QUEM É MODERNO?

Um estudo sobre as estratégias discursivas de gerentes brasileiros

 

Roberto Grün

 

Moderno é uma palavra de conteúdo intrinsecamente positivo na sociedade brasileira. Quando um indivíduo, uma instituição, uma empresa ou um setor da economia são considerados modernos, eles são automaticamente bem vistos, seus atos são avaliados pelo seu lado mais agradável, seus pontos de vista são ponderados com atenção e seus produtos têm boa aceitação no mercado brasileiro. Nada mais natural, portanto, que o rótulo de moderno seja um qualificativo disputado permanentemente nos diversos campos da atividade.

Este texto pretende investigar as formas pelas quais essa luta se trava no campo gerencial paulista, abordando algumas das relações entre sentidos e subentendidos produzidos na arena executiva, com a evolução do imaginário social, em sentido mais amplo. A luta simbólica pela definição de quem é moderno acaba gerando uma série de categorias cognitivas que irão guiar a apreensão que os agentes fazem da estrutura social. Dada a centralidade da categoria dos gerentes na sociedade brasileira atual, símbolos e conceitos produzidos nessa disputa irão se espraiar pela sociedade, contribuindo de maneira significativa para a produção das hierarquias nela imperastes.

A investigação partiu da constatação do papel cada vez mais importante das associações profissionais dos executivos (1) brasileiros no campo gerencial e empresarial, bem como nas esferas governamentais, principalmente no período preparatório à convocação da Assembléia Constituinte de 1988. Essas associações congregam profissionais de finanças, de mercadologia, de organização e métodos, de suprimentos, de recursos humanos, de controle de qualidade, de informática e outras especialidades, segundo a lógica da divisão do trabalho gerencial imperaste no seio das grandes empresas modernas. Tal lógica impõe um critério de especialização profissional diferente daquela predicada pela legislação brasileira sobre atribuições das diversas profissões de nível superior. Os membros das associações são, em geral, altos funcionários não-proprietários de grandes empresas nacionais e multinacionais. os sindicatos profissionais, que deveriam ter o monopólio de representação sobre o nosso universo de pesquisa, composto quase integralmente de possuidores de diplomas universitários, têm uma presença esmaecida no campo gerencial, principalmente como instituições a serem estigmatizadas. Um traço comum a todas as associações de executivos é o fato de seus membros demarcarem, de maneira muito enfática, a sua esfera de atuação em relação aos sindicatos.

Estamos diante de um universo de pesquisa muito extenso, em que existem numerosas entidades de contornos pouco definidos, onde as tarefas de arregimentação e de representação profissional muitas vezes são sobrepostas a atividades comerciais de consultoria e de vendas de produtos e serviços. Nesta zona do espaço social e econômico, muitas vezes entidades comerciais prestadoras de serviços sugerem que representam os profissionais de uma especialidade gerencial, mas isto é uma espécie de fachada, utilizada para enobrecer os produtos ofertados. Numa situação em que os sindicatos profissionais têm o monopólio da representação legal dos profissionais de nível superior, todas as organizações não-oficiais acabam caindo numa espécie de vala comum de visibilidade, do que se aproveitam alguns empresários de consultoria para se apropriar da legitimidade gozada por algumas das associações de executivos genuinamente representativas. Além disso, as empresas de consultoria tentam sistematicamente "colonizar" as associações de executivos bem-sucedidas, a fim de usá-las como vitrinas para seus produtos e profissionais.

Diante do quadro acima, optamos por uma investigação aprofundada em algumas organizações que tinham volume significativo de associados e de atividades não diretamente lucrativas. De qualquer forma, o trabalho de catalogação das entidades a serem pesquisadas com rigor já forneceu um primeiro relevo do campo. Dele pudemos extrair muitas informações úteis para análise, principalmente no que concerne à ambigüidade existente entre as funções de representação e a venda de serviços necessários para a sobrevivência e o desenvolvimento de todas essas organizações que têm os seus orçamentos totalmente cobertos por contribuições voluntárias de associados, empresas e alunos. Essa situação nos impede de traçar fronteiras absolutas entre as entidades representativas dos executivos e os empreendimentos de venda de serviços, o que possibilitaria a eleição de amostra absolutamente cristalina do fenômeno associativo gerencial.

A história das associações ou organizações de executivos (OEs), representando consistentemente uma das camadas mais fortes daqueles profissionais, confunde-se com a reconstrução da luta pelo rótulo de moderno e pela extração das vantagens simbólicas e econômicas advindas da catalogação no campo gerencial. Por outro lado, a complacência taxonômica que identificamos na composição do universo de pesquisa é uma característica mais geral desta zona do espaço social, alimentando não só essa luta pelo moderno, mas também a definição mesma das competências profissionais, entre as quais o rótulo de executivo. 'trabalhar as ambigüidades e subentendidos gerados na arena executiva e as lutas para forçar definições mais vantajosas dessas realidades ainda frouxas para determinadas parcelas de executivos passa a ser o essencial de nosso trabalho investigativo e de análise.

Explorações anteriores do campo executivo (Grün, 1985 e 1986; Zilbovicius, Ferro & Grün, 1987), nas quais estudamos situações específicas - empresas em processo de modernização e conflitos trabalhistas - chamaram-nos a atenção sobre a importância da obtenção e manutenção do cetro de modero no universo gerencial e guiaram nossa intuição. A escolha das OEs como objeto empírico imediato deveu-se à identificação delas como o ponto mais visível da sociedade, onde está sendo gestado o rótulo de executivo, e como o principal ponto de encontro voluntário dos gerentes enquanto tais. Escolhemos, dentro do universo das OEs, a seção paulista das quatro associações abaixo para ilustrar as principais polaridades de campo:

ABRH - Associação Brasileira dos Administradores de Recursos Humanos;

IBEF - Instituto Brasileiro dos Executivos Financeiros;

ABCQ - Associação Brasileira de Controle de Qualidade;

ABAM - Associação Brasileira de Administração de Materiais.

Essas instituições têm um quadro associativo girando em torno de 1.200 gerentes cada uma, entre ativos e desligados. As três primeiras estavam em fase de expansão do quadro, no período da pesquisa (segundo semestre de 1987 e primeiro semestre de 1988). Já a ABAM estava sofrendo um declínio acentuado, tendo caído o seu número de sócios ativos da média de 1.200 para um número estimado na casa dos 400 sócios.

Levantamos a história dessas OEs, entrevistamos seus responsáveis administrativos, alguns de seus fundadores e membros das diretorias atuais, num subtotal de 30 entrevistas, e examinamos seus portfólios de realizações. Complementarmente, entrevistamos três head hunters - recrutadores e selecionadora de executivos - que manejam diariamente em seu trabalho as hierarquias do campo, valorizando e desvalorizando os gerentes, tanto para o lado das empresas que procuram novos funcionários quanto para o lado dos postulantes aos cargos, buscando extrair o máximo proveito de seu papel de intermediários.

Categorizações mais desapiedadas de gerentes e de instituições de ensino - tais como a formulação arquetípica "executivo de capacidade apenas tática, formado em escola de segunda linha" - foram obtidas primeiramente entre os head hunters e só posteriormente foram testadas entre os gerentes propriamente ditos. Entrevistamos também uma bateria complementar de oito executivos, não pertencentes às OEs, mas ocupando altos cargos em empresas e dispondo de títulos universitários considerados de primeira linha. Na exploração dos sistemas simbólicos dos executivos, utilizamos também observações feitas a quente, externadas por gerentes durante o seu trabalho, que coletamos durante nossa experiência profissional de administrador de empresas durante dez anos, numa grande empresa nacional e num banco multinacional.

