FORÇANDO AS GRADES DA JAULA DE FERRO:
burocratização e informatização no
capitalismo e no socialismo (*)
David Stark (**)
Introdução
Uma segunda economia desenvolve-se à
sombra do planejamento central nas diversas sociedades do socialismo de Estado
contemporâneo. Por toda a Hungria, camponeses administram fazendas
descoletivizadas ou cultivam pequenos lotes familiares após o trabalho nas
cooperativas ou coletivos agrícolas; artesãos privados dirigem oficinas e
transportam mercadorias; trabalhadores manuais e empregados de colarinho branco
fazem trabalhos avulsos em construção, manufaturas, serviços e consertos. Este
ensaio procura mostrar até que ponto, e como, essa segunda economia, composta
de atividades geradoras de renda fora das fronteiras da economia formal,
centralmente dirigida, do socialismo de Estado contemporâneo pode ser comparada
com a economia informal, funcionando à margem das normas e regulações
oficialmente institucionalizadas que governam as relações de emprego no setor
formal das sociedades capitalistas.
Até recentemente, o ponto de partida para
essa comparação era a pressuposição de que a atividade empresarial privada da
segunda economia fosse estranha ao socialismo de Estado. A ideologia oficial e,
os analistas ocidentais, igualmente, descreviam a produção simples de
mercadorias como a relíquia de um passado pré-socialista: o trabalho autônomo e
outras formas de produção em pequena escala seriam remanescentes de uma época
anterior, inevitavelmente destinadas a serem substituídas pela superioridade do
sistema de propriedade socialista, pela eficiência técnica da produção em
grande escala ou pelo avanço da proletarização em todo o sistema mundial
(dependendo, de certo, da perspectiva de cada um). Para outros, a segunda
economia não era um remanescente do passado, mas uma espécie de transplante do
sistema social rival: a natureza privada da produção da segunda economia, sua
maior sensibilidade aos custos e sua orientação de mercado traziam a marca
indelével do capitalismo. Como câncer ou como cura, a segunda economia seria
sempre um tecido estranho ao corpo socialista e seu crescimento; um sinal de
que o capitalismo seria o futuro do comunismo. Sob qualquer das duas óticas, a
continuidade do desenvolvimento numa trajetória socialista impediria a expansão
da segunda economia.
Essas concepções sobre o socialismo de
Estado encontram impressionante paralelo no saber tradicional a respeito das
tendências das economias de mercado ocidentais, nas quais as formas de pequena
produção, de trabalho autônomo e as várias atividades não regulamentadas -
atualmente compreendidas no rótulo de “economia informal” - eram igualmente
vistas, até recentemente, como estranhas à modernização do capitalismo. Quer fossem
conceituados sob a ótica de leis de concentração e centralização, de uma
dinâmica da modernização ou de uma lógica da racionalização, reconheciam-se
processos, situados no centro do capitalismo moderno, que homogeneizavam as
formas organizacionais, ainda que diferenciando funções. Tanto para os modelos
clássicos do marxismo como para as teorias da modernização, os processos de
informalização eram retrógrados, sobrevivendo em bolsões de tradição ou em
modos de produção superados e ainda intocados pelo avanço inevitável e
generalizado da produção industrial em larga escala, das grandes empresas de
capital aberto, das normas legais e do emprego burocratizado: Pensadores
marxistas, weberianos ou parsonianos concordariam que o problema da análise
comparativa do setor informal era essencialmente uma questão de tempo e de
velocidade: destinada a desaparecer, em que sistema social a economia informal
seria mais cedo erradicada?
Pesquisas realizadas durante a década
passada, no entanto, sugerem uma interpretação alternativa para a relação entre
modernidade e informalidade, segundo a qual a proletarização e a informalização
crescem uma atrás da outra, em vez de ocorrer um deslocamento mútuo. Estudos
realizados sobre as economias do Terceiro Mundo, por exemplo, indicam que as
taxas de atividade na produção urbana simples de mercadorias permaneceram
estáveis em todo o período recente de industrialização acelerada (Portes e
Sassen-Koob, 1987; Rogerson, 1985; Peattie, 1987; Tokman, 1978; e Moser, 1978).
Em vez de homogeneização, o crescimento do trabalho industrial assalariado gera
diferentes modelos organizacionais, à medida que famílias e empresas adotam
estratégias de emprego informal (subcontratação, contratação externa, trabalho
a domicílio, trabalho não-registrado etc.) para aliviar as conseqüências do
processo de proletarização em si mesmo (1) (Portes, 1983; Roberts,
1989). Resultados de pesquisa mostrando que a atividade econômica informal
apresenta poucos indícios de estagnação e declínio nas sociedades capitalistas avançadas
(2), como a Itália (Capecchi, 1989), a Espanha (Benton, 1989), a
Bélgica (Pestieau, 1985), os Países Baixos (Renooy, 1984), a Suécia (Hansson,
1989) e os Estados Unidos (Portes e Sassen-Koob, 1987; Waldinger, 1986), levam
também à conclusão de que o desenvolvimento capitalista pode, na verdade,
estimular, em vez de eliminar, o setor informal (Castells e Portes, 1989). Os
empregadores recorrem à subcontratação informal, à contratação externa e ao
trabalho industrial a domicílio como alternativas para o trabalho assalariado
realizado nas fábricas e seus direitos e benefícios associados, até mesmo nos
setores mais claramente modernos da economia (Pfeffer e Baron, 1988; Lozano,
1989).
A análise comparativa realizada neste ensaio tem como
ponto de partida as conclusões de pesquisas recentes sugerindo que a atividade
econômica informal não é uma característica anômala, mas essencial, do
capitalismo moderno. Igualmente mostramos que a segunda economia não é um
elemento estranho, mas uma das instituições econômicas básicas do socialismo de
Estado contemporâneo. Rompe-se, assim, com as crenças modernistas a respeito da
homogeneização da vida econômica sob formas racionalizadas. Em vez de um
remanescente das tradições e dós costumes, a informalização é um produto da
modernidade e da burocracia. No Leste e no Oeste, a atividade econômica
informal reproduz-se como contraponto à racionalização e à
burocratização.
Mas não devemos concluir, a partir dessa
comparação simples, que a economia informal do capitalismo e a segunda economia
do socialismo sejam equivalentes funcionais ou correlatos estruturais. As duas
economias informais são respostas à burocratização; mas como as origens, os
contextos e as formas de racionalização diferem de um sistema social para
outro, as conseqüências sistêmicas da informatização também são diferentes.
Como veremos, apesar de algumas semelhanças importantes entre o setor informal
e a segunda economia, os dois fenômenos diferem profundamente em suas causas,
sua reprodução e seus efeitos econômicos, políticos e sociais.
Para explicar essas similaridades e
diferenças, torna-se necessária uma estratégia de investigação comparativa que
analise relações entre instituições, em lugar de características intrínsecas
dos elementos institucionais de uma sociedade. Numa análise relacional desse
tipo oentendimento dos
padrões da atividade econômica informal, específicos ao capitalismo e ao
socialismo, requer um deslocamento do enfoque das economias informais em si
para a relação entre cada economia informal e a economia for mal com a qual
coexiste. Além disso, com a estratégia analítica aqui adotada, ao mesmo tempo
em que examinamos os padrões de relações entre instituições dentro de um
sistema, também comparamos padrões de relações de um sistema para outro.
Nesta análise comparativa, a especificidade de uma instituição particular é
dada por sua posição numa configuração de relações tanto dentro dos
sistemas como entre os sistemas. Não é o caso de as instituições do
capitalismo fornecerem o modelo pelo qual as instituições do socialismo, ou
vice-versa, possam ser avaliadas segundo o grau de conformidade ou a direção de
sua convergência ou divergência. Tampouco é o caso de o analista introduzir
algum modelo universal para produzir definições a priori que, apesar de
todo seu rigor lógico, reflitam apenas as circunstâncias ad hoc da
posição do analista dentro do campo de debate. Em vez disso, o esforço desse
ensaio é o de utilizar dados empíricos e conclusões teóricas referentes a ambos
os casos, a fim de construir um modelo no qual os termos de comparação emerjam
como propriedades da configuração comparativa global. Dessa maneira, a
especificidade institucional de cada sistema é revelada através desse contraste
simultâneo e mútuo.
Em termos concretos, uma análise
relacional das atividades econômicas informais exige atenção sistemática para
aspectos decisivos das economias formais, ao lado das quais são reproduzidas.
Na pesquisa que se segue, a informalidade é examinada em relação à forma
dominante da burocratização e ao mecanismo dominante que coordena as atividades
entre as empresas na economia formal. Essas dimensões analíticas, é preciso
assinalar de início, não se referem necessariamente a processos excludentes:
como veremos; uma das características distintivas do socialismo de Estado é que
o mecanismo de coordenação dominante da economia é, em si mesmo, burocrático.
Em resumo, se a informatização responde a padrões de burocratização que
diferem, tanto em âmbito quanto em tipo, precisamos desenvolver conceitos para
o estudo comparativo da burocratização, antes de podermos entender as
diferenças sistêmicas na dinâmica (causas, processos e efeitos) da economia
informal no capitalismo avançado e na segunda economia do socialismo de Estado.
O argumento aqui proposto pode ser
resumido, em termos que serão definidos e elaborados adiante, da seguinte
forma: nas economias de mercado, os códigos classificatórios da burocratização
reguladora racionalizam as relações entre empregadores e empregados dentro
da empresa, estabelecem e controlam os padrões básicos que governam a relação
salarial, e fornecem uma estrutura institucional legal para os mecanismos de
mercado mais amplos através dos quais os recursos são canalizados por toda a
economia. Formulados por uma classe emergente de profissionais que intermedeiam
as relações de classe, a partir de suas posições dentro das empresas privadas e
das agências estatais, esses códigos oficiais têm sua adoção promovida por uma
aliança desses profissionais com os sindicatos e os administradores estatais.
Em resposta a essa burocratização reguladora, a economia informal opera segundo
princípios discrepantes das regras classificatórias do mercado interno de
trabalho, mas congruentes com os princípios de mercado que coordenam a economia
formal.
