ENTRE PERON E O PATRÃO:

Reflexões sobre o alcance da homologia

 

Federico G. Neiburg 

 

Introdução

Loma Negra é um pequeno povoado da zona central da província de Buenos Aires, situada numa região rica em atividades agropecuárias e industriais. Começou como a “vila operária” de uma fábrica de cimento que lhe deu o nome: seus habitantes trabalhavam na empresa e alugavam ou recebiam dela, por “doação”, suas moradas. Logo tornou-se uma cidadezinha de cerca de 4 mil habitantes e, hoje, é um “bairro distante” da cidade de Olavarría, o centro administrativo mais importante de toda região. 

Fundada no início do século em uma região que era, na época, escassamente povoada, Loma Negra tornou-se um pólo de atração de força de trabalho, constituindo um mercado de trabalho centrado nas necessidades da fábrica, que incorporou, em especial, os imigrantes portugueses, espanhóis e italianos recém-chegados ao país. Para os trabalhadores, a ligação que se estabeleceu entre eles e a empresa configurava uma “situação de dependência” particular (1), dado que estavam em jogo não só a “estabilidade no emprego” como o conjunto de suas condições de reprodução - a possibilidade de acesso a uma casa e aos serviços controlados pela fábrica. Loma Negra tornou-se, assim, um povoado de operários, uma “cidade do trabalho”, cuja vida, até hoje, parece girar em torno da fábrica de cimento. 

Essa situação inicial de “dependência” apresenta, atualmente, algumas importantes modificações. De um lado, a emergência de uma organização sindical, durante a década de 40, criou um novo elemento de mediação entre os moradores e operários de Loma Negra e a empresa, ao mesmo tempo que incorporou os trabalhadores às estruturas sindicais nacionais. De outro, ocorreu um processo de autonomização da “vila operária” em virtude de dois fatores: a integração de Loma Negra a um mercado regional de trabalho - devido à instalação de novas indústrias e à expansão da rede de comunicações -, e a venda de casas e terrenos de propriedade da empresa a partir dos anos 60 (2).

Essas modificações não alteraram, porém, de todo, a situação de “dependência” dos trabalhadores em relação à fábrica que, ainda hoje, penetra na “esfera de reprodução” destes e de suas famílias. Configura-se, portanto, um modelo de relações sociais que exige problematizar a imagem dos trabalhadores como “proletários típicos”, ligados à fábrica exclusivamente pelo vínculo do contrato de trabalho em troca de um salário. Ao contrário, a “situação de dependência” e o controle da empresa sobre as vidas dos operários e de suas famílias, além dos limites da fábrica e da jornada de trabalho, criam outros tipos de vínculos: os das relações pessoais, dos laços particularistas entre as famílias de operários e os ocupantes de cargos superiores na hierarquia da empresa e, especialmente, as relações com o “patrão” - o fundador e o proprietário da fábrica, dono dos terrenos nos quais se instalou a “vila operária” que, ainda hoje, leva seu nome, Villa Alfredo Fortabat (3)

Em trabalho anterior realizado no mesmo povoado (Neiburg, 1988), chamamos a atenção para o fato de que não bastava observar as relações entre a categoria dos trabalhadores e a companhia para compreender essa forma de dominação; deviam-se considerar, também, as outras relações que, por meio de vínculos pessoais, levavam cada operário e sua família até os ocupantes de postos superiores na hierarquia da empresa e, em especial, ao patrão. Era através desses vínculos pessoais que se obtinham benefícios particulares: desde assuntos referentes ao trabalho (admissão de filhos ou parentes próximos, transferências de seção ou de categoria ocupacional etc.) até aspectos relacionados à moradia (acesso à casa ou permissão para fazer obras de ampliação, aquisição de material de construção) e à saúde (tratamentomédico em casos de doença ou de acidentes no trabalho). O patrão aparecia no centro desse universo de relações pessoais que incluía, ainda, alguns intermediários para se chegar até ele. Nesse nível de análise, os trabalhadores não se relacionavam propriamente com uma empresa, vista como uma sociedade anônima. Ao contrário, a face da empresa, seu modelo de gestão, os modos concretos através dos quais ela dominava a esfera de reprodução dos trabalhadores - satisfazendo, ao mesmo tempo, necessidades específicas das famílias - tendiam a assumir as próprias qualidades pessoais do patrão: “uma pessoa direita e rígida, mas generosa” que, até sua morte, em 1976, era vista regularmente nas instalações da fábrica e que fazia freqüentemente passeios pelas ruas da vila, “encontrando cada um e chamando-o pelo nome e sobrenome” (4). Disso decorria o particular “clima moral” da comunidade, sua imagem de uma grande família que reconhece no patrão uma pessoa que impõe um tom marcadamente “paternalista” a suas relações com os trabalhadores e suas famílias. Era ele que outorgava benefícios coletivos à comunidade (escolas, igrejas, clínicas etc.), acudia algumas famílias em casos de necessidade e fornecia diferentes tipos de bens e serviços por meio de relações interpessoais fundadas em distintos níveis de conhecimento mútuo. As fotografias do patrão (e de sua mulher, a “patroa”) que muitos operários exibiam nas paredes de suas casas, nas quais os “patrões” apareciam ao lado de algum integrante da família operária, simbolizavam e testemunhavam a relação “especial” que os unia. 

A imagem de grande família era particularmente invocada pelos operários para fazer referência às qualidades “generosas” do patrão e às possibilidades de usufruir dos benefícios, ajudas e favores delas derivadas. Essa mesma imagem era também enfaticamente invocada pela empresa para fazer referência ao clima cordial em que ali se desenvolviam as relações de trabalho. De fato, desde 1948, quando se consolida definitivamente a presença do sindicato que até hoje funciona, não se deu qualquer conflito trabalhista em Loma Negra (5)

A categoria grande família expressava as duas faces de uma relação especial: em troca dos benefícios e ajudas recebidos do patrão e da empresa, a retribuição dos trabalhadores implicava um tipo particular de lealdade que contribuía para a formação do “clima moral” das relações sociais em Loma Negra. A dominância desta dimensão das relações sociais como veículo para obtenção de recursos e como canal de resolução de conflitos particulares expressava, em cada um dos casos, situações e capacidades específicas de negociação dos trabalhadores e de suas famílias (6).

Esse universo de relações pessoais continha uma linguagem própria. Muitas categorias que serviam para designar propriedades da grande família e para descrever as relações mantidas com o patrão, ou com os diversos intermediários, tais como favor, ajuda e especialmente benefício, eram também utilizadas pelos operários para representar as relações que haviam estabelecido com o Estado “personificado” na figura do general Perón durante seus primeiros anos de governo (1945-1955). A essa utilização de categorias iguais para descrever as duas relações somava-se a associação de determinadas categorias ao recebimento de determinados bens ou benefícios - por exemplo, melhores condições de trabalho - que pareciam ter, também, uma “dupla origem”: ora apareciam como resultantes de atos de “generosidade” do patrão, ora como benesses de Perón. Finalmente, alguns relatos permitiram observar identificações feitas entre as duas figuras em relação às suas qualidades pessoais, às suas histórias de vida e, inclusive, a um certo relacionamento pessoal de “amizade” entre Perón e o patrão (7)

No discurso dos trabalhadores, essas identificações reforçavam-se quando se fazia referência ao período de ascensão de Perón à Presidência da República e aos seus primeiros anos de governo. Foi nesse período que se criou, em Loma Negra, uma nova organização sindical de filiação “peronista”. Esta organização seria, mais tarde, considerada “o maior benefício” outorgado por Perón aos trabalhadores. A nova organização sindical proclamou imediatamente sua lealdade ao general - na época secretário (ministro) do Trabalho e Previdência Social - e acabou por deslocar o sindicato de filiação comunista que, até então, nucleava uma parte dos operários da fábrica. A emergência desse novo sindicato peronista é particularmente significativa em dois sentidos: de um lado, implicou o surgimento de uma nova instância, apoiada pelo governo, incumbida de intermediar as relações entre os trabalhadores e a companhia - personificada na figura do patrão. De outro, levou ao aparecimento de uma instituição destinada a transformar-se em canal “oficial” de mediação das relações entre os trabalhadores e o Estado - personificado este na figura do novo líder, o general Perón. 

O objetivo deste artigo é formular algumas hipóteses que permitam utilizar como instrumento analítico as identificações e homologia estabelecidas pelos operários e moradores de Loma Negra entre os modos de representar suas relações com a companhia e o patrão e os modos de representar e descrever suas relações com o Estado e com a figura do general Perón.

Transformar tais homologias e identificações em instrumento analítico supõe, como primeiro passo, desnaturalizá-las e, em seguida, estudar a especificidade de cada relação através da análise de suas diferenças e a consideração de suas articulações e possíveis imbricações. Trata-se de pensar, simultaneamente, os alcances das homologias, diferenças e articulações entre as duas dimensões das relações em que estão imersos os operários e moradores de Loma Negra e seus modos de representá-las. Dessa maneira será possível compreender, em um sentido mais profundo; o significado do processo de construção social que envolve os modos de representar essas relações. 

As duas primeiras seções do artigo analisam as relações entre os trabalhadores e habitantes de Loma Negra e a empresa, tentando mapear seus diferentes canais, os alcances e os significados das alternativas de intermediação, os bens e serviços intercambiados e os modos como as relações são representadas. Essa análise é reproduzida na terceira seção para dar conta das relações estabelecidas com o Estado e com Perón, com ênfase especial na posição da organização sindical. Finalmente, na última seção, formula-se uma breve conclusão sobre o alcance das diferenças, homologias e articulações entre as duas dimensões das relações sociais. 