A forma pela qual o material primário foi coletado irá ditar a exposição abaixo. Assim, teremos como eixo principal as OEs e a exploração de algumas nuances daquela forma organizativa e de seus animadores. Secundariamente, utilizaremos os materiais empíricos levantados nas pesquisas anteriores e na "escola da vida".

As ambiguidades organizacionais dos executivos

No início da pesquisa, esperávamos que os diretores e fundadores das OEs fossem as figuras mais exemplares do mundo executivo, tal como se divulga nos meios de comunicação. Tratar-se-ia de indivíduos formados nas escolas mais renomadas e com carreiras exemplarmente brilhantes. Não foi isto, porém, o que encontramos. Ao contrário, os handicaps dos entrevistados eram bem visíveis. Podemos tipificar o perfil de nossa amostra primária com um "economista formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 1960", um título que na escala do mundo executivo paulista fica a meio termo entre as escolas de primeira linha - que são a Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a Escola Politécnica e a Faculdade de Economia e Administração, ambas da Universidade de São Paulo - e os títulos considerados de segunda linha - tipicamente, as escolas de administração e economia particulares, em geral situadas em bairros da periferia da cidade de São Paulo ou em subúrbios, criadas a partir de 1968, com o afrouxamento do controle governamental sobre a autorização de abertura de cursos superiores.

Esse fator negativo, no entanto, era contrabalançado por um longo período de emprego numa empresa considerada, à época do início da carreira do agente, como uma escola de executivos. Essas empresas eram, por exemplo, a Moinho Santista, a Gessy Lever (para uma série de especializações de mercadologia ou finanças), ou os bancos multinacionais, no setor financeiro, ou a Ford, no setor de recursos humanos, ou ainda empresas de consultoria multinacionais para a área de controle financeiro. Esse padrão de trajetória inicial, a formação interna específica dessas empresas modelo, aliada à atuação nas OEs, parecia capaz de reconduzir os agentes ao núcleo central mais promissor das carreiras executivas. Eventualmente também encontramos indivíduos com títulos universitários de primeira linha, mas que haviam percorrido, até então, carreiras atípicas.

Diante desse quadro, fomos induzidos a crer que a empresa mesma de representação é uma espécie de atalho que os agentes tentam tomar para suplantar suas insuficiências evidentes, construindo sua legitimidade no campo a partir do papel de porta-vozes do grupo, reunindo assim um elenco heterodoxo de qualidades para galgar os topos das escalas, driblando o fator competência escolar reconhecida. Dessa forma, o reconhecimento pelos pares profissionais assinalaria a capacidade técnica dos agentes. A expansão dos quadros associativos das OEs se fez, num primeiro momento, pela agregação de indivíduos com propriedades sociais semelhantes, mas menos intensas (2). Em momentos posteriores e na medida do crescimento de sua importância, seus quadros associativos começam a ganhar a adesão de agentes "como manda o figurino executivo".

A partir dessas impressões, fomos novamente a campo, procurando então executivos de primeira linha com trajetórias normais, se possível ocupando cargos nas empresas equivalentes aos dos nossos líderes das OEs. Saímos dessa rodada com a certeza de que estávamos diante de duas maneiras de ocupação de cargos semelhantes, para os quais os membros de nossa amostra primária - o pessoal das OEs - eram claramente desafiantes.

Os membros de nossa amostra suplementar se demarcavam sem mercê das OEs e de seus representantes, fazendo passar, às vezes mesmo de forma explícita, o seu pouco apreço por aquelas empresas de representação e pelas estratégias de ascensão profissional que por elas passavam. Para isso, eles minimizavam a sua importância e a evolução da paisagem social que alas representam. Mias o seu sucesso era evidente, tanto em nível mediático quanto como instrumento de alavancagem profissional de seus membros. Os agentes externos às OEs chegavam mesmo a anunciar explicitamente que elas eram construções bastardas, simples instrumentos nas mãos de seus líderes (3).

Numa análise estratégica à Crozier (Crozier & Friedberg, 1977), seria simples compartilhar aqueles pontos de vista. Entretanto, a lógica do interesse nu não poderia dar conta dos investimentos subjetivos necessários para atrair os agentes para essas empreitadas que iriam se transformar nas OEs. Afinal, estamos lidando com uma população conservadora em praticamente todos os aspectos de sua conduta e a imensa maioria das iniciativas nesse setor não redunda em empresas de sucesso. Em geral, elas se perdem na lenta desagregação de grupos informais que poderiam se galvanizar
em organizações. Mas os agentes de nossa amostra principal sentem agudamente o problema da identidade profissional, o que, ao nosso ver, tensiona suas existências, empurrando-os para a formação das OEs. Esta compulsão surge quando eles procuram se diferenciar da massa assalariada em geral, sem poder fazer uso de rótulos garantidos como "formado pela GV" (um título de excelência inconteste nesta zona do espaço social) ou membro de algum corpo profissional socialmente reconhecido como as profissões tradicionais (4).

Ainda que sejam evidentes os resultados materiais advindos do papel das OEs enquanto pontos de encontro e de troca de favores entre seus membros, estamos diante de um resultado que não pode ser simplesmente hipostasiado, sem que se leve em conta o árduo caminho que os agentes trilharam antes de chegar ao sucesso atual dessas entidades. Pensar nesse esforço pela lógica de análise estratégica ex-post factum é exercício acadêmico vão ou, do lado dos executivos que eram chefes de fila de sua categoria, incontestes até pouco tempo atrás, significa manifestação de ressentimento evidente pela perda da primazia absoluta no campo. É importante ressaltar que os termos utilizados pela análise estratégica, bem como outros de origem antropológica, são utilizados com freqüência pelos membros de nossas amostras, embora com significados diferentes de seu uso original. Antes porém de impugnar o uso indevido e não-autorizado do arcabouço das ciências sociais, devemos levar em conta que tal utilização dá ares de cientifïcidade, e portanto de verossimilhança, ao discurso gerencial, servindo como arma nas disputas intergerenciais e nas tentativas de impor um ordenamento da sociedade ao agrado do grupo.

Uma vez feita a contestação do sucesso das OEs, sobra o aparente mistério da fonte dessa capacidade de ocupar o espaço, já que, afinal, elas são compostas de indivíduos com pouco empuxo social. Curiosamente, se de um lado podemos creditar o sucesso organizacional das OEs a seus dirigentes, não podemos fazer o mesmo em relação à sua importância no campo gerencial. Na verdade, essa situação é gerada pelo encadeamento de sua dinâmica com uma série externa de fatores: a fisionomia particular de que se revestiu a vertebração da sociedade civil como um todo, a partir da abertura política da segunda metade dos anos 70.

Observemos que esse processo se desenvolveu conferindo legitimidade aos corpos coletivos de maneira geral, em detrimento das personalidades individuais, para expressar opiniões dos diversos setores da sociedade. Ora, na zona do espaço social de que, tratamos, os únicos atores coletivos organizados encontrados naquele momento eram as OEs. Assim, subitamente, essas organizações obtiveram o papel de interlocutoras válidas das especialidades executivas para com o resto da sociedade, por causa de sua semelhança com os outros atores coletivos que se expressavam legitimamente naqueles momentos, apesar delas mesmas (5).