Nas economias do socialismo de Estado de
planejamento centralizado, ao contrário, a burocratização redistributiva é
o produto de um novo projeto de classe que se diferencia, tanto em
âmbito como em tipo, à medida que instrumentos burocráticos racionalizados são
introduzidos para deslocar, em vez de complementar, os processos de mercado.
Num moderno sistema redistributivo, a alocação de recursos para toda a economia
é coordenada através de mecanismos orçamentários centralizadamente controlados.
Nos lugares em que a informalização responde a essa burocratização
redistributiva, as relações de mercado embrionárias da segunda economia são
incongruentes com os princípios burocráticos que coordenam a economia formal e,
na verdade, estimulam a institucionalização de relações mercantis dentro da
empresa socialista. Como instituição alternativa, na qual as habilidades e os
esforços muitas vezes encontram uma taxa mais elevada de recompensa, a segunda economia
aumenta a capacidade de manejo das relações trabalhistas e dá oportunidade a
uma aliança entre operários e uma nova classe de empresários. A metodologia
relacional de uma análise comparativa institucionalista desvia, portanto, a
atenção das similaridades superficiais entre a economia informal do capitalismo
e a segunda economia do socialismo para o exame das semelhanças e diferenças
subjacentes entre a economia secundária no socialismo de Estado e os sindicatos
nas sociedades capitalistas. Ao passo que a racionalização das relações de
emprego no capitalismo foi, muitas vezes, acompanhada por uma expansão dos
direitos de cidadania dentro das empresas privadas, a emergência de um processo
de negociação trabalhista mais aberto na economia socialista é acompanhado por
uma expansão dos direitos de propriedade, tanto nas organizações estatais
quanto na segunda economia.
A
burocratização reguladora e a economia informal
Nossa análise da burocratização
reguladora que caracteriza o capitalismo de mercado (em contraste com a
burocratização redistributiva do socialismo de Estado) começa com a observação
incontestável de que a história da relação de emprego no desenvolvimento
capitalista é uma história de crescente racionalização. Na virada do século,
não havia “relações trabalhistas” entre proprietários e trabalhadores em que a
empreitada especificasse o pagamento para uma dada qualidade e volume de
produção; deixava-se a supervisão, os salários e as condições de trabalho ao
arbítrio do capataz/subempreiteiro (Nelson, 1975). Desde os tempos dos mercados
internos do sistema de “superexploração” (3), a supervisão vem sendo
burocratizada, e quase todos os aspectos da relação de emprego estão agora
sujeitos à regulação burocrática. Em ambientes sindicalizados ou não, o
trabalho é governado por regras, a produção é medida por indicadores
padronizados de desempenho, as queixas são formalizadas e as contratações,
demissões e condições de trabalho estão sujeitas às regulamentações estatais.
Onde a produção foi outrora governada pelo código moral patriarcal dos
artesões, que exigia uma “postura viril” (Hinton, 1973), agora encontramos os
códigos ocupacionais de avaliação de cargos do departamento de pessoal e as
tabulações de questionários sobre satisfação no trabalho, elaborados pela
gerência de recursos humanos.
É na
explicação da passagem da subempreitada nos mercados internos para a supervisão
em hierarquias rotinizadas que os teóricos discordam. Alguns argumentam chie o
motivo dessa burocratização - e seu resultado - tem sido o aumento do controle
capitalista sobre a força de trabalho (Braverman, 1974, Edwards, 1979). Outros
destacam os ganhos de eficiência acarretados pela economia de custos
operacionais (Williamson, 1985). Tanto os teóricos que se ocupam do controle como
os que privilegiam a eficiência concordam, no entanto, ao descreverem os
empregadores como o agente principal do processo de racionalização. Em
contraste com ambas as escolas, pesquisas empíricas recentes realizadas por
sociólogos e historiadores sociais oferecem uma explicação para a
burocratização das relações de emprego que atribui papéis fundamentais aos
sindicatos, aos profissionais e às agências estatais. Stark (1980), por
exemplo, argumenta que o ritmo e os padrões de introdução da administração científica
são melhor explicados quando vistos como um projeto de classe média, liderado
por técnicos da indústria que inicialmente enfrentaram a resistência dos
empresários, dos altos gerentes e dos capatazes. A difusão dos esquemas de
mensuração do trabalho, em que Taylor foi pioneiro - um método pouco
sofisticado segundo nossos padrões, mas decisivo no mapeamento dos tipos de
abstrações cognitivas usadas nos atuais programas de avaliação de cargos -,
exigiu uma aliança entre técnicos industriais, líderes sindicais e funcionários
estatais nas condições de guerra que se seguiram à morte de Taylor, em 1915.
Baron e outros (1986) também demonstraram que a Segunda Guerra Mundial foi o
pano de fundo para uma onda de burocratização, na medida em que as agências estatais,
com o apoio dos sindicatos, encorajavam (e indiretamente subsidiavam) a
proliferação de departamentos de pessoal, de definições formalizadas dos postos
e de classificações padronizadas de salários e qualificações. A análise
histórica feita por Jacoby (1985) também demonstra como os sindicatos e os
profissionais da área de recursos humanos defenderam - contra a contínua
resistência dos empregadores - os tipos de práticas burocráticas que agora
associamos com os mercados internos de trabalho. Essa questão sugere a
existência de um processo cícliclo, embora cumulativo, no qual as inovações
burocráticas, articuladas num momento de crise por reformadores da classe
média, são abandonadas no período intermediário e só se institucionalizam na
crise subseqüente.
Se as crises, como a guerra e a depressão
(Block, 1987), constituem o contexto de remodelação das instituições econômicas
capitalistas, a racionalização foi empreendida por um grupo de novos
profissionais de classe média que defendiam seus interesses, tal como os
percebiam, e buscavam estabelecer e expandir sua autonomia nas organizações em
processo de burocratização. Longe de constituírem um conjunto de “lugares
vazios”, à espera de serem preenchidos por integrantes de uma classe
“contraditória” (Wright, 1978), os profissionais de classe média tiveram papel
ativo na criação e formulação de suas posições (4), através da
elaboração de um projeto profissional que lhes abriu um novo espaço de classe -
como mediadores das relações entre as classes e como árbitros das relações
entre competidores no mercado. O que está em jogo para os profissionais da nova
classe, na luta multifacetada de classes, é sua reivindicação a um monopólio
dos meios de classificação. A burocratização reguladora que racionalizou a relação
de emprego opera através de um conjunto de códigos, isto é, sistemas de
classificação que descrevem várias categorias de pessoas e práticas e demarcam
fronteiras de capacitação e de responsabilidades. Os profissionais e
funcionários da nova classe média, afiliados aos sindicatos, departamentos de
pessoal e agências estatais reguladoras, especializam-se no aperfeiçoamento dos
instrumentos classificatórios utilizados para a criação dessas taxionomias
burocráticas. Durante todo este século, eles tentaram expandir sua autonomia,
alegando que cada qual ocupava um papel único na mediação das relações entre
operários e gerentes, e que a relação de emprego é
mais bem regulamentada pelas estruturas formalizadas que promovem. Seja nos
processos de resolução de conflitos da AFL-CIO, nos artifícios científicos dos
estudos de tempos e movimentos de Frederick Taylor, ou na convicção de Alba
Edwards de que suas categorias ocupacionais censitárias seriam um instrumento
de harmonização de classes (Conk, 1979), vemos o mesmo projeto de mediação
expresso sob a modalidade da formalização e da codificação. Esses e outros,
agentes da institucionalização formal especializam-se na produção de convenções
racionalizadas sem as quais a regulamentação burocrática do emprego seria impossível.
O melhor exemplo do uso de tais
convenções racionalizadas para regulamentar o trabalho dentro da empresa talvez
seja a instituição conhecida como “mercado interno de trabalho” - o conjunto de
procedimentos formalizados que governam as contratações e dispensas, que
rotinizam os aumentos salariais e regulamentam as promoções ao longo de escalas
graduadas de classificação de cargos (Doeringer e Piore, 1971; Osterman, 1986).
Essas práticas institucionais são designadas de forma curiosa, porque os mercados
internos de trabalho são, na verdade, conjuntos de regras burocráticas
internas que operam segundo uma lógica classificatória (Stark, 1986).
A habilitação para a promoção ou a
exclusão de dispensas, por exemplo, depende do pertencimento a categorias
designadas - antigüidade, graus de qualificação etc. - em um sistema oficial de
classificação. Num sistema desse tipo, a barganha na mesa de negociações, nos
departamentos de pessoal ou nos tribunais, muitas vezes concentra-se na
construção de categorias de pertencimento, como pode ser observado nas recentes
negociações para modificar as classificações de cargos na indústria
automobilística (Katz, 1985), ou na recente controvérsia em torno da
nomenclatura de cargos e da segregação sexual das ocupações (Hartmann, 1985;
Bacon e Bielby, 1986).
Os resultados dessas disputas
classificatórias (5) podem ter conseqüências materiais: as regras
burocráticas internas proporcionam proteção contra o mercado. Pode-se verificar
isso quando, em períodos de contração do mercado, os mais antigos são poupados
das dispensa. Mas a burocratização reguladora pode proporcionar proteção contra
o mercado até mesmo nas firmas e indústrias nas quais os trabalhadores não
podem tirar vantagem das escalas graduadas de promoção dos mercados internos de
trabalho. As regras burocráticas que proíbem a discriminação na admissão ou a
arbitrariedade na dispensa, que regulam a saúde e a segurança ocupacionais,
governam a representação sindical e determinam as habilitações para indenização
por desemprego ou acidente de trabalho são compostas por códigos e
classificações que protegem os trabalhadores contra o mercado, tanto quanto
racionalizam a relação de emprego.
Na ausência desse processo
racionalizados, não se pode falar com precisão de uma economia informal (6).