Favores e ajudas: um universo centralizado de relações pessoais

Boa parte da bibliografia que discute o problema das relações pessoais, das alianças diádicas, das relações do tipo patrão-cliente, tende a pensá-las como expressão de um certo sens pratique. Ora se afirma que essas relações correspondem a um ethos, ou conhecimento particular, indicativo de que indivíduos submetidos a condições específicas “otimizam as relações com os outros” para obter determinados recursos e satisfazer determinadas necessidades (Gellner, 1977, p. 3). Ora se ressalta a “insuficiência” tanto das alianças diádicas quanto das relações institucionais para satisfazer necessidades particulares sob determinadas condições sociais (Landé, 1977a, p. 18); ou, ainda, se argumenta que, “em circunstâncias sociais específicas”, a “estratégia” dos dominados consiste em recriar junto aos dominadores “equivalentes funcionais de redes de relações sociais tradicionais” (Bourdieu, 1976, p. 124). Nesta perspectiva assume-se que, “sob condições específicas”, mesmo no contexto de relações institucionais que aproximam um conjunto de indivíduos de uma mesma “categoria” (por exemplo, os vendedores de força de trabalho a uma empresa), certas necessidades individuais são melhor satisfeitas de modo “particularístico” do que “categorial” (8)

Nos termos estritamente contratuais estabelecidos entre a empresa e seus trabalhadores, estipulava-se uma relação peia qual, em troca do trabalho, a companhia fornecia salário e moradia (um lugar no “galpão dos solteiros” ou uma casa, no caso dos operários com família). A situação dos trabalhadores era de extrema dependência e precariedade: precisavam da empresa para o salário e a moradia e, dadas as condições de relativo isolamento do povoado, os meios alternativos de obtenção desses recursos eram poucos, difíceis e inclusive arriscados - em sua maior parte, os operários eram imigrantes europeus de primeira geração que, ao serem contratados, estavam em uma situação de grande fragilidade (9). Essas características tornavam muito desfavorável a posição dos trabalhadores em relação à empresa, reduzindo seu poder de barganha (10)

Essas condições de desigualdade é que devem ser consideradas como pano de fundo para o desenvolvimento de relações particularistas: os “favores” pessoais e os mecanismos de ajuda permitiam “compensar” a precariedade. As relações pessoais, a constituição de “alianças diádicas” (11), tanto em linha “horizontal” (por meio dos mecanismos de ajuda mútua e de troca de favores entre os operários), como em linha “vertical” (do tipo patrão-cliente) devem ser entendidas, portanto, como a outra face da precariedade, como um modo de equilibrar a relação desigual (12).

Apresentamos, a seguir, dois relatos nos quais os trabalhadores e habitantes de Loma Negra fazem referência ao tipo de procedimentos de obtenção de determinados bens e serviços. 

Francisco de Souza é um imigrante português que chegou à Argentina, em 1933, para trabalhar em Loma Negra. Hoje ele tem cinco filhos (três mulheres e dois homens), quatro dos quais trabalham diretamente para a companhia, bem como um de seus genros. Ele conta que chegou a Loma Negra através de um primo que já trabalhava na fábrica e que “falou com o chefe da seção de pedreira de granito”, conseguindo, assim, ser também contratado. Da mesma maneira, “seu” Francisco, anos depois, conseguiu “colocação” para dois de seus filhos e um genro: “foi graças a mim, que consegui falar com aquele capataz com quem meu primo tinha falado da outra vez, que eu consegui trabalho pra esses dois”. A contratação de um outro filho pela Sociedade de Fomento da Vila Operária (13) foi “arranjada” pelo próprio rapaz, quando este já era empregado da companhia, falando com seu chefe de seção, o qual, por sua vez, falou com o chefe de pessoal que falou com o presidente da Sociedade de Fomento. O ingresso de uma filha de “seu” Francisco como empregada de limpeza do setor administrativo da fábrica foi conseguido, também, por meio de relações com o chefe de pessoal: “com certeza ele interveio aí”, diz a mulher de “seu” Francisco. “Porque ele já nos conhece e sabe que somos gente direita”. 

“Seu” Francisco narra também que “naquela época conheceu ‘don’ Alfredo Fortabat” e que toda vez que encontrava o patrão na fábrica e na vila operária, este dirigia-se a ele cumprimentando-o pessoalmente. Numa dessas ocasiões, o patrão perguntou-lhe sobre a família; “seu” Francisco contou-lhe que sua mulher estava esperando o terceiro filho e que, por isso, ele queria construir mais um quarto em sua casa. Aproveitou, então, para dizer ao patrão que o chefe de pessoal (encarregado de autorizar a ampliação) exigira-lhe “um projeto de arquiteto”; mas que “era só para fazer um quarto a mais” e que “seu filho ia nascer e não tinha mais espaço”. O patrão respondeu que o “senhor Martini (o chefe de pessoal) deve estar maluco”, que ele (o patrão) “me conhecia e que sabia que eu não ia fazer nada, fora das regras ou mais do que devia”. “Então, ele me disse: ‘eu falo com ele para que ele deixe de chatear; não se preocupe e mande lembranças à sua esposa’; assim era ‘don’ Alfredo”. Quando, meses depois, “seu” Francisco voltou a encontrar-se com o patrão e este perguntou-lhe como andava a criança recém-nascida e a obra da casa, ele respondeu que o “filho ia bem mas a obra estava devagar por falta de dinheiro”. O patrão novamente demonstrou sua “generosidade”, dizendo: “.O senhor sabe que esta é uma fábrica de material de construção; por isso agora o senhor vai lá no galpão, tira o que precisar e termina logo com isso, mas que ninguém fique sabendo, nada do que estou dizendo aqui”. Comenta, então, “seu” Francisco: “Imagine a confusão que ia se armar se todo mundo ficasse sabendo...”. Com relação à casa, o operário refere-se ao “grande benefício que nos deu ‘don’ Alfredo dando financiamento para comprá-la”. “A verdade”, diz ele, “é que foi um verdadeiro presente para pagar em já nem sei quantos anos”. 

“Seu” Francisco conta também que, há alguns anos, quando um de seus filhos adoeceu e precisava ser operado, a mulher dele procurou o Departamento de Assistência Social da empresa em busca de auxílio. Lá, conseguiu falar com o chefe do Departamento - “amigo de meu genro” - que lhe disse que voltasse em um ou dois dias “para ver o que se podia fazer”. Ao voltar, ela recebeu a feliz notícia de que a fábrica se encarregaria de todas as despesas da operação numa clínica de Buenos Aires além do transporte do rapaz e de sua mãe como acompanhante. A mulher de “seu” Francisco assegura: “Eu sei que ‘don’ Alfredo andava nas oficinas por aqueles dias e, com certeza, ele ficou sabendo e fez alguma coisa por nós”. 

Outro exemplo é o da dona Paola. Ela se lembra de uma vez em que “estava cuidando da casa” e recebeu a visita inesperada da sra. Amália (a “patroa”), trazendo-lhe a neta “que tinha machucado o pé no jardim de infância, justamente no dia em que a senhora estava lá de visita”. Conta dona Paola que quase desmaiou ao ouvir a voz da “patroa” na sala de sua casa dizendo que “queria aproveitar para cumprimentar, já que ela sempre se lembrava de nós”. Como recordação daquele momento da visita da “patroa” ao jardim de infância, a neta tinha trazido uma fotografia na qual ela aparecia com seus colegas rodeando a sra. Amália. Dona Paola conta que, anos depois, conseguiu falar com a patroa durante a festa de aniversário do jardim de infância para pedir um trabalho para aquela neta que a “patroa tinha ajudado antes”. Sabendo que na hora da festa poderia tentar aproximar-se da “patroa” (porque “já tinha falado disso com a professora que ia fazer todo o possível” para permitir que ela “falasse” com a sra. Amália), dona Paola levou a fotografia na qual sua neta aparecia junto à “-patroa” na festa de anos atrás “para que a senhora se lembrasse”. 

Resumindo e incluindo informações de outras entrevistas, podem-se agrupar os tipos de bens e serviços que os operários e moradores de Loma Negra dizem ter recebido através das relações interpessoais em quatro conjuntos: 

(a) Em relação ao trabalho, postos de trabalho para filhos e outros parentes próximos, particularmente netos e genros. Pode-se acrescentar a oportunidade de troca, de turnos, o que, antes de 1945, era decidida pelos capatazes. Mais recentemente, já em pleno processo de “modernização” da empresa, outro tipo de relação pessoal envolveu a criação de pequenas empresas de prestação de serviços - “contratistas” - pa trocinadas diretamente pelo patrão. Este chamava um operário e “fazia uma proposta”: oferecialhe crédito ferramentas para que ele também se “tornasse empresário” e procurasse “seus sócios” entre os colegas de trabalho da mesma seção. Um operário da usina elétrica da fábrica, por exemplo, eletricista de profissão, montou uma “empresa” de serviços que recriou sua relação de extrema dependência para com Loma Negra, dada a exclusividade de seus contratos com ela e a escassa alternativa de trabalho disponível na vila. 

(b) Em relação à moradia, “favores” e “ajudas” que se referem ao processo que permite a um trabalhador “conseguir uma casa”, abandonando o galpão de solteiros e podendo “constituir família”; são as “autorizações” para fazer obras de ampliação das moradias e facilidades de obtenção de material de construção, que permitem diretamente aumentar a família. A ~ própria compra das casas financiadas pela companhia a juros muito baixos é freqüentemente mencionada como um verdadeiro “presente”, um importante “benefício” recebido de “don” Alfredo”. 

(c) Em relação à saúde, menciona-se qualquer tipo de “ajuda” da qual se ressalta sempre seu caráter extraordinário: casos de urgência e de extrema necessidade, doenças e acidentes não exclusivamente relativos ao trabalho. 

(d) Um último conjunto refere-se à “manipulação” dos limites da ilegalidade: “furtos” de material, “dar um jeito” nas listas de casas na vila etc. 

Os diferentes tipos de bens considerados até aqui têm em comum a característica de serem o resultado de relações particularísticas. Em todos os casos são bens e serviços recebidos como resultado de “gestões” específicas em situações de extrema necessidade. Adotando, aqui, a distinção estabelecida por Landé entre diferentes tipos de “troca de favores” e de “ajuda em caso de necessidade” (Landé, 1977a, pp. 26-27), observa-se que, em todos os casos, os bens tendem a satisfazer necessidades em prazo relativamente curto - um posto de trabalho, ajuda médica, um tipo qualquer de autorização. De outro lado, a “unidade” que se mobiliza para obter o bem é a família e quem recebe é sempre algum de seus membros. Certos recursos são mais procurados pelo “chefe de família” que, de modo geral, é quem mantém um vínculo institucional com a companhia (porque é operário ou empregado). A ele incumbem as questões referentes ao trabalho e à moradia. À mulher cabe a procura dos recursos referentes à área da saúde, em menor grau também â moradia e, ocasionalmente, a busca de emprego para outras mulheres da família. Mas, em todos os casos, é a unidade familiar - que inclui avós, pais, filhos, netos e, eventualmente, genros e noras - que mobiliza seu capital de relações sociais para “arrumar um favor” ou “uma ajuda” para um de seus membros. 