Em relação ao núcleo duro da categoria, os agentes envolvidos nas empresas de representação vivem (ou viveram) num estado simbiótico. Eles se nutrem fortemente da acumulação prévia de prestígio e legitimidade que os grandes da profissão construíram, sobretudo na época do milagre econômico. Formaram, no entanto, as associações, em termos organizacionais, movidos pela própria paixão. Esta ambigüidade genética irá marcar indelevelmente o caráter das OEs, aparecendo nas composições internas dos quadros dirigentes e na programação de eventos. As empresas de consultoria, óbvias interessadas em ter os seus membros nas diretorias ou como estrelas dos eventos, destacam para essas tarefas os seus membros mais superdotados de qualidades consideradas pertinentes para a especialidade, como os títulos universitários e todo o resto do figurino, tornando-se difícil evitar a presença daqueles agentes, apesar do evidente mal-estar que eles causam.

Táticos e estrategistas

A confrontação dos discursos dos vários dirigentes das OEs com os discursos colhidos na amostra suplementar dá acesso ao registro de dois sistemas classificatórios distintos, a partir dos quais os agentes se identificam na sociedade e, através disso, enxergam a estrutura social como um todo. Enquanto os membros da nossa amostra principal dividem os ambientes de trabalho e, por seu intermédio, a sociedade como um todo, bipolarmente, em agentes de concepção e agentes de execução, os seus colegas/concorrentes, já estabelecidos no campo, pensam a paisagem social através de um sistema trinitário, no qual existem agentes empreendedores, agentes de gestão e agentes de execução. Essas diferenças ficam evidentes quando os agentes relatam sua trajetória profissional, aparecendo de maneira apenas veiada nos discursos mais gerais. Estes últimos, entretanto, estão saturados de empréstimos vindos de sistemas simbólicos mais genéricos e legítimos culturalmente.

A classificação bipolar aparece indistintamente quando os agentes discorrem sobre questões sociais e políticas, tais como as desigualdades de renda e as preferências eleitorais. Nesse contexto, a sociedade aparece dividida em dois grandes blocos, "o povão e as pessoas esclarecidas". Da mesma forma, os integrantes de nossa amostra principal justificam sua posição privilegiada na hierarquia salarial. Entretanto, a diferença fica bem marcada quando os agentes avaliam os seus pares. O pessoal das OEs tende a ver uma separação apenas temporal entre a sua situação na carreira executiva e a posição mais "adiantada" de seus competidores. Tratar-se-ia, assim, de uma simples questão de tempo para que eles alcancem os ápices de seu campo.

Já na amostra suplementar, a segmentação aparece indelével, como uma questão de substância. Nessa última ordenação, os trabalhos que cada grupo executa são fundamentalmente diferentes, havendo uma enorme descontinuidade entre as qualidades necessárias para a tomada de decisões simplesmente rotineiras, efetuadas pelos simples supervisores, e as decisões estratégicas, que seriam o centro da função dos "grandes executivos por mérito próprio". Do lado da nossa amostra principal, a subordinação a esse sistema classificatório, que os coloca em posição inferior, somente aparecia quando os agentes eram instados a falar sobre algum executivo considerado modelo pelas revistas de negócios. No limite, essa subordinação também aparecia quando os agentes falavam sobre suas expectativas de futuro na carreira, mas não faziam, evidentemente, parte do centro de suas argumentações gerais.

A revolução dos gerentes brasileiros

Por mais que insistíssemos na relevância das divergências entre os grupos simbólicos postos em prática pelos nossos dois grupos de agentes, salta aos olhos a: convergência fundamental de que os dois sistemas classificatórios esvaziam a questão da propriedade privada dos meios da produção como critério relevante da ordenação social. No seu lugar, aparece a questão da competência profissional, considerada o gradiente principal da hierarquia. Estamos, assim, diante de um feixe de versões indígenas das teorias da "revolução dos gerentes", que aparece de maneira natural em toda a nossa amostra. Suscitado pelo entrevistador, o patrão aparecia - não diretamente enquanto tal, mas sempre enquanto líder natural dos executivos - como o maior dos executivos.

Aparece, assim, o que ao nosso ver é a chave explicativa desta modalidade de utopia gerencial: quando eles pensam na figura do patrão, não imaginam simplesmente o proprietário, juridicamente chancelado, de um pacote de ações suficientes para controlar uma empresa moderna, ou de um patrimônio empresarial indivisível, mas antes alguém que reúne simultaneamente as duas sortes de atributos - a propriedade e a competência profissional medida à escala executiva. Em suma, só é patrão legítimo aquele que também for considerado um supergerente. Essa característica influi poderosamente nas esferas burguesas modernas, que compartilham de alguma forma a visão dos executivos, e irá pesar bastante nas estratégias de reprodução social dessas camadas, induzindo seus herdeiros a se conformarem ao padrão de excelência vigente.

O conflito pela sucessão do grupo Pão de Açúcar, o principal conglomerado varejista do Brasil, que se travou no fim da década de 1980, mostra-nos, emblematicamente, a maturação do padrão de legitimidade que descrevemos. A disputa teve, por um lado, Abílio dos Santos Diniz, portador de todos os títulos de legitimidade executiva dos novos tempos, significativamente visto como herdeiro evidente por toda a imprensa de negócios, e seus irmãos, principalmente Alcides dos Santos Diniz, formados na "escola da vida" e, portanto, afastáveis. Para realçar nossa argumentação, podemos contrastar o "caso Pão de Açúcar" com os casos "Matarazzo" e "Securit".

Estas duas últimas empresas passaram por processos de sucessão na mesma época. Em ambas, a mídia especializada colocava sérias reticências à capacidade de herdeiros do sexo feminino darem conta das tarefas de condução das empresas. Por outro lado, num contraste absoluto que merece pesquisa aprofundada, a imprensa feminina registrava os fatos como mais uma prova da ascensão das mulheres, intuindo a capacidade das novas empresárias.

Fixado o novo estilo gerencial, ele irradiará suas conseqüências sobre os mais diversos pontos da paisagem social. Inspirando-nos em Duby (1978), podemos falar no poder instituinte dos enunciados gerenciais sobre a estrutura social, por analogia ao trabalho ideológico efetuado pelos bispos da França do norte no século XII. No segmento da estrutura social ocupado pelas classes médias assalariadas, temos, esquematicamente, uma competição entre duas ordens de iniciativa "formatadoras" do relevo subestrutural. De um lado, as estratégias dos sindicatos profissionais de classe média, os quais, a partir da abertura política do governo Geisel, trabalharão uma imagem desse agregado moldada fundamentalmente a partir das semelhanças entre as diversas formas de assalariamento existentes na sociedade, sinalizando uma proximidade com os segmentos mobilizados do proletariado industrial. Contrastando com aquela vertente, temos o aparecimento das OEs, que trabalham as semelhanças e ambigüidades posicionais dos indivíduos de classe média em relação ao patronato (6). A crescente impugnação social das formas de mobilização "plebéias" das classes médias assalariadas - greves, passeatas etc. -, mensuráveis pelo eco alcançado nas pregações moralizadoras de diversos órgãos da mídia eletrônica ou escrita, ou ainda de candidatos a postos eletivos direitistas, assinala-nos a força da segunda vertente de mobilização diante da primeira (7).

A escola em duas velocidades

A centralidade adquirida pela questão da competência profissional nas estratégias de reprodução e ascensão sociais acaba atraindo o foco analítico para o sistema escolar, lugar reconhecido de produção daquele atributo. Colocando a questão escolar como um dos elementos essenciais da trama sociológica que tentamos esclarecer, teremos acesso à compreensão do processo de diferenciação crescente do campo escolar no Brasil, relacionando-a com a tessitura da nova configuração social.

