Há vinte anos, a sociologia crítica, fosse radical ou moderada, não
tinha palavras duras o bastante para atacar o quadro conceitua) então dominante
do estrutural-funcionalismo. Seus alvos eram dois: o funcionalismo (o
pressuposto de que as sociedades tendem ao equifbrio) e a teleologia (o
pressuposto de que o progresso termina com o advento do capitalismo e a missão
do passado é trazer o presente). O marxismo fornecia munição para a investida
contra as muralhas do estrutural-funcionalismo. O centro do interesse
deslocou-se então da harmonia e da estabilidade para o conflito e a mudança. A
representação do capitalismo como fim da historia deu lugar a uma crítica
humanista do capitalismo. Contra um futuro concebido como aperfeiçoamento do
presente, a sociologia crítica construiu a representação de um futuro situado
além do capitalismo, em que os males seriam abolidos.
Na condição de arma da crítica, o marxismo foi reconhecido como um
quadro conceitua) à parte na sociologia. Hoje, o marxismo é freqüentemente
enfiado no mesmo saco que o estrutural-funcionalismo. Marx e o marxismo foram
considerados culpados de funcionalismo e teleologia. Essas velhas críticas
partem agora de novos setores - o individualismo metodológico e, mais
precisamente, os modelos de explicação da ação em termos de escolha racional.
Essa crítica foi formulada com maior rigor no interior do próprio marxismo e
encontrou sua expressão mais acabada na obra de Jon Elster, Making Sense of
Marx. Nesse livro complexo, de extraordinária erudição, Elster acusa Marx
de explicar a causa a partir das conseqüências, sob duas formas: uma forma
sincrônica, em que uma instituição (o Estado, por exemplo) é explicado por seus
efeitos (no caso, a reprodução do capitalismo); e uma forma diacrônica, em que
um futuro hipotético (o comunismo, por exemplo) explica o passado ou o presente
(a missão da burguesia é criar as bases materiais e sociais do comunismo).
Elster tenta despojar Marx de sua metafísica, salvando a única forma de
causalidade que seria digna de confiança: as conseqüências da ação individual.
O individualismo metodológico é “a doutrina segundo a qual todos os fenômenos
sociais - sua estrutura e transformações - são em princípio explicáveis por
meio de elementos que não implicam senão indivíduos: suas propriedades, seus
fins, suas crenças e seus atos” (p. 5). Como afirmou recentemente Stinchcombe,
a macrossociologia é a sociologia que se refere a coletividades.
Elster apresenta uma lista impressionante de tudo que se deve abandonar
em Marx. Sua teoria econômica pertence ao museu do saber. A fonte do problema
revela-se ser a lei do valor, que é “no melhor dos casos, inútil, e no pior -
que é freqüente-perigosa e enganadora” (p. 120).
Essas críticas soam familiares: por que então Elster, que c filósofo,
sente necessidade de apresentar suas reflexões sobre a teoria econômica de
Marx? A fonte de sua irritação deve ser buscada, ao que parece, no plano das
pretensões ontológicas da lei do valor. Na medida em que a única causalidade
real é constituída pela ação individual, ele não precisa mais se preocupar com
as estruturas subjacentes, as essências (como o valor) dissimuladas sob as
aparências (preços, lucros etc.). De fato, Elster interpreta a distinção entre
essência e aparência não como uma diferença ontológica, mas como a projeção
errônea de um ponto de vista local sobre o nível global. Aqui, o individualismo
metodológico torna-se um individualismo ontológico: o indivíduo é a única realidade
de que temos certeza.
Da teoria econômica da produção capitalista, Elster passa ao
materialismo histórico, a filosofia marxista da história. Tenta então construir
a interpretação mais plausível para explicar o fato de que as relações de
produção, que numa primeira fase estimulam o crescimento das forças produtivas,
acabam por entraválas, e o fato de que, em conseqüência, as relações de
produção devem dar lugar a outras relações.