O mecanismo através do qual se empreende o “arranjo” implica justamente a ativação de algum tipo de “aliança diádica” com quem está em condições de “doar”, de outorgar o “favor” ou a “ajuda”. Assim, podem-se mobilizar desde relações de parentesco, amizade e vizinhança até relações de trabalho com superiores hierárquicos. Também podem ser mobilizadas relações pessoais decorrentes do fato de se compartilhar algum tipo de espaço institucional (por exemplo, a relação com a professora do jardim de infânca ou da escola primária). Ou, ainda, aquelas derivadas do pertencimento a uma mesma organização voluntária (o delegado do sindicato, o presidente da Sociedade de Fomento) (14). Evidentemente, o tipo de relação mobilizada em cada caso tem uma qualidade própria; utilizá-la - pedindo um “favor”, por exemplo - se refletirá no tipo de retribuição, terá um significado e um conteúdo diversos, passando a fazer parte da própria história da relação, o que permitirá invocá-la novamente em futuras ocasiões. O “favor” ou a “ajuda” referem-se tanto à possibilidade de acesso direto ao bem ou serviço procurado como à possibilidade de acesso ao seu “doador”, ou a alguém que faça a intermediação com outro que tenha capacidade de obter sucesso no pedido e que, por estar numa posição de menor “distância social” em relação ao centro de decisões (o patrão), é portador de um status superior àquele que “pede” (15). De modo geral, a categoria que serve para designar o procedimento é falar com alguém. Isso reforça a idéia de que o favor ou a ajuda são o resultado de uma relação interpessoal, face a face. 

Em Loma Negra, o “sistema de estratificação” que define a capacidade dos diferentes indivíduos para doar recursos, ou para servir de intermediários, ergue-se sobre uma estrutura de distâncias sociais relativas ao centro: o patrão (16). Essa estrutura de distâncias e proximidades situa-se paralelamente à hierarquia institucional da fábrica (superintendente, chefe de pessoal, chefe de seção, capataz, chefe de equipe etc.), mas não é idêntica a ela. Independentemente do fato de os indivíduos colocados em posições superiores no quadro de pessoal terem mais capacidade de estabelecer “alianças diádicas verticais” com seus subordinados - porque detém maior poder de decisão e de controle de recursos -, o que se valoriza, na realidade, é o grau de proximidade com o patrão, a possibilidade de “ter acesso a ele” e de “expor-lhe o caso”, de “falar com ele”. Nas ocasiões em que, aparentemente, quem outorga o favor é um superior, não é raro ouvir-se uma explicação, por parte de quem recebe, de que “certamente ‘don’ Alfredo soube e deu a ordem” (como no caso da operação do filho de “seu” Francisco de Souza). Dessa maneira, planejam-se estratégias específicas para falar com um superior numa ocasião em que “se sabe” que o patrão estará na fábrica ou na vila (17)

Independentemente da hierarquia dentro da empresa, existem outras posições e outros princípios, em Loma Negra, que permitem ao trabalhador ocupar posições mais próximas do patrão: a diretora do jardim de infância, empregada da companhia, ocupa uma dessas posições de proximidade maior do que a de outros empregados da companhia de sua mesma hierarquia, dada a “tradicional preocupação de ‘don’ Alfredo e da dona Amália com as crianças”, o que lhe permite ter contatos diretos com os patrões. O presidente da Sociedade de Fomento da vila está também mais próximo do patrão, o qual “está sempre preocupado com a vida de seus habitantes”. Acontece o mesmo com os dirigentes da organização sindical local. A mesma coisa pode ser dita, ainda, a respeito das professoras do jardim de infância e dos empregados da Sociedade de Fomento que, estando próximos dos diretores de ambos os estabelecimentos, conseguem ocupar posições de menor distância com relação ao patrão do que as de outros empregados de hierarquia igual. 

É importante, porém, ressaltar que a distribuição das posições com respeito ao patrão e às hierarquias superiores que lhe são mais próximas não se define somente em termos institucionais. O fato de ter um cargo elevado na hierarquia de uma instituição ligada à empresa não constitui, em si mesmo, uma garantia de acesso a uma posição de privilégio (18). Há vários outros mecanismos que funcionam como prinçípios distribuidores de posições de maior ou menor distância do patrão. Todos implicam algum tipo de relação particularista que expressa certo “favoritismo” e testemunha a continuidade e a história de uma relação: o “cumprimento pessoal” que moradores da vila dizem ter recebido do patrão quando este percorria a fábrica ou o povoado, o convite ao patrão ou a alguém que lhe seja chegado para ser padrinho de um filho, ou o simples fato de poder exibir na sala de sua casa uma fotografia do patrão ao lado de um membro da família (19). Às vezes, a “manipulação correta de uma situação casual” pode abrir caminho para que se tenha acesso a uma posição de privilégio. E o que revela a história de “seu” Martinez (ex-operário da seção de ensacamento de cimento, atualmente aposentado). Após ter servido como garçom em uma festa de aniversário na vila, o patrão “mandou chamá-lo” para trabalhar no mesmo serviço nos seus fins de semana na “mansão” de Loma Negra, durante os quais ele costumava receber “visitas importantes” (presidentes, governadores, banqueiros). “Seu” Martinez passou a ocupar, então, uma posição de extrema proximidade do patrão (“vivia em sua casa desde a sexta-feira até o domingo”, “tinha uma relação de intimidade”, diz “seu” Martinez com orgulho). Isso lhe conferia um status diferente em relação aos demais operários e transformava-o em um intermediário especialmente requisitado (20).

Esse “sistema de distribuição de diferenças de s tatus” ergue-se sobre uma estrutura de “alianças diádicas”, que servem de veículo para os “arranjos” através dos quais se buscam os “favores” e as “ajudas”. Tais alianças diádicas supõem algum tipo de troca recíproca entre quem procura um recurso e quem o outorga ou “fala” com um possível intermediário. O “arranjo”, o fato de “falar” diretamente com o patrão, ou de mobilizar alguém que esteja em condições de “falar”, constituem aspectos de uma relação mais geral de reciprocidade na qual aquele que recebe o bem ou serviço - membro de uma família que mobilizou seu capital de relações sociais no “arranjo” - deve “dar alguma coisa” em troca, que não será da mesma natureza daquilo que foi recebido. Se, de um lado, recebem-se bens relativamente determinados (referentes a trabalho, moradia e saúde), de outro, retribuem-se “bens” de natureza distinta. Trata-se do reconhecimento, por parte de quem sé encontra numa posição inferior de status, de sua situação de debilidade e subordinação diante de quem “doa” o recurso. O resultado geral desse tipo de troca é a legitimação do sistema de diferenças nas posições de status, o que reforça uma atitude de lealdade e de deferência por parte do subordinado e que se manifestará das mais diversas maneiras (21): desde o reconhecimento do status superior do outro - “não falando mal dele” - até lealdades no campo das diferentes relações institucionais que estão na base das alianças diádicas. Por exemplo, as próprias relações de trabalho, nas quais se podem manifestar atitudes de lealdade a certos superiores. No plano mais geral do sistema., o resultado desse complexo de relações particularistas é a legitimação permanente do próprio sistema, com a reprodução da posição central do patrão - que é visto como a maior fonte doadora de recursos, como o detentor das mais elevadas qualidades e capacidades de dádiva e como aquele que, por sua posição, garante a “ordem moral” das relações sociais; isto é, a idéia da “grande família de Loma Negra”. 

Embora esse sistema de relações pessoais, de alianças diádicas, apresente um certo caráter “conservador” - como reiteradamente aponta a literatura (por exemplo, Landé, 1977a, pp. 23-24) - ele de modo algum nega a existência de tensões, conflitos de interesse e relações de força. Ao contrário, como em Loma Negra as relações institucionais que opõem a categoria de operários à companhia se encontram “agregadas” a relações interpessoais que articulam indivíduos particulares e suas famílias a indivíduos de status superior, especialmente o patrão, os conflitos de interesse e as negociações são canalizados também por meio dessas relações. Pressupondo tais relações estratégias para obter recursos particulares, elas devem ser consideradas como expressão de relações de força em conjunturas específicas. 

O caráter conflitivo dessas relações se expressa nas próprias categorias utilizadas pelos sujeitos sociais para representá-las. A linguagem da rivalidade aparece oculta por detrás das expressões que servem para acentuar as alianças, como afirma Lévi-Strauss (22). Çomo as posições dos indivíduos que se relacionam exprimem desigualdades de status e como cada um deles faz uso da relação para obter bens e serviços de natureza distinta, a própria relação converte-se em terreno de conflito de interesses. Isso adquire maior visibilidade, em Loma Negra, porque certas categorias como “arranjo”, “ajuda”, “favor” ou “benefício” podem ser associadas à intenção, mais ou menos explícita, de obter o recurso desejado por meio de uma série de comportamentos calculados. Assim, à idéia de “falar com” alguém para conseguir uma ajuda, associa-se a noção de que esse comportamento é uma estratégia que exige uma certa dose de habilidade no cultivo da relação, na atenção à oportunidade de fazer o pedido e nos modos de falar em cada situação (23).

Resumindo, esse universo de relações sociais contém uma “linguagem” própria que tende a ocultar as rivalidades por detrás dos mesmos termos que servem para designar as alianças. Essa “linguagem” exprime, de um lado, uma forma de dominação que requer um “investimento alto por parte dos dominadores” (Bourdieu, 1976, pp. 128-29), os quais devem continuamente recriá-la; de outro, contendo também uma forma de permanente negociação, essa linguagem exprime um processo de “contínua criação” de condições vantajosas para a obtenção de recursos. 


A vila operária e os “benefícios” coletivos

O complexo de relações sociais que sob a forma de alianças pessoais se estabelece em Loma Negra entre trabalhadores individuais e suas famílias e indivíduos de status superior, especialmente o patrão, estrutura-se com base nas relações de tipo contratual que unem os trabalhadores à companhia. Essas relações contratuais estipulam que, em troca da venda de sua força de trabalho, cada operário recebe um salário e o acesso, para ele e sua família, a uma moradia de propriedade da empresa. Deste modo, a companhia passa a manter relações com duas categorias de indivíduos: com os trabalhadores e com os habitantes de Loma Negra. 