A universalidade recente da escolarização de primeiro grau e a explosão da oferta de alternativas de ensino de terceiro grau no Brasil adequaram-se bem à estrutura social fundamentalmente descontínua que as hospeda. A diferenciação da oferta no mercado de ensino irá se produzir justamente travestindo as assimetrias pré-existentes e encontrará nos agentes representados nas nossas duas amostras os clientes mais ávidos de novas propostas de ensino, tanto para si quanto para seus descendentes. Essa sofisticação crescente alimenta-se justamente da necessidade de refazer continuamente as descontinuidades pré-existentes, produzindo barreiras, primeiro entre os sistemas públicos, depois, internamente a esse último setor, à proporção que a difusão cultural generaliza padrões de educação restritos em momentos anteriores.

Nos extremos superiores de nossas escalas podemos ver a utilização cada vez mais freqüente de alternativas exteriores de ensino por parte dos estratos mais privilegiados. Aparece, assim, o MBA (Master in Business Administration), buscado no mercado universitário norte-americano, o título de consagração escolar mais legítimo nessa zona do espaço social. Ele tem características extremamente interessantes, que o qualificam para desempenhar um papel importante nos jogos simbólicos.

Primeiro, ele é oferecido por uma infinidade de universidades nos Estados Unidos, na Europa Ocidental, Extremo Oriente e até Europa Oriental, mas não no Brasil. Temos aqui cursos de mestrado em administração apenas voltados para a formação de professores. Segundo, ele é extremamente procurado no mundo inteiro e considerado em geral mais um investimento pessoal do que um tipo de formação voltada para o desenvolvimento dos países atrasados, sendo difícil cursá-lo enquanto bolsista. Dessa forma, possuir os recursos necessários para cursá-lo é condição quase sine qua non para sua realização. Terceiro, ele tem como conteúdo um corpo de disciplinas e metodologias que são a própria materialização do savoir faire dos estratos burgueses mais modernos. Essa forma tem a propriedade de repelir inconscientemente os indivíduos egressos dos estratos sociais que colocam a acumulação de capital cultural na sua variante escolar como o centro de suas estratégias de ascensão social (8).

Avançando sobre hipóteses que estamos trabalhando no momento, podemos adiantar que se instituiu de maneira cada vez mais nítida, no seio de cada universo profissional, uma divisão entre os profissionais propriamente ditos, ligados à "substancialidade" irredutível dos ensinamentos e da prática profissional em cada profissão (deontologia incluída), e os gerentes, preocupados mais diretamente com as áreas de fronteira da profissão, com a administração dos serviços que ela presta à sociedade, entendendo a atuação das profissões numa perspectiva mais relacional (Freidson, 1986; Castel, 1982).

O capital cultural e as sucessões familiares

Surge agora com bastante força expressiva a forma especificamente brasileira de adaptação às compulsões universais da reprodução social das elites no momento atual do capitalismo. Notemos que o chamado "modo de reprodução com componente escolar" (Bourdieu, 1989) institui uma forma probabilística de reprodução social: os herdeiros das classes dominantes só conseguem desenvolver as suas carreiras brilhantes se ungidos previamente por uma forte legitimação acadêmica. Para isso, eles têm de se submeter a um sistema escolar que tenha, ainda que só formalmente, os mesmos critérios de seleção para toda a população escolar do país.

Assim, ainda que as suas disposições natas, adquiridas através da socialização burguesa, lhes forneçam vantagens muito fortes na concorrência, os exames são iguais para todos. Nesse encadeamento, está sempre presente, embora com probabilidades fortemente condicionadas a menor para os herdeiros das classes dominantes, a possibilidade de uma parcela que normalmente deveria alçar-se aos melhores postos disponíveis, desencaminhar-se por não alcançar o sucesso necessário no sistema escolar. Ainda que as modernas escolas de administração apareçam no quadro como uma forma academicamente legítima e moldada à medida das disposições éticas e cognitivas burguesas modernas mais típicas, o problema persiste (9).

Em todo o mundo desenvolvido, aparecem formas de se reforçar as probabilidades já maiores dos estudantes vindos dos estratos superiores naquela corrida, em que o objetivo é manter os herdeiros em posições sociais equivalentes ou melhores que as de seus pais. Por exemplo, temos na França um novo subsistema escolar privado leigo, paralelo ao oficial e à escola religiosa tradicional, extremamente performático, e que utiliza - o que não poderia ser mais característico - formas de mobilização do seu corpo discente emprestadas dos modernos métodos de mobilização empresarial, como os "contratos de produtividade" firmados anualmente entre os alunos e a direção da escola.

No mesmo sentido, vemos as crianças japonesas submeterem-se a pesadas cargas de trabalhos didáticos suplementares, ministradas por institutos privados de ensino complementar, para reforçar o aprendizado já exigente das escolas públicas e assim garantir o seu sucesso nos exames de entrada das melhores universidades do país. Reparemos que nesses sistemas a escola. pública universal continua fazendo valer os seus direitos de aferição através do baccalauréat e das classes preparatórias às "grandes escolas", na França, e através do sistema de notação escolar único, no Japão (Brinton, in Bourdieu & Coleman, 1991).

No Brasil, podemos observar uma ruptura mais radical, com a possibilidade de os herdeiros percorrerem todo o sistema escolar protegidos dos azares da concorrência universal. O desenvolvimento recente da escola pública, tornando sua usuária a grande maioria da população urbana em idade escolar, fez-se com prejuízo total da qualidade do ensino (Moura e Castro, in Bacha & Klein, 1986). A assimetria que anteriormente dividia a população entre estudados e não-estudados transferiu-se para dentro dos estudados, mantendo os usuários atuais do sistema público de ensino elementar na qualidade de concorrentes inferiores natos nos exames vestibulares das escolas universitárias consideradas de primeira linha, às quais, no mais das vezes, eles nem sequer ousam tentar o acesso. Ao mesmo tempo que os vereditos escolares passam a ter validade universal - afinal, agora todos passam pela escola e assim aceitam tacitamente os seus critérios -, a divisão do sistema garante a monopolização da chance de acesso aos pontos de maior lucratividade aos usuários do sistema privado, em que só se entra dispondo de recursos financeiros para pagar os custos elevados da escola.

O recurso às opções estrangeiras de ensino é a forma acabada do processo de manutenção das descontinuidades. Para os herdeiros que cursaram normalmente as opções escolares de elite, tanto elementares quanto universitárias, ele contribui decisivamente para construir uma diferença qualitativa entre os mais simples usuários das oportunidades brasileiras e os agentes que se fazem ungir pelas instâncias de consagração estrangeiras, separando decisivamente burgueses de meros aspirantes pequeno-burgueses. Para os indivíduos de extração burguesa menos felizes na carreira escolar interna, eles representam uma possibilidade de recuperação, já que existem, só nos Estados Unidos, cerca de 600 cursos de MBA sendo oferecidos, de qualidade fortemente desigual (cf. Management Today, Londres, abril de 1987), mas de acordo com uma hierarquia praticamente desconhecida no Brasil. Neste contexto, a capacidade de financiamento do período de estudos no exterior acaba podendo desempenhar um papel decisivo na formação brasileira de instituição da meritocracia escolar imperante no campo empresarial. A conseqüência imediata dessa articulação é o aumento da possibilidade de se influenciar os resultados do jogo pretensamente democrático da educação, garantindo a continuidade das descontinuidades.

