Resenhas

 

A Tecelagem dos Conflitos de Classe na Cidade das Chaminés

 

de José Sérgio Leite Lopes

São Paulo, Marco Zero e Universidade de Brasília em co-edição com MCT/CNPq, 1988

Federico Neiburg (*)

Quando, na primeira metade do século XIX, F. Engels percorreu a Inglaterra vitoriana recolhendo dados para o que seria uma etnografia pioneira no campo dos estudos sobre a classe operária (A Situação da Classe Operária na Inglaterra), pôde observar a recorrência de um padrão de industrialização que tendia a associar local de trabalho e moradia dos trabalhadores. Cottage-systems, truck-systems, da mesma forma que as company-towns e os enclaves próprios da indústria mineira, mostravam concentrações de operários que mantinham um conjunto de laços de dependência com suas fábricas; laços que claramente excediam os estritamente trabalhistas e que se fundamentavam no fato de que estes trabalhadores e suas famílias moravam em casas, quartos e galpões de propriedade das empresas.

Foram essas informações - às quais se somou uma boa quantidade de relatos sobre o "estado sanitário" e a "qualidade habitacional" dos povoados operários - que permitiram a Marx contar com um material inesgotável para encarar a análise do modo de produção capitalista. Entretanto, a estas observações parecem contrapor-se outras do próprio Marx, sustentando que, do ponto de vista do processo produtivo, o modo de produção capitalista coloca os trabalhadores em uma situação de "dupla liberdade": liberdade enquanto indivíduos despossuídos das condições necessárias para a realização de sua capacidade de trabalho, e liberdade enquanto indivíduos "livres", que dispõem de sua força de trabalho como uma mercadoria de sua propriedade, "livres" para vendê-la no mercado e para mobilizarem-se para fazê-lo (El Capital, Tomo I).

A Tecelagem dos Conflitos de Classe na Cidade das Chaminés constitui um gigantesco esforço para compreender a natureza de uma forma de dominação fundada nesse contraponto: relações sociais capitalistas nas quais a força de trabalho se acha imobilizada através da moradia. Com este trabalho, José Sérgio Leite Lopes continua o exame de uma problemática que já se encontrava delineada em seu primeiro livro, O Valor do Diabo (1976), em cujo último capítulo, ao analisar as características do mercado de trabalho dos operários das usinas açucareiras, preocupou-se especificamente com o significado da "imobilização da força de trabalho pela moradia".

Originalmente escrito como tese de doutorado para o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da UFRJ - e contendo um trabalho de pesquisa de mais de sete anos -, o livro de Leite Lopes desenvolve um leque de problemáticas a partir de um foco central: a análise detalhada de um grupo determinado de operários, submetido a relações de dominação particulares, para, justamente, estudar em profundidade um "padrão mais geral de uma forma de dominação específica, a das fábricas com vila operária" (p. 15).

A articulação das distintas problemáticas que se desdobram a partir deste eixo central faz da obra um dos trabalhos mais ambiciosos tanto no campo relativamente recente de uma "antropologia social da classe operária", como também no campo das análises da formação da classe operária no Brasil.

No entanto, A Tecelagem... - como esclarece o autor - constitui um livro essencialmente monográfico, no qual nos vemos introduzidos, ao longo de umas seiscentas páginas, no universo das relações sociais que compõem a vida dos operários da Companhia de Tecidos Paulista, instalada no Estado de Pernambuco; tanto na vida "dentro" da fábrica, no terreno dos processos de trabalho, como na vida "fora" dela, no terreno cidade que, sendo até há poucos anos de propriedade da companhia, constitui o símbolo do podér da empresa sobre a esfera da reprodução dos trabalhadores.

Considerando que a forma de dominação correspondente às fábricas com vilas operárias é apenas "uma configuração de uma estrutura de relações sociais de dominação dentre outras configurações possíveis no interior do modo de produção capitalista e no interior do conjunto de relações entre a cla:. se operária e o patronato" (p. 18), o autor escolhe a Companhia de Tecidos Paulista como uni caso "radicalizado", "limite", daquele padrão, no qual a estrutura de relações que se estabelece entre a fábrica e os operários envolve, "sob um mesmo controle, centralizado, a produção fabril, o domínio da moradia e da cidade, a produção agrícola da retaguarda territoriàl da fábrica e a circulação mercantil de bens de consumo dos operários, sob a forma de uma feira administrada. Além disso, esta, estrutura de relações sociais contém a promoção e administração de atividades médicas, religiosas e recreativas, e também uma numerosa milícia particular garantindo o ‘governo local de fato’ da companhia sobre estas múltiplas atividades" (p. 21).

