"Sombra
terrível de Facundo, vou evocar-te para que, sacudindo o pó ensangüentado que cobre
tuas cinzas, te levantes para explicar-nos a vida secreta e as convulsões
internas que dilaceram as entranhas de um povo nobre!" (1) .
Sob o influxo dessa vocação mediúnica
Sarmiento inicia suas indagações sobre a cultura argentina. Começo aparatoso,
teatral, ditado pelo estilo romântico da época - pelo menos à primeira vista.
Mas, observando melhor, insinua-se com um inconfundível ar dos pampas um gesto
essencial, compulsivo, e com ele a necessidade de manter a compostura. Ameaçada
por esse tigre entrincheirado desde a primeira linha transcorrerá a obra, como
a história argentina, propensa a cair, a qualquer instante, no vazio. País de
soberbos desafios literários: a economia verbal de Borges é o verbo pródigo de
Güiraldes, "campaneando" (*1) sobre a corda bamba... o tango.
Antes de tudo, o Facundo é expressão desse temperamento afeito ao
equilibrismo e uma reflexão em torno de seus perigos.
Desde sua publicação, em 1845, e até
os dias de hoje, o ensaio de Sarmiento vem sendo uma referência iniludível no
debate desenvolvido em torno do problema da identidade cultural nos países
hispano-americanos (2). No campo minado das idéias argentinas, o retorno
ao Facundo tem sido empreendido insistentemente tanto por aqueles que o
consideram um marco fundamental no processo de constituição da nacionalidade,
como pelos que, ao contrário, apontam-no como um de seus principais desvios (3).
A versão historiográfica dessa disputa expressa-se no confronto entre as
chamadas perspectivas iluminista e nacionalista, cada qual reivindicando para
si filiação exclusiva ao curso legítimo da história argentina e imputando à
outra toda sorte de bastardias. O quadro se complica à medida que a discussão
regride no tempo, até cair inexoravelmente no emaranhado que representam as fontes intelectuais da
independência, quando é necessário decidir se a revolução foi obra das elites
cultas imbuídas das idéias francesas ou um movimento autóctone de base popular
inspirado na própria tradição hispânica. Cancelada a experiência colonial, o fio
capaz de garantir, ao longo da vida republicana, a continuidade de uma ou outra
árvore genealógica percorrerá, então, intrincados caminhos para estabelecer,
por um lado, o parentesco espiritual entre, por exemplo, a figura de Rosas e o
fenômeno Perón, ou levantar, na outra margem, uma ponte que una as concepções
de Sarmiento aos liberalismos deste século. Entre as duas correntes revistas
existe, sem dúvida, um amplo espectro de posições intermediárias, algumas das
quais conseguem evitar as armadilhas de ambos os extremos (4) . Mas não
é intenção deste artigo recensear essa polêmica ou recair nela. Seu objetivo é
refletir em torno do problema da identidade, colocando em evidência o sentido
novo e profundamente atual que aflora das páginas do Facundo, uma vez que a
modernidade que lhe servia de inspiração e meta converteu-se em
"tema" de uma história que discorre, paradoxalmente, sobre a
impossibilidade de seu próprio fim. Essa é, precisamente, a idéia que passarei
a considerar.
Uma Perspectiva de Leitura
Mesmo antes da crise da doutrina
positivista, desatada nas primeiras décadas deste século, o pensamento cultural latino-americano
acusa, em seu conjunto, uma mudança de direção. Enquanto o Oitocentos abre-se
sem reservas à modernidade ocidental e promove ativamente a homogeneização da
cultura, esmagando, no caminho, as realidades autóctones que eram percebidas
como resistentes ao nivelamento, o século XX mostrará, como tendência
dominante, a revanche dos particularismos, o renascimento das idiossincrasias locais.
Desde então, não importa se sob o título de indigenismo, marxismo, populismo ou
teorias da dependência, à afirmação e valorização das especificidades será a
pedra de toque para a organização de um novo tipo de discurso. As mudanças de
vocabulário são significativas. Os termos "civilização",
"ciência", "progresso", que até esse momento gozavam de
prestígio, passam a ser suspeitos e cedem gradualmente o lugar de honra a
outros como "autenticidade", "humanismo",
"autonomia", "originalidade", os quais, a seu modo,
assinalam o notável distanciamento que se estava produzindo com respeito à
orientação nacionalista da fase anterior.
Pois bem, é sob esse clima proclive à
imanência e profundamente impregnado de preconceitos anti-racionalistas que
serão sabatinados os pensadores do século XIX, concluindo-se pela reprovação da
maioria como argumento de que suas idéias, longe de revelarem "o autêntico
ser da cultura", contribuem, ao contrário, para ocultá-lo. O relativismo
histórico, no qual supostamente se inspiram os novos enfoques, esfuma-se, uma
vez que estes se mostram incapazes de perceber as idéias que configuram o
horizonte máximo de uma época para além da qual se torna anacrônico qualquer
julgamento. É certo que toda história se escreve ou se interpreta partindo dos
anseios do presente, o que prova que o passado nunca é tão distinto. Porém,
trata-se justamente disso: de estabelecer as semelhanças e as diferenças,
apoiando-se em algum critério de transcendência que permita o autoconhecimento
sem que este se resolva em uma formulação tautológica. Em suma, o problema gira em torno da questão da
identidade, que é, como veremos, o tema do Facundo.
Sem dúvida a situação mudou e hoje é
difícil crer, não sem motivo, na existência de qualquer forma de alteridade.
Porém, que culpa têm os antepassados de havermos perdido a inocência?
Acostumados a viver nosso tempo como um presente intransitivo, transportamos
com excessiva facilidade esse estado de ânimo para outras épocas, quando os
homens ainda pensavam que a transcendência histórica não somente era possível
mas também um fato inexorável. As interpretações propostas sobre o livro do
escritor argentino têm sido em geral pouco sensíveis ao insistir
numa leitura demasiado "atualizada" de seu pensamento, sem reparar
que o autor se situa sob um arco cronológico menos vulnerável aos fenômenos
auto-reflexivos nos quais se debate a consciência de nossa época. De fato,
quando Sarmiento escreve sua obra, a civilização européia, com seu repertório
de idéias e crenças, era a seta que assinalava a direção do futuro.
