A crise da sociologia pode ser real ou imaginária, mas
não há dúvida de que tem sido proclamada por muitos. Em diversas escolas de
pensamento, em diferentes países, uns e outros colocam-se o problema da crise
de teorias, modelos ou paradigmas. Desde o término da Segunda Guerra Mundial, e
em escala crescente nas décadas posteriores, esse é um problema cada vez mais central
nos debates. Além dos êxitos reais ou aparentes, das modas que se sucedem, dos
desenvolvimentos efetivos do ensino e pesquisa, da produção de ensaios e
monografias, manuais e tratados, subsiste a controvérsia sobre a crise da
explicação na sociologia.
Fala-se na decomposição dos modelos clássicos e na
obsolescência de noções como as de sociedade, comunidade, capitalismo, divisão
do trabalho social, consciência coletiva, classe social, consciência de classe,
nação, revolução. Critica-se a abordagem histórica, globalizante ou holística,
e preconiza-se a sistêmica, estrutural, neofuncionalista, fenomenológica,
etnometodológica, hermenêutica, do individualismo metodológico e outras.
Considera-se que os conceitos formulados pelos clássicos já não respondem às
novas realidades. Agora, o objeto da sociologia deveria ser o indivíduo, ator
social, ação social, movimento social, identidade, diferença, quotidiano,
escolha racional.
Em 1946, na aula inaugural pronunciada na London
School of Economics and Political Sciences, T. H. Marshall se mostrou
preocupado com a “encruzilhada” na qual se encontrava a sociologia. As tarefas
práticas eram urgentes e os recursos teóricos pareciam inadequados. As
interpretações herdadas dos clássicos seriam insuficientes para fazer face às
urgências da reconstrução social. Em lugar das teorias globalizantes, caberia
formular “pontos de apoio intermediário”, de modo a atender aos desafios
imediatos, localizados, setoriais, quotidianos, de normalização e ordenamento
dos problemas sociais.
“Os
sociólogos não deviam despender todas as suas energias na procura de
generalizações amplas, leis universais e uma compreensão total da sociedade
humana como tal. Talvez cheguem lá mais tarde se souberem esperar. Nem re
comendo o caminho arenoso das profundezas do turbilhão dos fatos que enchem os
olhos e ouvidos até que nada possa ser visto ou ouvido claramente. Mas,
acredito que haja um meio-termo que se localiza em chão firme. Conduz a uma
região cujas características não são nem gargantuanas nem liliputianas, onde a
sociologia pode escolher unidades de estudo de um escopo manejável, não a
sociedade, progresso, moral e civilização, mas estruturas sociais específicas
nas quais as funções e processos básicos têm significados determinados” (Marshall,
1967, p. 32).
Seja
em termos de “pontos de apoio intermediário” conforme Marshall, de “principia
media”, segundo Mannheim (1949), ou “teorias.de alcance médio”, na versão de
Merton (1951, 1967), o que está em curso é o debate sobre a insuficiência ou
obsolescência das teorias clássicas. Debate no qual, aos poucos, se propõem
outros temas e metodologias. A problemática sociológica é posta em causa por
representantes de diferentes escolas de pensamento, em diversos países. .
Essa controvérsia prossegue e generalizase. Torna-se
uma onda. Bourricaud (1975, p. 584) critica o. “sociologismo”, o
“hiperfuncionalismo” e o “realismo totalitário”. Afirma, entre outras
observações semelhantes, que “o realismo totalitário continua a constituir o
modo de interpretação ao qual, espontânea e implicitamente, recorre a maioria
dos sociólogos radicais”. Para superar essas limitações, preconiza a recriação
do “individualismo atomístico” herdado do liberalismo e do marginalismo,
conforme as contribuições de Mancur Olson, Albert Hirschman e outros. Propõe o
conceito de “neo-individualismo”, no qual se admite a existência de “grupos”,
“classes” e “sociedades”, entre aspas. Está a caminho das teorias do
“individualismo metodológico” e “escolha racional”, vistas como aspectos básicos
de um novo paradigma sociológico posto sobre os escombros dos clássicos.
Touraine (1984) dá continuidade à crítica dos “modelos
clássicos”. Alega que se acham em “decomposição”, já que se baseiam em
conceitos insatisfatórios, tais como “funcionalismo”, “modernização”,
“sociedade” e outros. “Na realidade, o que esta sociologia denomina sociedade
não é senão a confusão de uma atividade social, definível em termos gerais -
como a produção indus trial ou o mercado -, e de um Estado nacional.
