Desde o século
19, a indústria têxtil vem utilizando e concentrando uma importante
força de trabalho feminina em todos os países onde se desenvolveu.
Os setores de fiação e tecelagem tornaram-se, portanto, lugares
clássicos do trabalho feminino, e tiveram uma grande importância
simbólica na expansão da reflexão tanto moral quanto
ideológica, que, na mesma época, voltou-se para os fenômenos
da proletarização. Entretanto, em regiões fracamente
urbanizadas e proletarizadas - no sentido da existência de um mercado
de trabalho livre insuficiente, que era o caso do Nordeste brasileiro na
primeira metade deste século -, como poderia a indústria
têxtil se conformar a essa tradição internacional da
divisão do trabalho por sexo e arregimentar a parte feminina da
força de trabalho potencialmente existente no nível local?
A
história social do grupo operário criado pela Companhia Têxtil
de Paulista (CTP), que se tornara a principal empresa brasileira desse
setor industrial no fim dos anos 40, pode ser considerada, sob um certo
ponto de vista, como a história das experiências e soluções
trazidas a esse problema, bem como a das contradições surgidas
em decorrência das transformações do modo particular
de dominação em que se baseava o recrutamento de uma importante
população operária: Em outras palavras, essa história
pode ser vista como a das transformações sofridas pelo papel
das mulheres no trabalho e na família, desde sua subordinação
a um recrutamento familiar efetuado diretamente pela companhia nas regiões
camponesas até seu acesso a uma posição dominante
não s6 na economia familiar operária, como também
nas atividades associativas e na própria construção
da identidade social daquele grupo operário.
A
falta de mulheres na mão-de–obra local
Uma
das características mais originais do sistema de dominação
instituído pela fábrica de Paulista é o fato de que,
durante seu período de expansão, de 1930 a 1950, sua força
de trabalho foi recrutada diretamente sob a forma de famílias e
não de trabalhadores individuais. A CTP criou assim, ex-nihilo,
um grupo operário de origem camponesa que ela controlava inclusive
nas regiões de origem de seus membros. Esse tipo de recrutamento
é revelador do lugar que a empresa reservava aos diferentes membros
da família na divisão do trabalho, de acordo com o sexo e
a idade, tanto na fábrica quanto nas atividades anexas à
produção industrial. As famílias puderam ter assim
uma grande importância no estabelecimento desse tipo de dominação,
e mais tarde nas suas transformações. A dinâmica da
relação entre os sexos e as classes de idade no interior
das famílias desempenhou igualmente um papel
considerável (1).
Esse recrutamento
direto de famílias, só foi instituído após
um período de . recrutamento local espontâneo de operários-camponeses,
durante o qual a insuficiência da oferta de força de trabalho,
em particular feminina, foi duramente sentida pela empresa. Com efeito,
fundada em 1892 no lugar de um antigo engenho de cana-de-açúcar,
a 20km de Recife, a C"TP recorrera principalmente a antigos moradores
(2),
supervisionados por contramestres, ou a operários
profissionais recrutados no mercado de Recife (3).
Em sua fase
de expansão na década de 1910, em conseqüência
de sua aquisição pela família Lundgren, e.em seguida
à instalação de uma grande seção de
estamparia e da constituição progressiva de uma rede de lojas
no interior, a CTP viu-se continuamente confrontada com o problema da falta
de mão-de-obra. Foi então que começou a construir
uma vila operária para onde podia atrair e dar acolhida a operários
qualificados de Recife bem como aos trabalhadores provenientes do interior.
A empresa contava, também, com a imigração espontânea
e irregular das famílias cuja sobrevivência estava ameaçada
nas regiões açucareiras e algodoeiras do Estado de Pernambuco.
Até
os anos 30, entretanto, a vila operária resumiu-se a algumas ruas
dispostas em torno da fábrica, da casa grande e dos prédios
que abrigavam a administração da companhia. Fora desses limites,
a maioria dos operários morava em mocambos, construídos
ou por eles mesmos ou pelos "serviços externos" da CTP (que se encarregavam
das atividades não-fabris). Ao contrário das casas típicas
da vila operária em parede-meia com o vizinho, os mocambos
- habitações autônomas - associavam-se a roçados
e terreiros onde se fazia uma pequena criação de animais
domésticos. Para a CTP, essa associação mocambo-roçado
-
na qual a precariedade material da casa era compensada pela possibilidade
de acesso aos microrrecursos da agricultura e da criação
de animais - trazia conseqüências negativas para a assiduidade
e a disciplina no interior da fábrica. O trabalho industrial de
um ou de vários membros de uma família operária podia,
nessas condições, representar apenas uma renda suplementar
em comparação com os "ganhos" obtidos com o roçado:
a lenha catada, a pesca ou o pequeno comércio que se organizava
em torno dos recursos "naturais" do próprio lugar.
A economia
doméstica do mocambo-roçado era um estímulo
adicional para as mulheres ficarem em casa, impedindo-as, ao mesmo tempo,
de participarem do mercado de trabalho da fábrica. A formação
de operárias profissionais da tecelagem ou da fiação
afigurava-se, assim, ainda mais rara e difícil.
Recrutar
famílias para empregar operárias
Para poder
contar com certas categorias de trabalhadores que não se encontravam
naturalmente no mercado de trabalho local, principalmente as mulheres,
a CTP lançou-se ao recrutamento direto de famílias inteiras
por sobre todo o território dos Estados de Pernambuco e da Paraíba.
Dessa forma, atraiu numerosos trabalhadores dos dois sexos e de todas as
classes de idade, inclusive crianças (empregadas a partir de 10-12
anos, embora a lei não autorizasse contrato de trabalho antes dos
14 anos) e de homens mais velhos.