As estratégias de informalização são uma resposta à burocratização e assinalam
os limites da racionalização. Como afirmam Castells e Portes (1989), num
importante ensaio de síntese, a economia informal é o produto de esforços para
escapar a essa lógica institucionalizada. Mas a definição que eles dão de
economia informal como “atividade geradora de renda não regulamentada pelas instituições
da sociedade...” (o grifo é meu) não consegue captar a natureza
especificamente racionalizada, formalizada; dessa regulação burocrática. Além
disso, tal definição obscurece o fato de que a economia informal é “regulada” -
não no sentido estatutário, mas num sentido sociológico - pelas convenções
culturais da família, do parentesco, da etnia, ou de outras instituições nas
quais está embutida como economia. Ao contrário dos códigos informais da vida
cotidiana (sem os quais as próprias burocracias deixariam de funcionar), as
convenções burocratizadas são racionalizadas num sentido duplo da
palavra. Sua codificação é padronizada e seu fundamento lógico (por mais que
desconheça intenções e efeitos reais) torna-se explícito (7). Essas
racionalizações explícitas são tanto um recurso quanto um objeto de luta entre
grupos e classes em disputa; a economia informal é um produto de seu malogro.
Por essas razões, definimos a economia informal como um processo de atividade
geradora de rendas não regulado por convenções racionalizadas em um
ambiente legal e social em que atividades semelhantes têm essa regulamentação.
A informalização é, portanto, o
contraponto da documentação e da codificação. O pintor de paredes autônomo que
trabalha em troca de pagamentos à vista para fugir aos impostos; os que aceitam
um emprego informal porque a idade ,- sejam eles muito jovens ou muito velhos -
os exclui das escalas graduadas de promoção dos mercados internos; s, mulher
chefe do domicílio que está num programa de assistência à família, que perfura
cartões ou costura blusas em casa por menos do que o salário mínimo para fugir
da legislação previdenciária; o sócio desempregado do Sindicato dos
Trabalhadores da Indústria Automobilística que dirige um táxi de aluguel para
não se desqualificar para o seguro-desemprego; são estes, e não apenas os
estrangeiros em situação ilegal, que realizam trabalho não-registrado, numa
tentativa de fugir, de alguma forma, aos diversos códigos burocráticos.
Unem-se a eles, nessa manobra, o
empresário que paga salários inferiores ao mínimo legal e desobedece aos códigos de saúde e segurança, o político
ou o funcionário estatal que toleram as violações, porque elas reduzem as
tensões decorrentes do alto índice de desemprego, e o executivo de grande
empresa que parte para as subcontratações externas a fim de contornar as
estreitas classificações de cargos daquele mesmo mercado interno que, outrora,
fora acolhido como um meio de garantir a paz industrial. Tanto esses
trabalhadores como esses patrões buscam flexibilidade para escapar à rigidez
das taxionomias classificatórias. A diferença é que, para o trabalhador, a
economia informal acrescenta, na melhor das hipóteses, uma pequena margem de
manobra, enquanto que para o empregador, a informatização pode aumentar
consideravelmente os lucros. As definições de economia informal em termos de
atividades geradoras de renda “não incluídas nas contas nacionais”
desconsideram completamente que, computadas ou não as atividades informais,
elas resultam de estratégias de fugir à responsabilidade, nos termos em que é
posta pelas racionalizações explícitas das convenções burocráticas. Por
exemplo, os empresários de setores sindicalizados que recorrem à
subcontratação, às contratações externas e ao trabalho a domicílio demonstram
com sua atitude que as regras negociadas com os sindicatos “não valem” para o
emprego informal. Trabalho não-registrado é trabalho não protegido e a fuga às
classificações burocráticas é, muitas vezes, um meio de baixar os custos do
trabalho e reduzir seu poder de barganha.
A
burocracia redistributiva e a segunda economia
Racionalizações redistributivas
Nossa
análise dos processos de racionalização e burocratização no socialismo de
Estado começa com a idéia, nascida no século XIX, de que o socialismo
substituiria a anarquia do mercado pela racionalidade do plano. Uma economia
nacional, da mesma maneira que uma empresa moderna, podia ser administrada por
uma mão visível. Contra a visão de Proudhon de um socialismo de cooperativas
autogeridas, ligadas por vínculos de mercado, Marx zombava da “mediocridade do
artesão” e defendia a presença de uma autoridade única, distribuidora de
tarefas e recursos, coordenando a produção para o conjunto da sociedade. A fábrica moderna fornecia o modelo dessa coordenação
direta para toda a economia:
“O
conjunto da sociedade tem em comum com o interior de uma fábrica o fato de
também conter divisões de trabalho. Se alguém quisesse tomar como modelo a
divisão do trabalho existente numa fábrica moderna, a fim de aplicá-la ao
conjunto.da sociedade, a sociedade mais bem organizada para a produção de
riqueza seria, sem dúvida, aquela que tivesse um único empregador, distribuindo
tarefas para os diferentes membros da comunidade de acordo com uma regra
previamente fixada.” (Marx, 1847, p. 135).
Para Lênin, também, a superior racionalidade do socialismo
residia em verificar a cientificidade dos métodos capitalistas a fim de
decretar regras padronizadas aplicáveis ao conjunto da economia nacional:
“quando a
classe trabalhadora tiver aprendido a defender o sistema estatal contra a
anarquia da pequena propriedade, quando tiver aprendido a organizar a produção
em larga escala, no plano nacional, dentro das diretrizes do capitalismo de
Estado, (. . .) a consolidação do socialismo estará garantida (. . .) O
socialismo é inconcebível sem as técnicas capitalistas da produção em larga
escala baseadas nas descobertas da ciência moderna. Ele é inconcebível sem a
organização estatal planejada, que mantém dezenas de milhões de pessoas na mais
estrita observância de um padrão unificado de produção e distribuição.” (Lênin, 1970, pp. 693-4).
O apelo de Lênin no sentido de um “padrão unificado” fazia
eco, naturalmente, aos manifestos do seu contemporâneo, Frederick Winslow
Taylor, que defendia a avaliação científica, a rotinização e a padronização.
Mas uma comparação entre os dois grandes teóricos organizacionais das primeiras
décadas do nosso século padecerá de uma concretude descabida se, como acontece
com a maior parte dos estudos (Merkle, 1980; Schor, 1981), centrar-se na
fascinação de Lênin pelo esquema de Taylor, tal como poderia ser aplicado
dentro das novas fábricas soviéticas. Como indica a passagem acima, com sua
ênfase na submissão de dezenas de milhões de pessoas a padrões unificados
através da organização estatal planejada em escala nacional, o novo projeto de
classe leninista repetia o esforço taylorista. Mas seu alcance era radicalmente
diferente. Os seguidores de Taylor tentavam realizar um projeto de
racionalização visando ao controle cada vez mais calculável, previsível e
padronizado do processo de supervisão na microesfera da empresa; os seguidores
de Lênin, por outro lado, em seu novo projeto de classe, tentavam a
racionalização na macroesfera, na medida em que procuravam colocar toda uma
economia nacional sob o controle racional através dos instrumentos
orçamentários do planejamento central. Acompanhando essa variação de escala,
havia, além disso, uma notável diferença entre os princípios legitimadores
defendidos pelos profissionais da nova classe média do capitalismo avançado e
aqueles defendidos pela elite partidária do socialismo de Estado. Os dois
projetos de classe estavam vinculados a pretensões de saber. Mas, enquanto a
administração científica da empresa buscava legitimidade em “leis” derivadas
dos “estudos de tempos e movimentos”, a capacidade de administrar cientificamente
uma economia baseava-se na pretensão do conhecimento das “leis de movimento da
história”.
Como
conseqüência da diferença entre esses novos projetos de classe, a
burocratização sob o socialismo de Estado não é apenas mais ampla, mais
profunda e mais abrangente do que no Ocidente, mas também é de tipo diferente.
A burocratização do capitalismo é reguladora; no socialismo de Estado
ela é redistributiva. No capitalismo avançado, as regras burocráticas
internas e as regulamentações burocráticas externas ocorrem num contexto no
qual as transações entre unidades econômicas e a distribuição de recursos entre
as empresas são coordenadas através do mercado. Dentro das empresas, os
recursos podem ser alocados burocraticamente; de uma firma para outra, a coordenação
é feita pelo mercado. No socialismo de Estado, ao contrário, as relações entre
as unidades econômicas são, em si, burocraticamente coordenadas e os recursos
são distribuídos para elas através da burocracia (8). Enquanto a
burocratização reguladora do capitalismo controla as trocas mercantis entre
proprietários privados de diferentes fatores de produção e reproduz as
condições de seu incremento, a burocratização redistributiva, no
socialismo de Estado, aloca recursos de forma centralizada através de medidas
orçamentárias que vinculam unidades produtivas mantidas sob propriedade pública
(9). Paradigmaticamente, as agências estatais, no capitalismo, emitem
regulações que policiam as regras do jogo entre competidores no mercado e
demarcam os parâmetros amplos dentro dos quais ocorre a atividade de mercado.
No socialismo, as diretrizes emitidas
pelo Estado, especificando as metas organizacionais e detalhando os critérios
de desempenho econômico, não são “intervenções” que precisam ser justificadas
em oposição aos direitos dos proprietários privados, mas as únicas prescrições
legítimas para o comportamento econômico, já que o Estado é dono de ativos
produtivos (em casos extremos, de todos esses ativos).
Sem dúvida, o Estado, no capitalismo
avançado, procura moldar o fluxo de recursos através, por exemplo, de créditos
para investimento, de políticas tributárias setoriais e de outros instrumentos
fiscais e monetários. No socialismo, entretanto, o Estado não apenas influencia
os investimentos, mas controla-os diretamente através da apropriação de
recursos produzidos em toda a economia e de sua redistribuição por meio de
orçamentos ministeriais (10). Do mesmo modo, embora o controle de
salários e preços, no capitalismo, possa chegar ao ponto de incluir normas salariais
centralmente reguladas e minuciosamente detalhadas, no socialismo, o Estado não
apenas estabelece níveis salariais, mas também distribui às empresas, de forma
centralizada, os próprios recursos com os quais são pagos os salários.
Redistribuição e dependência
Numa economia redistributivamente
coordenada, as empresas dependem extraordinariamente das autoridades centrais
quanto às diretrizes estratégicas, às instruções operacionais e à obtenção de
recursos (fundos destinados a investimentos, suprimentos e trabalho) capazes de
satisfazer esses objetivos. À primeira vista, poderia parecer que a propriedade
pública e a autoridade hierárquica dão aos ministérios um enorme poder de
controle sobre o comportamento das empresas que estão sob sua alçada. Mas a
dependência pode frustrar, mais do que facilitar, o controle, pois aqueles que
dependem não podem ser considerados inteiramente responsáveis por suas ações.