A unidade da sociedade é aquela que lhe dá e impõe um
poder legítimo. Suas fronteiras não são teóricas, mas reais: as dos postos da
aduana. A sociedade é o pseudônimo da pátria” (idem, p. 22). Os
conceitos elaborados pelos clássicos parecem não deixar espaço para os
indivíduos, os atores sociais. “Um dos aspectos mais importantes da sociologia
clássica é que, ao criar grandes conjuntos históricos portadores de sentidos em
si mesmos, reduzem a análise da ação social à pesquisa da posição do ator no
sistema” (idem, p. 35). Cabe eleger como objeto da sociologia a ação social, o
ator social, o movimento social. E abandonar o sistema, os grandes conjuntos,
os conceitos abrangentes, a visão macro da sociedade. Mesmo porque essas noções
corresponderiam a uma realidade social passada, superada, que já não mais se
constitui como objeto da sociologia. “A sociologia da ação recusa esta
explicação do ator pelo sistema. Ao contrário, vê em toda situação o resultado
das relações entre atores, definidos tanto por suas orientações culturais como
por seus conflitos sociais” (idem, pp. 35-36). Nesses termos é que
Touraine desenvolve a idéia de que a “decomposição” do pensamento sociológico
herdado do passado parece irreversível. Trata-se da “crise de um modelo
clássico de representação da vida social”, acompanhada da “formação de um novo
modelo, a partir do qual pode desenvolver-se uma orientação sociológica mais
específica e mais coerente” (Touraine, 1985, -pp. 15-25).
Entre os críticos que estão propondo novos modelos,
teorias ou paradigmas é freqüente a insistência na idéia de que o objeto da
sociologia mudou. Os clássicos estariam apoiados em noções que, se foram
cabíveis no passado, já não atendem às peculiaridades do século XX. Ao criticar
as noções de capitalismo e industrialismo, que seriam importantes nas
sociologias de Marx e Weber, Giddens sublinha a “informação”, o “poder
administrativo”, o “poder militar”, a “guerra”, a “racionalização” e outras
como aspectos básicos da “modernidade” do século XX. Portanto, não se trata mais,
como se fazia anteriormente, de continuar a explicar a realidade social em
termos de industrialismo e capitalismo. “A dissolução do mundo tradicional, sob
o impacto da modernidade, não é o resultado do capitalismo, do industrialismo,
ou mesmo da concentração dos instrumentos administrativos pelos Estados
modernos. É o resultado de tudo isso, em combinação com os meios modernos de
uso da força militar e de fazer a guerra (Giddens, 1988, p. 28). A modernidade
é muito mais complexa e fundamental do que sugerem as noções de capitalismo e
industriaïismo. Cabe acrescentar outros “parâmetros de modernidade”, dentre os
quais se destaca a parafernália da informática, “um dos mais característicos
traços da época moderna. Os Estados modernos, e o sistema mundial moderno como
um todo, envolvem uma tremenda aceleração na produção e organização de
informação. Embora seja habitualmente suposto que apenas agora, no final do
século XX, estamos entrando na era da informação, as sociedades modernas têm
sido sociedades de informação desde os seus inícios” (idem, p. 27). Em síntese,
trata-se de superar a “teoria da sociedade industrial”, um resíduo do século
XIX, um “mito” ultrapassado. E “reconciliar uma epistemologia da ciência
social, revista, com novos esquemas para análise do desenvolvimento das
sociedades avançadas” (Giddens, 1976, p. 703).
Uma parte importante dessa história está sintetizada
em livros e artigos de T. H. Marshall, Merton, Mannheim, Florestan Fernandes,
Gurvitch, Sorokin, Cuvillier, C. W. Mills, Barrington Moore Jr., Gouldner,
Giddens, Collins, Bourricaud, Bourdieu, Touraine, Piaget, Lukács, Goldmann,
Horkheimer, Adorno, Habermas, Gadamer, Ricoeur, Morro, Elster e outros. Uns se
colocam radicalmente em favor de novos paradigmas. Outros propõem renovações ou
desenvolvimentos dos clássicos, incorporando-se aí contribuições
contemporâneas. E há os que reconhecem que a criação de novos paradigmas não
implica necessariamente a desqualificação dos outros. Mesmo porque, na história
do pensamento sociológico, ao lado das oposições e rupturas, registram-se
também convergências e continuidades. No conjunto, discutem-se problemas
relacionados tanto ao método como ao objeto da sociologia. Discutem-se
prioridades, ou acomodações, quanto à indução quantitativa e qualitativa à
análise sincrônica e diacrônica, ao contraponto das partes com o todo, à
dinâmica e à estabilidade sociais, ao indivíduo e sociedade, ao objetivo e
subjetivo. Aos poucos, formulam-se novas teorias sociológicas, tais como
estruturalismo(s), neofuncionalismo, estrutural-funcionalismo, fenomenologia,
etnometodologia, hermenêutica, sociologia da ação ou acionalismo,
individualismo metodológico e outras. Formulam-se outros temas e outros métodos
de explicação ou compreensão, ao mesmo tempo em que se inaugurara outras
linguagens.
Há algo de imaginário no debate sobre a crise da
sociologia. Se é verdade que há impasses reais no presente, também é verdade
que as controvérsias sobre o seu objeto e método são mais ou menos permanentes.
Dizem respeito às exigências da produção intelectual, com a singularidade de
que a sociologia é uma ciência que sempre se pensa, ao mesmo tempo em que se
realiza, desenvolve, enfrenta impasses, reorienta. Talvez mais do que outras
ciências sociais, ela se pensa de modo contínuo, criticamente. Há uma espécie
de sociologia da sociologia em toda produção sociológica de maior envergadura.
Entretanto, algumas vezes colocam-se problemas reais.
Gurvitch (1986) perguntou certa vez se a sociologia fez outra coisa se não
passar por crises. E disse que algumas delas colocaram questões básicas.
