IDENTIDADES EM CONFLITO: técnicos e peões
na petroquímica da Bahia
Antônio Sérgio Alfredo
Guimarães (*)
Michel Agior(**)
Introdução
Os trabalhadores industriais em Salvador,
Bahia, representam uma fração muito peculiar do operariado brasileiro. Trata-se
de um segmento onde é marcante a importância dos trabalhadores na indústria de
processo contínuo, empregados num conglomerado de indústrias químicas,
petroquímicas, químico-têxteis, farmacêuticas e plásticas, planejadamente
implantadas em torno das atividades de extração e refino de petróleo, que têm
na refinaria Landulfo Alves, em Mataripe, e no II Pólo Petroquímico, em
Camaçari, seus eixos principais.
Esse parque industrial é de formação
recente (a maior parte das empresas implantou-se nos anos 70) e seu operariado
provém de uma sociedade urbana fortemente influenciada por formas de
representação não-classistas, como a tradição cultural afro-brasileira, e por
ideologias regionalistas; como a baianidade (Oliveira, 1987).
Em trabalhos anteriores (Guimarães,
1987b,1988; Agier,1987,1988; Guimarães e Castro, 1988, 1989), procuramos
caracterizar as mudanças sociais na região, discutir e problematizar a formação
de classe desses trabalhadores, entender as determinações oriundas da
organização e da gestão do trabalho e compreender algumas práticas culturais e
padrões familiares presentes no meio urbano. Esses textos desafiaram teses
importantes como a suposta criação de um enclave sócio-econômico, a pretensa formação
de uma aristocracia do trabalho e outras formas mais brandas de determinismo
econômico e tecnológico. Tomaram, todavia, quase todos, uma perspectiva
marcadamente estrutural, evidenciando, com isso, a necessidade de se aprofundar
o estudo da formação dos sujeitos, de suas representações simbólicas e de suas
formas de identificação social.
É justamente sobre esse, terreno que o
presente texto se situa, procurando avançar algumas reflexões iniciais.
Discorre principalmente sobre dois desafios teóricos bem delimitados: (a) como
entender o entrelaçamento entre cultura de empresas, que reflete sobretudo
requisitos tecnológicos e gerenciais, e culturas do trabalho, forjadas no
cotidiano das relações sociais na produção?; (b) como explicar; face à
incipiência de tradição urbano-industrial, a riqueza de recursos culturais
capazes de apetrechar novas trajetórias sociais conducentes ao trabalho fabril?
O universo de nossa experiência de campo
levou-nos a restringir essas indagações iniciais a dois segmentos profissionalmente
bem delimitados do novo operariado baiano - os “trabalhadores com carreira” ou
“técnicos de nível médio” e os “trabalhadores sem carreira” ou
“semiqualificados” - ambos contratados e estabilizados na indústria de processo
(principalmente petroquímica, química e químico-têxtil). São dois segmentos
centrais, do ponto de vista da formação de uma nova identidade de classe
operária na Bahia, e dos mais atuantes no movimento operário-sindical local.
Ficam de fora do nosso universo, contudo, categorias importantes desse
operariado, como por exemplo, os trabalhadores de ofício e os diversos tipos de
trabalhadores subcontratados, sem estatuto e não organizados.
Essas reflexões nos permitem, com as
devidas precauções, avançar no conhecimento da formação atual da classe
operária, visto que nelas se encontram os trabalhadores melhor situados e de
maior capital cultural, que norteiam a construção de uma identidade de classe.
Mais que isso, elas acabam por evidenciar que essa identidade é construída em
conflito consigo mesma e não apenas em conflito com o outro - não-operário. Ou,
para sermos mais claros, essa identidade se forma por sobre representações de
si que são heterogêneas, ou mesmo contraditórias.
Nossa análise consiste em procurar
recuperar as marcas objetivas de distinção desses dois segmentos em torno dos
eixos e dos espaços concretos em que eles se movem: o trabalho e sua
organização, a família e o capital cultural possível de adquirir, a
distribuição de poder na fábrica e fora da fábrica. Para entender como esses
eixos estruturam as práticas e as representações dos sujeitos, procuramos
contrastar análises de posição com análises de trajetórias, de .tal modo que a
posição ocupada em cada um dos espaços de sociabilidade fosse vista em
perspectiva, i.e., do ponto de vista de um sujeito dotado de história, de
projeto e de percurso. Torna-se possível, assim, destacar-se das referências
puramente fabris, e integrar referências extrafabris (culturas, ideologias e
políticas locais) na formação de subjetividades operárias.
Os dados utilizados na análise provêm de
dois tipos principais de fonte: estudos de caso conduzidos em empresas
petroquímicas, tendo - como objeto a compreensão do processo, da organização e
da gestão do trabalho; e o estudo de práticas familiares e culturais num
quarteirão residencial no bairro da Liberdade em Salvador, onde é significativa
a presença de trabalhadores industriais. A diversidade das fontes e das
tradições teóricas em que esses estudos se baseiam constituíram, a um só tempo,
o principal incentivo e o maior desafio deste texto: construir a
complementaridade e a organicidade teórica entre as duas tradições,
sobrepondo-as, às vezes, a eventuais lacunas empíricas.
O texto está organizado em duas partes.
Na primeira, centramos a análise sobre os trabalhadores com carreira, buscando
no processo produtivo, na cultura da empresa e na sua ideologia as práticas e
as interpelações que procuram criar um sujeito operário funcional aos
interesses gerenciais, para depois confrontar esses dados com as representações
forjadas no cotidiano fabril e nos percursos sociais dos trabalhadores. Na
segunda parte do texto, a análise procura percorrer o caminho inverso: ao invés
de partir das determinações da organização fabril, as inserirmos desde o início no
sistema simbólico dos sujeitos; ao invés de defrontarmo-nos com “técnicos” que
se descobrem “peões”, encontramo-nos face a trabalhadores que jamais poderão
atingir plenamente o status de “técnico”.
A profissão, a carreira e as
representações de si
O passo inicial para compreender a
auto-identificação dos trabalhadores das indústrias de processo em Salvador é
estudar a proeminência dos trabalhadores de carreira, enquanto referência para
a formação de uma nova identidade de classe. Trata-se de técnicos de nível
médio que desempenham funções peculiares nas indústrias de processo: operar,
reparar e monitorar o equipamento e o processo produtivo. O caso paradigmático
é o do operador de processo químico. Longe de constituir um outro ofício
operário, a atividade do operador é definida como uma profissão: atividade
permanente de caráter técnico e mental, dotada de uma carreira, ou seja, de uma
gradação de funções e cargos que só podem ser exercidos pelos titulares de um
diploma.
O que caracteriza o processo contínuo é a
ausência de controle efetivo do trabalhador sobre o fluxo e a qualidade da
produção, que são programados previamente e instruídos automaticamente aos
equipamentos. No caso da indústria de propriedades (1), por tratar-se de
processos físico-químicos, não há qualquer manipulação dos produtos ou dos
insumos.
A falta de controle do trabalhador sobre
o processo produtivo não significa, contudo, que ele tenha perdido o controle
sobre o seu processo de trabalho. Ao contrário, rompe-se a lógica taylorista
onde o controle sobre o processo de produção requer o controle sobre o processo
de trabalho. Assim, o trabalhador que controla os equipamentos continua sendo o
único a ter efetiva condição de intervir rapidamente sobre qualquer alteração
do processo, embora não seja ele quem lhe determine a velocidade ou a
qualidade. Para desempenhar adequadamente essa função, ele precisa controlar o
seu próprio trabalho, isto é, saber quando, como e onde intervir, e a natureza
dos riscos envolvidos, tanto para a vida dos equipamentos quanto para as vidas
humanas.
Do mesmo modo, a função de monitoramento
não pode ser nunca uma função desempenhada e controlada individualmente. Ao
contrário, é forçosamente uma função coletiva que articula as diversas fases
implicadas no processo. Daí a necessidade de se estabilizar um coletivo
operário que adquira um íntimo conhecimento com a planta e que desenvolva um
certo código ético-cultural de autocontrole. O tamanho desse coletivo depende
em grande medida do número de pontos de controle existente em cada processo.
Este coletivo deve ser calculado em função do número de pessoas necessárias
para identificar e corrigir rapidamente eventuais situações que impeçam a
operação normal das diversas plantas de que se compõe uma fábrica química.
De fato, sendo automatizada, a operação
normal exigiria um número diminuto de trabalhadores se esses fossem usados de
modo intensivo. Ao contrário, o ritmo de trabalho numa fábrica química nunca
pode ser tal que a rotina de trabalho impeça ou diminua a rapidez com que a
equipe possa ser mobilizada para uma emergência (2).
Do mesmo modo, por menos automatizada (3)
que seja uma indústria de processo e que, portanto, existam muitas tarefas
regulares passíveis de serem supervisionadas diretamente, não é factível a
generalização de métodos tayloristas, posto ser exatamente a responsabilidade
operária que se quer incentivar. Além do mais, o desempenho é principalmente
coletivo, sendo difícil medi-lo em termos de estrita produtividade; ou seja, não
faz sentido relacionar o volume de produção com uma unidade temporal como, por
exemplo, um turno de trabalho, para medir o desempenho de cada equipe
particular. Isso porque a principal tarefa de uma equipe não é “produzir”
diretamente, mas impedir que se rompa um fluxo predefinido e automatizado de
produção. A produtividade só pode ser medida em grandes intervalos de tempo e
depende, igualmente, tanto da eficiência dos equipamentos quanto da
qualificação do coletivo trabalhador.
