RESENHA

 

Making Nonsense Of Marx: O Marxismo revisto pelo Individualismo Metodológico (*)

 

por Michael Burawoy

 

Há vinte anos, a sociologia crítica, fosse radical ou moderada, não tinha palavras duras o bastante para atacar o quadro conceitua) então dominante do estrutural-funcionalismo. Seus alvos eram dois: o funcionalismo (o pressuposto de que as sociedades tendem ao equifbrio) e a teleologia (o pressuposto de que o progresso termina com o advento do capitalismo e a missão do passado é trazer o presente). O marxismo fornecia munição para a investida contra as muralhas do estrutural-funcionalismo. O centro do interesse deslocou-se então da harmonia e da estabilidade para o conflito e a mudança. A representação do capitalismo como fim da historia deu lugar a uma crítica humanista do capitalismo. Contra um futuro concebido como aperfeiçoamento do presente, a sociologia crítica construiu a representação de um futuro situado além do capitalismo, em que os males seriam abolidos.

 

Na condição de arma da crítica, o marxismo foi reconhecido como um quadro conceitua) à parte na sociologia. Hoje, o marxismo é freqüentemente enfiado no mesmo saco que o estrutural-funcionalismo. Marx e o marxismo foram considerados culpados de funcionalismo e teleologia. Essas velhas críticas partem agora de novos setores - o individualismo metodológico e, mais precisamente, os modelos de explicação da ação em termos de escolha racional. Essa crítica foi formulada com maior rigor no interior do próprio marxismo e encontrou sua expressão mais acabada na obra de Jon Elster, Making Sense of Marx. Nesse livro complexo, de extraordinária erudição, Elster acusa Marx de explicar a causa a partir das conseqüências, sob duas formas: uma forma sincrônica, em que uma instituição (o Estado, por exemplo) é explicado por seus efeitos (no caso, a reprodução do capitalismo); e uma forma diacrônica, em que um futuro hipotético (o comunismo, por exemplo) explica o passado ou o presente (a missão da burguesia é criar as bases materiais e sociais do comunismo). Elster tenta despojar Marx de sua metafísica, salvando a única forma de causalidade que seria digna de confiança: as conseqüências da ação individual. O individualismo metodológico é “a doutrina segundo a qual todos os fenômenos sociais - sua estrutura e transformações - são em princípio explicáveis por meio de elementos que não implicam senão indivíduos: suas propriedades, seus fins, suas crenças e seus atos” (p. 5). Como afirmou recentemente Stinchcombe, a macrossociologia é a sociologia que se refere a coletividades.

 

Elster apresenta uma lista impressionante de tudo que se deve abandonar em Marx. Sua teoria econômica pertence ao museu do saber. A fonte do problema revela-se ser a lei do valor, que é “no melhor dos casos, inútil, e no pior - que é freqüente-perigosa e enganadora” (p. 120).

 

Essas críticas soam familiares: por que então Elster, que c filósofo, sente necessidade de apresentar suas reflexões sobre a teoria econômica de Marx? A fonte de sua irritação deve ser buscada, ao que parece, no plano das pretensões ontológicas da lei do valor. Na medida em que a única causalidade real é constituída pela ação individual, ele não precisa mais se preocupar com as estruturas subjacentes, as essências (como o valor) dissimuladas sob as aparências (preços, lucros etc.). De fato, Elster interpreta a distinção entre essência e aparência não como uma diferença ontológica, mas como a projeção errônea de um ponto de vista local sobre o nível global. Aqui, o individualismo metodológico torna-se um individualismo ontológico: o indivíduo é a única realidade de que temos certeza.

 

Da teoria econômica da produção capitalista, Elster passa ao materialismo histórico, a filosofia marxista da história. Tenta então construir a interpretação mais plausível para explicar o fato de que as relações de produção, que numa primeira fase estimulam o crescimento das forças produtivas, acabam por entraválas, e o fato de que, em conseqüência, as relações de produção devem dar lugar a outras relações.

