Linhagem
e Legitimidade NO CANDOMBLÉ PAULISTA
Reginaldo Prandi
A expressão
"candomblé paulista", já no título deste artigo, pode soar estranha
ao leitor. Afinal, quando se fala em candomblé pensa-se logo na Bahia e suas
populações negras com seus costumes de origem africana. Religião afro-brasileira
em São Paulo é a umbanda, pensamos logo, pois a umbanda é a religião da
sociedade brasileira, cujos modos de vida se formaram no pós-1950, com o
desenvolvimento capitalista centrado nas.metrópoles industriais em formação no
Sudeste do pais. De fato, o termo candomblé, que já era usado, pelo menos,
desde os meados do século passado para designar práticas ou objetos de uso
ritual da magia e da religião dos negros livres e escravos, que viviam na corte
imperial e na Bahia, veio a consolidar-se, desde o começo deste século, como
designação das religiões de culto aos orixás, voduns e depois encantados tal
como se constituíram em Salvador e no Recôncavo baiano.
Nos estados acima
da Bahia, até o Rio Grande do Norte, porém, mais expressivamente em Pernambuco,
as religiões de origem predominantemente africanas receberam designação de
xangô; no Maranhão e no Pará foram chamadas de mina; no Rio Grande do Sul seu
nome é batuque; e no Rio de Janeiro, macumba, termo que veio a se generalizar
para qualquer referência (em geral preconceituosa) às religiões de origem negra
de qualquer parte do país.
A partir dos anos
60, contudo, a palavra candomblé, antes reservada às' expressões baianas do
culto aos orixás, começou a se transformarem nome genérico para os cultos afro-brasileiros
de origem "antiga", das diversas regiões do pais, em oposição ao
termo umbanda, que é o nome pelo qual a mais difundida religião de origem
africana é conhecida desde sua formação lá pelos anos 30 e 40.
A umbanda, nascida
no Rio de Janeiro do contato do candomblé com o kardecismo, profundamente
influenciada pela moralidade cristã já incorporada pelos espíritas, veio, em
oposição ao candomblé como religião de populações negras, a se firmar como
religião para todos, sem limites de raça, cor, geografia, origem social.
Enquanto o candomblé continuava como expressão de uma sociedade de molde
estamental, escravocrata na origem, a umbanda espalhou-se como a religião
brasileira para a sociedade de classes, industrializada, urbanizada, de intensa
mobilidade geográfica e social. A umbanda, ao se fazer como religião
independente, adotou o uso da língua portuguesa, abandonou o sacrifício ritual
de sangue e a iniciação sacerdotal com reclusão e mortificação, deixou de lado o
oráculo do candomblé (especialmente o jogo de búzios) que dá ao chefe do
grupo de culto a prerrogativa de decifração do destino e dos males e
oportunidades da pessoa; incorporou do kardecismo a noção básica da caridade,
que deslocou o eixo do culto para a prática da cura através da intervenção dos
espíritos desencarnados ou encantados, no rito do transe, reduzindo a
importância dos orixás e minando a estrutura rígida da autoridade centrada na
mãe ou pai-de-santo que caracteriza o candomblé.
Nos passos do
kardecismo, a umbanda vai se organizando em federações, adota um estilo
burocrático de organização e vai cada vez mais se mostrando publicamente e
lutando para ocupar espaços fora dos limites do terreiro. A umbanda rompe,
quase totalmente, com a idéia de mistério e segredo que é tão cara ao
candomblé, mesmo porque foi se escondendo que este conseguiu sobreviver na
sociedade branca e hostil. Sem mistério iniciático, a própria iniciação lenta e
"misteriosa" do candomblé deixou de fazer sentido para a umbanda.
Assim, e por isso tudo, até recentemente, a umbanda era vista pelas ciências
sociais como uma religião para a sociedade contemporânea, cabendo às diferentes
modalidades regionais do candomblé a preservação do patrimônio ético de origem
negra afastado da sociedade inclusiva por limites. culturais, correndo
inclusive o risco de desaparecimento à medida que a sociedade de classes
avançava a incorporação de segmentos presumidamente identificados com uma
identidade que os remetia a vínculos voltados para um passado cultural e social
incompatível com a vida na sociedade moderna.
A despeito de o
candomblé nunca ter, antes dos anos 60, se constituído significativamente como
religião organizada em São Paulo, e apesar de se acreditar que a umbanda, no
conjunto das tradições afro-brasileiras, era a expressão religiosa mais
propriamente adequada e coerente com a sociedade industrial da grande metrópole
do Sudeste, o candomblé veio a ser atualmente uma alternativa importante no
quadro das religiões populares que disputam o mercado religioso em São Paulo (Prandi,
1990).
Tendo deixado de
ser uma religião de grupos negros – como foi em suas origens e ainda o é em
certas cidades do Nordeste, sobretudo –, o candomblé em São Paulo arrebanha
adeptos de todas as origens étnicas e raciais, prolifera sobremaneira entre os
pobres, como o pentecostalismo e a umbanda, oferecendo-se inclusive como
agência religiosa especializada de serviços mágicos para uma demanda de
clientes de qualquer classe social não comprometidos religiosamente.
Sua recente
presença em São Paulo, não anterior ao ano de 1960, já definida nos termos de
uma religião competitiva capaz de se afirmar como religião de caráter
universal, isto é, aberta a todos, representa uma terceira etapa de um processo
iniciado com a introdução do kardecismo na sociedade brasileira, na virada do
século, e redirecionado com a consolidação da umbanda, numa segunda etapa, a
partir dos anos 50. No começo, e ainda hoje, a maioria dos militantes do
candomblé paulista é salda dos quadros umbandistas, já contando o candomblé nos
dias correntes com cerca de três mil terreiros em São Paulo (Prandi e
Gonçalves, 1989 a e 1989 b).
Em 1987, iniciei um
projeto de pesquisa com o fim de conhecer o processo de mudanças que vem
fazendo do candomblé, em São Paulo, uma religião originalmente de grupos
negros, uma religião de caráter universal, isto é, sem barreiras geográficas,
étnicas, de cor e de classe social. Uma religião que, desse modo, passa a
competir com outras ofertas religiosas presentes na metrópole paulista,
sobretudo o pentecostalismo e a umbanda, mas também o novo catolicismo popular
das comunidades de base.
Até 1989, foram
estudados 60 terreiros de candomblé localizados nos mais diversos pontos
geográficos da região metropolitana da Grande São Paulo, incluindo-se nesta
amostra terreiros das mais expressivas "nações" de candomblé (1):
do tronco iorubá, terreiros das nações queto, efã e nagô pernambucano; do
tronco banto, terreiros angola; do fon, o jeje-mina; além do candomblé de
caboclo, que pode aparecer justaposto aos demais, mas nunca autonomamente
(2). Creio que a pesquisa permitiu reconstruir uma primeira versão da
formação do candomblé em São Paulo, identificar suas fontes e avançar alguma
interpretação sobre o sentido sociológico de sua reprodução no Sudeste
contemporâneo em contraposição com a umbanda, religião que a muitos se mostrara
como uma espécie de etapa "urbanizada" do próprio candomblé em seu
contato com o kardecismo, visão que condenava o candomblé ao espaço das
religiões voltadas para grupos específicos (Prandi, 1990).
Característica
importante do candomblé é a ênfase na origem religiosa, a importância atribuída
ao conhecimento da genealogia religiosa do iniciado, a valorização da tradição.
Um membro do candomblé é reconhecido nos meios do chamado povo-de-santo, os
adeptos do candomblé, pelo conhecimento que se tem de quem o iniciou, seu pai
ou mãe-de-santo, de quem iniciou seu pai ou mãe, e depois seu avô ou avó, e
assim por diante, até a Bahia do século passado e até a África, se e tanto
quanto possível.
A origem religiosa,
hipervalorizada no candomblé, padece, contudo, de muitas dificuldades, entre as
quais o fato de que as origens mais valorizadas mudam com o tempo. Um tronco
religioso "antigo" ora é mais ora é menos aceito como de maior legitimidade,
pois muito aí influi não só o carisma e a publicidade dos chefes de terreiro
que lideram as linhagens, como a própria pesquisa cientifica; capaz de, através
do registro etnográfico das descobertas feitas pela prática da reconstituição
histórica, emprestar- a esta ou àquela casa de candomblé um reconhecimento de
"antigüidade" e "originalidade" muito procurado pelo
povo-de-santo.
Nos dias de hoje,
neste jogo de afirmação, importantíssimos são a mídia, os movimentos artísticos
e culturais e as instituições oficiais encarregadas de definir, selecionar e
preservar aquilo. que possa ser definido como "tradição" para a
sociedade brasileira, ou seja, os órgãos de tombamento patrimonial. Candomblé
sempre foi identificado com tradição, e como tal se forjou como objeto da
ciência, desde Nina Rodrigues no final do século passado, o qual estudava
preferencialmente o terreiro do Gantois (que mais tarde seria chefiado por Mãe
Menininha, a mais famosa mãe-de-santo de todos os tempos) exatamente pelo fato
de poder creditá-lo como um terreiro de origem africana "legítima",
autêntica. E este tem sido desde esses velhos tempos o grande drama do
candomblé: quem é criais legitimo, mais antigo, mais autêntico, mais
tradicional?
