuais de história e nas
mentalidades formadas pelos professores egressos das escolas normais
positivistas ou ecléticas (47). Tão consensual que é recolhida e veiculada
pelos intérpretes brasileiros, os quais vêem na dupla separação as causas da
fragmentação, os fundamentos das vontades dos caudilhos, livres das barreiras
do poder real e central. A fragmentação é o grande perigo a ser evitado pelo
Brasil, e a conseqüência é a afirmação da realeza como caudatária da unidade ao
longo do Império, até que novas elaborações permitam afirmar que a unidade é
possível sem a realeza. Esta elaboração, sabemos, é uma pré-condição ideológica
da proclamação da República no Brasil em 1889 (48).
A
análise das condições econômicas e políticas costuma ser suficiente, com
algumas pitadas sobre o poder das novas idéias iluministas e os efeitos das
revoluções americana e francesa, para dar conta da vontade de independência e
democracia no caso argentino. O problema, um tanto mais sério, ë o de dar
conta, num mesmo movimento, da vontade democrática que se impregna â separação,
dos recuos dessa vontade sob a restauração dos caudilhos e, em particular no
caso argentino, das enigmáticas figuras de um Rosas e um Facundo. Ambos são considerados
representantes da barbárie, mas, ao mesmo tempo, do telúrico, da tradição, da
religião e da vinculação com a Espanha. São caudilhos aos quais um Sarmiento
apelará para compreender os segredos de sua terra.
Sigamos
de perto a construção interpretativa, paradigmática, realizada por Ingenieros
em obra de 1914. Para ele, a modernidade, representada por uma atitude
empírica, científica e democrática, tem sua origem no Iluminismo. No solo
espanhol, modernidade e reação se enfrentam. Já nos tempos de Carlos III
enciclopedistas e fisiocratas teriam agido para modificar o clima escolástico e
teológico vigente na metrópole. Essas idéias foram vencidas na época, mas
vivificariam no pensamento americano de Vertiz e Maciel e no pensamento, já
nacional, de Moreno e Belgrano, culminando na época de Rivadavia.
A
contradição entre a cultura obscurantista e a do Iluminismo, que coexistem na
Espanha desde o século XVI, teria sido transladada para Buenos Aires e para a
futura Argentina, com a vantagem de que Buenos Aires, sem passado, pode olhar
mais livremente para o futuro. Porém, de acordo com Ingenieros, já no Mayo de
1810 se perfilam duas tendências: aquela representada por Moreno, francamente
democrática e liberal, com uma consciência nítida da emancipação; e a segunda,
representada por Saavedra, que apenas conseguia ver no movimento uma
substituição dos funcionários peninsulares pelos filhos da terra. Assim, a
modernidade, para Ingenieros, é pensar como franceses e americanos. Por isto,
ela reside em Buenos Aires, j á que o interior conserva a mentalidade
provinciana, espanhola e conservadora. Buenos Aires, para Ingenieros, é a
própria argentinidade, suas derrotas são as da própria nacionalidade. Os jovens
seguem a tradição morenista, os velhos inclinam-se pelas soluções teocráticas e
conservadoras.
Deste modo,
Ingenieros, fácil e ingenuamente, monta uma dialética do bem e do mal,
sentindo-se herdeiro da tradição de Moreno. Para ele, Rosas significará a
reação, o obscurantismo. Na linguagem com a qual Sarmiento cria a consciência
nacional, até a reação nacionalista posterior ao Centenário da Revolución de
Mayo, o dilema é civilização ou barbárie. Depois de Rosas, e mediante a
continuidade com Mayo estabelecida por Echeverria, Alberdi e Sarmiento,
o caminho do esclarecimento, do progresso e da civilização é retomado. Os
positivistas nele se situam, sentem-se possuidores de uma tradição que devem
continuar a superar.
Alberdi
e Sarmiento são positivistas, e isto parece evidente a Ingenieros, que se
pergunta se realmente eles tinham lido as obras de Comte e Spencer, antes de
escreverem suas próprias grandes obras. Contudo, esta preocupação é apenas
curiosidade historiográfica, pois ninguém coloca seriamente em questão o fato
de eles terem sido positivistas científicos. Assim, no plano da explicação e
das soluções, eles geraram respostas atentas à adequação e viabilidade, das
quais a geração de 1880 se sente herdeira. Essa geração foi responsável pelas
realizações, sob o lema paz y administración, da presidência do General
Roca.
