RESENHA
O Sul: caminho do roçado. Estratégias de reprodução
camponesa e transformação social
de Afrânio Raul
Garcia Jr., São
Paulo,
Editora Marco
Zero e Editora
UNB,
em co-edição com
o MCT CNPq, 1990.
por Ana Maria Galano
A frase ouvida de um trabalhador – "O Sul hoje é
o caminho do roçado" – deu título a este livro. E, conforme Afrânio Raul
Garcia Jr., a frase é solução, enigma e- síntese de um amplo processo de
transformações sociais no Nordeste e de sua articulação com o crescimento das
cidades, das indústrias e de um mercado de força de trabalho livre no Sul.
O livro se constrói num cerrado corpo-a-corpo com
análises correntes, que o autor rejeita sucessivamente, e pela apresentação de
abordagens alternativas. Assim, como primeiro exemplo, Afrânio R. Garcia Jr.
aponta a insuficiência da interpretação dos fluxos migratórios, a partir de
áreas rurais para as cidades em expansão industrial, como simples abandono de
áreas em declínio e busca de integração em pólos de prosperidade. Os casos de
retorno à região de origem corresponderiam, então, a fracassos, à inadaptação
daqueles que não conseguiram alcançar o objetivo pretendido.
A região estudada no livro – o Brejo e o Agreste, no
Estado da Paraíba – é uma das áreas nordestinas que conheceram mais altas taxas
de emigração desde o final dos anos 40. Através da análise de inúmeras
trajetórias individuais e familiares, o autor constatou que, dentre os
migrantes, alguns tornaram-se operários ou empregados urbanos no Sudeste,
enquanto outros alcançaram ou mantiveram a condição camponesa porque estiveram
temporariamente inseridos no mercado de trabalho industrial.
A frase enigma começa assim a decifrar-se: o retorno
ao campo, o lugar de origem, pode constituir o motivo da partida para o Sul. E
só ao se examinar "em que condições indivíduos de carne e osso fazem os
investimentos materiais e psicológicos que tais deslocamentos exigem", é
que se pode perceber que não há homogeneidade nem de objetivos iniciais para a
emigração nem de condições prévias ao deslocamento. Abre-se, então, o espaço
para novas questões, as que suscitam o
estudo das "práticas de inserção num mercado de trabalho longínquo
e as representações mentais que as acompanham, em relação ao conjunto de
práticas de trabalho a nível local (que constituem práticas alternativas e
concorrentes)" (p.13).
A primeira parte do livro trata do modo de dominação
tradicional na grande plantação açucareira no momento de seu apogeu e
progressivo declínio. A incursão pelo espaço social do mundo rural nordestino
começa por uma cidade, a de Areia, que desde o começo do século XIX foi centro
comercial, político, administrativo e religioso. Era também local da residência
secundária de famílias de grandes proprietários de engenhos do Brejo e fazendas
do Agreste. De Areia, segue-se para o campo e para dentro dos engenhos. Ali,
todos os trabalhos agrícolas e os de fabricação de derivados da cana-de-açúcar
eram executados por moradores, trabalhadores que tinham casa e alguma terra
para cultivo próprio – o roçado ou o sítio – nos domínios do proprietário.
Essencialmente favorável ao detentor do patrimônio fundiário, a relação de
morada é uma "relação concreta (...) uma configuração de concessões e
obrigações diferentes, que só se explica completamente pela história particular
das trocas morador-senhor" (p. 42). Variada e pessoal, e por isso tão
eficaz, a dominação instituída pela morada objetiva-se numa estrutura espacial
e numa arquitetura com forte uniformidade. Em 1976, quando do início da
pesquisa de campo de Afrânio R. Garcia Jr., esse universo fechado nunca tinha
sido ultrapassado por algumas pessoas das famílias de moradores. Ainda assim, a
violência física era por vezes utilizada para manter a obediência e para punir.