As empresas na economia socialista são como crianças em suas famílias: a
responsabilidade é inversamente proporcional à dependência. Uma empresa cujo
diretor obedece diligentemente às instruções detalhadas do poder central,
seguindo o regulamento ao pé da letra, quase não pode ser responsabilizada
quando a produção dá prejuízos. E quando as despesas excedem as receitas, a
empresa geralmente pode alegar. a existência de encargos administrativos que
justificam um novo aumento das dotações. O paternalismo institucionalizado na
propriedade pública garante a sobrevivência da firma, a despeito de seu desempenho.
Podendo captar recursos e investimentos sem demonstrar a utilidade do crédito e
sem a cobertura dos custos pelos resultados do faturamento, a empresa
socialista enfrenta apenas “leves restrições orçamentárias” (Kornai, 1986).
Em condições de leves restrições orçamentárias, a empresa
tem pouco estímulo para usar com eficiência recursos e investimentos. Na
verdade, ela tem, freqüentemente, todos os incentivos para usá-los sem
eficiência: recompensados: pela expansão e produção física, os administradores
da firma socialista procuram maximizar as dotações concedidas e armazenar e
esconder, como reservas, os recursos que a firma realmente detém. Por esse
motivo, a demanda de capital e trabalho da empresa é teoricamente ilimitada.
Esta fome perpétua de recursos, por sua vez, origina estados crônicos de
escassez de produtos em toda a economia, enquanto as empresas arrancam do
Estado mais operários, equipamentos, matérias-primas e investimentos, a
despeito de sua situação financeira ou da capacidade de usar eficientemente
esses recursos. Em termos dos limites sistêmicos da produção, pode-se dizer
que, enquanto a empresa, num mercado competitivo, pára a produção no momento em
que a demanda cessa, a firma socialista continua produzindo, custe o que
custar, e só pára quando se esgotam os suprimentos mobilizáveis. O problema da
empresa socialista é que as deficiências de oferta, longe de serem
excepcionais, são uma conseqüência cotidiana da escassez crônica de produtos de
uma economia administrada redistributivamente (11).
Para lidar com as incertezas da oferta e
com as mudanças nas metas de produção, os gerentes das empresas socialistas
armazenam trabalho como um fator flexível de produção. Se a firma capitalista
tende a dispensar ou, pelo menos, a parar de contratar operários em resposta às
incertezas da demanda, a empresa socialista contrata mais trabalhadores para
amenizar as incertezas das dotações de recursos. Enquanto o “exército de
reserva do trabalho” se posta desempregado do lado de fora dos portões da firma
capitalista, as “reservas de trabalho” do socialismo de Estado são
subempregadas dentro da empresa.
A reserva interna de trabalho da empresa
socialista pode ser mobilizada em épocas de trabalho acelerado, ao fim dos
períodos de planejamento, ou distribuída para enfrentar casos de “substituições
forçadas”. Nessas últimas e freqüentes ocasiões em que a empresa precisa
produzir com os insumos disponíveis e .não com os exigidos pelas prescrições
tecnológicas, as reservas de trabalho poderão ser usadas para processar
matérias-primas na própria fábrica, modificar processos de produção e readaptar
o equipamento a um fluxo de: produção não-padronizado. Além disso, como os bens
de capital são, muitas vezes, mantidos em operação além do ponto de
obsolescência técnica (uma baixa taxa de sucateamento é o subproduto da
escassez de capital), e as tarefas de manutenção são adiadas durante os
períodos de crise, as máquinas tendem a quebrar e exigem operários portadores
de conhecimentos peculiares ao tipo de produção. A tentativa de administrar
cientificamente uma economia como se fosse uma fábrica impede a administração
científica de qualquer fábrica. O fato de haver dependência externa diante de
uma burocracia redistributiva causa a dependência interna de uma força de trabalho
cooperativa. Esta dependência é a base da “negociação seletiva” (Stark, 1986)
realizada pelos operários dentro da empresa e da constituição da segunda
economia fora dela. Para esclarecer inteiramente esse processo, devemos
deslocar nossa atenção das relações entre as empresas e os ministérios centrais
para as relações que se dão entre as empresas e as famílias.
Dispêndio
de trabalho
Com a nacionalização dos bancos e da
indústria e a quase eliminação dos pequenos proprietários nas áreas da
agricultura e dos serviços, a moderna economia redistributiva, como foi
observado acima, representa uma concentração sem precedentes da propriedade dos
ativos produtivos. Mas um desses ativos, vital para a compreensão da dinâmica
do socialismo de Estado, não foi nacionalizado. Com a exceção de períodos
curtos e altamente instáveis, o trabalho permanece, de facto e de jure, uma propriedade dos indivíduos e
das famílias. Do lado da firma, a natureza privada do trabalho significa que os
gerentes enfrentam o problema de extrair trabalho da força de trabalho; isto é,
para pôr em marcha a indústria nacionalizada, precisam descobrir medidas
capazes de estimular o desempenho dos proprietários “privados” do trabalho. Do
lado das famílias, como poucos outros ativos são de propriedade privada, elas
praticamente não têm qualquer outra fonte de renda a não ser os ganhos obtidos
através do trabalho.
Essas
necessidades e interesses podem parecer coerentes e, na verdade, o são - até
certo ponto. O apetite quase insaciável da empresa por trabalho combina com a
busca de salários por parte das famílias para produzir o efeito de taxas de
participação da força de trabalho muito mais elevadas no Leste do que as
alcançadas na Europa Ocidental. Mas, quando se atinge o ponto em que a família
transformou todos os seus membros aptos em trabalhadores ativos, ela não pode
mais melhorar seu padrão de vida através de um aumento “extensivo” na taxa de
participação. Passa, então, a buscar uma utilização mais intensiva do trabalho
a níveis salariais mais altos - ou talvez, formas alternativas de remuneração.
Da mesma forma, os gerentes têm interesse em garantir os maiores fundos
salariais possíveis, a fim de reter e estimular o empenho da força de trabalho,
cuja qualificação é específica e exclusiva à empresa. Mas a defesa dos
interesses próprios das firmas e de seus trabalhadores não pode frutificar
ilimitadamente: afinal, elas estão competindo por fundos salariais tirados da
proporção fixa da renda nacional que os planejadores centrais destinam ao
trabalho. E, pela lógica da redistribuição, as vencedoras dessa competição não
serão, provavelmente, as firmas mais eficientes, de mais elevada rentabilidade,
ou com estruturas mais racionais de incentivo (12). Por essas razões,
uma proporção significativa dos operários enfrenta um hiato entre o nível de
esforço de que são capazes e desejam despender e o nível de recompensa que
provavelmente receberão.
A reação dos operários é condicionada por
uma situação na qual as famílias, em contraste com as firmas, enfrentam duras
restrições de orçamento. Como suas despesas precisam ser cobertas pelo salário,
a família é sensível aos custos e tenta economizar seus recursos. Desse modo,
procura a melhor retribuição possível para seus dispêndios de trabalho, que são
o único recurso gerador de renda de que dispõem. Alguns trabalhadores podem
melhorar a razão retribuição/ esforço através de negociações informais dentro
da fábrica (Héthy e Makó, 1972; Kalász e Kölló, 1984). Esse processo tem sido
caracterizado como
negociação seletiva (Stark, 1986), não apenas por causa de sua natureza had hoc, mas
porque se limita aos trabalhadores cujas qualificações, conhecimentos
peculiares à firma ou localização estratégica em pontos-chave do processo de
produção lhes permitem explorar a dependência das empresas em relação à sua
presença (Kölló, 1984; Stark, 1986; Ladó e Tóth, 1988). Outros podem recorrer à
rotatividade para conseguir melhorias salariais no curto prazo. Mas a
atratividade dos pisos salariais mais elevados (como únicos indicadores de
retribuição visíveis para quem está de fora) pode transformar a rotatividade em
estratégia autodestrutiva, nos casos em que os ganhos salariais de longo prazo
resultam de prêmios e gratificações não vinculados ao salário de base. Deixar o
emprego freqüentemente, , como recurso que parece de início mais fácil, pode
impedir o estabelecimento de contatos e ligações mais sólidos através dos quais
podem ser abertas oportunidades de prêmios, gratificações e pagamentos por
horas extras (Lukács, 1986). Diante dos inconvenientes da rotatividade e das
limitações da barganha seletiva, uma estratégia racional para a família é
tentar manter o preço da força de trabalho, reduzindo, ao mesmo tempo, o real
dispêndio de trabalho. Correspondendo ao armazenamento pela firma de uma
reserva de trabalho capaz de defendê-la contra as incertezas burocráticas,
encontramos também operários que sonegam o esforço de trabalho na produção.
Para a família, o trabalho sonegado à
firma socialista é trabalho potencialmente utilizável em outro lugar. Os
escoadouros mais próximos são as atividades de autoprovisão, como construção de
casas, consertos e jardinagens. O trabalho que a família pode e deseja
despender também pode ser empregado, nas horas de “folga”, para outras famílias
entre as quais o setor socialista deixa insatisfeitas grandes demandas nas
áreas de construção, consertos ou serviços pessoais. Isso se faz, algumas
vezes, com o próprio uso de ferramentas e materiais “tomados de empréstimo” ao
local de emprego regular, ou ainda, pelo fornecimento de mercadorias de
qualidade superior àquelas disponíveis no setor socialista. O crescimento da
construção civil privada, por sua vez, estimula o transporte particular de
materiais de construção. O cultivo mais intensivo de pequenos lotes familiares
não apenas aumenta a demanda por transporte de produtos agrícolas como cria um
mercado para as qualificações de projetistas industriais e mecânicos na
elaboração de novas tecnologias apropriadas à agricultura intensiva de pequena
escala - são os equipamentos agrícolas de baixa potência, as bombas de
aquecimento para estufas plásticas etc. O maior número de veículos e
equipamentos particulares gera mais oportunidade de trabalho privado em
consertos. E, enquanto cresce o número de “biscates”, também aumentam as
oportunidades para que as famílias comparem os ganhos obtidos no tempo de
“folga” com aqueles alcançados na empresa.