No presente texto,
ao estudar a formação do candomblé em São Paulo em suas relações com o
candomblé das regiões de onde este é proveniente, procuro mostrar como os
adeptos do candomblé enfrentam e Manipulam a questão da tradição, movendo-se
com muita freqüência de uma linhagem religiosa para outra, ao se mudarem de
terreiro e mudando de nação. As tendências mais claras da direção em que se dão
essas mudanças de axé (terreiro, linhagem, nação) permitem perceber a
existência de um processo de mobilidade no interior da religião que aparece
como um processo de mobilidade social (no inicio é mobilidade geográfica: a
migração do Nordeste para o Sudeste), uma vez que as redes de parentesco, e as
mudanças de um grupo para outro, inserem os adeptos em linhagens religiosas de
origens diferentes, todas elas portadoras.dos mesmos graus de prestígio. Como
este prestígio é, sobretudo, um reconhecimento proveniente do mundo não
religioso, que no começo deste século, no Nordeste, era o mundo branco,
letrado, culto e de homens de extração social elevada, e, hoje, é a sociedade
brasileira em seu conjunto, uma mudança de linhagem implica certo tipo. de ação
no interior dá religião que remete, necessariamente, ao mundo profano. Ser do
santo, ser do candomblé, hoje, prenuncia a possibilidade de uma carreira
sacerdotal que também está referida à profissionalização, numa sociedade em que
o feiticeiro e sua magia são perfeitamente aceitos socialmente, abrindo-se
inclusive, para isso, espaços específicos no mercado de prestação de serviços
pessoais. Competir num mercado de trabalho como o de agora importa deter certa
competência, real ou atribuída pela agência formadora. Nesta sociedade, no
mercado religioso e mágico, axé pode ter o sentido do currículo, isto é, o da boa escola.
Esse processo de
refiliações a terreiros e famílias-de-santo (Lima, 1977) de maior
reconhecimento pela sociedade exterior à religião, conta com fontes de ganho de
prestígio que são definidas e oferecidas, muitas vezes, aos terreiros e aos
adeptos, exatamente pela sociedade laica: o conhecimento acadêmico com suas fontes
escritas e suas instituições de ensino culto, o mercado livreiro e
discográfico, a formação de imagens públicas pela mídia eletrônica, além de
mecanismos oficiais de atribuição de importância patrimonial a aspectos também
da cultura popular, como os órgãos governamentais de tombamento e preservação
compulsória. Para não falarmos da demanda pela religião e, especialmente no
caso do candomblé, pela magia que põe em, destaque este ou aquele pai ou
mãe-de-santo, terreiro, nação, linhagem. E se este destaque, esta visibilidade,
de um lado é o do feiticeiro para uma clientela ad hoc interessada
apenas na solução de seus problemas pessoais, do outro é a do sacerdote para
uma população de fiéis.
Apesar de trabalhar dentro dos limites que
me são impostos pelo objeto da investigação a que me propus, acredito ser
possível, através dos achados aqui descritos, ver em funcionamento alguns
mecanismos importantes na construção do que é uma tradição na sociedade
brasileira, num jogo de apropriações sucessivas, em que, a última etapa parece
ser a própria intervenção do Estado, que aparece não para preservar, como ele
se propõe em principio, mas para construir, neste caso, uma tradição de 150
anos em apenas dez. Talvez seja apenas um capitulo a mais da história da
invenção das tradições (Hobsbawn e Ranger; 1984).
Origens e
linhagens
O candomblé chega e se expande em São
Paulo por diferentes maneiras: através de pais-de-santo que vêm do Rio e da
Bahia para iniciarem filhos aqui; quando umbandistas vão ao Rio e à Bahia para
lá se iniciarem no candomblé; nos casos em que um pai ou mãe-de-santo migra para São Paulo já
iniciado em seu estado de origem e abre aqui terreiros de candomblé; na
situação em que o migrante já vem "feito" no candomblé, mas começa
sua carreira religiosa em São Paulo abrindo casa de umbanda, para mais tarde
vir a tocar candomblé e abandonar, a umbanda; e, finalmente, através de filhos
que já são iniciados em São Paulo por mães e pais-de-santo, por sua vez, também
iniciados em São Paulo. Estas cinco maneiras de entrar na expansão do candomblé
em São Paulo podem ser observadas até os dias de hoje. Já na etapa de expansão,
é claro, esta última forma é a mais freqüente e é também a que reforça a idéia de
estar esta religião se enraizando na metrópole.
Dos meados dos anos
50 até o começo dos anos 60, Joãozinho da Goméia, que, havia muitos anos,
transferira sua roça de Salvador para Caxias, no Rio de Janeiro, visitava
constantemente São Paulo onde era amigo de influentes líderes umbandistas.
Muitos dos primeiros personagens do candomblé de São Paulo foram por ele
iniciados ("feitos", na linguagem-de-santo). E feitos aqui em São
Paulo, embora este primeiro começo tenha contado também com filhos de Joãozinho
feitos na Goméia do Rio e na originária Goméia da Bahia.
Por volta de 1960,
havia um trânsito importante entre Rio e São Paulo, entre umbanda e candomblé,
trânsito que trazia o candomblé para dentro da umbanda e o Rio para dentro de
São Paulo.
Pela memória dos
mais velhos, sabemos que os terreiros de mais prestigio (3), no Rio de
Janeiro, nessa década eram todos filiados a tradicionais terreiros da Bahia; o
terreiro da Goméia de Joãozinho e o Ilê Axé Opô Afonjá então dirigido por Mãe
Agripina Souza, terreiro fundado por sua mãe-de-santo Mãe Aninha (Eugênia Anna
dos Santos) no Rio, pouco antes de seu retomo a Salvador, onde veio a abrir,
por volta de 1910, o Ilê Axé Opô Afonjá em solo baiano (4); a casa de
Tata Antônio Fomutinho (Antônio Pinto) e de seu filho-de-santo Seu Djalma de
Lalu (Djalma Souza Santos); a casa conhecida pelo nome de Pantanal, fundada por
Pai Cristóvão do Ogunjá (Cristóvão Lopes dos Anjos), descendente direto da casa
matriz da nação efã, o Terreiro do Oloroquê, em Salvador; o terreiro Tumba
Junçara de Manuel Ciríaco dos Santos; e o de Neive Branco Manuel Rodrigues
Soares Filho), gêmeos de seus terreiros baianos (5); o candomblé de João
Lessenguê, e outros menos lembrados. Aí estavam representadas as nações de
candomblé gueto, efã, angola, jeje-marrim, caboclo. Todas se reproduziram em
São Paulo entre 1960 e 1970, quando a estas vieram se juntar outras de origem
geográfica mais distante; a nação nagô pernambucana, a mina-jeje maranhense, o
nagô-ijexá gaúcho. Refundindo-se, refazendo-se, transformando-se. São Paulo se
fará cosmopolita, também, para as nações de candomblé.
O estabelecimento
do candomblé no Estado de São Paulo parece ter começado em Santos, onde estão
as casas lembradas como as mais antigas. Ou seja, enquanto umbandistas de São
Paulo se iniciavam no candomblé com pais e mães do Rio ou da Bahia, tanto indo
para lá como os recebendo aqui, alguns terreiros já haviam se instalado
diretamente na Baixada Santista, mais ou menos em torno do cais do porto. O
próprio povo-de-santo vê o candomblé como uma religião do litoral, certamente
porque ele se formou em capitais litorâneas e suas cercanias: Salvador e o
Recôncavo, Recife e Olinda, Baixada Fluminense, Porto Alegre. O mais antigo
terreiro de candomblé no Estado de São Paulo foi fundado, pelos dados de que
disponho, em Santos, em 1958, por Seu Bobó. Vindo da Bahia, Seu Bobó, José
Bispo dos Santos, hoje com 75 anos de idade, ficou no Rio de 1950 a 1958. Diz a
lenda (Bobó já é, em vida, uma lenda do povo-de-santo de São Pado) que. Bobó,
na Bahia, teria sido suspenso, isto é, escolhido por um orixá no transe, para
ser ogã no terreiro de Maria Neném (Maria Genoveva do Bonfim), um dos
importantes troncos do candomblé angola, e que depois teria freqüentado a casa
de Simpliciana (Simpliciana Maria da Encarnação), ialorixá do terreiro de
Oxumarê (outro tronco fundante do candomblé em Salvador, hoje dirigido por Tia
Nilzete). Acontece que um ogã não pode ser pai-de-santo, pois ele não tem a
faculdade de entrarem transe. Comentei sobre essas coisas com ele e Seu Bobó me
explicou: "Estes meninos de hoje, o que eles sabem do tempo dos antigos?
Eu sou do santo e estou no santo faz mais tempo que o avô deles. Mas quando
eles precisam aprender alguma coisa eles pegam o ônibus lá no metrô e vêm tudo
correndo aqui." A casa-de-santo de Seu Bobó está há muito tempo no bairro
do Itapema, Rua Projetada Caic, 63, município do Guarujá, do outro lado do
canal do porto de Santos. Bobó é pai-de-santo de chefes de muitas casas de São
Paulo, filhos que ele iniciou, ou que adotou ritualmente, como Roberto de
Oxóssi* (6).
Também em Santos
fixou-se Mãe Toloquê (Regina Célia dos Santos Magalhães). Iniciada ainda na
Bahia por Joãozinho da Goméia, 50 anos atrás, Toloquê, mãe-de-santo de Adilson
do Ogunjá*, veio para o Rio, onde iscou cerca de seis anos, e desceu para
Santos nos anos 50, onde está até hoje. Seu terreiro, o Axé Obioju, fica à Rua
Prof. Francisco Domênico, 584, no Bom Retiro, em Santos.
Ainda na Baixada
Santista, em São Vicente, no início dos anos 50, abre casa o pai de=santo Vavá
Negrinha, Valdemar Monteiro de Carvalho Filho, baiano de nação jeje de casa de
Guaiacu. Hoje, doente, Seu Vavá vive na casa de seu filho-de-santo (por adoção)
Walter de Ogum*, originário do catimbó pernambucano, e iniciado na candomblé do
extremo sul do país, em Porto Alegre, 1969, na casa de Mãe Iemanjá-Ossi (Ester
Ferreira), filha ou irmã-de-santo de João do Bará, linhagem estudada por
Herkovits (1943) nos anos 40 e por Norton Corrêa (1988) no presente.
