ENTRE PERON E O PATRÃO:
Reflexões sobre o alcance da homologia
Federico G. Neiburg
Introdução
Loma Negra é um pequeno povoado da zona
central da província de Buenos Aires, situada numa região rica em atividades
agropecuárias e industriais. Começou como a “vila operária” de uma fábrica de
cimento que lhe deu o nome: seus habitantes trabalhavam na empresa e alugavam
ou recebiam dela, por “doação”, suas moradas. Logo tornou-se uma cidadezinha de
cerca de 4 mil habitantes e, hoje, é um “bairro distante” da cidade de Olavarría, o centro administrativo mais
importante de toda a região.
Fundada no início do século em uma região
que era, na época, escassamente povoada, Loma Negra tornou-se um pólo de
atração de força de trabalho, constituindo um mercado de trabalho centrado nas
necessidades da fábrica, que incorporou, em especial, os imigrantes
portugueses, espanhóis e italianos recém-chegados ao país. Para os
trabalhadores, a ligação que se estabeleceu entre eles e a empresa configurava
uma “situação de dependência” particular (1), dado que estavam em jogo
não só a “estabilidade no emprego” como o conjunto de suas condições de
reprodução - a possibilidade de acesso a uma casa e aos serviços controlados
pela fábrica. Loma Negra
tornou-se, assim, um povoado de operários, uma “cidade do trabalho”, cuja vida,
até hoje, parece girar em torno da fábrica de cimento.
Essa situação inicial de “dependência”
apresenta, atualmente, algumas importantes modificações. De um lado, a
emergência de uma organização sindical, durante a década de 40, criou um novo
elemento de mediação entre os moradores e operários de Loma Negra e a empresa,
ao mesmo tempo que incorporou os trabalhadores às estruturas sindicais
nacionais. De outro, ocorreu um processo de autonomização da “vila operária” em
virtude de dois fatores: a integração de Loma Negra a um mercado regional de
trabalho - devido à instalação de novas indústrias e à expansão da rede de
comunicações -, e a venda de casas e terrenos de propriedade da empresa a
partir dos anos 60 (2).
Essas modificações não alteraram, porém, de
todo, a situação de “dependência” dos trabalhadores em relação à fábrica que,
ainda hoje, penetra na “esfera de reprodução” destes e de suas famílias.
Configura-se, portanto, um modelo de relações sociais que exige problematizar a
imagem dos trabalhadores como “proletários típicos”, ligados à fábrica
exclusivamente pelo vínculo do contrato de trabalho em troca de um salário. Ao
contrário, a “situação de dependência” e o controle da empresa sobre as vidas
dos operários e de suas famílias, além dos limites da fábrica e da jornada de
trabalho, criam outros tipos de vínculos: os das relações pessoais, dos laços
particularistas entre as famílias de operários e os ocupantes de cargos
superiores na hierarquia da empresa e, especialmente, as relações com o
“patrão” - o fundador e o proprietário da fábrica, dono dos terrenos nos quais
se instalou a “vila operária” que, ainda hoje, leva seu nome, Villa Alfredo
Fortabat (3).
Em trabalho anterior realizado no mesmo povoado (Neiburg,
1988), chamamos a atenção para o fato de que não bastava observar as relações
entre a categoria dos trabalhadores e a companhia para
compreender essa forma de dominação; deviam-se considerar, também, as outras
relações que, por meio de vínculos pessoais, levavam cada operário e sua
família até os ocupantes de postos superiores na hierarquia da empresa e,
em especial, ao patrão. Era através desses vínculos pessoais que se
obtinham benefícios particulares: desde assuntos referentes ao trabalho
(admissão de filhos ou parentes próximos, transferências de seção ou de
categoria ocupacional etc.) até aspectos relacionados à moradia (acesso
à casa ou permissão para fazer obras de ampliação, aquisição de material de
construção) e à saúde (tratamentomédico em casos de doença ou de
acidentes no trabalho). O patrão aparecia no centro desse universo de
relações pessoais que incluía, ainda, alguns intermediários para se chegar até
ele. Nesse nível de análise, os trabalhadores não se relacionavam propriamente
com uma empresa, vista como uma sociedade anônima. Ao contrário, a face da
empresa, seu modelo de gestão, os modos concretos através dos quais ela
dominava a esfera de reprodução dos trabalhadores - satisfazendo, ao mesmo
tempo, necessidades específicas das famílias - tendiam a assumir as próprias
qualidades pessoais do patrão: “uma pessoa direita e rígida, mas generosa”
que, até sua morte, em 1976, era vista regularmente nas instalações da fábrica
e que fazia freqüentemente passeios pelas ruas da vila, “encontrando cada um e
chamando-o pelo nome e sobrenome” (4). Disso decorria o particular “clima
moral” da comunidade, sua imagem de uma grande família que reconhece no
patrão uma pessoa que impõe um tom marcadamente “paternalista” a suas relações
com os trabalhadores e suas famílias. Era ele que outorgava benefícios
coletivos à comunidade (escolas, igrejas, clínicas etc.), acudia algumas
famílias em casos de necessidade e fornecia diferentes tipos de bens e serviços
por meio de relações interpessoais fundadas em distintos níveis de conhecimento
mútuo. As fotografias do patrão (e de sua mulher, a “patroa”) que muitos
operários exibiam nas paredes de suas casas, nas quais os “patrões” apareciam
ao lado de algum integrante da família operária, simbolizavam e testemunhavam a
relação “especial” que os unia.
A imagem de grande família era
particularmente invocada pelos operários para fazer referência às qualidades
“generosas” do patrão e às possibilidades de usufruir dos benefícios, ajudas
e favores delas derivadas. Essa mesma imagem era também
enfaticamente invocada pela empresa para fazer referência ao clima cordial em
que ali se desenvolviam as relações de trabalho. De fato, desde 1948, quando se
consolida definitivamente a presença do sindicato que até hoje funciona, não se
deu qualquer conflito trabalhista em Loma Negra (5).
A categoria grande família expressava
as duas faces de uma relação especial: em troca dos benefícios e ajudas
recebidos do patrão e da empresa, a retribuição dos trabalhadores implicava um
tipo particular de lealdade que contribuía para a formação do “clima moral” das
relações sociais em Loma Negra. A dominância desta dimensão das relações
sociais como veículo para obtenção de recursos e como canal de resolução de
conflitos particulares expressava, em cada um dos casos, situações e
capacidades específicas de negociação dos trabalhadores e de suas famílias (6).
Esse universo de relações pessoais
continha uma linguagem própria. Muitas categorias que serviam para designar
propriedades da grande família e para descrever as relações mantidas com
o patrão, ou com os diversos intermediários, tais como favor, ajuda e
especialmente benefício, eram também utilizadas pelos operários para
representar as relações que haviam estabelecido com o Estado “personificado” na
figura do general Perón durante seus primeiros anos de governo (1945-1955). A
essa utilização de categorias iguais para descrever as duas relações somava-se
a associação de determinadas categorias ao recebimento de determinados bens ou
benefícios - por exemplo, melhores condições de trabalho - que pareciam ter,
também, uma “dupla origem”: ora apareciam como resultantes de atos de
“generosidade” do patrão, ora como benesses de Perón. Finalmente, alguns
relatos permitiram observar identificações feitas entre as duas figuras em
relação às suas qualidades pessoais, às suas histórias de vida e, inclusive, a
um certo relacionamento pessoal de “amizade” entre Perón e o patrão (7).
No discurso dos trabalhadores, essas
identificações reforçavam-se quando se fazia referência ao período de ascensão
de Perón à Presidência da República e aos seus primeiros anos de governo. Foi
nesse período que se criou, em Loma Negra, uma nova organização sindical de
filiação “peronista”. Esta organização seria, mais tarde, considerada “o maior
benefício” outorgado por Perón aos trabalhadores. A nova organização sindical
proclamou imediatamente sua lealdade ao general - na época secretário
(ministro) do Trabalho e Previdência Social - e acabou por deslocar o sindicato
de filiação comunista que, até então, nucleava uma parte dos operários da
fábrica. A emergência desse novo sindicato peronista é particularmente
significativa em dois sentidos: de um lado, implicou o surgimento de uma nova
instância, apoiada pelo governo, incumbida de intermediar as relações entre os
trabalhadores e a companhia - personificada na figura do patrão. De outro,
levou ao aparecimento de uma instituição destinada a transformar-se em canal
“oficial” de mediação das relações entre os trabalhadores e o Estado -
personificado este na figura do novo líder, o general Perón.
O objetivo deste artigo é formular
algumas hipóteses que permitam utilizar como instrumento analítico as
identificações e homologia estabelecidas pelos operários e moradores de Loma
Negra entre os modos de representar suas relações com a companhia e o patrão
e os modos de representar e descrever suas relações com o Estado e com a figura
do general Perón.
Transformar tais homologias e
identificações em instrumento analítico supõe, como primeiro passo, desnaturalizá-las
e, em seguida, estudar a especificidade de cada relação através da análise
de suas diferenças e a consideração de suas articulações e possíveis
imbricações. Trata-se de pensar, simultaneamente, os alcances das homologias,
diferenças e articulações entre as duas dimensões das relações em que estão
imersos os operários e moradores de Loma Negra e seus modos de representá-las.
Dessa maneira será possível compreender, em um sentido mais profundo; o
significado do processo
de construção social que envolve os modos de representar
essas relações.
As duas primeiras seções do artigo
analisam as relações entre os trabalhadores e habitantes de Loma Negra e a
empresa, tentando mapear seus diferentes canais, os alcances e os significados
das alternativas de intermediação, os bens e serviços intercambiados e os modos
como as relações são representadas. Essa análise é reproduzida na terceira
seção para dar conta das relações estabelecidas com o Estado e com Perón, com
ênfase especial na posição da organização sindical. Finalmente, na última
seção, formula-se uma breve conclusão sobre o alcance das diferenças,
homologias e articulações entre as duas dimensões das relações sociais.
Favores e ajudas: um universo centralizado de relações
pessoais
Boa parte da bibliografia que discute o
problema das relações pessoais, das alianças diádicas, das relações do tipo
patrão-cliente, tende a pensá-las como expressão de um certo sens pratique. Ora
se afirma que essas relações correspondem a um ethos, ou conhecimento
particular, indicativo de que indivíduos submetidos a condições específicas
“otimizam as relações com os outros” para obter determinados recursos e
satisfazer determinadas necessidades (Gellner, 1977, p. 3). Ora se ressalta a “insuficiência”
tanto das alianças diádicas quanto das relações institucionais para satisfazer
necessidades particulares sob determinadas condições sociais (Landé, 1977a, p.