Korn
apresenta menos dúvidas ainda. Os que estabeleceram as bases da organização
nacional e da ideologia nacional foram positivistas em ação, que se
anteciparam, nas suas elaborações, ao conhecimento da obra do Spencer, como no
caso de Sarmiento. Há razões para tal: “Es el positivismo en
acción. Se liga a esta influencia el desarrollo económico del país, el
predomínio de los interesses materiales, Ia difusión de Ia instrucción pública,
Ia incorporación de macas heterogêneas, Ia afirmación de Ia libertad
individualista. Se agrega como complemento el despego de Ia tradición nacional,
el desprecio de los princípios abstractos, Ia indiferencia religiosa, Ia
asimàlación de usos e ideas extranas. Asi se creó una civilización cosmopolita,
de cuno propio, y ningún pueblo de habla espanol se despojó como el nuestro, en
forma tan intensa, de su caráter ingénito, so pretexto de europeizasse (1983:
206).”
Historiando
o positivismo, Korn distingue três gerações: a primeira, a do positivismo em
ação, de Sarmiento e Alberdi, que é filha do ostracismo e na qual as
influências românticas ainda estão presentes, embora bem temperadas; a segunda,
a constituída por homens nascidos pouco antes ou depois de Caseros (1853) e
que, livres de toda sugestão romântica, nada de próprio teriam adicionado às
idéias recebidas, aceitas como bases convencionadas e indiscutíveis da ação
política; a terceira geração voltaria a experimentar a necessidade de
princípios gerais e possuiria um interesse intelectual superior ao de seus
predecessores. Esta geração ocuparia um importantíssimo lugar, na virada do
século, no magistério secundário e universitário e na magistratura, e seus
membros seriam os publicistas da época. Esta descrição de Korn continua
dominando o campo interpretativo e as desconfianças ainda não se traduziram em
críticas substantivas (49). A idéia de continuidade, embora pressupondo a
mudança ou superação, permite que Ingenieros tenha como discípulo o futuro
marxista Aníbal Ponce e que Héctor Agosti, representante filosófico do Partido
Comunista Argentino, retome essa herança, com críticas por certo (50).
Há,
tanto na interpretação de Ingenieros quanto na de Korn, várias chaves
confluentes de interpretação do positivismo. Haveria no positivismo argentino
em ação, ainda que a partir da oposição entre o iluminismo e a reação
romântica, uma grande originalidade, uma autoctonia e autenticidade produto de
condições específicas, sejam elas a ausência de passado ou a constelação de
elementos enunciados por Korn. Entretanto, isto não implica o desconhecimento
da adoção, por parte dos pais fundadores da nação, dos modelos de modernização
presentes sobretudo nos casos francês e americano.
Em
segundo lugar, a categoria adotada para a história do positivismo é a de
geração. Uma categoria que, sem dúvida, fala da sucessão no tempo, da herança e
da renovação, da permanência e da mudança. Fala, então, naturalmente, da
evolução. Soler especificou claramente o impulso superador, dinâmico,
evolucionista dos positivistas argentinos no campo das idéias ou do pensamento
científico. Poucas razões existiriam para que dominasse um pensamento comtiano
caracterizado pelo fechamento em relação à mudança da ciência. Na Argentina não
existe necessidade do grito do mexicano Sierra, nem há espaço na historiografia
para a importância da refutação da matemática comtiana como, no caso do Brasil,
foi aquela realizada por Amoroso Costa (51). A idéia de serem relativos os
resultados da ciência, no sentido de aproximados e transitórios, pareceria ter
tido significativo consenso entre os positivistas argentinos.
Permeia
o pensamento dos positivistas argentinos, e também de seus intérpretes, ainda
que se situem no campo do espiritualismo, a idéia de sua origem nacional. Isto leva
a observar com evidente entusiasmo as afirmações de Sarmiento sobre Spencer, no
sentido de que eles se entendem, pois sempre transitaram pelos mesmos caminhos.