 

Reencontramos aqui o problema da teleologia marxista. As etapas anteriores da história tendem irresistivelmente a se tornar as condições necessárias das etapas posteriores: essa atitude não apenas engendra confusão na ordem intelectual, mas está na origem de desastres políticos como o estalinismo e a revolução cultural: “Deveríamos conservar o respeito pelo indivíduo que está no cerne da teoria marxista do comunismo, mas não pela filosofia da história que autoriza a considerar os indivíduos pré-comunistas como meros animais destinados ao matadouro” (p. 118).

 

Segundo Elster, há outra concepção da história dificilmente compatível com o princípio do desenvolvimento inelutável das forças de produção: é a história considerada como a história da luta de classes. A observação nada tem de novo, mas fornece uma abertura para o individualista metodológico (convertido em adepto da teoria dos jogos) lançar novas luzes sobre o problema da ação coletiva e o da constituição de um ator coletivo. Elster discute os obstáculos à ação coletiva: os riscos do engajamento solitário (os custos da ação unilateral) e as vantagens da abstenção para o indivíduo que deixa que os outros empreendam uma ação coletiva (o problema do free rider). Por outro lado, há ganhos que o indivíduo pode esperar obter da cooperação. Esses fatores devem ser relacionados com as condições cognitivas da ação coletiva.

 

O autor se volta em seguida para os determinantes secundários da ação coletiva, como o tamanho do grupo considerado, a distância entre os seus membros, a renovação de seu recrutamento, seu grau de homogeneidade e o estado da tecnologia - tudo o que Durkheim incluía na noção de densidade moral. Tratando esses elementos como forças sociais não explicadas, Elster sucumbe ao coletivismo metodológico, através da asserção de que “existem entidades supra-individuais que precedem os indivíduos na ordem da explicação” (p. 6). Sem dúvida, ele pode afirmar que este é um expediente temporário; na prática, porém, cada vez que explica um fenômeno social em termos de propriedades individuais, é forçado a recorrer ao coletivismo metodológico. Será então possível ao individualismo metodológico dizer coisas sociologicamente pertinentes sem violar seus próprios postulados?

 

Reencontramos aqui uma velha história: tomando os interesses individuais como ponto de partida, os modelos do ator racional têm dificuldade em explicar o caráter onipresente da ação coletiva e dos movimentos sociais. A partir dessa relação, Elster tem a engenhosidade de fornecer explicações ad hoc para a ação coletiva - dilemas do prisioneiro, no que se refere à ação dos capitalistas, e “externalidades” para a ação da classe operária. Essas tentativas, embora forneçam um quadro que pode ser útil para formular a questão, deixam coisas demais sem explicação.

 

De fato, quando chega à análise da política, Elster reconhece por meias palavras o caráter inadequado das soluções que propõe. É obrigado então a suspender sua adesão ao individualismo metodológico para considerar que as classes são atores coletivos. Mostra como o pensamento de Marx passou de uma visão instrumental do Estado (simples instrumento nas mãos da classe capitalista) a uma visão que dá espaço a uma autonomia relativa do Estado. Mas, sustenta Elster, Marx só podia explicar a autonomia do Estado afirmando que tal autonomia servia aos interesses da classe capitalista. De sua parte, considera mais satisfatória uma teoria alternativa do Estado, fundada no “equilíbrio das classes”, que faz a autonomia do Estado emergir do conflito entre o capital e o trabalho.