“Crise das
relações entre filosofia da história e sociologia, crise da procura do ‘fator
predominante’, crise do evolucionismo, crise do racionalismo social, crise da
‘compreensão’ que rejeita a explicação, crise do formalismo, crise do
psicologismo à Pareto, à Freud e, mais recentemente, à Moreno, crise da relação
entre a teoria sociológica e a investigação empírica em sociologia,
avivando-se, segundo as características espirituais de Sorokin (1), em testomania e quantofrenia
... Importa, sobretudo aqui, insistir no fato de todas as crises em
sociologia, independentemente da sua correspondência com as crises sociais às
quais serviam de réplicas, sempre se reportarem ao problema da explicação: ou
que se tenha pretendido explicar demasiado, ou que se tenha dado explicações
falsas, ou se reduzisse em demasia a explicação a favor de uma
simples constatação, ou, enfim - como nas investigações empíricas de hoje,
sobretudo nos Estados Unidos e entre os imitadores franceses dos americanos -
tenha-se renunciado quase por completo à explicação, transformando, no
melhor dos casos, a sociologia em sociografia” (idem, vol. II, pp. 525-526).
A controvérsia sobre os clássicos e os contemporâneos,
em certos casos, envolve a tese de que a sociologia é uma ciência pouco
amadurecida. A importância dos textos clássicos e a freqüente volta a eles
seriam indícios de imaturidade, ciência em formação, ainda não constituída,
pré-paradigmática. Dada essa imaturidade e, portanto, a reduzida incorporação
daqueles textos ao corpos teórico da sociologia, os sociólogos
contemporâneos são obrigados a voltar continuamente a eles. Por isso, diz
Merton, a sociologia reluta em abandoná-los. Todo sociólogo precisa demonstrar
um conhecimento de primeira mão daqueles que deixaram a sua marca na sociologia.
“Embora o físico, enquanto físico, não precisa apoiar-se no Principia de
Newton, ou o biólogo, enquanto tal, na leitura e releitura de A Origem das
Espécies de Darwin, o sociotógo, enquanto sociólogo antes do que historiador
da sociologia, tem ampla razão para estudar as obras de Weber, Durkheim e
Simmel e, pelo mesmo motivo, voltar ocasionalmente às obras de Hobbes,
Rousseau, Condorcet ou Saint-Simon. . . Os dados mostram que a física e a
biologia têm em geral sido mais bem-sucedidas do que as ciências sociais ém
recuperar o conhecimento acumulado e relevante do passado e incorporá-lo às
formulações subseqüentes. Este processo de enriquecimento pela absorção é ainda
raro na sociologia. Como resultado, informações que não foram previamente
recuperadas estão ainda lá, para serem empregadas de forma adequada,
como novos pontos de partida” (Merton, 1967, pp. 34-35).
O argumento parece forte, mas sustenta-se pouco.
Primeiro, está baseado na idéia de que a sociologia
deveria pautar-se pelo modelo “paradigmático” das ciências naturais. Um
argumento de origem positivista, renovado com o neopositivismo. Supõe que a
lógica do conhecimento científico é única. E que dada ciência social se
constitui e amadurece na medida em que atinge os níveis alcançados pelas mais
desenvolvidas, no caso as naturais, ou a física, a biologia. Essa é apenas uma
posição no âmbito das reflexões sobre epistemologia. Há outras e bastante
elaboradas. As conquistas científicas realizadas por Weber e Simmel, Marx,
Lukács e Gramsci, Horkheimer, Adorno e Marcuse, Habermas e Gadamer, além de
outros, abrem diferentes horizontes para a epistemologia das ciências sociais,
e não apenas para a sociologia. As diferenças entre ciência natural e ciência
social são essenciais e irreversíveis. Salvo o positivismo, que informa algumas
tendências do funcionalismo, estrutural-funcionalismo e estruturalismo, a
dialética hegeliana e marxista, bem como as diversas orientações da
fenomenologia, estabelecem nítidas diferenças entre ciência da natureza e
ciência social. Em termos epistemológicos, a sociologia e as outras ciências
sociais não podem prescindir da compreensão, da explicação compreensiva. As
possibilidades da pesquisa, experimentação, descrição e explicação, abertas
pela ciência da natureza, pouco servem para o estudo da realidade social. O
conceito, categoria, lei de causa e efeito, lei de tendência, condição de
possibilidade ou previsão somente se constituem na medida em que apanham,
codificam, taquigrafam as singularidades e universalidades envolvidas nas
configurações e nos movimentos da realidade social.
Segundo, há o aspecto propriamente ontológico da
questão. O objeto da sociologia, bem como das outras ciências sociais, envolve
o indivíduo e a coletividade, as relações de coexistência e seqüência,
diversidades e antagonismos. Diz respeito a seres dotados de vontade, querer,
devir, ideais, ilusões, consciência, inconsciente, racionalidade,
irracionalidade. Os fatos e acontecimentos sociais são sempre materiais e espirituais,
envolvendo relações, processos e estruturas de dominação ou poder, e
apropriação ou distribuição. Implicam indivíduos, famílias, grupos, classes,
movimentos, instituições, padrões de comportamento, valores, fantasias. Esse é
o mundo da liberdade e igualdade, trabalho e alienação, sofrimento e
resignação, ideologia e utopia.