Diante dessas limitações, o controle
sobre o desempenho individual e coletivo deve tomar a forma de autocontrole. É
necessário que o coletivo operário desenvolva uma certa cultura do trabalho que
envolva noções de perigo e responsabilidade. O operador de processo é, de uma
certa maneira, moldado por uma equipe de turno, que lhe transmite uma ética
particular (os valores do grupo, ou seja, a confiança nos outros e em si mesmo,
a competência, a coragem, a disponibilidade, a responsabilidade com os colegas
e com os equipamentos), enfim, que lhe incute um conjunto de expectativas
comportamentais em relação aos outros - companheiros, chefes e colegas de
outras plantas.
Ademais, a função do operador é, em
grande medida, “mental” e sensorial, apenas residualmente manual. Para
monitorar, manter ou corrigir as variáveis físico-químicas em que se dá o
processo produtivo, ele necessita ter em mente o conjunto do processo em sua
articulação e um conjunto de procedimentos alternativos. Nessa ocupação, a
referência deixa de ser a máquina ou atarefa e passa a ser o conhecimento do
processo produtivo como um todo. O fundamental para o desempenho é que o
operador detenha o conhecimento técnico do processo em sua inteireza, qual a
natureza das reações físico-químicas em cada etapa produtiva, quais os equipamentos
e as formas de controle do processo, quais os riscos envolvidos em cada etapa,
quais as especificações técnicas requeridas etc.
A princípio, sua formação deve ser
generalizante (conhecimento dos processos químicos em geral e das diversas
etapas de um processo químico específico). Sua adscrição a um dado processo ou
a uma dada área, no entanto, acaba por especializá-lo, a “casá-lo” com uma
planta. Isso porque conhecimento e sensibilidade extraordinários de monitoramento
de operação limitam-se necessariamente a poucos processos e a um número
reduzido de equipamentos.
Para que essa cultura e essa ética
efetivamente se desenvolvam de modo funcional aos requisitos da produção, é
necessário que a gestão do trabalho estimule essas características na força de
trabalho através do desenvolvimento de uma cultura de empresa específica.
Cada uma dessas características é
informada por uma imagem profissional de referência (o técnico) e uma ideologia
de desempenho (a produção em condições de segurança) que estão incutidas tanto
nas falas quanto nas práticas gerenciais. É para a descrição dessas imagens
idealizadas que passaremos a seguir.
A idealização do trabalho e do trabalhador
Os cursos de operador de processo
oferecidos pelas empresas, assim como os demais cursos oferecidos pela Escola
Técnica Federal da Bahia, não formam operários ou “oficiais” à maneira dos
antigos liceus ou dos cursos do Senai. Formam, ao contrário, “técnicos”, ou
seja, especialistas no conhecimento aplicado e no conhecimento dos “meios”
instrumentais relativos a certas áreas práticas das ciências (eletricidade,
mecânica, análise química, processos petroquímicos, instrumentação etc.). Junto
com a formação técnico-científica, forma-se também uma certa subjetividade
particular (Therborn, 1980). Esta consiste numa identificação construída por
contraste à tradição bacharelesca e “doutoresca” das universidades: ao invés de
bacharéis, com domínio sobre a cultura literária, ou doutores, com domínio
sobre a cultura científica, os técnicos teriam, na medida exata, o domínio
especializado sobre a parte da ciência realmente aplicável. Associadas à
oposição entre técnicos e bacharéis estão as oposições entre o moderno e o antigo,
entre o útil e o inútil, a realidade e a poesia, o produtivo e o improdutivo.
Desse modo, interpretando a sua
trajetória, o trabalhador se vê como alguém que, ao abrir mão dos sonhos de
juventude (o desejo de se tornar bacharel ou doutor), encarou a realidade do
mercado de trabalho, escolhendo uma profissão moderna, típica de um Brasil
futuro, que lhe permitiria até mesmo o prosseguimento de seus estudos. Sonhos
que a condição financeira da família ou a inapetência para estudos aprofundados
não lhe permitiriam realizar naquele momento. Um pouco como racionalização a posteriori,
o operador interpreta essa fase de sua vida como um mergulho na realidade.
O interessante, todavia, é que essa realidade, percebida como ruptura com um
sonho desfeito, se constitui, por assim dizer, através da criação de um outro
sonho: o sonho de um mundo industrial que nasce por entre a pobreza e a inércia
de uma sociedade provinciana.
Coerentemente, na representação que fazem
de si mesmos, esses trabalhadores valorizam as atividades fabris, as quais são
abundantemente referidas em seus depoimentos, enfatizando a complexidade e o
avanço tecnológico do processo, bem como a importância do conteúdo teórico ou
comunicativo do trabalho.
A expectativa que antecede a entrada do
trabalhador no mundo fabril expressa-se em imagens recolhidas nos modernos
épicos cinematográficos. O estagiário se imagina controlando painéis similares
aos de uma nave espacial e, mesmo após anos de trabalho, continuará a buscar na
pilotagem de uma aeronave as imagens para descrever seu trabalho.
A maneira dos épicos, seu desempenho
funda-se na coragem, na inteligência, na rapidez de raciocínio, numa certa
generosidade para coar quem está em dificuldades, enfim, num certo heroísmo. É
justamente sobre a noção do perigo imanente que se edifica a cultura da fábrica
petroquímica. O perigo criado pelo homem por intermédio de sua ciência só pode
ser controlado pela própria ciência através de uma atitude reflexiva, medida,
disciplinada, que evite o erro, o descaso, a imprecisão, o medo. Essa conduta
exemplar se encontra normatizada nos procedimentos de segurança industrial,
ensejando assim o surgimento de uma verdadeira ideologia dominante, definindo
papéis subordinados e complementares.
O perigo faz parte do caráter “futurista”
do espaço de trabalho e é também um sentimento incorporado à pessoa que se
envolve no funcionamento do processo: trabalhar numa área perigosa implica
enfrentar o medo e assumir, individualmente, responsabilidades em relação a
vazamentos e a explosões, em relação ao conjunto do processo e em relação aos
outros trabalhadores. A angústia do acidente traduz a interiorização do
princípio incutido pela empresa: “Como se diz: todos os acidentes são
provocados. Quem provoca os acidentes somos nós”.
Para enfrentar - o perigo imanente, a
disciplina precisa ser secundada, pela habilidade técnica, pela experiência
prática e, principalmente, pela autoconfiança e intrepidez. A fonte de todos
esses atributos, no entanto, é o conhecimento científico, o único capaz de
criar e controlar os riscos.
A responsabilidade em relação ao
processo, ao controle de qualidade e à segurança industrial aparece nas
representações dos trabalhadores como uma fusão entre pessoa e processo
produtivo que se mantém fora do ambiente de trabalho:
“O
operador II, ele tem aquela responsabilidade de estar sempre olhando, está
sempre se preocupando com o que pode acontecer, até com os cálculos do próprio
operador chefe. Me preocupo com as coisas que eu faço, para que não haja um prejuízo
nem quetambém haja um acidente, nem nada assim ... Antes eu chegava aqui (em
casa), até sonhava: ‘Tem alguma coisa prá fazer? Um tanque prá lavar?’ Ficava
sonhando e falava alto. S. (esposa) às vezes perguntava: ‘O que é menino?’
‘Aquele tanque, já lavou e tal, eu sonhava’... (operador II, química).
A imagem idealizada que se faz do trabalho encontra-se
sistematizada na noção de “técnico” - um assalariado que desempenha funções que
requerem conhecimentos técnicos-científicos, responsável pelo trabalho em
determinada área de competência e capaz de organizar suas tarefas a partir de
normas objetivas e racionais de autodisciplinamento.
Essa representação é materializada em
planos de carreira onde o ápice, o degrau de plena maturidade profissional, é
justamente alcunhado de técnico. Assim, operadores, analistas, desenhistas,
mantenedores, inspetores de equipamentos, almoxarifes e instrumentistas são
assalariados oriundos de cursos profissionalizantes de nível médio ou
equivalente que ingressam na carreira como estagiários para, depois de dois ou
três níveis (geralmente referidos pelos algarismos romanos I, II e III),
atingirem os cargos de chefia de área, conhecidos respectivamente como Técnico
de Operação, Técnico de Laboratório, Técnico de Projeto, Técnico de Manutenção,
Técnico de Segurança, Técnico de Suprimento e Técnico de Instrumentação.
A figura do “técnico”, portanto, é uma
construção imaginária, uma forma de “interpelação” de sujeitos inscrita numa
ideologia peculiar à fábrica petroquímica - a da segurança industrial. Símbolo
da indústria de processo, a figura do “técnico”, legitimada pelas carreiras de
nível médio, deve entretanto ser confrontada com as práticas das relações de
trabalho. É para elas que nos voltamos a seguir.
Identidades em conflito: o peão
Independentemente do tipo específico de gestão
em cada empresa, a segmentação dos postos de trabalho baseada no nível de
escolarização formal (superior, média, primária) é o traço mais significativo
para entender as relações de hierarquia entre os diversos segmentos
assalariados no interior da fábrica petroquímica.