18); ou, ainda, se argumenta que, “em circunstâncias sociais específicas”, a
“estratégia” dos dominados consiste em recriar junto aos dominadores
“equivalentes funcionais de redes de relações sociais tradicionais” (Bourdieu,
1976, p. 124). Nesta perspectiva assume-se que, “sob condições específicas”,
mesmo no contexto de relações institucionais que aproximam um conjunto de
indivíduos de uma mesma “categoria” (por exemplo, os vendedores de força de
trabalho a uma empresa), certas necessidades individuais são melhor satisfeitas
de modo “particularístico” do que “categorial” (8).
Nos termos estritamente contratuais
estabelecidos entre a empresa e seus trabalhadores, estipulava-se uma relação
peia qual, em troca do trabalho, a companhia fornecia salário e moradia (um
lugar no “galpão dos solteiros” ou uma casa, no caso dos operários com
família). A situação dos trabalhadores era de extrema dependência e
precariedade: precisavam da empresa para o salário e a moradia e, dadas as
condições de relativo isolamento do povoado, os meios alternativos de obtenção
desses recursos eram poucos, difíceis e inclusive arriscados - em sua maior
parte, os operários eram imigrantes europeus de primeira geração que, ao serem
contratados, estavam em uma situação de grande fragilidade (9). Essas
características tornavam muito desfavorável a posição dos trabalhadores em
relação à empresa, reduzindo seu poder de barganha (10).
Essas condições de desigualdade é que
devem ser consideradas como pano de fundo para o desenvolvimento de relações
particularistas: os “favores” pessoais e os mecanismos de ajuda permitiam
“compensar” a precariedade. As relações pessoais, a constituição de “alianças
diádicas” (11), tanto em linha “horizontal” (por meio dos mecanismos de
ajuda mútua e de troca de favores entre os operários), como em linha “vertical”
(do tipo patrão-cliente) devem ser entendidas, portanto, como a outra face da
precariedade, como um modo de equilibrar a relação desigual (12).
Apresentamos, a seguir, dois relatos nos
quais os trabalhadores e habitantes de Loma Negra fazem referência ao tipo de
procedimentos de obtenção de determinados bens e serviços.
Francisco de Souza é um imigrante
português que chegou à Argentina, em 1933, para trabalhar em Loma Negra. Hoje
ele tem cinco filhos (três mulheres e dois homens), quatro dos quais trabalham
diretamente para a companhia, bem como um de seus genros. Ele conta que chegou
a Loma Negra através de um primo que já trabalhava na fábrica e que “falou com
o chefe da seção de pedreira de granito”, conseguindo, assim, ser também
contratado. Da mesma maneira, “seu” Francisco, anos depois, conseguiu
“colocação” para dois de seus filhos e um genro: “foi graças a mim, que
consegui falar com aquele capataz com quem meu primo tinha falado da
outra vez, que eu consegui trabalho pra esses dois”. A contratação de um outro
filho pela Sociedade de Fomento da Vila Operária (13) foi “arranjada”
pelo próprio rapaz, quando este já era empregado da companhia, falando com
seu chefe de seção, o qual, por sua vez, falou com o chefe de pessoal
que falou com o presidente da Sociedade de Fomento. O ingresso de uma
filha de “seu” Francisco como empregada de limpeza do setor administrativo da
fábrica foi conseguido, também, por meio de relações com o chefe de pessoal:
“com certeza ele interveio aí”, diz a mulher de “seu” Francisco. “Porque ele já
nos conhece e sabe que somos gente direita”.
“Seu” Francisco narra também que “naquela
época conheceu ‘don’ Alfredo Fortabat” e que toda vez que encontrava o
patrão na fábrica e na vila operária, este dirigia-se a ele cumprimentando-o
pessoalmente. Numa dessas ocasiões, o patrão perguntou-lhe sobre a família;
“seu” Francisco contou-lhe que sua mulher estava esperando o terceiro filho e
que, por isso, ele queria construir mais um quarto em sua casa. Aproveitou,
então, para dizer ao patrão que o chefe de pessoal (encarregado de autorizar a
ampliação) exigira-lhe “um projeto de arquiteto”; mas que “era só para fazer um
quarto a mais” e que “seu filho ia nascer e não tinha mais espaço”. O patrão
respondeu que o “senhor Martini (o chefe de pessoal) deve estar maluco”, que
ele (o patrão) “me conhecia e que sabia que eu não ia fazer nada, fora das
regras ou mais do que devia”. “Então, ele me disse: ‘eu falo com ele para que
ele deixe de chatear; não se preocupe e mande lembranças à sua esposa’; assim era
‘don’ Alfredo”. Quando, meses depois, “seu” Francisco voltou a
encontrar-se com o patrão e este perguntou-lhe como andava a criança
recém-nascida e a obra da casa, ele respondeu que o “filho ia bem mas a obra
estava devagar por falta de dinheiro”. O patrão novamente demonstrou sua
“generosidade”, dizendo: “.O senhor sabe que esta é uma fábrica de material de
construção; por isso agora o senhor vai lá no galpão, tira o que precisar e
termina logo com isso, mas que ninguém fique sabendo, nada do que estou dizendo
aqui”. Comenta, então, “seu” Francisco: “Imagine a confusão que ia se armar se
todo mundo ficasse sabendo...”. Com relação à casa, o operário refere-se ao
“grande benefício que nos deu ‘don’ Alfredo dando financiamento para
comprá-la”. “A verdade”, diz ele, “é que foi um verdadeiro presente para pagar
em já nem sei quantos anos”.
“Seu” Francisco conta também que, há
alguns anos, quando um de seus filhos adoeceu e precisava ser operado, a mulher
dele procurou o Departamento de Assistência Social da empresa em busca de
auxílio. Lá, conseguiu falar com o chefe do Departamento - “amigo de meu
genro” - que lhe disse que voltasse em um ou dois dias “para ver o que se podia
fazer”. Ao voltar, ela recebeu a feliz notícia de que a fábrica se encarregaria
de todas as despesas da operação numa clínica de Buenos Aires além do
transporte do rapaz e de sua mãe como acompanhante. A mulher de “seu” Francisco
assegura: “Eu sei que ‘don’ Alfredo andava nas oficinas por aqueles dias
e, com certeza, ele ficou sabendo e fez alguma coisa por nós”.
Outro exemplo é o da dona Paola. Ela se
lembra de uma vez em que “estava cuidando da casa” e recebeu a visita
inesperada da sra. Amália (a “patroa”), trazendo-lhe a neta “que tinha
machucado o pé no jardim de infância, justamente no dia em que a senhora estava
lá de visita”. Conta dona Paola que quase desmaiou ao ouvir a voz da “patroa”
na sala de sua casa dizendo que “queria aproveitar para cumprimentar, já que
ela sempre se lembrava de nós”. Como recordação daquele momento da visita da
“patroa” ao jardim de infância, a neta tinha trazido uma fotografia na qual ela
aparecia com seus colegas rodeando a sra. Amália. Dona Paola conta que, anos
depois, conseguiu falar com a patroa durante a festa de aniversário do
jardim de infância para pedir um trabalho para aquela neta que a “patroa tinha
ajudado antes”. Sabendo que na hora da festa poderia tentar aproximar-se da
“patroa” (porque “já tinha falado disso com a professora que ia fazer
todo o possível” para permitir que ela “falasse” com a sra. Amália), dona Paola
levou a fotografia na qual sua neta aparecia junto à “-patroa” na festa de anos
atrás “para que a senhora se lembrasse”.
Resumindo e incluindo informações de
outras entrevistas, podem-se agrupar os tipos de bens e serviços que os
operários e moradores de Loma Negra dizem ter recebido através das relações
interpessoais em quatro conjuntos:
(a) Em relação ao trabalho, postos
de trabalho para filhos e outros parentes próximos, particularmente netos e
genros. Pode-se acrescentar a oportunidade de troca, de turnos, o que, antes de
1945, era decidida pelos capatazes. Mais recentemente, já em pleno processo de
“modernização” da empresa, outro tipo de relação pessoal envolveu a criação de
pequenas empresas de prestação de serviços - “contratistas” - pa
trocinadas diretamente pelo patrão. Este chamava um operário e “fazia uma
proposta”: oferecialhe crédito e ferramentas para que ele também se “tornasse
empresário” e procurasse “seus sócios” entre os colegas de trabalho da mesma
seção. Um operário da usina elétrica da fábrica, por exemplo, eletricista de
profissão, montou uma “empresa” de serviços que recriou sua relação de extrema
dependência para com Loma Negra, dada a exclusividade de seus contratos com ela
e a escassa alternativa de trabalho disponível na vila.
(b) Em relação à moradia, “favores”
e “ajudas” que se referem ao processo que permite a um trabalhador “conseguir
uma casa”, abandonando o galpão de solteiros e podendo “constituir família”;
são as “autorizações” para fazer obras de ampliação das moradias e facilidades
de obtenção de material de construção, que permitem diretamente aumentar a
família. A ~ própria compra das casas financiadas pela companhia a juros muito
baixos é freqüentemente mencionada como um verdadeiro “presente”, um importante
“benefício” recebido de “don” Alfredo”.
(c) Em relação à saúde, menciona-se
qualquer tipo de “ajuda” da qual se ressalta sempre seu caráter extraordinário:
casos de urgência e de extrema necessidade, doenças e acidentes não exclusivamente
relativos ao trabalho.
(d) Um último conjunto refere-se à “manipulação” dos
limites da ilegalidade: “furtos” de material, “dar um jeito” nas listas
de casas na vila etc.
Os diferentes tipos de bens considerados
até aqui têm em comum a característica de serem o resultado de relações
particularísticas. Em todos os casos são bens e serviços recebidos como
resultado de “gestões” específicas em situações de extrema necessidade.
Adotando, aqui, a distinção estabelecida por Landé entre diferentes tipos de
“troca de favores” e de “ajuda em caso de necessidade” (Landé, 1977a, pp.
26-27), observa-se que, em todos os casos, os bens tendem a satisfazer
necessidades em prazo relativamente curto - um posto de trabalho, ajuda médica,
um tipo qualquer de autorização. De outro lado, a “unidade” que se mobiliza
para obter o bem é a família e quem recebe é sempre algum de seus membros.
Certos recursos são mais procurados pelo “chefe de família” que, de modo geral,
é quem mantém um vínculo institucional com a companhia (porque é operário ou
empregado). A ele incumbem as questões referentes ao trabalho e à moradia. À
mulher cabe a procura dos recursos referentes à área da saúde, em menor grau
também â moradia e, ocasionalmente, a busca de emprego para outras mulheres da
família. Mas, em todos os casos, é a unidade familiar - que inclui avós, pais,
filhos, netos e, eventualmente, genros e noras - que mobiliza seu capital de
relações sociais para “arrumar um favor” ou “uma ajuda” para um de seus
membros.