Reencontramos aqui o problema da teleologia marxista. As etapas anteriores
da história tendem irresistivelmente a se tornar as condições necessárias das
etapas posteriores: essa atitude não apenas engendra confusão na ordem
intelectual, mas está na origem de desastres políticos como o estalinismo e a
revolução cultural: “Deveríamos conservar o respeito pelo indivíduo que está no
cerne da teoria marxista do comunismo, mas não pela filosofia da história que
autoriza a considerar os indivíduos pré-comunistas como meros animais
destinados ao matadouro” (p. 118).
Segundo Elster, há outra concepção da história dificilmente compatível
com o princípio do desenvolvimento inelutável das forças de produção: é a
história considerada como a história da luta de classes. A observação nada tem
de novo, mas fornece uma abertura para o individualista metodológico
(convertido em adepto da teoria dos jogos) lançar novas luzes sobre o problema
da ação coletiva e o da constituição de um ator coletivo. Elster discute os
obstáculos à ação coletiva: os riscos do engajamento solitário (os custos da ação
unilateral) e as vantagens da abstenção para o indivíduo que deixa que os
outros empreendam uma ação coletiva (o problema do free rider). Por
outro lado, há ganhos que o indivíduo pode esperar obter da cooperação. Esses
fatores devem ser relacionados com as condições cognitivas da ação coletiva.
O autor se volta em seguida para os determinantes secundários da ação
coletiva, como o tamanho do grupo considerado, a distância entre os seus membros,
a renovação de seu recrutamento, seu grau de homogeneidade e o estado da
tecnologia - tudo o que Durkheim incluía na noção de densidade moral. Tratando
esses elementos como forças sociais não explicadas, Elster sucumbe ao
coletivismo metodológico, através da asserção de que “existem entidades
supra-individuais que precedem os indivíduos na ordem da explicação” (p. 6).
Sem dúvida, ele pode afirmar que este é um expediente temporário; na prática,
porém, cada vez que explica um fenômeno social em termos de propriedades
individuais, é forçado a recorrer ao coletivismo metodológico. Será então
possível ao individualismo metodológico dizer coisas sociologicamente
pertinentes sem violar seus próprios postulados?
Reencontramos aqui uma velha história: tomando os interesses
individuais como ponto de partida, os modelos do ator racional têm dificuldade
em explicar o caráter onipresente da ação coletiva e dos movimentos sociais. A
partir dessa relação, Elster tem a engenhosidade de fornecer explicações ad hoc
para a ação coletiva - dilemas do prisioneiro, no que se refere à ação dos
capitalistas, e “externalidades” para a ação da classe operária. Essas
tentativas, embora forneçam um quadro que pode ser útil para formular a
questão, deixam coisas demais sem explicação.
De fato, quando chega à análise da política, Elster reconhece por meias
palavras o caráter inadequado das soluções que propõe. É obrigado então a
suspender sua adesão ao individualismo metodológico para considerar que as
classes são atores coletivos. Mostra como o pensamento de Marx passou de uma
visão instrumental do Estado (simples instrumento nas mãos da classe
capitalista) a uma visão que dá espaço a uma autonomia relativa do Estado. Mas,
sustenta Elster, Marx só podia explicar a autonomia do Estado afirmando que tal
autonomia servia aos interesses da classe capitalista. De sua parte, considera
mais satisfatória uma teoria alternativa do Estado, fundada no “equilíbrio das
classes”, que faz a autonomia do Estado emergir do conflito entre o capital e o
trabalho.