Gostaria
de resumir as razões pelas quais acredito que elementos centrais estão em jogo
para dar conta da variabilidade:
a) A
separação argentina será interpretada como contemporânea à realização da
escolha pelos valores de independência e democracia. A separação instaura uma ruptura,
porém, num mesmo movimento, instaura uma linha de continuidade Mayo-Caseros-Geração
de 80 e positivistas.
b) A
dinâmica resulta da cisão entre progressistas e conservadores, entre
civilização e barbárie, entre futuro e passado. Esta cisão, já presente na
Espanha, translada-se para a Argentina. Enquanto lá ganha ó segundo dos termos,
aqui se impõe o primeiro. Isto, entretanto, converte-se numa grande
justificação da própria guerra contra a mãe-pátria, pois a luta interna
reduplica a externa; nesse sentido, a luta contra a Espanha e a luta contra Rosas
equivalem-se.
c) O
positivismo argentino seria natural e autóctone, continuador da linha de Mayo
e entendido como um estágio evolutivo, por meio do conceito de geração.
Situa-se na linha de continuidade estabelecida na ruptura da Revolução de Mayo
e nas lutas pela independência e contra a reação obscurantista e bárbara.
d) A
posição comtiana, tanto em relação à clausura da ciência quanto à Ditadura
Republicana, ocupa pouco espaço ideológico na Argentina. Da mesma forma, a
valoração comtiana da religiosidade na Idade Média e sua retomada,
espiritualista, na religião da humanidade. O consenso estabelecido pelos
positivistas em ação prevê o progresso econômico e a modernização como
objetivos a serem alcançados mediante o povoamento e a educação.
e)
Autoctonia, temporalidade e evolução são categorias centrais para o positivismo
situar-se e construir a própria história argentina, da qual a própria corrente
de pensamento se concebe como um momento na dinâmica de princípios antagônicos.
No caso
do Brasil, é lugar-comum destacar-se que a independência não significou
democracia, no sentido republicano. Domina o entendimento de que, tanto no
plano filosófico quanto no político, a conciliação, mais do que a escolha, foi
o valor orientador. Silvestre Pinheiro pode ser considerado como uma das
figuras históricas desse esforço. No plano político, a monarquia constitucional
aparece como a forma de governo capaz de conciliar a unidade do Brasil com a
vigência da legalidade. O poder moderador desempenhará um papel relevante nesse
sentido. No plano da história das idéias prima o ecletismo (52).
Não há
na historiografia elementos que salientem a existência de um positivismo
autóctone ou natural. Ele pode ter “pegado de galho”, como disse Cruz Costa,
mas aparece como importação, realizada progressivamente, a partir das obras
cientificas de Comte. As idéias do positivismo são vistas como ruptura de uma
tradição de pensamento, como resultado de um clima de efervescência, como
nitidamente foi destacado por José Veríssimo em seu depoimento. O positivismo é
visto então como ruptura e não enquanto continuidade histórica no Brasil.
A
Ditadura Republicana positivista e o federalismo pareceriam ser respostas
viáveis, quando se objetiva conciliar a unidade territorial com a democracia
econômica ou social, ao invés de se estabelecer uma democracia política. Domina
a idéia, pelo menos entre os liberais, de que o positivismo foi mais importante
pelo freio que representou à implementação de um sistema liberal sério do que
pelas próprias realizações. Eu acrescentaria que o positivismo brasileiro se
distinguiu também por haver privilegiado a democracia econômica, civil ou
social, em detrimento da política, ênfase que seria recuperada por Oliveira
Viana como expoente principal. A democracia económica será um argumento de
legitimação do autoritarismo. A importância do orçamento, a administração
eficiente, a competência administrativa e a moralidade dos homens públicos
foram valores que se contrapuseram aos da representatividade política no
ideário positivista do castilhismo e do positivismo ortodoxo no Brasil. Estes
são, no campo do positivismo, argumentos comtianos.
Reconhecer
sua procedência e vigência não significa dar conta de sua adoção. A comparação,
entretanto, pode dar algumas pistas. No caso do Brasil, o positivismo não pôde
filiar-se diretamente nem à independência sem separação, nem a uma vontade
democrática original, embora o Apostolado Positivista tente apresentar José Bonifácio
de Andrada e Silva como seu precursor, em especial por suas posições em relação
aos índios e à escravatura. Essas referências, contudo, não conseguiram formar
a imagem de uma naturalidade ou autoctonia do positivismo brasileiro. A
valorização de Bonifácio pelos positivistas comtianos parece ser mais o
destaque dado à exceção do que à inserção numa linha da história.