O mecanismo através do qual se empreende
o “arranjo” implica justamente a ativação de algum tipo de “aliança diádica”
com quem está em condições de “doar”, de outorgar o “favor” ou a “ajuda”.
Assim, podem-se mobilizar desde relações de parentesco, amizade e vizinhança até
relações de trabalho com superiores hierárquicos. Também podem ser mobilizadas
relações pessoais decorrentes do fato de se compartilhar algum tipo de espaço
institucional (por exemplo, a relação com a professora do jardim de infânca ou
da escola primária). Ou, ainda, aquelas derivadas do pertencimento a uma mesma
organização voluntária (o delegado do sindicato, o presidente da Sociedade de
Fomento) (14). Evidentemente, o tipo de relação mobilizada em cada caso
tem uma qualidade própria; utilizá-la - pedindo um “favor”, por exemplo - se
refletirá no tipo de retribuição, terá um significado e um conteúdo diversos,
passando a fazer parte da própria história da relação, o que permitirá
invocá-la novamente em futuras ocasiões. O “favor” ou a “ajuda” referem-se
tanto à possibilidade de acesso direto ao bem ou serviço procurado como à
possibilidade de acesso ao seu “doador”, ou a alguém que faça a intermediação
com outro que tenha capacidade de obter sucesso no pedido e que, por estar numa
posição de menor “distância social” em relação ao centro de decisões (o
patrão), é portador de um status superior àquele que “pede” (15). De
modo geral, a categoria que serve para designar o procedimento é falar com
alguém. Isso reforça a idéia de que o favor ou a ajuda são o resultado de uma
relação interpessoal, face a face.
Em Loma Negra, o “sistema de
estratificação” que define a capacidade dos diferentes indivíduos para doar
recursos, ou para servir de intermediários, ergue-se sobre uma estrutura de
distâncias sociais relativas ao centro: o patrão (16). Essa estrutura de
distâncias e proximidades situa-se paralelamente à hierarquia institucional da
fábrica (superintendente, chefe de pessoal, chefe de seção, capataz, chefe de
equipe etc.), mas não é idêntica a ela. Independentemente do fato de os
indivíduos colocados em posições superiores no quadro de pessoal terem mais
capacidade de estabelecer “alianças diádicas verticais” com seus subordinados -
porque detém maior poder de decisão e de controle de recursos -, o que se valoriza,
na realidade, é o grau de proximidade com o patrão, a possibilidade de “ter
acesso a ele” e de “expor-lhe o caso”, de “falar com ele”. Nas ocasiões em que,
aparentemente, quem outorga o favor é um superior, não é raro ouvir-se uma
explicação, por parte de quem recebe, de que “certamente ‘don’ Alfredo
soube e deu a ordem” (como no caso da operação do filho de “seu” Francisco de
Souza). Dessa maneira, planejam-se estratégias específicas para falar com um
superior numa ocasião em que “se sabe” que o patrão estará na fábrica ou na
vila (17).
Independentemente da hierarquia dentro da
empresa, existem outras posições e outros princípios, em Loma Negra, que
permitem ao trabalhador ocupar posições mais próximas do patrão: a diretora do
jardim de infância, empregada da companhia, ocupa uma dessas posições de
proximidade maior do que a de outros empregados da companhia de sua mesma
hierarquia, dada a “tradicional preocupação de ‘don’ Alfredo e da dona
Amália com as crianças”, o que lhe permite ter contatos diretos com os patrões.
O presidente da Sociedade de Fomento da vila está também mais próximo do
patrão, o qual “está sempre preocupado com a vida de seus habitantes”. Acontece
o mesmo com os dirigentes da organização sindical local. A mesma coisa pode ser
dita, ainda, a respeito das professoras do jardim de infância e dos empregados
da Sociedade de Fomento que, estando próximos dos diretores de ambos os
estabelecimentos, conseguem ocupar posições de menor distância com relação ao patrão
do que as de outros empregados de hierarquia igual.
É importante, porém, ressaltar que a
distribuição das posições com respeito ao patrão e às hierarquias superiores
que lhe são mais próximas não se define somente em termos institucionais. O
fato de ter um cargo elevado na hierarquia de uma instituição ligada à empresa
não constitui, em si mesmo, uma garantia de acesso a uma posição de privilégio
(18). Há vários outros mecanismos que funcionam como prinçípios distribuidores
de posições de maior ou menor distância do patrão. Todos implicam algum tipo de
relação particularista que expressa certo “favoritismo” e testemunha a
continuidade e a história de uma relação: o “cumprimento pessoal” que moradores
da vila dizem ter recebido do patrão quando este percorria a fábrica ou o
povoado, o convite ao patrão ou a alguém que lhe seja chegado para ser padrinho
de um filho, ou o simples fato de poder exibir na sala de sua casa uma
fotografia do patrão ao lado de um membro da família (19). Às vezes, a
“manipulação correta de uma situação casual” pode abrir caminho para que se
tenha acesso a uma posição de privilégio. E o que revela a história de “seu”
Martinez (ex-operário da seção de ensacamento de cimento, atualmente
aposentado). Após ter servido como garçom em uma festa de aniversário na vila,
o patrão “mandou chamá-lo” para trabalhar no mesmo serviço nos seus fins de
semana na “mansão” de Loma Negra, durante os quais ele costumava receber
“visitas importantes” (presidentes, governadores, banqueiros). “Seu” Martinez
passou a ocupar, então, uma posição de extrema proximidade do patrão (“vivia em
sua casa desde a sexta-feira até o domingo”, “tinha uma relação de intimidade”,
diz “seu” Martinez com orgulho). Isso lhe conferia um status diferente em
relação aos demais operários e transformava-o em um intermediário especialmente
requisitado (20).
Esse “sistema de distribuição de
diferenças de s tatus” ergue-se sobre uma estrutura de “alianças
diádicas”, que servem de veículo para os “arranjos” através dos quais se buscam
os “favores” e as “ajudas”. Tais alianças diádicas supõem algum tipo de troca
recíproca entre quem procura um recurso e quem o outorga ou “fala” com um
possível intermediário. O “arranjo”, o fato de “falar” diretamente com o
patrão, ou de mobilizar alguém que esteja em condições de “falar”, constituem
aspectos de uma relação mais geral de reciprocidade na qual aquele que recebe o
bem ou serviço - membro de uma família que mobilizou seu capital de relações
sociais no “arranjo” - deve “dar alguma coisa” em troca, que não será da mesma
natureza daquilo que foi recebido. Se, de um lado, recebem-se bens
relativamente determinados (referentes a trabalho, moradia e saúde), de outro,
retribuem-se “bens” de natureza distinta. Trata-se do reconhecimento, por parte
de quem sé encontra numa posição inferior de status, de sua situação de
debilidade e subordinação diante de quem “doa” o recurso. O resultado geral
desse tipo de troca é a legitimação do sistema de diferenças nas posições de status,
o que reforça uma atitude de lealdade e de deferência por parte do
subordinado e que se manifestará das mais diversas maneiras (21): desde
o reconhecimento do status superior do outro - “não falando mal dele” -
até lealdades no campo das diferentes relações institucionais que estão na base
das alianças diádicas. Por exemplo, as próprias relações de trabalho, nas quais
se podem manifestar atitudes de lealdade a certos superiores. No plano mais
geral do sistema., o resultado desse complexo de relações particularistas é a
legitimação permanente do próprio sistema, com a reprodução da posição central
do patrão - que é visto como a maior fonte doadora de recursos, como o detentor
das mais elevadas qualidades e capacidades de dádiva e como aquele que, por sua
posição, garante a “ordem moral” das relações sociais; isto é, a idéia da
“grande família de Loma Negra”.
Embora esse sistema de relações pessoais,
de alianças diádicas, apresente um certo caráter “conservador” - como
reiteradamente aponta a literatura (por exemplo, Landé, 1977a, pp. 23-24) - ele
de modo algum nega a existência de tensões, conflitos de interesse e relações
de força. Ao contrário, como em Loma Negra as relações institucionais que opõem
a categoria de operários à companhia se encontram “agregadas” a relações
interpessoais que articulam indivíduos particulares e suas famílias a indivíduos
de status superior, especialmente o patrão, os conflitos de interesse e as
negociações são canalizados também por meio dessas relações. Pressupondo tais
relações estratégias para obter recursos particulares, elas devem ser
consideradas como expressão de relações de força em conjunturas
específicas.
O caráter conflitivo dessas relações se
expressa nas próprias categorias utilizadas pelos sujeitos sociais para
representá-las. A linguagem da rivalidade aparece oculta por detrás das
expressões que servem para acentuar as alianças, como afirma Lévi-Strauss (22).
Çomo as posições dos indivíduos que se relacionam exprimem desigualdades de status
e como cada um deles faz uso da relação para obter bens e serviços de
natureza distinta, a própria relação converte-se em terreno de conflito de
interesses. Isso adquire maior visibilidade, em Loma Negra, porque certas
categorias como “arranjo”, “ajuda”, “favor” ou “benefício” podem ser associadas
à intenção, mais ou menos explícita, de obter o recurso desejado por meio de
uma série de comportamentos calculados. Assim, à idéia de “falar com” alguém
para conseguir uma ajuda, associa-se a noção de que esse comportamento é uma
estratégia que exige uma certa dose de habilidade no cultivo da relação, na
atenção à oportunidade de fazer o pedido e nos modos de falar em cada situação (23).
Resumindo, esse universo de relações
sociais contém uma “linguagem” própria que tende a ocultar as rivalidades por
detrás dos mesmos termos que servem para designar as alianças. Essa “linguagem”
exprime, de um lado, uma forma de dominação que requer um “investimento alto
por parte dos dominadores” (Bourdieu, 1976, pp. 128-29), os quais devem
continuamente recriá-la; de outro, contendo também uma forma de permanente
negociação, essa linguagem exprime um processo de “contínua criação” de
condições vantajosas para a obtenção de recursos.
A
vila operária e os “benefícios” coletivos
O complexo de relações sociais que sob a
forma de alianças pessoais se estabelece em Loma Negra entre trabalhadores
individuais e suas famílias e indivíduos de status superior,
especialmente o patrão, estrutura-se com base nas relações de tipo
contratual que unem os trabalhadores à companhia. Essas relações
contratuais estipulam que, em troca da venda de sua força de trabalho, cada
operário recebe um salário e o acesso, para ele e sua família, a uma moradia de
propriedade da empresa. Deste modo, a companhia passa a manter relações com duas
categorias de indivíduos: com os trabalhadores e com os habitantes
de Loma Negra.