Não obstante, é inegável que, agora,
uma vez instalada a modernidade e rota a ilusão da transcendência, o Facundo,
em vez de esgotar-se, mostra-se a cada dia mais rejuvenescido e
pleno de sentido. Apesar de haver minguado a fé no progresso, a obra continua
crescendo, o que me faz suspeitar de que talvez não fosse esse o seu principal
sustento. Então, por que fazer reparos aos que interpretam o livro de Sarmiento
sem a moderação que a consciência dos anos aconselha? Por dois motivos.
Primeiro porque, ao descuidarem da dimensão temporal, não se preocuparam em
determinar o lugar que ocupa o horizonte da modernidade européia na trama geral
do Facundo,
chegando a confundi-lo com o tema da obra quando, na verdade, ele
não é mais que o pano de fundo contra o qual se efetua o reconhecimento de uma
realidade muito mais próxima. Segundo - e isto pode parecer um contra-senso -
por não terem sido conseqüentes com o ponto de vista "pós-moderno" a
partir do qual realizam suas observações. Explico-me. Uma vez que, com o passar
do tempo, a linha de visão vai se aproximando até o ponto em que "a
outra" realidade torna-se "o mesmo", a obra põe em evidência o
caráter autobiográfico e reflexivo de seu conteúdo e, conseqüentemente, os
paradoxos em que deságua a busca da identidade cultural no mundo moderno. A
crítica, longe de aproveitar essa dimensão, revelada desde a situação histórica
em que nos encontramos, optou por substituir o princípio de alteridade
explícito no Facundo - a modernidade européia e
seus valores - por outro esquivo, subterrâneo, reputado como imune às miragens
e capaz de constituir-se, no momento oportuno, no critério que separa o que é
real do que é fictício. A partir daí, os dois conceitos básicos em torno dos
quais se organiza a obra - civilização e barbárie - passam a nomear realidades
culturais definidas e contrapostas (Europa e América, respectivamente) e ganham
conotações moralistas que não condizem com a tradição nacionalista da qual
provém, em parte, o Facundo e, menos ainda, com a situação que aflora depois de
sua crise.
No presente artigo, a interpretação
do tema principal da obra - a indagação sobre a identidade - realiza-se a
partir de dois níveis ou registros de leitura. Primeiro, o pensamento do autor
é considerado dentro do contexto racionalista no qual se situa para, em
seguida, ser retomado a partir dos dilemas que o esgotamento das coordenadas
básicas de dita corrente coloca para a consciência moderna. Creio que assim
será possível desentranhar o significado universal que torna o Facundo um livro
clássico.
A Reflexividade do Facundo
Convém advertir que uma boa parte da
bibliografia dedicada a estudar o Facundo colocou-se como tarefa a
solução de um paradoxo: determinar se o ponto de vista subjetivo e europeizante
do autor deforma ou não o quadro que ele traça da realidade argentina de seu
tempo. Com efeito, a presença igualmente poderosa do autobiográfico
(psicologia) e do social (história) e a forma como estes dois níveis se
entrelaçam no ensaio do escritor argentino deram origem a uma longa polêmica.
Ninguém deixou de perceber a força com que irrompe a subjetividade nas páginas
do Facundo. A inclinação de Sarmiento pelas memórias e biografias - Recuerdos
de Província, Facundo, Aldao, El Chacho - reforça essa dimensão inúmeras
vezes apontada por seus comentadores. Para alguns esse aspecto seria o
responsável pelas virtudes assim como pelos defeitos da obra:
"Quero
deixar bem claro aqui esta singularidade extraordinária da intuição de
Sarmiento que se manifesta por sua predileção pela biografia e que consagra a
índole de todas suas obras escritas e realizadas, o corte igualmente mais
refutável e mais firme." (Estrada, 1956, p. 135).
Outros, ao contrário, baseando-se no
mesmo princípio, reduziram o enredo e os personagens do Facundo à
condição de meras projeções da personalidade do autor. De tal forma, quando
Sarmiento traça o perfil de Facundo Quiroga, não estaria senão revelando os
traços de sua própria fisionomia interior. Assim, também, a narração das
guerras civis na Argentina, por exibir sem disfarces a marca de suas
preferências, careceria de qualquer valor objetivo. Levada ao extremo, essa
postura exegética percebe a trama do Facundo como uma dança especular na
qual os personagens da obra acabam refletindo ad infinitum a imagem do
autor.
Por outro lado, é fato reconhecido
que a perspectiva biográfica adotada por
Sarmiento em seus escritos tem uma finalidade ulterior, que é a de
desentranhar os traços essenciais da cultura e as chaves do processo histórico
que encarnariam, de maneira exemplar, nas personalidades representativas de uma
época. No entanto, o problema da identidade tem se manifestado também em torno
desse aspecto coletivo, polarizando o debate entre aqueles que defendem o
conteúdo profundamente americano da obra e os que, ao contrário, consideram-no
um retrato deformado da realidade. É fácil encontrar no Facundo evidências
e argumentos suficientes para sustentar cada uma dessas interpretações. De
fato, na obra convivem tendências antagônicas: o declarado orgulho pela
"argentinidade" junto à admiração, às vezes incondicional, pela
cultura européia; a apologia dos valores da cidade acompanhada pelo canto às
virtudes poéticas do campo; a crítica contundente do caudilhismo ao lado do
reconhecimento de seu caráter providencial; em suma; o elogio da modernidade e
o deslumbramento pelos resplendores carismáticos da tradição, para citar alguns
exemplos.
Penso que a abordagem dos dois
grandes paradoxos colocados pela constituição híbrida do Facundo -
subjetividade/história objetiva; americanismo/europeísmo - deve começar pela
formulação de um novo tipo de pergunta. Sobre o primeiro dilema a tarefa
poderia iniciar-se com a seguinte indagação: por que Sarmiento, falando sempre
de si mesmo, consegue dizer-nos tanto sobre a Argentina de seu tempo? Ao
terminarmos a leitura do Facundo, fica-nos a viva impressão de que a
busca dos componentes da identidade cultural argentina foi levada a cabo, em
grande parte, através de um processo verdadeiramente introspectivo, no qual a
consciência propõe-se a si mesma como campo privilegiado onde serão procuradas
as chaves para a explicação do fenômeno social. Na obra assistimos, creio que
pela primeira vez na história do pensamento latino-americano, à gestação de uma
espécie de fenomenologia da cultura, ou da consciência coletiva, fundada na natureza reflexiva do princípio da
subjetividade. Daí o sentido autobiográfico do ensaio de Sarmiento e sua
surpreendente atualidade.