Outro já era, então, o universo dos agricultores, que
insistiam em assim se autodenominar para bem estabelecer diferenças entre eles
e os moradores. Ainda que subordinados, não estavam submetidos à dependência
pessoal dos senhores-de-engenho. A si chamavam de libertos e aos
moradores, sujeitos. Tinham chão de casa na cidade, fora da
dominação do senhor-de-engenho:
"Na rua residem além de pequenos proprietários,
os rendeiros, pequenos produtores que botam roçado em propriedade alheia,
sobretudo no Agreste, durante o inverno, pagando. em dinheiro pelo uso da
terra; os meeiros, pequenos produtores que botam roçado em propriedade alheia,
pagando com uma parte da produção obtida; os trabalhadores alugados, aqueles
que vivem sobretudo da venda da força de trabalho a grandes proprietários e a
outros agricultores, mas que também tentam botar roçado a cada ciclo agrícola
para garantir a subsistência do grupo doméstico; os negociantes, aqueles que
obtêm no comércio das feiras a renda fundamental que garante a subsistência
familiar, eles mesmos já tendo sido agricultores no passado ou sendo filhos de
agricultores" (p.53).
A variedade de situações sociais neste universo dos agricultores,
assim como o aparecimento
da distinção sujeito/liberto, são contrapartidas do definhamento do
sistema de dominação tradicional da morada e da emergência de um novo
modo de dominação. Três mediações são apresentadas como necessárias ao
entendimento dessa época de transição: a concorrência entre as plantations,
com o surgimento das usinas e o declínio dos engenhos; a
possibilidade de migração para as grandes cidades do Sul; o surgimento das
primeiras associações camponesas e seu impacto no campo político.
Sobre Areia, entrevista anteriormente em seu apogeu, o
leitor recebe agora minuciosa informação histórica, desde o início do século
XVIII, quando a região era ainda denominada Sertão do Bruxaxá, e cuja ocupação
colonizadora deveu-se ao interesse pela criação de gado. Quando a
cana-de-açúcar ganha proeminência, em meados do século passado, o algodão ainda
tinha lugar destacado entre os produtores locais. A enumeração de cultivos sucessivos
e simultâneos ao da cana-de-açúcar tem aqui o objetivo preciso de demonstrar
que a "categoria engenho não tem como significado necessário ser
propriedade monocultora de cana-de-açúcar. Engenho indica claramente o
papel fundamental da cana-de-açúcar (...) Mas nada impede que haja vários
cultivos para, a venda e, com a flutuação dos preços e variação das condições
ecológicas, várias explorações comerciais..." (p.62). Seis produtos
comerciais, em ciclos sucessivos, aparecem na história dos engenhos de Areia, e
aqueles produtos coexistiram como lavouras de subsistência destinadas,
alternativamente, ao auto-consumo ou a sua venda eventual. A capacidade dos
engenhos para diversificar, expandir ou contrair a oferta de mercadorias, que
configura uma variedade de estratégias de reconversão, inclusive frente à
emergência das usinas, revela-se finalmente ineficaz para frear o
declínio dos senhores-de-engenho de Areia a partir de 1950.
A possibilidade dos deslocamentos para as cidades
industriais do Sul que, pela primeira vez, ofereceu aos moradores uma
alternativa à sujeição nos engenhos, representou para seus proprietários uma
redução do número de trabalhadores obrigados a submeter-se à dominação
tradicional indissociável de condições de produção rentáveis naqueles domínios.
À possibilidade de migração em busca de empregos oferecidos no Sul, somou-se a
ação das Ligas Camponesas e, posteriormente, dos Sindicatos de Trabalhadores
Agrícolas. Ao tornar possível que moradores recorram à Justiça ou à
Inspeção do Trabalho, que busquem “seus
direitos”, as novas associações afetaram o próprio fundamento
da economia da dominação pela morada. Desapareceu a eficácia do uso do
patrimônio fundiário como suporte do sistema de favor, por parte do
senhor-de-engenho, e de deveres, com os quais os moradores saldavam
sua dívida. Os aspectos antes constitutivos da dependência personalizada
passaram a ser regidos por relações contratuais. Novas obrigações trabalhistas,
estendidas ao campo pela legislação do início dos anos 60, acompanharam-se de
sanções monetárias mais elevadas. Se levado à Justiça, o senhor-de-engenho pode
tornar-se devedor de seus moradores. Se, não dispuser de recursos
monetários para saldar sua dívida, pode vir a desfazer-se de parte de seu
patrimônio em terra e concedê-lo em pagamento ao morador: Assim, a
"busca dos direitos pode ter o mesmo efeito que os deslocamentos para o
Sul; quem o faz pode passar de sujeito a ,liberto" (p.84).