Todo esse grupo,
fixado na Baixada Santista, mantinha estreitas relações com Joãozinho da Goméia
e com certos terreiros de umbanda de São Paulo.
Em 1961, chega a
São Paulo Alvinho do Omulu, Álvaro Pinto de Almeida,. branco, fluminense; feito
no santo em 1954 pelo já citado Cristóvão de Ogunjá, no terreiro fluminense
conhecido como terreiro do Pantanal, fundado por este em 1952, após ter passado
alguns anos com um terreiro na Vila São Luís, em Caxias. Cristóvão vinha da
Bahia onde fora iniciado no terreiro do Oloroquê por Matilde de Jagum Segunda;
Matilde Muniz do Nascimento (1900-1973), filha-de-santo de Matilde de Jagum
Primeira, que herdou o terreiro de seus fundadores, Maria da Paixão, a Maria do
Violão, e o africano Tio Firmo Olufandei. Ainda na Bahia, mas já com casa em
Obarama (embora nunca tenha se desligado do Oloroquê, até morrer, poucos anos
atrás), Cristóvão iniciou, em 1933, Waldomiro Costa Pinto, Waldomiro de Xangô,
popularmente chamado Baiano, e que virá a ser figura importante na etapa de
consolidação do candomblé queto em São Paulo.
Antes de Alvinho
chegar em São Paulo, como funcionário transferido do antigo IAPETEC, ele teve,
no Rio, uma casa de candomblé aberta em 1964, no Largo do Bicão, na Penha. Ali
tirou seu primeiro barco de iaôs, isto é, iniciou sua primeira turma de
filhos-de-santo (7).
Em São Paulo, Pai
Alvinho passou a freqüentar um terreiro de umbanda na Ponte Rasa, o de Décio de
Obaluaiê, iniciado no candomblé por Tata Fomutinho. Nesta casa foi iniciado no
candomblé, por Antônio Fomutinho, o umbandista Jamil Rachid, sendo Alvinho o
seu pai-pequeno. Jamil. jamais abandonou a umbanda e veio a se tomar um dos
dirigentes mais importantes no quadro das federações umbandistas de São Paulo
(Concone e Negrão, 1987, p.49). E foi nesta casa que Pai Alvinho tirou seu
primeiro barco de iaôs em São Paulo.
No início dos anos
60, havia em São Paulo outras casas em formação. Os pais-de-santo daquela época
mais lembrados são Vavá Negrinha e Seu Bobó, que transitavam entre Santos e São
Paulo, Seu José de Oxóssi, vindo do queto baiano, Camarão de Iansã,
filho-de-santo de Joãozinho da Goméia, como sua irmã-de-santo Mãe Toloquê, além
da presença constante, em São Paulo, do próprio babalorixá da Goméia, João
Torres Filho, Joãozinho da Goméia, Joãozinho do Caboclo Pedra Preta, a quem se
acusa de nunca ter sido feito por Jubiabá, como ele dizia, mas que foi o homem
mais influente na consolidação pública do candomblé no Sudeste. Há os que se
iniciam, que ingressam ritualmente no candomblé e há os que iniciam o
candomblé, ou ritos e nações de candomblé. Como acontece com qualquer
instituição.
Em São Paulo,
Alvinho sempre se instalou na zona Leste. Sua primeira casa ficava na Vila
Libanesa, onde raspou sete barcos, num total de 17 iniciados. Depois ele foi
para Engenheiro Goulart, em 1964, e mudou-se mais uma vez, agora para a cidade
A. E. Carvalho e finalmente para o Imirim. Em 1972, Alvinho voltou para o Rio,
onde seu terreiro está hoje instalado em Engenheiro Pedreira, Nova Iguaçu. Mas
vem freqüentemente a São Paulo. Nesses onze anos de terreiro em São Paulo,
Alvinho iniciou 51 barcos de iaôs, dentre os quais os barcos de Ada de
Obaluaiê*, João Carlos de Ogum*, José Mauro de Oxóssí*, Deusinha de Ogum*,
enfim, toda uma primeira geração de pais e mães do candomblé paulista que já haviam
experimentado por bom tempo o sacerdócio umbandista.
Dentre os muitos
filhos-de-santo de Joãozinho feitos em São Paulo, podemos citar, entre os
primeiros, Dona Isabel de Omulu* (1962), e sua filha Wanda* (1964); Sessi
Mikuara, esposa do Tenente Eufrásio, importante nome da história da umbanda
paulista, além de Gitadê*, feito no Rio, e que mais tarde trouxe para São Paulo
o que restou dos fundamentos do terreiro da Goméia, e a já citada Mãe Toloquê,
dos tempos de Joãozinho na Bahia.
Em 1965 abriu casa
Manodê*, nascida no sul da Bahia, e iniciada em Salvador por Nanã, Erundina
Nobre Santos. Quando Mãe Nanã se mudou para Aracaju, levou consigo sua filha
Manodê, que, depois de se casar, acompanhou o marido migrante para São Paulo no
ano de 1963. De nação angola, Nanã de Aracaju, falecida com 115 anos em 1981, é
considerada a fundadora de um tronco angola que leva seu nome: o candomblé de
Nanã de Aracaju. Esta linhagem já tem muitas gerações espalhadas por todo o
Brasil (8).
A casa de Manodê*,
fundada em 1965, no mesmo endereço em que ainda hoje se encontra, é um exemplo
formidável do crescimento de uma casa-de-santo. Ali, ao lado do grande e novo
barracão, ainda se encontra erguido o primeiro, acanhado e pequeno. Nesse
terreiro, que sempre permaneceu uma casa de angola, ela iniciou e ainda inicia
filhos, entre os quais Aulo de Oxóssi*, hoje gueto africanizado, do grupo da
nova geração de pais e mães-de-santo intelectualizados, ao qual pertence Sandra
de Xangô, sobrinha-bisneta-de-santo da mesma Mãe Manodê*.
Tendo se iniciado
no candomblé diretamente no terreiro do Gantois de Mãe Menininha, nos anos 50,
o paulista Babá Idérito*, após estudar iorubá na USP, em 1977, e empreender
várias viagens à África, dirige hoje o terreiro de candomblé talvez mais
africanizado do pais. No barracão de sua roça em Guarulhos, lê-se, afixado na
parede, o seguinte: "Todas as modificações que foram, e que continuarão a
ser introduzidas nesta casa servirão para conduzi-Ia até suas origens, na
África".
Ainda desses
primeiros anos é também a casa de Diniz da Oxum (Diniz Neri), filho-de-santo de
Waldomiro Baiano, que se estabeleceu em São Vicente antes de 1960. Foi ele quem
confirmou, no Rio, em 1961, Gilberto de Exu*, no cargo de ogã.
Em 1962, à procura
de emprego, migrou de Feira de Santana Ajaoci de Nanã*. Logo se integrou nas
redes da umbanda e desse candomblé em formação, iniciando expressiva linhagem
na região Noroeste da capital. Dele 'é filho-de-santo, no candomblé, Aligoã de
Xangô*, antiga mãe dë~ umbanda e depois de candomblé angola, a qual iniciará
Armando de Ogum*. Este virá a receber, sete anos depois, seu grau de
senioridade, já no rito gueto, africanizado, pelas mãos de Mãe Sandra de
Xangô*.
Já no final dos
anos 60, outras casas fundadoras foram chegando: Waldomiro de Xangô, Baiano, já
citado, abriu casa por pouco tempo em São Paulo, mas manteve a de Caxias, no
Rio, e mesmo depois, só com a roça do Rio, permaneceu residindo em São Paulo.
Por volta de 1970, o efã Waldomiro Baiano passou a fazer parte da
família-de-santo gueto do Gantois. Este fato, nos anos seguintes, fez mudar
muita coisa no candomblé de São Paulo.
Pérsio de Xangô*,
que já morava em São Paulo com casa de umbanda, voltou à Bahia em 1968, onde se
iniciou com Nezinho da Muritiba, sendo sua dofona de barco Tia Nilzete, filha
carnal de Simpliciana, ialorixá de Axé de Oxumarê, em Salvador, onde ela ocupa
o cargo herdado da mãe. Em 1971, Pérsio* iniciou Tonhão de Ogum*, de quem mãe
Rosinha* foi a mãe-pequena. Seu Nezinho da Muritiba, Manuel Siqueira do Amorim,
era o chefe do terreiro do Portão de Muritiba, no Recôncavo, onde Mãe Rosinha
de Xangô* era mãe-pequena; era estreitamente ligado por laços religiosos ao
Gantois e à Casa Branca do Engenho Velho, onde fez o jogo de búzios para
indicar a sucessora da falecida Tia Maci.
Numa de suas
andanças por São Paulo, Nezinho, acompanhado por Rosinha*, deu, em 1970, a
obrigação de senioridade ao pai-de-santo José Mendes*, o auto-intitulado
"Rei do Candomblé", sobre quem Ismael Giroto escreveu sua dissertação
de mestrado em Antropologia (Giroto, 1980). Neste terreiro Giroto foi
confirmado ogã. Desligado depois desta casa, com os propósitos de se
estabelecer como pai-de-santo, veio, inclusive, a questionar a fidedignidade de
parte da informação oral fornecida pelo pai-de-santo sobre sua linhagem e
registrada em sua dissertação.
