Resenha      

Marx Hoje

Jon Elster,

trad. de Plínio Dentzien
São Paulo, Paz e Terra, 1989,

Carlos Eduardo Baesse de Souza

Sai em boa hora a tradução do livro de Jon Elster que recebeu, em português, o título de Marx Hoje. Digo em boa hora porque já era tempo de que encontrassem uma maior difusão entre nós os trabalhos desse grupo de estudiosos responsáveis pelo que já se constitui num verdadeiro paradigma novo no seio da teoria social progressista, ao lado do pós-estruturalismo e da teoria crítica. Juntamente com Capitalismo e Social Democracia, de Adam Przeworski (1989), Marx Hoje é, ao que me consta, o primeiro livro dessa linha teórica traduzido no Brasil. Há alguns artigos publicados aqui  e ali na Revista Brasileira de Ciências Sociais, n." 6, vol. 3, por exemplo, por Fábio Wanderley Reis (autor também de Política e Racionalidade, 1984) e outros. Refiro-me, já se vê, à renovação que o marxismo acadêmico experimenta por sua associação aparentemente paradoxal com as teorias da escolha racional, campo teórico onde costuma dominar o individualismo metodológico (a que Elster adere e depende explicitamente), território pouco visitado habitualmente e até mesmo visto com suspeita por autores marxistas mais "tradicionais". De que se trata de um novo paradigma já não cabe dúvida. Em artigo de 1986, Alan Carling argumenta: "Rational-choice marxism qualifies as a paradigm because of the scope of its interests, and the elements of a common approach identifiable across these interests. Indeed, it is now only within the rational choise context that some of the leading items on the classical agenda of Marxist Theory (...) can be fruitfully discussed" (Carling, 1986, p. 55).