Até a venda das casas e dos terrenos por
parte da empresa, iniciada em meados da década de 60, a maior parte dos
operários da fábrica morava na vila operária. Como, para ter acesso à moradia,
era condição ser operário ou empregado da fábrica, as famílias de habitantes da
vila que não estavam ligadas diretamente à fábrica eram raras exceções.
Já vimos que as relações interpessoais
funcionavam como um mecanismo adequado para “compensar” desequilíbrios, para
fornecer determinado tipo de recursos (referentes a trabalho, moradia e saúde
especialmente). Agora, a distinção entre as relações que a companhia estabelece
com os trabalhadores e aquelas estabelecidas com os habitantes de
Loma Negra adquire uma importância particular, na medida em que permite
estabelecer diferenciações quanto à natureza dos recursos, o tipo de mediações
acionadas em cada caso e o conteúdo das categorias com as quais os
sujeitos sociais representam essas relações.
Com a criação, em novembro de 1945, do
Sindicato del Cemento, Cal y Anexos de Loma Negra, e seu reconhecimento legal
alguns meses depois, foi oficializada a existência de um organismo encarregado
de mediar a relação entre os trabalhadores e a companhia. Desde sua fundação, e
dadas as características próprias do “sistema de fábrica com vila operária”, a
organização sindical vem funcionando como instituição mediadora também em
relação a tudo aquilo que gira em torno da moradia, dos serviços e do
abastecimento da vila operária.
Com a nova legislação trabalhista, o
governo do general Perón promoveu uma ampla regulamentação das associações
profissionais é sindicatos operários, estipulando um esquema organizado em
sentido piramidal: as seções ou delegacias sindicais de fábrica (como a de Loma
Negra) deviam ser integradas à federação nacional do respectivo ramo que, por
sua vez, confluía, junto com as ostras federações nacionais, para a única Confederación
General del Trabajo (CGT). Desde então, a negociação dos acordos coletivos
de trabalho passou a ser tarefa das federações e câmaras industriais por ramo
de atividade em nível nacional. O primeiro contrato coletivo dos trabalhadores
do cimento foi assinado em julho de 1948, depois da greve nacional de maior
duração do setor, que se estendeu por 11 dias. A partir desse momento, as
funções do sindicato local de Loma Negra ficaram restritas a uma tarefa
“fiscalizadora” do “bom cumprimento” das disposições do acordo coletivo, tarefa
que, nos locais de trabalho, ficou a cargo dos delegados de cada seção da
fábrica. Deste modo ficou definido o esquema geral que seguiria o tratamento
das “questões trabalhistas” com a companhia: do operário individual e de cada
seção da fábrica, passando pelo “corpo de delegados”, até a Comissão Diretora e
de Reivindicação do sindicato local, encarregada de apresentar as “queixas” e
“demandas” e encaminhar as negociações, através da chefia de pessoal, com a
companhia. Observando as Atas de Reunião da Comissão Diretora do Sindicato de
Loma Negra, podemos agrupar os “problemas” tratados com a companhia em quatro
grandes grupos: (a) reivindicações salariais de categorias com problemas de
enquadramento no contrato coletivo; (b) sanções a operários por problemas
“disciplinares”; (c) condições de trabalho; (d) mudanças de categoria
ocupacional decorrentes de promoções, criaçãp..ou anulação de postos.
Independentemente dos assuntos
“estritamente trabalhistas”, a organização sindical passou a exercer, também,
funções “fiscalizadoras” em relação à distribuição de casas, através do
controle, junto à companhia, de uma “lista de solicitações” integrada por novos
operários com família e por jovens operários que desejavam “constituir
família”. Por último, o sindicato passou a intervir no abastecimento de
alimentos na vila através de uma Proveduría e a proporcionar serviços de
saúde a seus associados através da Obra Social do grêmio.
Deste modo, além da supervisão do
cumprimento do acordo coletivo de trabalho, o sindicato passou a controlar ou a
intervir, junto à companhia, no controle e administração de outra série de bens
e serviços: alimentos, saúde e moradia (24). Independentemente da existência de
“canais orgânicos” de distribuição dos recursos controlados pelo sindicato,
definidos nos estatutos da organização, os relatos dos trabalhadores e as atas
das reuniões da comissão diretora deixam transparecer a permanente superposição
de relações particularistas sobre as disposições orgânicas, o que chega a
constituir um “verdadeiro problema”, especialmente em relação à administração
das moradias. Neles registram-se permanentes “queixas” de operários que dizem
ter sido “excluídos de seu lugar na lista” e constantes apelos ao sindicato e à
companhia pela “eliminação dos favoritismos” (25).
Quanto à esfera das relações de trabalho,
se os contatos entre os operários e a companhia, mediante o
sindicato, tendiam a restringir-se aos canais formais (através do chefe do
Departamento de Pessoal da empresa), algo diferente acontecia com relação às
outras esferas da vida dos operários e moradores de Loma Negra.
Independentemente do fato de que alguns pedidos de recursos em relação à
moradia e ao funcionamento da vila operária fossem realizados sob a forma de demandas
perante a companhia, seu atendimento era visto como uma retribuição,
sob a forma de benefício, proporcionada pelo patrão. No processo
que vai desde a formulação da demanda por parte da organização sindical até a
retribuição por parte da empresa ocorre, então, uma transformação no caráter
dos recursos e nas categorias utilizadas para descrever o intercâmbio: já não é
a companhia que atende uma demanda dos trabalhadores levada pelo
sindicato, mas é o próprio patrão que aparece como outorgante de benefícios
coletivos, por um ato de sua “generosidade” pessoal. Tais benefícios, so
mados aos favores e ajudas particularistas, contribuem para dotar
de sentido a idéia de “grande família de Loma Negra” (26).
Para se entender esse processo, deve-se
atentar para o caráter da mediação desempenhada pela organização sindical neste
tipo de intercâmbio. Embora o sindicato se encarregue de canalizar as demandas
dos trabalhadores e habitantes de Loma Negra, estas aparecem como sendo
satisfeitas diretamente pelo patrão. Na recepção desses benefícios, o papel de
mediação do sindicato tende a dissolver-se, aparecendo o patrão como aquele que
os outorga - como demonstração de sua “generosidade”.
Um bom exemplo deste tipo de procedimento
é o que levou à venda das casas e terrenos da vila operária. A primeira nota
que o sindicato dirigiu à empresa solicitando “melhorias” nas moradias - cuja
quantidade, apontava, também seria “insuficiente para atender todos os
trabalhadores com família” - é de fevereiro de 1947 (AC:1-2-47) (27).
Poucos anos depois, a demanda por “melhorias” transformou-se na “solicitação de
venda de casas e terrenos para novos habitantes” (AC:4-11-53). Finalmente, no
princípio da década de 60, a empresa começou a vender para os trabalhadores da
companhia um espaço que hoje é ocupado por umas 150 casas (a “Villa Nueva”).
Para “facilitar a compra dos terrenos”, a empresa, “por iniciativa de ‘don’ Alfredo
Fortabat”, destinou empréstimos para os operários “que desejassem adquirir o
lugar onde se localizariam seus futuros lares e a Vila Nova de nossa
localidade”, como também fez “empréstimos para a construção das casas” (28).
Os relatos dos atuais habitantes da Vila Nova coincidem ao afirmar que foi
“graças a ‘don’ Alfredo” que hoje possuem suas casas, um “verdadeiro
presente”, “uma das melhores demonstrações das coisas que costumava fazer o
velho”, “um dos mais importantes benefícios que nós recebemos de ‘don’ Alfredo”.
Os terrenos da Vila Nova e o material
para a construção das casas se somam a uma série mais ampla de benefícios coletivos:
o Jardim de Infância de Loma Negra; a Escola Primária “Amália Fortabat”; a
Escola Secundária Técnica “Luciano Fortabat”; a capela na qual . hoje des
cansam os restos do patrão; a manutenção das ruas e lugares públicos no
povoado; os serviços de água e luz que, durante anos, foram proporcionados pela
empresa quase sem encargos.
Junto a estes aparecia também outra série
de benefícios que, de modo altamente ritualizado em torno da própria
figura do patrão, sancionavam atos de tipo redistributivo. A expressão máxima
deste tipo de ato era, talvez, a festa de aniversário de Loma Negra, comemorada
durante uma semana completa, que incluía diferentes competições com prêmios
(desde esportivas até a da casa “mais bonita da Vila”), presentes para os
operários com 15 ou 25 anos de “casa” (os novos “veteranos”, que passavam a
integrar o “Círculo de Veteranos”, que tinha o patrão como o “primeiro
veterano”). A festa culminava com um discurso do patrão, um baile e “grande
churrasco”, no qual era possível beber e comer “à vontade” e que chegava a
contar com a assistência de mais de 6 mil pessoas, “inclusive muita gente de
fora de Loma Negra que vinha porque dava para levar para casa comida para uma
semana” (29).
Mas, afinal, qual o tipo particular de
função mediadora que a organização sindical parece desempenhar aqui e quais são
seus alcances e conseqüências?
A
resposta deve começar por considerar que, embora não haja, aparentemente, uma
intervenção da organização sindical (redistribuindo ou mediando de alguma maneira)
na recepção deste tipo de “benefícios”, um primeiro resultado de sua
participação é a legitimação do seu papel de canal de um tipo particular de
demandas coletivas dos habitantes da vila operária que, assumindo a
forma de solicitações, são efetuadas ao patrão. Especialmente quando se
trata de demandas referentes às relações entre os habitantes da vila
operária e o patrão, fica legitimada uma dupla função do sindicato, que
já não só atua como mediador junto à companhia quanto a assuntos
trabalhistas, mas passa a manter relações diretas com ‘don’ Alfredo Fortabat
(30).
Essa possibilidade de tratar
“diretamente” com o patrão de determinado tipo de demanda da categoria tem como
resultado adicional a possibilidade, por parte do sindicato, de desfrutar, ele
também, dos benefícios do patrão. Por exemplo, o terreno onde foi
erguida a sede social na vila operária e os materiais para sua construção foram
“doados” pelo patrão depois que uma assembléia de associados resolveu, em abril
de 1956, “solicitar uma reunião com ‘don’ Alfredo Fortabat para lhe
fazer chegar ao conhecimento as necessidades de nossa organização”
(AC:31-4-56). Do mesmo modo, o sindicato recebeu, entre outras “dádivas” do
patrão: o equipamento da clínica que a Obra Social possui na vila; o terreno e
o material para a construção da Proveduría de alimentos, que funcionou
ali durante anos; material para a construção da sede sindical na cidade de
Olavarría. Estes benefícios que o sindicato reivindica como próprios, obtidos
por meio de atos de “generosidade” do patrão e também “arranjados” com
“habilidade” - como contam alguns sindicalistas -, supõem, ao mesmo tempo, a
acumulação por parte da organização sindical de recursos que incrementam seu
poder em dois sentidos fundamentais. Em primeiro lugar, o fato de contar com
instalações espaçosas para celebrar festas e assembléias, com uma clínica
provida de um equipamento especializado e raro na região é com outro grupo de
instalações médicas em Olavarría e, sobretudo, o fato de contar com uma
“saudável economia” colocam o sindicato de Loma Negra em uma situação vantajosa
com respeito aos outros sindicatos do mesmo nível, com os quais ele
campartilha e disputa o controle da delegacia regional da CGT (31). Em
segundo lugar, relativamente aos seus associados, estes recursos
aparecem como “vitórias” e “feitos” que, se por um lado permitem benefícios
para a categoria, possibilitam também “favoritismos” e diversas relações
particularistas entre eles e os sindicalistas que exercem funções de controle
dos recursos. Disso resulta o fortalecimento das posições dos indivíduos que
desempenham tais funções (em termos gerais, os integrantes da comissão
diretora, dentro da qual, sem dúvida, seria possível estabelecer outras
diferenciações).