Os ilustrados de primeira hora, pelo
menos os mais exaltados, sob o poder hipnótico de idéias abstratas, percebiam a
herança colonial como uma substância externa, quase física, dócil ou rebelde a
seus desígnios, mas sempre passível de ser eliminada pela força das armas ou
por uma descarga de decretos. Pensavam, dessa maneira, que a organização da
República deveria ser fundada sobre bases cartesianas, isto é, more
geometrica e partindo de um vazio histórico absoluto. No Facundo, a
história aparece dotada de qualidades menos visíveis que a tornam, por isso
mesmo, mais resistente; é um fenômeno interior que tema ubiqüidade da
consciência e a partir dela se reproduz nas crenças, hábitos e instituições da
cultura. Em suma, trata-se de uma mentalidade. Não cabe dúvida de que, por
aquela época, ou ainda antes, intelectuais de outras regiões discorreram acerca
do impacto da herança colonial sobre a estrutura dos novos Estados. Não
obstante, a análise, em tais casos, privilegiou os fundamentos sócio-jurídicos
e institucionais do sistema, isto é, sua forma. Sarmiento, melhor que ninguém,
captou seu espírito, entregando-nos uma imagem essencial desde as “entranhas do
monstro”, e o conseguiu justamente articulando seu discurso sobre a trama da
consciência subjetiva. É surpreendente que até hoje a Argentina, país jovem e
de pouca densidade histórica, sofra com inusitada intensidade a carga do
passado. Talvez porque o leva reflexivamente na consciência como um presente
intransitivo. Às vezes a memória histórica, ao invés de uma virtude, pode vir a ser uma maldição.
Nas páginas do Facundo transcorre
tanto o drama das guerras civis como o de uma poderosa subjetividade na luta
contra a mesma substância histórica que a constitui. Por isso, o passado
colonial reveste-se, na obra, de uma condição trágica: por um lado é o conteúdo
da consciência subjetiva e, por outro, o fundamento que deve ser negado para se
ter pleno acesso ao mundo da razão civilizada. De sorte que a pergunta sobre á
identidade cultural no Facundo conota um paradoxo moderno, não só porque
ela involucra desde o início a subjetividade, como também porque qualquer forma
de transcendência histórica deverá recuperá-la, de alguma maneira, no ponto de
chegada.
A consciência desprendida do contorno
em que se achava mimetizada encontra-se consigo mesma e com seu passado graças
ao fato de a idéia de civilização - o futuro imediato e sua arca de
promessas - situar-se, na obra de Sarmiento, a uma distância propícia: nem tão
longe da história a ponto de perder qualquer capacidade reflexiva, nem tão
perto que ofusque o reconhecimento da realidade interna. A condição bifronte da
Argentina daquela época, com seu litoral "bloqueado" pela civilização
e seu interior de profundas raízes coloniais, possibilitou, sem dúvida, esse
ponto de vista singular. Vale a pena lembrar a respeito que Sarmiento era um
interiorano. A convergência de tais fatores explica, em parte, por que a
análise mais complexa e sugestiva e a crítica mais contundente da mentalidade
colonial surgiram precisamente na Argentina - região menos colonizada pela
Espanha do que o Peru ou o México, duas sociedades fortemente impregnadas desse
passado.
Ao contrário do que comumente se
sustenta, o conflito central do Facundo não é constituído pelo
enfrentamento entre a modernidade européia e a barbárie americana. Sobre a
primeira o autor nos diz muito pouco, e quando se detém a comentá-la recorre a
fórmulas convencionais ou a sinais exteriores. Diferente de Alberdi, que possui
clara consciência dos princípios institucionais que deverão orientar a
organização nacional nas esferas econômica, política e jurídica, Sarmiento,
menos disposto por temperamento a tais meditações, prefere concentrar-se nos
obstáculos que impedem o acesso à terra prometida. Em tal empenho, a idéia de
civilização européia representa o contraste, o ponto de referência explícito
que, longe de "deformar" ou confundir-se com a realidade tratada no Facundo,
ajuda a ressaltá-la. Uma vez cumprido esse papel, ela se desloca ao fundo do
cenário para deixar em primeiro plano a única história que interessa na obra: a
constituição da modernidade americana. O ensaio de Sarmiento pode ser lido,
então, como uma crônica - a da formação da, nacionalidade argentina - onde é
possível reconhecer in nitro, isto é, no próprio instante de sua
gestação, o equilíbrio precário que implica o acesso à condição moderna. E
também como um testemunho do preço que se paga para gozar de seus benefícios.
Sob esta perspectiva, as noções de civilização e barbárie, em vez de aludirem a
espaços geográficos ou históricos definidos, representam, pelo contrário, os
ingredientes elementares que, em proporção variada, constituem a substância
híbrida de toda modernidade. De tal forma, o Facundo nos mostra o exemplo
instrutivo de uma realidade que perdeu a inocência da barbárie mas ainda não
foi domesticada pela civilização. É no momento de revelar esse estado de
tensão, adormecido nas culturas ancoradas em quaisquer dos dois extremos, que a
obra- alcança significado universal.
Na tradição racionalista da qual
participa Sarmiento, a noção de identidade traduz-se na busca de um princípio
que permita superar as dicotomias indivíduo/sociedade, cultura/civilização,
razão/instinto. O tema sobre o qual discorre o Facundo, ainda que de
natureza semelhante, não se desenvolve sobre o pano de fundo da modernização
econômica que por essa época apenas começava a despontar na Argentina e, sim,
primordialmente, no plano da cultura.
O Horizonte da Modernidade no Facundo: Razão e
Revolução
A falta de um horizonte físico e
espiritual expressa, de certa forma, a condição de nosso tempo, saturado de
gente, imagens e ruídos. Não faz muito a Europa ainda se mirava na
"outra" América e a "nossa" acreditava ver o seu futuro
refletido no velho continente. Hoje, que sociedade "civilizada"
poderia, sem ironia, propor-se como exemplo? Ou que "barbárie"
conseguiria inspirar, inocentemente, um novo começo?