Terceiro, a sociedade burguesa, industrial,
capitalista, moderna ou informática, modifica-se ao longo do tempo. Mas guarda
algumas características essenciais. É diferente e mesma. No começo, falava-se
no “individualismo possessivo”, descoberto pela economia clássica e os
primeiros pensadores sociais interessados em explicar a emergência e o tecido
da sociedade civil. Em fins do. século XX, fala-se no “individualismo
metodológico”, acompanhado da “escolha racional”: duas descobertas das ciências
sociais nos tempos da modernidade, compreendendo o marginalismo hedonista, o
neoliberalismo e o marxismo analítico. O dilema indivíduo e sociedade continua
a ser essencial, se queremos entender a trama das relações sociais, os espaços
da liberdade, as condições da opressão. O mundo formado com a sociedade
moderna, industrial, capitalista não é o mesmo nos séculos XIX e XX.
Modificou-se substancialmente, está informatizado. Os meios de comunicação, em
sentido amplo, revolucionaram as condições de produção, distribuição, troca e
consumo, em termos materiais e espirituais. As burocracias públicas e privadas
ampliaram muito o seu raio de ação, influência, indução. Tudo mudou. Mas muita
coisa subsiste, ainda que recriada, necessariamente recriada. Em essência, a
sociedade moderna, burguesa, informática baseia-se em alguns princípios que se
reiteram ao longo da história. Nem a ciência nem a técnica, ou informática,
alteraram a natureza essencial das relações, processos e estruturas de
apropriação ou distribuição, de dominação ou poder. No limiar do século XXI,
guardam-se aspectos essenciais do século XIX: liberdade e igualdade, trabalho e
alienação, sofrimento e resignação, ideologia e utopia. “A ausência de
espírito, característica da ‘modernidade racionalizada, não é apenas refletida
nas páginas finais de A
ética Protestante de Weber; é criada por ele. Para entender a
modernidade racionalizada, não se pode apenas observá-la: precisa-se voltar ao
trabalho pioneiro de Weber, a fim de apreciá-lo e experienciá-lo outra vez.
Semelhantemente, o que é opressivo e sufocante na modernidade não será nunca
suficientemente formulado como em O Homem Unidimensional de
Marcuse” (Alexander, 1987a, 1987b). Ocorre que alguns clássicos revelam de
forma particularmente exemplar, privilegiada, visionária, não só o que viram,
mas também o que vemos. Em seu tempo, Weber dizia que “o mundo em que
espiritualmente existimos é um mundo assinalado, em grande parte, pelas marcas
de Marx e Nietzsche” (Weber, citado por Josyr-Kowalski, 1971, p. 264). Ocorre
que o mundo que Weber conheceu ainda tinha muito daquele que Marx e Nietzsche
haviam conhecido. Da mesma maneira que a modernidade racionalizada, revelada
por Weber, tem muito da modernidade opressiva e sufocante revelada por Marcuse.
Há momentos lógicos da reflexão sociológica sem os
quais o ensino e a pesquisa contemporâneos dificilmente poderiam se
desenvolver. Estes são alguns desses momentos: aparência e essência, parte e
todo, singular e universal, sincrônico e diacrônico, histórico e lógico,
passado e presente, sujeito e objeto, teoria e prática. É claro que a reflexão
científica pode basear-se maiormente em alguns, deixando outros em segundo
plano: Nem sempre a monografia e o ensaio mobilizam todos. Entretanto,
necessariamente mobilizam alguns. Dizem respeito à razão científica. Caso
contrário, o produto da atividade intelectual corre o risco de ficar no meio do
caminho, realizar-se apenas como descrição, folclorização, ideologização. Ou
apresentar-se como sucedâneo da ficção, nem sempre com. talento artístico.
Um dos requisitos lógicos fundamentais da
interpretação na sociologia diz respeito à historicidade do social. O
contraponto passado e presente é essencial, se se trata de explicar ou
compreender a realidade social. Toda interpretação que perde, minimiza ou
empobrece o momento do real, sacrifica uma dimensão básica desse mesmo real.
Esta é uma conquista importante do pensamento sociológico e das outras ciências
sociais. A realidade social é um objeto em movimento. As suas configurações
estáveis, normais, estáticas, sincrônicas representam momentos, sistemas,
estruturas da mudança, dinâmica, modificação, transformação, historicidade,
devir.
Precisamente aí está uma das limitações de algumas
teorias sociológicas contemporâneas. Não levam em conta essa conquista do
pensamento sociológico. Em busca de novas linguagens e da redefinição do objeto
da sociologia, sacrificam as tensões diacrônicas do real. Imaginam que as
configurações sincrônicas resolvem a diacronia, captando o momento do real,
perdendo o movimento do real.
Uma parte da controvérsia sobre paradigmas clássicos e
contemporâneos passa pelo problema da historicidade da realidade social. Entre
os contemporâneos, são freqüentes as propostas teóricas que simplesmente
abandonam ou empobrecem a perspectiva histórica. Como se fosse possível
eliminar das relações, processos e estruturas de dominação e apropriação os
seus movimentos e as suas tensões. Como se a realidade social pudesse sempre
resolver as- suas diversidades, desigualdades e antagonismos no âmbito das
configurações sincrônicas. Como se o real não estivesse essencialmente
atravessado pela relação de negatividade. Daí a imagem abstrata, rarefeita,
cerebrina que transparece em estudos como os do estrutural-funcionalismo de
Parsons.