O aumento das oportunidades de saída do
setor formal proporciona, por sua vez, um aumento do número de trabalhadores
que podem participar da barganha seletiva em torno da relação entre esforços e
recompensas. Os gerentes, por sua vez, são muitas vezes forçados a tolerar esse
êxodo parcial, embora ele provoque um contínuo desgaste da capacidade de
incentivo dos salários pagos pelas empresas: pode ser esta a única opção capaz
de reter os empregados na empresa. A operação da moderna economia
redistributiva provoca, assim, o surgimento de uma segunda economia como uma
característica integral do socialismo de Estado.
Dimensões da segunda economia
Quando falamos em segunda economia,
referimo-nos a uma ampla gama de atividades geradoras de renda fora das
fronteiras da economia coordenada e administrada de forma redistributiva. As
unidades da segunda economia são de propriedade privada. Como se dá com as
famílias, mas ao contrário do que acontece com as empresas socialistas, essas
atividades enfrentam severas restrições orçamentárias. Suas relações externas
são coordenadas através de mercados ou redes de reciprocidade; a administração
de seus negócios internos (decisões sobre investimentos, operações, salários
etc.) não é governada por diretrizes e protocolos oficiais. Algumas atividades
da segunda economia não podem ser facilmente categorizadas em termos de uma dicotomia
entre legalidade e ilegalidade. É o que ocorre quando a taxação, o crédito e as
políticas de compra e oferta são escritas de tal modo que até mesmo o mais
escrupuloso produtor privado não pode agir em conformidade com regulações
mutuamente contraditórias. Tampouco pode a dinâmica da segunda economia - sua
expansão e contração, ou sua transformação qualitativa - ser descrita
simplesmente como uma história do aumento ou diminuição das restrições legais.
Por um lado, as proibições legais não podem, em si mesmas, refrear uma segunda
economia quando as violações são a norma e a vigência a exceção. Por outro
lado, a legalização em si não pode transformar uma economia submersa num setor
privado legítimo se uma população desconfiada teme nova expropriação, e até as
atividades legais e formalmente registradas têm um status oficial que não chega
à plena legitimidade.
Por essas razões, corno fazem os
húngaros, situamos grande parte da segunda economia numa zona que é descrita
com mais propriedade pelos termos “alegal”, “não ilegal” ou “tolerada” (13).
Acima de tudo, é preciso entender que essa zona tolerada não é fixada pela lei
ou pelo beneplácito da burocracia oficial. No fim da década de 60, e durante
toda a de 70, camponeses e operários húngaros não ficaram à espera,
pacientemente, de que o governo aprovasse novas medidas legais; aventuraram-se
na segunda economia, forçando o Estado, num setor após outro, a tolerar
atividades que foram outrora ilegais, mas ainda não estavam legalizadas, e a
institucionalizar formas que eram legais, mas ainda não se haviam tornado
legítimas. As fronteiras da segunda economia e as proporções relativas de suas
parcelas legal, ilegal e alegal são produtos da disputa entre o Estado e a
sociedade - o resultado continuamente mutável de uma luta na qual a sociedade
tenta criar e manter uma esfera de atividade relativamente autônoma do Estado.
Podemos
falar da relativa autonomia da segunda economia na medida em que seus
princípios organizadores diferem dos princípios do Estado redistributivo e seus
processos estão fora do controle das elites estatais (14). Isto,
naturalmente, não implica que a reprodução sistêmica da segunda economia esteja
isolada da economia socialista, ou que seus participantes tenham cortado seus
laços com o setor socialista. Na verdade, como a participação na segunda
economia é raramente empreendida em tempo integrai, a maioria dos seus
produtores mantém algum tipo de emprego nas firmas socialistas. Esta estratégia
é motivada, em parte, pelo objetivo de manter a segurança do emprego e o acesso
ao seguro-saúde, aos créditos para construção de casas e outros benefícios que
dependem da manutenção de um posto numa empresa socialista.
A decisão de não investir todos os
recursos financeiros e humanos em atividades particulares em tempo integral é
também moldada pela política contraditória do Estado para com a segunda
economia. Os administradores estatais das economias socialistas encaram essa
segunda economia com uma ambivalência que não deixa de se parecer com a postura
de alguns capitalistas em relação ao Estado do Bem-Estar em nossas próprias
sociedades. Por um lado, os políticos estão conscientes dos efeitos
compensatórios desta economia - como uma rede de segurança para algumas
famílias, como fonte suplementar de suprimento para algumas indústrias e como
um meio alternativo de elevar o padrão de vida para a maioria das famílias. Por
causa disso, eles apóiam as políticas que toleram a existência da segunda
economia. De outro lado, as elites estatais temem que a segunda economia ameace
a ideologia dominante e enfraqueça a capacidade de incentivo representada pelos
salários na economia socialista. Por esse motivo, as elites adotam políticas
que restringem sua expansão, conduzem à sua reprodução distorcida e
desencorajam a participação em tempo integral. Essas políticas incluem: a
inconstância proposital de medidas fiscais, o que dificulta a previsão dos
futuros compromissos com impostos; as severas limitações ao crédito legal; as
práticas que põem os produtores da segunda economia no fim da fila quanto ao
atendimento de seus pedidos de compra por parte de fornecedores socialistas, e
em último lugar nas listas de espera de pagamento quando negociam com firmas do
setor estatal (Galasi e Gábor, 1985).
Essas e
outras políticas semelhantes obrigam (até certo ponto intencionalmente) os
pequenos produtores a recorrerem a procedimentos escusos, como a sonegação
sistemática de declarações de rendimentos, a prática do suborno para aquisição
de materiais e estabelecimento de contratos e a obtenção de crédito ilegal
freqüentemente com taxas exorbitantes (15). Violações técnicas das
restrições legais levam a repetidas denúncias de existência de
ilegalidade disfarçada e corrupção na segunda economia, e estimulam
os esforços para conter sua expansão, o que, por sua vez, aumenta os temores de
expropriação e desencoraja novos investimentos em ativos produtivos. As
condições de escassez de produtos, além disso, proporcionam lucros inesperados
até mesmo para os produtores privados que, conscienciosamente, evitam a
corrupção e que, na ausência de caminhos legais para seus investimentos, gastam
seu dinheiro em casas espaçosas e grandes automóveis. A visibilidade desse
consumo aumenta a probabilidade de denúncias públicas contra “os rendimentos
não ganhos com o trabalho”; essa condenação provoca mais medo entre os pequenos
produtores e desencoraja, ainda mais, o candidato
a instalar-se em tempo integral nessa economia.
Os resultados desse processo são a baixa
propensão a investir legalmente na segunda economia, a tendência para que os
poucos investimentos existentes se voltem para o lucro imediato e de curto
prazo, e a decisão de não deixar o emprego no setor socialista. A escassez de
produtos característica da economia socialista perpetua uma situação na qual
apenas uma minoria de famílias vive unicamente dos ganhos da primeira economia;
a política preferencial das elites estatais reproduz um padrão em que apenas
uma proporção marginal vive somente das rendas da segunda economia. A maioria
das famílias obtém rendimentos de ambas. Como argumenta István Gábor (no
prelo), a estratégia das famílias no sentido de uma participação paralela e
simultânea em ambas as economias tornou-se norma.
Para
alguns analistas (Kemény, 1982; Sampson, 1986), os suplementos de rendas
obtidos através dessa dupla participação reduzem os conflitos e tensões que, de
outra forma, surgi’ riam dentro do setor socialista. A segunda economia, sob
esse ponto de vista, é uma espécie de válvula de segurança que serve, em última
análise, para manter o sistema. Embora a segunda economia seja um fator
importante na reprodução global do socialismo de Estado, estatísticas recentes
sugerem que a metáfora da válvula de segurança subestima o volume de atividades
desta economia e, desse modo, deixa de captar a dinâmica contraditória das suas
relações com o setor estatal. Em 1987, por exemplo, os pequenos agricultores
eram responsáveis por apenas 11% da terra arável, mas geravam mais de 36 % da
produção agrícola (Központi Statisztikai Hivatal, 1987, p. 34), incluindo 74%
dos vegetais, 60.8% dos frutos e 53.5% dos suínos criados naquele ano (idem,
p. 190) (16). Em relação às ocupações urbanas (as estatísticas são
limitadas aos participantes legalmente registrados), o número de varejistas
particulares é ainda pequeno, mas aumentou de 10.229, em 1975, para 31.827, em
1987, e inclui cerca de 32 % das lojas comerciais, restaurantes e bares (com 12
% adicionais de todas as instalações varejistas e de alimentação arrendadas para
a iniciativa privada) (idem, pp. 261-3). O número de produtores por
conta própria elevou-se igualmente de 103.412, em 1980, para 154.611, em 1987 (idem,
p. 407). Os consumidores húngaros recorrem à segunda economia para comprar
de tudo, desde o pão para suas mesas até o software para seus
microcomputadores. Quarenta e dois por cento da construção de moradias (Gábor,
no prelo, e Sik, 1988) e, numa estimativa conservadora, quase 85% das tarefas
de consertos domésticos (Markó, 1986, p. 30) são empreendidas por produtores da
segunda economia.
Segundo algumas estimativas, quase três
quartos de todas as famílias obtêm alguma renda da segunda economia (Kolosi,
1980, p. 41) (17). Um recente estudo realizado por economistas húngaros
(utilizando questionários de “uso do tempo” - time-budget - em
âmbito nacional conduzidos pelo Departamento Central de Estatística da Hungria)
avalia que, em 1984, 33 % de todo o tempo de trabalho ativo (excluindo o
trabalho doméstico) foram empregados na segunda economia (Timár, 1985).
A
imagem de uma válvula de segurança que deixa escapar a pressão para evitar uma
emergência parece uma metáfora particularmente inadequada quando se
pensa que, de cada três horas de trabalho remunerado na Hungria, uma se
realiza na segunda economia. Em vez de uma simples válvula, esta economia
tornou-se, sem dúvida, um mecanismo alternativo ligado à energia da primeira
através de um complexo sistema de circulação que, no entanto, cada vez mais,
gera sua própria energia de fontes que não são fornecidas pelo setor
socialista.