 

Em princípio, o fato de constituir o capital, o trabalho e o Estado como três atores racionais deveria trazer novos elementos de explicação para as relações entre o político e o econômico. Na prática, essa tentativa é uma ilustração dos limites da teoria dos jogos, que já enfrenta dificuldades suficientes quando trata de dois atores, que dirá de três. Mas há algo mais grave que as deficiências técnicas da teoria dos jogos: trata-se de seus limites conceituais. Elster define a classe como “um grupo de pessoas que, em virtude do que possuem, são compelidas a se engajar nas mesmas atividades se quiserem utilizar da melhor forma os recursos de que dispõem” (p. 331). Pode-se supor que o Estado deve ser definido da mesma maneira. Tal definição, porém, deixa de lado - ou antes, toma como evidente - a determinação desses recursos e os fins que os atores vão perseguir. A teoria dos jogos como tal não pode explicar as ordens de preferência ou a distribuição dos recursos. Apesar dos corajosos esforços de Elster para mostrar como os resultados dos jogos podem ter efeitos retroativos e transformar ordens de preferência, a operação não tem qualquer caráter sistemático. Esses esforços são sugestivos, mas não permitem construir uma macrossociologia sobre microfundamentos. Por outro lado, a beleza da teoria marxista reside na concepção relacional da classe: é o caráter relacional que funda ao mesmo tempo os recursos e os fins de seus membros.

 

A título de princípio metodológico e de ponto de partida, a teoria dos jogos pode ser útil para a análise do comunismo, estado em que as pessoas se engajam voluntariamente em relações sociais e no qual a história é feita coletiva e conscientemente. Nas sociedades de classe, em que as relações sociais centrais preexistem aos indivíduos, a história se faz às nossas costas. Nenhuma acrobacia com os conceito de força e de coerção pode permitir escapar ao postulado marxista da anterioridade das relações sociais que são “necessárias e independentes de nossa vontade”.

 

É verdade que, no capitalismo, o âmbito da escolha individual está em contínua expansão. Devemos escolher empregadores, escolas, televisores, casas, médicos, presidentes, dentifrícios, microcomputadores e detergentes. Forçados a nos engajar em tais estratégias, tendemos à obsessão das incertezas e das diferenças que afetam os resultados. Em conseqüência, as condições que estruturam nossas disposições para escolher, assim como o espaço dos possíveis, permanecem na obscuridade ou são neutralizados a ponto de se tomarem inevitáveis. Reduzir a explicação dos fenômenos sociais à ação estratégica individual é transformar os efeitos em fetiche, confundir causa e conseqüência: é exatamente deste pecado que Elster acusa Marx.

 

Efetivamente, a teoria dos jogos e o individualismo metodológico são a perfeita antítese do projeto marxista. Não surpreende, portanto, que as observações mais pertinentes de Elster pouco tenham a ver com seus enunciados programáticos: às vezes ele parece mesmo romper explicitamente com o individualismo metodológico, quando afirma que as relações sociais preexistem aos indivíduos (pp. 94-95). Eventualmente, Elster sucumbe a uma “falta de disciplina intelectual”.

 

Ao final da investida de Elster, já não resta grande coisa de Marx. Sua teoria da história, sua teoria econômica e sua teoria política são consideradas deficientes. As ambigüidades da obra são expostas, as inconsistências são denunciadas como sinais de confusão ou como uma maneira de tomar os próprios desejos como realidade. São relegados o combate intelectual que Marx empreendia, fazendo aparecer no seio do presente forças capazes de desempenhar um papel-chave na emergência do futuro, assim como seu interesse pela polêmica política e pelo desafio às tradições intelectuais. Em vez de reinserir Marx no contexto de uma luta intelectual travada em diferentes frentes, e de atribuir suas “tendenciosidades” e “paixões” à sua posição social, Elster separa a obra e o indivíduo e constrói um Marx fictício. Para tanto; reúne laboriosamente os trechos mais desencontrados da obra de Marx, situando no mesmo plano passagens obscuras das Teorias da mais-valia e da Sagrada Família e seus textos publicados.