Quando Sarmiento escreveu o Facundo,
o mundo era um pouco diferente e
seu país lhe parecia uma planície fértil, despovoada de homens e de livros. Se
hoje a falta de espaço nos asfixia, então o vazio do "pampa, com sua lisa
e aveludada fronte infinita e sem limites", era a própria idéia do mal
(Sarmiento, 1975, pp. 69-71). À distância, Sarmiento podia perceber a imagem de
outra realidade contra a qual se projetavam homens e povos para se reconhecerem
como tais. O que hoje reputamos ser uma miragem era, na época do escritor
argentino - e muito particularmente para ele -, o ponto de fuga de uma
sociedade arraigada no imobilismo. Seu tempo, distante de nossos complexos de
originalidade, compreende um arco histórico dominado ainda pelo racionalismo e
pelo feitiço da revolução. Sob esse quadrante Sarmiento buscará o rumo de seu
povo, inserindo-o incontinenti nos desígnios da história universal e da razão.
Em suas próprias palavras: "disso se trata, de ser ou não ser
selvagem" (idem, p. 51). Afinal de contas, a gênese da República
Argentina, talvez muito mais do que a de qualquer outro país hispano-americano,
filiava-se a essa história maior
cristalizada nos ideais do Iluminismo. Assim, Sarmiento poderá dizer sem
preâmbulos que o espírito de 89, hostilizado na própria Europa, havia emigrado
para as margens do Plata para encontrar em Buenos Aires os homens capazes de
continuar sua obra. Em 1810, aquela cidade parecia ao autor do Facundo a
imagem mesma da revolução institucionalizada: ali não se podia dizer "o
general tal libertou o país, senão a Junta, o Diretório, o Congresso, o Governo
de tal ou tal época, mandou que o general fizesse tal coisa" (idem, p.
178). A partir de então, para Sarmiento, não há dúvida de que o que acontece na
Argentina é parte de um drama cujo cenário transborda as fronteiras nacionais,
e que a luta contra Rosas é a favor da razão universal. Desse ponto de vista
cosmopolita será, portanto, motivo de orgulho declarar que "os que
cometeram aquele delito de leso-americanismo, os que se jogaram nos braços da
França para salvar a civilização européia, suas instituições, seus hábitos e
idéias nas margens do Plata foram os jovens, em uma palavra, fomos nós!" (idem,
p. 336). E se lamentará de que
os próprios europeus, ao pactuarem com o tirano, não o entendessem assim,
pensando que nas guerras civis do Plata se decidiam interesses provincianos que
em nada afetavam os destinos da humanidade (idem, p. 337). Os ideais
ilustrados não têm pátria. Para além de qualquer sentimento paroquial, e às
vezes aproveitando-se do mesmo, a razão civilizada encontra seus caminhos para
realizar-se, ainda que isso não a impeça de dar, en passant, uma mão ao
projeto de construção nacional:
"E
que outra coisa poderia ter sucedido a um povo que em apenas quatorze anos
havia escarmentado a Inglaterra, posto a correr a metade do continente,
equipado dez exércitos, travado cem batalhas campais, vencido em todas as
partes, mesclando-se em todos os acontecimentos, violando todas as tradições,
que havia ensaiado todas as teorias, se aventurado a tudo, e se saído bem em
tudo; que vivia, se enriquecia, se civilizava?" (idem, pp. 178-9).
É a partir desse obstinado empenho em
incluir seu país no miolo da história universal que emerge nas páginas do Facundo,
com igual ímpeto, o tema da identidade impregnado de ressonâncias nitidamente
modernas.
Civilização e Barbárie: A Modernidade Americana
Na maioria das interpretações sobre o
Facundo, o significado da clássica dicotomia civilização/ barbárie tem
sido reduzido ao enfrentamento que travam o espírito da modernidade européia,
acolhido pela cidade de Buenos Aires, e a tradição hispânica, sedimentada
sobretudo nas províncias do interior. Assim, cada conceito, de forma isolada,
designa um universo física, cultural e historicamente diferenciado, e quando
situados frente a frente expressam uma relação antagônica entre duas realidades
irredutíveis. Partindo dessa matriz original, torna-se fácil derivar uma série
de estruturas binárias ao sabor do debate ideológico de cada época: Europa versus
América, imperialismo versus nacionalismo e outras.
Minha intenção é mostrar que, no Facundo,
os vínculos existentes entre as categorias de civilização e barbárie não são de
natureza antitética e excludente, e que o recurso fácil de considerá-las como a
representação cristalizada de culturas constrapostas, atribuindo-lhes, ademais,
conotações de ordem moral, escamoteia os problemas de fundo sobre os duais o autor
procura chamar a atenção. Ao
longo da obra, tais conceitos, como logo veremos, não acusam conteúdo
invariável, senão que assimilam novos sentidos à medida que Sarmiento descreve
o curso das guerras civis, desde a crise da ordem colonial até a época de
Rosas. As idéias de civilização e barbárie, que inicialmente se mostram
antagônicas, acabam encontrando-se numa relação simbiótica através da qual o
autor exibe os dois flancos de uma realidade contraditória e indivisível: o
processo de constituição da modernidade argentina ou americana e, para o leitor de nossos dias, da condição
moderna, sem mais. A esta altura, tais categorias já não designam espaços
geográficos ou sociais, tampouco períodos históricos definidos, senão
princípios que enraízam no foro interior da consciência individual e coletiva e
que, sob o impacto desestruturante da modernidade, articulam-se numa relação
conflitiva. Sarmiento compreendeu que esse era o cimento incorpóreo sobre o
qual se assentava a nova história e que,
portanto, seu futuro dependeria de um frágil equilíbrio. Por isso quis que os
homens mudassem interiormente pela educação antes que pelas leis. Passemos
agora a considerar as transformações que experimenta a fórmula
civilização/barbárie, acompanhando de perto o desenvolvimento da obra.
Num
primeiro momento, a dicotomia civilização/barbárie confunde-se com a
oposição cidade/campo. Sarmiento assimila, assim, uma velha tradição que, pelo
menos desde a Grécia antiga, identifica cidade com civilização e campo com o
reduto da barbárie primitiva. O termo "civilização" alude então aos
espaços que o homem conquistou à natureza na luta milenar pela domesticação e o
controle do solo:
"A
cidade é o centro da civilização argentina, espanhola e européia. Ali estão as
oficinas das artes, as lojas do comércio, as escolas e os colégios, os
tribunais; tudo o que caracteriza, enfim, os povos cultos." (idem,
p. 80).