Como resultado dos diferentes papéis de
mediação que desempenha, a organização sindical se fortalece em diversos
sentidos: por um lado, legitima sua função de mediação junto à companhia quanto
aos aspectos estritamente trabalhistas; por outro, como resultado de seu papel
de mediadora em relação às outras esferas da vida dos trabalhadores e
habitantes de Loma Negra, legitima seu papel de veículo de demandas da
população com respeito ao patrão; e, finalmente, o sindicato obtém
também do patrão recursos que o fortalecem no campo sindical regional,
além de fortalecer posições individuais de sindicalistas em relação aos associados.
Como “demonstração de agradecimento”, em
uma das paredes do hall de entrada da sede social que o sindicato possui
na vila operária, assim como em muitas das salas das moradias dos
trabalhadores, exibe-se um grande retrato do patrão. Na mesma parede, separado
por uma fotografia aérea da fábrica e da vila operária, expõe-se outro retrato:
o do general Perón.
O
Quadro 1 representa graficamente o conjunto das relações até aqui analisadas.
Na parte superior do quadro, a entidade “empresa” aparece decomposta nas duas
categorias através das quais os trabalhadores e habitantes de Loma Negra
designam as relações com ela estabelecidas: companhia e patrão. Na parte
inferior, obviamente, os “indivíduos-unidades familiares” são ao mesmo
tempo “trabalhadores e habitantes de Loma Negra”.

Do lado direito podem-se
observar, fundamentalmente, as relações examinadas na primeira seção deste
artigo: indivíduos pertencentes a unidades familiares específicas
e que se relacionam com a companhia por meio de um contrato formal de trabalho
(que não aparece na representação gráfica) encontram-se, também, vinculados à
empresa por meio de relações particularistas, de alianças diádicas que, de modo
direto (3), ou mais freqüentemente por meio de intermediários ou da manipulação
de actions-sets (1),dirigem-se até o patrão. Por estes canais os
indivíduos, “falando” com alguém, solicitam “favores” e encaminham pedidos de
“ajuda”, recebendo bens e serviços que, em geral, se referem a questões de
trabalho, de moradia e de saúde (2) (4). Em troca, o patrão (3) e os indivíduos
que integram a rede de intermediários (1) recebem lealdade por parte dos
solicitantes. Disso se despreende a legitimação das diferentes posições na
hierarquia de status em cujo vértice se encontra o patrão.
Do lado esquerdo do quadro encontram-se
as relações analisadas nesta seção: os trabalhadores e habitantes de Loma Negra
(enquanto “entidades categoriais”) tendem a relacionar-se com a empresa através
da mediação do sindicato. Por um lado, o sindicato medeia as relações entre os trabalhadores
e a companhia (12) (13) quanto aos assuntos que correm paralelos às
relações mais estritamente institucionais, e, que se referem, fundamentalmente,
àquelas consideradas no contrato coletivo de trabalho (ainda que houvesse
necessidade de acrescentar relações institucionais não contidas no acordo, como
as que encerram as listas de turnos para ocupar moradias na vila etc.). Por
outro, ele serve como mediador entre o patrão e os trabalhadores e
moradores de Loma Negra em tudo aquilo que deriva de sua condição de habitantes
da vila (11), ou seja, nas demandas e solicitações referentes à moradia e
aos serviços da vila operária: escolas, alimentos, serviços de saúde, luz, gás
etc. Tais solicitações são satisfeitas pelo patrão sob a forma de benefícios
coletivos (8).
De modo similar, o sindicato leva ao
patrão suas próprias solicitações (9),cuja
satisfação assume a forma de benefícios outorgados por este à organização (10).
O sindicato, então, distribui os recursos assim obtidos entre seus associados,
seja de forma coletiva, seja através de indivíduos pertencentes a unidades
familiares específicas (6) que, em troca, legitimam as posições dos que
administram esses recursos dentro da organização, devendo-lhes lealdade pessoal
no campo da política sindical local (5).
Por último, a linha pontilhada à esquerda
designa a relação que o sindicato mantém com o “campo sindical”, isto é, com as
estruturas sindicais nos níveis regional e nacional e - como veremos na próxima
seção -, através dele, com o Estado e com o sistema político nacional. Neste
sistema, o desempenho do sindicato de Loma Negra, em todo o conjunto de
relações descrito até aqui, converte-se em uma espécie particular de “capital”
- no , sentido de Bourdieu - para a organização sindical local e para os
indivíduos que nela ocupam posições dirigentes (32). Esta transformação do “desempenho” do sindicato
local em “capital” dentro do campo sindical adquire um significado
especialmente importante, desde que - a partir da ascensão de Perón ao poder,
em 1943 = o campo
sindical passa a ter um peso extremamente importante no campo político: Desde
então, o sindicalismo organizado torna-se a “coluna vertebral” do movimento
peronista, passando as organizações sindicais a funcionar como algo parecido a
uma “máquina política” do peronismo, como se argumentará na próxima seção.
O sindicato: entre a vila operária e o campo da política
As primeiras notícias sobre tentativas
de organização sindical em Loma Negra remontam a princípios da década de 30. Mas é
somente em 1939 que se funda o primeiro sindicato local, o Sindicato de
Obreros de la Construcción, filiado à Federación Obrera Nacional de la
Construcción, um dos maiores baluartes da inserção do Partido Comunista no
movimento operário argentino da época. Na realidade, dispomos de escassa
informação sobre o funcionamento desta organização na região e em Loma Negra em
particular. As únicas notícias apuradas, provenientes de documentos e de
relatos de alguns trabalhadores, mencionam a organização comunista em oposição
à nova organização que é fundada em 1945 para
“aderir à gestão do coronel Perón na Secretaria de Trabajo y Previsión de ta
Nación” (33). O
processo de deslocamento da organização sindical comunista pelo novo sindicato
peronista correspondeu ao período de maior violência em Loma Negra. Foi uma
época de violência não só entre as facções sindicais, como também de fortes
enfrentamentos com a empresa, em grande medida conseqüência das próprias
disputas intersindicais (que, na verdade, eram parte de um processo de violento
enfrentamento político ao nível nacional).
Apesar de ter contado com o apoio oficial do Estado, a
nova organização só foi reconhecida pela empresa dez meses depois de fundada,
em setembro de 1946. Os três anos decorridos entre a fundação da organização
sindical peronista em 1945 até a assinatura do primeiro contrato coletivo de
trabalho, em 1948, representam a transição entre uma situação de conflito e um
“novo estilo” de negociações operário-patronais. Nas atas da comissão diretora
do sindicato observamos a progressiva substituição da linguagem dura do
enfrentamento que caracterizou a primeira época, com “emprazamentos à
companhia”, ou com a “intimação dos representantes da companhia para que
compareçam perante esta comissão”, por uma outra mais “branda” que começa a se
dirigir à companhia. Ao mesmo tempo, o registro da presença do patrão torna-se
mais freqüente. A “intimação” e a “medida de força” dão lugar aos contatos
regulares através dos novos “canais orgânicos” de relação e de “notas” e
“circulares” escritos em uma linguagem cada vez mais formalizada (34).
Progressivamente se estabelece uma relação mais direta entre a comissão
diretora e o patrão.
O primeiro contato direto com Alfredo
Fortabat deu-se em outubro de 1946, no qual ‘don’ Fortabat teria demonstrado “a
maior boa vontade perante o requerimento que lhe foi apresentado”., Seguiram
outras demonstrações de aproximação: a “resolução de colaborar com os festejos
do Dia de Loma Negra”, a solicitação para que o patrão “envie uma fotografia do
senhor seu pai para ser pendurada em nossa secretaria, considerando como justo
render homenagem a quem fora fundador e propulsor da indústria”
(AC:26-10-46;1-11-47; 3-4-48) (35). Este processo desenvolveu-se sobre um pano
de fundo composto de duas características principais: primeiro, a luta entre
comunistas e peronistas pela representação sindical dos trabalhadores; segundo,
a mudança de atitude por parte da empresa, e particularmente do patrão, a
respeito do novo governo peronista, passando de uma primeira atitude de
“receio” e inclusive de “enfrentamento” com relação a algumas medidas
governamentais que afetavam diretamente seus interesses - como a que obrigava
todas as empresas extrativistas a pagar o recém-criado Impuesto a Ia Piedra
-, a uma progressiva aproximação que começaria pelo reconhecimento da
organização sindical peronista e que, de certo modo, culminaria com a
assinatura do primeiro contrato coletivo de trabalho, em dezembro de 1948.
Nesta ocasião, segundo contam testemunhas, Alfredo Fortabat teria convidado o
secretário-geral da CGT “para comemorar” com os operários na Festa de Loma
Negra e lhe oferecido seu próprio cachecol, ao discursar, “chamando-o de
companheiro” (36).
Por outro lado, o novo sindicato, que
desde o início havia declarado sua adesão a Perón, integrar-se-á à nova
estrutura sindical nacional, por meio da qual ficará definido o canal de sua
relação com o Estado (37). Ao mesmo tempo, realizará uma ampla campanha
de apoio às medidas do governo peronista: supervisionará a saída de material
das pedreiras para verificar o pagamento dos impostos recém-criados; promoverá
uma “tocada” de apitos e sirenes de fábrica pela “nacionalização das estradas
de ferro”; apoiará as “campanhas de barateamento de preços”
(AC:28-2-48;3-7-48). Em fevereiro de 1947, junto à regional Olavarría da CGT,
participará na organização de um “grande ato” no qual um dirigente sindical de
Loma Negra compartilhará a tribuna com Juan Perón e Eva Perón; em 1951
orientará seus associados a trabalhar em favor da reeleição de Perón.