Até a venda das casas e dos terrenos por parte da empresa, iniciada em meados da década de 60, a maior parte dos operários da fábrica morava na vila operária. Como, para ter acesso à moradia, era condição ser operário ou empregado da fábrica, as famílias de habitantes da vila que não estavam ligadas diretamente à fábrica eram raras exceções. 

Já vimos que as relações interpessoais funcionavam como um mecanismo adequado para “compensar” desequilíbrios, para fornecer determinado tipo de recursos (referentes a trabalho, moradia e saúde especialmente). Agora, a distinção entre as relações que a companhia estabelece com os trabalhadores e aquelas estabelecidas com os habitantes de Loma Negra adquire uma importância particular, na medida em que permite estabelecer diferenciações quanto à natureza dos recursos, o tipo de mediações acionadas em cada caso e o conteúdo das categorias com as quais os sujeitos sociais representam essas relações. 

Com a criação, em novembro de 1945, do Sindicato del Cemento, Cal y Anexos de Loma Negra, e seu reconhecimento legal alguns meses depois, foi oficializada a existência de um organismo encarregado de mediar a relação entre os trabalhadores e a companhia. Desde sua fundação, e dadas as características próprias do “sistema de fábrica com vila operária”, a organização sindical vem funcionando como instituição mediadora também em relação a tudo aquilo que gira em torno da moradia, dos serviços e do abastecimento da vila operária. 

Com a nova legislação trabalhista, o governo do general Perón promoveu uma ampla regulamentação das associações profissionais é sindicatos operários, estipulando um esquema organizado em sentido piramidal: as seções ou delegacias sindicais de fábrica (como a de Loma Negra) deviam ser integradas à federação nacional do respectivo ramo que, por sua vez, confluía, junto com as ostras federações nacionais, para a única Confederación General del Trabajo (CGT). Desde então, a negociação dos acordos coletivos de trabalho passou a ser tarefa das federações e câmaras industriais por ramo de atividade em nível nacional. O primeiro contrato coletivo dos trabalhadores do cimento foi assinado em julho de 1948, depois da greve nacional de maior duração do setor, que se estendeu por 11 dias. A partir desse momento, as funções do sindicato local de Loma Negra ficaram restritas a uma tarefa “fiscalizadora” do “bom cumprimento” das disposições do acordo coletivo, tarefa que, nos locais de trabalho, ficou a cargo dos delegados de cada seção da fábrica. Deste modo ficou definido o esquema geral que seguiria o tratamento das “questões trabalhistas” com a companhia: do operário individual e de cada seção da fábrica, passando pelo “corpo de delegados”, até a Comissão Diretora e de Reivindicação do sindicato local, encarregada de apresentar as “queixas” e “demandas” e encaminhar as negociações, através da chefia de pessoal, com a companhia. Observando as Atas de Reunião da Comissão Diretora do Sindicato de Loma Negra, podemos agrupar os “problemas” tratados com a companhia em quatro grandes grupos: (a) reivindicações salariais de categorias com problemas de enquadramento no contrato coletivo; (b) sanções a operários por problemas “disciplinares”; (c) condições de trabalho; (d) mudanças de categoria ocupacional decorrentes de promoções, criaçãp..ou anulação de postos. 

Independentemente dos assuntos “estritamente trabalhistas”, a organização sindical passou a exercer, também, funções “fiscalizadoras” em relação à distribuição de casas, através do controle, junto à companhia, de uma “lista de solicitações” integrada por novos operários com família e por jovens operários que desejavam “constituir família”. Por último, o sindicato passou a intervir no abastecimento de alimentos na vila através de uma Proveduría e a proporcionar serviços de saúde a seus associados através da Obra Social do grêmio. 

Deste modo, além da supervisão do cumprimento do acordo coletivo de trabalho, o sindicato passou a controlar ou a intervir, junto à companhia, no controle e administração de outra série de bens e serviços: alimentos, saúde e moradia (24). Independentemente da existência de “canais orgânicos” de distribuição dos recursos controlados pelo sindicato, definidos nos estatutos da organização, os relatos dos trabalhadores e as atas das reuniões da comissão diretora deixam transparecer a permanente superposição de relações particularistas sobre as disposições orgânicas, o que chega a constituir um “verdadeiro problema”, especialmente em relação à administração das moradias. Neles registram-se permanentes “queixas” de operários que dizem ter sido “excluídos de seu lugar na lista” e constantes apelos ao sindicato e à companhia pela “eliminação dos favoritismos” (25)

Quanto à esfera das relações de trabalho, se os contatos entre os operários e a companhia, mediante o sindicato, tendiam a restringir-se aos canais formais (através do chefe do Departamento de Pessoal da empresa), algo diferente acontecia com relação às outras esferas da vida dos operários e moradores de Loma Negra. Independentemente do fato de que alguns pedidos de recursos em relação à moradia e ao funcionamento da vila operária fossem realizados sob a forma de demandas perante a companhia, seu atendimento era visto como uma retribuição, sob a forma de benefício, proporcionada pelo patrão. No processo que vai desde a formulação da demanda por parte da organização sindical até a retribuição por parte da empresa ocorre, então, uma transformação no caráter dos recursos e nas categorias utilizadas para descrever o intercâmbio: já não é a companhia que atende uma demanda dos trabalhadores levada pelo sindicato, mas é o próprio patrão que aparece como outorgante de benefícios coletivos, por um ato de sua “generosidade” pessoal. Tais benefícios, so mados aos favores e ajudas particularistas, contribuem para dotar de sentido a idéia de “grande família de Loma Negra” (26).

Para se entender esse processo, deve-se atentar para o caráter da mediação desempenhada pela organização sindical neste tipo de intercâmbio. Embora o sindicato se encarregue de canalizar as demandas dos trabalhadores e habitantes de Loma Negra, estas aparecem como sendo satisfeitas diretamente pelo patrão. Na recepção desses benefícios, o papel de mediação do sindicato tende a dissolver-se, aparecendo o patrão como aquele que os outorga - como demonstração de sua “generosidade”. 

Um bom exemplo deste tipo de procedimento é o que levou à venda das casas e terrenos da vila operária. A primeira nota que o sindicato dirigiu à empresa solicitando “melhorias” nas moradias - cuja quantidade, apontava, também seria “insuficiente para atender todos os trabalhadores com família” - é de fevereiro de 1947 (AC:1-2-47) (27). Poucos anos depois, a demanda por “melhorias” transformou-se na “solicitação de venda de casas e terrenos para novos habitantes” (AC:4-11-53). Finalmente, no princípio da década de 60, a empresa começou a vender para os trabalhadores da companhia um espaço que hoje é ocupado por umas 150 casas (a “Villa Nueva”). Para “facilitar a compra dos terrenos”, a empresa, “por iniciativa de ‘don’ Alfredo Fortabat”, destinou empréstimos para os operários “que desejassem adquirir o lugar onde se localizariam seus futuros lares e a Vila Nova de nossa localidade”, como também fez “empréstimos para a construção das casas” (28). Os relatos dos atuais habitantes da Vila Nova coincidem ao afirmar que foi “graças a ‘don’ Alfredo” que hoje possuem suas casas, um “verdadeiro presente”, “uma das melhores demonstrações das coisas que costumava fazer o velho”, “um dos mais importantes benefícios que nós recebemos de ‘don’ Alfredo”. 

Os terrenos da Vila Nova e o material para a construção das casas se somam a uma série mais ampla de benefícios coletivos: o Jardim de Infância de Loma Negra; a Escola Primária “Amália Fortabat”; a Escola Secundária Técnica “Luciano Fortabat”; a capela na qual . hoje des cansam os restos do patrão; a manutenção das ruas e lugares públicos no povoado; os serviços de água e luz que, durante anos, foram proporcionados pela empresa quase sem encargos. 

Junto a estes aparecia também outra série de benefícios que, de modo altamente ritualizado em torno da própria figura do patrão, sancionavam atos de tipo redistributivo. A expressão máxima deste tipo de ato era, talvez, a festa de aniversário de Loma Negra, comemorada durante uma semana completa, que incluía diferentes competições com prêmios (desde esportivas até a da casa “mais bonita da Vila”), presentes para os operários com 15 ou 25 anos de “casa” (os novos “veteranos”, que passavam a integrar o “Círculo de Veteranos”, que tinha o patrão como o “primeiro veterano”). A festa culminava com um discurso do patrão, um baile e “grande churrasco”, no qual era possível beber e comer “à vontade” e que chegava a contar com a assistência de mais de 6 mil pessoas, “inclusive muita gente de fora de Loma Negra que vinha porque dava para levar para casa comida para uma semana” (29)

Mas, afinal, qual o tipo particular de função mediadora que a organização sindical parece desempenhar aqui e quais são seus alcances e conseqüências? 

A resposta deve começar por considerar que, embora não haja, aparentemente, uma intervenção da organização sindical (redistribuindo ou mediando de alguma maneira) na recepção deste tipo de “benefícios”, um primeiro resultado de sua participação é a legitimação do seu papel de canal de um tipo particular de demandas coletivas dos habitantes da vila operária que, assumindo a forma de solicitações, são efetuadas ao patrão. Especialmente quando se trata de demandas referentes às relações entre os habitantes da vila operária e o patrão, fica legitimada uma dupla função do sindicato, que já não só atua como mediador junto à companhia quanto a assuntos trabalhistas, mas passa a manter relações diretas com ‘don’ Alfredo Fortabat (30). 

Essa possibilidade de tratar “diretamente” com o patrão de determinado tipo de demanda da categoria tem como resultado adicional a possibilidade, por parte do sindicato, de desfrutar, ele também, dos benefícios do patrão. Por exemplo, o terreno onde foi erguida a sede social na vila operária e os materiais para sua construção foram “doados” pelo patrão depois que uma assembléia de associados resolveu, em abril de 1956, “solicitar uma reunião com ‘don’ Alfredo Fortabat para lhe fazer chegar ao conhecimento as necessidades de nossa organização” (AC:31-4-56). Do mesmo modo, o sindicato recebeu, entre outras “dádivas” do patrão: o equipamento da clínica que a Obra Social possui na vila; o terreno e o material para a construção da Proveduría de alimentos, que funcionou ali durante anos; material para a construção da sede sindical na cidade de Olavarría. Estes benefícios que o sindicato reivindica como próprios, obtidos por meio de atos de “generosidade” do patrão e também “arranjados” com “habilidade” - como contam alguns sindicalistas -, supõem, ao mesmo tempo, a acumulação por parte da organização sindical de recursos que incrementam seu poder em dois sentidos fundamentais. Em primeiro lugar, o fato de contar com instalações espaçosas para celebrar festas e assembléias, com uma clínica provida de um equipamento especializado e raro na região é com outro grupo de instalações médicas em Olavarría e, sobretudo, o fato de contar com uma “saudável economia” colocam o sindicato de Loma Negra em uma situação vantajosa com respeito aos outros sindicatos do mesmo nível, com os quais ele campartilha e disputa o controle da delegacia regional da CGT (31). Em segundo lugar, relativamente aos seus associados, estes recursos aparecem como “vitórias” e “feitos” que, se por um lado permitem benefícios para a categoria, possibilitam também “favoritismos” e diversas relações particularistas entre eles e os sindicalistas que exercem funções de controle dos recursos. Disso resulta o fortalecimento das posições dos indivíduos que desempenham tais funções (em termos gerais, os integrantes da comissão diretora, dentro da qual, sem dúvida, seria possível estabelecer outras diferenciações). 