Em termos do conteúdo do trabalho, a distinção
entre técnico de nível médio e engenheiro não é apenas de grau (o conteúdo mais
abstrato e mais conceitual da atividade deste último, ou mesmo as funções de
supervisão decorrentes de um maior saber e de uma maior liderança técnica). É
sobretudo o caráter social do conhecimento exigido do “engenheiro” que marca a
diferença. Esse conhecimento abarca mais do que formas de comando; é um conhecimento
político-econômico, uma capacidade de manipular ao mesmo tempo variáveis
internas e externas ao processo produtivo (não apenas o processo técnico de
produção mas, também, o processo de valorização e as condições de realização do
produto, mormente os custos de produção, as variações de preço de mercado, a
qualidade média e as condições de concorrência).
O padrão de relação entre trabalhadores de nível médio e
superior está socialmente marcado pela diferença hierárquica e por símbolos de
subordinação. É desse modo que as diferenças de formação escolar se consolidam
em diferenças de titulação e se expressam numa rígida separação de esferas de
competência, que desnudam a organização do poder nas fábricas. Não se trata
apenas da subordinação do trabalho de execução ao trabalho de programação e
planejamento. Trata-se principalmente do monopólio a das
posições de poder social mais abrangentes, por parte de uma camada
profissional, em detrimento da competência técnica operacional demonstrada por
indivíduos (4).
O caso mais comum é que esse monopólio se
consolide nas próprias áreas de operação, constituídas como territórios
despoticamente comandados por engenheiros. Despótico no sentido exato de que o
arbítrio da autoridade fabril, na prática, não encontra limites legais, pois
não existem canais ou mecanismos formais de negociação de agravos.
Esse tipo de subordinação está na raiz da
auto-identificação dos trabalhadores de nível médio (operadores, analistas,
inspetores) enquanto peões. É isso que nutre, entre os trabalhadores
técnicos de nível médio, um confronto permanente entre a representação que se
legitima pela tecnicidade e a representação da posição inferior (de “peão”)
ocupada nas relações sociais na fábrica. Ser peão é principalmente estar subordinado
a uma autoridade que não pode ser questionada e que pode dispor do trabalho das
pessoas sem lhes prestar esclarecimentos. O operador de processo, por exemplo,
assim como seus companheiros de laboratório, ocupam o primeiro degrau
hierárquico de uma cadeia de subordinação, marcada sobretudo pelo fato de que
apenas os engenheiros possuem as informações sobre variáveis mercadológicas,
financeiras e sócio-econômicas que forçam alterações no processo produtivo.
Mas a autodenominação de peão é também
uma forma simbólica de insubordinação. Ao tomar emprestado às categorias mais
desqualificadas do operariado (o proletariado de referência) um nome para
designar-se, o técnico de nível médio está, a um só tempo, identificando-se com
esse proletariado e insubordinando-se contra os mecanismos que alimentam o seu
status subordinado. Esta é, pois, uma representação gerada duplamente em
conflito: em conflito com a imagem idealizada de “técnico” e em conflito com a
hierarquia superior.

Institucionalmente, esses
conflitos se expressam sobretudo em relação às carreiras operárias. De fato, a
carreira poderia se incumbir de minorar o caráter discriminador da cadeia de
subordinação na medida em que possibilitasse efetivamente uma progressão em
direção a posições menos subordinadas. Isso, no entanto, não acontece por dois
motivos: primeiro, porque as características da indústria de processo exigem
uma mão-de-obra estabilizada e experiente, obrigando uma certa lentidão na
carreira (os operadores de campo têm, em média, seis anos na função e os
Técnicos de Operação têm na empresa praticamente o mesmo número de anos das
plantas); segundo, porque existe um requisito de escolaridade formal (o curso
superior de engenharia) que impede os operadores de atingirem os cargos
hierarquicamente superiores nas áreas de operação.
Existe, assim, um estrangulamento crônico
das carreiras técnicas que faz com que o ideal de “autonomia” e o prestígio dos
cargos técnicos sejam efetivamente vivenciados apenas por uma minoria (um
Técnico de Operação para cada oito operadores). A definição das carreiras
operárias, que em outros contextos (Gallie, 1978; Hirata, 1984) empresta um
sólido caminho para o consentimento operário, é, na Bahia, a fonte mais
importante de insatisfação e ressentimento (Guimarães, 1988; Castro, 1988).
Através do seu autoritarismo e
despotismo, a política fabril exibe em cores fortes o desprezo culturalmente
reservado para o trabalho pesado ou subordinado. Nas falas dos operadores, a
arbitrariedade das chefias (geralmente engenheiros) é um tema sempre presente.
O desprezo social e cultural contido na
dureza disciplinar e o estrangulamento objetivo da carreira mexem exatamente na
adequação entre a figura do trabalhador com carreira, incutida pela cultura
fabril, e o percurso social desses trabalhadores. É essa adequação que delimita
as possibilidades de formação de uma identidade social essencialmente
profissional, construída em torno do título de técnico de nível médio,
explicando o vigor das reações ao desencanto trazido pelo despotismo e pelo
bloqueamento das carreiras. Nós voltaremos a seguir para o exame desse ponto.
O
operador insatisfeito: esperanças e desencantos
Para os trabalhadores de carreira, o
emprego atual nas indústrias de ponta aconteceu “naturalmente”. Oriundos das
antigas classes intermediárias baianas que escolarizavam seus filhos em busca
de oportunidades de ascensão social, eles puderam se aproveitar, nos anos
setenta, da oferta de emprego industrial para uma população jovem, masculina e
escolarizada.
A origem familiar lhes possibilitou não
somente um ciclo completo de escolaridade (pelo menos o 2° grau) como também a
construção de projetos profissionais relativamente livres das angústias da
sobrevivência. Seus pais ocupam ou ocuparam posições profissionais que
permitiram um projeto ascensional familiar, incluindo as despesas com a
formação do capital escolar e cultural dos filhos, e a familiarização destes com
os aspectos racionais, técnicos ou até gerenciais e reivindicatórios presentes
no trabalho industrial.
O que
torna possível o discurso fundador de uma identidade social voltada para a
profissão e para inserção na “coletividade industrial” do Pólo é a adequação
entre a pessoa e a figura dominante da indústria de processo. Jovens e
escolarizados, a representação que fazem do trabalho se coaduna com o
princípio do processo industrial: para eles o saber e o fazer são um só. Quando
não passaram diretamente da Escola Técnica para o Pólo, vieram de empregos
envolvendo certa familiaridade com o saber técnico: contabilidade, informática,
relações públicas etc. A posse do diploma de 2° grau (freqüentemente com uma
especialização da Escola Técnica Federal) lhes dá a certeza de corresponderem
aos requisitos formais de acesso às indústrias de processo. A realização de
tais percursos é a fonte de um sentimento de legitimidade quanto à posição
profissional. Desde o ingresso na primeira empresa, o currículo que apresentaram
era respeitável.
Todavia, é preciso notar que, para muitos desses
trabalhadores, as tentativas frustradas de entrar na Universidade (os
vestibulares perdidos) ensejaram um sentimento de desclassificação social ou,
pelo menos, de trajetória inacabada e de esperanças não plenamente realizadas.
Esse sentimento torna-se mais agudo quando se trata de pessoas que
interromperam cursos universitários sem conseguir um título aproveitável para a
carreira. Nesses casos, vive-se então uma confrontação difícil entre a
representação de um futuro possível, dada pela trajetória familiar, e a
realidade da condição operária inicialmente desprezada.
Além da formação de imagens futuristas e modernistas
associadas ao trabalho e ao universo do Pólo, a principal resposta à interrupção
da trajetória esperada se encontra na acumulação contínua de saberes e
diplomas, com os quais se espera alcançar uma profissionalização mais completa,
diversificada e reconhecida. Trata-se de acumular “cursinhos” e formações
complementares para se aproximar de um nível “superior” não alcançado via
universidade.
O fato de que a identidade social desses
trabalhadores é essencialmente profissional, voltada para a valorização da
competência e do universo de trabalho, se traduz ainda na elaboração de
projetos familiares que se confundem com as previsões e as limitações da
carreira. Esta se torna então um negócio de família.
Freqüentemente, as esposas conhecem muito
bem as condições de trabalho no Pólo e, nas entrevistas, respondem no lugar do
marido ou junto com ele quando se trata de salário, de horários de trabalho, de
promoção ou reivindicações. Elas geralmente trabalham fora de casa e esse
emprego, segundo os homens, é “uma ajuda” ou “dá uma força”. Daí a formação de
um casal “solidário”, não só na definição dos projetos familiares, mas também
na vivência cotidiana da família. O sistema de representações que combina a
legitimidade da inserção na indústria de processo, a identidade social
profissional, a insatisfação em relação à carreira e o discurso reivindicatório
determina não somente a subjetividade do trabalhador, mas marca a identidade de
todo o grupo doméstico.
O “casamento” do operador com a planta,
necessidade de uma cultura do trabalho de processo, inspirada pela própria
empresa, faz com que a pessoa tenda a se confundir com o trabá= lhador.