É possível que esta última asserção seja um tanto exagerada. É evidente, no entanto, a crescente influência de um corpo de trabalho que inclui G. Cohen (1978); Allen Wood (1981); John Roemer (1982 ) ; Jon Elster (1985); Adam Przeworski (1985); Erik Olin Wright (1985 ) e muitos outros. Escritos sob inspirações muito distintas, enfatizando pontos de vista teóricos e metodológicos diversificados, às vezes conflitantes, estes trabalhos têm em comum a perspectiva analítica, no sentido de um trabalho passo a passo, minucioso, rigoroso, de "desmontagem" conceitual e de investigação microscópica das conexões lógicas das diferentes asserções marxianas, buscando apreender seu significado, sua coerência, sua plausibilidade. Daí a postura heterodoxa, às vezes iconoclasta mesmo: Têm ainda em comum um pressuposto fundamental que é o de que as sociedades são compostas de indivíduos dotados de recursos de tipos diversos, que buscam escolher racionalmente entre vários cursos de ação. A escola da escolha racional, que trabalha com modelo de análise tomado de empréstimo à teoria econômica neoclássica, já tem uma tradição respeitável na ciência política. Aproveito, aliás, para num parêntese lembrar e lamentar aqui que um de seus livros seminais (M. Olson, The Logic of Collective Action, 1965) está para completar um quarto de século sem que a última flor do Lácio lhe tenha sido ainda apresentada, o que éxplica ó desconhecimento de nossos estudantes de graduação e mesmo de mestrado acerca do tema. A novidade, já se percebe, é que pensadores marxistas de alto coturno tivessem sentido a necessidade de uma teoria da ação que fosse capaz de proporcionar os microfundamentos da teoria marxista da história. Advirto que o título do livro de Elster, tanto em português (Marx Hoje) quanto em inglês (An Introduction to Karl Marx, Cambridge, 1986), pode ser enganador, porque o conteúdo está longe do que se imagina deva corresponder à tarefa "inocente" e pedagógica de "introduzir" alguém, estudantes de graduação, por exemplo, no vasto mundo da reflexão teórica de Karl Marx. Que ninguém se aproxime dele julgando que se trata de Marx ad usum delphini. O livro é difícil e polêmico, ainda que Elster (e seus colegas "analíticos em geral") seja um mestre da concisão e do rigor de expressão e nos diga, algo candidamente, no prefácio, que a intenção do livro "é simplesmente apresentar as idéias de Marx e discuti-Ias". Boa parte das dificuldades deriva do fato de que o livro é uma espécie de subproduto de uma obra quatro vezes maior (Elster, 1985), onde quase todas as mesmas questões estão apresentadas de modo menos, digamos, contundente e a argumentação é acolchoada pela exegese de textos e a apresentação de interpretações concorrentes. A natureza polêmica já se destaca no capítulo 2, denominado "Metodologia Marxista", onde Elster anuncia que "a metodologia marxista, enfaticamente rejeitada neste livro, é uma combinação de três elementos. O primeiro é o holismo metodológico (...) O segundo é a explicação funcional. O terceiro é a dedução dialética, modo de pensar derivado da lógica de Hegel e que não se presta a uma apresentação sumária" (pp. 35-6) . Percebemos já aqui o mundo de complexidades em que teríamos de penetrar para compreender todo o argumento de Elster. A propósito do terceiro "elemento" da metodologia marxista "enfaticamente rejeitada" por Elster, quero dizer desde já que se pode reconhecer uma certa dose de puro preconceito em formulações do tipo "Hegel aparentemente acreditava, pelo menos parte do tempo, que nossas observações sobre o mundo tinham de ser contraditórias porque o próprio mundo contém contradições. Essa posição é praticamente incompreensível, e não será discutida" (p. 48). Uma formulação desse tipo, evidentemente incompreensível, é muito mais obscura que qualquer coisa que Hegel tenha escrito na Ciência da Lógica, que Elster reputa "um dos livros mais obscuros jamais escritos" (p. 214). O individualismo metodológico defendido por Elster (pp. 36-9) é apresentado, então, como "a posição segundo a qual todas as instituições, padrões de comportamento e processos sociais só podem ser em princípio explicados em termos de indivíduos: suas ações, propriedades e relações" (p. 36). Este tema complexo é, como muitos outros do livro, apresentado de modo algo ligeiro, o que dificulta sua compreensão. A respeito do assunto, aliás, só posso, nos limites de uma resenha, permitir-me recomendar enfaticamente o texto de Andrew Levine e outros, publicado no número 11 da Revista Brasileira de Ciências Sociais, que esclarece que, se os defensores do individualismo metodológico, como Elster, têm combatido o que consideram tendências para o holismo radical dentro da tradição marxista, o antídoto que oferecem - a elaboração de análises de microfundamentos no centro da agenda da teoria e da pesquisa marxistas -, embora razoável, não deve necessariamente ser confundido com uma convocação ao individualismo metodológico. Este, argumentam, ao banir os tipos sociais como objetos de pesquisa, empobrece as finalidades explicativas da ciência social, assim como entra em choque com práticas racionais de análise. "Uma coisa é pedir que se elaborem os microfundamentos da teoria macro; outra é especificar a forma que devem tomar essas análises ( . . . ) a crença na importância dessas análises dos microfundamentos não implica em compromisso com o individualismo metodológico" (p. 19).