Por volta de 1970,
havia muitos paulistas sendo iniciados em São Paulo e outros mais indo à Bahia
e ao Rio para lá fazer o santo. Ainda estava chegando gente que formaria
grandes famílias, como Milton de Oxóssi (Milton Mercadante), que veio de Mãe
Eulália do Axé da Ilha Amarela, no Rio de Janeiro; e Kajaidê*, que para lá foi
a fim de ser iniciado. Pai Doda de Ossaim* foi filho de Milton de Oxóssi e, com
a morte dele, passou para a mão de Kajaidê*.
Em 19 de março de
1971, aos 57 anos de idade, morreu no hospital das Clínicas de São Paulo,
Joãozinho da Goméia. Ocorreu então uma reviravolta de nações no candomblé em
São Paulo. O angola entrou em baixa, e o gueto se impôs, começando o período de
predomínio desse candomblé nagô da Bahia, com grandes disputas sobre tradição,
origem e legitimidade, tanto entre o povo-de-santo, quanto entre antropólogos
(Dantas, 1988). Era a época do prestígio do Gantois de Mãe Menininha, e Baiano,
então reconhecidamente adotado por esta mãe-de-santo, cantada em prosa e verso,
passou a ser pai-de-santo de muitos filhos feitos por Joãozinho da Goméia, além
de outros iniciados em outras casas e nações. Na qualidade de filhos de Baiano,
eles passavam a ser ritualmente netos de Menininha – todos no axé do Gantois, a
mais prestigiada família-de-santo de todos os tempos no Brasil. No ano de 1972,
aconteceu o jubileu de ouro de iniciação da mãe-de-santo do terreiro do
Gantois, ocasião em que Dorival Caymmi compôs Oração a Mãe Menininha, música
que alcançou grande sucesso na voz de alguns artistas na época, por sinal
baianos: Gal Costa, Maria Bethânia; Caetano Veloso.
Nesse contexto da
"nagocracia", chegou Mãe Juju*, que assumiu em São Paulo a casa que
seu pai carnal, Nezinho da Muritiba, vinha construindo em Sapopemba. Olga do
Alaqueto (Olga Francisca Régis) fixou residência em São Paulo, permanecendo na
Bahia quatro meses por ano, para as obrigações no seu mais que centenário
terreiro.
Caio Aranha, famoso
pai-de-santo da umbanda paulista, com terreiro primeiro no Brás e depois no
Jabaquara; foi sé passando para o candomblé e inaugurou, em 1974, na Vila
Fachini, o mais imponente terreiro de candomblé do país. Caio atraiu para sua
casa a gente mais importante dos candomblés do Rio e da Bahia. Em 1984, ao
falecer, foi sucedido por sua sobrinha e filha-de-santo, Sílvia de Oxalá*.
Gente feita no
santo e que havia migrado para São Paulo numa época em que o candomblé não
estava presente, e que, por isso mesmo, mantinha terreiros de umbanda, voltou à
religião de origem e passou a tocar candomblé. Como é o caso de Mãe Zefinha da
Oxum*; feita no nagô pernambucano por Pai Romão, filho carnal e herdeiro de Pai
Adão, e por Mãe Maria das Dores*, ambos raízes do xangô pernambucano de maior
reconhecimento público. E como o caso de Pai Abdias de Oxóssi*, que ainda
menino fora iniciado pela mãe-de-santo Samba Diamongo do Terreiro do Bate Folha
(terreiro fundado por Manuel Bernardino da Paixão), a qual foi a avó-de-santo
do baiano Ojalarê, que já veio para "trabalhar no santo".
Ainda pela frente
tivemos a chegada de Francelino de Shapanan*, do jeje-mina maranhense; a
mudança para São Paulo do terreiro de Pai Gabriel de Oxum*, que, a partir de
São Paulo; trabalhando religiosamente bastante ligado ao Pai Marco Antônio de
Osaim*, e que tem permanecido boa parte de seu tempo na Suíça, onde tem larga
clientela; a instalação de uma casa de culto de eguns, sob orientação de Mestre
Roxinho, da família dos fundadores do candomblé de egungum de Itaparica; a
vinda da filha carnal de Neive Branco, Mãe Meruca*; a mudança completa; do
Recife para São Paulo, do terreiro quase centenário da mãe-de-santo de Mãe
Zefinha de Oxum*, a matriarca pernambucana Mãe Maria das Dores* (já citada em
1934 nos anais do Primeiro Congresso Afro-brasileiro do Recife, organizado por
Gilberto Freyre) (9).
Mas é difícil encontrarmos um terreiro em
que todos, ou a grande maioria, tenham sido ali iniciados no candomblé, e mais
raro ainda achar um outro em que boa pane dos iniciados não tenha abandonado a
mãe ou pai-de-santo da casa (o iniciador original) para, se abrigar sob a
tutela religiosa de outro axé. E a cada. mudança,,a teia de parentesco vai se
ampliando, se emaranhando, como se, ao foral, partindo-se de tantas e
diferentes origens, se chegasse a uma somente. No candomblé, o conflito separa,
afasta e rejeita, mas induz também a aproximação e a adoção pelo outro. Isto,
na resultante dos movimentos de afastamento e recepção, esta circulação de
adeptos pelos terreiros, nações e linhagens, aproxima as casas, ainda que as
mantenha. antagônicas entre si. E quase sempre haverá algum grau, mesmo que
remoto, de parentesco com o outro. Assim se vai formando o povo-de-santo, e a
religião se constituindo em âmbito nacional, por conseguinte.
Parentesco e
força sagrada
No candomblé, a
palavra axé tem muitos significados. Axé é força vital, energia, princípio da
vida, força sagrada dos orixás. Axé é o nome que se dá às partes dos animais
que contêm essas forças da natureza viva, que também estão nas folhas, sementes
e nos frutos sagrados. Axé é bênção, cumprimento, votos de boa sorte e sinônimo
de amém. Axé é poder. Axé é o conjunto material de objetos que representam os
deuses quando estes são assentados; fixados nos seus altares particulares para
serem cultuados. ,São as pedras (os otás) é os ferros dos orixás, suas
representações materiais, símbolos de uma sacralidade tangível e imediata.
Axé é carisma; é
sabedoria nas coisas-do-santo, é senioridade. Axé se tem, se usa, se gasta, se
repõe, se acumula. Axé é origem, é a raiz que vem dos antepassados. Os grandes
portadores de axé, que são as veneráveis mães e os veneráveis pais-de-santo,
podem transmitir axé pela imposição das mãos; pela saliva; que; com a palavra
sai da boca; pelo suor do rosto, que os velhos orixás em transe limpam de sua
testa com as mãos e, carinhosamente, esfregam nas faces dos filhos prediletos.
Axé se ganha e se
perde. A intensidade do axé de uma casa pode ser mensurada pelo número de
filhos e clientes que seu chefe consegue arrebanhar. Axé é uma dádiva dos
deuses, mas é preciso conhecer as fórmulas rituais corretas, perfeitas, para se
chegar a ele. "Ah, mas qual é a folha certa?" se pergunta o venerando
Idérito de Oxalufã, filho da mãe de mais axé do candomblé de todos os tempos, Mãe
Menininha do Gantois, e que mesmo assim não se cansa de peregrinar à África na
procura das verdadeiras raízes que, em parte, teriam se perdido no Brasil. Ele
nos contou que, sempre, ao voltar da África ia a Salvador, subia a ladeira da
Federação que leva ao templo da velha mãe, para tornar a sua bênção. Em
respeito a ela nunca tocou no assunto de suas viagens. Sua irmã-de-santo,
Creuza de Nanã, filha carnal de Menininha e hoje sua sucessora na casa do
Gantois, criticou-o, sutilmente, como é costume entre o povo-de-santo,
dizendo-lhe que ela, Creuza, nunca tivera a necessidade de ir à África para
aprender o oriqui (a reza da ancestralidade) de sua mãe, o orixá Nanã Buruku.
Ao que, respondeu Pai Idérito: "Sim, mas sem ir lá, você nunca vai ficar
sabendo quem foi a mãe de Nanã." Nós, pesquisadores sem tato, perguntamos,
afoitos: "E quem é a mãe de Nanã, Babá?" Ele deu de ombros, como quem
diz: "Ah, pesquisadores..." Isto também é axé, é conhecimento, é
poder, é fundamento.
Axé também é a
coisa enterrada, objetos de culto escondidos, primeiro da perseguição policial,
perseguição do branco, e mais tarde escondidos da curiosidade do olhar profano,
do interesse de quem não tem raiz, não tem origem, aquele que é côssi, no
linguajar-de-santo.
Axé é sobretudo a casa de candomblé, o
templo, a raça, a tradição toda. A matriz fundante de toda uma descendência.
Axé é linhagem, é família-de-santo, é saber-se pertencente a uma descendência
cuja origem é conhecida e comprovada por registros históricos, pelo trabalho do
etnógrafo de outrora, pela prova da fotografia, hoje. Ter axé é ter
legitimidade junto ao povo-de-santo.
Filiação por
feitura é por obrigação
No candomblé, todo
iniciado tem seu pai ou mãe-de-santo, e por conseguinte, um avô ou
avó-de-santo, bisavô ou bisavó, e assim por diante. Filhos do mesmo pai serão
irmãos. Filhos de irmãos serão sobrinhos etc. O parentesco religioso tem
exatamente a mesma estrutura do parentesco ocidental contemporâneo não
religioso.