Pressões
para a mudança
Quanto mais marginal em seu tamanho e
mais ilegal em sua natureza, mais a segunda economia é conservadora em seus
efeitos sistêmicos. Sua expansão, entretanto, atinge um ponto em que se torna
uma fonte de crescente pressão para mudanças na primeira economia. As mais
importantes, para os efeitos de nossa comparação, são as mudanças na relação de
emprego no interior do setor socialista, provocadas pelo crescimento e pela
transformação qualitativa da segunda economia.
Mais significativo do que o efeito de
aumentar as oportunidades de escolha do consumidor em relação à qualidade e
disponibilidade dos produtos é o fato de que a expansão da segunda economia
aumenta a escolha do produtor: da ausência de qualquer possibilidade de
escolha, além dotrabalho
assalariado na firma socialista, essa economia em expansão proporciona formas
alternativas de investir em atividade produtiva, incluindo opções como o
trabalho por conta própria, as pequenas sociedades, acordos de franquias,
participação em pequenas cooperativas e trabalho assalariado para os
empresários da própria segunda economia. Aumentando as oportunidades para um
êxodo mesmo parcial, essa; economia aumenta o espaço de manobra dos
trabalhadores dentro da empresa socialista e faz crescer ã probabilidade de que
os termos contratuais de emprego (salários e condições de trabalho) sejam
negociados entre trabalhadores e gerentes, em vez de serem impostos
administrativamente. Não se deve esperar que essas negociações tomem
imediatamente a forma das barganhas sindicais coletivas - que nos são
familiares no Ocidente. Mas, na medida em que a segunda economia aumenta a
pressão por mudanças, pode-se esperar que mais trabalhadores sejam trazidos
para o campo da barganha seletiva dentro da fábrica, que a agenda das questões
negociáveis se, expanda e que essa barganha saia aos poucos da sombra e
passe a receber reconhecimento oficial sob formas
mais institucionalizadas (porém não mais burocratizadas).
Provas de que essas mudanças estão ocorrendo
podem ser encontradas numa recente inovação organizacional, através da qual
grupos de trabalhadores dentro das fábricas húngaras conquistaram o direito de
formar unidades semi-autônomas de subcontratação, conhecidas como “parcerias de
trabalho” (vállalati gazdasági munkakõzõsséggek, que
passamos a designar como VGMs), ocupadas em produzir bens ou serviços nas horas
de “folga”, usando os equipamentos da empresa socialista. Os termos desses
acordos de subcontratação são negociados entre administradores das unidades e
representantes eleitos por cada parceria (e não por autoridades sindicais que
respondam perante a administração). O fato dessa negociação ser feita às claras
corresponde a um reconhecimento oficial da barganha seletiva que antigamente
ocorria apenas nas negociações “subterrâneas” dentro da fábrica. A seleção de
membros, a organização do trabalho e a concessão da “remuneração empresarial”
são de responsabilidade interna às parcerias e diferem, algumas vezes
radicalmente, dos padrões das “horas regulares” burocraticamente organizadas.
Em 1987, 11 % de todos os empregados da indústria eram membros de parcerias,
com taxas de participação de 25-30%; entre operários manuais qualificados de .
algumas indústrias pesadas. As taxas horárias de salário nas parcerias são
várias vezes superiores às obtidas em troca de trabalho, comparável realizado
nas horas regulares. As rendas anuais das VGMs oscilam habitualmente entre
30-60% dos ganhos regulares anuais, mas os rendimentos no tempo de “folga”, algumas
vezes excedem os ganhos do emprego principal.
A operação do sistema de parceria foi
descrita detalhadamente em outros estudos. (Laky, 1984, 1985; Stark, 1989, no
prelo.). Para nossos objetivos neste ensaio duas
questões devem ser enfatizadas. Em primeiro lugar, o estabelecimento da
modalidade da -parceria decorreu diretamente da expansão da segunda economia.
Durante toda a década de 70, grupos sociais sucessivos tiveram a oportunidade
de levar suas qualificações para essa economia; os cámponesës, por exemplo,
ganharam o direito de produzir e vender independentemente seus produtos
agrícolas, e trabalhadores em construção puderam fazer contratos legais para a
construção de casas. Outras medidas administrativas e legislativas. visando
“integrar o funcionamento da economia socialista e da segunda economia”
suspenderam as restrições aos empreendimentos privados nos setores de
restaurantes, consultoria profissional e técnica e algumas atividades
industriais em pequena escala. No começo da década de 80, entretanto, um grupo
político e economicamente estratégico ainda não detinha uma forma institucional
para negociar suas habilidades profissionais na segunda economia. Esses
trabalhadores, cujos equivalentes, durante o mesmo período, lideravam o
movimento Solidariedade na Polônia, construíram o núcleo da classe operária
urbana - os operários qualificados na indústria pesada, dos quais a gerência
muito dependia. Se o mecânico de máquina de lavar, empregado numa firma
estatal, podia conquistar clientes e retirar peças sobressalentes de seu
emprego regular para uso em sua “atividade particular” de “folga”, e se o
camponês podia cultivar intensivamente seu próprio lote de terra, como poderia
o caldeireiro de uma siderúrgica ou o operador de sofisticadas máquinas-ferramentas utilizar suas
qualificações especiais dentro da segunda economia? A parceria proporciona essa
oportunidade de ganhar rendas adicionais nas horas de “folga”. Como explicou um
jovem projetista mecânico durante minha pesquisa de campo
“A VGM é uma
forma mais civilizada do que a segunda economia. Posso ganhar dinheiro extra de
acordo com minha qualificação, e não em nível inferior. Quando a pessoa faz o
trabalho em seu próprio nível, encara o dinheiro extra de modo menos
humilhante. Digamos, se eu preciso dodinheiro, não preciso lavar as panelinhas
da Tia Maria ou descarregar caminhões, más posso fazer o trabalho de que gosto
e que conheço bem. Não há grandes possibilidades de fazer trabalho de
projetista no ‘mercado negro’ para empresas. Projetar e fabricar um instrumento
não é coisa para ser feita no ‘mercado negro’. Mas na VGM eu continuo meu
trabalho regular e assim também é possível alcançar algum desenvolvimento
profissional.
Um mecânico mais velho, morador em Budapeste, também
declarou:
“Não posso cultivar
verduras numa banheira. Aqueles que moram no campo têm sua ‘terrinha’ e podem
ganhar algum dinheiro com ela, mas nós da cidade
não temos isso. Na VGM, no entanto, posso ficar no mesmo lugar, usar minhas
próprias habilidades e trabalhar com meus amigos de sempre.”
Ou, como me explicou um membro do Comitê Central durante
uma entrevista: “As VGMs são a ‘terrinha’ particular da indústria”.
Em segundo lugar, como “terrinha”
particular da indústria, a VGM não apenas suplementa a renda, mas representa um
meio de fugir das regulações salariais centralizadas, constitui uma nova forma
de distribuir o trabalho dentro da empresa e de recompensá-lo. As VGMs oferecem
um meio de pagar melhor aos operários estratégicos, vincular seus interesses
aos da firma, reduzir a rotatividade e ganhar a cooperação dos trabalhadores
dentro do processo de produção. Como tal, realiza funções bem parecidas com as
dos “mercados internos” de trabalho da grande empresa capitalista (Stark, 1986).
A diferença é que, nas economias de mercado, esses mecanismos tomam a forma de
regulamentos burocráticos internos, enquanto nas economias burocráticas eles
tomam a forma de transações internas de mercado. De fato, em algumas firmas, os
termos dos acordos e o preço das taxas empresariais são ajustados por um
sistema de competição interna, na qual os grupos fazem “lances” por
subempreitadas (Neumann, 1986). Mas, seja através de lances ou de negociações
realizadas pelos representantes eleitos, a forma de parceria que o mercado de
trabalho interno assume, bem como a negociação seletiva das horas regulares que
ela explicita e institucionaliza, funcionam de acordo com uma lógica de
intercâmbio transacional em que os benefícios são distribuídos segundo o pertencimento
a um grupo que se acha em relação direta, e não através da participação nos
grupamentos classificatários das taxionomias burocráticas.
Assim, enquanto os operários das
economias capitalistas se diferenciam na medida em que estão protegidos contra
o mercado, os operários na economia socialista diferem pela extensão em que
podem participar dele. No capitalismo, os trabalhadores da economia informal
tendem a ganhar menos do que os empregados na economia regulada; a
subcontratação e contratação externa estão habitualmente associadas a menos
proteção, a benefícios inferiores e a uma ausência de representação sindical.
No socialismo, ao contrário, as remunerações são muitas vezes mais elevadas na
segunda economia e os trabalhadores que podem participar dos esquemas de
subcontratação estão entre os que recebem recompensas mais elevadas: têm acesso
não apenas a rendimentos mais altos, como também a meios alternativos de
representação de interesses.
Um
modelo comparativo de oposições especulares
Ao examinar as relações entre a
burocratização reguladora e a economia informal e entre a burocratização
redistributiva e a segunda economia, dissemos que os padrões peculiares de cada
sistema poderiam ser revelados através de seu mútuo contraste. Ou seja, uma análise
abrangente das diferenças sistêmicas exige uma comparação multilateral na qual,
simultaneamente, (a) comparamos as instituições econômicas entre um setor e outro dentro dos sistemas e (b)
comparamos as relações entre setores de um sistema para outro.
Através de uma análise sistemática, o
modelo resultante capta a especificidade de uma dada instituição, não através
de alguns traços essenciais, mas apenas em relação à configuração mais ampla dentro
de um sistema e entre sistemas.
A Figura 1 apresenta sob uma forma visual
o modelo de uma comparação multilateral desse tipo, mostrando a dinâmica da
burocratização e da informatização no capitalismo e no socialismo (18).
Seus elementos foram extraídos da análise exposta anteriormente. Para cada
sistema, apresentamos (a) o mecanismo de coordenação através do qual a empresa
está ligada com outras unidades no ambiente econômico; (b) os traços
característicos dos mercados internos de trabalho, (c) as forças em conflito
com o mecanismo de coordenação sistêmico dominante que estimula o
desenvolvimento dessas formas dentro das empresas e (d) a economia informal ou
segunda economia.