 

Esta talvez seja a tarefa do filósofo: purgar uma obra de suas contradições e ambigüidades. Mas tal empreendimento impede captar o verdadeiro sentido do trabalho de Marx, que era tanto economista, sociólogo e historiador quanto filósofo. Para captar o sentido dos escritos de Mano é preciso vê-los tanto como uma conversa com outros quanto como um monólogo interior. Não se pode, assim, identificar o diálogo de Marx com Hegel ao que ele mantém com Smith: semelhante redução impõe um holismo errôneo. As contradições e as anomalias que podem ser detectadas no trabalhos de Marx são o produto de seu esforço para explicar as transformações e processos de diferenciação em curso no mundo real e são a expressão de um desafio lançado a diversas correntes intelectuais. Ademais, essas contradições e anomalias formaram o próprio teme e a fonte de inspiração da teoria marxista. Abolilas equivale a abolir essa tradição.

 

Elster despoja Marx de seu verdadeiro sentido. Cabe-me, agora, definir o sentido do que ele, Elster, fez. Para isto, podese proceder em duas etapas: fazendo a lista do que tem sentido em suas críticas e situando seu trabalho. Podemos concordar com Elster quanto à crítica da teleologia e do funcionalismo, sem por isso trocá-los pelo individualismo metodológico. A filosofia da história de Marx pode ter deixado de ser convincente, mas não deixa por isso de fornecer uma lista específica de questões. Se não é inevitável, será o comunismo possível? Constitui uma sociedade viável? Sobre este ponto, Elster tem coisas interessantes a dizer, que se fundam todas nas contradições de uma sociedade cuja razão de ser é a realização individual. E se essa sociedade é viável, como se pode chegar a ela? E, se for o caso, a partir de que sociedade a transição para o comunismo é possível? Como tal transição poderia ocorrer? Quais são os futuros possíveis para o capitalismo e o socialismo de Estado?

 

Na teoria marxista do Estado, o funcionalismo continua sendo um ponto de partida essencial. Segundo Cohen, é importante distinguir entre caráter funcional e explicação funcional. Assim, uma coisa é afirmar que o Estado apresenta um caráter funcional para o capitalismo, porquanto contribui para sua reprodução - afirmação que Marx e os marxistas sustentaram contra os que não vêem no capitalismo um sistema carregado de contradições, conflitos e tendências à crise. Outra coisa é explicar de que modo 0 Estado contribui para a reprodução do capitalismo. Embora não esteja no livro de Elster, esta última questão forneceu as bases do debate sobre as teorias marxistas do Estado.

 

Se a lição de método que podemos extrair do livro de Elster é uma lição de prudência com relação à explicação causal, a contribuição mais substancial é constituída pelos comentários feitos à teoria marxista da ideologia e pela reconstrução da mesma, que ele propõe. Elster postula a existência de certo número de mecanismos que podem ser encontrados em Marx, pelos quais os indivíduos acabam tendo imagens deformadas do mundo. Escravos de seus produtos, os homens cuja principal preocupação é criar idéias acreditam que estas governam o mundo, ao passo que outros, por causa de sua situação miserável, são levados a inventar um ser transcendente. Por esses mecanismos de abstração e projeção, produzse uma imagem invertida do mundo. Tomar os próprios desejos como realidades constitui um segundo mecanismo: encontra-se uma ilustração disto, por exemplo, na pretensão de uma classe de apresentar seus interesses próprios como a expressão do interesse geral. Um terceiro mecanismo, cuja especial originalidade (em Marx) Elster destaca, é constituído pela compreensão da totalidade com base na perspectiva de uma parte, definida como “erro de composição”. Por não dependerem de um capitalista em particular, os trabalhadores pensam que são independentes de todos os capitalistas. (Será assim?) Os capitalistas pensam que a escolha que se abre a um deles está simultaneamente aberta a todos, o que os conduz a uma visão falaciosa, segundo a qual o dinheiro engendra o lucro independentemente da produção.