A segunda parte do livro analisa as estratégias de
reconversão de indivíduos ocupando diferentes posições sociais e as
trajetórias, ligadas àquelas estratégias. Enquanto pequenos proprietários; rendeiros
e meeiros conhecem uma trajetória ascendente, através da associação
de agricultura, negócio e criação de. gado; outros agricultores libertos são
chamados de agricultores fracos: trata-se dos que executam o trabalho
alugado e vivem um processo de pauperização.
De propósito; enuncio, de saída, as duas grandes
tendências que constituem os pólos opostos num processo de diferenciação do
campesinato local. É que tanto a reconstituição histórica do declínio dos
engenhos, quanto o estudo das atividades de grupos domésticos de agricultores e
das condicionantes de suas respectivas trajetórias, são atravessadas por uma
constante preocupação de combate a concepções evolucionistas, a representações
de processos de transição como processos. automáticos .e previsíveis. A
monotonia de boa parte da literatura científica sobre as transformações sociais
no campo brasileiro resultada ativa-presença de uma teoria vulgar da
diferenciação camponesa. Ela toma como .inevitável a constituição simultânea de
uma burguesia e de um proletariado rural - ponto de chegada do desenvolvimento
capitalista - e considera campesinato e capitalismo como noções mutuamente
excludentes. Ora, Afrânio R. Garcia Jr. demonstra, de início, que a
constituição do mercado de trabalho industrial no Sul não foi precedida pelo
desaparecimento do modo de dominação tradicional nos engenhos, embora tenha
participado de seu declínio. E que, ao enfraquecerem-se as relações de
dependência pessoal (o que se materializou no progressivo abandono do grande
domínio pelos moradores), não houve desaparecimento, mas surgimento e/ou
crescimento do campesinato. Só que para falar em campesinato na região do Brejo
e do Agreste da Parai'ba, é necessário não identificar a presença do produto
com caráter mercantil e acesso mercantil à força de trabalho como elementos de
indubitável caracterização de um mercado de trabalho plenamente constituído,
onde se confrontam empresários capitalistas e trabalhadores assalariados.
Vejamos, então, como Afrânio R. Garcia Jr. estuda o significado da compra e
venda da força de trabalho por grupos domésticos camponeses.
Não é no campo, mas nas feiras, que o leitor entra em
contato com os agricultores. Ali, vendem por atacado sua produção a
negociantes, enquanto eles próprios revendem no varejo o produto de outros
agricultores. Se, em sua grande maioria, os feirantes são pequenos produtores
agrícolas, nas feiras todos funcionam também como intermediários. As
peculiaridades dessa forma de comércio são descritas e analisadas
detalhadamente, assim como as diferentes práticas de cultivo e sua distribuição
ao longo do ano. Aos poucos, o leitor é levado a~constatar como os agricultores
decidem sobre cultivos e negócio: tratando-os como atividades
complementares e totalmente sensíveis à flutuação dos preços de mercado. Mas,
ao aprofundar a análise do cálculo econômico dos agricultores, o autor
demonstra que sua inserção eficiente rio circuito de trocas mercantis não os
faz abandonar outros elementos de cálculo: "a) o consumo socialmente
necessário dos produtos pela unidade doméstica, - o gasto da casa; b) a
disponibilidade de força de trabalho do grupo doméstico, quantas pessoas de trabalho
têm na casa" (p.121). E a presença determinante de tais
elementos é que diferencia radicalmente o cálculo econômico desses agricultores
daquele praticado por empresários capitalistas.