As
crianças entravam em grupos de aprendizes; com isso a fábrica
tornava-se, de fato, uma escola profissional direta muito mais importante
do que as salas de aula criadas pela empresa na vila operária. Os
idosos podiam conservar sua situação camponesa, cultivando
um pedaço de terra que lhes era concedido. A utilidade reconhecida
aos representantes dessas duas classes de idade extremas contribuía,
aliás, para manter uma moral do trabalho constantemente reforçada
por uma encenação teatral do pleno emprego que será
descrita mais adiante: A economia do salário familiar materializava
essa aspiração comum ao trabalho. Entretanto, os principais
suportes desse tipo de economia eram as crianças das famílias
camponesas há pouco recrutadas, e não o pai. Assim, o recrutamento
direto de famílias, por intermédio de agentes especialmente
enviados para esse fim, era um meio de inverter as bases materiais da autoridade
doméstica e da divisão do trabalho entre as idades e os sexos
no conjunto do novo grupo operário, em oposição ao
que se passava nas famílias operárias já estabelecidas
localmente.
Esse
recrutamento exercia, além disso, uma atração preferencial
sobre as famílias que contavam com maior número dê
moças. As famílias camponesas cuja reprodução
estava mais ameaçada eram quase sempre aquelas nas quais um desequilíbrio
entre os sexos acentuava o número de moças em detrimento
dos rapazes – os únicos a poderem ajudar o pai idoso no trabalho
agrícola –, bloqueando-se, assim, as possibilidades de sobrevivência
tal como eram socialmente concebidas em suas regiões de origem.
Operava-se, portanto, uma convergência entre, por um lado, uma oferta
de trabalho reservada às mulheres e, por outro, uma demanda potencial
por parte de famílias camponesas que dispunham de um número
excessivo de moças. Dessa maneira, concretizava-se uma possibilidade
de emigração simultânea de todo o grupo familiar, que
afastava o risco da dispersão de sua unidade. Finalmente, essa forma
de recrutamento atenuava a má reputação ligada à
contratação de moças pela fábrica entre as
famílias camponesas.
A composição
interna das famílias recrutadas preparava, portanto, essa inversão
dos papéis no trabalho industrial. Posteriormente, a própria
entrada no mundo da fábrica e na vila operária produzia um
efeito de ruptura com a vida social anterior dos recém-chegados,
na medida mesma de seu alto grau de ritualização. De fato,
após uma fase de viagem, organizada pelos agentes recrutadores,
em ônibus ou caminhões da CTP, que acentuava a precariedade
de sua situação anterior devido as improvisações
e emergências ligadas à mudança, as famílias
eram alojadas provisoriamente num grande prédio; homens e mulheres
alojavam-se separadamente, mas se reuniam para as refeições,
à espera do ritual da contratação que se desenrolava
diante do patrão em pessoa. As famílias eram levadas em fila
para lhe serem apresentadas, cada uma por sua vez, na varanda da casa grande.
O patrão interrogava o chefe de cada família a respeito de
seus trabalhos anteriores, sua região de origem, sua religião.
Em seguida, examinava as mãos e o fundo dos olhos dos adultos e
decidia, então, sobre a atribuição a ser dada a cada
um. Postados atrás do patrão, o chefe do pessoal e os responsáveis
pelos setores da fábrica registravam por escrito suas diretrizes
e podiam sugerir-lhe, se fosse o caso, outras atribuições,
imediata ou posteriormente.
Esta encenação
inaugura uma nova forma de dominação, a meio caminho entre
o modo de dominação personalizado típico da morada
tradicional (4) e o modo de dominação capitalista
industrial objetivado na gestão impessoal da mão-de-obra,
espécie de teatralização industrial da dominação
tradicional. Ela se dirige principalmente aos pais de família, como
detentores da autoridade doméstica, sensíveis ao simbolismo
ligado à personalização do poder patronal nas relações
tradicionais de dominação. Ao mesmo tempo, esse ritual marca
os limites da autoridade paterna que não pode se exercer na futura
carreira na indústria e na primeira atribuição das
crianças. Em seus relatos, os antigos operários insistem
no detalhe desse ritual para marcar bem que nele vêem a origem do
grupo operário de Paulista, ainda que não tenham pessoalmente
passado pelo ritual, como é o caso daqueles que não foram
recrutados diretamente pela CTP É como se esse ritual tivesse permanecido
na memória coletiva como o modelo preferencial de recrutamento do
grupo operário. Seu caráter de exame selecionava uns e rejeitava
outros – as mãos por demais delicadas do pai de família,
a religião ou qualquer outro motivo podiam dar pretexto à
dispensa arbitrária – de toda a família. Mas esse ritual
de entrada no mundo da fábrica e da vila operária, mais que
um "rito de passagem", "um rito de instituição" (Bourdieu,
1982, pp. 58-63), consagrava a diferença entre o conjunto das famílias
de trabalhadores submetidas a tal processo de recrutamento direto e o conjunto
mais vasto do qual se distinguia esse grupo instituído: o das famílias
operárias já instaladas localmente ou que haviam se apresentado
espontaneamente na fábrica.
A eficácia
simbólica do rito de instituição deve-se ao fato de
que, agindo ao nível das representações, agrega ao
mundo da fábrica as novas levas de trabalhadores recrutados pela
companhia em suas regiões de origem, inculcando-lhes, ao mesmo tempo,
uma forte adesão a sua nova situação; essa adesão
era facilitada pelo contraste entre o período de indigência
do qual saiam e a perspectiva de encontrar na vila operária boas
condições materiais de existência asseguradas pela
fábrica. Ao mesmo tempo, a presença de famílias já
estabelecidas colocava os novos recrutados numa situação
de humilhação que os levava tanto a sofrer quanto a incorporar
uma assimilação mais intensa das regras da fábrica
e da vila operária. Inversamente, a chegada dessas novas famílias
impunha às antigas um novo modelo de comportamento, feito de obediência
e de adesão renovadas, que incluía uma nova repartição
dos papéis no interior do grupo doméstico.