“A idéia-chave
dessa teoria, como o leitor deve estar lembrado, é o ponto de vista de que para
toda sociedade existe certo número limitado de atividades necessárias, ou
‘funções’, tais como a obtenção de alimento, o adestramento da próxima geração
etc. e um número igualmente limitado de ‘estruturas’, ou maneiras pelas quais a
sociedade pode ser organizada para realizar essas funções. Em essência, a
teoria estrutural-funcionalista busca os elementos básicos da sociedade humana,
abstraída de tempo e lugar, junto com as regras de combinação desses elementos.
Dá a impressão de procurar algo na sociedade humana correspondente à tábua
periódica dos elementos na química” t Moore, 1972) (3).
Esse é um ponto
essencial no debate sobre aspectos ontológicos e epistemólógicos da sociologia.
Trata-se de aperfeiçoar e desenvolver a teoria sociológica, sem perder a
dimensão histórica da realidade social. A influência de paradigmas emprestados
das ciências físicas e naturais tem levado certos sociólogos a uma espécie de
pasteurização da realidade social, o que evidentemente se expressa no conceito,
na interpretação. “No presente a sociologia está dominada por uma espécie de
abstração, dando a impressão de que lida com objetos isolados, em estado de
repouso. Mesmo o conceito de mudança social é freqüentemente usado como se
referido a um estado fixo. Pode-se dizer que se é forçado a ver o estado de
repouso como normal; e o movimento como um caso especial” (Elias, 1978).
O declínio da perspectiva histórica é algo
relativamente generalizado na sociologia e no pensamento social contemporâneos.
Um processo que já se havia manifestado incipiente no positivismo de Comte, bem
como na economia política vulgar, acentua-se posteriormente e parece
expandir-se bastante nos tempos atuais. “Um crescente ‘cansaço da história’
caracteriza, ao menos no Ocidente, a segunda metade do século XX. As técnicas
de pesquisa da ciência social atual, extremamente refinadas, e orientadas em um
sentido quantitativo, deslocam cada vez mais o pensamento histórico do lugar
que ocupava no âmbito da Ilustração e do idealismo alemão, em Dilthey, nas
tradicionais ciências do espírito, na filosofia da vida e também na filosofia
da existência” (Schmidt, 1973, p. 13).
Aos poucos, as tecnologias da pesquisa, matemáticas,
informáticas, invadem o objeto e o método da sociologia. A modernização da
atividade científica, com base na institucionalização, burocratização,
industrialização, formação de equipes numerosas de seniors e juniors,
trabalhando com equipamentos eletrônicos, informáticos e matemáticos,
provoca alterações na definição do objeto e das condições lógicas e teóricas da
interpretação. “A desintegração das ciências humanas tem a sua origem, no
fundo, em uma ilusão perseguida com metódica obsessão, que consiste em crer na
possibilidade de fugir, do contexto consciente da história humana e das suas
sempre renovadas decisões valorativas e de poder, para a a-historicidade das
fórmulas matemáticas” (H. Luthey, citado por Schmidt, idem, pp. 13-14).
Aqui, cabe lembrar o que já havia sido posto por Hegel
e retomado várias vezes, mais tarde, nas controvérsias sobre quantidade e
qualidade. A indução quantitativa não participa do objeto, não faz parte dele,
é exterior. Apanha estruturas externas ao ser social. “Em outras palavras, a
verdade acerca de objetos matemáticos existe fora deles, no sujeito do
conhecimento. Esses objetos, portanto, são, em sentido estrito,
não-verdadeiros, entidades inessenciais externas” (Marcuse, 1978, pp. 101-102)
(4).
São vários os problemas epistemológicos que
precisariam ser melhor examinados, se quiséssemos esclarecer mais a
controvérsia sobre a crise de paradigmas na sociologia. Além dos já analisados,
em forma breve, cabe lembrar o da relação sujeito-objeto do conhecimento. Na
sociologia, essa é sempre uma relação complexa, com sérias implicações quanto
ao objeto e método. As diversas perspectivas teóricas mostram que a relação sujeito-objeto
nem sempre se resolve numa tranqüila relação de exterioridade, como se o real e
o pensado se mantivessem incólumes. Essa é uma hipótese do positivismo e está
presente no funcionalismo, estruturalismo, estrutural-funcionalismo e outras
teorias. Mas a sociologia inspirada na fenomenologia sempre carrega a hipótese
da cumplicidade. A redução fenomenológica e a hermenêutica tendem a tornar
ambos cúmplices do conhecido, objeto e sujeito. Ao passo que a sociologia de
inspiração dialética, se pensamos em Marx, Lukács, Gramsci e alguns outros,
leva à hipótese da dependência mútua, da reciprocidade. O sujeito e o objeto
constituem-se simultânea, reciprocamente. A reflexão científica pode
corresponder a um momento fundamental da constituição do real. Enquanto não se
constitue como categoria, concreto pensado, pleno de determinações, o real está
no limbo.