 

Na base de diversos argumentos de Elster sobre a construção da ideologia, encontra-se o postulado de uma “verdade” em relação à qual é possível medir as distorções. Elster deplora sistematicamente o fato de as paixões de Marx terem sobrecarregado sua obra de tendenciosidades, composições, exortações e ilusões. Ao que parece, ele próprio escapa às tendenciosidades e aos preconceitos mediante o pensamento claro. Elster se retrata assim como retrata Mata: abstraindo todo o contexto institucional. O individualismo metodológico faz eco ao desejo ilusório dos intelectuais de escapar da estrutura social que aprisiona todos os demais indivíduos. O individualismo metodológico toma-se um dualismo metodológico: os trabalhadores e os capitalistas, em virtude de suas funções objetivas, das ordens de preferência e dos recursos de que são dotados, são levados a desenvolver imagens deformadas dos processos sociais, ao passo que os professores universitários, desde que façam um pequeno esforço para evitar cair nas ciladas do funcionalismo e da teleologia, são capazes de atingir a verdade. Tal dualismo é a expressão do isolamento dos acadêmicos, que os leva a construir uma visão global do mundo a partir de um ponto de vista local (o deles): é o que se poderia chamar o erro de decomposição.

 

Elster é vítima de outra de suas próprias distorções ideológicas: o imperialismo conceituai. Marx acusava os economistas burgueses de universalizarem os efeitos ideológicos do capitalismo, aderindo ao individualismo metodológico: pode-se fazer a mesma censura a Elster. O individualismo metodológico não é mais aplicável à história da humanidade do que o fetichismo da mercadoria.

 

Elster se engana se acredita que basta emitir um julgamento sobre o que continua interessante em Marx para se libertar da prisão da história. Não há leitura inocente de Marx, não há Marx purificado. O que vale a pena salvar em Marx, num dado momento da história, depende dos problemas desse momento e da posição social daquele que procura a resposta. Todos os marxistas têm interesse em descobrir o que é verdadeiro e importante em Marx, mas esse interesse é relativo ao contexto histórico e social. Este é o próprio sentido da tradição marxista. A verdade não é redutível à correspondência com os fatos e à coerência interna - ela depende de uma tradição de pensamento.

 

O livro de Elster não passa de uma resposta ao refluxo dos movimentos sociais e ao recuo do marxismo. Periurbamno as heranças metafísicas que atrasam o percurso do marxismo. Mas, ao livrar o marxismo desse peso, Elster deixou apenas um frágil invólucro, que se assemelha ainda menos ao modelo original. Elster deve escolher: marxismo ou individualismo metodológico.


Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges

 

* Ensaio crítico sobre a obra de J. Elster Making Sense of Marx, (Cambridge, Cambridge University Press, 1985), publicado originalmente em Contemporary Sociology, vol. 14 nº 5, 1986, pp. 704-707. Esta tradução foi feita a partir da versão francesa publicada em Actes de la Recherche em Sciences Sociales, nq 78, 1989.

 

Michael Burawoy é professor do Departamento de Sociologia da Universidade da Califórnia (Berkeley),



 

Coffee, contention and change in the making of

modern Brazil,

 

de Maurício A. Font.

Basil Blaclkwell, Cambridge, Massachussetts, EUA, 1990, 351 pp.

 

por Maria Cecflia Spina Forjaz

 

O livro do paulistanista Maurício Font, como ele mesmo gosta de se denominar, faz parte da coleção Studies in Social Discontinuity, editada por Charles Tilly, da New School for Social Research. Essa referência vincula a obra a instituições bem consideradas no mundo acadêmico norte-americano e diz algo sobre a orientação teórica do autor, ligado às teorias da ação coletiva e responsável por uma obra sociológica que considera fundamental o embasamento histórico para a compreensão das estruturas e processos sociais.

 

O autor coletou minuciosamente seus dados, que cobre toda a década de 1920, nos jornais O Estado de São Paulo, Correio Paulistano, Diário Nacional e alguns periódicos especializados em economia e negócios. Além disso, pesquisou e reuniu farta documentação junto ao Arquivo do Estado de São Paulo. Assim, suas constatações, freqüentemente polêmicas, estão muito mais ancoradas em evidências históricas e em fontes primárias, do que na adesão a esta ou aquela corrente interpretativa.