Em princípio, o fato de constituir o capital, o
trabalho e o Estado como três atores racionais deveria trazer novos elementos
de explicação para as relações entre o político e o econômico. Na prática, essa
tentativa é uma ilustração dos limites da teoria dos jogos, que já enfrenta
dificuldades suficientes quando trata de dois atores, que dirá de três. Mas há
algo mais grave que as deficiências técnicas da teoria dos jogos: trata-se de
seus limites conceituais. Elster define a classe como “um grupo de pessoas que,
em virtude do que possuem, são compelidas a se engajar nas mesmas atividades se
quiserem utilizar da melhor forma os recursos de que dispõem” (p. 331). Pode-se
supor que o Estado deve ser definido da mesma maneira. Tal definição, porém,
deixa de lado - ou antes, toma como evidente - a determinação desses recursos e
os fins que os atores vão perseguir. A teoria dos jogos como tal não pode
explicar as ordens de preferência ou a distribuição dos recursos. Apesar dos
corajosos esforços de Elster para mostrar como os resultados dos jogos podem
ter efeitos retroativos e transformar ordens de preferência, a operação não tem
qualquer caráter sistemático. Esses esforços são sugestivos, mas não permitem
construir uma macrossociologia sobre microfundamentos. Por outro lado, a beleza
da teoria marxista reside na concepção relacional da classe: é o caráter
relacional que funda ao mesmo tempo os recursos e os fins de seus membros.
A título de princípio metodológico e de ponto de partida, a teoria dos
jogos pode ser útil para a análise do comunismo, estado em que as pessoas se
engajam voluntariamente em relações sociais e no qual a história é feita
coletiva e conscientemente. Nas sociedades de classe, em que as relações
sociais centrais preexistem aos indivíduos, a história se faz às nossas costas.
Nenhuma acrobacia com os conceito de força e de coerção pode permitir escapar
ao postulado marxista da anterioridade das relações sociais que são
“necessárias e independentes de nossa vontade”.
É verdade que, no capitalismo, o âmbito da escolha individual está em
contínua expansão. Devemos escolher empregadores, escolas, televisores, casas,
médicos, presidentes, dentifrícios, microcomputadores e detergentes. Forçados a
nos engajar em tais estratégias, tendemos à obsessão das incertezas e das
diferenças que afetam os resultados. Em conseqüência, as condições que
estruturam nossas disposições para escolher, assim como o espaço dos possíveis, permanecem na obscuridade ou são neutralizados a
ponto de se tomarem inevitáveis. Reduzir a explicação dos fenômenos sociais à
ação estratégica individual é transformar os efeitos em fetiche, confundir
causa e conseqüência: é exatamente deste pecado que Elster acusa Marx.
Efetivamente, a teoria dos jogos e o individualismo metodológico são a
perfeita antítese do projeto marxista. Não surpreende, portanto, que as
observações mais pertinentes de Elster pouco tenham a ver com seus enunciados
programáticos: às vezes ele parece mesmo romper explicitamente com o individualismo
metodológico, quando afirma que as relações sociais preexistem aos indivíduos
(pp. 94-95). Eventualmente, Elster sucumbe a uma “falta de disciplina
intelectual”.
Ao final da investida de Elster, já não resta grande coisa de Marx. Sua
teoria da história, sua teoria econômica e sua teoria política são consideradas
deficientes. As ambigüidades da obra são expostas, as inconsistências são
denunciadas como sinais de confusão ou como uma maneira de tomar os próprios
desejos como realidade. São relegados o combate intelectual que Marx
empreendia, fazendo aparecer no seio do presente forças capazes de desempenhar
um papel-chave na emergência do futuro, assim como seu interesse pela polêmica
política e pelo desafio às tradições intelectuais. Em vez de reinserir Marx no
contexto de uma luta intelectual travada em diferentes frentes, e de atribuir
suas “tendenciosidades” e “paixões” à sua posição social, Elster separa a obra
e o indivíduo e constrói um Marx fictício. Para tanto; reúne laboriosamente os
trechos mais desencontrados da obra de Marx, situando no mesmo plano passagens
obscuras das Teorias da mais-valia e da Sagrada Família e seus textos
publicados.