Coerentemente, a insatisfação nascida da contradição entre a simbologia do
técnico - que legitima e permite toda esperança - e a realidade da gestão do
trabalho e das carreiras se torna um fato não apenas fabril mas “total”,
mexendo com a própria essência da identidade social da pessoa.
A
construção das diferenças
Uma parte numericamente importante dos
trabalhadores das indústrias de processo se desvia do “modelo” simbolicamente
dominante do técnico de nível médio, tanto do ponto de vista de sua origem
social como da sua trajetória profissional. Eles se encontram principalmente
entre os “auxiliares”, “ajudantes” e outros trabalhadores semiqualificados e
sem carreira.
Não se pode delimitar, porém, essa
diferença interna em termos estritamente de funções: alguns operadores, por
exemplo, se afastam da simbologia dominante do “operador” (a depender,
principalmente, do sub-ramo onde trabalham), enquanto, ao contrário, alguns
trabalhadores com forte capital escolar e técnico se encontram provisoriamente
em funções desclassificantes, devido à dificuldade de acesso às grandes
indústrias. Nem empírica, portanto, e nem tampouco analiticamente, essa
diferença pode ser decalcada exata e diretamente das funções. É antes de tudo a
partir da posição relativa dos trabalhadores na trajetória social do seu grupo
familiar, no percurso da sua linhagem, que se pode entender a sua posição
profissional e a representação que se fazem desta (Godard e Bouffartigue, 1988;
Bourdieu, 1982; Berteaux e Berteaux-Wiame, 1988; Agier e Castro, 1989).
O universo de referência simbólica desses
trabalhadores, esquematicamente definido no quadro de sua socialização e no
destino de sua família, é constituído pela pobreza. Apesar de serem oriundos de
famílias não “carentes”, já “equilibradas”, com rendas relativamente estáveis
embora baixas, pode-se observar freqüentemente uma trajetória paterna de “saída
da pobreza” (chegada ao final da vida profissional em um emprego subalterno na
indústria tradicional, por exemplo), do mesmo modo que se encontra amiúde a
presença, entre irmãos e colaterais, de desempregados, “biscateiros”,
trabalhadores instáveis ou de baixa renda.
O percurso social das famílias desses
trabalhadores não permitiu que a geração atual tivesse uma formação escolar,
científica ou técnica, compatível com os requisitos do trabalho na indústria de
processo. Pode constituir, contudo, uma representação do trabalho e do dinheiro
que permitiu a esses outros-dentro-da-mesmacoletividade-industrial conseguir,
através de seus próprios meios sociais e simbólicos, um lugar no Pólo. Lugar
esse marcado pela “ilegitimidade” e pela precariedade do seu status profissional,
assim como pela inferioridade de sua posição nas relações sociais de trabalho.
Ilegitimidade da posição profissional e inferioridade de status
Quando se tem um nível de 2° grau
conseguido a duras penas, completado em cursos noturnos e “supletivos”, com
idade em torno de 25 anos, depois de já se ter começado a trabalhar, ou quando
se tem um nível secundário incompleto (escolaridade interrompida ao nível do
ginásio), o acesso ao Pólo ou a qualquer indústria de processo é uma “luta”.
É preciso “batalhar” muito, ou seja, se
dispor a: (a) “entrar pela porta dos fundos” (um posto de auxiliar de segurança
ou de serviços gerais, ajudante de manutenção ou de operação) para depois, uma
vez estabilizado na empresa, tentar a passagem para operador ou para outra
função mais valorizada; (b) “entrar na empresa por intermédio de
subcontratação” para só depois ser contratado graças a um “padrinho” conseguido
no lugar de trabalho, ou à demonstração de seus valores técnicos e sociais; (c)
“entrar pela janela”, isto é, contornando as provas normais de seleção graças a
relações pessoais, o que na verdade somente vale para o ingresso nas funções de
auxiliar e ajudante; (d) “saber se satisfazer” inicialmente com as empresas
relativamente desvalorizadas (dentro de uma gradação local das indústrias de
processo segundo as matérias trabalhadas e os salários pagos: a química é
inferior à petroquímica, a químico-têxtil inferior à química etc.) para depois
ter acesso a uma empresa dita “maior”.
Nos discursos desses trabalhadores, a
valorização do trabalho no Pólo se faz primeiramente em termos de salário. A
diferenciação de status a partir do salário se constrói por referência a um
lugar de pertinência, um “aqui” (no caso, a Liberdade, bairro antigo, popular e
de baixa renda) rejeitado, e um outro lugar “lá” (o Pólo ou as indústrias de processo
em geral) alcançado e valorizado pelo sujeito: “Se você trabalhar aqui mesmo
você vai morrer de fome (...) lá a gente ganha bem”. Este “aqui” rejeitado é
assimilado aos setores de emprego dominantes no mercado de trabalho acessível
às camadas sociais mais pobres da cidade: o comércio e a função pública.
A própria representação do trabalho é
também construída mais em referência ao “aqui” desvalorizado do que ao próprio
local de trabalho, globalmente valorizado não por suas qualidades intrínsecas mas
por contraste ao “aqui”. Conseqüentemente, os discursos sobre o trabalho não
focalizam a competência, mas o esforço. A auto-identificação consiste na
rejeição das formas, caricaturadas, do não-trabalho enquanto não-esforço, que
os sujeitos encontram no seu ambiente conhecido.
Essa apologia do esforço fundamenta uma,
identidade profissional que, justamente por não ser a afirmação de um saber
técnico, se afirma no “fazer”, através da experiência dos objetos, produtos e
procedimentos do trabalho, experiência vivida no corpo, adquirida quase
magicamente, por fora da formação técnica clássica. Ela chega até a produzir um
certo embaraço face a reivindicações que tendem a reduzir a fadiga dos
trabalhadores, como por exemplo a quinta turma de trabalho.
A diferença entre esses trabalhadores de
origem pobre e aqueles oriundos da pequena classe média evidencia-se de
imediato nos percursos sociais das suas famílias, nos canais de ingresso nas
empresas, e nas concepções do trabalho. Os primeiros recorrem a formas de
ingresso socialmente depreciadas e acentuam o esforço em detrimento do saber,
enquanto os últimos puderam elaborar projetos profissionais, adquirir o capital
escolar e técnico adequado à indústria de processo e alcançar, “naturalmente”,
o título de técnico de nível médio.
Essa diferença de percurso se reencontra
nas representações das posições e dos projetos profissionais e nas relações
sociais no ambiente fabril. A legitimidade dos técnicos de nível médio
corresponde à ilegitimidade dos “esforçados”; à carreira dos primeiros
corresponde o sentimento de fragilidade do estatuto profissional dos segundos.
A ilegitimidade se fundamenta nas
condições de ingresso na indústria de processo, à margem dos caminhos e dos
postos formais valorizados pelas empresas e pela sociedade local. O corolário
desta “ilegitimidade” profissional é a manutenção de uma posição de
inferioridade e a predominância de qualificações morais para se autodefinir e
definir os outros.
A inferioridade se encontra já nos
relatos que os sujeitos fazem hojedos procedimentos passados do seu difícil
acesso às empresas. Importância, reputação, influência (o “dar uma
força”) são qualidades de status em relação às quais os sujeitos se situam, de
imediato, numa posição de subordinação. Amizade, familiaridade, apadrinhamento
ou compadrio (de fato ou de “de consideração”), designam a competência
relacional dos humildes para beneficiar-se do poder dos patronos.
O humilde na sociedade poderá então se
tornar, sem ruptura, um “peão” nas relações sociais da empresa. As designações
morais e a atitude submissa podem se reproduzir no ambiente do trabalho e
compor o código de interpretação da empresa ou do sindicato, oferecendo,
portanto, um terreno propício, seja ao paternalismo patronal, seja ao
clientelïsmo sindical.
A empresa é qualificada moralmente: “Foi
uma mãe pra mim” ou “Lá, não é coisa boa”. Os benefícios são percebidos como
uma bondade da empresa: “Tudo de graça, a empresa dá tudo”. O sindicato é
visto, ao mesmo tempo, como instituição dominante e próxima: “Tem o sindicato,
o pessoal do sindicato, essa nova diretoria é muito boa. A gente sempre deve
agradecer ao sindicato que luta muito”.
Os trabalhadores subalternos são tratados
no espaço de trabalho como “outros” por aqueles que ocupam os postos centrais;
a representação que se tem deles é feita em torno de temas como a falta de
“raciocínio” e a inadequação de comportamento social.
Assim, alguns chefes se queixam da falta
de disciplina dos Auxiliares de Serviços Gerais. Esse tipo de queixa torna
óbvia a ilegitimidade atribuída aos trabalhadores subalternos e permite ver que
a inferioridade desses últimos é descrita em termos mais culturais do que
técnicos:
“Nosso
maior problema aqui é exatamente com o pessoal de serviços gerais, um pessoal
que não pensa muito bem no que td fazendo, não raciocina, não conta que o que
tá ganhando aqui não vai ganhar lá fora... Com o pessoal de operação, problema
de responder, de não cumprir ordens, nino acontece”.
Essa relação se reproduz, de um certo modo, num quadro
maior, quando, por exemplo, o operador de uma empresa química ou químico-têxtil
recebe a metade do salário pago na petroquímica pelo mesmo posto que, nesta
última, corresponde, no entanto, a uma função mais qualificada e, por isso mesmo,
de mais difícil acesso.