Nada existe ainda que nos permita
associar a categoria de civilização aos conteúdos da modernidade, tampouco
dissociá-la da tradição hispânica. Com efeito, ao longo do livro, Sarmiento
insiste que tanto Buenos Aires - de estirpe ilustrada - como as capitais de
província e outras cidades menores, apesar de suas diferenças de origem e
constituição, têm muito em comum. A cidade tem sido, desde os tempos coloniais,
uma prolongação dos hábitos e costumes europeus e o recinto do governo civil e
das leis; abriga uma sociedade que leva "a vida civilizada tal como a
conhecemos em toda parte" (idem, ibidem). Com maior ou menor
êxito, as cidades conseguiram durante esse período domesticar seu hinterland,
ou, pelo menos, sobreviver como "oásis de civilização encravados nas
planícies incultas de centenas de milhas quadradas" (idem, ibidem).
Até 1810, todas elas têm motivo de orgulho e podem "reivindicar glórias,
civilização e notabilidades passadas" (idem, p. 131). Contra esse pano de
fundo de unidade histórica e cultural, as fronteiras com a barbárie são
demarcadas em relação a um horizonte indefinido, sem rosto, que simboliza, mais precisamente, a
idéia de vazio. Cabe ressaltar que a este nível não aflora um problema de
identidade cultural em sentido estrito, e que a oposição civilização/barbárie
corresponde à clássica dicotomia natureza/história.
Esta situação se modifica a partir do
cataclismo que significa a Revolução de 1810, cuja origem, como no resto da
América espanhola, vincula-se ao "movimento das idéias européias" (idem,
p. 117). A partir de então nada continuará sendo igual; o espírito da Revolução
já penetrou todos os poros da realidade argentina e a obrigará a redefinir-se
em seu conjunto. Nas palavras de Sarmiento, "nosso drama começa".
As fraturas que a Revolução de 1810
provoca refletem-se nos novos conteúdos que a dicotomia civilização/barbárie
assimila. Na fase inicial, a revolução, que havia começado em Buenos Aires,
longe de chocar-se com a tradição hispânica de origem citadina como um todo,
recebe a adesão dos grupos ilustrados "de todas as cidades do interior
[que] responderam ao chamamento" (idem, p. 118). E não podia ter sido
de outra maneira, posto que a mesma era "interessante e inteligível apenas
para as cidades argentinas e estranha e sem prestígio para o campo" (idem,
p. 117). O ideário da Revolução, apesar do fosso infranqueável que abriu com
respeito à condição colonial do país e aos valores culturais herdados da
Espanha, não se mostra incompatível com o principio civilizatório da tradição
hispânica, mas até o prolonga. Entre patriotas e realistas existe um fundamento
comum que os une para além de qualquer circunstância histórica; além de sua
origem urbana, ambos consideram que "a consagração da autoridade" e o
"governo regular" constituem a base de toda organização social
civilizada (idem, pp. 118-20). O enfrentamento entre os elementos cultos
das cidades assume, então, o cariz de uma querela entre primos que se opõem
pela forma distinta como concebem o futuro e sentem o passado. Trata-se, enfim,
de dois projetos que, apesar de suas profundas diferenças, emanam de um mesmo
fundo civilizatório:
"Córdoba,
espanhola por educação literária e religiosa, estacionária e hostil às inovações revolucionárias; e Buenos Aires,
toda novidade, toda revolução e movimento, são as duas faces proeminentes dos
partidos que dividiam as cidades todas; em cada uma das quais estavam lutando
estes dois elementos diversos que existem em todos os povos cultos. Não sei se
na América se apresenta um fenômeno igual a este; quer dizer, os dois partidos,
retrógrado e revolucionário, conservador e progressista, representados
altamente cada um por uma cidade civilizada de diverso modo, alimentando-se
cada uma das idéias extraídas de fontes distintas: Córdoba, da Espanha, dos
Concílios, dos Comentadores, do Digesto; Buenos Aires de Bentham, de Rousseau,
Montesquieu e da literatura francesa inteira." ( idem,
p. 184) .
Até este momento, pareceria que a
fórmula civilização/barbárie, ou seu equivalente cidade/ campo, continua
impregnada pelos mesmos conteúdos já mencionados anteriormente. Sem embargo, na
interpretação que Sarmiento faz do primeiro ato da Revolução de Independência
estabelece-se uma variante da maior importância. O campo, o limite da
civilização, deixou de ser o espaço indeterminado que acolhe uma entidade quase
física para tornar-se uma categoria social que designa os elementos de uma cultura.
Sucede que, nas franjas do regime colonial, mimetizada na imensidade dos
pampas, encontrava-se adormecida, no abandono dos séculos, uma realidade -
metade razão, metade instinto - que agora desperta sacudida pelo novo espírito
que se introduz com as guerras de independência. A rigor, esta forma de vida
social foi convocada pela revolução: "a vida pública que até então havia
faltado a essa associação árabe-romana entrou em todas as vendas (...) e os
campos pastores se agitaram e aderiram ao impulso" ( idem, p. 116 )
. A gauchada sai das vendas ou do nada do deserto para encontrar o horizonte de
sua humanidade, ao mesmo tempo que a civilização das cidades descobre, por fim,
sua própria criatura. O autor do Facundo percebe com lucidez o
significado deste processo e o papel que a revolução cumpre interpelando uma
cultura que até então se achava mimetizada na paisagem dos pampas, e se
pergunta sobre a identidade da mesma. É urgente saber de quem se trata, já que
sua incontida força ameaça não deixar pedra sobre pedra. Antes de considerar
este ponto vejamos brevemente os conteúdos que a dicotomia barbárie/ civilização adquire nesse preciso
instante.
É claro que a oposição campo/cidade
não pode ser entendida como o enfrentamento entre a tradição hispânica e aquela
que prolonga as luzes européias, posto que, como já disse, as cidades coloniais
continuam sendo o habitat da vida civilizada. Em segundo lugar, a sociedade
inculta do campo desprendeu-se da paisagem para integrar-se ao curso da
história, constituindo-se em um ator de primeira importância. O corte, radical
entre história e natureza que se mostrava suficiente para explicar a velha
ordem já não o é para dar conta da nova situação desatada pela onda
revolucionária.