Esta talvez seja a tarefa do filósofo: purgar uma obra de suas
contradições e ambigüidades. Mas tal empreendimento impede captar o verdadeiro
sentido do trabalho de Marx, que era tanto economista, sociólogo e historiador
quanto filósofo. Para captar o sentido dos escritos de Mano é preciso vê-los
tanto como uma conversa com outros quanto como um monólogo interior. Não se
pode, assim, identificar o diálogo de Marx com Hegel ao que ele mantém com
Smith: semelhante redução impõe um holismo errôneo. As contradições e as
anomalias que podem ser detectadas no trabalhos de Marx são o produto de seu
esforço para explicar as transformações e processos de diferenciação em curso
no mundo real e são a expressão de um desafio lançado a diversas correntes
intelectuais. Ademais, essas contradições e anomalias formaram o próprio teme e
a fonte de inspiração da teoria marxista. Abolilas equivale a abolir essa
tradição.
Elster despoja Marx de seu verdadeiro sentido. Cabe-me, agora, definir
o sentido do que ele, Elster, fez. Para isto, podese proceder em duas etapas:
fazendo a lista do que tem sentido em suas críticas e situando seu trabalho.
Podemos concordar com Elster quanto à crítica da teleologia e do funcionalismo,
sem por isso trocá-los pelo individualismo metodológico. A filosofia da
história de Marx pode ter deixado de ser convincente, mas não deixa por isso de
fornecer uma lista específica de questões. Se não é inevitável, será o
comunismo possível? Constitui uma sociedade viável? Sobre este ponto, Elster
tem coisas interessantes a dizer, que se fundam todas nas contradições de uma
sociedade cuja razão de ser é a realização individual. E se essa sociedade é
viável, como se pode chegar a ela? E, se for o caso, a partir de que sociedade
a transição para o comunismo é possível? Como tal transição poderia ocorrer?
Quais são os futuros possíveis para o capitalismo e o socialismo de Estado?
Na teoria marxista do Estado, o funcionalismo continua sendo um ponto
de partida essencial. Segundo Cohen, é importante distinguir entre caráter
funcional e explicação funcional. Assim, uma coisa é afirmar que o Estado
apresenta um caráter funcional para o capitalismo, porquanto contribui para sua
reprodução - afirmação que Marx e os marxistas sustentaram contra os que não
vêem no capitalismo um sistema carregado de contradições, conflitos e
tendências à crise. Outra coisa é explicar de que modo 0 Estado contribui para a reprodução do capitalismo. Embora não esteja no
livro de Elster, esta última questão forneceu as bases do debate sobre as
teorias marxistas do Estado.
Se a lição de método que podemos extrair do livro de Elster é uma lição
de prudência com relação à explicação causal, a contribuição mais substancial é
constituída pelos comentários feitos à teoria marxista da ideologia e pela
reconstrução da mesma, que ele propõe. Elster postula a existência de certo
número de mecanismos que podem ser encontrados em Marx, pelos quais os
indivíduos acabam tendo imagens deformadas do mundo. Escravos de seus produtos,
os homens cuja principal preocupação é criar idéias acreditam que estas
governam o mundo, ao passo que outros, por causa de sua situação miserável, são
levados a inventar um ser transcendente. Por esses mecanismos de abstração e
projeção, produzse uma imagem invertida do mundo. Tomar os próprios desejos
como realidades constitui um segundo mecanismo: encontra-se uma ilustração disto,
por exemplo, na pretensão de uma classe de apresentar seus interesses próprios
como a expressão do interesse geral. Um terceiro mecanismo, cuja especial
originalidade (em Marx) Elster destaca, é constituído pela compreensão da
totalidade com base na perspectiva de uma parte, definida como “erro de
composição”. Por não dependerem de um capitalista em particular, os
trabalhadores pensam que são independentes de todos os capitalistas. (Será
assim?) Os capitalistas pensam que a escolha que se abre a um deles está
simultaneamente aberta a todos, o que os conduz a uma visão falaciosa, segundo
a qual o dinheiro engendra o lucro independentemente da produção.