 

Mas Font também faz isto. Logo no início da introdução, ele se vincula aos postulados principais da Teoria da Dependência, produzida pela Escola Sociológica Paulista, e se opõe ao que denomina interpretação monista, ou holística, do desenvolvimento capitalista de São Paulo, numa referência às obras de João Manuel Cardoso de Mello, Wilson Cano, Sérgio Silva e outros, que formam a chamada Escola de Campinas.

 

Opondo-se a essa corrente, Font sumariza no epilogo o principal argumento do livro: “os processos de industrialização têm sido vistos como dominados pelos plantadores de café de São Paulo, baseados na predominância econômica de suas fazendas. Nessa perspectiva, o governo incontestado dos plantadores conduziu a um sistema político altamente estável e imutável em São Paulo até 1930. Os vários argumentos e evidências considerados neste estudo levam a uma posição diferente. Logo depois da virada do século, mudanças econômicas e políticas desafiaram o primado da fazenda tradicional, assim como o domínio dos próprios plantadores. A proliferação de produtores independentes de café e a agricultura comercial em geral, juntamente com o crescimento da indústria, significaram usos alternativos e competitivos dos fatores básicos de produção. O mercado, um estado transformado, a agricultura independente e outras formas de mudança tiveram um papel cada vez mais importante na alocação da terra, trabalho e capital. As elites econômicas se diferenciaram rapidamente em termos de fontes de renda. E quanto mais o fizeram, mais a competição e a mudança atingiram a arena política. Novos tipos de políticos e estruturas políticas reivindicaram independência do domínio direto dos plantadores e grupos sociais associados. Esses processos condicionaram o início da industrialização e a queda da República velha em São Paulo” (pp. 269-270).

 

A primeira parte do livro concentra a atenção na organização social da economia cafeeira paulista e seus vínculos com os processos mais gerais de industrialização e mudança política no Brasil. O capítulo 2 levanta a questão fundamental da diversifìcação da economia paulista ao longo da década de 1920, que permitiu a emergência de uma agricultura independente de pequenos e médios produtores, tando de café como de outros produtos destinados ao emrcado interno, ou .seja, milho, feijão, arroz e algodão. Essa complexa economia alternativa se desenvolveu à margem, mas vinculada ao tradicional setor cafeeiro, agroexportador, onde predominava a grande propriedade rural.

 

A diferenciação social representada pelo crescimento de uma agricultura independente se difundiu por toda a sociedade paulista, mas foi mais dinâmica nas áreas de solonização mais recente. Esse processo é fartamente documentado pelo autor com dados obtidos nos censos e em tabelas elaboradas a partir de estatísticas sobre produção agrícola e tamanho das propriedades rurais. Muitos dados também foram coletados pelo autor em trabalhos dedicados à imigração estrangeira para São Paulo.

 

Além de criar novos interesses econômicos e grupos sociais, esse processo gerou novas elites e uma coalisão alternativa, “formada por uma massa crescente de pequenos e médios proprietários, comerciantes de terras, novos intermediários comerciais e políticos profissionais, desafiando a preeminência dos grandes plantadores e comissários” (p. 29).

 

Essas transformações sócio-econômicas provocaram uma segmentação política do estado, analisada pelo autor no capítulo 3, que demonstra a profunda fragmentação dos cafeicultores e a enorme mobilização política em que estiveram envolvidos nos anos 20. As divisões aconteceram em diversos níveis: na existência de cinco diferentes associações de classe (Sociedade Paulista de Agricultura, Sociedade Rural Brasileira, Liga Agrícola Brasileira, Associação Comercial de São Paulo e Associação Comercial de Santos) que nunca conseguiram unificar suas demandas relativas à proteção do café. Os conflitos entre essas associações são amplamente explorados pelo autor, que também se refere, sem aprofundar a questão nessa parte do livro, à cisão do sistema político-partidário do estado com a criação do Partido Democrático em 1926. Além desses diferentes níveis de fragmentação, o capítulo se refere também à existência de diferentes jornais (O Estado de São Paulo, Correio Paulistano e Diário Nacional), alinhados com diferentes facções políticas paulistas.