Em
verdade, pareceria ser o próprio positivismo o portador da ruptura, quer no
plano do conhecimento, quer no da organização e da nacionalidade. Sem poder se
apresentar em nome de uma tradição, os positivistas passam a falar apenas a
partir do chão da ciência. Sem a legitimidade de uma tradição, sem dúvida
inventada muito rapidamente na Argentina, os positivistas brasileiros insistem
na legitimidade da ciência, que tanta aceitação teve nos círculos intelectuais
da época. Esta ciência seria tão reveladora que até o próprio imperador D.
Pedro II, também um cientista de sua época, respeita a figura de um Benjamin
Constant, a quem não somente aprova no concurso para lecionar no Colégio
Militar, como também convida para ser professor das princesas imperiais, e mais
tarde dos netos do imperador, filhos do duque de Saxe. Anedotas como esta
possuem uma especial força no discurso positivista.
O positivismo
comtiano parece adaptar-se perfeitamente para fornecer respostas a quase todos
os terrenos: desde as dúvidas sobre o regime político até a questão da
necessidade de uma campanha de vacinação pública; desde os problemas com as
culturas indígenas no processo de colonização do interior brasileiro até as
reivindicações do movimento operário. Essas respostas estão prontas, são um
arsenal inesgotável para se formar um mundo novo e uma nova ordem.
Isto,
porém, não é suficiente para entendermos as nuanças que apresentou o
positivismo no Brasil. Insistamos nas conseqüências do sentimento dos
positivistas de estarem fora da continuidade histórica. Não tendo como suporte,
como no caso argentino, uma interpretação geracional, ganha força no Brasil a
idéia de uma distribuição espacial ou regional das correntes positivistas.
Clóvis Bevilacqua formulou cedo a primeira versão dessa interpretação, quando
situou o positivismo ortodoxo ao Sul e o heterodoxo ao Norte, ou em Recife. Por
um lado, a versão de Bevilacqua ganhou força, por vincular-se à representação
da dominância dos regionalismos. Por outro, ao situar os positivismos fora do
tempo, isto é, da história, essa versão pareceu fechar as portas de sua
evolução. De fato, a história do positivismo no Brasil é uma história dos
positivismos regionais: o jurídico paulista, o Apostolado do Rio de Janeiro e a
Escola de Recife. Os positivismos aparecem assim como parte das identidades e
dos conflitos entre as regiões.
O efeito
da espacialidade, ligado à falta de autoctonia do positivismo no Brasil,
pareceria haver barrado a possibilidade de se auto-representar como
continuidade e evolução, como superação dentro de uma tradição, como mudança na
continuidade. Instigado a complementar essa constelação ainda mal mapeada, eu
diria que uma outra consideração deve ser incluída. Parece por demais evidente
que a religiosidade era importante no Brasil no tempo dos positivistas. Os
movimentos messiânicos e milenaristas estavam ali para confirmá-lo. Um
movimento reorganizador do Brasil, sem uma dimensão ou estruturação religiosa,
pareceria estar voltado de costas para a realidade. O positivismo comtiano era
o único que permitiria a conciliação entre orientação científica e religiosa. O
comtismo brasileiro se esmera na pregação de uma Religião da Humanidade. A
religiosidade poderia e deveria ser recuperada. A resposta religiosa dada pelos
positivistas brasileiros pode estar errada, mas a emergência das teologias
comprometidas com a transformação indica que o diagnóstico continua vigente.
É
possível resumir a situação com um esquema de inspiração estruturalista. O
positivismo argentino respeitou o legado de Mayo; em termos de
independência e democracia, situou-se na tradição Mayo-Caseros e foi
pensado enquanto autóctone, com a propriedade de poder transformar-se e
evoluir. A história positivista tem como referência apenas um espaço: Buenos
Aires e o litoral incorporado ao progresso, às exportações, à atividade dos
frigoríficos, às ferrovias e às escolas. O positivismo se apresenta como
resultado de uma escolha que respeita e reproduz: a da emancipação nacional e
individual. A religião não faz parte de suas preocupações; não há a preocupação
em conciliar hierarquia com democracia, nem ciência com religiosidade. A
questão argentina é a formação da Nação, a integração dos imigrantes brancos, e
para isto é importante a educação. Índios e negros são um problema já
solucionado para os positivistas argentinos. Digamos que a escolha dos valores
orientadores se coloca como valor superior ao da conciliação de suas
diferenças.