Através
da análise da divisão familiar do trabalho, o autor introduz a criação de gado, terceira fonte de obtenção de renda por
esses camponeses que praticam agricultura e negócio. A criação tem função
suplementar - a de constituir reserva e meio de acumulação - para agricultores
que, inevitavelmente, enfrentam momentos difíceis ou necessitam efetuar
despesas importantes. Tratados primeiro como grupo relativamente homogêneo, os agricultores
vão depois se revelando portadores de estratégias diversificadas, em
particular na esfera do negócio. Assim, há agricultores que
tendem a dedicar um número crescente de dias ao negócio e a propiciar
aos filhos um negócio autônomo, capaz de livrá-los, no futuro, do cabo
de enxada. Tal estratégia implica um abandono progressivo da atividade
produtiva direta por parte desses agricultores e a utilização de alugados para
o trabalho agrícola.
Alcançado este ponto, Afrânio R. Garcia Jr. demonstra,
então, que o processo de diferenciação, ou a ruptura da situação camponesa, tem
de ser estudado concretamente e não pode ser deduzido, de outras situações históricas.
Para isso examina os limites à substituição do trabalho dos membros da unidade
doméstica pelos alugados, através da análise da lógica que preside o uso
do "fundo para pagar trabalhadores". Demonstra que a decisão
renova-se a cada ciclo agrícola, levando-se em conta os trabalhos pesados e
a composição da unidade doméstica, por sexo e idade; a disponibilidade de
recursos monetários no pico das tarefas no campo, quando elevam a demanda e a diária
dos alugados. A decisão também tem como determinante a prática dos
deslocamentos de homens jovens para o Sul; e isso priva a unidade doméstica de
uma força de trabalho que então atinge sua plenitude produtiva. E tais
deslocamentos, por sua vez, se explicam devido às características do mercado de
terras 1ocal.
O casamento, a constituição de nova unidade doméstica
camponesa, requer acesso à terra, o que é muito difícil quando não há nem
aumento do estoque de terras nem da produtividade do solo. Desde que a migração
se tornou prática generalizada, a partir dos anos 50, o emprego nó Sul
passou a constituir uma fase necessária no ciclo de vida não só de moradores,
para escapar da sujeição nos engenhos, mas também de agricultores. O ir
para o Sul e a obtenção de recursos financeiros é uma das estratégias possíveis
para atenuar as conseqüências do fracionamento do patrimônio fundiário familiar
a fim de instalar filhos de agricultores. Só condições de vida e de trabalho no
Sul, muito precárias, asseguram, no entanto, a acumulação que permitirá certas
compras no Norte (por exemplo: de gado, de chão de casa, de um sítio etc.) ou a
ampliação do negócio.
A análise do mercado de terras põe, assim, em
evidência limites ao processo de acumulação e diferenciação dos agricultores.
Por um lado, os lotes de pequena superfície são os de mais alto valor por
hectare, e a ampliação do patrimônio fundiário pode resultar numa redução de
capital disponível, em particular, a do "fundo para botar trabalhador
alugado". Por outro, entre os pobres, há ainda os alugados, que participam
do mercado de terras, buscando ter acesso a superfícies cedidas para
arrendamento e parceria. A forte pressão sobre a escassa terra disponível tem
conseqüências diferentes para as diversas categorias de trabalhadores locais,
mas não configura uma situação em que um contingente de trabalhadores
expropriados de terra esteja à disposição de agricultores, cujas variadas
modalidades de acumulação permita substituir sistematicamente, e de uma vez por
todas, a força de trabalho doméstica por alugado.