De modo geral, a lógica global da
configuração mostra os traços do capitalismo e do socialismo como oposições
especulares. Tomemos, por exemplo, a relação entre os mecanismos externos de
coordenação e os mercados internos de trabalho: enquanto, no capitalismo,
encontramos regras burocráticas internas em um ambiente predominantemente de
mercado, no socialismo, vemos as transações de mercado interno num ambiente
predominantemente burocrático. A Figura 1 também mostra os modelos
característicos da burocratização nos dois sistemas. Como um mecanismo
dominante de coordenação no socialismo, a burocratização é redistributiva. A
burocratização reguladora do capitalismo, em contraste, está justaposta à
lógica dominante do mercado e, como princípio ao mesmo tempo coexistente e
oposto, estimula as mudanças no sistema - nenhuma delas interna à empresa
capitalista.
A configuração torna-se mais complexa
quando nos voltamos para as “localizações” sistêmicas da economia informal e da
segunda economia. Onde deveriam elas estar situadas, quando a comparação direta
de seus padrões de propriedade, restrições orçamentárias, coordenação econômica
e controle interno revelam semelhanças acentuadas? Ambas se caracterizam pela
propriedade privada, por severas restrições orçamentárias e
pela coordenação do mercado. E em ambos os casos, o controle interno não é
regulado por procedimentos burocráticos (a relação de emprego, por exemplo, não
é regulamentada pelas normas burocráticas que governam a contratação, a
demissão, as promoções etc.). Se nossa análise permanecesse no plano das
relações internas em cada economia formal (cuja semelhança está assinalada, na
Figura 1, através da representação de cada uma sob a mesma forma circular),
poderíamos concluir que os processos de informatização são essencialmente os
mesmos nos dois sistemas sociais.
Sem se limitar à comparação das
características internas das respectivas economias, informais, nossa análise
prosseguiu examinando como os processos de informatização se articulam com a
matriz institucional mais ampla do capitalismo e do socialismo. Comparando um
setor com o outro, argumentamos que o controle da relação de emprego na
economia informal do capitalismo difere das relações reguladas de trabalho do
setor formal. Mas, se a economia informal escapa à burocratização reguladora,
ela o faz com base na coordenação de mercado e na propriedade privada
compatíveis com os do modelo de produção dominante. No caso socialista, essas
mesmas características se opõem, em vez de se harmonizarem com o modelo
dominante. Além disso, por causa dessa diferença, o controle não-burocrático da
economia informal estimula a institucionalização da negociação dentro da firma.
Já vimos antes este padrão - no qual uma lógica contrária, porém subordinada,
constitui uma força que pressiona em favor da mudança - na burocratização da
relação de emprego, que refez as instituições econômicas do capitalismo. Para
captar essa comparação, a segunda economia é também mostrada na Figura 1 sob
uma forma triangular, representando uma força de mudança sistêmica que refaz as
instituições econômicas do socialismo. Como equivalente dos sindicatos,
agências estatais e associações profissionais que promoveram a burocratização
nas economias capitalistas, a segunda economia (numa oposição especular
sistêmica) é uma força de mercantilização nas economias redistributivas
socialistas. Imprevista de início, a busca de uma comparação multilateral
leva-nos para longe das semelhanças superficiais da informalidade econômica
entre os sistemas sociais, até a descoberta de similaridades estruturais entre
a segunda economia, no socialismo, e os sindicatos, no capitalismo.


Se os sindicatos e a segunda economia desempenham papéis
sistêmicos análogos, estimulando mudanças que melhoram o poder de barganha dos
trabalhadores, fazem-no, naturalmente, através de meios diferentes (19).
Em ambos os casos, as instituições econômicas (por exemplo, o controle interno
da relação de emprego) são remodeladas pela ação baseada no interesse. Mas a
racionalização interna do emprego, sob o capitalismo, teve como ponta de lança
as organizações formais (sindicatos, agências estatais, associações
profissionais), enquanto a expansão da barganha no socialismo é um produto da
organização social (ações não orquestradas de indivíduos e famílias, em sua
participação cotidiana nos mercados e redes da segunda economia). De modo
semelhante, se as regras classificatórias do emprego burocratizado, que
fornecem uma proteção contra os efeitos do mercado, fossem tomadas de
empréstimo a formas desenvolvidas fora da firma, e se as formas de barganha
institucionalizada capazes de proporcionar alguma participação no mercado
fossem tiradas por empréstimo da segunda economia, nos dois casos esses
empréstimos seriam acompanhados de uma extensão dos direitos. Mas, se a antiga
proteção resulta de uma extensão à economia dos direitos de cidadania
(liberdade de associação, não discriminação etc.), a última participação resulta
de uma extensão dos direitos de propriedade (direitos de contratar, de entrar
em parcerias econômicas etc.) dentro das organizações estatais.
Um epílogo voltado para o futuro: da segunda economia
para o setor privado legítimo
A pergunta sobre a possibilidade de que
esses direitos de propriedade venham a expandir-se até criar um setor privado
legítimo domina a agenda política na Hungria contemporânea. Um desenvolvimento
desse tipo assinalaria o surgimento de uma economia socialista mista (Stark,
1989; Szelenyi, 1989), em vez de socialismo de Estado com uma segunda economia.
Refletiria uma transformação qualitativa e não uma simples expansão da segunda
economia; enquanto os produtores, nesta economia, apenas suplementam renda num
setor privado plenamente legitimado, eles estariam livres para acumular
capital. Medidas recentes indicam que a liderança húngara caminha nesse
sentido. Com a economia aos tropeços, uma nova legislação e novas diretrizes
administrativas estabelecem o direito de constituir sociedades de participação
limitada e permitem que empresas privadas húngaras empreguem até 500 operários
(uma elevação do antigo limite de 15); tudo isso na esperança de que um setor
privado ampliado melhore o desempenho e promova o crescimento da economia (20).
Ainda é cedo demais para avaliar as
conseqüências dessas novas medidas (embora as indicações preliminares sejam de
que, provavelmente, não foram suficientemente longe para alcança os efeitos
desejados). Indicamos aqui, apenas rapidamente, alguns problemas e perspectivas
já desenvolvidos nas páginas anteriores. Sondando a década de 90, seria um erro
supor que os obstáculos à criação de um setor privado dinâmico possam ser
removidos pela simples conversão do princípio de que “tudo é proibido, se não
for explicitamente permitido” em outro que estabeleça que “tudo é permitido, se
não for explicitamente proibido”. A mudança para um novo princípio é
necessária, mas não é suficiente. Ou seja, o desenvolvimento de um setor
privado legítimo requer não apenas a suspensão das restrições, mas também a
implantação de novas regulações (Nee, 1989). Nos termos da análise que
realizamos, os mercados limitados e distorcidos da segunda economia podem
existir nos interstícios de uma burocracia redistributiva; mas um setor privado
dinâmico exigirá algum grau de burocracia reguladora.
Um partido comunista no poder, não menos
do que o governo mais adepto do laissez faire na sociedade capitalista, relutará
em tolerar um mercado inteiramente irrestrito; com isso, a mudança para novos
princípios legais exigirá, necessariamente, o estabelecimento de proibições
mais detalhadas e explícitas, em lugar das resoluções globais antes vigentes.
Além disso, os investidores privados, provavelmente, se sentirão mais
confiantes (ou, pelo menos, irão mostrar-se menos temerosos das intromissões do
Estado) se as proibições forem claramente enunciadas em vez de permanecerem
implícitas. Por esses motivos, e devido ao fato de que os mercados dinâmicos
exigem uma infra-estrutura legal estável para facilitar as trocas completas,
uma economia socialista mista, ao contrário do Estado socialista anterior, terá
menos restrições, porém mais regulações precisas, formalizadas e delimitadas (21).
Apesar da diferença qualitativa entre
regulações legais-racionais e diretrizes redistributivas, os dois tipos de
práticas administrativas podem ser muito facilmente confundidos na transição
para uma economia socialista mista. Por um lado, os burocratas acostumados com
o uso redistributivo podem aprender novas rotinas, quando os negócios fluírem
facilmente; mas, quando surgirem problemas políticos ou econômicos,
provavelmente recuarão para os padrões redistributivos familiares - e a
proliferação de normas regulamentando o mercado pode servir de pretexto
imediato para esse recuo. Alguns empresários, por sua vez, muito provavelmente
irão interpretar mal esses regulamentos mais detalhados, considerando-os o
sinal de um clima hostil para os investimentos, mesmo quando sua intenção for a
dê aumentar a confiança do investidor. E, se recuarem para os modelos
familiares das transações da segunda economia, à margem da legalidade, isto
provavelmente provocará uma modificação nas intervenções do Estado, que
passarão de benevolentemente reguladoras para agressivamente restritivas.
Décadas de suspeita mútua, desse modo, criam as circunstâncias para se fazerem
profecias dos dois lados, duplamente repletas de esperanças e de possível
realização. O resultado mais provável, então, será um padrão cíclico, com
períodos alternados de super e sub-regulamentação.
O desenvolvimento de uma economia
socialista mista também criará possibilidades para novos alinhamentos de
classe. Se continuarem as atuais tendências, na década de 90 veremos o
surgimento de uma nova classe na Europa Leste - não a Nova Classe de Djilas,
formada por uma elite do partido, mas uma nova classe de empresários acumulando
capital. Com que grupos sociais poderá ela aliar-se? Será com os operários,
para aumentar o âmbito dos negócios e abrir mais caminhos de saída do setor
socialista? Se for assim, um setor privado ampliado e oficialmente reconhecido
talvez venha a constituir uma sociedade civil embrionária, resultando não
apenas numa expansão dos direitos de propriedade, mas também numa expansão dos
direitos de cidadania (22). Alternativamente, poderá ocorrer uma aliança
dos novos empresários com a antiga elite socialista estatal. Se assim for, pode
acontecer que a democratização e o crescimento da atividade econômica privada
tenham, no contexto socialista, uma relação curvilínea, em vez de linear, com a
corrupção típica dos “mercados negros”, num dos extremos, e, do outro, com a
colaboração de classes para reprimir os trabalhadores. Pelo fato de ambos esses
cenários de alinhamentos serem possíveis, o resultado será determinado pela maneira
como os interesses venham a ser formulados, no embate de políticas
transformadoras. Em qualquer desses casos, o período de transição da segunda
economia para o setor privado reconhecido será decisivo, pois as alianças então
forjadas, ou rompidas, formularão o socialismo do próximo século.
Recebido
para publicação em novembro de 1989.