A lógica dessa representação da posição
profissional é determinada tanto por uma origem familiar socialmente perto da
pobreza, quanto pela inadequação entre o capital escolar e técnico e os
requisitos valorizados na indústria de processo. Essa lógica leva os
trabalhadores sem diploma a uma situação de “ilegitimidade” (para eles e para
os outro), a um pertencimento precário à coletividade industrial do Pólo e a um
sentimento de fragilidade na posição profissional, expressos geralmente na
ausência de perspectiva de carreira.
A inferioridade já dada pela posição
social se reproduz nas relações e representações no espaço de trabalho.
Reproduz-se igualmente na posição secundária, sem iniciativa, que eles ocupam
na formação da identidade do grupo. Ou seja, o saber é mais importante que o esforço
para “produzir” a identidade profissional.
Isso não quer dizer que não se encontre entre esses
trabalhadores “ilegítimos” uma construção identificatória. Esta, todavia, se
define mais em relação ao cotidiano urbano e à parte rejeitada de si do que em
relação a uma série de qualidades extraídas do ambiente fabril. Porque esses
trabalhadores não se sentem seguros de seu estatuto profissional, eles sempre
se perguntam se o Pólo é mesmo seu lugar. O mais comum é que eles delimitem sua
identidade através de uma série de distinções, rejeições e violências
simbólicas que os diferenciem, a todo custo, do seu meio social de origem.
Pode-se mapear três domínios principais dessa construção: a família, a residência
e a representação da cor.
Família, residência e cor: a identidade social enquanto
vontade
A conseqüência imediatamente mais visível
do acesso ao Pólo é o consumo de bens até então inacessíveis. Representa também
a possibilidade de realização de projetos pessoais, notadamente matrimoniais.
Há uma correspondência regular nas trajetórias dos trabalhadores entre o
ingresso numa empresa que oferece estabilidade ou o acesso a um estatuto
profissional reconhecido (operador) e a formação de família.
A família que então se forma vai se
diferenciar do seu meio social e urbano sob vários aspectos: (a) pela maior
autonomia de renda e de organização em relação às famílias de origem dos
cônjuges; (b) pela institucionalização imediata do casamento civil; (c) pela
elaboração de “projetos familiares”: projetos de consumo, de mobilidade
residencial, projetos educacionais ou mesmo profissionais para as crianças,
limitação do número de filhos em função das possibilidades econômicas.
Esses matrimônios ocorrem num ambiente
social dominado pela instabilidade conjugal e raridade das uniões oficiais,
pela necessidade de apoio das famílias de origem (principalmente do lado
materno), pelo número relativamente grande de famílias matri-focais e pela
desvalorização da figura do pai. Os matrimônios constituem, então, símbolos
locais de uma família “legal”, equilibrada, onde a figura do homem contém todos
os componentes do status de chefe de família, ou seja, traços familiares
de uma cidadania oposta à pobreza.
Entre todos os projetos da nova família,
o mais significativo e o de mais difícil realização é o acesso à propriedade
residencial, que geralmente vem associado a uma mudança de bairro.
Os fluxos globais de mobilidade
residencial dos trabalhadores do Pólo (que começam a mudar de residência de uma
maneira estatisticamente significativa a partir de dois anos de empresa)
evidenciam uma tendência geral de saída dos bairros mais pobres e
desvalorizados da cidade (onde quase a metade do conjunto da mão-de-obra morava
no momento do ingresso) em direção aos bairros abastados, modernos, novos,
geralmente localizados junto à orla marítima ou, de uma maneira mais modesta,
em direção às zonas socialmente intermediárias (bairros de pequena classe média
ou conjuntos habitacionais em áreas de expansão) (5).
Aqueles que continuam nas zonas mais
pobres da cidade travam uma luta in loco no sentido de uma reclassificação
social. A luta consiste, geralmente, em reformar profundamente a casa, comprada
a preço relativamente baixo, obtida por herança ou casamento: ampliação (às
vezes demolição e reconstrução completa), abertura de garagem, gradeamento,
construção de um outro andar, decoração do interior, investimento no mobiliário
etc. Trata-se, em outras palavras, de marcar a separação entre a casa em
ascensão social e o ambiente urbano desvalorizado.
O que está em jogo nessas estratégias
residenciais é a realização de uma difícil ruptura com a pobreza e a
marginalidade que estigmatizam, na simbologia urbana global, o meio de origem.
A permanência (provisória ou duradoura) em tais bairros é então compensada por
um discurso negativo sobre o bairro, ou algumas partes do bairro, como acontece
no caso desses trabalhadores que moram no bairro da Liberdade: “Existe muitos
lugares bons na Liberdade, mas também existe muitos lugares ruins. Existe
muitos pontos na Liberdade que é marginalizado. A polícia sabe, não acaba
porque não quer”.
Descaracterizar, “limpar” esse espaço e,
por conseqüência, alterar a sua identidade e a dos sujeitos que o habitam é um
exercício imaginário de ruptura com as marcas de marginalidade que caracterizam
o espaço urbano em que se vive. Se, à escala da cidade, esse esforço é vão,
isso significa,, no universo do sujeito, a transformação simbólica do “mesmo”
num “outro”: romper com as propriedades de status dadas por sua biografia
social e residencial.
O mesmo exercício é reproduzido em relação à
representação da cor. Mulatos ou pretos, esses trabalhadores são os sujeitos (o
“nós”) do discurso local de revalorização da negritude; nas suas histórias
familiares ou pessoais encontramse espalhadas as manifestações de um “sistema
cultural negro” (6) : para um, é o conhecimento prático da eficácia dos
“trabalhos” feitos nas encruzilhadas; para outro, é a residência numa casa onde
se cultua o Preto Velho; para um terceiro, é ser o filho biológico de uma mãe
de santo umbandista; para um quarto sujeito, é o seu envolvimento, o da esposa
e o da filha, numa longa cadeia de consultas e trabalhos em casas de Candomblé
e Umbanda para tratar as doenças da família; para um quinto, trata-se da
ex-participação no primeiro bloco “afro” de Salvador, o Ilê Ayê (formado na
Liberdade), etc.
Face a essa imersão
objetiva dos sujeitos na “cultura negra”, os julgamentos excludentes que eles
produzem sobre o negro só podem ser entendidos como uma violência simbólica
dirigida a si próprios. Como não se pode negar a própria cor, tenta-se reiterar
a significação que a sociedade global lhe dá, associando a cor preta ou
“escura” a atributos alheios ao sujeito: a pobreza, a preguiça e a
marginalidade. Aqui, de novo, o exercício consiste em se apropriar do discurso
do “outro” (no caso, um discurso historicamente branco) para transformar o
“mesmo” (negro) num estranho.
Esposar o discurso branco, hierárquico da
“aparência”, significa expor-se a embaraços freqüentes quando se trata de
questões sobre a discriminação racial, como ficou patente nas nossas
entrevistas com trabalhadores negros. Coerentemente, observa-se uma rejeição do
discurso dos movimentos políticos negros, que se expressa às vezes pela mudez
obstinada, às vezes pela crítica violenta (Agier, 1989a).
A violência das falas endereçadas aos
vizinhos pobres, aos bairros periféricos, aos parentes preguiçosos, aos “irmãos
negros” é uma violência simbólica que esses trabalhadores dirigem à sua própria
biografia. Sem beneficiar-se da legitimidade profissional - a do “técnico de
nível médio” -, a identidade desses outros trabalhadores da mesma “categoria” é
antes de tudo produzida através de uma luta simbólica de diferenciação social, como se
se tratasse de apagar uma culpa “natural” (a cor da pele, a origem social
próxima à pobreza, a fraqueza da bagagem escolar e cultural) relembrada
cotidianamente pelo ambiente familiar, social e urbano.
Conclusão
Retomemos, para finalizar, alguns pontos
centrais da análise de modo a precisar teoricamente algumas perspectivas que se
oferecem ao estudo.
Ao longo do texto, verificamos o
desdobramento da cultura da empresa (efetivada pelas gerências nas suas falas,
nos regulamentos, e na organização do trabalho) numa cultura do trabalho
construída pelos próprios trabalhadores. Nesta, a representação de si se
fundamenta na mitificação, reinterpretação e sedimentação de alguns construtos
da cultura da empresa. Assim, a responsabilidade individual e coletiva em
relação à segurança industrial e ao controle da qualidade, incutida pela
gerência, se redefine nas práticas e nos discursos dos trabalhadores, enquanto
“casamento” do trabalhador com a planta e enquanto fusão da pessoa com o
processo, ou seja, na sua implicação não só física mas também mental (racional
e emocional) (7).
Ponto importante da cultura da empresa é
a construção da carreira em torno do diploma do segundo grau e a relevância da
figura do técnico: ao mesmo tempo imagem gerencial e posição profissional
supostamente alcançável. Esse produto mental é redefinido pelo percurso social
dos trabalhadores e valorizado enquanto marca da legitimidade da inclusão numa
nova “coletividade” industrial, a do Pólo, que empresta aos saberes técnicos o
“valor de um capital cultural de caráter emblemático fixado como imagem
valorizante” (Morel, 1989, p. 8). A posse do diploma de segundo grau é
imprescindível, não para entrar nas indústrias de processo ou mesmo para
conseguir um posto de operador, mas sobretudo para conferir legitimidade à
função qualificada e às insatisfações e reivindicações associadas a uma
identidade profissional que se constrói em torno de um projeto de trajetória
cuja meta é um posto designado pelo nome “técnico”.