Em A Tecelagem... Leite Lopes logra dar continuidade a uma metodologia de trabalho que rendera enormes frutos em O Vapor do Diabo: construindo os dados "dentro" de uma problemática que se nutre do conhecimento profundo de uma situação ou processo social "singular", transforma o seu trabalho em um laboratório de construção e reflexão teórica. É sobre a base dessa metodologia de investigação que o autor consegue articular as diferentes problemáticas que se colocava em sua obra, podendo preocupar-se, ao mesmo tempo, e com uma notável eficácia, tanto em "empreender o estudo detalhado da constituição, diante dessa forma de dominação, da identidade própria de um grupo operário determinado" (p. 15), como em oferecer elementos para "uma antropologia social da classe operária" (p. 20). Da mesma maneira, ao se propor a estudar "uma fábrica com vila operária determinada e sua trajetória a partir, mas não exclusivamente, das informações e representações do grupo operário formado por aquela fábrica" (p. 20), reflete sobre os modos de "interiorização da dominação e também de resistência à dominação, quanto aos aspectos propriamente simbólicos por ela assumida" (p. 21). Enfim, uma série de objetivos que, por outro lado, contêm uma variedade de referências e de diálogos que evocam desde historiadores sociais, como E. P. Thompson, até sociólogos que trabalham com materiais antropológicos, como P. Bourdieu.

A Tecelagem... está subdividida em dois livros. No primeiro, Leite Lopes analisa as características específicas da forma de dominação contida no sistema de fábrica com vila operária. A exposição das particularidades do "sistema paulista" decompõe-se em duas partes: a primeira mostra como o sistema de dominação ocupa-se das condições materiais de existência dos trabalhadores e de suas famílias, analisando desde o "aliciamento direto das forças de trabalho, a alocação no trabalho, a casa", até "a circulação mercantil dos bens de consumo fundamentais dos trabalhadores"; a segunda parte considera o lugar, nesta forma de dominação, da "promoção pela companhia da vida associativa, do lazer, e de atividades religiosas, a existência da polícia particular da companhia, e a incompatibilidade entre o ‘sistema papista’ e o sindicato operário"  (p. 36). Por sua vez, o segundo livro ocupa-se das "contradições do ‘sistema paulista’" e trata da estrutura dos conflitos de classe e do processo de constituição, como grupo, dos operários da Paulista - um processo de "autoconstrução de uma identidade própria" que é também um processo de "autoconstrução de sua própria consciência de classe" (p. 274). Leite Lopes mostra as modalidades de estruturação dos conflitos de classe tanto "dentro" do que - parafraseando Marx - constitui o "laboratório secreto da produção", onde, por exemplo, se confrontam diferentes concepções de trabalho, quanto "fora" da fábrica, no campo dos conflitos que têm como eixo a esfera de reprodução dos trabalhadores e que são extensamente tratados no capítulo destinado à análise do processo de "libertação da cidade" e das "lutas pela apropriação da Vila Operária pelos trabalhadores" (pp. 459 e segs.).

A estrutura da obra, uma sucessão de capítulos correspondendo à articulação das distintas problemáticas abordadas, poderia encerrar a possibilidade de um equívoco: a separação dos dois "livros" poderia nos induzir a pensar o primeiro como dedicado a uma análise mais de tipo "sistêmico", enquanto o segundo encarregar-se-ia do estudo de suas "contradições". Mas é a própria força da argumentação de Leite Lopes que, pelo contrário, justamente nega essa possibilidade, mostrando, no primeiro livro, como o "sistema paulista" está constituído por suas próprias contradições e, no segundo, como o rèsultado do processo de autoconstrução do grupo de operários é um resultado particular, específico, que responde às características da forma de dominação em que, esse processo tem lugar. Em A Tecelagem... -Leite Lopes consegue expor com uma notável consistência uma metodologia de trabalho que se apóia; por um lado, na análise da lógica interna da forma de dominação analisada, ao mesmo tempo que afirma permanentemente seu caráter contraditório - em que os processos de interiorização da dominação, nos quais se assenta a "legitimidade" do sistema, opõem-se às distintas modalidades de resistência - e, por outro lado, em um autêntico trabalho com a história que põe por terra tanto a possibilidade de uma exposição ingenuamente linear, quanto a de uma análise que relegue a história a algumas, divisões específicas - os "capíttìlos históricos". Ambas as características se articulam, por sua vez, no que constitui o verdadeiro fio condutor da construção da problemática e de sua exposição: as representações dos trabalhadores sobre as relações, das quais participam e as visões construídas sobre sua própria história.