Uma
redefinição da autoridade doméstica
O ritual
de contratação já anunciava a divisão do trabalho
por sexo e idade na empresa. As moças mais "delicadas" eram chamadas
para trabalhar na tecelagem; as demais, na fiação. Os rapazes
eram colocados nas operações de pré-fiação,
no alvejamento, na tinturaria ou na estamparia, ou ainda, nas oficinas
mecânicas. e na manutenção da fábrica. Mas eles
tinham igualmente a possibilidade de participar de diversas atividades
extra-industriais: corte de madeira para alimentar caldeiras, construção
e manutenção da vila operária, transporte na linha
da estrada de ferro interna, tarefas de vigilância dentro da milícia
privada da companhia. A maioria dessas atividades, todas masculinas, permanecia
clandestina porque infringia a legislação do trabalho institucionalizada
a partir dos. anos 30. Os pais de família, por sua vez, podiam ocupar
postos de servente no interior da fábrica ou se encarregarem de
certos serviços no "setor externo" clandestino. Quando os pais tinham
um número suficiente de filhos trabalhando na fábrica, podiam
igualmente pedir a concessão de um roçado graças ao
qual conseguiam reconstituir a aparência de sua autoridade de chefe
de família camponesa: cultivando por conta própria um pequeno
roçado e administrando o trabalho de seus filhos operários
– considerado, então, como secundário no interior da unidade
familiar. A mãe de família ficava geralmente em casa onde
organizava os trabalhos domésticos.
A companhia
encontrava, assim, uma utilidade produtiva para a maioria dos membros das
famílias recrutadas; os dois sexos encontravam-se representados
mais ou menos em partes iguais tanto na população residente
como na mão-de-obra empregada na fábrica. Esse equilíbrio
estatístico não deve, entretanto, esconder a importância
do trabalho das moças nos setores estratégicos da tecelagem
e da fiação. O emprego mais precário dos chefes de
família idosos merece igualmente atenção: efetivamente,
sua entrada como serventes ou como varredores é geralmente vivida
como humilhante, conforme atestam as biografias familiares produzidas por
seus filhos. Para evitar esse tipo de situação, as crianças
eram moralmente obrigadas a se empregarem na fábrica precocemente
sob a responsabilidade do pai.
Tomou-se,
então, crucial para a CTP proporcionar aos chefes de família
idosos um lugar aceitável no universo da empresa, caso ela quisesse
reter as famílias que recrutara. Para a solução prática
dessa dificuldade inesperada a CTP inspirou-se nas reações
de descontentamento que ela já suscitara entre seus primeiros operários,
ao levar avante a destruição dos mocambos. Com efeito, simultaneamente
a sua política de recrutamento maciço e longínquo,
ela expandiu muito a vila operária às expensas dos antigos
"bairros" de mocambos. Assim, a chegada de novos grupos serviu para repovoar
a cidade nos limites de uma vila operária extensa e para reduzir
a antiga economia doméstica que associava mocambos é roçados
(5). Enquanto isso, o problema dos velhos pais de família
camponeses se ampliara em conseqüência da composição
dos grupos domésticos recentemente recrutados. Desse modo, a CTP
pôde responder progressivamente aos descontentamentos e às
reclamações dos operários estabelecidos há
longo tempo e expropriados de sua microeconomia do mocambo-roçado,
concedendo outros pedaços de terra, só que desta vez afastados
das casas. Esses roçados foram atribuídos prioritariamente
aos velhos camponeses recentemente chegados, a título de antecipação
em espécie sobre uma aposentadoria à qual essa geração
não tinha direito em razão de sua entrada tardia na indústria
e do caráter recente das leis sociais (as primeiras datam dos anos
30). Além disso, o fato de o roçado se encontrar agora afastado
da casa reduziu bastante as possibilidades de criação de
animais domésticos feita pelas mulheres, contribuindo ainda mais
para fazer do roçado um domínio dos velhos. Quanto aos outros
membros da família, só lhes restava adaptar-se aos ritmos
do trabalho assalariado: desde os rapazes e moças exigidos pela
fábrica até a mãe ocupada em preparar as refeições
e marmitas para os filhos submetidos a diferentes horários de trabalho.
A força de legitimação desse novo tipo de dominação
industrial imposto a uma população camponesa desenraizada
deve-se, em grande parte, ás concessões em espécie
feitas aos velhos pais de família e que aparentemente contribuíam
para reduzir a importância das mudanças decorrentes da transferência
do papel de mantenedores da família para seus filhos.
A
relação dos jovens com a fábrica
A política
de recrutamento direto aumentou muito a participação na mão-de-obra
das classes de idade mais jovens, forçando a empresa a investir
no treinamento rápido de moças e rapazes. Ora, embora o básico
da economia familiar dos recém-chegados fosse garantido pelo salário
dos rapazes e, mais freqüentemente ainda, pelo das moças, o
trabalho dos. filhos continuava sendo considerado uma ajuda ao pai que
permanecia em casa. Particularmente nó caso das moças, seu
salário servia para complementar o orçamento doméstico;
delas esperava-se, ainda, que ajudassem a mãe nas tarefas da casa.
Posteriormente, elas viam-se diante do casamento e tornavam-se donas de
casa como a mãe.
O trabalho
na fábrica só era visto, portanto, como um projeto passageiro.
Esse caráter efêmero acentuava sua passividade no trabalho,
permitindo ao mesmo tempo ao patronato intensificar sua exploração
sem ter de correr o risco de enfrentar reivindicações coletivas
ou prerrogativas individuais de carreira: o que pode ser insuportável
numa situação permanente de trabalho pode tornar-se suportável
nos limites de um projeto passageiro (Cottereau, 1983).