Como resultado dos diferentes papéis de mediação que desempenha, a organização sindical se fortalece em diversos sentidos: por um lado, legitima sua função de mediação junto à companhia quanto aos aspectos estritamente trabalhistas; por outro, como resultado de seu papel de mediadora em relação às outras esferas da vida dos trabalhadores e habitantes de Loma Negra, legitima seu papel de veículo de demandas da população com respeito ao patrão; e, finalmente, o sindicato obtém também do patrão recursos que o fortalecem no campo sindical regional, além de fortalecer posições individuais de sindicalistas em relação aos associados.

Como “demonstração de agradecimento”, em uma das paredes do hall de entrada da sede social que o sindicato possui na vila operária, assim como em muitas das salas das moradias dos trabalhadores, exibe-se um grande retrato do patrão. Na mesma parede, separado por uma fotografia aérea da fábrica e da vila operária, expõe-se outro retrato: o do general Perón. 

O Quadro 1 representa graficamente o conjunto das relações até aqui analisadas. Na parte superior do quadro, a entidade “empresa” aparece decomposta nas duas categorias através das quais os trabalhadores e habitantes de Loma Negra designam as relações com ela estabelecidas: companhia e patrão. Na parte inferior, obviamente, os “indivíduos-unidades familiares” são ao mesmo tempo “trabalhadores e habitantes de Loma Negra”. 

Do lado direito podem-se observar, fundamentalmente, as relações examinadas na primeira seção deste artigo: indivíduos pertencentes a unidades familiares específicas e que se relacionam com a companhia por meio de um contrato formal de trabalho (que não aparece na representação gráfica) encontram-se, também, vinculados à empresa por meio de relações particularistas, de alianças diádicas que, de modo direto (3), ou mais freqüentemente por meio de intermediários ou da manipulação de actions-sets (1),dirigem-se até o patrão. Por estes canais os indivíduos, “falando” com alguém, solicitam “favores” e encaminham pedidos de “ajuda”, recebendo bens e serviços que, em geral, se referem a questões de trabalho, de moradia e de saúde (2) (4). Em troca, o patrão (3) e os indivíduos que integram a rede de intermediários (1) recebem lealdade por parte dos solicitantes. Disso se despreende a legitimação das diferentes posições na hierarquia de status em cujo vértice se encontra o patrão. 

Do lado esquerdo do quadro encontram-se as relações analisadas nesta seção: os trabalhadores e habitantes de Loma Negra (enquanto “entidades categoriais”) tendem a relacionar-se com a empresa através da mediação do sindicato. Por um lado, o sindicato medeia as relações entre os trabalhadores e a companhia (12) (13) quanto aos assuntos que correm paralelos às relações mais estritamente institucionais, e, que se referem, fundamentalmente, àquelas consideradas no contrato coletivo de trabalho (ainda que houvesse necessidade de acrescentar relações institucionais não contidas no acordo, como as que encerram as listas de turnos para ocupar moradias na vila etc.). Por outro, ele serve como mediador entre o patrão e os trabalhadores e moradores de Loma Negra em tudo aquilo que deriva de sua condição de habitantes da vila (11), ou seja, nas demandas e solicitações referentes à moradia e aos serviços da vila operária: escolas, alimentos, serviços de saúde, luz, gás etc. Tais solicitações são satisfeitas pelo patrão sob a forma de benefícios coletivos (8). 

De modo similar, o sindicato leva ao patrão suas próprias solicitações (9),cuja satisfação assume a forma de benefícios outorgados por este à organização (10). O sindicato, então, distribui os recursos assim obtidos entre seus associados, seja de forma coletiva, seja através de indivíduos pertencentes a unidades familiares específicas (6) que, em troca, legitimam as posições dos que administram esses recursos dentro da organização, devendo-lhes lealdade pessoal no campo da política sindical local (5). 

Por último, a linha pontilhada à esquerda designa a relação que o sindicato mantém com o “campo sindical”, isto é, com as estruturas sindicais nos níveis regional e nacional e - como veremos na próxima seção -, através dele, com o Estado e com o sistema político nacional. Neste sistema, o desempenho do sindicato de Loma Negra, em todo o conjunto de relações descrito até aqui, converte-se em uma espécie particular de “capital” - no , sentido de Bourdieu - para a organização sindical local e para os indivíduos que nela ocupam posições dirigentes (32). Esta transformação do “desempenho” do sindicato local em “capital” dentro do campo sindical adquire um significado especialmente importante, desde que - a partir da ascensão de Perón ao poder, em 1943 = o campo sindical passa a ter um peso extremamente importante no campo político: Desde então, o sindicalismo organizado torna-se a “coluna vertebral” do movimento peronista, passando as organizações sindicais a funcionar como algo parecido a uma “máquina política” do peronismo, como se argumentará na próxima seção. 

O sindicato: entre a vila operária e o campo da política

As primeiras notícias sobre tentativas de organização sindical em Loma Negra remontam a princípios da década de 30. Mas é somente em 1939 que se funda o primeiro sindicato local, o Sindicato de Obreros de la Construcción, filiado à Federación Obrera Nacional de la Construcción, um dos maiores baluartes da inserção do Partido Comunista no movimento operário argentino da época. Na realidade, dispomos de escassa informação sobre o funcionamento desta organização na região e em Loma Negra em particular. As únicas notícias apuradas, provenientes de documentos e de relatos de alguns trabalhadores, mencionam a organização comunista em oposição à nova organização que é fundada em 1945 para “aderir à gestão do coronel Perón na Secretaria de Trabajo y Previsión de ta Nación” (33). O processo de deslocamento da organização sindical comunista pelo novo sindicato peronista correspondeu ao período de maior violência em Loma Negra. Foi uma época de violência não só entre as facções sindicais, como também de fortes enfrentamentos com a empresa, em grande medida conseqüência das próprias disputas intersindicais (que, na verdade, eram parte de um processo de violento enfrentamento político ao nível nacional).

 

Apesar de ter contado com o apoio oficial do Estado, a nova organização só foi reconhecida pela empresa dez meses depois de fundada, em setembro de 1946. Os três anos decorridos entre a fundação da organização sindical peronista em 1945 até a assinatura do primeiro contrato coletivo de trabalho, em 1948, representam a transição entre uma situação de conflito e um “novo estilo” de negociações operário-patronais. Nas atas da comissão diretora do sindicato observamos a progressiva substituição da linguagem dura do enfrentamento que caracterizou a primeira época, com “emprazamentos à companhia”, ou com a “intimação dos representantes da companhia para que compareçam perante esta comissão”, por uma outra mais “branda” que começa a se dirigir à companhia. Ao mesmo tempo, o registro da presença do patrão torna-se mais freqüente. A “intimação” e a “medida de força” dão lugar aos contatos regulares através dos novos “canais orgânicos” de relação e de “notas” e “circulares” escritos em uma linguagem cada vez mais formalizada (34). Progressivamente se estabelece uma relação mais direta entre a comissão diretora e o patrão. 

O primeiro contato direto com Alfredo Fortabat deu-se em outubro de 1946, no qual ‘don’ Fortabat teria demonstrado “a maior boa vontade perante o requerimento que lhe foi apresentado”., Seguiram outras demonstrações de aproximação: a “resolução de colaborar com os festejos do Dia de Loma Negra”, a solicitação para que o patrão “envie uma fotografia do senhor seu pai para ser pendurada em nossa secretaria, considerando como justo render homenagem a quem fora fundador e propulsor da indústria” (AC:26-10-46;1-11-47; 3-4-48) (35). Este processo desenvolveu-se sobre um pano de fundo composto de duas características principais: primeiro, a luta entre comunistas e peronistas pela representação sindical dos trabalhadores; segundo, a mudança de atitude por parte da empresa, e particularmente do patrão, a respeito do novo governo peronista, passando de uma primeira atitude de “receio” e inclusive de “enfrentamento” com relação a algumas medidas governamentais que afetavam diretamente seus interesses - como a que obrigava todas as empresas extrativistas a pagar o recém-criado Impuesto a Ia Piedra -, a uma progressiva aproximação que começaria pelo reconhecimento da organização sindical peronista e que, de certo modo, culminaria com a assinatura do primeiro contrato coletivo de trabalho, em dezembro de 1948. Nesta ocasião, segundo contam testemunhas, Alfredo Fortabat teria convidado o secretário-geral da CGT “para comemorar” com os operários na Festa de Loma Negra e lhe oferecido seu próprio cachecol, ao discursar, “chamando-o de companheiro” (36).

Por outro lado, o novo sindicato, que desde o início havia declarado sua adesão a Perón, integrar-se-á à nova estrutura sindical nacional, por meio da qual ficará definido o canal de sua relação com o Estado (37). Ao mesmo tempo, realizará uma ampla campanha de apoio às medidas do governo peronista: supervisionará a saída de material das pedreiras para verificar o pagamento dos impostos recém-criados; promoverá uma “tocada” de apitos e sirenes de fábrica pela “nacionalização das estradas de ferro”; apoiará as “campanhas de barateamento de preços” (AC:28-2-48;3-7-48). Em fevereiro de 1947, junto à regional Olavarría da CGT, participará na organização de um “grande ato” no qual um dirigente sindical de Loma Negra compartilhará a tribuna com Juan Perón e Eva Perón; em 1951 orientará seus associados a trabalhar em favor da reeleição de Perón. 