A observação direta do grupo - durante mais de nove meses de trabalho de campo - soma-se o tratamento das informações históricas recolhidas das avaliações dos operários sobre seu passado e de suas histórias de vida; a isto se agrega um enorme volume de dados construídos mediante a utilização de numerosas outras fontes que, por sua vez, refletem representações de outros tantos atores que participam deste processo social: desde obras de cronistas locais e manuscritos da autobiografia de um ex-operário da companhia, até diários e revistas de circulação local ligados a organizações políticas ou religiosas, atas das distintas organizações sindicais da Companhia Paulista e relatórios anuais e arquivos da própria empresa. Somam-se, finalmente, informações provenientes da consulta a arquivos e periódicos nas cidades de Recife e do Rio de Janeiro, o que contribui para dotar o livro de Leite Lopes de um certo caráter épico, pela abundância de informações detalhadas sobre as relações sociais na Companhia durante os últimos 50 anos.

Da leitura de A Tecelagem dos Conflitos de Classe na Cidade das Chaminés surge a certeza de que, nas Ciências Sociais, as metáforas são muito mais que um "recurso de estilo": constituem um verdadeiro instrumento teórico-metodológico. A começar pelo título da obra, pela enorme possibilidade de desdobramentos contida na própria idéia de "tecelagem", como acertadamente assinala Leite Lopes: por um lado, a própria produção têxtil, com seu exército de tecelões e fiandeiros; por outro, a idéia de tecelagem sugere o desenvolvimento de um processo ativo de autoconstrução, de um grupo social. Um processo que, como evoca muito bem o título do trabalho, nos remete à imagem de "teia", "trama" ou "imbricação", pois contém uma análise das múltiplas determinações em jogo: desde as "peculiaridades dos grupos sociais de origem das famílias de trabalhadores recrutadas para a Paulista, desde o modo de vida dos trabalhadores naquela vila operária, submetidos a uma forma de dominação específica a que não são irrelevantes as próprias idiossincrasias patronais, até determinações econômicas e políticas da indústria têxtil de nível nacional ( como a competição entre as indústrias do Nordeste a entre estas e as do sul do país), e até as determinações políticas nacionais e estaduais que se sobrepõem ao `governo local de fato' " (p. 22) exercido pela companhia sobre seus súditos, habitantes de "sua" cidade.

O título do trabalho, aliás, também faz alusão a esta situação: em Paulista, "cidade das chaminés", são justamente as chaminés, símbolo da fábrica, que dominam a cidade.

Desde o primeiro capítulo, o leitor de A Tecelagem... é conduzido às entranhas dessa "paradoxal servidão burguesa" constituída peló "sistema paulista". O processo de aliciamento direto dos trabalhadores por parte da companhia é mostrado como um processo "exemplar" da forma de dominação constituída nesta fábrica com vila operária.

Na forma de uma intrincada e fascinante sucessão de rituais e teatralizações, os trabalhadores rurais ligados à Paulista são "despojados de suas condições de existência anteriores" para iniciarem um "processo de proletarização singular" (p. 43), que contém todos os códigos de um autêntico "ritual de passagem", magistralmente analisado pelo autor: "submetidos a um processo de ‘desnudamento’ que pode ser visto, pelo desligamento das condições de existência anterior, como a primeira parte da seqüência que caracteriza os rituais de passagem, isto é, a separação; submetidos em seguida a um processo de marginalização, segregação e liminaridade nas condições de alojamento no depósito (onde os trabalhadores se encontram em uma situação de `espera'); e finalmente submetidos a esse ritual de apresentação ao patrão e alocação ao trabalho, a esse ritual de agregação (no qual os trabalhadores se encontram frente ao patrão em carne e osso, que os submete a um exame corporal, similar à revisão de um curriculum, que serve de antecedente à designação das novas tarefas), os trabalhadores aliciados defrontam-se com as suas condições iniciais de vida na vila operária" (p. 55). Trata-se de um conjunto de condições novas que supõe, depois do "desnudamento" dos trabalhadores aliciados, um "processo inverso de `revestir-se' proporcionado pela companhia, que completa, ao lado do ritual de alocação ao trabalho e a uma nova casa e de apresentação ao patrão, os ritos de agregação ao mundo da fábrica" (p. 58).