Fica definido, assim, o
conjunto das funções de mediação desempenhadas pelo sindicato e o caráter das
mesmas. São mediações que já não só se referem às relações com a empresa, mas
incluem as relações com o Estado e com Perón em particular. Se,
por um lado, e como o efeito de um processo aparentemente mágico de “amnésia”,
que apaga da memória os períodos anteriores, os trabalhadores e habitantes de Loma
Negra concebem a própria organização sindi cal como um benefício do
general Perón, ao sindicato cabe a tarefa de administrar os outros benefícios
derivados de sua gestão à frente do governo e que têm a ver com o conjunto
das melhorias sociais e trabalhistas promovidas pelo Estado. Seu papel de
mediador entre os trabalhadores/habitantes de Loma Negra e o Estado e Perón
pode ser esquematizado no Quadro 2.
O sindicato, enquanto “benefício”
outorgado por Perón, passa a servir de canal para as demandas dos trabalhadores
junto ao Estado (9) e até ao próprio líder (8) (38). A organização sindical
distribui os “benefícios” obtidos dessa maneira ao conjunto de trabalhadores de
Loma Negra (10), “benefícios” que também são objeto de intercâmbios
particularistas entre os sindicalistas que se encontram em posições de controle
dos recursos e indivíduos pertencentes a unidades familiares particulares (2)
(3). Aos “benefícios” outorgados por Perón (o próprio sindicato e as reformas
sociais) os trabalhadores retribuem com sua “lealdade” e seu apoio político não
só ao general (1) (5) como também a todos os indivíduos que exercem funções
mediadoras com o líder através do sindicato (2).
As relações entre o sindicato de Loma
Negra, Perón e o Estado estão mediadas pelo fato de o primeiro pertencer à
estrutura orgânica do movimento sindical. Ao mesmo tempo que esta estrutura
serve de veículo para as demandas dos trabalhadores, ela faz, às vezes, de
“máquina política” para o peronismo: passa a operar como um conjunto de
relações sociais que serve de contexto para relações particularistas com as
quais se contempla a satisfação das demandas de indivíduos pertencentes a
certas unidades familiares, em troca da garantia da lealdade para com os
diferentes indivíduos que administram os recursos e, fundamentalmente, em
relação a Perón, que é visto corno a fonte doadora dos “benefícios” (39)
Observando este conjunto de relações
sociais tomo constituinte de um campo sindical, resulta que os bens e serviços
que circulam através da estrutura sindical - entre os trabalhadores, o Estado e
o líder - não são só recursos para satisfazer necessidades dos trabalhadores e
suas famílias; são também espécies distintas de capital que estão em jogo na
concorrência dentro deste campo. Assim, esta “máquina política” serve não só
como contexto para a circulação de bens e serviços que, tendo como fontes o
Estado e Perón, satisfazem necessidades de indivíduos pertencentes a unidades
familiares específicas. A estrutura sindical funciona também como um “campo” de
relações sociais no qual, em troca da distribuição de recursos entre os
associados, determinados sindicatos, e dentro deles alguns indivíduos que
possuem maiores margens de controle de circulação dos recursos, obtêm lealdades
que reforçam suas posições no campo sindical, o que se manifestará nas relações
que a organização mantém, através da estrutura sindical, com Perón e com o
sistema político (6) (7).
O “desempenho” da organização sindical de
Loma Negra em suas relações com a companhia e com o patrão - que aparecem em
linhas pontilhadas no quadro - repercutirá, também, nas funções mediadoras que
ela realiza no conjunto das relações sociais, por se colocarem em jogo as
posições da organização no campo sindical, bem como, em seu interior, as de
alguns de seus integrantes.
Conclusões
No início deste artigo anunciamos o
objetivo de analisar o significado e os alcances das identificações e
homologias estabelecidas pelos operários e moradores de Loma Negra na representação
de suas relações com o patrão e com Perón, identificações essas que se
expressam, inclusive, nas várias formas de associação entre as duas figuras: na
construção de paralelos entre suas histórias de vida, na utilização de
categorias semelhantes para descrever o resultado das relações estabelecidas
com um e com o outro, em que são sempre ressaltadas as qualidades de
“generosidade” dos dois personagens.
Nosso exercício foi guiado pela intenção de que as
identificações servissem como pontos de partida analíticos e passassem a
integrar nosso objeto de análise. Esse procedimento é inverso ao que, por
exemplo, contém as teorias do Estado ou da sociedade “clientelista”, ou da
transactional society (40). Nestas, as homologias são simplesmente
constatadas, são tomadas como dadas não só nas representações dos sujeitos como
nas dos sociólogos que as estudam. A conseqüência é que, ao invés de considerar
as identificações como constitutivas do objeto de análise, o que deveria
estimular a investigação, o pesquisador acaba por construir suas próprias
homologias, reproduzindo, assim, as identificações contidas nas representações
dos sujeitos. Esse processo, que oculta em vez de desvendar os problemas
sociológicos, torna o pesquisador um cúmplice da “naturalização” (41).
Na primeira parte do artigo diferenciamos
as relações que operários e moradores de Loma Negra estabelecem com a empresa
(a companhia e o patrão) daquelas instituídas com o Estado e com Perón.
Fazendo-o, pudemos analisar mais profundamente a especificidade de cada
complexo de relações do qual decorrem importantes e variadas diferenças. Estas
incluem desde a natureza dos bens e serviços trocados, aos resultados e
mecanismos dos intercâmbios, à presença de vários mediadores (observa-se que,
por exemplo, outros intermediários, além do sindicato, atuam nas relações com o
patrão); até a possibilidade de travar relações diretas, face a face, com a
maior das fontes de recursos em cada um dos complexos. É evidente que, neste
nível, os trabalhadores não estabelecem relações diretas com Perón do mesmo
tipo das que podem criar com o patrão.
Tratando
separadamente, num primeiro momento, os dois conjuntos de relações sociais,
pôde-se contribuir para a compreensão de dois fenômenos distintos embora
inter-relacionados. Em primeiro lugar, apontamos para a especificidade da forma
de dominação produzida e reproduzida em Loma Negra e que não pode ser entendida
apenas através do exame das relações institucionais que ali se desenvolvem. É
preciso observar, ao mesmo tempo, o complexo de relações pessoalizadas que se
reproduzem junto às relações institucionais. Essa análise configura a imagem de
uma forma de dominação que contém um sistema de diferenciação de status
profundamente centralizado. Uma das chaves para a sua compreensão encontra-se
no fato de que este sistema de estratificação não é idêntico ao das hierarquias
institucionais. Trata-se, ao contrário, de um sistema que contém diversos
“planos de organização social”, constituindo distintos princípios de
diferenciação que geram posições de maior ou menor distância relativamente ao
centro (o patrão). Alguns problemas importantes podem ser derivados da análise
de conjunto da dinâmica desta forma de dominação: o da natureza dos bens e
serviços trocados, o das categorias construídas para descrever as relações, o
dos procedimentos e estratégias nelas implicados, o das articulações entre os
distintos princípios diferenciadores, o das várias posições de intermediação e
o das possibilidades de conflito e competição entre os seus ocupantes
individuais.
Em segundo lugar, foi também possível
avançar na compreensão do significado do “peronismo” para esses trabalhadores e
dos modos concretos através dos quais eles passaram, a partir de então, a
integrar o sistema político (42). São especialmente importantes as
hipóteses e linhas de trabalho que consideram o tipo particular de mediação das
relações entre os operários, o Estado e o general Perón exercida pela
organização sindical. Dessa análise decorre, primeiro, uma imagem das funções
do sindicato que excede as de mediação de questões trabalhistas e avança para o
espaço da política nacional, e, segundo, uma imagem da organização sindical que
ultrapassa o discurso de seus integrantes, mostrando a importância de se
perceber, também neste caso, que complexos de relações pessoalizadas se
reproduzem no interior da própria organização sindical, sobrepostos aos
vínculos institucionais. Observando esse conjunto de relações - bem como as
trocas de favores e lealdades nele implícitas - podemos compreender melhor as
conseqüências das posições específicas de intermediação ocupadas por alguns
sindicalistas: a partir do campo propriamente sindical, eles são projetados
para o terreno da política, dadas as semelhanças que, no peronismo, a
organização sindical mantém com as “máquinas políticas”.
A “desnaturalização” das identificações e
homologias através do estudo das diferenças entre os complexos de relações
sociais permitiu que nos voltássemos sobre as representações dos sujeitos para
tentar compreendê-las. Pôde-se ver que, nessas representações, as
identificações não alcançam a totalidade das relações e que as homologias
também possuem limites: por exemplo, as relações com Perón jamais são
concebidas em termos de “ajuda em caso de necessidade”, como o são certas
relações com o patrão, enquanto que, em ambos os casos, a categoria “benefício”
é. central para conceituar alguns bens coletivos e para designar os mecanismos
através dos quais eles são recebidos.
Uma vez analisado cada um dos complexos
de relações sociais e discutidos os alcances “reais” das homologias entre eles,
foi possível voltar ao problema das identificações construídas nas
representações dos sujeitos sociais, para observar o conjunto das
relações de que eles participam; tanto as que remetem à forma de dominação
reproduzida na “fábrica com vila operária”, quanto as que aludem ao sistema
político no plano nacional, analisando-se, particularmente, as articulações
entre elas. A partir daí foi possível indicar o lugar específico ocupado pela
organização sindical e, dentro desta, o de alguns sindicalistas que exercem
posições particulares de intermediação. Pôde-se observar não só que o sindicato
desempenha uma função mediadora em ambos os casos, mas que os resultados
obtidos no exercício dessa atividade em um complexo refletem-se nos resultados
de sua ação no outro.
Dentro desta perspectiva que agrega à
análise dos alcances das homologias e das diferenças as articulações entre
os dois complexos; é possível entender o significado da convivência dos
retratos de Perón e do patrão na sede do sindicato da vila operária de Loma
Negra. Essa convivência encerra muito mais do que uma simples expressão de
reconhecimento dos trabalhadores aos dois personagens. Ela pode ser vista como
0 resultado da particular posição ocupada pelo sindicato local - e, em seu
interior, alguns sindicalistas - como ponto de imbricação entre os dois
complexos de relações sociais e que, por isso mesmo, leva-o a estar
especialmente “interessado” no reforço da homologia (43).
Recebido para publicação em maio de 1990.
A versão original
deste texto foi apresentada ao curso sobre patronagem e política, oferecido
pelo Prof. Moacir Palmeira, no segundo semestre de 1989, no Programa de
Pós-Graduação em Antropologia Social - Museu Nacional-UFRJ. Agradeço ao prof .
Palmeira e aos colegas de curso por seus comentários e sugestões. Agradeço
também o apoio da Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research.