Fica definido, assim, o conjunto das funções de mediação desempenhadas pelo sindicato e o caráter das mesmas. São mediações que já não só se referem às relações com a empresa, mas incluem as relações com o Estado e com Perón em particular. Se, por um lado, e como o efeito de um processo aparentemente mágico de “amnésia”, que apaga da memória os períodos anteriores, os trabalhadores e habitantes de Loma Negra concebem a própria organização sindi cal como um benefício do general Perón, ao sindicato cabe a tarefa de administrar os outros benefícios derivados de sua gestão à frente do governo e que têm a ver com o conjunto das melhorias sociais e trabalhistas promovidas pelo Estado. Seu papel de mediador entre os trabalhadores/habitantes de Loma Negra e o Estado e Perón pode ser esquematizado no Quadro 2. 

O sindicato, enquanto “benefício” outorgado por Perón, passa a servir de canal para as demandas dos trabalhadores junto ao Estado (9) e até ao próprio líder (8) (38). A organização sindical distribui os “benefícios” obtidos dessa maneira ao conjunto de trabalhadores de Loma Negra (10), “benefícios” que também são objeto de intercâmbios particularistas entre os sindicalistas que se encontram em posições de controle dos recursos e indivíduos pertencentes a unidades familiares particulares (2) (3). Aos “benefícios” outorgados por Perón (o próprio sindicato e as reformas sociais) os trabalhadores retribuem com sua “lealdade” e seu apoio político não só ao general (1) (5) como também a todos os indivíduos que exercem funções mediadoras com o líder através do sindicato (2). 

As relações entre o sindicato de Loma Negra, Perón e o Estado estão mediadas pelo fato de o primeiro pertencer à estrutura orgânica do movimento sindical. Ao mesmo tempo que esta estrutura serve de veículo para as demandas dos trabalhadores, ela faz, às vezes, de “máquina política” para o peronismo: passa a operar como um conjunto de relações sociais que serve de contexto para relações particularistas com as quais se contempla a satisfação das demandas de indivíduos pertencentes a certas unidades familiares, em troca da garantia da lealdade para com os diferentes indivíduos que administram os recursos e, fundamentalmente, em relação a Perón, que é visto corno a fonte doadora dos “benefícios” (39)

Observando este conjunto de relações sociais tomo constituinte de um campo sindical, resulta que os bens e serviços que circulam através da estrutura sindical - entre os trabalhadores, o Estado e o líder - não são só recursos para satisfazer necessidades dos trabalhadores e suas famílias; são também espécies distintas de capital que estão em jogo na concorrência dentro deste campo. Assim, esta “máquina política” serve não só como contexto para a circulação de bens e serviços que, tendo como fontes o Estado e Perón, satisfazem necessidades de indivíduos pertencentes a unidades familiares específicas. A estrutura sindical funciona também como um “campo” de relações sociais no qual, em troca da distribuição de recursos entre os associados, determinados sindicatos, e dentro deles alguns indivíduos que possuem maiores margens de controle de circulação dos recursos, obtêm lealdades que reforçam suas posições no campo sindical, o que se manifestará nas relações que a organização mantém, através da estrutura sindical, com Perón e com o sistema político (6) (7). 

O “desempenho” da organização sindical de Loma Negra em suas relações com a companhia e com o patrão - que aparecem em linhas pontilhadas no quadro - repercutirá, também, nas funções mediadoras que ela realiza no conjunto das relações sociais, por se colocarem em jogo as posições da organização no campo sindical, bem como, em seu interior, as de alguns de seus integrantes. 


Conclusões

No início deste artigo anunciamos o objetivo de analisar o significado e os alcances das identificações e homologias estabelecidas pelos operários e moradores de Loma Negra na representação de suas relações com o patrão e com Perón, identificações essas que se expressam, inclusive, nas várias formas de associação entre as duas figuras: na construção de paralelos entre suas histórias de vida, na utilização de categorias semelhantes para descrever o resultado das relações estabelecidas com um e com o outro, em que são sempre ressaltadas as qualidades de “generosidade” dos dois personagens. 

Nosso exercício foi guiado pela intenção de que as identificações servissem como pontos de partida analíticos e passassem a integrar nosso objeto de análise. Esse procedimento é inverso ao que, por exemplo, contém as teorias do Estado ou da sociedade “clientelista”, ou da transactional society (40). Nestas, as homologias são simplesmente constatadas, são tomadas como dadas não só nas representações dos sujeitos como nas dos sociólogos que as estudam. A conseqüência é que, ao invés de considerar as identificações como constitutivas do objeto de análise, o que deveria estimular a investigação, o pesquisador acaba por construir suas próprias homologias, reproduzindo, assim, as identificações contidas nas representações dos sujeitos. Esse processo, que oculta em vez de desvendar os problemas sociológicos, torna o pesquisador um cúmplice da “naturalização” (41).

Na primeira parte do artigo diferenciamos as relações que operários e moradores de Loma Negra estabelecem com a empresa (a companhia e o patrão) daquelas instituídas com o Estado e com Perón. Fazendo-o, pudemos analisar mais profundamente a especificidade de cada complexo de relações do qual decorrem importantes e variadas diferenças. Estas incluem desde a natureza dos bens e serviços trocados, aos resultados e mecanismos dos intercâmbios, à presença de vários mediadores (observa-se que, por exemplo, outros intermediários, além do sindicato, atuam nas relações com o patrão); até a possibilidade de travar relações diretas, face a face, com a maior das fontes de recursos em cada um dos complexos. É evidente que, neste nível, os trabalhadores não estabelecem relações diretas com Perón do mesmo tipo das que podem criar com o patrão. 

Tratando separadamente, num primeiro momento, os dois conjuntos de relações sociais, pôde-se contribuir para a compreensão de dois fenômenos distintos embora inter-relacionados. Em primeiro lugar, apontamos para a especificidade da forma de dominação produzida e reproduzida em Loma Negra e que não pode ser entendida apenas através do exame das relações institucionais que ali se desenvolvem. É preciso observar, ao mesmo tempo, o complexo de relações pessoalizadas que se reproduzem junto às relações institucionais. Essa análise configura a imagem de uma forma de dominação que contém um sistema de diferenciação de status profundamente centralizado. Uma das chaves para a sua compreensão encontra-se no fato de que este sistema de estratificação não é idêntico ao das hierarquias institucionais. Trata-se, ao contrário, de um sistema que contém diversos “planos de organização social”, constituindo distintos princípios de diferenciação que geram posições de maior ou menor distância relativamente ao centro (o patrão). Alguns problemas importantes podem ser derivados da análise de conjunto da dinâmica desta forma de dominação: o da natureza dos bens e serviços trocados, o das categorias construídas para descrever as relações, o dos procedimentos e estratégias nelas implicados, o das articulações entre os distintos princípios diferenciadores, o das várias posições de intermediação e o das possibilidades de conflito e competição entre os seus ocupantes individuais. 

Em segundo lugar, foi também possível avançar na compreensão do significado do “peronismo” para esses trabalhadores e dos modos concretos através dos quais eles passaram, a partir de então, a integrar o sistema político (42). São especialmente importantes as hipóteses e linhas de trabalho que consideram o tipo particular de mediação das relações entre os operários, o Estado e o general Perón exercida pela organização sindical. Dessa análise decorre, primeiro, uma imagem das funções do sindicato que excede as de mediação de questões trabalhistas e avança para o espaço da política nacional, e, segundo, uma imagem da organização sindical que ultrapassa o discurso de seus integrantes, mostrando a importância de se perceber, também neste caso, que complexos de relações pessoalizadas se reproduzem no interior da própria organização sindical, sobrepostos aos vínculos institucionais. Observando esse conjunto de relações - bem como as trocas de favores e lealdades nele implícitas - podemos compreender melhor as conseqüências das posições específicas de intermediação ocupadas por alguns sindicalistas: a partir do campo propriamente sindical, eles são projetados para o terreno da política, dadas as semelhanças que, no peronismo, a organização sindical mantém com as “máquinas políticas”. 

A “desnaturalização” das identificações e homologias através do estudo das diferenças entre os complexos de relações sociais permitiu que nos voltássemos sobre as representações dos sujeitos para tentar compreendê-las. Pôde-se ver que, nessas representações, as identificações não alcançam a totalidade das relações e que as homologias também possuem limites: por exemplo, as relações com Perón jamais são concebidas em termos de “ajuda em caso de necessidade”, como o são certas relações com o patrão, enquanto que, em ambos os casos, a categoria “benefício” é. central para conceituar alguns bens coletivos e para designar os mecanismos através dos quais eles são recebidos. 

Uma vez analisado cada um dos complexos de relações sociais e discutidos os alcances “reais” das homologias entre eles, foi possível voltar ao problema das identificações construídas nas representações dos sujeitos sociais, para observar o conjunto das relações de que eles participam; tanto as que remetem à forma de dominação reproduzida na “fábrica com vila operária”, quanto as que aludem ao sistema político no plano nacional, analisando-se, particularmente, as articulações entre elas. A partir daí foi possível indicar o lugar específico ocupado pela organização sindical e, dentro desta, o de alguns sindicalistas que exercem posições particulares de intermediação. Pôde-se observar não só que o sindicato desempenha uma função mediadora em ambos os casos, mas que os resultados obtidos no exercício dessa atividade em um complexo refletem-se nos resultados de sua ação no outro. 

Dentro desta perspectiva que agrega à análise dos alcances das homologias e das diferenças as articulações entre os dois complexos; é possível entender o significado da convivência dos retratos de Perón e do patrão na sede do sindicato da vila operária de Loma Negra. Essa convivência encerra muito mais do que uma simples expressão de reconhecimento dos trabalhadores aos dois personagens. Ela pode ser vista como 0 resultado da particular posição ocupada pelo sindicato local - e, em seu interior, alguns sindicalistas - como ponto de imbricação entre os dois complexos de relações sociais e que, por isso mesmo, leva-o a estar especialmente “interessado” no reforço da homologia (43)


Recebido para publicação em maio de 1990.

A versão original deste texto foi apresentada ao curso sobre patronagem e política, oferecido pelo Prof. Moacir Palmeira, no segundo semestre de 1989, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social - Museu Nacional-UFRJ. Agradeço ao prof . Palmeira e aos colegas de curso por seus comentários e sugestões. Agradeço também o apoio da Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research. 


Notas

* Federico G. Neiburg é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da UFRJ. 