Invertamos,
estruturalmente, os termos para o Brasil. O positivismo brasileiro significa
ruptura: não pode reivindicar uma tradição de autonomia e democracia; não conta
com positivistas autóctones; não se apresenta como resultado de uma tradição
nacional. O espaço positivista tem como referência os centros de poder regional
(São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife), inscreve-se na dinâmica do
regionalismo, de seus conflitos e identidades. A religião é uma de suas preocupações,
num país onde a religiosidade popular explode por toda parte. Deve, portanto,
conciliar ciência com religião. A questão relevante na integração da Nação são
os conflitos interregionais e a incorporação de negros e índios, ocupando os
imigrantes estrangeiros um lugar secundário. A educação, se necessária, não é
uma condição suficiente. Aqui surge a necessidade da coexistência, da
conciliação que mitigue as tensões fragmentadoras entre as raças e as regiões.
A conciliação parece se impor sobre a escolha. Isto nos leva na direção do
pragmatismo é da inconseqüência elogiada por Kolakowski (53).
O
esquema nos conduz a um grande paradoxo, que se mostra com um desenho
heurístico e que será objeto no futuro de maior investimento de pesquisa. O
positivismo brasileiro - o comtismo -, considerado produto importado e
representando uma ruptura da tradição, aparece com maior potencial de
articulação com as características culturais e sociais nacionais. Seu
cientificismo se vivifica na tradição nacional brasileira e perpassa a
ideologia das elites militares e religiosas. É absorvido num autoritarismo e
num elitismo que tratam o povo como criança. Permite, sob várias óticas,
realizar uma vinculação entre espiritualismo e materialismo; entre ilustração e
romantismo. Um efeito notável é a presença de um autoritarismo muito menos
violento, no plano político, que o argentino. Em contrapartida, o positivismo
argentino, representado enquanto autóctone e evolutivo, confrontar-se-á com uma
reação espiritualista que, ponto a ponto, se lhe contrapõe. O autoritarismo
elaborado na Argentina será caracterizado por uma violência política
considerável. A tolerância e a conciliação parecem termos apagados, moedas sem
valor, do panorama político nacional.
* Este
texto é produto parcial da pesquisa "As organizações científicas: uma
análise comparativa entre Argentina e Brasil", feita em curso do CPDOC,
com apoio da FINEP. Agradeço especialmente a Hugo Biagini, um infatigável
andarilho das fontes, pois sem suas indicações o trabalho teria sido muito mais
difícil.
1- Sem
situar-se fora dos marcos da definição clássica, Otto Maria Carpeaux, em 1955,
motivado pela leitura do livro de João Camilo Torres sobre o assunto, enfatiza
a necessidade de encarar "no positivismo teórico a vontade de dominar a
realidade, dada por meios científicos, sem recorrer a uma metafísica, a uma
filosofia propriamente dita; e no positivismo prático, a vontade de uma
"elite" capaz de aplicação da ciência pura, de dominar a realidade
futura" (1955:121). Contudo, distingue Carpeaux entre um positivismo
físico - compreendido para nós pela noção de academicismo - que, renunciando a
dominar a realidade, se limita ao estudo das relações, e um outro positivismo
que, pretendendo dominar cientificamente a realidade, leva na teoria ao
dogmatismo e, na prática, à ditadura. Observemos que esta aproximação de
Carpeaux é coerente com a realizada por Nisbet que, sob o ponto de vista do
progresso, situa Comte ao lado de Rousseau, Saint-Simon, Marx e dos cultores do
Estado, no entendimento do progresso como poder. Entretanto, Nisbet situa
Spencer, por sua defesa da liberdade negativa, fora dessa ótica.
2
-Possivelmente foi na Argentina, entre os países da América Latina, que a
crítica da atitude liberal ou academicista ganhou maior virulência. Segundo a
perspectiva liberal de Minogne (1981), os acadêmicos cultivam o conhecimento
sem uma perspectiva prática, que caracterizaria os experts, e sem
vincular a prática acadêmica à transformação da sociedade, o que seria, na sua
terminologia, uma aspiração dos intelectuais. Varsavsky (1987) criticou
fortemente o academicismo e curiosamente denominou-o de cientificismo. Um
cientificista, segundo ele, é "el investigador que se ha adaptado a
este mundo científico, que renuncia a Ia preocupación
por el significado social de Ia actividad, desvinculándose de los problemas
políticos, y se entrega de lleno a su carrera, aceptando para ello Ias normas y
valores de los grandes centros intemacionales... " (1987:35).