A barbárie penetrou na história e é
nessa dimensão onde se haverá de buscar o que ela tem de específico e, também,
o que apresenta em comum com as formas civilizadas das cidades. O termo
barbárie acede a uma relação simbiótica com a categoria civilização e,
abandonando a roupagem naturalista sob a qual se apresentava como uma realidade
imutável, passa a ser compreendido em função de um processo histórico dinâmico
por excelência. Esta é a primeira grande virada conceitual que confere um novo
sentido ao conflito que se desenrola no Facundo. A introdução desta
terceira força fará mudar o rumo dos acontecimentos, transbordando, assim, o
leito em que a luta pela independência se desenvolvera originalmente.
A montonera convocada para
apoiar indistintamente a causa de patriotas e realistas, uma vez que estes
últimos são derrotados, prolonga a guerra, derramando seu ódio contra as
cidades e o que elas representam:
"Deste
instrumento serviram-se os diversos partidos - das cidades cultas e
principalmente o menos revolucionário, até que, andando o tempo, os mesmos que
o chamaram em seu auxílio sucumbiram e, com eles, a cidade, suas idéias, sua
literatura, seus colégios, seus tribunais, sua civilização." (idem,
p. 120).
Em pouco mais de duas décadas, a
destruição causada por esta sorte de revanche histórica é de tal intensidade
que "toda forma civil, ainda no estado em que a usavam os espanhóis",
vai desaparecendo (idem, p. 123). O tamanho da catástrofe mede-se pela
decadência das cidades. Os exemplos são dramáticos: La Rioja, aniquilada, e San
Juan a caminho de sê-lo. O processo é de uma velocidade fulminante e parece
arrancar pela raiz a memória do passado imediato:
"Pode-se
pensar que tanta mediocridade é natural a uma cidade do interior? Não! Aí está
a tradição para provar o contrário. Vinte anos atrás San Juan era uma das
cidades mais cultas do interior, e qual não deve ser a decadência e prostração
de uma cidade americana para ir buscar suas épocas brilhantes vinte anos antes
do momento presente?" (idem, p. 128).
Os domínios da barbárie estenderam-se
"até as ruas de Buenos Aires", e, num movimento centrífugo,
profundamente revelador, durante o transcurso da guerra, "as províncias
que encerravam em suas cidades tanta civilização foram demasiado bárbaras, no
entanto, para destruir com seu impulso a obra colossal da Revolução da
Independência" (idem, p. 131). Tão-somente Buenos Aires conseguiu
salvar-se da destruição e, mesmo ocupada pelas forças de Rosas, conservou a
semente da civilização plantada pelos ilustrados da primeira hora. Diante desse
quadro dantesco, federalistas e unitários por convicção podem, agora,
desenganar-se ao comprovar que a luta por ideais políticos transformou-se numa
guerra social que ameaça eliminar ambos os grupos. Facundo Quiroga "é o
inimigo de todos os que usam fraque, é o elemento bárbaro que se apresenta em
toda a sua nudez, e é preciso fazê-lo sentir aos iludidos que se contam ainda
entre seus partidários" (idem, p. 253). O cenário argentino mostra,
então, frente a frente, dois protagonistas aparentemente irreconciliáveis: a
barbárie americana e a civilização de raiz iluminista sitiada em Buenos Aires.
Porém, é isto realmente o que nos mostra o Facundo? Detenhamo-nos um
instante para descobrir as mutações sofridas pelas categorias de civilização e
barbárie em sua peregrinação histórica até este ponto, reconhecendo os novos
significados com que Sarmiento as foi preenchendo pelo caminho.
Muito rapidamente percebemos que, por
força dos fatos, a idéia de civilização, em suas duas vertentes - hispânica e
ilustrada -, reduziu-se ao mínimo, se é que não ficou totalmente vazia de
conteúdo. No primeiro caso o vocábulo
"civilização" nomeia um espaço geográfico restrito e socialmente
ambíguo - a cidade de Buenos Aires - e, ademais; a consciência dos intelectuais
perseguidos que, como Sarmiento, escrevem no exílio. De fato, a civilização
ilustrada, com a qual se identifica pessoalmente o autor do Facundo,
designa uma realidade etérea que não teve tempo de tornar-se história e que se
retirou do cenário argentino. Mas não para tão longe que não possa ser
percebida como a imagem do futuro. Por outro lado, a civilização de origem
hispânica, como já vimos, foi destruída em suas bases junto com as cidades
coloniais arrasadas pela fúria da gauchada. Não obstante, aqui sucedeu um
fenômeno digno de menção. A tradição colonial que abrigavam as cidades, e que
até este momento se incluía na categoria de civilização, longe de esfumar-se
com a decadência daquelas, foi assimilada, vulgarizada, até tornar-se in totum
o conteúdo mesmo da barbárie:
"A
revolução das cidades só ia servir de causa, de móvel para que estas duas
maneiras distintas de ser de um povo se pusessem em presença uma da outra, se
acometessem, e depois de longos anos de luta uma absolvesse a outra." (idem,
pp. 115-6 ) .
De modo que a dicotomia elite/povo,
para a qual parecia apontar a análise de Sarmiento, dilui-se à medida que a
noção de barbárie vai se alargando até abarcar o repositório de toda a
experiência colonial, e acaba por converter-se, assim, no fundo comum que
configura o temperamento cultural de mouros e cristãos, o manancial da
identidade coletiva. Porém, atenção! A esta altura do processo a barbárie já
não é mais a antítese da civilização, senão que, fundida, designa junto com aquela
a consistência híbrida de uma realidade sui generis e plenamente
americana que não se acomoda em qualquer dos dois extremos. A dissolução
gradual das camadas mais epidérmicas da tradição hispânica culta pôs a
descoberto, no último nível da estratigrafia da sociedade colonial, a
existência de uma cultura a qual, ainda que eminentemente bárbara, já se
encontra "modificada pela civilização de um modo estranho" (idem,
pp. 81-2). Se bem que delata em seus traços exteriores sua origem européia, é,
em essência, uma síntese singular, "algo parecido com o feudalismo da
Idade Média, em que os barões hostilizavam as cidades e assolavam as aldeias, porém aqui faltam o barão e o castelo
feudal" (idem, p. 83).