Aliás,
a mão-de-obra caracterizava-se por uma elevada rotatividade, sendo
as demissões tão freqüentes quanto eram fáceis
as contratações. Esse paradoxo, considerando-se a imobilização
da força de trabalho no interior da vila operária, podia
se aplicar tanto aos homens (sobretudo os jovens) quanto às mulheres.
A instabilidade da mão-de-obra feminina devia-se sobretudo às
doenças (a tuberculose era freqüente nos anos 40), aos acidentes
de trabalho; à atração exercida pelos trabalhos domésticos,
à existência de outros irmãos e irmãs que podiam
substitui-Ias na fábrica e, principalmente, ao casamento e, em seguida,
aos filhos. Entre os homens, socialmente destinados a um projeto permanente
de trabalho, a rotatividade poderia surpreender, tendo em vista a obrigação
moral de trabalhar enfatizada pela administração da fábrica
em todos os âmbitos da vida social local. Na verdade, a parte masculina,
solteira e jovem
da força de trabalho, passava por freqüentes mudanças
de emprego no interior da empresa, como-se ela estivesse apenas num período
de socialização preliminar às regras de cooperação
e de disciplina próprias à fábrica. Era como se a
aquisição dessa "cultura de fábrica" supusesse de
antemão uma soma de pequenos conflitos com a hierarquia imediata,
que se resolvia através de demissões seguidas de recontratações
em outros setores da companhia.
Diante desse
tipo de cultura operária de fábrica o observador tende, freqüentemente,
a considerar como propriedades do conjunto do grupo características
que são, na verdade, propriamente masculinas (6). Isso ocorre
com os apelidos e alcunhas utilizados entre companheiros, freqüentemente
tão grosseiros como as brincadeiras feitas ao longo da jornada de
trabalho para torná-la mais suportável; com os conflitos
com os chefes e contramestres, os intermediários entre o momento
da demissão e o da recontratação era outros setores
da fábrica; em resumo, com todas as manifestações
que giravam em torno da virilidade, da esperteza e da coragem, e que podiam,
às vezes, descambar para demonstrações de força
e coragem coletivas, de uma solidariedade dirigida contra outras classes
(Bourdieu, 1979, p. 447).
A participação
das mulheres nessa cultura de fábrica era geralmente mais discreta:
ela se expressava mais pelo "dicionário", uma linguagem codificada
por gestos em que várias companheiras se comunicavam à distância,
a despeito- do barulho das máquinas, ou pelos mexericos que animavam
a rivalidade entre tecelãs e fiandeiras. Menos voltada para o enfrentamento
da hierarquia, a solidariedade das mulheres manifestava-se principalmente
na organização dos acode-vexame (literalmente "ajuda em situações
de necessidade"), que eram pequenas caixas de socorro-mútuo destinadas
à compra de bens de consumo duráveis para o lar, até
mesmo vestidos de noiva. Pois a cultura profissional das operárias
situava-se essencialmente na mediação entre a fábrica
e a família.
As
carreiras de operárias
A partir
dos anos 50, quando pouco a pouco as demissões passaram a superar
as contratações, a rotatividade da mão-de-obra passou
a atingir, sobretudo, os homens. Por ocuparem todos os postos clandestinos
do "setor externo", eles eram mais facilmente demissíveis. As moças
mais raramente demitidas, quando o eram, retornavam à posição
"natural" de ajudar em casa. Aliás, muitas delas tinham sido convocadas
em sua região de origem por parentes que habitavam uma casa da vila
operária, ou para substituir no trabalho um membro da família
doente, a fim de garantir a manutenção da casa (7),
ou para ajudar outras mulheres em seus trabalhos domésticos: Elas
permaneciam na vila operária onde ficavam disponíveis para
um retorno eventual ao trabalho no caso de retomada das contratações
na fábrica. Os jovens demitidos, que não tinham lugar no
universo doméstico, acabavam em pouco tempo indo buscar trabalho
em outro lugar. Assim, o laço mais estreito das moças com
a casa e a família é que, paradoxalmente, podia levá-las
a permanecer na fábrica mais tempo que seus irmãos (exceto
os que ocupavam postos especializados ou de contramestres).
A dedicação
das moças a seus pais levava-as, por vezes, a continuar trabalhando
como operárias para sustentá-los e para fazer jus, com tempo,
ao benefício de uma aposentadoria em geral precoce, já que
sua vida ativa começara muito. Ao lado de sua posição
como arrimo de família, esse é um dos fatores mais importantes
na constituição de um celibato operário feminino.
"Na
minha família, quem sempre tomava a iniciativa era eu. Fazer as
compras, a feira, tudo. Quando eu era pequena, não, porque a mamãe
fazia, mas depois que cresci, papai deixava muita coisa por minha conta.
Depois que ele ficou doente, então, mais ainda. Meu irmão
»:ais velho foi criado pelo padrinho, e depois que se casou, nunca
mais voltou. Meu outro irmão foi embora de casa em 1954, depois
de dois anos sem trabalho aqui. Não tinha mais trabalho aqui naquela
época, nem nas fábricas do Recife. E por isso que muita gente
foi para o Rio e São Paulo como ele. Só eu e a minha irmã
é que tínhamos trabalho na fábrica, na fiação.
O salário era pago por quinzena, eu fazia a feira na semana do pagamento,
minha irmã na outra. Depois, ela se casou e foi embora de casa.
Eu fiquei, alguém precisava assumir a casa. .lá tinha muitos
anos de trabalho e pensava já em agüentar até a aposentadoria"
(filha de pescador, caçula da família, tornou-se fiandeira,
militante da Ação Católica, permaneceu solteira até
a aposentadoria).