Quando um
pai-de-santo morre, os filhos devem tirar de suas cabeças a mão do falecido –
tirar a mão de vume ou de vumbe, como se diz. Nessa cerimônia, o sacerdote que
substitui o falecido passa a ser o novo pai ou mãe-de-santo do órfão. A
filiação anterior era por "feitura", por iniciação, esta segunda é
por adoção, por "obrigação". "Dei obrigação com Mãe Maria de
Oxóssi" significa que passou sua cabeça e seu santo para os cuidados desta
mãe Maria. Quando .uma casa perde seu chefe, a sucessora ou sucessor recebe
todos os membros da casa em adoção, sem mudança de linhagem, pois a mudança do parentesco religioso, nesse
caso, se deu em linhagem direta. Todos continuam pertencendo ao mesmo axé, à
mesma casa onde foram iniciados.
Mas as sucessões
nas casas-de-santo (que têm conseguido sobreviver à morte do chefe) sempre
foram conflituosas, desde as primeiras vacâncias do trono da Casa Branca do
Engenho Velho, considerado "o primeiro terreiro"; por morte de suas
ialorixás. Conflitos sucessórios na Casa Branca deram origem ao terreiro do Gantois,
fundado por
Maria Júlia da Conceição
Nazaré, e anos depois ao terreiro do Axé Opô Afonjá, fundado por Aninha, ambas
filhas da Casa Branca e pretendentes a frustradas sucessões. Num candomblé,
quando morre a mãe-de-santo e o filho não concorda com a sucessão, ele busca
outro axé, ou funda um outro. Fundar outro axé era fácil no princípio, mas não
tanto agora, quando já há uma história, ou uma memória, alimentando o mecanismo
de legitimação da origem.
Um filho pode,
também, romper com sua mãe quando esta ainda é viva e procurar outra casa para
se filiar. Há procedimentos complicados, o oráculo terá que ser consultado,
interesses serão pesados etc. De todo modo, pode-se passar de um axé para outro
através da "obrigação".
A obrigação, a
adoção, pode ser radical e pública, com novos ritos de raspagem, mudanças do
orixá da pessoa etc. Pode ser uma obrigação simples, como tomar um banho de
ervas sagradas, fazer alguns sacrifícios, dar uma comida à cabeça. Varia muito.
Quando uma mãe-de-santo deseja afastar a presunção de alguém que alega ser seu
filho por obrigação, quando ela nega uma possível adoção, ela diz: "Da
minha mão, ele não tem na cabeça nem um copo d'água".
Até quarenta ou
cinqüenta anos atrás, as feituras-de-santo na Bahia envolviam uma série de
casas (e em Pernambuco envolvem ainda hoje duas, a da mãe e a do pai-de-santo,
que podem ser de origens diferentes). Compareciam mães e pais de diferentes
casas e nações – era um momento de confraternização. Cada uma ajudava um pouco.
A mãe tinha experiência na iniciação para determinado orixá, por não saber com
segurança suas cantigas e preceitos, mandava a filha para ser iniciada em outra
casa, ou chamava para o seu terreiro outra mãe-de-santo para ajudá-la a fazer a
filha.
No candomblé de
hoje, em São Paulo, na Bahia, em Pernambuco, no Maranhão, no Rio Grande do
Norte, no Rio Grande dó Sul, a questão da origem parece ser o assunto predileto
do povo-de-santo. O tempo todo a legitimidade da origem religiosa é posta em
dúvida. Pai Alvinho é quem diz: "Eu fotografo tudo e anoto tudo, tenho
todas as datas. Meus filhos podem provar que são meus filhos". Pai
Idérito, que não admite a entrada de câmaras fotográficas no seu barracão,
autoriza a família do iniciado a tomar algumas fotos em certos momentos da
cerimônia pública.
A pesquisa de campo
mostrou que são raríssimos os sacerdotes chefes de terreiros de São Paulo que
permaneceram filiados ao axé de feitura (terreiro onde foram iniciados),
ocorrendo seqüências de rupturas e refiliações que já vêm desde a Bahia, é bom deixar bem claro.
Quando um pai-de-santo se afasta de seu pai ou mãe-de-santo e toma a mão de um
outro, esta nova mão expressa, como comprova a presente pesquisa, uma
mobilidade no campo da legitimação das origens, cuja trajetória é bastante
clara, referida a conjunturas históricas que marcam o prestígio maior ou menor
de uma nação-de-candomblé em relação às outras. Repete-se aqui, agora no
universo do candomblé, o movimento de passagem da umbanda ao candomblé.
Primeiro, entre 1960 e 1970, houve a tendência de maior filiação ao angola (que
está mais próximo da umbanda), sobretudo o de Joãozinho da Goméia e seus
descendentes. Nesse mesmo período foi igualmente expressivo o crescimento do
candomblé de predominância iorubana, o de Alvinho d'Omulu, descendente direto
da efã do terreiro Axé do Oloroquê da Travessa Antônio Costa, nº 2, Largo da
Capelinha, Engenho Velho de Brotas, Salvador, além das várias linhagens gueto a
que se filiavam outros pioneiros já citados. Waldomiro de Xangô, o Baiano,
dessa mesma origem efã de Alvinho, ao passar para o axé do Gantois, onde teria
dado obrigação com Mãe Menininha, arrastou consigo, nos anos 70 e 80, por
adoções sucessivas, diretas ou colaterais, duas ou três gerações de iniciados
paulistas.
No conjunto das 60
casas de candomblé que estudei em São Paulo, observamos as seguintes situações:
-
31 dos
chefes foram originariamente umbandistas ou tocaram umbanda por um certo tempo,
mesmo depois de iniciados no candomblé;
-
quatro deles
permanecem com toques de umbanda regulares combinados ou alternados com o
candomblé;
-
26
iniciaram-se na nação angola, muito mais próxima da umbanda e com grande
prestigio derivado da visibilidade pública e do carisma de Joãozinho da Goméia
até sua morte em 1971;
-
11
continuam na nação angola;
-
35 foram
iniciados numa nação de predominância cultural iorubana (queto, efã, nagô);
-
45 fazem
hoje parte deste grupo iorubano;
-
27 foram
iniciados no queto;
-
37 são os
que hoje estão no queto;
-
dois foram
iniciados em linha direta no Gantois;
-
12 estão
hoje filiados (dez por adoções sucessivas) ao terreiro de Menininha do Gantois.
Em resumo, a
trajetória é, ou tem sido, a seguinte: umbanda, angola, queto, queto-Gantois.
Um pai-de-santo, conversando comigo sobre o assunto, disse: "Joãozinho e
Alvinho fazem, Waldomiro Baiano conserta e Menininha leva a fama. Coitada, ela
nem sabe que é mãe do candomblé inteiro". Vamos fazer um pequeno cálculo.
Do número de chefes de terreiro hoje filiados a uma nação determinada, subtraio
o número de chefes que foram feitos naquela nação e divido esse resultado pelo
número dos que se iniciaram. Multiplico o resultado por 100. Isto me dá uma
taxa que expressa a direção e a magnitude da mobilidade por nação, uma medida
de decréscimo ou crescimento da nação através da adoção; em outras palavras, a
medida da mudança de axé, sem considerar as mudanças intermediárias e o fato de
que a permanência na nação de origem não é suficiente para indicar que não
tenha havido mudança de axé no interior da mesma nação, o que acontece quando
se passa para uma outra família-de-santo daquela nação. As taxas calculadas são
as seguintes:
Nação Taxa
de mudança
Umbanda -89
%
Angola -58%
Queto, efã, nagô +27%
Queto +37
%
Queto-Gantois +500
%
Os dados são
eloqüentes ao demonstrar o alcance do prestigio conquistado pelo candomblé
gueto em detrimento do candomblé angola, e incisivos ao apontar para a
supremacia do gueto do Gantois, que é apenas uma das muitas casas de gueto, mas
que é a casa de Menininha. Impossível deixar de lado o fato de que, neste
período, Mãe Menininha era uma figura de reconhecimento nacional. Mesmo muito
doente nos últimos 20 anos de vida, sua presença na televisão não era rara. Em
1984, em sua última aparição no vídeo do "Jornal Nacional", recostada
na cama, as pernas doentes escondidas por uma colcha de renda, na parede um
quadro com a estampa de João Paulo II, respondeu sorrindo à repórter que lhe
perguntara se ela era católica: "Eu sou católica. Eu sou de orixá, eu sou
de Oxum". O Brasil, havia mais de dez anos, aprendera a cantar: "...A
Oxum mais bonita, hein, - tá no Gantois... Olorum quem mandou esta filha de
Oxum tomar conta da gente. De tudo cuidar... Ah minha Mãe Menininha..." (Prandi,
1990).
A amostra desta
pesquisa não é aleatória, não pode ser usada, portanto, para estimar
parâmetros. Isto não significa, porém, que não possa ser usada para indicar
tendências. Acredito que o candomblé que mais se toca em São Paulo é o angola,
mas ele está muito mais presente no interior dos terreiros de umbanda, onde
fica e se reproduz dissimuladamente. Mesmo nas casas de gueto, quando há toque
freqüente de caboclo, usa-se iniciar o toque de caboclo com um xirê de orixás
em angola para depois virar o toque para caboclo. Das 60 casas de candomblé
estudadas, em menos de dez não se dá toques para caboclos. Na casa de Pai
Idérito*, filho do Gantois e africanizado, não se toca para caboclo. Também não
na casa de Sandra de Xangô*, na de seu filho Armando de Ogum*, na de seu neto
Reinaldo de Oxalá*, na de Iassessu*, na de Aulo de Oxóssi*, todas envolvidas em
um projeto de africanização iniciado há poucos anos, e que optou pela extinção
do culto a entidades que não sejam iorubanas. Menos radicais que esses, muitos
pais e mães hoje tocam, entretanto menos freqüentemente, para seus caboclos do
que costumavam, mas aqui a influência pode vir sobretudo do soteropolitano Axé
Opô Afonjá de Mãe Stela; que foi e segue sendo um terreiro-modelo do candomblé
gueto para todo o pais. Todos estes participam, cada um a seu modo, de um
processo intencional de dessincretização, afastando-se do calendário litúrgico
católico e eliminando símbolos e práticas do catolicismo umbandizado. A
trajetória da legitimidade vai se desviando da prática do catolicismo,
instituição branca que deu disfarce à instituição negra num tempo em que esta
era, de fato, só de negros. O candomblé de hoje pode perfeitamente continuar
católico, mas já não precisa do catolicismo para ser reconhecido e se reconhecer
como religião, agora religião não mais restrita a grupos negros.