Varsavsky professa o elitismo dos puros e dos rebeldes e se orienta para
solucionar demandas políticas e sociais, isto é, práticas exógenas à ciência,
ao invés de se curvar à demanda reconhecida como teórica ou endógena (Cf.
1987:49 e segs.). Há, assim, a procura de uma fonte externa de legitimidade da
atividade científica. Sua proposta, que é de fato cientificista, se
autodenomina revolucionária. Segundo ele, ao invés de estudar como se
caracteriza uma determinada situação, o melhor é estudar como se pode
controlá-la: "Lo que se busca es Ia manera de producir cierto tipo de
líderes e instituciones" (p.53). Seu projeto é construir uma ciência
da e para a revolução, a tomada do poder e a transformação. Sua proximidade com
o comtismo, privilegiando o eixo do poder, é indiscutível. Assim, o
autoritarismo cientificista permeia sua doutrina. A revolução, freqüentemente
imaginada como ato de liberdade, passa a ser .cativa da produção científica. O grande desafio que Varsavsky faz aos pedagogos é o
de "diseflar un sistema de ensenanza que, partiendo de un pequeno grupo
inicial que sabe lo que se desea ensenar, consiga ampliarlo hasta que eso pueda
transmitirse a Ia población, sin perder tiempo y sin traicionar su
contenido" (p.59). Este, sem dúvida, foi o projeto da escola normal e
positivista da Argentina, a partir de sua criação. Contudo, a posição de
Varsavsky tem tido tanta aceitação entre seus pares que leva a pensar na
dominância do cientificismo na América Latina no meio intelectual. Há também
semelhanças com o movimento de educação popular, embora este tenha seu elitismo
e cientificismo mitigado pelo~romantismo e o relativismo cultural (Cf.
Lovisolo, 1990).
3 - Para uma interpretação desta separação estratégica
no caso inglês ver Van den Daele (1977).
4 - Entre
os que tematizaram essa relação, destaca-se a contribuição de Paim (1967 e 1987
especialmente). Há diversos textos do autor sobre a questão que se situam ao
longo desses vinte anos.
5 - Cf.
Carvalho (1989)
6 - Sobre
Pedro Scalabrini, ver o artigo de Victoria, e sobre Alfredo Ferreira, ver o
texto de Dozo, em Biagini (coord.) (1985).
8 - Ver o
trabalho clássico de A. Korn, Influencias filosóficas en la evolución
nacional. Como
citarei Korn em diversas oportunidades, parece-me oportuno observar que ele
chega ao "espiritualismo", a partir de um positivismo juvenil e de
uma etapa de "transição". Criticará o positivismo por ser mecanicismo
e determinismo, que anulam a liberdade e o tornam, a seu ver, um obstáculo para
a responsabilidade e a ética. Cf. Torchia Estrada (1985).
10 - Cf. France (1959).
11 -Cf.
Paim (1980) e Lovisolo (1991). Observe-se que no Brasil a visita de Einstein,
em 1925, foi considerada uma contribuição à luta contra o positivismo comtiano.
Licínio Cardoso, entre outros, reagiu, criticando a teoria da relatividade.
14 - Em seu depoimento de 1895, Veríssimo estabelece:
a) a ampla e mais do que profunda influência do positivismo no Brasil; b) as
dificuldades de o evolucionismo spenceriano e o monismo haeckeliano serem
desenvolvidos pelos aderentes do positivismo, advogados ou juristas, sem base
científica; c) a facilidade de adoção da doutrina fechada do comtismo e seu
êxito diante da ausência de pensamento e organização na sociedade e no Estado
brasileiros; d) a penetração do positivismo através das matemáticas nas escolas
militares e e) sua influência sobre o desrespeito à lei e na tendência à
ditadura.
15 -Cf.
Ingenieros, Las direcciones filosóficas de la cultura argentina, publicado
originalmente em 1914.
16 - O
fundamento romântico dessa crítica chega aos nossos dias (Cf. Lovisolo, 1990).
Suas principais características já estavam presentes em Herder, segundo a
análise de Berlin (1982).