A oferta de trabalhadores alugados é, no entanto,
crescente. Afrânio R. Garcia Jr. propõe-se examinar as determinações dessa
oferta e verificar se há, ou não, uma tendência para que aumente o número dos
que vivam só de alugado e, daí, emerja um novo grupo social com contornos
próprios. Embora o autor insista que a .venda da força de trabalho é uma
virtualidade para todo agricultor, mesmo os fortes, a oferta de trabalho
alugado concentra-se entre os produtores agrícolas que ocupam as menores
superfícies e que, por vezes, não têm qualquer acesso ao negócio. São eles que,
embora libertos, têm ainda dimensões de sujeição em sua vida: para
equilibrarem-se podem precisar do auxilio do proprietário para seu sustento, ou
obter "condições de trabalhar". Comparando os rendimentos monetários
de diversas categorias de trabalhadores, o autor conclui que aqueles que
combinam roçado e alugado conhecem uma trajetória de declínio irreversível no
espaço social local. A pauperização absoluta desses trabalhadores leva-os a "escapar
do alugado", assim como se tentou, e se tenta, "escapar da
sujeição". O alugado não constitui uma nova posição social para a qual se
orientem estratégias de reconversão, ao contrário do emprego, que cristaliza a
própria imagem do trabalho assalariado. Mas, para alcançar o "mundo do
emprego", é preciso deslocar-se para o Sul onde, a 3.000Km de distância,
alguns encontrarão seu lugar num mercado de trabalho capitalista plenamente
constituído.
Afamando que, "quando não é o gado, é a cana do
usineiro" que ocupa a maior parte das terras, os agricultores designam as
duas principais estratégias de reconversão dos grandes proprietários locais.
Foi tardio e, a princípio relativamente modesto, o surto usineiro no município
de Areia. A produção da única usina que aí se instalou, só atingiu a média
nacional na década de 70. Depois, expandiu aceleradamente o volume de sua
produção de açúcar e, finalmente, o de álcool. Durante o trabalho de campo
efetuado em 1976/77, Afrânio R. Garcia Jr. constatou que a usina adquirira
recentemente vários engenhos e seu patrimônio fundiário triplicara entre 1957 e
1977. Vários engenhos locais tornaram-se também fornecedores de cana e, nos
anos 70, o volume de sua produção foi multiplicado por sete, em detrimento do
fabrico de rapadura e de aguardente. Mas tanto a disputa entre
senhores-de-engenho e usineiros, em torno do controle de várias instâncias de
poder, quanto a que opõe usina e agricultores a respeito da terra só veio
realmente a aguçar-se na década de 80. Afrânio R. Garcia Jr. demonstra que,
para entender a formidável capacidade de acumulação dos usineiros, é necessário
examinar o papel do Estado como agente econômico e suas diferentes políticas de
subsídio ao setor açucareiro do Nordeste:
"a reprodução das condições sociais de produção
simples ou ampliada da usina passa pela reprodução do Estado cumprindo
exatamente a mesma função: instituições públicas apoiadas no Tesouro Nacional,
servindo de instrumento de conservação/reconversão de uma fração da classe
dominante" (p.227).
A expansão da cana-de-açúcar concentrou-se no Brejo
devido a limitações ecológicas, enquanto a da criação de gado estendeu-se
também ao Agreste. Aqui, a novidade consistiu justamente na introdução da
pecuária no Brejo, região antes percebida como imprópria para criação de gado e
destinada naturalmente ao cultivo da cana-de-açúcar. Essa estratégia de
reconversão faz um dos novos fazendeiros afirmar: "a agricultura minha é o
capim." Trata-se de solução preventiva face às novas leis trabalhistas e
agrárias, instrumento de defesa diante das possibilidades de trabalhadores
fazerem-nas aplicar. As terras de gado são pastos cuja formação se faz a custo
zero, uma vez que sucedem a roçados. Políticas de crédito e de
financiamento público subsidiadas para investimentos fixos e para aquisição de
plantei tornam ainda mais atraente uma estratégia de reconversão que, ao
preservar as terras livres de eventuais moradores, eleva a
potencialidade do Patrimônio fundiário como reserva de valor.