 

Os contornos de uma elite regional profundamente dividida, como são delineados por Maurício Font, não coincidem com as análises tradicionais que visualizam a Primeira República como um momento histórico de clara hegemonia da “oligarquia paulista” (vista, em geral, como um bloco coeso) no Estado Brasileiro.

 

O autor levanta o problema não só da desunião das elites paulistas, mas de um descompasso crescente entre elas e as administrações públicas estadual e federal. Esse descompasso fica muito claro, por exemplo, na recusa de Washington Luiz (quando governador do estado) e encampar a terceira valorização do café, jogando o problema para a administração federal. Do mesmo modo, esse descompasso se manifesta quando esse mesmo líder político, já na Presidência da República, enfrenta os interesses específicos dos cafeicultores para sustentar uma política nacional de estabilização financeira. Por causa dessa relativa autonomia da burocracia governamental em relação aos interesses cafeeiros, “em matérias tão diversas como taxação, imigração e colonização, políticas fiscal e monetária; e mesmo na regulamentação do setor cafeeiro, o Estado mostrou capacidade de sustentar impulsos autônomos que, mais do que meramente refletir os interesses dos plantadores, expressaram os seus próprios interesses e ligaram-se diretamente à dinâmica da sociedade civil” (p. 77).

 

Fechando a primeira parte do livro, o capítulo 4 (Café e Industrialização) procura demonstrar que a industrialização de São Paulo não esteve vinculada apenas à economia cafeeira dos grandes exportadores, mas se ligou prioritariamente à economia agrícola alternativa, baseada na pequena e média propriedades, que geraram capital, mercado interno e suprimentos para o processo de industrialização.

 

Iniciando a segunda parte do livro (Política: a busca da hegemonia), o capítulo 5 procura desmontar a visão tradicional da tranquila hegemonia paulista na Primeira República, exercida através do coronelismo, da política dos governadores e da política do café com leite. Esse modelo, que pressupõe equivocadamente uma grande organicidade e coesão da elite paulista, pode ser válido, aproximadamente, até a Primeira Guerra Mundial, mas não capta as transformações que alteraram o equih’brio político no estado e no país a partir dessa fase.

 

Em nível estadual - e tendo como pano de fundo o processo já analisado de diferenciação econômico-social - Maurício Font percebe o desenvolvimento de novas estruturas burocráticas, de uma centralização do poder e de uma modernização da administração pública que a torna nativamente descolada dos interesses dos grandes cafeicultores. Uma nova elite de políticos tradicionais passa a controlar a política estadual, dentro do Partido Republicano Paulista, que também sofre um processo de centralização e burocratização. Novos grupos sociais e os imigrantes são incorporados ao sistema político.

 

Mesmo quando ocupado por paulistas, próprio governo federal se torna um poder público cada vez mais centralizado e intervencionista, que não representa de forma imediata, automática e unívoca os interesses dos grandes plantadores de café: “o governo federal da República Velha tomou-se principalmente um fator de equilíbrio. entre regiões e de articulação de seus próprios interesses vinculados às políticas da taxa de câmbio, do balanço de pagamentos relacionado à gestão da dívida externa e outras questões semelhantes” (p. 126).

 

O sexto capítulo descreve os principais fatos políticos dos anos 20, principalmente aqueles ligados à fragmentação das elites e ao surgimento de uma crescente mobilização política de novos grupos sociais que aspiravam à participação. Essa mobilização expressa níveis cada vez mais elevados de insatisfação. e a criação de um movimento sistemático de oposição aos privilégios e ao caráter autoritário do PRP.