São vários os momentos lógicos da reflexão
sociológica, se pensarmos em termos de aparência e essência, parte e todo,
singular e universal, qualidade e quantidade, sincrônico e diacrônico,
histórico, e lógico, passado e presente, sujeito e objeto, teoria e prática.
Mas as teorias não os mobilizam sempre nos mesmos termos de modo similar,
homogêneo. Aliás, as teorias distinguem-se, entre outros aspectos, precisamente
porque conferem ênfase diversa aos momentos lógicos da reflexão. Há conceitos
sociológicos que são comuns a várias teorias. As vezes, o objeto é concebido de
maneira semelhante. Mas a interpretação pode não ser precisamente a mesma. E
quando a interpretação se revela diversa, logo se constata que a importância
relativa dos momentos lógicos da reflexão não é exatamente a mesma. Nesse
sentido é que as teorias podem ser mais ou menos distintas, distantes ou
opostas.
Entretanto, a multiplicidade das teorias não implica,
necessariamente, a multiplicidade de epistemologias. É possível supor que dada
epistemologia pode fundamentar diferentes propostas teóricas. Aliás, quando
buscamos os princípios epistemológicos em que se fundam as teorias, verificamos
que dada epistemologia parece fundamentar diversas teorias. É nesse sentido que
Elster (1989, p. 181) sugere existirem basicamente “três tipos principais de
explicação científica: a causal, a funcionalista e a intencional”.
São os paradigmas, ou princípios, que sintetizam as possibilidades de
explicação científica. Afirma Elster que a abordagem causal é comum a todas as
ciências, naturais e sociais; diz que a explicação funcionalista não tem
cabimento nas ciências sociais, pois se baseia em uma analogia equívoca,
retirada da biologia. E acrescenta que, nas ciências sociais, as explicações
podem ser baseadas na “causalidade intencional”, com variações, conforme se
trate de processos internos aos indivíduos ou processos relativos à interação
entre indivíduos. “As ciências sociais usam extensamente a análise intencional,
no nível das ações individuais. A análise funcionalista, entretanto, não tem
lugar nas ciências sociais porque não existe analogia sociológica à teoria da
seleção natural. O paradigma adequado para as ciências sociais é uma explicação
causal-intencional mista - compreensão intencional das ações individuais
e explicação causal de suas interações” (idem, ibidem) (5).
Podemos discordar de alguns aspectos da “filosofia da
ciência”, ou “paradigma”, que Elster está propondo para as ciências sociais.
Mas não há dúvida de que ele põe o problema básico: alguns paradigmas
fundamentam múltiplas teorias.
As teorias sociológicas do passado e presente
organizam-se, em última instância, com base em princípios explicativos
fundamentais. É verdade que há variações, convergências, nuanças, divergências.
Mas predominam alguns princípios, constituindo os fundamentos dos paradigmas
conhecidos na sociologia.
Uma relação das
teorias sociológicas, passadas e presentes, naturalmente incluiria
evolucionismo, positivismo, funcionalismo, marxismo; compreensivo ou típico
ideal, hiperempirismo dialético, neofuncionalismo, estruturalismo,
estrutural-funcionalismo, teoria da troca, teoria do conflito, interacionismo
simbólico, fenomenologia, etnometodologia, hermenêutica, sociologia da ação
social ou acionalista, teoria do campo sociológico, teoria da estruturação,
sociologia sistêmica, individualismo metodológico, teoria crítica da sociedade e
outras. São teorias distintas ou aparentadas. Dialogam entre si, mas também se
opõem e contrapõem. Implicam diferentes noções do objeto, apesar do acordo mais
ou menos geral sobre o que é o social. Baseiam-se em diferentes métodos de
interpretação, envolvendo a explicação, a compreensão, a explicação
compreensiva. Lidam com os momentos lógicos da reflexão de forma peculiar,
priorizando uns em lugar de outros. Certas teorias possuem cunho histórico, ao
passo que outras focalizam a realidade em termos supra-históricos. E há as que
se mostram simplesmente a-históricas. Também a relação sujeito-objeto é
diferenciada, polarizando-se em três modalidades principais: exterioridade,
cumplicidade e reciprocidade.
Mas é possível dizer que as teorias sociológicas do
passado e presente organizam-se, em última instância, com base em princípios
explicativos tais como: evolução, causação funcional, estrutura significativa,
redução fenomenológica, conexão de sentido e contradição. Neste ponto é que a
controvérsia sobre os paradigmas precisaria demorar-se mais. Aí, o debate sobre
a crise de paradigmas na sociologia tem muito a realizar, se quer elucidar os
fundamentos da questão.
Note-se que a noção de paradigma compreende uma teoria
básica, uma fórmula epistemológica geral, um modo coerente de interpretar ou um
princípio explicativo fundamental. Envolve requisitos epistemológicos e
ontológicos, caracterizando uma perspectiva interpretativa, explicativa ou
compreensiva, articulada, internamente consistente. Na linguagem da sociologia,
um paradigma compreende a articulação dos momentos lógicos essenciais da
reflexão: aparência e essência, parte e todo, singular e universal, sincrônico
e diacrônico, quantidade e qualidade, histórico e lógico, passado e presente,
sujeito e objeto, teoria e prática. São momentos lógicos que se traduzem
interpretativamente em evolução, causação funcional, estrutura significativa,
redução fenomenológica, conexão de sentido e contradição.