Na base de diversos argumentos de Elster sobre a construção da
ideologia, encontra-se o postulado de uma “verdade” em relação à qual é
possível medir as distorções. Elster deplora sistematicamente o fato de as
paixões de Marx terem sobrecarregado sua obra de tendenciosidades, composições,
exortações e ilusões. Ao que parece, ele próprio escapa às tendenciosidades e
aos preconceitos mediante o pensamento claro. Elster se retrata assim como
retrata Mata: abstraindo todo o contexto institucional. O individualismo
metodológico faz eco ao desejo ilusório dos intelectuais de escapar da
estrutura social que aprisiona todos os demais indivíduos. O individualismo
metodológico toma-se um dualismo metodológico: os trabalhadores e os
capitalistas, em virtude de suas funções objetivas, das ordens de preferência e
dos recursos de que são dotados, são levados a desenvolver imagens deformadas
dos processos sociais, ao passo que os professores universitários, desde que
façam um pequeno esforço para evitar cair nas ciladas do funcionalismo e da
teleologia, são capazes de atingir a verdade. Tal dualismo é a expressão do
isolamento dos acadêmicos, que os leva a construir uma visão global do mundo a
partir de um ponto de vista local (o deles): é o que se poderia chamar o erro
de decomposição.
Elster é vítima de outra de suas próprias distorções ideológicas: o
imperialismo conceituai. Marx acusava os economistas burgueses de
universalizarem os efeitos ideológicos do capitalismo, aderindo ao
individualismo metodológico: pode-se fazer a mesma censura a Elster. O
individualismo metodológico não é mais aplicável à história da humanidade do
que o fetichismo da mercadoria.
Elster se engana se acredita que basta emitir um julgamento sobre o que
continua interessante em Marx para se libertar da prisão da história. Não há
leitura inocente de Marx, não há Marx purificado. O que vale a pena salvar em
Marx, num dado momento da história, depende dos problemas desse momento e da
posição social daquele que procura a resposta. Todos os marxistas têm interesse
em descobrir o que é verdadeiro e importante em Marx, mas esse interesse é
relativo ao contexto histórico e social. Este é o próprio sentido da tradição
marxista. A verdade não é redutível à correspondência com os fatos e à
coerência interna - ela depende de uma tradição de pensamento.
O livro de Elster não passa de uma resposta ao refluxo dos movimentos
sociais e ao recuo do marxismo. Periurbamno as heranças metafísicas que atrasam
o percurso do marxismo. Mas, ao livrar o marxismo desse peso, Elster deixou
apenas um frágil invólucro, que se assemelha ainda menos ao modelo original.
Elster deve escolher: marxismo ou individualismo metodológico.
O livro do paulistanista Maurício Font, como ele mesmo gosta de se
denominar, faz parte da coleção Studies in Social Discontinuity, editada por
Charles Tilly, da New School for Social Research. Essa referência vincula a
obra a instituições bem consideradas no mundo acadêmico norte-americano e diz
algo sobre a orientação teórica do autor, ligado às teorias da ação coletiva e
responsável por uma obra sociológica que considera fundamental o embasamento
histórico para a compreensão das estruturas e processos sociais.
O autor coletou minuciosamente seus dados, que cobre toda a década de
1920, nos jornais O Estado de São Paulo, Correio Paulistano, Diário Nacional e
alguns periódicos especializados em economia e negócios. Além disso, pesquisou
e reuniu farta documentação junto ao Arquivo do Estado de São Paulo. Assim,
suas constatações, freqüentemente polêmicas, estão muito mais ancoradas em
evidências históricas e em fontes primárias, do que na adesão a esta ou aquela
corrente interpretativa.
Mas Font também faz isto. Logo no início da introdução, ele se vincula
aos postulados principais da Teoria da Dependência, produzida pela Escola
Sociológica Paulista, e se opõe ao que denomina interpretação monista, ou
holística, do desenvolvimento capitalista de São Paulo, numa referência às
obras de João Manuel Cardoso de Mello, Wilson Cano, Sérgio Silva e outros, que
formam a chamada Escola de Campinas.