É claro que não estamos diante de mera reprodução da estrutura pré-existente. Do lado especificamente burguês, não são todas as camadas que se adaptam da mesma forma ao novo sistema de reprodução social. Os agentes vindos de ambientes familiares mais anti-intelectuais adaptar-se-ão de forma mais problemática, talvez perdendo o pé ao postularem para si posições burguesas consideradas ilegítimas no novo modo de dominação (10).

Nesse caso, eles terão que se refugiarem setores menos dinâmicos da economia ou correr riscos sérios perante a concorrência, governo e outros agentes econômicos. Do lado pequeno-burguês, o novo arranjo permite a ascensão de indivíduos com background adaptado ao novo tempo, preterindo nesse processo as camadas das classes médias, cuja reprodução se faz pela obtenção de cargos públicos, em detrimento dos setores mais comerciais, com os setores escolares ficando a meio caminho (Grün, 1985, 1992).

Entretanto, sobra uma dúvida sobre a eficácia  simbólica da articulação "escola/posição ocupacional"  à brasileira. Trata-se de um sistema de legitimação em que os estratos dominantes conseguem controlar de maneira demasiadamente eficiente os vieses do nova processo de seleção social. Para funcionar de maneira adequada, o novo sistema deveria manter a verossimilhança da idéia de que a competição escolar é justa e que dela saem vencedores justamente os indivíduos mais inteligentes e mais capazes. Para isso, é fundamental a crença na igualdade de oportunidades proporcionada pelo sistema educacional.

Ainda que os sistemas de ensino dos países desenvolvidos possam ser criticados quanto ao seu caráter democrático por diversos flancos, eles guardam e se nutrem de um mito fundador bastante forte das virtudes da escola pública na revelação de capacidades encobertas de indivíduos provenientes dos estratos sociais mais baixos. Embora a margem para essas cooptações diminua radicalmente com o tempo, estão fixados na história daqueles países uma infinidades de exemplos que corroboram aquela crença.

No Brasil, não parece ocorrer nada parecido. O acesso universal à educação já começa dentro de uni quadro de assimetria completa, com as elites queimando mais este cartucho legitimatório antes do tempo, reafirmando também nesta questão a sua compulsão à "aceleração do tempo histórico" diagnosticada por Fernandes (1975 ). Mas se essa trama não parece ter muito futuro enquanto sistema legitimatório geral, válido para a sociedade como um todo, ele está sem dá vida alguma bem impregnado em nossos agentes e parece válido dentro do circuito fechado em que se encontrava o jogo que descrevemos. Afinal, a descontinuidade social parece ser um traço tão natural para os membro de nossas amostras que, quando eles pensam nas disputas por posições ou arranjos institucionais, já está implícito um número de atores reduzido aos membros da sociedade letrada e bem-educada.

As implicações desses resultados para os executivos participantes das OEs - que, como vimos, se caracterizam por um tipo de carreira próximo ao autodidatismo - são profundas, tensionando suas estratégias no sentido de induzi-los a investir febrilmente na cobertura de suas lacunas de formação, tanto técnica quanto social. Nesse quadro de constrangimentos., as OEs terão um papel cada vez mais ativo como uni instrumento de recuperação para provê-los daquelas duas espécies de atributos, balanceando o seu elenco de atividades de acordo com a premência maior ou menor de cada série de necessidades. A ilegitimidade maior e menor de cada um dos campos ditará esse ajuste, à medida que o recrutamento social dos membros de cada especialidade executiva revelou traços de homogeneidades marcantes.

O mito fundador do gerente brasileiro

A origem do arbitrário simbólico que produziu a trama especificamente brasileira da revolução dos gerentes no passado recente pode ser iluminada pela pesquisa dos heróis de nossos executivos. Nesse sentido, verificamos a existência de três núcleos significativos de exemplos referendadores de suas condutas e posições sobre a política, condução da economia e modo de vida em geral. O primeiro deles é de grupos de agentes que evoluíram de uma posição gerencial no fim da década de 60 e início dos anos 70, galgando posições sucessivas nas empresas brasileiras que, naquele momento, passavam por um processo de crescimento rapidíssimo. Os executivos em tela - dotados de um tipo de capacidade profissional então rara (a habilidade gerencial erudita) - começavam ocupando postos de gerência intermediária, subindo às diretorias, recebendo participações marginais nos ramos de negócios centrais das empresas de então, e participações mais significativas nos novos negócios que se abriam. Tais negócios, por sua vez, evoluíam para portfólios de propriedades bastantes significativos. Além de figuras de projeção em ramos de atividades específicos, podemos destacar o exemplo de Mário Garnero, ex-diretor da Volkswagen e ex-sócio da Brasilinvest. Note-se que no momento da pesquisa aquele personagem estava na berlinda, acusado de atividades ilegais. Ainda assim, ele era lembrado como um exemplo poderoso para nossos executivos. Podemos assim pensar na existência de instâncias consagratórias próprias do campo executivo, gozando de alguma independência em relação aos órgãos governamentais ou da imprensa.

Paralelamente, tínhamos agentes que investiam pequenos capitais em ramos novos como a eletrônica de aparelhos de som sofisticados, que guardavam uma imensa possibilidade de sucesso na sociedade consumista que estava se esboçando. A figura de Eugênio Staub, do grupo Gradiente, foi muito citado nessa rubrica. Paradoxalmente, Mathias Machline, do Grupo Sharp, que parecia ao autor uma figura similar, era visto com reticências, o que pode ser uma pista importante para pesquisas futuras. Além disso, tínhamos os novos séquitos tecnocráticos das diversas esferas de governo, que mal encobriam suas pretensões capitalistas. Vários dos chamados Delfim boys, integrantes das equipes de governo capitaneadas pelo ex-ministro Delfim Neto, eram citados pelos gerentes nesse capítulo, destacandose a figura de Ibrahim Eris, que posteriormente seria presidente do Banco Central do Brasil, além de figuras como Ozires Silva e Mário Henrique Simonsen.

Os três grupos de agentes tinham em comum uma estrutura de propriedades sociais, onde se destacava o novo tipo de capital cultural representado pelo management moderno. Observando a cena do fim da década de 1980, podemos ver os indivíduos egressos dessas três coortes, destacando-se na posição de líderes empresariais das diversas áreas e mesmo com projeção mais abrangente. Esse núcleo de agentes sinaliza para os seguintes membros de nossas amostras o caminho a seguir. Ideologicamente, eles serão ao mesmo tempo os campeões da camada moderna de patrões e os grandes exemplos para nossos executivos. Quando solicitávamos aos membros de nossas amostras exemplos de executivos ou de empresários-modelo, apareciam sempre figuras saídas daqueles três blocos, com maior proeminência para o primeiro e o segundo.

Da mesma forma, sempre que possível, eles escoravam as suas colocações em tomadas públicas de posição daqueles agentes. Aqueles mesmos indivíduos eram candidatos natos dos nossos gerentes para postos ministeriais ou de representação comercial. O conhecimento pessoal de alguns daqueles grandes empresários era também uma qualidade fortemente valorizada na nossa amostra. Enfim, eles eram as referências fundamentais para nossos agentes. Afinal, sua imagem social ambígua, ao mesmo tempo grandes empresários e grandes executivos, presta-se extraordinariamente para isso.

A trama acima nos dá acesso quase transparente ao ponto nevrálgico da "membrana" que separa e retine executivos e empresários. É sem dúvida através do canal representado por esta nova parcela do empresariado brasileiro que se faz a transmissão mais intensa e organizada de conteúdos entre os gerentes e á burguesia. Também podemos pensar na solidificação desse bloco ideológico "nos empresários modernos/gerentes" pelo não-aprofundamento da produção de identidades próprias da camada que pesquisamos.