17 -
Soler (1968) contrapõe-se nesse tópico às elaborações de Aníbal Ponce e Berta
Perelstein.
19 - Ver as
apreciações de Jackson de Figueiredo (1954), sabidamente um dos intelectuais
católicos propulsores da reação espiritualista. São conhecidas as posições de
Rodó, no início do século, em relação a Comte, sobretudo no reconhecimento da
espiritualidade e da hierarquia como base da ordem. Ver de Rodó Ariel, e as
reflexões de Staab (1969). A crítica ao materialismo perpassa os imaginários
católicos e marxistas na América Latina: o primeiro critica ambos os
materialismos (o americano e o soviético) e o segundo especialmente o
americano.
20 - Em relação aos opúsculos, minha fonte é a coleção
do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas.
23 - São
vários os autores que assinalaram a fusão realizada por Juan B. Justo entre
positivismo e marxismo. Corbière (1985) procura nuançar essas interpretações.
25 -
Discurso proferido em famoso ato público realizado em 22 de novembro de 1922.
Salientamos que Berman cedeu o assento para que o próprio Korn presidisse a
reunião. Korn nesse momento era decano da Facultad de Filosofia y Letras.
Ingenieros fez sua conferência intitulada Significación histórica del
movimento maximalista. A reação polarizou-se, entusiasmo e decepção mais
uma vez estiveram juntos (Cf. Agosti, 1950).
27 -Há
também na Argentina a separação entre cidadão econômico e político. O primeiro encontra
garantias à sua participação e mobilidade, enquanto o segundo se bate contra
limitações legais, quando não ilegais, de participação. Cf. Botava (1977).
28 - Sobre José Maria Ramos Mejía (1849-1914) ver
Clemente (1985). De formação biomédica, Ramos Mejía impulsou a criação da
Assistência Pública e do Departamento de Higiene.
32 -
Cf. Pecaut (1990).
33 - Ver o
trabalho de Jorge Lagarrigue, A Ditadura Republicana segundo A. Comte.
35 - Cf.
Ferreira (1918); Love (1975); Paim (1987); Rodrigues (1977) e as introduções de
Paim aos trabalhos de Osório e Monte Arraez, entre outros.
36 - O
trabalho de Joaquim L. Osório, Constituição política do Rio Grande do Sul,
foi editado originalmente em 1911; o de Monte Arraez, O Rio Grande e
suas instituições governamentais, é de 1925. Ambos foram reeditados pela
Editora da Universidade de Brasília (UnB). Rui Barbosa, Sílvio Romero e Assis
Brasil tinham criticado o regime do castilhismo e haviam elaborado argumentos
sobre sua incompatibilidade com a Constituição nacional. Osório e Monte Arraez
argumentam a favor da compatibilidade. O ponto central da argumentação dos
defensores do castilhismo seria igualar sufrágio a representação, isto é, o
sistema seria representativo pela eletividade do mandatário e não pelas funções
do Parlamento. Os castilhistas opõem-se à cidadania dos interesses divisores e
em seu lugar buscam a média das opiniões, integradora ou convergente. Observo
que em termos de elaboração geral o Apostolado apoiou as elaborações do chileno
Jorge Lagarngue, cujo texto, A Ditadura Republicana segundo Augusto Comte, traduziu
e publicou.
38 - Uma visão recente da base cientista da intervenção
dos intelectuais brasileiros pode ser conferida em Pecaut (1990). Observo que
para esse autor é grande a legitimidade obtida na esfera pública e estatal
pelos intelectuais brasileiros. Em contrapartida; Sílvia Sigal, que trabalhou
no mesmo projeto tomando como objeto a intelectualidade argentina, interroga-se
sobre a baixa legitimidade por esta conquistada. Cf. Sigal
(s/d).
40 -
Tedesco (1985) avalia ponderadamente a intervenção positivista, a partir do
debate educacional atual. Destaca o acerto dos pontos de partida do
positivismo, a homogeneidade da resposta educativa e seu êxito relativo, em
termos da expansão do sistema escolar e de uma imagem democrática, defendida
pelos segmentos populares. Salientemos que Vedoya (1973) criticou, baseado nas
estatísticas escolares e orçamentárias, a efetividade dessa ação educacional. É
evidente que a política educacional positivista interagiu com condições
econômicas e sociais e com atitudes em relação à escola e à nova língua dos
imigrantes, isto é, com seus anseios de participação na nova sociedade. Aberta
à "participação" econômica do imigrante, a Argentina fechava-se à sua
participação política. A escola foi o lugar de obtenção de uma cidadania
relativa. Prieto (198$) aponta a relevância, senão econômica, simbólica, que
levou à valorização da escola e à criação de um circuito de literatura popular
de grande importância na Argentina, a partir de 1880.