Opondo-se a essa corrente, Font sumariza no epilogo o principal
argumento do livro: “os processos de industrialização têm sido vistos como
dominados pelos plantadores de café de São Paulo, baseados na predominância
econômica de suas fazendas. Nessa perspectiva, o governo incontestado dos
plantadores conduziu a um sistema político altamente estável e imutável em São
Paulo até 1930. Os vários argumentos e evidências considerados neste estudo
levam a uma posição diferente. Logo depois da virada do século, mudanças
econômicas e políticas desafiaram o primado da fazenda tradicional,
assim como o domínio dos próprios plantadores. A proliferação de produtores
independentes de café e a agricultura comercial em geral, juntamente com o
crescimento da indústria, significaram usos alternativos e competitivos dos
fatores básicos de produção. O mercado, um estado transformado, a agricultura
independente e outras formas de mudança tiveram um papel cada vez mais
importante na alocação da terra, trabalho e capital. As elites econômicas se
diferenciaram rapidamente em termos de fontes de renda. E quanto mais o
fizeram, mais a competição e a mudança atingiram a arena política. Novos tipos
de políticos e estruturas políticas reivindicaram independência do domínio
direto dos plantadores e grupos sociais associados. Esses processos
condicionaram o início da industrialização e a queda da República velha em São
Paulo” (pp. 269-270).
A primeira parte do livro concentra a atenção na organização social da
economia cafeeira paulista e seus vínculos com os processos mais gerais de
industrialização e mudança política no Brasil. O capítulo 2 levanta a questão
fundamental da diversifìcação da economia paulista ao longo da década de 1920,
que permitiu a emergência de uma agricultura independente de pequenos e médios
produtores, tando de café como de outros produtos destinados ao emrcado
interno, ou .seja, milho, feijão, arroz e algodão. Essa complexa economia
alternativa se desenvolveu à margem, mas vinculada ao tradicional setor
cafeeiro, agroexportador, onde predominava a grande propriedade rural.
A diferenciação social representada pelo crescimento de uma agricultura
independente se difundiu por toda a sociedade paulista, mas foi mais dinâmica
nas áreas de solonização mais recente. Esse processo é fartamente documentado
pelo autor com dados obtidos nos censos e em tabelas elaboradas a partir de
estatísticas sobre produção agrícola e tamanho das propriedades rurais. Muitos
dados também foram coletados pelo autor em trabalhos dedicados à imigração
estrangeira para São Paulo.
Além de criar novos interesses econômicos e grupos sociais, esse
processo gerou novas elites e uma coalisão alternativa, “formada por uma massa
crescente de pequenos e médios proprietários, comerciantes de terras, novos
intermediários comerciais e políticos profissionais, desafiando a preeminência
dos grandes plantadores e comissários” (p. 29).
Essas transformações sócio-econômicas provocaram uma segmentação
política do estado, analisada pelo autor no capítulo 3, que demonstra a
profunda fragmentação dos cafeicultores e a enorme mobilização política em que
estiveram envolvidos nos anos 20. As divisões aconteceram em diversos níveis:
na existência de cinco diferentes associações de classe (Sociedade Paulista de
Agricultura, Sociedade Rural Brasileira, Liga Agrícola Brasileira, Associação
Comercial de São Paulo e Associação Comercial de Santos) que nunca conseguiram
unificar suas demandas relativas à proteção do café. Os conflitos entre essas
associações são amplamente explorados pelo autor, que também se refere, sem
aprofundar a questão nessa parte do livro, à cisão do sistema
político-partidário do estado com a criação do Partido Democrático em 1926.
Além desses diferentes níveis de fragmentação, o capítulo se refere também à
existência de diferentes jornais (O Estado de São Paulo, Correio Paulistano
e Diário Nacional), alinhados com diferentes facções políticas paulistas.