Nos países centrais do capitalismo, podemos observar um impulso comum contribuindo para a foronação das imagens centrais das figuras das novas classes médias. Ainda que em contextos - e com resultados - bem diferenciados, tanto na França quanto na Alemanha ou nos países anglo-saxões, a literatura verifica a constância de uma necessidade de diferenciação ao mesmo tempo do proletariado e da burguesia enquanto blocos com os quais é impossível compactuar: do lado do proletariado, pela evidente necessidade de evitar a lumpenização; do lado da burguesia, pela sua impermeabilidade (Boltanski, 1982; Desrosieres, 1989). No Brasil, a esfera da atração da burguesia permanece viva e atuante através dos seus novos representantes, que acabamos de assinalar, justamente neste momento importante em que a questão de uma identidade politicamente trabalhada dos executivos poderia ser posta na mesa do mercado de representantes.

As vertentes culturais estrangeiras que trabalham diversas versões da revolução dos gerentes também cumprem um papel na trama, influenciando os agentes representados por nossa amostra. O caminho se faz através da capilaridade instituída pelos cursos de administração de diversos tipos, dos quais são clientes não só os alunos daquela opção profissional, mas também os alunos de engenharia, economia, ciências contábeis etc. A versão mais presente é a difundida pelos livros didáticos de administração que se inspiram em autores como Berle & Means, Galbraith, Burnham e outros. Temos uma infinidade de autores estrangeiros de vulgatas que foram traduzidos, além de estudiosos nacionais que produziram obras de inegável sucesso editorial, como Prestes Motta (1986).

Independentemente das nuances intelectuais de cada autor específico, de alguma forma próximos e de outra distantes, se pensarmos em termos exclusivamente teóricos, nossos agentes fixam alguns conceitos dessas leituras que irão referendar a apreensão subjetiva que eles fazem da realidade social e de sua posição na mesma. Centralmente, aparece a idéia da inevitabilidade da hegemonia do controle profissional sobre o controle realizado atualmente pela propriedade privada dos meios de produção. Assim, ainda que nossos agentes se choquem cotidianamente com a dura realidade do patrão e seu séquito de irracionalidades, eles sentem tal situação como provisória. Sintomaticamente, seus diagnósticos sobre os problemas organizacionais estão sempre estruturados em torno da maior ou menor prevalência do princípio do controle profissional. Por fim, organicistas sem o saber, os nossos agentes irão estender sua percepção da realidade organizacional para o Estado e a política em geral, postulando um governo profissional como a solução para nossos males (11).

Executivos e empresários

Os sistemas simbólicos operados por nossos atores nutrem-se da complacência taxonômica existente na sociedade brasileira, que não sedimentou no seu imaginário a figura do "executivo" como uma personalidade social específica. Assim, confundem-se todo o tempo os termos executivo e empresário, tanto nos meios cie comunicação quanto no cotidiano empresarial, em que os indivíduos. que recebem as delegações de autoridade típicas da posição do executivo tendem a vivenciar de corpo e alma o papel de empresário. Esse aspecto ilumina um traço constante de nossos entrevistados, tango da pesquisa atual quanto de diversas outras anteriores. Todos eles vislumbram como expectativa otimista de futuro a independência financeira através do engajamento por conta própria em funções de consultoria e de assessoramento em geral.

Examinando tais pretensões, podemos verificar uma série de maneiras através das quais elas fazem sentido dentro do sistema simbólico e do quadro geral de possibilidades dos agentes. Primeiro, os dados da realidade: as enormes brechas para acumulação de capitais que existiam na época do milagre econômico do fim dos anos 1960 encolheram com o fim do ciclo expansivo, tornando infactível o caminho trilhado pelos executivos bem-sucedidos do passado dourado. Sobram, entretanto, maneiras de rentabilizar o capital cultural dos indivíduos muito mais eficientemente do que na relação de trabalho assalariado, colocando-o em circulação de maneira controlada e em espaços antes virgens.

A adaptação do tecido econômico brasileiro à crise dos anos 1980, através da introdução maciça das novidades organizacionais inspiradas no paradigma industrial japonês e da procura de mercados consumidores estrangeiros, com exigências de produtos de melhor performance, fizeram das empresas brasileiras clientes ávidos para trabalhos tanto de consultoria organizacional e técnica quanto de adequação dos produtos aos mercados estrangeiros, realizados pelas trading companies. Esses dois campos estarão abertos, à espera dos nossos agentes. Bem claramente no caso da consultoria e de maneira pouco mais nuançada no caso da promoção do comércio internacional, as duas atividades tiveram seu mercado criado pela ação das empresas multinacionais de serviços que se instalaram no Brasil aplicando receitas que já haviam alcançado sucesso em outros países. As firmas de consultoria produziam no campo empresarial brasileiro um tipo de necessidade até então pouco desenvolvido, mas tinham a sua capacidade de atendimento bem menor do que o potencial de mercado que elas despertavam. Desta forma, abrem-se espaços para que os agentes do universo que pesquisamos se insiram individualmente como ofertantes desses serviços, aumentando o leque de produtos oferecidos no mercado.

Em termos simbólicos, essas atividades combinam de forma perfeita com o novo ethos dos agentes, produzido em parte através dos constrangimentos do novo padrão de sociabilidade. Nos períodos anteriores, tínhamos uma classe média tradicional rigorosa, poupadora, voltada para investimentos patrimoniais seguros. A utilização das alternativas públicas de ensino - então de qualidade - era praticamente monopolizada pelos membros dessas camadas, sem pressionar seus orçamentos familiares. Já as classes médias modernas estão defronte da sociedade de consumo: trata-se aqui de investir nas próprias pessoas. O consumo virou investimento, através das estratégias de acumulação de capital social, via despesas suntuárias, absolutamente necessárias numa sociedade em que o blefe social se institucionaliza. Assim, nossos novos pequeno-burgueses tornam-se réplicas liliputianas do capitalista de Kalecki (1976), aquele que ganha o que gasta.

O ramo de negócios da consultoria tem como particularidade um tipo de acumulação primitiva de capital econômico que entra em sintonia fina com o novo tempo. Aqui, o capital inicial é o próprio curriculum vitae dos indivíduos que se propõem à prestação de serviços. Além disso, o proponente entra no circuito de negócios impulsionado pelo seu capital social. Assim, esses dois eixos articulam-se perfeitamente com a nova modalidade de consumo produtivo. Suplementarmente, neste ramo desaparecem da vista as duras relações de exploração direta de mão-de-obra, típicas dos pequenos negócios tradicionais, no seio das quais nossos agentes sentir-se-iam muito pouco à vontade.

Por sua vez, as imobilizações em instalações e equipamentos, em geral pouco importantes em relação às cifras de negócios, serão feitas pela capitalização produzida através da própria atividade. Real ou fictícia, essa trama está bem clara nas intenções de nossos entrevistados. Se o passo crítico na direção da consultoria não é dado pela maioria dos executivos, ele sempre surge como um futuro interessante e possível.

Mais do que uma terceira classe postada entre o capitalista e o trabalhador, nossos executivos consideram-se então como uma espécie de capitalistas sem capital, capitalistas em germe, ainda que transpareçam alguns traços dos pontos de vistas autônomos, como na questão da racionalidade empresarial. Poderíamos mesmo dizer que, uma vez definido o padrão atual de complacência e de porosidade da fronteira executivo) empresário, os primeiros vêem a sua condição atual como passageira, numa viagem que os levará às novas posições burguesas.