O declínio das cidades de raiz
espanhola e o distanciamento progressivo da civilização ilustrada deixam o
panorama argentino à mercê de duas figuras - Facundo e Rosas. Através desses
caudilhos e do relato dos sucessos históricos de que participam, Sarmiento
revela-nos, simultaneamente, as duas caras do processo de constituição da
modernidade americana e, por extensão, alguns dos paradoxos inerentes à
condição moderna tout court. Na primeira história, que poderíamos
intitular de "barbarização da vida civilizada", Sarmiento mostra-nos
a situação muito próxima ao estado de natureza a que chegou a sociedade
argentina devido à involução meteórica das instituições civis de origem
colonial, catalizada pela insurgência do
campo. Facundo Quiroga, "a figura mais americana que a revolução
apresenta", patenteia, de maneira exemplar, os dois flancos da sociedade
primitiva que este processo deixou a descoberto e que se caracterizam pelo
predomínio do individualismo exacerbado, dá ação instintiva e da ausência de
leis. Ao considerar a cultura e o meio físico do qual surge o caudilho, o autor
remete-nos á uma temática contratual clássica que se expressa no dualismo
indivíduo/sociedade. O pampa é a metáfora que traduz as distintas dimensões do
problema. Ele é a imagem da consciência solitária, o quarto no exílio, a
planície incomensurável onde vaga o gaúcho sem destino. Em todo caso, a sede de
comunidade e ao mesmo tempo a fascinação pelo vazio. O isolamento exacerba a
necessidade de criar uma associação fictícia. O gaúcho encontra um palco de
sociabilidade mínima na pulperia onde mede suas forças, intercambia
informações, escuta e conta estórias e, sobretudo, bebe e joga para logo
retornar ao esquecimento. Sarmiento, o intelectual, recupera-o sonhando um
cenário maior, do tamanho do Estado moderno.
Sobre a pele dos pampas, inscreve-se
também o paradoxo da liberdade. Ali, o homem, sem amarras institucionais e
poucas obrigações a cumprir, ora corre ao ritmo de seus instintos, ora
confunde-se na paz imóvel da paisagem física, até que sombras de nítida
projeção hobbesiana o espreitam: "esta insegurança da vida que é habitual e permanente no campo imprime, a meu
juízo, no caráter argentino, certa resignação estóica pela morte violenta"
(idem, p. 70). A ausência de leis e
de um governo regular fazem do mais forte ou do mais audaz o juiz arbitrário
e inapelável, "sua autoridade, seu julgamento sem formas, sua sentença, um
yo lo mando e seus castigos inventados por ele mesmo" ( idem,
p. 113). Muito perto do estado de natureza, o homem dos pampas vive uma
condição pré-moral, e o que para o civilizado é um crime, para ele é apenas um
rito necessário que prolonga o hábito adquirido desde a infância de matar
reses, indiferente "aos gemidos das vítimas".
O realismo com que Sarmiento descreve
o lado brutal da barbárie não o impede de reconhecer "seus atrativos"
e admirar os valores que ela entranha - vitalidade, individualismo, imaginação
intuitiva, bravura -, os quais podem ser convocados no momento oportuno para
reforçar a identidade nacional, como no seguinte caso:
"Este
hábito de triunfar sobre as resistências, de mostrar-se sempre superior à
natureza, de desafiá-la e vencê-la, desenvolve prodigiosamente o sentimento de
importância individual e de superioridade. Os argentinos, de qualquer classe
que sejam, civilizados ou ignorantes, têm uma alta consciência de seu valor
como nação; todos os demais povos americanos jogam-lhe na cara esta vaidade, e
mostram-se ofendidos por sua presunção e arrogância." ( idem, p. 87
) .
Paralelamente a essa viagem em
direção à barbárie, Sarmiento descreve um movimento em sentido contrário que
revela a outra face da modernidade americana: a barbárie civilizada. Rosas é a
figura que melhor a representa. A barbárie ingênua, instintiva e
"profundamente americana" de Facundo Quiroga superpõe-se outra, à
altura dos tempos. A Facundo "provinciano, bárbaro, valente" sucede
Rosas, "filho da cultura de Buenos Aires, sem sê-lo ele, (...) Rosas,
falso coração gelado, espírito calculador que faz o mal sem paixão e organiza
lentamente o despotismo com toda a inteligência de um Maquiavel" (idem,
p. 46 ) . O uso da força, que em Facundo era um ato instintivo de
sobrevivência, converte-se em razão de Estado, em técnica de extermínio durante
a prolongada ditadura de Rosas que, afinal de contas, trabalha, sem saber, para
cumprir os desígnios da civilização. Pois acontece que Rosas é, a seu modo, um
agente criollo do espírito fáustico, um construtor que impõe a nova ordem
econômica a sangue e fogo:
"Rosas
distingue-se desde cedo no campo pelas vastas empresas de léguas de semeaduras
de trigo que acomete e leva com sucesso, é sobretudo pela administração severa,
pela disciplina de ferro que introduz em suas estâncias". (idem, p.
310 ) .
Rosas realiza a aspiração do mais
empedernido dos apologistas da civilização, nivelando a sociedade, tornando-a
dócil a uma só vontade, centralizando o poder. Enfim, realizando a unidade
nacional pela força:
"Mas
não se vá crer que Rosas não conseguiu fazer progredir a República que
despedaça, não! É um grande e poderoso instrumento da Providência, que realiza
tudo o que interessa ao porvir da Pátria." ( idem, pp. 344-5 ) .
O carisma da tradição, o apelo a
símbolos carregados de significado para a consciência coletiva, o fausto dos
rituais religiosos e até o fato fortuito: tudo se aproveita para reforçar o
culto à autoridade do líder. Neste campo, o caudilho americano demonstra tal
domínio da gramática do poder que chega a superar seus mentores:
"Que
político produziu a Europa que tenha sido capaz de compreender o meio para
forjar a idéia da personalidade do chefe do governo, ou a tenacidade prolixa de
incubá-la quinze anos, ou que tenha tocado meios mais variados ou mais
conducentes ao objeto?" (idem, p. 308).
Rosas representa a unidade lograda à base
de uma incessante atividade de domesticação que não descuida de qualquer espaço
da vida social até alojar-se na consciência dos indivíduos. É um sistema. Numa
frase que parece referir-se à nossa época, Sarmiento diz:
"A
fita ‘colorada’ é uma materialização do terror, que os acompanha a todas as
partes, na rua, no seio da família: é preciso pensar nela ao vestir-se, ao
despir-se; e as idéias se nos gravam por associação." (idem, p.
306).
O terror concreto da barbárie
primitiva torna-se incorpóreo. É um ar quotidiano que invade os poros da
realidade social e subjetiva no trânsito para a barbárie civilizada; em
verdade, é o fundamento último desta:
"O
terror supre a falta de atividade e de trabalho para administrar, supre o
entusiasmo, supre a estratégia, supre tudo; não há que alucinar-se: o terror é
um meio de governo que produz maiores resultados que o patriotismo e a
espontaneidade." (idem, p. 224).