O candomblé é todo
cheio de idas e vindas. Mudanças bruscas dão-se de uma hora para outra,
elementos abandonados são pie repente introduzidos. E essas mudanças são de
iniciativa e arbítrio do pai ou mãe-de-santo, que contudo, estrategicamente,
sempre afirmará tratar-se de designo do orixá, que mostra seu desejo através do
jogo de búzios, o qual só pode ser jogado e interpretado exatamente pelo pai ou
mãe-de-santo, o chefe -da casa. Quem não gostar, que mude de casa, que mude de
linhagem até.
Fazendo o cálculo
do número de vezes que os sacerdotes-chefes desta amostra pesquisada mudaram de
pai ou mãe-de-santo (ou por morte ou por ruptura, não importa), chegamos à média
de 1,4. Isto sem considerar as mudanças indiretas resultantes de mudanças de
axé por que já passaram o pai original, o pai adotivo, a avó etc. Quando um
chefe-de-terreiro muda de axé, toda casa muda junto. Os que não concordam
procuram outro axé ou então filiam-se ao próprio avô que o pai está deixando,
ou ainda a um tio ou outro parente dentro da mesma família.
Wilson de Iemanjá*,
por exemplo, foi feito no angola por Gitadê*, filho de Joãozinho. Wilson* saiu
da casa de Gitadê*, tocou gueto durante cinco anos com a paternidade adotiva de
Ojalarê*. Mas foi voltando ao angola, deixou o Ojalarê*, aproximou-se de seu
irmão-de-santo de feitura, Guiamázi*. No dia 18 de fevereiro de 1989, foi a
festa de sua obrigação de 14 anos, obrigação já conduzida pela mão de seu
antigo irmão e hoje pai-de-santo Guiamázi*, ainda ligado a Gitadê*. Este, para
deixar clara sua filiação, cantou uma cantiga de Obaluaiê, orixá de Gitadê*, no
momento em que estava trazendo a Iemanjá de Wilson* para dentro do barracão. Em
seguida, parou o toque e explicou para a platéia que cantou para Obaluaiê, à
entrada de Iemanjá, porque "este é o santo de nosso pai, é em homenagem a
ele".
Depois do rum
(dança solo do orixá) na nação angola, Guiamázi* fez virar o toque para a nação
gueto. Wilson* estava raspado, o que significa que o novo pai-de-santo entendia
a obrigação como uma necessidade de "conserto" iniciático, talvez
pelos cinco anos de convivência fora do axé e fora da nação. Mas mesmo isto não
o desobrigava de tocar para aquela Iemanjá no angola e no queto.
Ainda que haja
sempre muitas mudanças de axé, foi possível nesta pesquisa traçar, para a maior
parte dos terreiros paulistas estudados, suas linhas genealógicas, que vão dar
em um passado remoto, duma Bahia em que o candomblé estava nascendo. Nesse
percurso, as famílias-de-santo vão se fazendo, desfazendo, refazendo-se.
A título de
demonstração, mostro a seguir a teia de axés de urna iaô (filha-de-santo) de
Iemanjá, cujo nome religioso é lá Bemin, e que um dia foi iniciada por Wanda de
Oxum* e seu marido Gilberto de Exu*, já nossos conhecidos, e que depois tirou a
mão dos que a iniciaram, tomando obrigação com Reinaldo de Oxalá*, que passou,
assim, a ser seu pai.
A filha de
Iemanjá e suas linhagens
I. A filha-de-santo
lá Bemin (Mary Aparecida Ramacciotti) foi raspada por Wanda de Oxum* e por
Gilberto*. Wanda* fora feita de Oxóssi por Joãozinho; Gilberto*, confirmado ogã
por Diniz da Oxum, filho de Cristóvão, do terreiro do Oloroquê.. Wanda*, porém,
foi reiniciada para Oxum por Waldomiro, o Baiano, que tendo sido um dia
avo-de-santo de Gilberto*, passou a ser seu pai por obrigação. Como Waldomiro
já tinha passado para o axé do Gantois, tanto Wanda* como Gilberto* passaram ipso
facto à descendência de Menininha. Há, portanto, três origens aqui: 1)
Goméia, angola, pela feitura de Wanda*; 2) Oloroquê, efã, pela iniciação de
Gilberto* e de Waldomiro e 3) Gantois, queto, pela adoção de Waldomiro e
adoções sucessivas de Wanda* e Gilberto*.
Iá Bemin rompeu com
seus pais de origem e tomou, obrigação com Reinaldo de Oxalá*, seu pai adotivo,
portanto.
II. Reinaldo de
Oxalá* foi iniciado no candomblé por Roberto de Oxóssi, filho de Aníbal de Oiá,
por sua vez iniciado por Alvinho de Omulu. Mas foi das mãos de Dagno de Oxumarê
que Aníbal recebeu o seu decá (título de senioridade), tendo depois dado sua
obrigação de 21 anos com Mãe Juju de Oxum*. Aqui temos mais uma origem e outra
que se repete: 4) Oloroquê, efã, pela feitura do avô de Reinaldo*; 5) Gantois,
queto; 6) Portão da Muritiba, queto, que são as duas origens de Juju* e que,
nesta etapa, entram na história iniciática da iaô de Iemanjá pela obrigação de
seu avô-de-santo, por adoção, portanto.
III. Mas Reinaldo
de Oxalá* desliga-se de seu pai-de-santo e toma obrigação com Armando de Ogum*.
Armando* foi
iniciado por Aligoã de Xangô*, filha de Ajaoci de Nanã*; iniciado por Lendembê
de Oxum Ipondá (Justino do Ocupê), feito nos anos 20 por Jidenã em Cachoeira,
no Recôncavo Baiano, onde três municípios vizinhos, Cachoeira, São Félix e
Muritiba, formam um celeiro de casas antigas de gueto e de jeje-marrim. Quando
Jidenã morreu, Lendembê tirou a mão de vume (mão do falecido) com alguém cujo
nome se perdeu na memória, mas quando este de nome esquecido veio a falecer
Lendembê tirou a mão de vume com Joãozinho da Goméia, ainda na Bahia. Nessa
etapa, temos o reaparecimento de uma origem e o surgimento de outra: 7) Jidenã
de Cachoeira, jeje, por iniciação; 8) Goméia, por adoção. Veja-se que, até
aqui, a iaô de Iemanjá pode invocar sete axés de origem. Mas a história não
acabou.
IV. Armando de
Ogum*, atual avô-de-santo de Iá Bemin, tinha muito antes saído da casa de
Aligoã*, tendo tomado a mão de Ojalarê*. Ojalarê* é filho-de-santo de Gelson da
Oxum, Omilarê (Gelson Martins do Rego), feito no santo em Cachoeira por Jaime
de Obá, filho de jeje Enoque. Com a morte de Enoque, Gelson passou para as mãos
de Mãe Samba Diamongo (Edith Apolinária de Santana), angoleira saída do
Terreiro de Manso Bandunguenque ou "Bate Folha", com quem ficou 25
anos. Com a morte de Samba, 1979, Omilarê deu obrigação no gueto com Nandaré,
neta-de-santo de Aninha do Opô Afonjá e, com a morte daquela, com Seu Zequinha
do Bate Folha, voltando assim ao seu velho axé angola. Temos, portanto, mais
raízes à vista: 9) Enoque de Cachoeira, jeje, em linha direta; 10) Bate Folha,
angola, por obrigação, em linha direta e em linha colateral; 11) Opô Afonjá,
gueto, por obrigação e em linha colateral.
V. Armando de.Ogum*
deixou a casa de Ojalarê* e deu obrigação com Sandra de Xangô*, de quem recebeu
o decá, e com quem está até hoje. Sandra* fora feita em São Paulo por Luan,
filha de Maria de Xangô, angola, neta-de-santo de Nanã de Aracaju. Mais tarde,
Sandra* foi reiniciada por Nádia Adelodê, de Guarulhos, de uma linhagem
colateral do Gantois. E depois Sandra* tomou obrigação com o africano Epega
Onadelê, membro da Orunmila Youngsters of Indigene Faith of África, de Lagos,
Nigéria. Temos então nessa etapa de descrição: 12) Nanã de Aracaju, angola, por
feitura em linha direta; 13) Gantois, por obrigação, em linha colateral e 14)
África contemporânea, por obrigação, linha direta.
E assim, a filha de
Iemanjá, Iá Bemin, é hoje filha-de-santo de Reinaldo de Oxalá*, gueto
africanizado, neta de Armando de Ogum*, gueto africanizado, bisneta de Sandra
de Xangô*, gueto africanizado, trisneta de apega, descendente iorubano do
primeiro templo do deus Orunmilá, o dono do oráculo, criador dos 16 Odus que
governam a vida e que permitem a decifração do destino. Ela mudou de axé uma
vez, mas, no percurso de sua linhagem, podemos contar sete mudanças, as quais
nos dão o número de doze mudanças em cadeia, de 1920 até este momento.