Assim, a nossa revolução dos gerentes pode ser adequadamente considerada como um fator que age na direção da mudança do padrão legítimo de empresário, tensionando as estratégias de produção de herdeiros burgueses e pequeno-burgueses, no sentido de enquadrá-las ao esquema do "modo de reprodução social com componente escolar''. Agora, como talvez mesmo antes em formas que ainda não foram explicitadas pela pesquisa histórica, não basta o agente ter direitos legais para ascender à condição de empresário. Temos na verdade uma espécie de ressocialização intraburguesa, na qual os herdeiros são selecionados segundo um critério ampliado, fora algumas vezes das famílias nucleares de seus antecessores, mas mantendo a homogeneidade de classe. Uma pesquisa centrada nas estratégias de casamento burguesas poderia mostrá-las como uma forma consistente de "corrigir" as eventuais ausências de herdeiros diretos nas famílias de empresários, como demonstra Bourdieu (1989) para o caso francês.

Executivos e operários

No mundo executivo internacional, a década de 1980 foi marcada pela descoberta do potencial de trabalho encoberto pelos operários. Essa força estava sendo subaproveitada nos arranjos fabris de inspiração taylorista. A capacidade de transformar o potencial em mais produtividade e mais qualidade nos produtos industriais passou a ser um quesito essencial no figurino do gerente atualizado. Mas o taylorismo não é simplesmente uma ferramenta de gestão industrial, aplicável em algumas circunstâncias e descartável em outras. Na verdade, preconizando a separação absoluta entre o fazer e o pensar, ele corresponde também a um habitus, um sistema de disposições mentais tornadas rígidas pela ação do tempo e praticamente naturalizadas, instituídas pela socialização dos indivíduos desde a primeira infância, estando em sintonia com uma sociedade altamente descontínua como a brasileira e com as estratégias de preservação dos espaços atribuídos aos gerentes de modo geral. Isso significa que a superação efetiva dos pressupostos tayloristas por parte dos gerentes esbarra em conteúdos emocionais profundos, dificilmente superáveis pela simples vontade de mudar.

Em universos empresariais em que a distribuição do capital social e cultural é mais simétrica, a superação dos condicionantes do habitus gerencial é mais viável do que no Brasil. Aqui podemos observar gerentes desconsiderando sistematicamente as contribuições operárias às tarefas de planejamento e de condução das fábricas, reiterando assim os pressupostos da sociedade descontínua.

Semanticamente, podemos notar uma tendência consistente a fazer com que as sugestões vindas do mundo operário sejam consideradas como espertezas, um termo de conotação doméstica, que se contrapõe ao conhecimento legítimo, sendo assim desqualificado. Mas as formas de se lidar com a esperteza operária variam, principalmente em relação às gerações de gerentes. Mais ainda, elas começam a demarcar o campo gerencial, atribuindo um alto valor aos gerentes que se sentem mais à vontade dialogando com os operários de suas empresas ou com seus representantes.

Sintomaticamente, podemos verificar a oferta de "pacotes de participação operária" como um dos principais produtos das empresas de consultoria no início da década de 1990, mais ou menos como foram as primeiras aplicações de computadores na gestão administrativa na década de 1970, ou os sistemas de planejamento e controle da produção e dos estoques no início dos anos 1980. Essas empresas dão ênfase justamente à comercialização de técnicas gerenciais consideradas modernas, que dificilmente poderiam ser aplicadas pelo pessoal médio das empresas. De fato, a capacidade de manipular esses novos produtos ou instrumentos de gestão assinalam barreiras que os executivos que. foram socializados em configurações anteriores do campo dificilmente ultrapassam.

Assim, gerentes formados antes do advento do computador nas empresas tendiam a ver esta nova ferramenta como uma "espécie de máquina de calcular sofisticada". Armados por esta visão, eles perdiam muitos pontos na competição intergerencial para seus desafiantes mais novos, os quais acabavam transformando a introdução dos computadores numa verdadeira catapulta com a qual bombardeavam as posições conquistadas em outros tempos por seus concorrentes mais antigos, terminando por suplantá-los de maneira quase absoluta (Grün, 1985).

Similarmente, o trato com as formas de participação operária, considerada essencial nas novas fábricas automatizadas, começam a constituir-se numa arma das novas gerações de pretendentes a cargos gerenciais do fim do século XX. Apesar das dificuldades estruturais motivadas pela descontinuidade da sociedade brasileira, o desencadeamento da força social gerada por este novo conflito intergerencial poderá ter um impacto não-negligenciável sobre o campo gerencial, ajudando a contornar as dificuldades dialogais existentes entre operários e gerentes.

Conclusão

A dinâmica simbólica gerada no campo gerencial brasileiro produziu um padrão de modernidade que em muitos sentidos está em sintonia com os usos imperantes nos países centrais. A idéia da gerência profissional como uma força superior de condução das empresas parece-nos o seu traço mais marcante. Esse conteúdo pode ser considerado como uma "matriz de sentidos", gozando de um forte poder de espraiamento, condicionando as estratégias de reprodução social de diversos grupos sociais. Neste processo, o ethos das classes médias urbanas tende a mudar, adequando-se às modalidades de acumulação de capital cultural, social e econômico vigentes no novo modo de dominação. As formas como os gerentes tendem a lidar com a sua educação continuada e com a formação de seus filhos, assim como as estratégias que eles anunciam como capazes de levá-los à condição de empresários, são indicadores muito fortes para assinalar essa tendência.

A complacência taxonômica que identificamos, unindo a figura do executivo à do empresário, sugere a profunda ambigüidade da caracterização social de nosso personagem central. A não-sedimentação de um "tipo ideal" de executivo no imaginário social brasileiro, contraposto tanto aos empresários quanto aos assalariados sem responsabilidades gerenciais, assinala uma particularidade interessante da configuração dos campos empresarial e gerencial nacionais; acarretando conseqüências evidentes para o desenvolvimento de identidades de classe média moderna.

A rápida difusão dos métodos de gestão de origem japonesa e dos diversos modismos imperantes nos centros nervosos do capitalismo mundial na década cie 1980 é um fenômeno que concentra as ambigüidades da modernização do campo gerencial - e empresarial brasileiro. As dificuldades de absorção efetiva dos esquemas industriais ou organizativos que postulam o engajamento de "corpo e alma" da mão-de-obra ainda simplesmente executora, ao lado da propaganda incessante da necessidade desses métodos como única saída para as mazelas do capitalismo industrial brasileiro, apontam uma contradição interessante, fundamental para o desenvolvimento futuro da sociedade brasileira. Sem ambigüidades, a superação ou não desse impasse assinalará a diferença entre a modernidade real e a modernidade de araque.

Finalmente, é necessário frisar que o estudo do universo gerencial brasileiro, mesmo sendo fundamental para o conhecimento da dinâmica atual da sociedade brasileira, é ainda objeto carente de estudos sociológicos. Portanto, muitos pontos da presente análise estão prejudicados por falta de trabalhos anteriores e de séries estatísticas que controlem seus resultados.

NOTAS

1 - A palavra "executivo", com a acepção "gerente", é um termo de origem recente na língua portuguesa. Trata-se da transliteração do termo norte-americano "executive". O primeiro uso que registramos desta palavra na imprensa de massa no Brasil foi no Jornal da Tarde, de 21.05.1973, num artigo com os seguintes título e lead: "OS HOMENS QUE MANDAM NAS EMPRESAS (ELES NÃO SÃO OS DONOS). São os executivos. Ganham entre 10 e 15 mil mensais; andam bem vestidos, mas com discrição; não gostam de aparecer em fotos; e procuram fazer com que a empresa progrida sempre. Tudo de acordo com a orientação geral, recebida do dono."