Outra conclusão importante da nossa
análise é a existência de dois caminhos sociais e simbólicos para se chegar a
uma identificação como “peão”. Um primeiro caminho pode ser resumido,
esquematicamente, da seguinte maneira: o humilde na sociedade se reencontra em
posição de inferioridade nos procedimentos de entrada no Pólo, inserindo-se
coerentemente como “peão” nas relações interpessoais no espaço de trabalho. Julgamentos
morais e sentimento de inferioridade social compõem seu código de interpretação
da empresa, do sindicato, das suas relações com os colegas. Sendo assim, esses
trabalhadores não detêm a iniciativa de caracterização da essência (Bourdieu,
1984) da classe em formação, nem de elaboração e defesa de suas reivindicações.
No entanto, através das práticas e dos discursos que evidenciam dom relação à
família, à residência e à identidade racial, participam decisivamente da
definição dos “trabalhadores do Pólo” enquanto grupo de status, emprestando,
assim, um significado local e particular às diferenças de classe.
Um
segundo caminho para se identificar como “peão”, mais complexo, ocorre entre os
trabalhadores com título, legitimidade e carreira. A realidade da imagem de
“técnico de nível médio” é dada para eles tanto pelas práticas e discursos da
empresa sobre o controle da qualidade e a segurança. industrial,
como pela existência da função de técnico, último degrau da carreira.
Essa imagem se choca constantemente com a
prática das relações hierárquicas de trabalho que materializam uma classificação
por titulação, a partir de diferenças de nível de escolaridade
(médio/superior).
O projeto de mobilidade ascensional
desses trabalhadores se orientou para a indústria, abrindo mão de carreiras
cultural e socialmente mais valorizadas na sociedade baiana tradicional,
apostando na eficácia da ideologia do progresso e ampliando (transformando em
vez de contradizer) a cultura da empresa numa cultura do trabalho, ambas
voltadas para a tecnicidade e o futuro. Nesse caso, a profissão ocupa o espaço
dominante na formação da identidade social. A pessoa como um todo (nas posições
profissionais, sociais e familiares) se envolveu em projetos legítimos de
carreira, de ascensão social e de valorização cultural dados pela inclusão na
coletividade industrial do Pólo, espaço de modernidade. A partir daí, o
autoritarismo e o despotismo das relações hierárquicas e as limitações
objetivas da carreira levam-na, ao mesmo tempo, a uma insubordinada
representação de si como proletário (“peão”) e a uma insatisfação definitiva
com essa posição sem reconhecimento nem poder social.
A legitimidade, a tecnicidade e a
insatisfação explicam a dominância desse modo de identificação tanto na
definição cultural quanto na elaboração dos discursos e das práticas
reivindicatórias do novo operariado baiano. Esses trabalhadores têm uma relação
com o sindicato definível como de “interioridade distanciada que permite
designar ao sindicato as - tarefas da hora”, posição ora “instrumental”, ora
“militante” (Cabanes, 1987, p. 178). No caso da greve do Pólo de 1985, apenas
17 % dos operadores de painel e 22 % dos operadores de campo voltaram ao
trabalho antes do pronunciamento do fim da greve pelo sindicato, enquanto entre
os trabalhadores semi ou não-qualificados esse percentual atingiu 61% (Guimarães,
1989, p. 39).
A distinção entre esses dois caminhos de
identificação como peão não se faz diretamente pela presença ou ausência
de uma carreira. Encontra-se na articulação, vivenciada individualmente, entre
trajetórias familiares, posições profissionais e representações de si e dos
outros. Dessas articulações provêm maneiras diferentes de identificar-se (e de
definir um grupo social de pertencimento), quer como “trabalhador do Pólo”,
quer como “classe operária”. No primeiro modo de identificação, enfatiza-se a
diferenciação com o meio social e cultural de origem; no segundo enfatiza-se a
identificação profissional e as insatisfações com as condições de trabalho. O
que parece estar em jogo são sistemas de representação que apenas
tendencialmente se sobrepõem às categorias definidas pelo processo de trabalho.
A identidade de classe assim definida é,
portanto, a construção de uma essência e de uma diferença. As propriedades de
status dessa identidade não têm valor por si mesmas, mas apenas por referência
aos princípios de valorização (Duarte, 1986), dados pelos campos ideológicos
locais e atuais. Assim, por exemplo, a tecnicidade dos “trabalhadores do Pólo”
não adquire o valor dominante e central que tem na identificação “essencial” da
classe senão na medida em que existe na sociedade baiana uma luta de valores
entre o velho e o novo. É esta luta que valoriza e hierarquiza aquela
qualidade.
O posicionamento cultural e político
determina o “peso funcional” (Bourdieu, 1982, p. 12) do novo operariado baiano
na estrutura social. Com efeito, encontram-se nessa fração trabalhadores
dotados de um capital cultural que permite à classe engajar-se nos debates da
sociedade. A partir daí, a correspondência entre as formas de identificação
aqui analisadas e o projeto global “modernizador” dá à fração emergente dos
trabalhadores do Pólo um papel específico na luta de valores na Bahia. Oriundo
de uma camada social situada entre os “pobres” (excluídos e politicamente
mudos) e a classe média (que monopolizou até agora os signos de distinção
social e a fala política), o novo operariado baiano ocupa o espaço social onde
se elabora um outro discurso político-ideológico.
Esse discurso enfatiza a lógica
profissional, social e simbólica por onde se desenvolve um projeto alternativo
do futuro em torno do “poder” operário (técnico) e das ideologias políticas que
enfatizam a democratização dos locais de trabalho. Nisso reside o significado
ideológico da formação de classe desse novo segmento.
Salienta-se, nesse contexto, o caráter
conflitual da identidade operária. Apontamos para três formas de conflito: (a)
um conflito interno ao segmento líder do novo operariado, que oscila entre uma
imagem valorizada de “técnico” (dando um valor de novidade e modernidade à
trajetória social) e uma imagem de “peão”, construída em relações hierárquicas
depreciativas, e confirmada no bloqueamento da carreira; (b) um conflito entre
a força simbólica, e a força numérica da classe: de um lado, um sistema de
representação cuja “essência” está na tecnicidade, na legitimidade profissional
e na insatisfação com trajetórias sociais forjadas na pequena classe média,
relegando ao “limbo” as representações e trajetórias que procuram se legitimar
pelo esforço; de outro lado, o peso quantitativamente minoritário dos
forjadores reais dessa representação na composição do “novo operariado baiano”;
(c) um conflito entre a classe culturalmente definida e o conteúdo das mudanças
ideológicas, sociais e econômicas que ocorrem na Bahia: do lado da
“modernidade” mas em conflito com a mesma modernidade que a relega ao status,
antigo, de “peões”.
Recebido
para publicação em janeiro de 1990
Esse
artigo foi preparado para o XII Congresso Mundial de Sociologia, em Madri. Uma
versão preliminar do mesmo foi discutida no seminário internacional “Políticas
de gestão, relações de trabalho e produção simbólica”, São Paulo, 1989.
Agradecemos a Alain Morice, Bruno Lautier, Helena Hirata, João José Reis e
Nadya Araújo Castro as sugestões e os comentários recebidos.
“Você
tem que saber”
“Eu
era um volante[operador volante, na primeira empresa do Pólo onde trabalhou e ficou
oito anos]. Então o volante ele cobre, na ausência do operador de painel,
vai, na ausência do operador de campo, vai. Então eu era assim uma espécie de
mola mestra dentro do meu grupo. Porque cada grupo tem o seu operador volante.
(Como operador de
painel na segunda empresa do Pólo onde ele trabalhou) A gente tem todas as
variáveis do processo, tá tudo no painel. Tudo alarma no painel, tudo, a gente
tem o controle da planta toda. É um painel enorme, tem até fotos pra você ver.
É tipo assim um computador. É um computador. Além de painel, você trabalha com
telex também, porque a gente trabalha com coligados.
Indústria é o
seguinte: Se você é mecânico, se você é caldeireiro, se você é instrumentista,
você tem que ler desenhos. Mecânico numa indústria não é mecânico de apertar
parafuso e soltar parafuso, não.