Assim foi
que as operárias da fiação e da tecelagem formaram,
a partir do final dos anos 50, um dos grupos mais estáveis no interior
da fábrica, tendo como objetivo, do mesmo modo que os contramestres,
terminar sua vida profissional naquela empresa. E foi para garantir tal
possibilidade que esses dois grupos, até então passivos nos
conflitos de trabalho que começaram já no inicio dos anos
50, apareceram, no início dos anos 60, como os mais mobilizados
em torno do sindicato operário.
Durante os
anos 40 e 50, as fiandeiras estiveram ao lado dos operários especializados
da pré-fiação de onde .provinha a iniciativa da maioria
dos movimentos reivindicatórios e do desencadeamento das greves.
Orgulhosos de. sua habilidade técnica, ocupando um lugar estratégico
no início do processo de produção que lhes permitia
bloquear toda a produção seguinte, pagos por peça
como as fiandeiras e as tecelãs, esses operários estavam
sempre vigilantes quanto às manobras, muitas vezes fraudulentas,
a que se permitia a administração da empresa quando do pagamento
dos salários.
Ocorreram
conflitos trabalhistas em torno dessas questões, em 1943, 1952,
1954 e 1956, a partir da paralisação do trabalho na pré-fiação.
Não foi, aliás um acaso o fato de ter sido este o primeiro
setor atingido.pela modernização dos equipamentos da empresa:
a organização dos operários da seção
foi assim destruída, a partir de 1958, por causa de demissões
em massa e da transformação das:condições de
exercício da profissão e da definição do posto.
Poupadas,
temporariamente, das reestruturações associadas à
contração do emprego decorrente das modernizações,
as fiandeiras e tecelãs – que integravam juntamente com as operárias
da pré-fiação, as profissões tidas como "os
órgãos visuais e táteis do aparelho produtivo", segundo
a expressão de Halbwachs (1970) –, "herdaram" a combatividade de
seus companheiros demitidos, na conjuntura do início dos anos 60.
Elas já os secundavam na organização coletiva das
reclamações dos operários contra a companhia, que
se tornaram numerosas nos anos 50, assim que se institucionalizou localmente
a Justiça do Trabalho com a criação de um tribunal
de primeira instância, em 1944.
E essas mesmas
operárias tomaram parte ativa nas lutas que se desenvolveram em
1962 no interior do sindicato, visando à renovação
de sua diretoria.
As
operárias, mediadoras da história do grupo
O surgimento
dessas carreiras de operárias e o papel que as mulheres puderam
desempenhar na constituição de uma identidade social no interior
do grupo relacionam-se com a participação de um bom número
dentre elas nas associações religiosas locais patrocinadas
pela companhia. Todas aquelas jovens que haviam começado a trabalhar
desde os 12-14 anos de idade, cansadas da jornada de trabalho, encontravam
finalmente na JOC (Juventude Operária Católica) atividades
que as motivavam e lhes proporcionavam a formação e as relações
sociais não recebidas na escola da companhia, muito improvisada
e pouco freqüentada pelas crianças operárias, mais voltadas
para o aprendizado direto do trabalho na fábrica. Esse papel "escolar"
da JOC contribuiu, portanto, para reunir as diversas experiências
vividas pelas moças operárias ao longo do processo brusco
de desenraizamento camponês e de acelerada obreirização:
As redes de sociabilidade, que foram até o início dos anos
50 um instrumento a serviço da dominação simbólica
da CTP sobre as famílias operárias e, mais particularmente,
sobre essa parte estratégica da força de trabalho que eram
os jovens, desempenharam depois um papel no distanciamento dessa geração
de" jocistas" em relação à companhia e, inclusive,
em sua oposição, no momento em que a empresa mudou as regras
do jogo. As atividades da JOC contribuíram, portanto, para moralizar
e disciplinar essas gerações de recém-chegados. Tal
moralização contribuiu para que muitas operárias incorporassem
e construíssem ativamente seu celibato como arrimo de família,
passando a exaltar suas próprias qualidades de disciplina no trabalho,
e dando-se assim, meios para exercer de maneira eficaz sua dedicação
à família. A ruptura dos laços entre os operários
das associações católicas e a CTP cristalizou-se durante
as eleições municipais de 1955, quando um operário
sindicalista que era, ao mesmo tempo, presidente da Ação
Católica local foi eleito prefeito: seu adversário era um
dos filhos do patrão. Os operários católicos engajaram-se
na campanha contra o candidato da companhia, e a CTP teve a surpresa de
descobrir, ao lado de
seus opositores, aqueles mesmos operários cuja promoção
ela tão "generosamente" encorajara. Nessa ocasião, a ação
operária católica conseguiu substituir a militância
comunista (8) que tentava fazer-se presente na fabrica desde 1945,
mas que foi sempre severamente reprimida pela polícia e pela milícia
privada da CTP.
Na verdade,
a diferença entre esses dois tipos de militantes e seu
relativo êxito político local remete, novamente, a uma divisão
social entre os sexos, na medida em que o Partido Comunista (PC) recrutava
seus militantes principalmente entre os homens, ao passo que a JOC arregimentava
a maior parte de seus efetivos entre as operárias de Paulista. Nos
anos 30 e 40, as primeiras tentativas de oposição organizada
à companhia deveram-se quase exclusivamente a homens ligados ap
sindicalismo oficial e situados nos limites do campo político. A
experiência de implantação local do PC, a partir de
1945, foi, por sua vez, um assunto masculino – desde o envio de vendedores
de jornais até a fixação de operários vindos
das fábric4s de Recife –, o que trazia riscos para a segurança
pessoal dos militantes. Em contraste com esse tipo de ação
incentivada de fora, a reconversão política dos militantes
da JOC constituiu uma das principais mediações através
das quais o movimento de oposição à CTP se enraizou
na população local. Para isso contribuiu. a participação
das mulheres que, dado o fortíssimo laço que mantinham entre
a fábrica e a família, estavam em posição de
lutar contra a empresa de dentro dela mesma, isto é, a partir da
própria posição que o sistema de dominação
da empresa ,lhes reservara. Essa volta do sistema contra si mesmo acelerou
a emergência de sentimentos de pertencimento a uma geração
e a uma comunidade operárias.