Notas
* Federico G. Neiburg
é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu
Nacional da UFRJ.
1 - Leite Lopes (1979,
pp. 41-3 e 57-63) fala, neste sentido, de um tipo de “dependência completa” dos
tra balhadores em relação ao poder da fábrica.
2
- Sobre o “processo de dissolução” do sistema de “fábrica com vila operária”,
ver Leite Lopes. (1988, Introdução). Sobre o caso de. Loma Negra, ver Neiburg
(1988, pp. 109 e segs.)
3 - Alfredo Fortabat
possui uma das “maiores fortunas” da Argentina. É proprietário, entre outras
coisas, de cinco fábricas de cimento e de mais de 40.000 ha. de excelentes
terras somente na província de Buenos Aires. A fábrica de cimento de Loma
Negra, estudada neste artigo, ocupa um lugar privilegiado na história do
“conglomerado empresarial”. Esta foi a primeira fábrica do grupo, fundada por
Luciano Fortabat, pai de Alfredo Fortabat, no lugar onde este último nasceu e
viveu sua infância.
4
- A “mansão” da fazenda, na qual “don” Alfredo costumava passar longas
temporadas e muitos fins de semana, situa-se a 2 km da fábrica.
5 - O
sindicato local, que exibe uma taxa próxima de 100% de associados, encontra-se
integrado no plano nacional à poderosa Asociación Obrera de Mineros Argentinos
AOMA), que, por sua vez, integra a CGT. As únicas paralisações de atividades
registradas em LomaNegra, desde a fundação do sindicato, foram aquelas
decretadas pela associação nacional ou pela própria CGT, originadas sempre de
problemas de caráter nacional.
6 - A manutenção de um
“clima comunitário” possuía para o patrão um significado particular, pois a
fábrica de Loma Negra-Olavarría é o símbolo do grupo econômico - o lugar de
“sua origem”. O conhecimento no plano nacional do que ali acontecia
transforma-a em um “exemplo”, e o seu patrão em um modelo de “industrial
nacional com sensibilidade social”.
7 - Assim,
ambas as figuras apareciam associadas a qualidades de generosidade pessoal, de
sensibilidade social, juntamente com histórias de vida nas quais comumente eram
realçados elementos comuns: suas idades, a data aproximada da morte de ambos,
sem deixar descendência, e tendo-se casado três vezes cada um. Os relatos de
amizade pessoal entre ambos con tam, por exemplo, que “don” Alfredo chegou a
ter “trânsito livre na Casa Rosada” (o palácio de governo em Buenos Aires).
8
- Nesta perspectiva, como bem mostra Landé, as relações pessoais
particularistas, as alianças diádicas, possuem em seus termos um estatuto
legítimo como objeto sociológico, que exige, para dar inteligibilidade â importantes aspectos da vida social, ser colocado no foco da análise, e
não ser tomado como um aspecto “secundário”, “intersticial”, etc. (Landé,
1977a). No decorrer deste artigo, utilizar-se-ão as relações entre objetivos e
demandas categoriais ou particularistas no sentido proposto por Landé em sua
discussão com Almond, ao questionar o “processo de conversão” das demandas
particularistas em categoria, postulando, em troca, a possibilidade de que, “em
determinadas condições”, se mantenha a existência de objetivos cujo “melhor
modo” de serem satisfeitos continuam sendo as relações particularistas (Landé,
1977b, p. 87).
9 - A maior parte dos
trabalhadores era contratada através de convênios com embaixadas, diretamente
no porto de Buenos Aires ou, mais geralmente, ,através de contatos com outros
trabalhadores, familiares ou amigos, que já eram empregados da companhia. A
partir da segunda geração, registra-se uma taxa de má3s de 70% de operários
filhos de antigos trabalhadores.
10 - Leite Lopes
enfatiza que o significado do controle por parte da companhia sobre a moradia,
nesses casos, indica que “não é só a habitação, nem uma casa, o que está em
jogo, mas toda uma série de recursos acessórios à moradia e essenciais à
reprodução dos trabalhadores, que são objeto de controle da administração da
fábrica (...) e que podem transformar-se em objeto de preço, de racionamento ou
de diferenciação entre os operários, favorecidos ou não com alguns recursos ou
objeto de alguma pressão a ser exercida em caso de conflito” (Leite Lopes,
1979, pp. 57-58). Leite Lopes qualifica a situação na qual se encontram
envolvidos os trabalhadores como a de uma “paradoxal servidão burguesa”, com
o que, de alguma maneira, sugere a convivência de uma relação “institucional”.
Esta opõe duas categorias através de um contrato (empresa e trabalhadores), mas
em uma situação tal que favorece a emergência de relações particularistas entre
os trabalhadores e representantes da empresa. Scott indica que o poder de
negociação dos clientes depende de “fatores estruturais% como a falta de
alternativas para obter determinados recursos, a escassez de outras fontes de
emprego etc., o que também reforça, a idéia de extrema subordinação dos
trabalhadores nesses casos (Scott, 1977, p. 35).
11 - Neste artigo o
conceito de “aliança didática” e as relações entre estas e “relações
institucionais” seguem em termos gerais a proposta de Landé (1977a).
12 - O foco de nossa
atenção está colocado sobre as relações entre a empresa e os trabalhadores, o
que supôe observar especialmente a estruturação de alianças diádicas em termos “verticais”.
As alianças diádicas “horizontais” - nas quais a relação é de amizade, de
vizinhança, de parentesco - somente serão consideradas na medida em que levem à
compreensão de aspectos das relações entre empresa e trabalhadores.
13
- A Sociedade de Fomento é uma organização cuja função é representar os
habitantes da vila operária, “promovendo o desenvolvimento do povoado”. Em Loma
Negra, a instituição surgiu como iniciativa da empresa, quando esta começou a
desligar-se de suas responsabilidades a respeito da vila.
14
- Ainda que se referindo a “objetivos eleitorais”, Mayer oferece uma definição
interessante de action sets, posto que inclui (1) “diversas bases” (de
parentesco, de religião, partidárias, trabalhistas etc.); (2) não estão
necessariamente baseados no fato de pertencer a um mesmo grupo; (3) são
utilizados analiticamente para descrever pautas de relações e combinações de
vínculos em torno de um ego; (4) não são entidades com fronteiras
definidas; e (5) não são enti cl ades permanentes (Mayer, 1977, pp. 48-49).
15
- Boissevain estabelece distinções interessantes em relação às diferentes
possibilidades que, na procura de determinados bens ou serviços, se podem
estabelecer através de combinações de movimentos no sentido “vertical” e
“horizontal” (Boissevain, 1966, pp. 25-29). 16 - O uso do termo “patrão”
refere-se tanto a Alfredo Fortabat como a sua esposa, Amália, sem incluir
distinções mais sutis entre os conteúdos das referências a uru e outro. Alguns
elementos neste sentido estão em Neiburg (1988, pp. 135-139 e 164-173).
17 - A idéia de que o
outorgante é sempre o patrão poderia permitir-nos observar as estratégias que
se estruturam em função da sua presença ou não, da oportunidade de que ele
“fique sabendo” do pedido etc., em termos de “crença”, seguindo algumas das
interessantes idéias de Stirling que, ao refletir sobre o lugar da “crença” nos
sistemas de “moralidade pessoal”, estabelece comparações com o caso da crença
na bruxaria (Stirling, 1968, pp. 53-54).
18 - Excede às
possibilidades deste artigo a importante tarefa de “mapear” o conjunto de
princípios que operam na estruturação deste “sistema de estratificação”, que
estão ligados tanto a posições no interior de instituições e de hierarquias
institucionais (dentre as quais a hierarquia da fábrica é apenas uma delas),
como a princípios que não encerram referências a relações institucionais.
Igualmente, não tratamos aqui com detalhe do importante problema das relações
de conflito e de competição entre os indivíduos que ocupam posições de
intermediação em cada um dos “planos de organização social”, dos quais decorrem
os princípios diferenciadores.
19
- Neste nível podem-se estabelecer interessantes analogias entre “a situação do
patrão no centro da grande família de Loma Negra” e a “situação do rei no
centro da sociedade cortesã”, descrita por N. Elias (1985, cap. IV). Nos dois
casos, o volume de capital de relações sociais de cada indivíduo e a maior ou
menor proximidade com respeito ao centro funcionam como um princípio operador
de distinções e diferenças sociais, dado que tanto o rei como o patrão ocupam o
lugar central em suas respectivas “formações sociais”, vistas como “sua casa”:
a sociedade francesa e os domínios do patrão sobre a fábrica e a vila operária.
Além das analogias, não se deve perder de vista as diferenças que, em termos da
evolução de cada formação, se tornam mais agudas a partir do momento em que o
“poder absoluto” do patrão tende a “dissolver-se” junto com o próprio “sistema
de fábrica com vila operária”. A diferença maior, no entanto, surge do fato de
que a este princípio diferenciador somavam-se outros em Loma Negra. Fora o fato
de que o mais importante princípio diferenciador derive-se do caráter
contratual da relação de cada indivíduo com a empresa e da posição que cada um
ocupa na sua hierarquia, pode-se supor a existência de outros: os que decorrem
das relações dos indivíduos com diversas instituições, como o sindicato ou a
prefeitura que têm posições de mediação . para “fora” da comunidade; os que
derivam das origens nacionais, da escolaridade etc. Para apresentar uma análise
mais completa do “sistema de estratificação” em Loma Negra se deveria não s6
mapear estes princípios (no sentido da nota 18), mas também observar suas
articulações. É o que, de alguma maneira, propõe Davis com seu conceito de
“estratificação” e, de modo distinto, Geertz com relação à idéia de “planos de
organização social” (ver Davis, 1977, e Geertz, 1967).
20
- A história do “seu” Martinez é particularmente interessante, porque depois de
passar a ser o garçom de “don” Alfredo, não deixou de trabalhar na seção de
ensacamento de cimento, um dos postos mais árduos da fábrica, rejeitando postos
melhores ou . passar a capataz. Sendo um “simples operário” do ensacamento,
“seu” Martinez ocupou durante muitos anos uma posição extremamente desigual com
respeito a seus pares; indivíduos que lhe eram hierarquicamente superiores
deviam “respeitá-lo” e “tratá-lo bem”, como ele próprio declara. Por outro
lado, a posição de privilégio do “seu” Martinez é visível na situação atual de
seus filhos (“todos bem empregados na companhia”) e de sua casa, instalada na
rua principal da Vila junto às casas de muitos capatazes.
21 - Davis afirma que
a “aceitação da submissão por parte do fraco” e de uma postura de “deferência”
com respeito ao poderoso para obter recursos constitui um dos elementos que
permitem definir o sistema de patronagem que, em seu trabalho sobre a sociedade
mediterrânea, constitui um dos componentes daquele “sistema de estratificação”
(Davis, 1977, pp. 132-33).