A iaô de Iemanjá
pode dizer que tem axé da África atual, do Gantois, do Oloroquê, do Portão da
Muritiba, da Goméia, do jeje de Cachoeira, do Bate Folha, de Nanã de Aracaju e
do Opô Afonjá. Através dos axés do Gantois e do Opô Afonjá ela pode remeter sua
origem à Casa Branca do Engenho Velho, fundante do gueto, e daí até a velha
África, que marca os tempos da construção da religião dos orixás pelos
africanos escravos, forros e livres no Brasil dos séculos passados.
Ela é branca, como
brancos são o seu pai, seu avô e sua bisavó-de-santo. Mas sua africanidade é
garantida tanto por aquelas origens passadas como por este esforço presente de
religação religiosa com o continente negro. Fecha-se assim o círculo, até que
novas rupturas e alianças venham a acontecer. Embora ela possa sentir-se parte
de qualquer dessas famílias originárias, caberá a ela valorizar algumas,
esconder outras e duvidar das demais. Poderá, inclusive, refazer sua rede em
diferentes momentos. No candomblé, nem mesmo os deuses têm uma única origem com
aceitação consensual. Nesse sentido, pode-se inclusive dizer que o mito segundo
o qual Iemanjá é mãe dos demais orixás, com exceção dos orixás da criação,
confio os Oxalás, é falso, uma vez que esse mito, generalizado no Brasil e em
Cuba, nunca existiu na África, tendo sido resultante de um engano de registro
etnográfico cometido na África pelo coronel Ellis. Nina Rodrigues tomou o mito
como verdadeiro, embora não tenha encontrado sinal dele na Bahia, e o publicou.
Foi imediatamente republicado em Cuba por Fernando Ortiz. Hoje em dia, há quem
acredita ser Iemanjá a mãe dos orixás e há quem negue isso; não existe uma
única história, uma só versão. E isto aplica-se ao candomblé como um todo, quer
se trate de mito, de rito ou de organização sacerdotal.
O candomblé não
passa registro em cartório. E mesmo quando o faz, não o leva muito a sério.
Basta que nos lembremos de que a Federação Baiana do Culto Afro-brasileiro,
controlada pelos terreiros gueto de maior prestígio da Bahia, entregou à sua
mãe Sílvia de Oxalá* do Aché Ilê Obá paulistano o diploma de ialorixá, para,
meses depois, durante o IV Encontro Nacional da Tradição e Cultura dos Orixás,
que se realizava nas dependências do Opô Afonjá, em Salvador, com delegações de
diversas partes do pais, insinuar que diploma não era raiz nem atestado, o que
foi decisivo para derrubar Mãe Sílvia* da presidência da representação
paulista. A presidência da delegação de São Paulo foi então assumida por um
triunvirato composto de representantes de casas paulistas mais antigas e
iniciados havia muito mais tempo que os então poucos anos de Mãe Sílvia*. Um
par de anos depois deste incidente, em maio de 1990, o jovem terreiro da jovem
Mãe Silvia* foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico,
Arqueológico, Artístico e Turístico de São Paulo (Condephaat) – a tradição
negada pelos membros mais ativos do povo-de-santo foi atribuída através da via
oficial. Quem poderá dizer agora que o Axé Ilê Obá, o terreiro do falecido pai
Caio Aranha, de desconhecidas origens religiosas segundo a regra do candomblé,
o terreiro cuja construção tombada pelo Patrimônio data de 1974 e cuja atual
ialorixá não tinha os anos mínimos de senioridade ao assumir o cargo de
sacerdotisa-chefe, quem poderá dizer que não é tradicional? Que não tem
legitimidade? Que não tem origem, quando já é oficialmente considerado uma
origem em si mesmo, numa metrópole onde a tradição tem a data de ontem?
De todo modo, a
filha de Iemanjá, cuja teia de axés estamos perseguindo, é parente-de-santo
(ruptura não apaga o passado, aprende-se no candomblé) dos chefes de 30 dos 60
terreiros estudados (ver BOX).
Podemos assim
verificar que a filha-de-santo lá Bemin tem algum grau de parentesco com os
pais e mães-de-santo que chefiam metade dos 60 terreiros paulistas estudados
nessa pesquisa. Ela faz parte da segunda e da terceira geração de iniciados em
São Paulo. A cada nova ruptura e novos laços que se dão no meio do
povo-de-santo, mais amplo ficará o espectro dessa teia de axés.
Certamente essa
filha-de-santo desconhece tudo isso. Nem teria ela procurado uma casa para se
iniciar, e depois outra para se refiliar, com base nas origens religiosas
desses terreiros. Ela está ainda muito distante do ponto a partir do qual um
sacerdote ou uma sacerdotisa do candomblé começa a se preocupar com questões de
origem e legitimidade.
Em maio de 1989,
Reinaldo de Oxalá*, o pai-de-santo de Iá Bemin, iniciou-se para Oxum com o
nigeriano de Abeocutá, Adesina Sikiru Salami, residente em São Paulo desde
1983. Nossa iaô de Iemanjá está agora muito mais perto da África.
Origem, publicidade e legitimidade
No candomblé, a
idéia de legitimidade deriva da origem religiosa da casa que, por sua vez,
depende de um reconhecimento público dos terreiros fundantes das linhagens,
reconhecimento este que trabalha com critérios de seleção atribuídos pelo mundo
exterior ao terreiro.
Os terreiros
"fundantes" são, em princípio, os antigos e originais. Mas isto não
basta. É preciso que esses terreiros – dentre muitos outros tão antigos e
originais quanto eles – tenham atraído a atenção dos que transitam nos espaços
públicos da sociedade, e que na Bahia e no Recife das três primeiras décadas de
nosso século foram – e ainda continuam a ser – as academias de ciência, as
artes, a imprensa, o "mundo culto", digamos.
É interessante como
toda uma linhagem considerada bastarda pode, a qualquer momento, vir a fazer
parte daquelas consideradas as mais legítimas. Muitos pais e mães-de-santo de
São Paulo, que vêm passando por um processo de mobilidade social ascendente,
aprendem três coisas: ou provam sua filiação original, ou se filiam por
"obrigação" a um terreiro de linhagem prestigiada, ou lutam para ser
"fundantes" de seus próprios axés.
O reconhecimento de
um axé ocorre quando parte de seus múltiplos segmentos ganha notoriedade fora
do espaço do terreiro.
As fontes de
legitimação podem ser: o interesse acadêmico despertado, ó carisma do pai ou
mãe-de-santo, o sucesso do sacerdote no mercado religioso, sua visibilidade na
mídia. Não são quatro alternativas. Hoje, são quatro condições necessárias, mas
ainda assim não suficientes. Um pai-de-santo precisa ter filhos-de-santo,
muitos filhos-de-santo, sem os quais ele é incapaz de rotinizar e reabastecer
constantemente sua aura sacerdotal, filhos sobre os quais exerce sua dominação,
realiza seu talento estético e exercita sua majestade. Esse pai-de-santo tem
que estar, ao mesmo tempo, voltado para dentro e para fora do terreiro.
A maior parte dos
pais e mães-de-santo não tem percepção alguma do que seria essa legitimidade,
tampouco a têm os iaôs, em sua esmagadora maioria. São mães e pais-de-santo
desconhecidos, o que não desmerece seu papel religioso. Na verdade, enquanto
esses pais e mães-de-santo atendem a uma clientela e a um grupo de fiéis
desinteressados da vida pública, não faz sentido algum a noção de legitimidade
pela origem.
O sacerdócio no candomblé
também é um meio de mobilidade social ascendente – como foi o clero católico
para muitas famílias pobres com projetos de ascensão para seus filhos e como o
é toda e qualquer liderança religiosa. Assim, aqueles que começam a ser
bem-sucedidos socialmente (o que implica clientela) tendem a se envolver na
busca de prestigio que pressupõe uma pureza original, a qual vem do passado (a
África através da Bahia) ou do presente (a África ela mesma, a de hoje). No
processo de legitimação que foi se firmando em São Paulo desde o final dos anos
70, a maioria dos sacerdotes que se deixa envolver nesse. processo é forçada a
peregrinar à África, dar obrigações e tomar cargo nos templos (paupérrimos,
aliás) da Nigéria e do Benin, repetindo a saga de Martiniano do Bonfim, da
Bahia, e de Adão, do Recife, entre outros "grandes" dos anos 30.
Isto é africanizar.
Mas africanizar não significa nem ser negro, nem desejar sê-lo e, muito menos,
viver como os africanos. Dos nossos 60 terreiros, 27 são chefiados por brancos.
Destes, nove ostentam títulos religiosos conquistados em um ou mais templos nos
países africanos que contêm os povos iorubanos.
Africanizar
significa também a intelectualização, o acesso à leitura sagrada contendo os
poemas oraculares de Ifá, a reorganização do culto conforme modelos ou com
elementos trazidos da África contemporânea (processo em que o culto dos
caboclos é talvez o ponto mais vulnerável, mais conflituoso); implica o
aparecimento do sacerdote na sociedade metropolitana como alguém capaz de superar
uma identidade com o baiano pobre, ignorante e preconceituosamente
discriminado.
Cada um, a partir
da África e fora do circuito dominante do candomblé baiano, reconstrói seu
terreiro selecionando os aspectos que lhe pareçam mais convenientes ou interessantes.
Nesse sentido, africanização é bricolagem. Não é a volta ao original primitivo,
mas a ampliação do espectro de possibilidades religiosas para uma sociedade
moderna, em que a religião é também serviço e, como serviço, se apresenta no
mercado religioso, de múltiplas ofertas, como dotada de originalidade,
competência e eficiência. Se seguirmos os passos daqueles que mudam de um axé
para outro, veremos com expressiva freqüência a busca de um novo terreiro que
seja capaz de superar o anterior em termos de sua publicidade, fama, prestígio.