A Tecelagem... é um livro profundamente "vivo" em que o leitor é convocado, devido ao estilo literário e à capacidade metodológica e de investigação do autor, a observar "de dentro" o processo de constituição de um grupo de operários no marco de uma forma de dominação particular. Os recursos de Leite Lopes são de uma enorme variedade: desde a utilização de "histórias de vida" que, recriadas na forma de contos - e transformadas em verdadeiros "dados" -, servem para ilustrar, por exemplo, o processo de constituição de uma "cultura fabril" (cf. o episódio das "aventuras de Severino", pp. 74 e segs., "cultura fabril" que permite ao autor "desnudar" a lógica do sistema de dominação, mostrando não só os mecanismos articuladores da "microfísica do poder", como também os opostos, de uma "microfísica da resistência"; até o episódio - que tem lugar no início da década de 30 - que relata "a batalha do coronel Frederico ( proprietário da companhia) com Roberto do Diabo", ilustrando uma das características próprias do "sistema paulista" - sua incompatibilidade com a associatividade sindical de seus operários (cf. pp. 206 e segs.). Este episódio serve também para mostrar um exemplo de "teatralização da revolta", que constitui a contrapartida da "teatralização da dominação" manifestada, por exemplo, no processo de aliciamento dos trabalhadores. A luta entre Roberto do Diabo e o patrão envolve a primeira tentativa de organização sindical por parte dos trabalhadores e "permanece até hoje como marco inicial mítico do aliciamento em massa das famílias de trabalhadores, e portanto, da produção dos próprios trabalhadores modelares do `sistema paulista', fazendo parte, assim, da história incorporada desse grupo social" (p. 262). Um episódio que, contendo representações que aludem, por um lado, ao próprio intento de sindicalização e, por outro, ao fim do estilo personalizado de dominação do patrão frente à presença permanente do sindicato, a partir da década de 1950, projetar-se-á em períodos posteriores. Ao avançar na leitura de A Tecelagem... e sobretudo a partir do segundo livro, o leitor pode apreciar a profundidade da dimensão etnográfica do trabalho de Leite Lopes.

A profusão de dados e de informações detalhadas obtidas de inumeráveis fontes e oferecidas pelo autor para reforçar seus argumentos mostra a magnitude de sua minuciosa tarefa reconstrutiva. É justamente esta profusão e profundidade de detalhes que pode levar o leitor a sentir-se um tanto "perdido" e a não perceber adequadamente as articulações entre as diferentes problemáticas abordadas nessa parte da obra, na qual, aliás, se encontram algumas das passagens mais brilhantes do livro. Por exemplo, aquela em que Leite Lopes, estudando o processa de desarticulação do "sistema paulista", mostra, passo a passo, os mecanismos que contrapõem "microfísicas do poder e da resistência" no campo dos processos de trabalho. A análise inclui um conjunto de considerações sutis em relação às dferenciações entre os próprios operários e mostra a "resistência" dos trabalhadores não só nas grandes greves que salpicam o período 1945-1964, como também aquela "microfísica da resistência" que progressivamente substitui uma antiga "cultura fabril" por outra, adaptada à modernização empresarial e à sua nova "orientação gerencialista" (cf. pp. 361 e segs.).

A parte final do livro consagra-se à análise da última "epopéia"  dos trabalhadores da Companhiade Tecidos Paulista: "a libertação da cidade e as lutas pela apropriação da Vila Operária".

Confluindo com uma sucessão de transformações políticas e econômicas nacionais e regionais, o processo de reapropriação da Vila Operária pelos trabalhadores faz parte, por sua vez, do s processo de dissolução da forma  de dominação "fábrica com vila operária", mostrando sua própria natureza. A união entre a esfera da produção e a esfera da reprodução dos trabalhadores fica evidente no momento em que a companhia, em pleno processo modernizador, cede a propriedade das casas aos trabalhadores demitidos, como parte das indenizações (cf . o episódio que: a analisa "a resistência à ‘guerra contra os estabilizados’ depois de 1964") (pp. 541 e segs.).