O novo tempo se anuncia também nas
formas modernas com as quais se reveste o velho exercício da violência,
multiplicando a eficácia de práticas bárbaras:
"Outra
criação daquela época foi o censo das opiniões (...) estes registros reunidos
depois nas repartições do governo serviram para ministrar, durante sete anos,
gargantas ao cutelo infatigável da Mazorca." (idem, p. 309).
A civilização bárbara de Rosas carece
da espontaneidade do instinto que, de alguma forma, torna menos cruel a
barbárie primitiva de Facundo; porém, ao mesmo tempo, compensa esta sua
deficiência pela enorme tarefa histórica que cumpre socavando fundamentos da
ordem colonial e forçando o rumo do país na direção do futuro.
Enfim, através dos personagens
centrais da obra e dos processos históricos que sintetizam, Sarmiento conseguiu
apresentar, com tons épicos, a essência dos elementos que configuram o drama da
modernidade americana. Na vida de Facundo Quiroga exibe-se, em todo o seu
esplendor, o fundo de barbárie comum a todos os homens. Sarmiento o diz citando
as palavras de outro autor:
"É
o homem da natureza que não aprendeu ainda a conter ou a disfarçar suas
paixões; que as exibe em toda sua energia, entregando-se a toda sua
impetuosidade. Este é o caráter original de todo o gênero humano, e assim se
mostra nos campos pastores da República Argentina." (idem, p. 148 )
.
Apesar de suas fontes românticas, a
barbárie com que tropeçou o escritor argentino é a antípoda do mito do
"bom selvagem". Não é a utopia do reino perdido nem o canto de cisne
de uma época, e menos ainda a encarnação do mal. Não se contém nos limites de
qualquer período histórico. É a linguagem ancestral da consciência sacudida por
um novo tempo. A força terrível e fascinante que a Europa enterrou em suas
cidades populosas mas que, transfigurada ou escondida, aninha-se em toda
aventura civilizatória. Facundo Quiroga é a representação viva desse espírito e
Rosas, da civilização construída com os mesmos materiais: a barbárie e sua imagem invertida.
Na Argentina de sua época, como num
laboratório privilegiado, o autor crê discernir o significado do drama moderno,
pois ali se enfrentam, mostrando-se sem máscaras, "os últimos progressos
do espírito humano e os rudimentos da vida selvagem" (idem, p. 48).
Em tais circunstâncias, entende-se melhor o que se perde e se ganha nessa luta incansável entre
razão e instinto, inteligência e matéria.
Em suma, o custo que se paga quando uma das vozes se cala e o preço de sua
ressurreição. Partindo dessa constatação, o livro é um desafio a que se procure
o equilíbrio.
Corolário
Desde que Facundo foi escrito,
as águas do tempo derrubaram muitas pontes. Sarmiento estava longe de supor que
a cidade - e em especial uma, Buenos Aires, à qual tanto valor havia atribuído
na marcha para a liberdade - seria sentida, menos de um século depois, por
outro intelectual argentino como "um imenso cárcere" (Estrada, 1968,
p. 40). Tampouco podia adivinhar que o vertiginoso aumento da população pelo
qual lutara sem trégua viria a gerar, já ao finalizar o século XIX, um quadro
de graves patologias sociais. E menos ainda que a barbárie civilizada
continuaria assomando a cabeça, com inusitada ferocidade, no país mais europeu
da América Hispânica.
Ao autor do Facundo podem ser
feitas muitas críticas, mas, ao mesmo tempo, é justo reconhecer que ele foi um
dos primeiros a indicar, com suma precisão, algumas das encruzilhadas em que
até hoje nos encontramos. Não era um imitador compulsivo e, sim, um incansável
explorador de suas circunstâncias. A distância parece dizer-nos: não pretendais
ser tão universais a ponto de
tornar-vos cópia de outros, nem tão singulares que não se vos possa nomear
senão apontando a vossa imagem sobre o espelho. É preciso invocar a sombra de
Sarmiento para que nos revele o segredo que espanta as tautologias.
(Recebido
para publicação em agosto de 1989)
Notas
(*)
Este ensaio é parte de um trabalho mais amplo que venho realizando sobre a
história das idéias políticas e sociais na América Latina, com o apoio do CNPq
e bolsa concedida pela John Simon Guggenheim Memorial Foundation.
(**) Antonio Mitre -
Professor-adjunto do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal
de Minas Gerais (UFMG).
(*1)
"Campaneando", em dialeto lunfardo, significa vigiar, olhar ou
observar dissimuladamente; o termo alude também ao movimento dos sinos.
1 - Esta citação e demais
considerações sobre a obra de Domingo F. Sarmiento, Facundo:
Civilización y Barbarie, baseiam-se na edição preparada por Luis Ortega
Galindo, Madri, Editora Nacional, 1975 (no caso, p. 45), que inclui a
introdução e os dois últimos capítulos sobre Rosas que o autor suprimira na
segunda edição do livro, de 1851.
2 - Embora tenha como alvo
político imediato a ditadura de Rosas (1835-52 ), o Facundo de Sarmiento
(1811-88), a mais polêmica e brilhante das muitas obras que produziu, é, num
sentido amplo, uma análise sociológica das causas que concorrem para a
institucionalização dos regimes autoritários.
3 - Sobre esta discussão;
ver Romero (1968) e Chávez (1982).
4
- Por exemplo, Chiaramonte (1962 ) .
Bibliografia
CHAVEZ, Fermin. (1982), Historicismo e Iluminismo en la
Cultura Argentina. Buenos Aires, Centro Editor da América Latina.
CHIARAMONTE, José Carlos: (1962), Ensayos sobre la
Ilustración Argentina. Entre
Rios, Universidad Nacional.
ESTRADA,
Ezequiel Martinez. (1956), Sarmiento. Buenos Aires, Ed. Argos.
________________________(1968),
La Cabeza de Goliat. Buenos Aires, Centro Editor de América Latina.
ROMERO,
José Luis. (1968), A History of Argentine Political Thought. Stanford,
Stanford University Press.
SARMIENTO,
Domingo F. (1975), Facundo: Civilización y Barbarie. Edição
preparada por Luis Ortega Galindo, Madri, Ed. Nacional.