Esse sentimento
coletivo não dependeu originalmente da JOC nem de grupos religiosos:
sua origem remonta a uma sociabilidade e a uma história que nasceram
da experiência das relações de dominação
específicas estabelecidas em Paulista e que escaparam parcialmente
ao controle da companhia que era, não obstante, onipresente. Esse
sentimento construiu-se por sobre uma memória coletiva constituída
de experiências compartilhadas: recrutamento familiar e os rituais
de entrada no mundo da fábrica; a nostalgia da abundância
dos produtos alimentícios que a CTP acumulava graças ao seu
monopólio de compra (9); o medo da milícia privada
da companhia constituída de mais de 500 homens; a experiência
das comunicações mudas e gestuais no borburinho da fábrica
que faziam parte de uma renitente cultura de fábrica; a admiração
por aqueles velhos pais de família tão ligados a seus roçados
a ponto de desejarem resistir à companhia que, tendo mudado de política,
agora os queria desalojar.
Mas é
verdade, também, que esses sentimentos compartilhados – produtos
essenciais de uma idealização dá dominação
passada que é também uma forma de denúncia implícita,
senão direta, das novas regras do jogo patronal – só puderam
se constituir em memória coletiva devido à permanência,
através das gerações, do grupo que foi o suporte da
acumulação direta da história incorporada em cada
um dos seus membros. A forte presença feminina nos postos estratégicos
da produção, através da qual se garantia uma moradia
na vila operária, é que assegurou essa permanência.
Em outras vilas operárias, como as das usinas açucareiras
em que apenas os homens trabalhavam e a contratação dos filhos
era cada vez mais difícil, a permanência no tempo e a estabilidade
no espaço das famílias tornaram-se praticamente impossíveis
(Leite Lopes, 1976). Pelo contrário, uma parte não desprezível
do grupo operário de Paulista conseguiu permanecer no local a despeito
das demissões, e isso graças à relevância do
trabalho das mulheres na fábrica, à densidade das redes de
parentesco desenvolvidas a partir do recrutamento familiar direto, graças
às possibilidades de reconversão dos antigos operários
ao pequeno comércio, como a feira local de produtos alimentícios.
Estavam assim reunidas as condições para a produção
e a conservação de uma memória coletiva.
Essa memória
coletiva atuou com força na mobilização de grupos
operários de Paulista no momento em que a CTP começou a executar
um projeto de modernização que acarretou a dispensa em massa
dos operários "estáveis", isto é, aqueles que tinham
mais de dez anos na empresa e estavam protegidos contra a demissão
pela antiga lei da estabilidade – que o regime militar acabara de modificar,
em 1967, sem ter, no entanto, tocado nesses direitos. Uma razão
suplementar para a mobilização decorria do desejo de poder,
um dia, usufruir, ali mesmo, dos direitos relativos à aposentadoria.
As novas forças de mobilização, que se haviam manifestado
por ocasião da renovação sindical de 1962 e da greve
vitoriosa de 1963, reapareceram então, passado o medo que se seguiu
às perseguições nos dias subseqüentes ao golpe
de Estado de 1964. E foram as mulheres dos setores da fiação
e da tecelagem que assumiram mais ativamente a mobilização.
Elas eram, pela primeira vez, maioria na direção sindical
que se reconstituiu em 1967; a maior parte pertencera, no passado, a associações
católicas locais. O sindicato iniciou uma luta na Justiça,
apoiada por assembléias e manifestações maciças,
pedindo a reintegração dos demitidos.
Foram feitas
reclamações coletivas diante dos tribunais. Toda a experiência
anterior dessa militância feminina de origem religiosa foi empregada
na organização das manifestações e das coletas
de donativos destinados a apoiar a resistência das famílias
dos demitidos que tiveram que esperar, durante mais de um ano, pela decisão
do tribunal. Embora a Justiça tenha rejeitado o pedido de reintegração,
a CI'P foi condenada a pagar indenizações tão elevadas
que ela acabou propondo pagar uma boa parte da soma devida aos demitidos
com a cessão da propriedade das casas em que antes moravam. Progressivamente,
metade das 6.000 casas da vila operária tomou-se propriedade das
famílias. Esta luta permitiu assegurar, assim, a permanência
de uma grande parte da geração recrutada nos anos 30 e 40
e de seus descendentes.
Essas
gerações, recrutadas sob a forma de famílias que tinham
moças entre seus integrantes – produto indissociável das
famílias, mas de preciosa valia para a fábrica têxtil
–, puderam assim permanecer no local; a despeito das demissões,
pela ação dessas mesmas moças que, ao se tornarem
operárias profissionais, garantiram a continuidade de todo seu grupo
social contra os novos interesses da empresa que as tinha recrutado. A
constituição dessas carreiras operárias femininas,
sempre estreitamente associadas à vida da unidade familiar, influenciadas
também por estilos de atividades associativas e militantes conformes
ao seu hábitos, foi essencial na formação da
memória do grupo social. Essa identidade e essa memória de
grupo constituíram-se através da própria experiência
das contradições que afetavam uma forma de dominação
que se estendia sobre o conjunto da vida social do grupo.
(Recebido
para publicação em setembro de 1990)
ANEXO
A predominância
da mão-de-obra feminina na indústria têxtil: alguns
números.