41- O próprio Ingenieros aventurou-se na construção de
um destino histórico superior para a Argentina, que denominou de
"imperialista" e posteriormente transformou-se em
"potência". Esse destino hegemônico seria, para
Ingenieros, "expresión pacífica de Ia lucha darwiniana entre Ias
naciones, y si el expansionismo obedece a leyes inexoravelmente científicas que
lo ponen al abrigo de extemporáneos juicios morales, (...) este país puede
aspirar al liderazgo (...) sobre Ia base de su riqueza creciente (...) Raza,
medio y momento seriam, para Ingenieros, los soportes adecuados (...) de ura
futuro liderazgo sudamericano (...) que se opondrá a Ias pretensioenes
expansionistas de los Estados Unidos de América" (Terán, 1987: 49-50).
O tema da liderança é
recorrente em Ingenieros. Em relação à revolução, Damis salienta que o
entusiasmo de Ingenieros era elitista, pois entendia que na revolução russa "no
es Ia masa lanzada a Ia lucha quien postula Ia transformación moral de Ia
sociedade, sino que Ia acción de esta es resultante de Ia verdadera acción
realizada a plena conciencia por hombres superiores, tales como Lenira y
Trotski" (1985:530 e segs.).
42 - Cf. Ingenieros, "Socialismo y
legislación del trabajo ", in Terán (1987). Referindo-se ao Projeto de
Lei Nacional do Trabalho elaborado sob o ministério de J. V. González,
Ingenieros diz: "Ignoramos que ministro alguno, en ningún país
civilizado, haya remitido a su Parlamento un proyecto que pueda compararse en
su conjunto al que vamos estudiar. Las mejores leyes (...) palidecem
ante este verdadero "Código del trabajo" proyectado para la.República
Argentina" (in Terán, 1987:193).
46 -
Topologia já presente no índice das obras que se ocupam do positivismo no
Brasil.
47 - Sou testemunha
desse fato. Assim como de haver lido na escola secundária, na década 1960,
Sarmiento, Alberdi e Ingenieros. Como professor, mais tarde, transmiti o relato
mítico que estou esboçando.
48 -
Observar especialmente as elaborações realizadas por Vicente Licínio Cardoso em
À margem da história do Brasil, de 1938, e o seu
reconhecimento a Euclides da Cunha, por deslocar a questão da unidade para a
geografia, para a influência do rio São Francisco’na unidade nacional.
49 - Ver
o número de Todo es historia, dedicado ao positivismo argentino.
51- Em seu discurso de 22 de maio de 1908, no Teatro
Arbeau, na Cidade do México, diante da elite intelectual mexicana, Justo Sierra
reiativizou o caráter definitivo (de clausura, portanto) do conhecimento
científico. Resgatou ainda a válida contribuição metodológica do comtismo. Cf.
Zea (1963).
52 - A
recorrente a utilização da categoria "conciliação" para se pensar o
Brasil. Cf. Paim (1987), em especial sobre a "conciliação" produzida
no terreno filosófico e político por Silvestre Pinheiros. Vincula-se
naturalmente ao pólo da cordialidade, da tolerância, da abertura e da
receptividade, que caracterizaria a identidade nacio nal e social brasileira.
Eu mesmo a utilizei para pensar a "conciliação" entre romantismo e
iluminismo na educação popular (Lovisolo, 1987 e 1988). No contexto das
elaborações de Horkheimer (1973), a razão ter-se-ia tornado
"conciliadora" e "razoável", no processo de abandono da
razão "objetiva". Vincula-se assim à tolerância, ao instrumentalismo
e ao relativismo. A razão passaria a desempenhar o papel de promotora do
bem-estar, de inimiga do fanatismo e da guerra civil. Essa
"conciliação", porém, abandonaria a razão que estaria na natureza das
coisas. Portanto, estaria abandonando valores e princípios éticos fundados
objetivamente.
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