Assim, mudança de axé, mudança de linhagem, significa também a procura de maior
legitimidade para a opção religiosa e, junto com isto, um esforço de mobilidade
ascendente que é mobilidade social.
A africanização como
processo de religamento do candomblé à África contemporânea é uma forma que
este novo candomblé de São Paulo encontrou para se libertar do velho e original
candomblé baiano e até mesmo supera-lo, criando sua própria originalidade,
legitimidade. Necessita-se de uma medida nova de importância e prestígio, e que
não pode ser a antigüidade. Para completar esse movimento de autonomização em
relação às
velhas e tradicionais casas
da Bahia, o candomblé de São Paulo tem assim necessariamente de reinventar-se
também como tradição. Nesse sentido, o tombamento do nada tradicional Axé Ilê
Obá pelo Condephaat é escancaradamente emblemático.
(Recebido para
publicação em agosto de 1990)
Pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pelo Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
ANEXO (Box)
-Abdias de
Oxóssi*, que vem originalmente do Bate Folha, é seu tio em terceiro grau;
- Ada de
Obaluaiê*, feita por Alvinho e adotada por Baiano (que teria lhe dado, a seu
pedido, a obrigação em efã e não em gueto), é sua tia duas vezes em primeiro e
segundo
- Adilson de
Ogum* (falecido em 6/10/89) foi seu tio também, pois ele era filho de Toloquê,
que é filha de Joãozinho e depois de Baiano;
- Aligoã de
Xangô* é sua avó pela feitura de Armando*, seu atual avô adotivo;
- Ajaoci de
Nanã* é pai de Aligoã*, avô de Armando*, por conseguinte, seu bisavô;
- Armando de Ogum* é seu avô adotivo;
- Aulo de Oxóssi*
é primo distante por suas origens angola que vem de Manodê* e par sua adoção
(contestada por alguns) pelo Opô Aganju que é dissidência do Opô Afonjá baiano;
- Cidinha de
Iansã*, adotada por Kajaidê* é um parente distante par adoções sucessivas que
os ligam ao Gantois;
- Deusinha de
Ogum*, filha de Alvinho, é sua tia-avó, por adoção;
- Doda de
Ossaim* também é seu parente, já que é filho adotivo de Kajaidê*;
- Francisco
de Oxum*, filho de Merucá*, é parente bem distante;
- Gabriel da
Oxum*, descendente em linha direta de Maria Neném, é seu parente distante por
antigos laços das famílias do angola, embora ambos sejam queto;
- Gilberto de
Exu* é seu pai original e parente distante pela filiação a Baiano;
- Wanda de
Oxum* é sua mãe original e parente também por parte da linhagem indireta do
Gantois que passa por Baiano;
- Isabel de
Omulu*, mãe carnal e irmã-de-santo de Wanda*, é sua tia de santo, por parte da
linhagem da Goméia;
- Gitadê* é
seu tio direto e parente distante por parte da Goméia;
- Guiamázi*,
filho de Gitadê, é seu primo em primeiro grau;
- Idérito de
Oxalá* é parente distante, pelo Gantois;
- João Carlos
de Ogum*, filho de Alvinho, é seu tio-avô;
- José Mauro
de Oxóssi*, filho de Alvinho, é também seu tio-avô;
- José
Mendes* é seu parente pelo Portão de Muritiba;
- Juju de
Oxum* é sua bisavó, por adoção;
- Kajaidê* é
parente distante pelos lados do Gantois;
- Manodê* é
sua tia-trisavó, par adoção, por parte de seu avô adotivo;
- Matamba*,
irmão adotivo de Ojalarê*, é seu tio-bisavô por adoção;
- Meruca* é
parente muito distante;
- Ojalarê* é
seu bisavô, por adoção de Armando*;
- Pérsio de
Xangô* é seu,parente através de Juju*, de quem ele é irmão, pelo Portão da
Muritiba e pelo Gantois;
- Quilombo* é
seu tio, pela Goméia;
- Reinaldo de
Oxalá* é seu pai adotivo;
- Sandra de
Xangô* é sua atual bisavó adotiva;
- Tonhão de
Ogum*, filho de Pérsio*,é seu, primo por adoção pelas linhas do Gantois é do
Portão de Muritiba;
-
Wilson de Iemanjá*, filho de Gitadê* e depois irmão e filho adotivo de
Guiamázi*, é seu primo em primeiro grau pela linha direta da Goméia.
NOTAS
1 - A palavra nação, no candomblé, expressa uma
modalidade de rito em que, apesar dos sincretismos, perdas e adoções que se deram
no Brasil, e mesmo na África de onde procediam os negros, um tronco lingüístico
e elementos culturais de alguma etnia vieram a prevalecer (Lima, 1984, pp.
11-26).
2 - Para uma visão dos diferentes arranjos que
compõem uma dada "nação" de candomblé, recomendo uma leitura de Lima,
1984 (gueto, angola, jeje e de caboclo, na Bahia); Moda e Lima, 1985 (xangô
pernambucano); Ferretti, 1985 e Femetti, 1986 (tambor de, mina ou jeje-mina, do
Maranhão); Corrêa, 1988 (batuque gaúcho).
3 - Chamo-os de terreiros de "mais
prestígio" pelo simples fato de serem, ainda hoje, os mais lembrados por
aqueles que circulavam, naquela época, nos meios do povo-de-santo no Rio de
Janeiro.
4 - A pesquisa sobre o candomblé no Rio de
Janeiro é bastante limitada De uma enormidade de terreiros importantes na
história do candomblé no Rio, apenas dois mereceram estudos detidos, o da
Goméia (Cossard-Binon, sal.) e o Opô Afonjá (Augras e Santos, 1983). Há uma
certa disputa sobre qual dos dois Opô Afonjá, o do Rio ou o de Salvador, teria
sido fundado primeiro por Mãe Aninha.
5 - Há informações interessantes sobre os
baianos fundadores dessas casas, no Rio, em depoimentos e comunicações
publicadas no livro organizado por Lima (1984). A primeira referência a
Joãozinho da Goméia que encontrei na literatura está em Landes (1967, p. 230),
que também se refere a Ciríaco e Bernardino do Bate Folha. Ruth Landes os
conheceu em 1938, em Salvador.
6 - Este trabalho obriga-me a citar algumas
dezenas de nomes de pais e mães-de-santo. No presente texto, todo nome
acompanhado de um asterisco indica tratar-se de sacerdote chefe de terreiro
localizado na área metropolitana de São Paulo e que foi incluído na pesquisa.
Para simplificar, uso aqui apenas o nome pelo qual eles são popularmente
conhecidos, mas seus nomes civis e o nome, endereço e nação de seus terneiros
podem ser encontrados no artigo "Deuses Tribais de São Paulo" (Prandi
e Gonçalves, 1989a). No caso de sacerdotes que não compõem a amostra de São
Paulo, procurei fornecer o nome civil, sempre que me foi possível descobri-lo.
7 - Barco de iaôs é o conjunto de iniciados
recolhidos e raspados numa mesma leva. Um barco de iaôs pode ter desde um
noviço até vinte ou mais. Em São Paulo, dois ou três são considerados um bom
número por muitos pais-de-santo. Um barco grande tem a vantagem de cotização
das despesas da festa que encerra a feitura, mas exige instalações espaçosas no
terreiro. Em cada barco estabelece-se uma hierarquia, na qual o primeiro a
entrar no roncó (clausura) e a ser posteriormente raspado e apresentado ao
público na "festa do nome" tem precedência ritual sobre o segundo,
que tem precedência sobre o terceiro e assim por diante. Há nomes para os
postos na hierarquia do barco. O primeiro é chamado dofono, o segundo,
dofonitinho, o terceiro, forno, e, sucessivamente, fomutinho, gamo, gamotinho,
domo, domutinha, vito e, o décimo, vitutinho. É comum alguém se referir a outro
dizendo: "Ela é minha dofona; ele é o gamo do quarto barco de meu
pai". Também é freqüente a incorporação do nome da ordem de barco no nome
do iniciado, como é o caso de Tata Fomutinho. O dofono do primeiro barco de uma
casa é também chamado rombono. Ver Lima, 1984, pp. 66-76.
8 - Por estranha ironia, a popularidade e o
reconhecimento público de pais e mães-de-santo costumam vir à tona na ocasião
de seus enterros. Como aconteceu com Aninha e Senhora do Opô Afonjá, com Adão
do Recife, com Menininha Uma pesquisa em antigos jornais atesta como esses
sacerdotes e sacerdotisas vão para as primeiras páginas dos jornais locais ao
morrer, no caso de Menininha, para a televisão por todo o país. Quando Nanã
faleceu, os jornais de Aracaju puseram o fato nas manchetes principais da
primeira página. E é também interessante que, a cada falecimento de uma dessas
grandes personalidades públicas do candomblé, alguém escreverá que o candomblé
está no fim. Isto vem desde os anos 30 (ver Fernandes, 1937).
9 - Ver Cavalcanti,
1935. Mãe Das Dores aparece citada a seguir em Fernandes, 1937; Lima, 1937;
Motta, 1980; Segato, 1984; Carvalho, 1984 e 1987, Brandão, 1986; Prandi e
Gonçalves, 1989a e 1989b. Em 1980, Mãe Maria Das Dores já transferira seu
terreiro para São Paulo. Em todos esses títulos referidos, o citado Pai Adão e
seu terreiro de Iemanjá, onde Mãe das Dores foi por muito tempo, segundo o
costume pernambucano, mãe-de-santo coadjutora, são os protagonistas primeiros.
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