É claro que essa noção de paradigma deixa de lado a
acepção sociológica, ou melhor, sociologística, que privilegia o conjunto de
hábitos comuns aos que se dedicam ao ensino e pesquisa, as codificações
estabelecidas em manuais, os laços institucionais e o jargão próprio de cada
grupo de sociólogos reunidos em centros, institutos, departamentos ou outros
lugares. Naturalmente, esta acepção apresenta algum interesse, se queremos
conhecer as condições sociais, políticas, ideológicas, institucionais,
materiais e técnicas de produção e reprodução do conhecimento científico. Mas
não é suficiente, se queremos elucidar questões relativas ao objeto e método da
sociologia (Masterman, 19?9, pp. 72-108; Barnes, 1986; Ribeiro dos Santos,
1979; Boudon, 1977).
Vejamos alguns exemplos nos quais podemos clarificar um
pouco mais as relações entre teoria e paradigma.
Merton dedica-se
bastante ao funcionalismo e pode ser considerado o principal teórico do que
poderíamos denominar neofuncionalismo. Está preocupado com o paradigma,
enquanto codificação da teoria, dos requisitos fundamentais da explicação
sociológica. Propõe “um paradigma para a análise funcional na sociologia”
(Merton, 1951, cap. I, e 196?, cap. II). Essa é uma contribuição importante, na
qual conceitos e procedimentos lógicos são precisados, aprimorados. É inegável
a contribuição de Merton para a teoria. Entretanto, cabe perguntar se a sua
teoria funcionalista inaugura propriamente um paradigma, ou apenas dá
continuidade e inova outro já disponível. Haveria diferenças essenciais entre
os paradigmas de Merton e Durkheim ou seriam complementares? Em outros termos,
há principalmente continunidades entre As Regras do Método Sociológico de
Durkheim e “Funções Manifestas e Latentes” do livro Teoria Social e
Estrututra Social de Merton. São muito fortes as evidências de que Merton
efetivamente repõe, retoma e desenvolve, em outra linguagem, o paradigma
formulado por Durkheim. Se falarmos em teorias, supondo que Merton e Durkheim
são autores de duas teorias sociológicas, podemos admitir que ambas se inspiram
no mesmo princípio explicativo, de causação funcional. A despeito do seu
empenho em formalizar um paradigma neofuncionalista, parece evidente que
reitera o princípio de causação funcional codificado por Durkheim. Princípio
esse que já havia sido retomado por Malinowski, Radcliffe-Brown e outros.
Naturalmente, realiza contribuições da maior importância quando elabora as
noções de função manifesta e função latente; quando se empenha em demonstrar
que o funcionalismo não implica, necessariamente, uma visão conservadora da
realidade social. Mas nem muda nem corrige, apenas aperfeiçoa o paradigma
codificado anteriormente por Durkheim em seus estudos metodológicos e em suas
monografias. Um paradigma com muita influência no pensa- mento sociológico,
presente em várias teorias sociológicas contemporâneas (Fernandes,
1959, parte III; Gouldner, 1970).
Um raciocínio semelhante pode ser feito a propósito de
Gramsci, no contraponto com Marx. É claro que aí também há invenções a
considerar. A linguagem de Gramsci é outra. Contém menos economia política,
outra história. Gramsci elabora as categorias de hegemonia, bloco de poder,
intelectual orgânico e outras. É o autor de uma teoria razoavelmente
articulada, consistente, compreendendo também classes subalternas, guerra de posição
e guerra de movimento, Ocidente e Oriente. Em uma comparação com a de Marx,
fica logo evidente que são duas, com semelhanças e diferenças. Entretanto, o
paradigma é, em essência, o mesmo. Ambas as teorias apóiam-se no princípio da
contradição, que funda um paradigma (Coutinho, 1981; Macciocchi, 1976).
Aliás, cabe reconhecer que há diálogos, implícitos e
explícitos, entre representantes de diferentes paradigmas. Indicam problemas
metodológicos merecedores de atenção. Permitiriam ilações. Ao analisar a divisão
do trabalho social como um processo relativo ao conjunto da sociedade,
compreendendo aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais, Durkheim
leva a noção de anomia bastante próxima à de alienação, formulada por Marx. O
próprio conceito durkheimiano de divisão do trabalho, por suas especificidades
e abrangências, lida com problemas que também haviam atraído a atenção de Marx,
quando se referia às dimensões singulares, particulares e gerais desse processo
social abrangente, de alcance histórico. Também Weber e Marx encontram-se
algumas vezes. Conforme sugere o próprio Weber, “todas as leis e construções do
desenvolvimento histórico especificamente marxistas possuem um . caráter de
tipo-ideal, na medida em que sejam teoricamente corretas” (Weber, 1979, pp.
79-127). O diálogo continua. Na sociologia contemporânea, os mesmos Weber e
Marx, passando por Lukács, são indispensáveis se queremos compreender algumas
das teses básicas da teoria crítica da sociedade, formuladas por Horkheimer,
Adorno e Marcuse.