1 - Leite Lopes (1979, pp. 41-3 e 57-63) fala, neste sentido, de um tipo de “dependência completa” dos tra balhadores em relação ao poder da fábrica. 

2 - Sobre o “processo de dissolução” do sistema de “fábrica com vila operária”, ver Leite Lopes. (1988, Introdução). Sobre o caso de. Loma Negra, ver Neiburg (1988, pp. 109 e segs.)

3 - Alfredo Fortabat possui uma das “maiores fortunas” da Argentina. É proprietário, entre outras coisas, de cinco fábricas de cimento e de mais de 40.000 ha. de excelentes terras somente na província de Buenos Aires. A fábrica de cimento de Loma Negra, estudada neste artigo, ocupa um lugar privilegiado na história do “conglomerado empresarial”. Esta foi a primeira fábrica do grupo, fundada por Luciano Fortabat, pai de Alfredo Fortabat, no lugar onde este último nasceu e viveu sua infância.

4 - A “mansão” da fazenda, na qual “don” Alfredo costumava passar longas temporadas e muitos fins de semana, situa-se a 2 km da fábrica. 

5 - O sindicato local, que exibe uma taxa próxima de 100% de associados, encontra-se integrado no plano nacional à poderosa Asociación Obrera de Mineros Argentinos AOMA), que, por sua vez, integra a CGT. As únicas paralisações de atividades registradas em LomaNegra, desde a fundação do sindicato, foram aquelas decretadas pela associação nacional ou pela própria CGT, originadas sempre de problemas de caráter nacional. 

6 - A manutenção de um “clima comunitário” possuía para o patrão um significado particular, pois a fábrica de Loma Negra-Olavarría é o símbolo do grupo econômico - o lugar de “sua origem”. O conhecimento no plano nacional do que ali acontecia transforma-a em um “exemplo”, e o seu patrão em um modelo de “industrial nacional com sensibilidade social”. 

7 - Assim, ambas as figuras apareciam associadas a qualidades de generosidade pessoal, de sensibilidade social, juntamente com histórias de vida nas quais comumente eram realçados elementos comuns: suas idades, a data aproximada da morte de ambos, sem deixar descendência, e tendo-se casado três vezes cada um. Os relatos de amizade pessoal entre ambos con tam, por exemplo, que “don” Alfredo chegou a ter “trânsito livre na Casa Rosada” (o palácio de governo em Buenos Aires). 

8 - Nesta perspectiva, como bem mostra Landé, as relações pessoais particularistas, as alianças diádicas, possuem em seus termos um estatuto legítimo como objeto sociológico, que exige, para dar inteligibilidade â importantes aspectos da vida social, ser colocado no foco da análise, e não ser tomado como um aspecto “secundário”, “intersticial”, etc. (Landé, 1977a). No decorrer deste artigo, utilizar-se-ão as relações entre objetivos e demandas categoriais ou particularistas no sentido proposto por Landé em sua discussão com Almond, ao questionar o “processo de conversão” das demandas particularistas em categoria, postulando, em troca, a possibilidade de que, “em determinadas condições”, se mantenha a existência de objetivos cujo “melhor modo” de serem satisfeitos continuam sendo as relações particularistas (Landé, 1977b, p. 87). 

9 - A maior parte dos trabalhadores era contratada através de convênios com embaixadas, diretamente no porto de Buenos Aires ou, mais geralmente, ,através de contatos com outros trabalhadores, familiares ou amigos, que já eram empregados da companhia. A partir da segunda geração, registra-se uma taxa de má3s de 70% de operários filhos de antigos trabalhadores. 

10 - Leite Lopes enfatiza que o significado do controle por parte da companhia sobre a moradia, nesses casos, indica que “não é só a habitação, nem uma casa, o que está em jogo, mas toda uma série de recursos acessórios à moradia e essenciais à reprodução dos trabalhadores, que são objeto de controle da administração da fábrica (...) e que podem transformar-se em objeto de preço, de racionamento ou de diferenciação entre os operários, favorecidos ou não com alguns recursos ou objeto de alguma pressão a ser exercida em caso de conflito” (Leite Lopes, 1979, pp. 57-58). Leite Lopes qualifica a situação na qual se encontram envolvidos os trabalhadores como a de uma “paradoxal servidão burguesa”, com o que, de alguma maneira, sugere a convivência de uma relação “institucional”. Esta opõe duas categorias através de um contrato (empresa e trabalhadores), mas em uma situação tal que favorece a emergência de relações particularistas entre os trabalhadores e representantes da empresa. Scott indica que o poder de negociação dos clientes depende de “fatores estruturais% como a falta de alternativas para obter determinados recursos, a escassez de outras fontes de emprego etc., o que também reforça, a idéia de extrema subordinação dos trabalhadores nesses casos (Scott, 1977, p. 35). 

11 - Neste artigo o conceito de “aliança didática” e as relações entre estas e “relações institucionais” seguem em termos gerais a proposta de Landé (1977a). 

12 - O foco de nossa atenção está colocado sobre as relações entre a empresa e os trabalhadores, o que supôe observar especialmente a estruturação de alianças diádicas em termos “verticais”. As alianças diádicas “horizontais” - nas quais a relação é de amizade, de vizinhança, de parentesco - somente serão consideradas na medida em que levem à compreensão de aspectos das relações entre empresa e trabalhadores.

13 - A Sociedade de Fomento é uma organização cuja função é representar os habitantes da vila operária, “promovendo o desenvolvimento do povoado”. Em Loma Negra, a instituição surgiu como iniciativa da empresa, quando esta começou a desligar-se de suas responsabilidades a respeito da vila. 

14 - Ainda que se referindo a “objetivos eleitorais”, Mayer oferece uma definição interessante de action sets, posto que inclui (1) “diversas bases” (de parentesco, de religião, partidárias, trabalhistas etc.); (2) não estão necessariamente baseados no fato de pertencer a um mesmo grupo; (3) são utilizados analiticamente para descrever pautas de relações e combinações de vínculos em torno de um ego; (4) não são entidades com fronteiras definidas; e (5) não são enti cl ades permanentes (Mayer, 1977, pp. 48-49). 

15 - Boissevain estabelece distinções interessantes em relação às diferentes possibilidades que, na procura de determinados bens ou serviços, se podem estabelecer através de combinações de movimentos no sentido “vertical” e “horizontal” (Boissevain, 1966, pp. 25-29). 16 - O uso do termo “patrão” refere-se tanto a Alfredo Fortabat como a sua esposa, Amália, sem incluir distinções mais sutis entre os conteúdos das referências a uru e outro. Alguns elementos neste sentido estão em Neiburg (1988, pp. 135-139 e 164-173). 

17 - A idéia de que o outorgante é sempre o patrão poderia permitir-nos observar as estratégias que se estruturam em função da sua presença ou não, da oportunidade de que ele “fique sabendo” do pedido etc., em termos de “crença”, seguindo algumas das interessantes idéias de Stirling que, ao refletir sobre o lugar da “crença” nos sistemas de “moralidade pessoal”, estabelece comparações com o caso da crença na bruxaria (Stirling, 1968, pp. 53-54). 

18 - Excede às possibilidades deste artigo a importante tarefa de “mapear” o conjunto de princípios que operam na estruturação deste “sistema de estratificação”, que estão ligados tanto a posições no interior de instituições e de hierarquias institucionais (dentre as quais a hierarquia da fábrica é apenas uma delas), como a princípios que não encerram referências a relações institucionais. Igualmente, não tratamos aqui com detalhe do importante problema das relações de conflito e de competição entre os indivíduos que ocupam posições de intermediação em cada um dos “planos de organização social”, dos quais decorrem os princípios diferenciadores.

19 - Neste nível podem-se estabelecer interessantes analogias entre “a situação do patrão no centro da grande família de Loma Negra” e a “situação do rei no centro da sociedade cortesã”, descrita por N. Elias (1985, cap. IV). Nos dois casos, o volume de capital de relações sociais de cada indivíduo e a maior ou menor proximidade com respeito ao centro funcionam como um princípio operador de distinções e diferenças sociais, dado que tanto o rei como o patrão ocupam o lugar central em suas respectivas “formações sociais”, vistas como “sua casa”: a sociedade francesa e os domínios do patrão sobre a fábrica e a vila operária. Além das analogias, não se deve perder de vista as diferenças que, em termos da evolução de cada formação, se tornam mais agudas a partir do momento em que o “poder absoluto” do patrão tende a “dissolver-se” junto com o próprio “sistema de fábrica com vila operária”. A diferença maior, no entanto, surge do fato de que a este princípio diferenciador somavam-se outros em Loma Negra. Fora o fato de que o mais importante princípio diferenciador derive-se do caráter contratual da relação de cada indivíduo com a empresa e da posição que cada um ocupa na sua hierarquia, pode-se supor a existência de outros: os que decorrem das relações dos indivíduos com diversas instituições, como o sindicato ou a prefeitura que têm posições de mediação . para “fora” da comunidade; os que derivam das origens nacionais, da escolaridade etc. Para apresentar uma análise mais completa do “sistema de estratificação” em Loma Negra se deveria não s6 mapear estes princípios (no sentido da nota 18), mas também observar suas articulações. É o que, de alguma maneira, propõe Davis com seu conceito de “estratificação” e, de modo distinto, Geertz com relação à idéia de “planos de organização social” (ver Davis, 1977, e Geertz, 1967). 

20 - A história do “seu” Martinez é particularmente interessante, porque depois de passar a ser o garçom de “don” Alfredo, não deixou de trabalhar na seção de ensacamento de cimento, um dos postos mais árduos da fábrica, rejeitando postos melhores ou . passar a capataz. Sendo um “simples operário” do ensacamento, “seu” Martinez ocupou durante muitos anos uma posição extremamente desigual com respeito a seus pares; indivíduos que lhe eram hierarquicamente superiores deviam “respeitá-lo” e “tratá-lo bem”, como ele próprio declara. Por outro lado, a posição de privilégio do “seu” Martinez é visível na situação atual de seus filhos (“todos bem empregados na companhia”) e de sua casa, instalada na rua principal da Vila junto às casas de muitos capatazes. 

21 - Davis afirma que a “aceitação da submissão por parte do fraco” e de uma postura de “deferência” com respeito ao poderoso para obter recursos constitui um dos elementos que permitem definir o sistema de patronagem que, em seu trabalho sobre a sociedade mediterrânea, constitui um dos componentes daquele “sistema de estratificação” (Davis, 1977, pp. 132-33). 