2 - Em trabalho anterior (GRÜN, 1986), denominei este gênero de atores de "autodidatas reconvertidos" e delineei seus principais traços sociológicos.

3 - Podemos medir a progressiva institucionalização das OEs pelo espaço crescente que elas ocupam nos meios de comunicação especializados, em detrimento das "grandes figuras" de momentos anteriores. O valor da carteirinha de sócio da OE de sua especialidade é também considerado como uma garantia de cidadania profissional de seu portador perante a comunidade executiva em geral e os especialistas em recrutamento e seleção em particular.

4 - Como exemplo de composição de associados por diploma de origem, anotamos abaixo a tabela levantada em 1988 para o IBEF (Instituto Brasileiro de Executivos Financeiros), seção do estado de São Paulo: administradores, 38,4%; economistas, 29,5%; contabilistas, 13%; engenheiros, 9,5%; advogados, 6,3%; sem diploma superior, 1,7%; outros, 1,6%.

5 - Ao nosso ver, a hipótese mais consistente que explicaria esta inversão estaria relacionada com uma espécie de rejeição da sociedade civil - os órgãos de comunicação que realizam as tarefas de consagração gerencial aí incluídos - aos excessos personalistas do autoritarismo governamental, que destilava de todos os poros da sociedade nos momentos anteriores. O "basismo" inspirado na Teologia da Libertação representava uma reação consistente a este estado de coisas e contaminava os setores intelectualizados das classes médias, para daí irradiar-se para outras zonas do espaço social, influenciadas pelos trabalhos de consagração realizados por aquelas camadas. Como, pelo menos num primeiro momento, o jornalismo de negócios - em que milhavam profissionalmente muitos indivíduos daquelas camadas - teve um papel primordial na legitimação das OEs, temos a convergência inesperada.

6 - Analisamos em detalhe esta oposição in GRUN, 1990, cap. 2.

7 - A virada à direita do eleitorado em zonas eleitorais da capital de São Paulo, como Jardim Paulista, Indianópolis, Santo Amaro e Vila Mariana - onde habita a maior parte dos membros de nossa amostra - nas eleições estaduais de 1990, analisada por PIERUCCI & LIMA (1991), pode ser indicativa de um reforço desta tendência.

8 - As disciplinas que dão o cuore dos cursos de administração - teoria das organizações, finanças, mercadologia - são ensinadas através de métodos distantes da pedagogia tradicional dos cursos de matemática, biologia ou línguas. Talvez por isto elas sejam vistas como "enrolação" pelos estudantes que colocam a acumulação de capital cultural escolar no centro de suas estratégias de profissionalização. Embora aquela caracterização simplória tenha perdido terreno sob o impacto do fascínio alcançado pela moda yuppie, ela foi muito presente nos ambientes que forjaram os indivíduos que agora estão em idade gerencial.

9 - Pesquisa posterior, versando sobre a formação de um segmento dominado por descendentes de armênios no comércio de calçados em São Paulo, mostrou-nos diversas tensões entre os arranjos familiares que produzem herdeiros para os negócios e a formação de espíritos gerada nas universidades (GRÜN, 1992).

10 - A manutenção dos nichos de especialização funcional, como a que descrevemos em GRÜN (1992, cit.) pode ser razoavelmente entendida como uma decorrência deste processo. Ela mostra uma possibilidade de contrarrestar os efeitos da configuração que estamos descrevendo, mas mesmo assim de forma bem nuançada.

11 - Podemos avaliar a força dos conteúdos gerados pelo novo modo de dominação gerencial na opinião pública brasileira através de múltiplos indicadores. Ligados diretamente ao nosso tema, ressaltamos a celeuma causada em torno de "nomeações sem concurso público" no setor governamental ou de contratações "fora do perfil"  no universo restrito das empresas privadas. Destacamos, pela sua visibilidade mediática, a reação dos órgãos de imprensa das cidades mais desenvolvidas do país a aspectos patrimonialistas do governo Sarney, como a manutenção do seu séquito familiar no assessoramento das atividades de governo.

Bibliografia

 

ALLO, E. (1984) "Un nouvel art de gouverner; Leibniz et la gestion savante de la société par les assurances". Actes de la recherclae en Sciences Sociales (ARSS), n. 55, pp. 33-40.

BACHA, E. & KLEIN, H. S. (orgs.) (1986). A transição incompleta: Brasil desde 1945. Rio de Janeiro, Paz e Terra (2 vols.).

BOLTANSKI, L. (1982). Les cadres; la formation d'un groupe social. Paris, Ed. de Minuit.

BOLTANSKI, L. & THEVENOT, L. (1987). "Les économies de la grandeur". Cahiers du CEE, série Protée, CEE-PUF.

ROURDIEU, P. (1989). La noblesse d' Etat. Paris, Ed. de Minuit.

BRINTON, M. C. (1991). "Institutions and human capital development", in Bourdieu, P. & Coleman, S. (eds.) Social theory for a changing society. Boulder, Westview Press.

BURNHAM, J. (1966). The managerial revolution, Londres, Penguin.

CASTEL, R. (1983). "De la dangerosité du risque". ARSS, n. 47-48, pp. 119-127.

CROZIER, M. & FRIEDBERG, E. (1977). L' acteur et le système. Paris, Ed. du Seuil.

DESROSIERES, A. (1989). "Comment faire des choses qui tiennent: histoire sociale et statistique" (comunicação ao colóquio Histoire sociale, histoire globale?). Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), Paris.

DESROSIERES, A. & THEVENOT, L. (1988). Les catégories socio-professionelles. Paris, La Decouverte.

DUBY, G. (1982). As três ordens ou o imaginário do feudalismo. Lisboa, Estampa.

ELIAS, N. (1974). La société de cour. Paris, Calmann-Lévy.

FERNANDES, F. (1976). A revolução burguesa do Brasil, Rio de Janeiro, Zahar.

FREIDSON, E. (1986). Professional powers. Chicago, University of Chicago Press.

GALBRAITH, J.K. (1984). O novo estado industrial, São Paulo, Abril Cultural.

GRÜN, R. (1985). A produção de uma empresa moderna: os bancários e a automação (dissertação de mercado), mimeo. São Paulo, PUC-SP.

_______. (1986). "Taylorismo e fordismo no trabalho bancário: agentes e cenários", Revista Brasileira de Ciências Sociais (ANPOCS), vol. 1, n. 2, pp. 13-27.

_______. (1987). Trabalho manual e trabalho intelectual: algumas considerações a partir da situação empírica do Brasil dos anos 80. Rio de Janeiro, ANPAD.

_______. (1990). A revolução dos gerentes brasileiros (tese de doutoramento), mimeo. Campinas, IFCH/ UNICAMP.

_______. (1992). Armênios em São Paulo: negócios em família. São Paulo, Ed. Sumaré/IDESP.

KALECKI, M. (1976). "Teoria da dinâmica econômica", os pensadores, XLVII, São Paulo, Ed. Abril, pp. 55-207.

PIERUCCI, A.F. & LIMA, M.C. (1991). "A direita flutuante". Novos estados CEBRAP, n. 29 (março), pp. 1027.

PRESTES MOTTA, F. (1986). Teoria geral da admrnistração: uma introdução. São Paulo, Pioneira.

ZILBOVICIUS, M., FERRO, J.R. & GRÜN, R. (1986). Novas estratégias patronais e novas respostas operárias: a operação vaca, Campos do Jordão, ANPOCS.