 

Maurício Font prioriza a análise da Liga Nacionalista, da Revolução de 1924 e do processo de criação do Partido Democrático. Analisando a revolução e o PD a partir de um enfoque apenas paulista - e não nacional -, o autor subestima a participação do tenentismo e conseqüentemente o engajamento político dos militares no processo de ruptura da Primeira República. Assim, ele perde de vista uma série de conexões entre grupos das elites paulistas e outras elites regionais ou burocráticas, fundamentais para uma compreensão mais profunda das próprias cisões internas de São Paulo e do processo de fragmentação e de formação de novas alianças políticas em nível nacional, que conduziria à Revolução de 1930.

 

O movimento de 1924 é abordado no livro como um “levante contra o governo estadual” (p. 166) e não como um acontecimento de âmbito nacional de oposição ao governo discricionário de Artur Berrardes, não havendo a menor referência aos levantes do Rio Grande do Sul, Amazonas, Mato Grosso, Pará e Sergipe. Minimizar a presença do tenentismo empobrece a compreensão da própria política paulista, na medida em que houve alianças entre setores mais progressistas e jovens do PD e os tenentes, que conduziram ao apoio do partido à Aliança Liberal e a futuras ligações entre o interventor João Alberto Lins de Barros e forças políticas paulistas. Da mesma forma, é crucial para o entendimento da política paulista e brasileira a percepção de que essa elite militar vinculada a Getúlio Vargas se tornaria o principal inimigo dos setores dominantes das elites paulistas no pós-30 e uma das principais forças políticas responsáveis pelo colapso do PRP e da hegemonia das tradicionais elites cafeeiras.

 

Os capítulos 7, 8 e 9 se dedicam a repensar o papel de São Paulo na Revolução de 1930, à luz das evidências históricas alinhavadas até aqui. O autor visualiza o PRP como um partido que conseguiu incorporar as elites emergentes de São Paulo e o PD como a agremiação das tradicionais elites cafeeiras (Big Coffee), que buscam retomar a hegemonia perdida e assumir um controle mais direto sobre a política de defesa do café. De passagem, o autor demonstra a base social mais ampla do PD, que teria incorporado também as aspirações democratizantes e a insatisfação crescente de uma camada mais intelectualizada e profissionalizada dos setores médios da complexa sociedade paulista.

 

A obra analisa detalhadamente as várias conjunturas políticas da segunda metade da década e o acirramento do conflito entre o PRP e o PD, culminando o antagonismo na fase posterior à crise de 1929. Apostura inflexível de Washington Luiz quanto à manutenção de uma política de estabilização monetária que não remunera adequadamente os cafeicultores num período de queda acelerada dos preços, associada à quebra das regras do jogo na questão sucessória, teriam levado o PD a associar-se às oposições gaúcha e mineira na Aliança Liberal e na conspiração revolucionária. Em síntese, esses três capítulos procuram colocar um maior protagonismo das mais antigas elites cafeeiras na derrubada do velho regime.

 

Esta segunda parte do livro, que na estrutura da obra está dedicada à análise política, coloca uma visão um pouco parcial da Revolução de 1930 (com a ressalva de que o autor afirma explicitamente não pretender elucidar esse processo globalmente), pois ela é vista de um ângulo exclusivamente paulista. Entender a revolução supõe inserir São Paulo o tempo todo na dinâmica federativa e perceber as conflitivas interações das várias elites regionais, incluindo nesse jogo a intervenção dos militares na política brasileira. O golpe que derrubou Washington Luiz se inscreve nas características das intervenções moderadoras analisadas por Stepan, e essa dimensão militar da revolução aparece apenas timidamente no livro de Maurício Font. Mas foram exatamente os democráticos de São Paulo um dos principais setores das classes dirigentes a estimular abertamente articulações com os militares rebeldes.

 

Esperamos que o livro seja publicado brevemente no Brasil, pois constitui um inegável avanço na compreensão.da transição brasileira para a sociedade industrializada e do papel de São Paulo nesse processo.

 

Maria Cecília Spina Forjaz, professora da Fundação Getúlio Vargas, atualmente é visiting fellow no Departamento de História da Universidade de Yale.