Os contornos de uma elite regional profundamente dividida, como são
delineados por Maurício Font, não coincidem com as análises tradicionais que
visualizam a Primeira República como um momento histórico de clara hegemonia da
“oligarquia paulista” (vista, em geral, como um bloco coeso) no Estado
Brasileiro.
O autor levanta o problema não só da desunião das elites paulistas, mas
de um descompasso crescente entre elas e as administrações públicas estadual e
federal. Esse descompasso fica muito claro, por exemplo, na recusa de
Washington Luiz (quando governador do estado) e encampar a terceira valorização
do café, jogando o problema para a administração federal. Do mesmo modo, esse
descompasso se manifesta quando esse mesmo líder político, já na Presidência da
República, enfrenta os interesses específicos dos cafeicultores para sustentar
uma política nacional de estabilização financeira. Por causa dessa relativa autonomia
da burocracia governamental em relação aos interesses cafeeiros, “em matérias
tão diversas como taxação, imigração e colonização, políticas fiscal e
monetária; e mesmo na regulamentação do setor cafeeiro, o Estado mostrou
capacidade de sustentar impulsos autônomos que, mais do que meramente refletir
os interesses dos plantadores, expressaram os seus próprios interesses e
ligaram-se diretamente à dinâmica da sociedade civil” (p. 77).
Fechando a primeira parte do livro, o capítulo 4 (Café e Industrialização)
procura demonstrar que a industrialização de São Paulo não esteve vinculada
apenas à economia cafeeira dos grandes exportadores, mas se ligou
prioritariamente à economia agrícola alternativa, baseada na pequena e média
propriedades, que geraram capital, mercado interno e suprimentos para o
processo de industrialização.
Iniciando a segunda parte do livro (Política: a busca da hegemonia), o
capítulo 5 procura desmontar a visão tradicional da tranquila hegemonia
paulista na Primeira República, exercida através do coronelismo, da política
dos governadores e da política do café com leite. Esse modelo, que pressupõe
equivocadamente uma grande organicidade e coesão da elite paulista, pode ser
válido, aproximadamente, até a Primeira Guerra Mundial, mas não capta as
transformações que alteraram o equih’brio político no estado e no país a partir
dessa fase.
Em nível estadual - e tendo como pano de fundo o processo já analisado
de diferenciação econômico-social - Maurício Font percebe o desenvolvimento de novas
estruturas burocráticas, de uma centralização do poder e de uma modernização da
administração pública que a torna nativamente descolada dos interesses dos
grandes cafeicultores. Uma nova elite de políticos tradicionais passa a
controlar a política estadual, dentro do Partido Republicano Paulista, que
também sofre um processo de centralização e burocratização. Novos grupos
sociais e os imigrantes são incorporados ao sistema político.
Mesmo quando ocupado por paulistas, próprio governo federal se torna um
poder público cada vez mais centralizado e intervencionista, que não representa
de forma imediata, automática e unívoca os interesses dos grandes plantadores
de café: “o governo federal da República Velha tomou-se principalmente um fator
de equilíbrio. entre regiões e de articulação de seus próprios interesses
vinculados às políticas da taxa de câmbio, do balanço de pagamentos relacionado
à gestão da dívida externa e outras questões semelhantes” (p. 126).
O sexto capítulo descreve os principais fatos políticos dos anos 20,
principalmente aqueles ligados à fragmentação das elites e ao surgimento de uma
crescente mobilização política de novos grupos sociais que aspiravam à
participação. Essa mobilização expressa níveis cada vez mais elevados de insatisfação.
e a criação de um movimento sistemático de oposição aos privilégios e ao
caráter autoritário do PRP.