Neste
resumo da "reconstrução do sistema
de relações sociais em movimento," empreendida por Afrânio R. Garcia Jr.,
só muito alusivamente referi-me a seu tratamento da noção de liberdade, que,
parece-me, ocupa um lugar central na constituição de sua problemática, na
estrutura da exposição e na escolha dos meios de demonstração. O Sul:
caminho do roçado é uma lição de pesquisa e foi construído com esta
intenção. O árduo mas imprescindível trabalho de construção do objeto é
explicitado ao longo de todo ó livro. Em grande parte através das múltiplas
oposições - "o espaço das lutas simbólicas onde a própria análise
sociológica está inserida".(p.263). Talvez só esta dimensão tenha sido
assinalada. Outra; e tão importante, ou mais, é a da cooperação com
pesquisadores dó Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, do Museu
Nacional. Pelo menos desde 1970, desenvolve-se naquela instituição um
ininterrupto trabalho de pesquisa em equipe. Voltado inicialmente para a
problemática específica da plantation e para o movimento geral de
expropriação de moradores, esse trabalho resultou em vários estudos nos
quais, através da análise concreta de processos sociais têm-se resgatado,
simultânea e renovadamente, o que há de determinado e livre na história: as
variantes possíveis e o caráter não-linear de movimentos ocorridos em época de,
transição, as múltiplas possibilidades de resolução de sistema de contradições
historicamente especificadas.
Ao estruturar os capítulos de seu livro, Afrânio R.
Garcia Jr. reconstrói um amplo sistema de contradições que se resolve por
diferentes formas de ruptura com um modo tradicional de dominação em crise. As
diversas trajetórias analisadas revelam, e explicam, a heterogeneidade social
que, por sua vez, resulta do embate entre categorias sociais, definindo
estratégias que as vão diferenciando.
É vertiginosa a quantidade e variedade de dados
recolhidos por Afrânio R. Garcia Jr. Antes mesmo de sua análise, o autor
explicita que são dados existentes - descobertos, buscados - porque uma
determinada teoria, uma problemática, um objeto; levou-o a sua procura. Lição
inicial de pesquisa, cuja utilidade pode, no entanto, esvair-se, quando não se
sabe mais para quê, ou por quê, a teoria é acionada. Volto aos dados recolhidos
por Afrânio R. Garcia Jr. Parte deles são dados primários: resultados de
entrevistas, conversas em feiras, em sedes de sindicatos, em ônibus, em filas
de banco etc. com trabalhadores presentes na região estudada ou já migrantes no
Sul. E ainda de encontros diversos com chefes políticos locais. Para Afrânio R.
Garcia Jr., as representações mentais, como matéria-prima da análise de
relações sociais e de seus significados, têm de ser confrontadas a
procedimentos alternativos da tradição objetivista; a utilização daquelas
representações só se justifica quando fica demonstrada sua maior eficácia
explicativa na construção do objeto a ser analisado. Ora, não haveria condições
de reconstruir um sistema de contradições sem conhecer a lógica que preside as
práticas econômicas dos agricultores e dos alugados. Trata-se de uma lógica
denegada sistematicamente em nome de uma racionalidade e de uma modernidade
que, ao condenar as práticas econômicas dos pequenos produtores ao menosprezo
científico servem, na verdade, como justificativas "técnicas" para
projetos destinados a faze-los desaparecer. Ressurge, assim, novamente a
questão da liberdade: as estratégias de reconversão de dominados no
Brejo e no Agreste são também formas de luta por sua sobrevivência, pela
manutenção de sua condição de libertos, em que a noção de liberdade
"é objeto de um debate constante, de disputa pela fixação de seu
significado legítimo" (p.263).
Ao analisar as estratégias de reconversão dos grandes
proprietários do Brejo e do Agreste, Afrânio R. Garcia Jr. afirma que é preciso
inserir o exame da dinâmica da plantation tradicional em conjunturas
nacionais. Privilegia, entre outras, a profunda crise do início dos anos 60 e a
análise que dela fez o economista Ignacio Rangel. A referência toma-se uma
homenagem a quem teve a clarividência de adiantar mais de uma via possível de
desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Poderia haver expansão da indústria
sem Reforma Agrária. Foi o que se deu. É o que nos resta analisar, com a
esperança foral de Afrânio R. Garcia Jr.: "as trajetórias possíveis de
transformação social são múltiplas, e mais coisas dependem da luta de classes
do que sonha nossa economia e nossa ciência social..." (p.272).
Ana Maria Galano é professora-adjunta do Departamento
de
Ciências Sociais do IFCS-UFRJ e pesquisadora do CNPq.