22 - “É que, de fato, o intercâmbio não traz um resultado tangível como acontece com as transações comerciais que têm lugar em nossa sociedade. O proveito que se tira não é nem direto nem inerente às coisas trocadas (. . .) As mercadorias são não só bens econômicos como também veículos e instrumentos de realidades de outra ordem: potência, poder, simpatia, status, emoção; e o jogo sábio dos intercâmbios (. . .) consiste em um complexo conjunto de manobras, conscientes e inconscientes, para ganhar segurança e precaver-se contra riscos no duplo terreno das alianças e das rivalidades” (Lévi-Strauss, 1981, p. 98). Bailey refere-se à “hostilidade” embutida nas categorias e ao caráter relativo às posições das mesmas (Bailey, 1971, pp. 241-46). 

23 - Para análise de alguns elementos dos diferentes sentidos do intercâmbio e a dimensão de conflito embutida nas categorias ver Neiburg (1988, pp. 163-173). 

24 - Esse progressivo aumento no volume de recursos diferentes controlados pelo sindicato pode ser considerado como parte do processo de dissolução do sistema de “fábrica com vila operária”. É um processo que pode ser visto, ao mesmo tempo, como de “desligamento” por parte da companhia em relação a suas antigas responsabilidades, uma vez que estas já não são rentáveis, e como de competição entre a companhia e o sindicato para a manutenção de margens de controle sobre alguns recursos (Neiburg, 1988, pp. 109-117). 

25 - Independentemente de que mais adiante se voltará sobre este ponto, é bom adiantar que neste sentido podem-se analisar os diversos mecanismos através dos quais uma das dimensões da mediação sindical supõe um processo de transformação de demandas “categoriais” em alocação de recursos de modo “particularista”. Nos termos usados por Landé, aqui também haveria superposição de “alianças diádicas” sobre “relações institucionais” (ver a idéia de “diades intragrupais” em Landé, 1977a, p. 36). 

26 - Em outro nível, a idéia de “grande família de Loma Negra” é também construída pela empresa para ressaltar sua especial “preocupação e sensibilidade social” (que inclusive se manifesta na existência de uma Fundación de Ayuda Social), o que constitui uma expressão da “marca” pessoal do patrão, de seu “estilo de gestão”. O discurso da empresa esforça-se, desta maneira, por mostrar que sua união com os trabalhadores vai mais além da relação contratual. 

27 - AC: Atas de reuniões da Comissão Diretora do Sindicato, seguido da data correspondente. 


28 - Boletim Interno, Loma Negra, maio de 1961.

29 - Obviamente que a estas demonstrações de riqueza, de “desprendimento” e de “generosidade” por parte do patrão corresponde um tipo especial de retribuição por parte dos beneficiados. Gouldner afirma que a recepção de uma dádiva aparentemente livre, contendo a idéia de que o benfeitor está “dando algo em troca de nada”, é o que gera as “maiores dependências” e “cadeias”. A “norma de benefício” própria das elites encerra um paradoxo, já que elas, “como todos os estratos dominantes, exploram e extraem em troca de nada. Mas o que as transforma de estratos meramente poderosos em elites legítimas, em síntese, o que transforma sua dominação em hegemonia, é que podem doar e, às vezes o fazem em troca de nada” (Gouldner, 1979, pp. 256-262). Em um sentido similar, Bourdieu refere-se à “dominação doce” que, estruturada sobre a base da linguagem da dádiva - “cujo limite é o potlach” -, supõe operações de “alquimia social” que tendem a transformar o “capital econômico” em “capital simbólico” (Bourdieu, 1976, p. 128).

30 - Passando a ser relativamente freqüentes as audiências pessoais concedidas pelo próprio patrão à organização sindical; nelas os integrantes da Comissão Diretora podem exercer uma das atribuições de sua posição de mediadores: a de falar com o patrão, só que agora, diferente do “falar” da seção anterior, trata-se de negociar benefícios coletivos. 

31 - O sindicato de Loma Negra possui na CGT regional um reconhecido peso que se deriva não só de seu número de associados, mas também do fato de que está em condições de prestar serviços especializados a sócios de outras delegacias (serviços médicos, locais para festas etc.), ocupando, em muitos períodos, cargos de importância na CGT regional e em delegacias de nível nacional. 

32 - Por “bom desempenho” da organização sindical no complexo de relações sociais descrito no quadro entende-se: (1) quanto à relação com a empresa “personificada” na figura do patrão, a obtenção do máximo volume de recursos financeiros e materiais em geral, e (2) a “lealdade” por parte dos associados erre conseqüência da distribuição dos recursos. “Recursos” e “lealdades” passariam a desempenhar o papel de “espécies de capital” -que a organização sindical e alguns dirigentes estão em condições de “extrair” de Loma Negra e de “jogar”, através do campo sindical, na esfera da política nacional, particularmente em relação ao Estado. Não é necessário esclarecer que, dados os limites deste artigo, torna-se impossível realizar maiores diferenciações ou sustentar esta linha de análise com mais material etnográfico.

33 - Na história do movimento operário argentino deste período existe um verdadeiro “vazio de conhecimento”, já que só são identificadas as linhas mais gerais do processo. Quanto às organizações sindicais comunistas, sabe-se que algumas, como a FONC, possuíam um importante grau de organização nacional e um elevado número de associados (aproximadamente 30 mil, segundo fontes de Matsushita, 1983, p. 162). DeI Campo destaca a greve que, em 1935, foi promovida pelo Sindicato de Obreros Albafiiles, do Cemento Armado y Anexos que, durante 96 dias, envolveu a participação de 60 mil trabalhadores (Del Campo, 1983, pp. 96-97). Este “poderio” relativo do Partido Comunista no movimento operário vai acabar com a ascensão do peronismo. A literatura parece considerar a “dissolução” do comunismo como resultado de um processo que combinou uma “política errada” de enfrentamento a Perón com sua resposta na forma de repressão e do seu plano de reformas sociais. Mas, além da descrição do processo geral, pouco se sabe. Parece acontecer com muitos historiadores e sociólogos algo semelhante ao que ocorre com aqueles que, em Loma Negra, falam da história do sindicalismo na localidade: parece ter “começado em 1945”, com Perón, e se “antes” houve “algo”, só é lembrado por oposição. Além disso, o “processo natural” para uma parte dos cientistas sociais também parece ter sido o da “diluição” do sindicalismo anterior, que só poucas vezes é por eles “lembrado”. 

34 - É, nessa época, que se cria na empresa o Departamento de Pessoal, encarregado de conduzir as relações com os trabalhadores e, particularmente, com o sindicato. 

35 - Os contratos entre a comissão diretora e o patrão não só sezão cada vez mais freqüentes mas também irão revelando a imposição de um “novo estilo” de relações, que se tornará claro no início da década seguinte: se “explicará a ‘don’ Alfredo Fortabat a necessidade de contar com uma escola”, se “expressará agradecimento pela doação do local da organização”, se “apresentará um anteprojeto de centro de convivência social e armazém para que seja estudado por ‘don’ Fortabat”, se demonstrará “gratidão pela doação da sede social” e se informará aos sócios que “na reunião com ‘don’ Fortabat ele nos disse que os materiais nos custariam o mesmo que o terreno, pelo qual compreendemos que nos seriam doados” (AC: 4-12-53; 13-3-53; 31-4-53): 

36 - Independentemente da anedota, deva-se ressaltar que a aproximação entre Fortabat e o governo peronista é um fato reconhecido nacionalmente. Fortabat era apontado como exemplo entre os “industriais nácionais” nos quais o governo buscava apoio para o projeto de desenvolvimento econômico peronista. Anos depois, a sra. Amália Fortabat chegou a. ser indicada para integrar uma chapa eleitoral pelo partido peronista. 

37 - A integração formal à Federación Argentina de Obreros y Empleados de la Indústria del Cemento y Anexos, filiada à CGT, realizou-se em, dezembro de 1946 (AC: 13-12-46).

38 - Para maior profundidade, este artigo deveria analisar o alcance das diferenças nas representações dos trabalhadores a respeito de suas relações com o Estado e com Perón. As relações e os modos de representá-las mudarão, seguramente, segundo se trate de períodos nos quais Perón estava no governo, “personificando o Estado”, ou aqueles nos quais Perón estava fora do governo. Neste sentido, talvez fosse possível compreender melhor a freqüente referência encontrada na literatura das ciências sociais sobre as intenções permanentes do movimento sindical de “reproduzir”, junto ao Estado, os modelos de relações estabelecidos nos governos peronistas. Também neste sentido, seria possível aprofundar a análise de um processo que comumente se simplifica com referência à “busca de tutela” por parte das organizações gremiais em relação ao Estado, “tutela”, tanto na arena política como nas negociações operário-patronais” (Ver, por exemplo, Cavarozzi, 1984, p. 203).

39 - Sobre a idéia de “máquina política” ver Scott (1969). Diferentemente das “máquinas políticas” analisadas por ele, em nosso caso o sindicato não só distribui benefícios doados pelo líder, ou provenientes do Estado, como também benefícios provenientes de sua relação com o patrão e com a companhia. 

40 - Ver, a respeito, Powel (1977) e Graziano (1977). A interpretação “clássica” sobre as origens do peronismo formulada por Gino Germani compartilha diversos aspectos com as idéias destes autores em relação ao processo de integração das massas ao sistema político (Ver, Germani, 1968). 

41 - Essas observações acompanham as idéias expostas neste sentido por Landé (1977a, pp. 30-31). De modo similar, Davis (1977, pp. 148-49) critica os trabalhos que, como o de Boissevain, ao estudarem as “bases ideológicas da patronagem”, estabelecem homologias entre patronagem política e patronagem dos santos. Davis critica o fato de que procedimentos como o de Boissevain escurecem as discrepâncias entre os dois sistemas e conduzem a “vacuidades” na análise do sistema político que a própria homologia serve para evitar. Mais grave ainda é, como deixa transparecer também Boissevain, tomar as relações de homologia entre os dois sistemas como relações de causalidade (Ver Boissevain, 1977). 

42 - Isso não quer dizer que “antes” estavam “fora” do sistema político, como algumas das teorias sobre o processo de “integração” das massas ao sistema político deixam transparecer, desde o momento em que não problematizam a relação com o sistema político “antes da integração”. 

43 - Ao observarmos a existênc