Em 1946,
uma comissão governamental fez um balanço do setor da indústria
têxtil, que vivia então seu apogeu. Entre os 234.864 operários
que esse setor empregava, contavam-se então 36% de homens, 44% de
mulheres e 20% de. menores (categoria indiferenciada quanto ao sexo). O
Estado de Pernambuco era o único, juntamente com o Distrito Federal
(isto é, a Cidade do Rio de janeiro, capital na época), onde
a proporção dos homens (44%) ultrapassava a das mulheres
(39%). Este Estado ocupava o 2º lugar no que se refere ao número
de operários do setor têxtil (12,7% do total nacional), após
o Estado de São Paulo que concentrava 35%. E a CTP empregava sozinha
mais de um terço dos operários do Estado (10.338 sobre o
total de 29.861).
O recenseamento
de 1940 forneceu dados ainda mais precisos sobre a composição
da mão-de-obra da empresa por sexo e por faixas etárias.
ACTPempregavaentão4.635 homens e 3.000 mulheres. Estas superavam
numericamente os homens na faixa dos 10-19 anos (1.444 contra 1.061), mas
a proporção se invertia nas faixas etárias seguintes:
1.200 contra 1.915, entre os de 20-29 anos, 208 contra 808, entre os de
30-39 anos, 100 contra 470, entre os de 40-49 anos, 37 contra 266, entre
os de 50-59 anos, 6 contra 94 entre os de 60-69 anos. Infelizmente, o recenseamento
de 1950 não apresenta números comparáveis.
Dez anos
após o início da política de recrutamento direto,
o -município de Paulista apresentava, segundo o recenseamento de
1940, uma proporção ligeiramente mais alta de mulheres: 15.388
contra 14.155 homens. As comparações numéricas são
inexistentes para o período anterior: o recenseamento de 1930 não
foi efetuado por causa da Revolução e o de 1920 incluía
os dados relativos a Paulista–que tinha na época apenas um status
de distrito – no conjunto dos dados do município de Olinda. Em 1950,
quando termina essa política de recrutamento, a desigualdade estatística
entre homens e mulheres acentuou-se: 25.225 mulheres contra 22.878 homens
segundo o novo recenseamento. A diferença em favor das mulheres
torna-se ainda mais importante dentro dos limites administrativos do município
de Paulista à medida que nos aproximamos da vila operária
propriamente dita. Esta diferença se mantém globalmente em
1960 (26.793 mulheres contra 24.389 homens).
A
CTP exerceu também uma grande atração sobre grupos
domésticos compostos de viúvas e crianças, como indicam
nossas entrevistas bem como certas referências numéricas:
segundo o recenseamento de 1940, 10.260 mulheres eram solteiras; 4.029
casadas e 1.191 viúvas (os viúvos, por sua vez, não
passavam de 409). Segundo uma amostragem de 150 fichas de pessoal que conseguimos
obter com dificuldade nos escritórios da fábrica e que utilizamos
a título indicativo, 16% dos trabalhadores individuais mencionam
a mãe como beneficiária para efeitos de Previdência
Social, o que é um outro indício da importância da
viuvez feminina.
Uma
juventude católica sob medida
Nos anos
30, a CTP procedeu à regulamentação das práticas
religiosas em seu território após algumas experiências
negativas nesse âmbito: a expulsão. de um sacerdote que se
aliara aos operários grevistas em 1932; depois o afluxo de um certo
número de trabalhadores protestantes dos quais a empresa exigiu
que não praticassem seu culto na vila operária Mais tarde,
com a extensão, da cidade e a democratização da vida
política após 1945, esses protestantes reagruparam-se num
bairro "livre" que se constituiu nas imediações da vila em
terrenos não pertencentes à companhia e onde construíram
seus templos. Esse enclave – que se tornou o distrito de Paulista denominado
Abreu e Lima, e nos últimos anos, município autônomo
– concentrou, rapidamente, outras atividades proscritas pela CTP, tais
como os cultos afro-brasileiros, as reuniões públicas do
Partido Comunista durante seu curto período legal entre 1945 e 1947,
assim como a prostituição.
Paralelamente
à sua política repressiva, a CTP esforçou-se, a partir
de 1939, em promover a Juventude Operária Católica (JOC)
para tentar estabilizar, de modo duradouro as práticas religiosas
das novas gerações de operários recrutados. A partir
de então, as atividades da JOC ocuparam um lugar central na vida
de muitos jovens trabalhadores (havia uma seção masculina
e uma seção feminina, mais numerosa), com seus rituais, dias
de oração, reuniões, excursões, regime privilegiado
de folgas e rituais de distinção em relação
a outros colegas.
"Eu tinha uma vontade enorme de aprender e compreender, quando morava
no interior. Diziam que só os da Igreja é que podiam conseguir.
Então, quando cheguei aqui (em 1943), alguns anos depois, entrei
na JOC e comecei a entender as coisas do mundo. Lá em casa, nós
éramos muito católicos, minha irmã tinha se tornado
"Filha de Maria" e eu também logo depois. Mas eu tinha urna grande
admiração pela JOC mesmo antes de entrar lá, falavam
muito dela na cidade, havia muita coisa de especial, com os uniformes bonitos,
agente cantava. Depois consegui entrar como simpatizante. O Padre Teodoro
(de origem alemã, membro da Ordem do Sagrado Coração
de Jesus) estava completamente de acordo com a companhia, almoçava
com eles (os patrões). A presidente da JOC feminina trabalhava nos
escritórios. E nós tínhamos um caminhão cedido
pela companhia que nos levava para passear. Nos dias de retiro, fomos todas
a um colégio de Recife, ficávamos lá como internas.
Tínhamos todas as facilidades. A JOC pedia dias de folga para nós
e eles (a CTP) nos davam: por exemplo, para a quarta-feira de cinzas, e
eles ainda entravam com o transporte. O próprio padre enviava nossos
nomes para a companhia, apresentava a lista das moças em cada seção
da fábrica, e a gente tinha licença por três, quatro
dias. E me lembro que todo mundo nos conhecia,. Éramos muito conhecidas.