De acordo com o plano geral do livro, buscava-se responder a algumas poucas questões fundamentais: estabelecer o que Marx pensava; discutir se ele estava certo no que pensava sobre numerosas questões - históricas e teóricas - que enfrentou; saber se Marx continua útil para nós e, ainda, responder a uma pergunta parecida com a que Roger Garaudy fez há muitos anos ("Peut-on être Communiste Aujourd'Hui?"): É possível ser marxista hoje? O desenvolvimento dessas questões leva Elster, em nove capítulos curtos, às vezes frustrantemente curtos (só posso aqui recomendar a leitura de Making Sense of Marx para quem quiser mais), a submeter a seu preciso e cortante bisturi analítico algumas das questões mais candentes do corpos marxiano: a metodologia marxista; a alienação; a economia marxista; a exploração; o materialismo histórico; a consciência de classe e a luta de classes; a teoria política de Marx e a crítica marxista da ideologia, até chegar ao capítulo 10, em que adapta explicitamente o título de um livro de Benedetto Croce sobre Hegel a fim de perguntar: "O que está vivo e o que está morto na filosofia de Marx?". Este último capítulo é provavelmente o mais polêmico e certamente o mais frustrante. Escrevendo sob a forma de pequenas teses defendidas em poucas linhas, Elster argumenta num tom de equanimidade algo forçada que há tantas coisas "mortas" quanto "vivas" no pensamento de Marx (seis para lá e seis para cá). Ficamos sabendo, para nossa surpresa, que o método dialético está vivo (p. 214), apesar do que seríamos levados a crer a partir da argumentação do capítulo 2, onde o método dialético é dado ou como um cadáver putrefato, ou como um amontoado de meras banalidades inócuas que outros já haviam expressado melhor, sem filigranas rebuscadas. Aqui, no entanto, ele diz ( e esta é uma das teses mais curtas e mais incompreensíveis) que "o método dialético, ou pelo menos uma versão dele está certamente vivo. Nem tudo o que Marx aprendeu com Hegel o desencaminhou" (p. 214). Parece que o que está vivo são as análises derivadas da Fenomenologia (livro "valioso", embora "difícil") e não as da Lógica ("amontoado de absurdos"), que teriam levado Marx a cometer sandices filosóficas e teóricas. De qualquer modo, não se fica sabendo, nas 25.linhas da tese, por que o método dialético teria sido ressuscitado. A argumentação contra Hegel é, repito, eivada de meros preconceitos. Observo que há uma crescente literatura especializada em.temas hegelianos no mundo anglo-saxão, de altíssimo nível, que deveria servir para refrear esta postura fora de moda. Basta-me aqui lembrar apenas dois: Hegel Contra Sociology, de Gillian Rose (1981), escrito de um ponto de vista favorável a Hegel, e Hegel's Dialectic and its Criticism, de Michael Rosen (1982 ), uma crítica devastadora. Sabe-se, aliás, que o próprio Elster dedicou-se, em alguma época, aos estudos hegelianos. Virá daí a birra? Não é possível discutir nos limites de uma resenha (mesmo uma que já se alonga como esta) toda a riqueza de formulações de Marx Hoje. Há que lê-lo. Cada tópico demandaria pelo menos um artigo inteiro.. Ressalto, ademais, que 'há no final de cada capítulo uma indicação bibliográfica muito útil sobre cada um dos tópicos abordados, ainda que sumária. Damo-nos conta, assim, mais uma vez, do quanto temos por realizar no terreno das traduções. Por falar nisso, seja-me permitido, para finalizar, elogiar a tradução segura e exata de Plínio Dentzien. É um prazer ler uma tradução em que as peculiaridades da sintaxe da língua portuguesa estejam respeitadas, e em que "outrageous" não seja sempre traduzido por "ultrajante", e onde "claim" adquira nuances e significados além de "reivindicação".

Carlos Eduardo Baesse de Souza - Professor do Departamento de Ciência Política da UFMG

Referências bibliográficas

CARLING, Alan. (1986), "Rational-Choice Marxism" New Left Review, n. 160, nov: dez.

COHEN, G. (1978), Karl Marx's Theory o f History: A Defense. Oxford University Press.

ELSTER, Jon. (1985), Making Sense o f Marte. Cambridge.

OLSON, Mancur. (1965), The Logic of Collective Action.Cambridge.

PRZEWORSKI, Adam. (1989), Capitalismo e Social Democracia. São Paulo, Companhia das Letras.

REIS, Fábio . Wanderley. (1984), Política e Racionalidadé. Belo Horizonte, Ed. da UFMG.

ROEMER, John. (1982), A General Theory of Exploitation and Class. Cambridge.

ROSE, Gillian. (1981), "Hegel contra Sociology". Humanities.

ROSEN, Michael. (1982), Hegel's Dialectic and its Criticism. Cambridge, Cambridge University Press.

WOOD, Allen. (1981), Karl Maré. Londres.

WRIGHT, Erik Olin. (1985), Classes. Londres.