Tradução
de Sonia Coutinho, revista por Vera Pereira.
Notas
* A pesquisa que
originou este ensaio foi financiada pelo International Research and Exchanges
Board (IREX) e a Graduate School da University of Wisconsin. Versão anterior
foi apresentada no. Encontro Anual da America,n Sociological Association,
Chicago, agosto de 1987. Desejo agradecer a Stephen Bunker, Paul DiMaggio,
Lauren Edelman, István Gábor, János Lukács, Kay Mohlman, Victor Nee, Stephen
Petterson, Ivan Szelenyi e, especialmente, a Monique Djokie por seus
comentários valiosos e suas sugestões ao primeiro rascunho.
**
David Stark é professor do Departamento de Sociologia da Universidade de
Wisconsin.
1 - Em sua etapa inicial (por exemplo, Hart, 1973; Weeks, 1975) as
pesquisas sobre o setor informal examinaram padrões de emprego autônomo no
setor informal de serviços das economias em desenvolvimento, como um recurso
dos pobres urbanos para enfrentarem os problemas da migração e
do trabalho assalariado. A segunda década de pesquisas sobre o setor informal
no Terceiro Mundo modificou a unidade da análise das estratégias de
sobrevivência das famílias para as estratégias de emprego das empresas (Portes
e Benton, 1984; Beneria e Roldan,1987): Com isto, a atenção desviou-se das
ocupações marginalizadas, como as de vendedor ambulante e dos fabricantes de
fundo de quintal, para os postos industriais. b emprego industrial pode ser de montante
apreciável. Roberts (1989), por exemplo, calcula que 40% da força de trabalho
manufatureira de Guadalajara têm empregos informais.
2 - Como no Terceiro Mundo, os esforços
dos sociólogos para entender a economia informal nas sociedades capitalistas.
avançadas centralizaram-se inicialmente nas estratégias das famílias em
atividades como "autoprovisão" (Gershuny, 1979; Mingione, 1983) e
"trabalho fora do emprego" (Gershuny e Pahl, 1982). Estudos mais
recentes analisam as estratégias de emprego das firmas (OECD, 1986; Fernandez
et al, 1988, 1989a, no prelo).
3-
Em inglês, "sweating system" (N. do T.).
4
- Ao argumentar contra as explicações em termos de controle e eficiência e
enfatizar os impulsos
formalizados que vêm de fora da firma, essa perspectiva alternativa da
racionalização burocrática é amplamente compatível com o novo institucionalismo
na análise sociológica das organizações (Meyer e Rowan, 1977; DiMaggio e
Powell, 1983). Mas, embora os novos institucionalistas na sociologia analisem
"mitos racionalizadores", "verdades estabelecidas",
processos miméticos e modelos de isomorfismo num universo organizacional
aparentemente despovoado de atores sociais (para uma autocrítica, ver DiMaggio,
1988), a perspectiva adotada aqui concentra-se na ação voltada para interesses
realizada por indivíduos e grupos.
5
- "Taxionomias burocráticas são o produto de um registro, de acordo com
procedimentos considerados científicos, isto é, positivistas, de taxionomias
que não ião produzidas cientificamente, mas negociadas entre empregadores e empregados...
Assim, a luta pela classificação é uma dimensão da luta de classes, mas sem
dúvida a que está melhor escondida" (Bourdieu e Boltanski, 1981, pp.
149-51). Sobre os instrumentos classificatórios e as políticas de
classificação, ver também Thévenot (1983, 1984).
6 - Antes da regulação
burocrática, podem haver economias "tradicionais" voltadas para a
produção simples, crias essas não são economias informais, nos termos da
definição aqui adotada.
7 - Embora os atores
possam ser pressionados a fornecer racionalizações a posteriori (o "fundamento
lógico") para as verdades estabelecidas não explícitas de uma cultura, as
convenções burocráticas são racionalizadas antecipadamente.
"Racionalizadas", aqui, naturalmente, não implica que as convenções
burocráticas tragam uma racionalidade universalmente superior. Sobre
codificação e formalização, ver especialmente Bourdieu (1986).
8
- As sociedades capitalistas, naturalmente, têm algumas características
redistributivas e os mecanismos de mercado não estão inteiramente ausentes no
socialismo de Estado. Mas, em ambos os casos, o princípio alternativo está
subordinado ao respectivo mecanismo alocativo dominante.
9
- O conceito de redistribuição, assim, difere das noções familiares de
redistribuição de rendas através de "transfer payments", desde
que, no socialismo de Estado, a redistribuição não é um princípio auxiliar que
modifica os resultados do mercado (através da taxação de rendas geradas no
mercado), mas assume o papel predominante como mecanismo coordenador da
atividade produtiva em si. Uma análise pioneira dos modernos sistemas
redistributivos, baseada na diferença estabelecida por Polanyi (1957) entre os
mercados, a redistribuição e a reciprocidade, como "modos de coordenação
econômica", pode ser encontrada na obra de Konrad e Szelenyi (1979).
10 - Assim, embora as
reformas na Hungria tenham introduzido uma certa dose de coordenação de mercado
nas relações entre as empresas, a natureza redistributiva da economia persiste
na apropriação orçamentária de lucros empresariais e em sua destinação redistributiva
através de subsídios e fundos de investimentos. Este processo foi empiricamente
documentado e analisado em estudo rigoroso e abrangente de Kornai e Matits
(1987).
11
- O problema para o consumidor socialista é que as empresas exaurem as dotações
e recursos disponíveis antes que esgotem a demanda do consumidor. É neste
sentido que János Kornai (1979) chama a economia planificada de "limitada
por recursos" no nível macro, em oposição à economia de mercado
tipicamente "limitada pela demanda".
12 - Gábor e Kovári (1985), na verdade,
demonstram que as recentes mudanças na distribuição dos fundos salariais
penalizam as firmas que usaram o trabalho mais eficientemente na etapa
anterior.
13 - Como
tal, essa definição difere das noções anteriores (exemplo, Grossman, 1977) da
segunda economia em termos de uma atividade ilegal geradora de rendas. Como
definimos a segunda economia em relação com a burocracia redistributiva, os
critérios relevantes envolvem os modelos de propriedade, restrições
orçamentárias, coordenação externa e controle interno das unidades da segunda
economia, em vez de girarem em torno de seu status legal. A definição mais
elaborada e de maior utilidade analítica da segunda economia encontra-se em
Gábor (no prelo).
14 - A
alusão ao debate sobre a "autonomia relativa do Estado" nas
sociedades capitalistas é deliberada. Enquanto a sociologia política das
democracias avançadas foi revitalizada "trazendo de volta o Estado",
a sociologia política do socialismo de Estado será revitalizada quando parar de
se preocupar com as estruturas do partido/Estado e colocar em foco a sociedade
(Stark e Nee, 1989).
15 - Forçados a se
envolverem com uma corrupção tão mesquinha, os empresários da segunda economia
se expõem, assim, a um meio nefando de controle social que é a chantagem
oficial. Em Gábor (1988) encontra-se um contraste entre as formas de controle
da economia informal e da segunda economia.
16
- Os camponeses poloneses também produzem privadamente uma grande porcentagem
de produtos agrícolas. Na Hungria, entretanto, onde apenas uma minúscula fração
da terra é de propriedade particular, os camponeses têm instituições
independentes para a venda de seus produtos (e não apenas em mercados
locais, mas regionais, nacionais e até mesmo internacionais). Embora de
propriedade privada, as fazendas da Polônia são parte da economia
redistributiva; pelo fato de serem mais autônomos na aquisição de insumo e na
venda de seus produtos, os camponeses húngaros estão na segunda economia, fora
da lógica redistributiva, mesmo que não tenham propriedade da terra. Ver Juhász
e Magyar (1983) e Szelenyi (1988).
17 - Ver
Rona-Tas (1989) num excelente estudo que utiliza, dados de pesquisa húngaros
não apenas para examinar taxas e modelos da participação da segunda economia,
mas também para avaliar suas conseqüências em termos de desigualdades de
ganhos.
18
- As futuras investigações deveriam explorar as comparações que incluem o nível
de desenvolvimento como uma outra dimensão, que atravessa os sistemas
capitalista e socialista. Numa comparação assim multilateral, os exemplos
referentes a áreas agrícolas poderiam incluir a Espanha e a Hungria, o Peru e a
China.
19
- Em contraste com as ações típicas dos sindicatos para reduzir a jornada de
trabalho, a segunda economia a estende. A longo prazo, isto terá sérias
conseqüências para a saúde da população trabalhadora.
20 - No meio de discussões sobre mudanças
radicais na estrutura industrial (incluindo o fechamento de algumas fábricas
obsoletas na indústria pesada), alguns líderes húngaros manifestaram a
esperança de que o crescimento do setor privado venha a atenuar os efeitos do
provável desemprego, quando algumas empresas socialistas forem destruídas
durante a reestruturação econômica. Este seria um desenvolvimento
qualitativamente novo na relação entre o setor socialista e a segunda economia.
21 - A
diferença entre os dois tipos de burocratização é decisiva aqui. As economias
socialistas estatais, é claro, estão repletas de medidas administrativas
conhecidas como “regulamentos”. A questão é que muitas delas não são
reguladoras, no sentido em que usamos a palavra aqui: comportamento regulador
pressupõe, ao contrário, uma livre oportunidade para a atividade autônoma.
22
- Seja através da criação de organizações formais de natureza representacional
(como o Solidariedade na Polônia), ou através de redes de organização social de
reciprocidade e troca (como na segunda economia na Hungria), os anos 80
assistiram à expansão de uma sociedade protocivil relativamente autônoma do
Estado. Com mudanças constitucionais, eleições competitivas, perspectivas
prováveis do surgimento de ministros não comunistas, generais entregando as
rédeas do governo a líderes civis (como na Polônia), e uma florescente
imprensa, independente, o início dos anos 90 será um período de democratização
num contexto social de inflação, crise e reestruturação econômica. Esses
modelos não soarão estranhos aos estudiosos da América Latina contemporânea.
Nossa compreensão dos problemas e perspectivas da democratização deveriam ser
enriquecidos pelas descobertas que serão alcançadas através de amar comparação
de casos como os do Brasil, Grécia e Polônia, ou Hungria, Espanha e Argentina.
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