O mecânico, ele é
técnico também. Você tem que saber, você tem que ler desenhos, você tem que
interpretar leituras de desenhos, porque tudo é dado em fluxograma. E isso aí
se torna um pouco, muito complexo”. (34 anos, atualmente operador de processo
I, petroquímica)
A expectativa de entrada na
fábrica
“...
na verdade a gente ia para os estágios assim, com uma certa... às vezes ... -
eu confesso que tinha um certo ... não é que eu acreditasse nas coisas que
estavam sendo colocadas pelo gerente (salários altíssimos e tal) - mas a gente
se sentia inseguro no processo de trabalho com uma função técnica; a gente
tinha essa coisa que a gente tava trabalhando, a gente era operador estagiário
do Pólo mas não era do Pólo, era da Petroquisa e tal, de uma certa forma isto se
incorporou de modo inconsciente, né? Também! a gente somava um contingente de
trabalhadores privilegiados, à parte da situação que se via cá fora! Isso num
dado momento, ocorreu comigo também. A gente estava passando por um monte de
coisas que a gente nunca tinha visto, né? A gente pensava que ia operar uma
coisa parecida com um boeing, coisa que a gente tinha na cabeça, que eu não sei
se funcionava com todo mundo, mas comigo funcionava ao nível ideológico, era um
certo fascínio . . . Quando a gente entrou nos turnos, a gente ia interessado
em conversar, em saber do pessoal, a gente nunca tinha visto aquelas salas de
controle, aquelas coisas que parecem... que dá idéia de uma nave espacial...
Tinha muita expectativa nisso ... Tinha também o fato de nunca ter recebido
salário antes...” (operador, ex-militante comunista, ex-sindicalista)
“Não tem jeito,
eles que têm o poder”
A
insatisfação dos técnicos de nível médio é nutrida pelo desprezo que os
“engenheiros” e “doutores” demonstram pela sua competência técnica:
“Agora,
a revolta toda é você ter um superior imediato, empregado iguala você, que
chega e diz: ‘Minha empresa é isso e você tem que fazer isso, não quero
isso’... O cara mal sabe o que você está fazendo, uma pessoa que não conhece
[nada daquilo] e é teu chefe e você tem que prestar todas as informações pra
ele... e pra ele tanto faz. Ele não manja de nada mas não quer que ninguém
interrompa... se você disser [alguma coisa] é um Deus nos acuda...
Aí o doutorzinho
vem de lá e diz se aprova ou não. O péssimo da nossa profissão é isso aí... Tem
que esperar que o doutorzinho venha a aprovar uma coisa que ele não viu, não
sabe nem por onde vai. Porque muitas vezes ele, pó, nunca foi no campo pra ver
qual é o troço. Aí, chega, olha assim, e não se engraça e diz: ‘Ah, tá feio!
Faça outra coisa’. Isso incomoda. Os caras que têm o título de engenheiro de
Fulano de Tal, sabe, sempre costumam dizer assim: ‘Ah, esse troço aqui, nem tá
legal aqui não, vamos tirar daqui e vamos botar aqui’, fica ao critério dele.
Lógico, ele que é o doutor. É terrí vel” (instrumentista-projetista, química).
A resposta a esse
desprezo consiste em salientar a centralidade do técnico de nível médio para o
processo e o funcionamento concreto da fábrica em detrimento do técnico de
nível superior:
“Os
operadores realmente é quem roda a fábrica, é quem não dera parar a fábrica
numa hora que não tem que parar. D operador, ele é que tá responsável pela
fábrica. Você vê, no final de semana, por exemplo, não tem nenhum engenheiro lá
na fábrica, certo? E no final de semana, ficam, digamos, quatro ou cinco
operadores, responsáveis pela produção da empresa” (operador, petroquímica).
A designação dos
superiores é vaga. Ela pode se concentrar num “eles”, que no primeiro caso
citado abaixo parece identificar “a diretoria”, ou no segundo trecho agrupa
“chefes, engenheiros e gerentes” (numa situação, rara, onde eles se encontram
visivelmente agrupados numa prática distintiva fora do próprio trabalho: no
refeitório):
“Não tem
jeito, eles que têm o poder, eles que têm o poder, então a gente é ...
funcionário, como dizem, somos peões. É, tem que aceitar isso aí” (operador, química).
“Eles tão comendo
assim, perto da gente, chefe, gerente, engenheiro. Quer dizer, tem a parte de
cá e tem a outra parte de lá. Lá, chama [comida] francesa, a parte de lá chama
francesa, a de cá é normal. A comida é a mesma, paga uma tapa prá garçom, o
lado de lá” (operador, química).
O sentido do esforço
“Ficar
pensando só ser assalariado, ganhar duzentos mil j2 s.m.], tá bom, trabalhar no
governo porque eu não faço nada. No governo, eu vou de manhã, ganhando duzentos
mil, só volto de tarde, vou dormir, vou amanhã pra praia. Não. Eu acho que as
pessoas que pensam assim é só vazio (. . . j Nunca pensa em ter nada na vida. É
enchendo a casa de filhos, não fazer nada, s6 dormir, acordar. A hora que
quiser, ir lá, não ir, tanto faz, alguém vai assinar o livro de ponto, qualquer
pessoa. Eu não penso assim. Eu penso diferente”.
De fato, esse
depoimento agressivo adquire sentido na afirmação identificatória final: “Eu
penso diferente”. A diferença é voluntária, afirmada, ou seja, o contrário de
uma evidência. A necessidade dessa “postura” identificatória se faz ainda mais
forte quando o “não-esforço”, salientado e rejeitado, se encontra na própria
família,, tendo o risco de caracterizar a identidade familiar do sujeito:
“Todos os
empregos dele jo irmão caçula de quem fala], ele enfaixava o braço, a perna. É!
Ele se acidentava porque ele queria. Pra ficar encostado, ele tava querendo se
encostar. Trabalhou na T., ele se jogou lá de cima. Ele diz que não foi, que aconteceu, mas eu tenho
pra mim que ele se jogou. Ele se jogou lá, quebrou a perna. Ele fava aí
querendo ver se encostava. Mas ele se lenhou. Todo trabalho, todo emprego, ele é
acidentado. Agora não sei esse daí, daqui a pouco ele cai. É assim. Não quer
nada”.
O que constitui a
diferença é dito com ênfase: é a “luta”, a “ambição”, o “esforço”. Esse esforço
fundamenta uma identidade profissional que, justamente por não ser a afirmação
de um saber técnico, se afirma no “fazer”, através da experiência dos objetos,
produtos e procedimentos do trabalho, experiência vivida no corpo, adquirida
quase magicamente, por fora da formação técnica clássica: “Com dois meses
[na empresa], eu já sabia fazer, não tinha o macete mas já sabia fazer de
tudo”; “Eu manjo tudo, sei tudo que tá acontecendo ali [na área]”.
“Eles já
tão botando a quinta turma. Que antes lá a gente trabalhava sete dias e só
folgava um. Agora a gente trabalha seis dias, folga quatro. Melhorou bastante.
Então praticamente agora eu estou mais em casa do que trabalhando. Virou o
oposto. Antes eu ficaria mais na empresa do que em casa. Agora eu fico mais em
casa do que na empresa”.
A representação da
inferioridade
A
mobilização das relações pessoais para assegurar a inserção profissional, assim
como a posição de inferioridade que os sujeitos evidenciam nos relatos das
situações de comunicação com as pessoas influentes em episódios decisivos da
sua trajetória profissional, reproduzem socialmente os princípios das relações
pós-escravagistas entre os humildes (a “pobreza” enquanto estado: ao mesmo
tempo condição e posição sociais) e os senhores da classe alta. No
relacionamento (dentro ou fora da fábrica), usa-se uma gama predeterminada de
termos e comportamentos de polidez e humildade (“Doutor”, “o Senhor”, “a
Senhora” etc.).
“Era em
1983. Eu tinha vinte e sete anos. Fiquei quase seis meses desempregado. Foi
quando a empresa, empresa essa que eu estou agora, mandou me chamar pra entrevista.
Eles usam muito entrevista pra poder derrubar a pessoa. Aí conversando,
conversei lá bastante. Depois fui entregue ao chefe da área. Me
procuraram saber se eu tinha conhecimento de operação, eu não menti, eu disse
que não tinha, eu disse que tinha trabalhado no Pólo mas através da manutenção.
De operação eu desconhecia. Mandaram eu aguardar: ‘Vocês vão embora e aguarde o
telefonema’. Mas eu, como estava preocupado, eu tenho um amigo que ele é super
conhecido aqui dentro de Salvador: Doutor T .
...
Aí chequei pra ele, conversando com ele. Isso foi lá, na clínica S.M. Ele fez:
‘Não se preocupe não que a gente vai ver o que consegue fazer’. Passou uns
dias. Um dia, ele veio aqui (Liberdade). Ele mora no Caminho das Árvores
[bairro residencial de alta classe média], né, mas ele tá sempre aqui. Trouxe
uma carta. O pessoal daqui não acreditava, que era pra eu comparecer no dia
vinte e levar essa carta na portaria e dizer que quer falar com F. Ela é
psicóloga lá dentro.
Quer
dizer, é uma força. O cara médico, famoso aqui e tal. A empresa trabalha com a
clínica S.M. Aí, renasceu as novas esperanças [o relato conta depois como,
encontrando essa psicóloga e depois um “chefe de área”, ele conseguiu uma
vaga de operador auxiliar].
O
Doutor T. morava aqui. Nascido e criado aqui. Ele jogava bola com a gente. Ele
é da família C.T. A família dele aqui era muito importante. Mas ele é uma
pessoa muito simples. Na famílias dele existe quatro médicos. A família morava
aqui, nessa avenida defronte. Agora é que a frente da casa dele dava lá pra
rua. Uma casona que tem ali. É a casa lá da frente. Então a avenida era toda
deles. As casas eram deles. Depois o pai morreu, deu pros filhos, não sei o
que, alguns venderam, e continuam com algumas casas aí.