Estávamos sempre muito limpas, bem vestidas em nossos uniformes,
porque íamos à Igreja".
Uma descrição
semelhante, na emoção e no sentimento de orgulho, despertados
pelo fato de pertencer à JOC, nos foi dada por uma outra operária
da fiação que assistiu, no meio das fileiras apertadas das
jocistas com seus uniformes, ao casamento de uma das filhas do patrão,
por ocasião da consagração de uma enorme igreja construída
pela CTP como símbolo de sua própria grandeza e de sua aliança
com a Igreja Católica.
NOTAS
(*)
- Este artigo baseia-se no material de pesquisa que informou as nossas
teses de doutorado (Alvim, 1985; Leite Lopes, 1988), onde estão
consignadas as dívidas contraídas na sua realização.
Ele foi redigido em um período de pós-doutorado (setembro
1988 - junho 1990) junto ao Centro de Sociologia Européia, da Ecole
des Hautes Etudes en Sciences Sociales de Paris,dirigido por Pierre Bourdieu,
a partir do diálogo com diversos pesquisadores que trabalham, ou
trabalharam, naquele centro. Gostaríamos de agradecer, em particular,
às leituras atentas e observações de Sylvain Maresca,
Monique de Saint Martin, Francine Muel-Dreyfus e Françoise Borvin,
que contribuíram para dar forma à versão francesa
publicada na revista Actes
de Ia Recherche en Sciences Sociales, nº.
84, setembro de 1990.
Publicado
na RBCS por autorização dos autores. Tradução
de Raquel Ramalhete, revisão de Vera Pereira.
1
- Na literatura sobre a classe operária européia no século
XIX, só ocasionalmente se faz menção a casos semelhantes
de recrutamento de famílias pelas fábricas. Ver paia a Inglaterra
e a França, Tilly e J. Scott (1987). O interesse de uma investigação
monográfica sobre um grupo operário determinado, ligado a
uma fábrica e uma vila operária, como o da Paulista, reside
na possibilidade de observar a amplitude tomada por uma política
de recrutamento desse tipo aplicada durante mais de 20 anos, assim como
suas conseqüências, exemplares, sobre o processo de obreirização.
Cf. Alvim (1985) e Leite Lopes (1988).
2
- O "morador" é o trabalhador que reside tradicionalmente nas fazendas
de açúcar. Para maiores esclarecimentos ver Garcia Jr. (1989,
cap. 1 e 2; 1990, cap: 1 e 2).
3
- Em janeiro de 1907, o principal diário de Recife publicou, durante
seis dias, anúncios da CTP que buscavam operários qualificados
para a tecelagem e a fundição.
4
- Sistema de concessão pelo qual um proprietário atribuía
uma casa e um pedaço de terra a um assalariado para mantê-lo
sob seu serviço. Cf. Garcia Jr., op. cit.; Palmeira (1976, vo1.I,
pp. 305-315) e Sigaud (1980).
5
- No início dos anos 50, quando se consumou sua construção,
a vila tinha por volta de 6.000 casas. Era de longe a maior do Brasil na
época; nenhuma das 300 outras empresas têxteis possuía
uma vila comparável. Seu tamanho era igualmente maior que o de outras
vilas que adquiriram fama internacional, como a de Mulhouse – que só
contava com 1.240 casas quando foi terminada, em 1895 (Cf. Guerrand, 1987,
p. 381) – ou a vila das fábricas Pullman, no sul de Chicago, famosa
por sua concepção arquitetônica (Buder, 1975).
6
- Ver a análise de J. Scott (1937, pp. 1-13) sobre as dificuldade
em se perceber as relações sociais entre os sexos no interior
do movimento operário cartista inglês, desvendando as especificidades
masculinas escondidas sob essa construção de classe.
7
- Para poder usufruir de uma casa na vila, cada família devia comprovar
que, pelo menos, um de seus membros trabalhava-na fábrica. A importância
dos alojamentos atribuídos não dependia aliás do tamanho
da família, mas do número de seus trabalhadores efetivos.
8
- Eles conseguiram sobreviver ali clandestinamente até a metade
dos anos 50, época de sua retirada para as fábricas de Recife,
onde possuíam uma base mais forte e onde empreenderam a conquista
da direção do sindicato têxtil da capital. Sua militante
de base, Julia Santiago, então em grande evidência naquele
setor industrial, tornou-se, em 1947 a primeira mulher eleita para a Câmara
Municipal, onde permaneceu até 1951, antes de retornar à
ação sindical. Ela teve uma trajetória de mulher solteira,
arrimo de família e de militante política devotada, que a
aproxima de muitas das operárias de Paulista, formadas nas associações
católicas.
9
- A CTP adquiriu, ao longo da primeira metade do século, as grandes
propriedades açucareiros ao redor da vila, obtendo vastas extensões
territoriais. Ela visava com isso prover-se de lenha para suas caldeiras,
mas procedeu também à reconversão em produtores de
bens alimentícios dos antigos "moradores" da cana-de-açúcar
que estavam ligados a essas propriedades, desde que fornecessem seus excedentes
para uma feira organizada pela companhia na vila operária, a preços
fixados pela CTP Os baixos salários pagos aos operários eram
compatíveis com os baixos preços dos bens alimentícios
vendidos na feira, fazendo dessa alternativa ao truck-system, freqüentemente
praticado no mundo inteiro pelas fábricas com vila operária,
um meio suplementar de legitimação junto a seus operários.
Depois de 1950, com a afirmação de um poder público
local nem sempre controlado pela CTP; esta abandona a organização
da feira. Ao expressarem sua nostalgia da antiga feira de preços
administrados, os operários não mencionam o fato de que o
desaparecimento dessa feira permitiu a muitos deles se converterem em pequenos
feirantes na nova feira "liberada" dó controle da CTP, após
as demissões na fábrica..
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