22
- “É que, de fato, o intercâmbio não traz um resultado tangível como acontece
com as transações comerciais que têm lugar em nossa sociedade. O proveito que
se tira não é nem direto nem inerente às coisas trocadas (. . .) As mercadorias
são não só bens econômicos como também veículos e instrumentos de realidades de
outra ordem: potência, poder, simpatia, status, emoção; e o jogo sábio dos
intercâmbios (. . .) consiste em um complexo conjunto de manobras, conscientes
e inconscientes, para ganhar segurança e precaver-se contra riscos no duplo
terreno das alianças e das rivalidades” (Lévi-Strauss, 1981, p. 98). Bailey
refere-se à “hostilidade” embutida nas categorias e ao caráter relativo às
posições das mesmas (Bailey, 1971, pp. 241-46).
23 - Para análise de alguns elementos dos
diferentes sentidos do intercâmbio e a dimensão de conflito embutida nas
categorias ver Neiburg (1988, pp. 163-173).
24
- Esse progressivo aumento no volume de recursos diferentes controlados pelo
sindicato pode ser considerado como parte do processo de dissolução do sistema
de “fábrica com vila operária”. É um processo que pode ser visto, ao mesmo
tempo, como de “desligamento” por parte da companhia em relação a suas antigas
responsabilidades, uma vez que estas já não são rentáveis, e como de competição
entre a companhia e o sindicato para a manutenção de margens de controle sobre
alguns recursos (Neiburg, 1988, pp. 109-117).
25 - Independentemente
de que mais adiante se voltará sobre este ponto, é bom adiantar que neste
sentido podem-se analisar os diversos mecanismos através dos quais uma das
dimensões da mediação sindical supõe um processo de transformação de demandas
“categoriais” em alocação de recursos de modo “particularista”. Nos termos
usados por Landé, aqui também haveria superposição de “alianças diádicas” sobre
“relações institucionais” (ver a idéia de “diades intragrupais” em Landé,
1977a, p. 36).
26
- Em outro nível, a idéia de “grande família de Loma Negra” é também construída
pela empresa para ressaltar sua especial “preocupação e sensibilidade social”
(que inclusive se manifesta na existência de uma Fundación de Ayuda Social), o
que constitui uma expressão da “marca” pessoal do patrão, de seu “estilo de
gestão”. O discurso da empresa esforça-se, desta maneira, por mostrar que sua
união com os trabalhadores vai mais além da relação contratual.
27 - AC: Atas de
reuniões da Comissão Diretora do Sindicato, seguido da data correspondente.
28 - Boletim Interno, Loma Negra, maio de 1961.
29
- Obviamente que a estas demonstrações de riqueza, de “desprendimento” e de
“generosidade” por parte do patrão corresponde um tipo especial de retribuição
por parte dos beneficiados. Gouldner afirma que a recepção de uma dádiva
aparentemente livre, contendo a idéia de que o benfeitor está “dando algo em
troca de nada”, é o que gera as “maiores dependências” e “cadeias”. A “norma de
benefício” própria das elites encerra um paradoxo, já que elas, “como todos os
estratos dominantes, exploram e extraem em troca de nada. Mas o que as
transforma de estratos meramente poderosos em elites legítimas, em síntese, o
que transforma sua dominação em hegemonia, é que podem doar e, às vezes o fazem
em troca de nada” (Gouldner, 1979, pp. 256-262). Em um sentido similar, Bourdieu
refere-se à “dominação doce” que, estruturada sobre a base da linguagem da
dádiva - “cujo limite é o potlach” -, supõe operações de “alquimia social” que
tendem a transformar o “capital econômico” em “capital simbólico” (Bourdieu,
1976, p. 128).
30
- Passando a ser relativamente freqüentes as audiências pessoais concedidas
pelo próprio patrão à organização sindical; nelas os integrantes da Comissão
Diretora podem exercer uma das atribuições de sua posição de mediadores: a de
falar com o patrão, só que agora, diferente do “falar” da seção anterior,
trata-se de negociar benefícios coletivos.
31
- O sindicato de Loma Negra possui na CGT regional um reconhecido peso que se
deriva não só de seu número de associados, mas também do fato de que está em
condições de prestar serviços especializados a sócios de outras delegacias
(serviços médicos, locais para festas etc.), ocupando, em muitos períodos,
cargos de importância na CGT regional e em delegacias de nível nacional.
32
- Por “bom desempenho” da organização sindical no complexo de relações sociais
descrito no quadro entende-se: (1) quanto à relação com a empresa “personificada”
na figura do patrão, a obtenção do máximo volume de recursos financeiros e
materiais em geral, e (2) a “lealdade” por parte dos associados erre
conseqüência da distribuição dos recursos. “Recursos” e “lealdades” passariam a
desempenhar o papel de “espécies de capital” -que a organização sindical e
alguns dirigentes estão em condições de “extrair” de Loma Negra e de “jogar”,
através do campo sindical, na esfera da política nacional, particularmente em
relação ao Estado. Não é necessário esclarecer que, dados os limites deste
artigo, torna-se impossível realizar maiores diferenciações ou sustentar esta
linha de análise com mais material etnográfico.
33
- Na história do movimento operário argentino deste período existe um
verdadeiro “vazio de conhecimento”, já que só são identificadas as linhas mais
gerais do processo. Quanto às organizações sindicais comunistas, sabe-se que
algumas, como a FONC, possuíam um importante grau de organização nacional e um
elevado número de associados (aproximadamente 30 mil, segundo fontes de
Matsushita, 1983, p. 162). DeI Campo destaca a greve que, em 1935, foi
promovida pelo Sindicato de Obreros Albafiiles, do Cemento Armado y Anexos que,
durante 96 dias, envolveu a participação de 60 mil trabalhadores (Del Campo,
1983, pp. 96-97). Este “poderio” relativo do Partido Comunista no movimento
operário vai acabar com a ascensão do peronismo. A literatura parece considerar
a “dissolução” do comunismo como resultado de um processo que combinou uma
“política errada” de enfrentamento a Perón com sua resposta na forma de
repressão e do seu plano de reformas sociais. Mas, além da descrição do
processo geral, pouco se sabe. Parece acontecer com muitos historiadores e
sociólogos algo semelhante ao que ocorre com aqueles que, em Loma Negra, falam
da história do sindicalismo na localidade: parece ter “começado em 1945”, com
Perón, e se “antes” houve “algo”, só é lembrado por oposição. Além disso, o
“processo natural” para uma parte dos cientistas sociais também parece ter sido
o da “diluição” do sindicalismo anterior, que só poucas vezes é por eles
“lembrado”.
34
- É, nessa época, que se cria na empresa o Departamento de Pessoal, encarregado
de conduzir as relações com os trabalhadores e, particularmente, com o
sindicato.
35 - Os contratos
entre a comissão diretora e o patrão não só sezão cada vez mais freqüentes mas
também irão revelando a imposição de um “novo estilo” de relações, que se
tornará claro no início da década seguinte: se “explicará a ‘don’ Alfredo
Fortabat a necessidade de contar com uma escola”, se “expressará agradecimento
pela doação do local da organização”, se “apresentará um anteprojeto de centro
de convivência social e armazém para que seja estudado por ‘don’ Fortabat”, se
demonstrará “gratidão pela doação da sede social” e se informará aos sócios que
“na reunião com ‘don’ Fortabat ele nos disse que os materiais nos custariam o mesmo
que o terreno, pelo qual compreendemos que nos seriam doados” (AC: 4-12-53;
13-3-53; 31-4-53):
36 - Independentemente
da anedota, deva-se ressaltar que a aproximação entre Fortabat e o governo
peronista é um fato reconhecido nacionalmente. Fortabat era apontado como
exemplo entre os “industriais nácionais” nos quais o governo buscava apoio para
o projeto de desenvolvimento econômico peronista. Anos depois, a sra. Amália
Fortabat chegou a. ser indicada para integrar uma chapa eleitoral pelo partido
peronista.
37 - A integração
formal à Federación Argentina de Obreros y Empleados de la Indústria del
Cemento y Anexos, filiada à CGT, realizou-se em, dezembro de 1946 (AC:
13-12-46).
38
- Para maior profundidade, este artigo deveria analisar o alcance das diferenças
nas representações dos trabalhadores a respeito de suas relações com o Estado
e com Perón. As relações e os
modos de representá-las mudarão, seguramente, segundo se trate de períodos nos
quais Perón estava no governo, “personificando o Estado”, ou aqueles nos quais
Perón estava fora do governo. Neste sentido, talvez fosse possível compreender
melhor a freqüente referência encontrada na literatura das ciências sociais
sobre as intenções permanentes do movimento sindical de “reproduzir”, junto ao Estado,
os modelos de relações estabelecidos nos governos peronistas. Também neste
sentido, seria possível aprofundar a análise de um processo que comumente se
simplifica com referência à “busca de tutela” por parte das organizações
gremiais em relação ao Estado, “tutela”, tanto na arena política como nas
negociações operário-patronais” (Ver, por exemplo, Cavarozzi, 1984, p. 203).
39
- Sobre a idéia de “máquina política” ver Scott (1969). Diferentemente das
“máquinas políticas” analisadas por ele, em nosso caso o sindicato não só
distribui benefícios doados pelo líder, ou provenientes do Estado, como também
benefícios provenientes de sua relação com o patrão e com a companhia.
40
- Ver, a respeito, Powel (1977) e Graziano (1977). A interpretação “clássica” sobre
as origens do peronismo formulada por Gino Germani compartilha diversos
aspectos com as idéias destes autores em relação ao processo de integração das
massas ao sistema político (Ver, Germani, 1968).
41
- Essas observações acompanham as idéias expostas neste sentido por Landé
(1977a, pp. 30-31). De modo similar, Davis (1977, pp. 148-49) critica os
trabalhos que, como o de Boissevain, ao estudarem as “bases ideológicas da
patronagem”, estabelecem homologias entre patronagem política e patronagem dos santos.
Davis critica o fato de que procedimentos como o de Boissevain escurecem as
discrepâncias entre os dois sistemas e conduzem a “vacuidades” na análise do
sistema político que a própria homologia serve para evitar. Mais grave ainda é,
como deixa transparecer também Boissevain, tomar as relações de homologia entre
os dois sistemas como relações de causalidade (Ver Boissevain, 1977).
42
- Isso não quer dizer que “antes” estavam “fora” do sistema político, como
algumas das teorias sobre o processo de “integração” das massas ao sistema
político deixam transparecer, desde o momento em que não problematizam a
relação com o sistema político “antes da integração”.
43
- Ao observarmos a existênc