O problema pode ser colocado assim: as teorias
sociológicas contemporâneas lidam com alguns princípios explicativos
fundamentais, comtìns. Estes têm sido elaborados por sociólogos; cientistas
sociais e filósofos na época dos clássicos, na transição do século e
contemporaneamente. As teorias multiplicam-se. Há contínuas criações quanto ao
objeto e método, conceitos e interpretações, temas e linguagens. Em certos
casos, ocorre a reiteração de princípios explicativos, aperfeiçoados ou não; ao
passo que, em outros, verifica-se algo de novo: a invenção paradigmática.
Vista assim, em alguns dos seus aspectos relevantes, a
controvérsia sobre paradigmas, bem como teorias e paradigmas, ajuda a
explicitar determinadas singularidades da sociologia como ciência social. São
singularidades do maior interesse, por suas implicações epistemológicas e
ontológicas. Vejamos quais são, em modo breve.
Primeiro, a sociologia pode ser considerada uma
ciência que se pensa criticamente, todo o tempo. O sociólogo tanto produz interpretações
substantivas como assume e desenvolve as suas contribuições, dúvidas,
polêmicas. Há um debate metodológico freqüente não só nas entrelinhas e notas,
mas também em escritos básicos de sociólogos das mais diversas tendências,
passados e contemporâneos. Em boa medida, as polêmicas sustentadas por Marx,
Durkheim, Weber, Lukács, Gramsci, Wright Mills, Gouldner, Barrington Moore Jr.,
Gurvitch, Merton., Adorno, Popper, Habermas e outros têm algo, ou muito, a ver
com o marxismo. E retomam ou iniciam discussões da maior importância sobre o
objeto e o método da sociologia.
Segundo, cabe reconhecer que o objeto da sociologia é
a realidade social em movimento, formação e transformação. Essa realidade é
alheia e interna à reflexão. O objeto e o sujeito do conhecimento distinguem-se
e confundem-se. Há todo um complexo exorcismo em toda interpretação, explicação
ou compreensão dessa reálidade. Ela é um ser do qual o sujeito participa, em
alguma medida, pelo universo de práticas, valores, ideais, fantasias. Simultaneamente,
é um ser em movimento, modificação, devir; revolução. Desafia todo o tempo o
pensamento, como algo conhecido e incógnito, transparente e opaco. Estava no
passado e está no presente, -mesmo e diferente.
Terceiro, a sociologia é uma forma de autoconsciência
científica da realidade social. Tem raízes nos impasses; problemas, lutas e
ilusões que desafiam os indivíduos, grupos, classes, movimentos, partidos,
setores, regiões e a sociedade como um todo. É claro que as fórmulas dos
sociólogos são individuais. Há aqueles que reconhecem alguma, ou muita, relação
entre as suas reflexões e o jogo das forças sociais, grupos, classes etc. Toda
produção sociológica aparece identificada com um nome, autor, escola,
instituição, centro, instituto. Mas a sociologia do conhecimento já avançou o
suficiente para revelar, a uns e outros, que o pensamento sociológico guarda
uma relação complexa e essencial com as condições de existência social, ou
configurações sociais de vida, de setores, grupos, classes ou a sociedade como
um todo. E quando se torna possível reunir produções sociológicas de orientação
teórica semelhante, logo resulta a idéia de estilo de pensamento, ou visão do
mundo.
Quarto, o desafio permanente e reiterado diz respeito
à relação entre ciência e arte, teoria e técnica, conhecimento e poder ou
teoria e prática. O pensamento sociológico clássico, da passagem do século e
contemporâneo, sempre tem algo a ver com a prática, tanto em sua origem como em
seu destino. Daí o longo debate sobre a busca da isenção, neutralidade,
distanciamento ou vocação da sociologia. Esse é um desafio permanente na
história do pensamento sociológico. Está no centro da polêmica contemporânea
simbolizada nos escritos de Adorno e Popper. “A controvérsia que divide hoje positivistas
e dialéticos refere-se, sobretudo em seu núcleo, às finalidades práticas do
estudo, a seus respectivos interesses em modificar a realidade social, que é o
que orienta os seus trabalhos teóricos e o que determina, no fundo, as suas
metodologias diferentes” (Baier, 1969, p. 12).
Quinto, na sociologia, o sujeito do conhecimento é
individual e coletivo. O sociólogo naturalmente dispõe de todas as condições
para estabelecer o seu objeto de estudo. É evidente o estilo pessoal do autor
no escrito, na interpretação. Mas uma leitura mais atenta logo indicará o
diálogo, o engajamento, a reciprocidade, implícita ou explicitamente, do autor
com este ou aquele setor social, grupo, instituição, classe, movimento,
partido, corrente de opinião pública, sociedade. São freqüentes as obras de
sociologia que expressam um autor e uma configuração, um eu e um nós, um
sujeito simultaneamente individual e coletivo do conhecimento. É daí que nasce
o pathos de algumas obras fundamentais da sociologia.
* Octavio
Ianni é professor do Departamento de Sociologia da Unicamp.
1 - Ver,
a respeito, Sorokin (1956), especialmente os capítulos 4 e 7 (N. do Ed.).
2 - Note-se
que algumas reflexões de Merton sobre paradigmas na sociologia estão inspiradas
em Kuhn.
4 - Ver,
também, a respeito, Mannheim (1953) e Blumer (1956).
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