Maurício Font prioriza a análise da Liga Nacionalista, da Revolução de
1924 e do processo de criação do Partido Democrático. Analisando a revolução e
o PD a partir de um enfoque apenas paulista - e não nacional -, o autor
subestima a participação do tenentismo e conseqüentemente o engajamento
político dos militares no processo de ruptura da Primeira República. Assim, ele
perde de vista uma série de conexões entre grupos das elites paulistas e outras
elites regionais ou burocráticas, fundamentais para uma compreensão mais
profunda das próprias cisões internas de São Paulo e do processo de
fragmentação e de formação de novas alianças políticas em nível nacional, que
conduziria à Revolução de 1930.
O movimento de 1924 é abordado no livro como um “levante contra o
governo estadual” (p. 166) e não como um acontecimento de âmbito nacional de
oposição ao governo discricionário de Artur Berrardes, não havendo a menor
referência aos levantes do Rio Grande do Sul, Amazonas, Mato Grosso, Pará e
Sergipe. Minimizar a presença do tenentismo empobrece a compreensão da própria
política paulista, na medida em que houve alianças entre setores mais
progressistas e jovens do PD e os tenentes, que conduziram ao apoio do partido
à Aliança Liberal e a futuras ligações entre o interventor João Alberto Lins de
Barros e forças políticas paulistas. Da mesma forma, é crucial para o
entendimento da política paulista e brasileira a percepção de que essa elite
militar vinculada a Getúlio Vargas se tornaria o principal inimigo dos setores
dominantes das elites paulistas no pós-30 e uma das principais forças políticas
responsáveis pelo colapso do PRP e da hegemonia das tradicionais elites
cafeeiras.
Os capítulos 7, 8 e 9 se dedicam a repensar o papel de São Paulo na
Revolução de 1930, à luz das evidências históricas alinhavadas até aqui. O
autor visualiza o PRP como um partido que conseguiu incorporar as elites
emergentes de São Paulo e o PD como a agremiação das tradicionais elites
cafeeiras (Big Coffee), que buscam retomar a hegemonia perdida e assumir um
controle mais direto sobre a política de defesa do café. De passagem, o autor
demonstra a base social mais ampla do PD, que teria incorporado também as
aspirações democratizantes e a insatisfação crescente de uma camada mais
intelectualizada e profissionalizada dos setores médios da complexa sociedade
paulista.
A obra analisa detalhadamente as várias conjunturas políticas da segunda
metade da década e o acirramento do conflito entre o PRP e o PD, culminando o antagonismo na fase posterior à crise de 1929. Apostura inflexível de
Washington Luiz quanto à manutenção de uma política de estabilização monetária
que não remunera adequadamente os cafeicultores num período de queda acelerada
dos preços, associada à quebra das regras do jogo na questão sucessória, teriam
levado o PD a associar-se às oposições gaúcha e mineira na Aliança Liberal e na
conspiração revolucionária. Em síntese, esses três capítulos procuram colocar
um maior protagonismo das mais antigas elites cafeeiras na derrubada do velho
regime.
Esta segunda parte do livro, que na estrutura da obra está dedicada à
análise política, coloca uma visão um pouco parcial da Revolução de 1930 (com a
ressalva de que o autor afirma explicitamente não pretender elucidar esse
processo globalmente), pois ela é vista de um ângulo exclusivamente paulista.
Entender a revolução supõe inserir São Paulo o tempo todo na dinâmica
federativa e perceber as conflitivas interações das várias elites regionais,
incluindo nesse jogo a intervenção dos militares na política brasileira. O
golpe que derrubou Washington Luiz se inscreve nas características das
intervenções moderadoras analisadas por Stepan, e essa dimensão militar da
revolução aparece apenas timidamente no livro de Maurício Font. Mas foram
exatamente os democráticos de São Paulo um dos principais setores das classes
dirigentes a estimular abertamente articulações com os militares rebeldes.
Esperamos que o livro seja publicado brevemente no Brasil, pois
constitui um inegável avanço na compreensão.da transição brasileira para a
sociedade industrializada e do papel de São Paulo nesse processo.
Maria Cecília Spina Forjaz, professora da Fundação Getúlio Vargas,
atualmente é visiting fellow no Departamento de História da Universidade de
Yale.