Eu
sempre fui uma pessoa que cultivou boas amizades. Ele é uma das pessoas que até
hoje conservo essa amizade. Tanto sim que ele mora no Caminho das Árvores, lá
na Pituba, mas: hoje não tem jogo? Ele vem me buscar aqui pra eu ir pra Fonte
Nova com ele. Vai pra Fonte Nova com agente, depois ele traz a gente e vai
embora”. (35 anos, casado, dois filhos, operadornuma empresa química do Pólo,
salário: 8 s.m.)
O que está em
jogo no trabalho da esposa
As
esposas dos trabalhadores cuja identidade social se constrói em referência à
rejeição ao ambiente de pobreza geralmente não trabalham fora, mesmo se, quando
mais jovens, elas trabalharam ou se elas têm uma formação escolar ou técnica
que lhes daria acesso a um emprego assalariado. Esse “não trabalho” das esposas
é uma necessidade simbólica central. Com efeito, o código da honra dos meios
populares e pobres, de socialização desses homens informa que, quando uma
mulher trabalha, é porque o homem não é capaz de prover ele mesmo as
necessidades da família. No limite, ele é designado/excluído como “doente”,
“anormal”, “marginal”; ele poderia sumir da cena familiar sem afetar a
sobrevivência da casa (Woortmann, 1987, p. 292; Agier, 1989a). Ora, o essencial
da identidade dos trabalhadores que se ressentem de uma base profissional
“legítima” consiste em compensar a ilegitimidade por qualidades socialmente
valorizadas. Nessa construção, o status de chefe de família é um dos
elementos chaves da “cidadania” do trabalhador. Coerentemente, o trabalho da
esposa desvalorizaria localmente a figura do pai, seria uma vergonha e
colocaria em xeque o status do homem. Essa “postura” não se assegura sem
várias justificativas e conflitos:
“Ela [a
esposa] trabalhou, trabalhou desde dezesseis anos jde balconista]. Agora ela
parou porque... Não tem necessidade, o que eu ganho [8 s.m.] relativo dá pra
gente viver, não precisa ela trabalhar.
Ela tem vontade
[de trabalhar], agora eu que converso com ela para ela ver que não tem
necessidade dela trabalhar agora. Eu tenho duas filhas pra ser educadas. Se eu
trabalho, ela trabalha, minhas filhas não vão ter educação que merece. Também
ela é uma pessoa muito sensata, não é de confusão, ela concorda. Uma vez ou
outra assim que ela não concorda, depois ela volta atrás”.
Uma mulher que
trabalhou de recepcionista num concessionário de peças de automóveis, diz para
seu marido, operador de processo no CIA:
-
Machista! Assim que ele entrou na S. [empresa onde está há 10 anos], ele me
tirou do trabalho.
- Não era mais útil
Ao contrário, no caso
dos trabalhadores cuja identidade social é essencialmente profissional e
referida legitimamente à “coletividade” das indústrias de processo, as esposas
trabalham: elas são professoras de primeiro grau, bancárias, ou escriturárias.
Essa
prática permite, por contraste, entender as verdadeiras necessidades, de
prestígio e não econômicas ou organizacionais, do não-trabalho imposto às
outras mulheres pelos maridos “machistas”: (1) as rendas dos maridos daquelas
que trabalham são iguais ou superiores às rendas dos homens cujas esposas não
trabalham; (2) nos dois casos, há uma presença igual de parentes na vizinhança
que podem ajudar, por exemplo, no cuidado das crianças. Além disso, nas casas
onde as mulheres trabalham há “meninas”, mais ou menos remuneradas, que tomam
conta das tarefas domésticas e do cuidado das crianças de pouca idade. A
despesa com essas “meninas” é pequena se comparada à renda proporcionada pela
existência de um segundo salário.
Isso
não quer dizer que o sentido da honra e o “machismo” desapareceram entre os
homens cujas esposas trabalham. Mas, enquanto os primeiros concentram essa
honra e esse “machismo” na representação do universo familiar, os últimos o
“deslocam”, transformado, para a representação da esfera do trabalho; a competência
profissional permite “ser o melhor” num teste, a não “se sujeitar a baixar
salário”, a não “mendigar” uma promoção. Ademais, a ênfase dada aos perigos
enfrentados no trabalho e, correlativamente, à coragem inerente ao status profissional,
satisfaz a vaidade machista do operador, do técnico de nível médio.
“Agora negro,
com aquela roupa!”
“Ás
vezes, acontece, tem alguns problemas e você nem tá sabendo. Já presenciei o
camarada chegar assim: ‘Não rapaz, tem que botar Fulano [nesse cargo melhor], não
vai botar Fulano que é escuro, anda tudo desarrumado, brincando direto’... Na
empresa tem isso. É assim mesmo: o cara que é mais escuro, anda brincando, anda
sujo - porque a empresa dá a roupa, eu tenho oito anos lá, tenho nove farda,
pra andar tudo limpo, né? - então ,o cara anda à migué, tudo lascado, sem
botão... Tem um lá que tem Universidade, formado num negócio ali, nem me
lembro, é operador de campo ele. Mas a calça dele não é costurada não, é toda
lascada em baio, anda sem cueca lá em bailo da calça, a camisa não tem botão
nenhum, o cara sempre usa o capacete dele, ele tira a carneira, aquele negócio feio, ele anda
tudo à migué, tudo sujo. Agora, negro, com aquela roupa! Vai ver: cheio de anel
assim. O chefe chamou ele: ‘vem cá, rapaz!’, com todo mundo. ‘Você tá maluco,
rapaz? parecendo um maluco, rapaz? Olhe pra o seu capacete, olhe a sua camisa,
não tem botão, olhe pra sua calça, é gigante, grande, folgadona, parece um
maluco rapaz! Olhe pra aí, seus colegas aí, todo mundo com a camisa pra dentro
e tal, todo apertadinho, passadinho, tal...’ E o pessoal disse: Tava
brincando’. Ele, quando tá falando, tá dando risada, que eu não gosto. Tá
falando como quem brinca. Quer dizer, o cara não se trata, não liga. Eu me toco
muito com isso, me toco muito” (operador, CIA).
Os vagos fatos
relatados aqui importam menos do que a ênfase dada às descrições da aparência e
aos julgamentos dos quais, de fato, o sujeito se apropria. Este, de cor preta,
se coloca no evento que ele encena no discurso do lado dos colegas mostrados
como borra exemplo, o “todo mundo” da empresa. Ele é operador numa empresa
metalúrgica, completou o 2 ° grau com 24 anos, depois de ter trabalhado já
quatro anos na indústria de processo em várias funções subalternas; num outro
depoimento, ele faz o inventário normativo das qualidades necessárias à
promoção nos diferentes degraus da carreira: (1) “ter o segundo grau”; (2) “não
faltar serviço”; (3) “não andar doente”; (4) “não andar de brincadeira na
empresa com os colegas”; (5) “andar limpo, camisa puxada, sempre com crachá e
capacete”; (6) “ser educado”.
Notas
* Antônio Sérgio
Alfredo Guimarães é professor do Departamento e do Mestrado em Sociologia e
pesquisador do Centro de Recursos Humanos da Universidade Federal da Bahia.
** Michel Agier é
pesquisador-visitante do ORSTOM no Centro de Recursos Humanos da Universidade
Federal da Bahia (Convênio CNPq/ACI/ORSTOM).
1
- Isto é, aquela que transforma propriedades físico-químicas e não apenas o
formato do objeto de trabalho (como a química, a petroquímica, o cimento, a
celulose etc.).
2- Esse
item foi pela primeira vez observado por Blauner (1964).
3 - Nesse caso, o
controle do processo é feito através de instrumentos de base pneumática e
analógica, exigindo leituras regulares dos parâmetros do processo pelos
operadores de campo.
4 - Esse ponto é negativamente ilustrado
pelo caso, reportado por Guimarães (1988), de uma fábrica de gestão
paternalista onde a área de operação, para todos os fins práticos, era
território dos trabalhadores de nível médio, os quais exerciam inclusive
funções de chefia de setor. Apenas nesse caso, as diferenças entre assalariados
de nível médio e de nível superior se institucionalizavam parcialmente na
divisão intersetorial -entre Operação e Engenharia de Produção, a primeira
responsável pela produção física de produtos cuja qualidade, quantidade e valor
eram decididos pela última.
5
- Uma análise detalhada da mobilidade residencial dos trabalhadores do Pólo (a
partir de um levantamento em duas empresas) é apresentada em Agier (1988).
6
- Uma visão antropológica e filosófica que ressalta ao mesmo tempo a
pluralidade dos focos e a coerência global da cultura negra é dada por Sodré
(1988). Essa visão permite superar a questão da “consciência” negra para
alcançar uma simbologia objetiva da negritude, a qual relativiza os depoimentos
identificatórios. É nesse sentido que nos posicionamos aqui em relação às
práticas simbólicas objetivamente negras e às posturas identificatórias de
“branqueamento”.
7 - O
desgaste de saúde causado pelo trabalho passa a ser, então, não só um cansaço
físico, mas também um desregramento dos ritmos biológicos (no caso do trabalho
de turno) e um estresse provocado pelas responsabilidades e pelo medo no
trabalho.
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