A Tecelagem... começa com entrevistas que remetem a “dois tipos de orgulho manifestados freqüentemente pelos operários da Paulista a respeito do passado que caracteriza o seu grupo social: o orgulho que provém da ‘cidade das chaminés’, da própria grandeza da companhia ( ... ); mas também o orgulho decorrente da experiência de lutas travadas contra esta mesma companhia”(p. 585) . Ao chegar às últimas páginas do livro, fica claro para o leitor o conteúdo da contradição que opõe ambas as visões, sendo a oposição entre a grandeza da "cidade das chaminés" e a grandeza do movimento operário que ali "teceu" sua consciência uma excelente síntese do processo de autoconstrução do grupo de operários e da formação de sua própria consciência de classe, consciência que está ligada menos "a uma decorrência filosófica das possibilidades históricas atribuídas ao ‘proletariado’ e à ‘classe operária’, e mais às pequenas lutas e aos imprevistos da mobilização real' da transformação deste grupo operário em grupo mobilizado" (p. 589).

Por todos esses motivos, considero o livro de Leite Lopes um dos mais fecundos esforços recentes em ciências sociais no sentido de compreender os processos sociais de um ponto de vista que sintetiza as melhores tradições da história social e da antropologia.

(*)Federico Neiburg - Programa de Pós:G.ráduação em Antropologia Social do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro.



Afinal, que País é Este? Continuidade e Mudança no Brasil da Nova República

de Aspásia Camargo e Eli Diniz (orgs.)

São Paulo, Vértice/Editora Revista dos Tribunais, 1989

 

Dulce Chaves Pandolfi (*)

A análise política contemporânea tem se debruçado sobre os recentes processos de redemocratïzação ocorridos em diversos países. Na busca de uma teoria geral que explique o recorrente fenômeno das transições, surge uma gama de adjetivos para qualificar as diferentes experiências. No Brasil, a passagem do autoritarismo para a democracia tem sido objeto de estudo privilegiado dos cientistas políticos.

Em meados da década de 70, o país entrava no seu prolongado e tortuoso processo de transição, até hoje não concluído. A partir de 1985, com a implantação da Nova República, aumenta o fluxo destes estudos, que através de análises comparadas procuram explicar a especificidade do caso brasileiro.

É neste contexto que surge o livro Continuidade e Mudança no Brasil da Nova República, organizado por Aspásia Camargo e Eli Diniz. Lançado em maio de 1989, o livro reúne seis artigos que, a partir de enfoques e preocupações temáticas diversas., tentam explicitar a natureza e o modelo da transição brasileira, detectando os laços de ruptura e de continuidade com o passado.

Tomando como ponto de partida algumas características estruturais da nossa sociedade, o artigo de Aspásia Camargo centra a sua análise nas diversas dimensões da crise que hoje assola o país. Segundo a autora, a crise institucional que atinge não apenas o Legislativo, o Executivo e o Judiciário; mas generaliza-se nas instituições de saúde, de ensino e de segurança-pública, é resultado de uma crise maior de sociabilidade. A sociedade brasileira, face à generalizada ausência de normas e valores, estaria no momento atual próxima daquele dramático "estado de anomia" diagnosticado por Durkheim para explicar o descontrole social vivido pela sociedade industrial européia no final do século XIX.

Questionando a difundida tese de ser o Estado forte incompatível com a modernidade, Aspásia discorda dos queconsideram excessivos os poderes e as funções do Estado no Brasil. Segundo a autora, o Estado brasileiro é forte apenas nas suas manifestações patrimoniais mercantilistas, mas o poder público é fraco se definido em termos de sua racionalidade e eficácia.

Esta fragilidade se explicita na sua incapacidade de oferecer serviços ao conjunto da sociedade, no controle e implementação de políticas e na promoção da ordem e do bem-estar coletivo.

A despeito de algumas tentativas - como foi o caso da reforma da Previdência Social -, a Nova República não conseguiu implementar aquilo que deveria ser um dos seus eixos principais de atuação: a modernização do Estado. "Cabe, por conseguinte, implementar medidas para minimizar o Estado em suas funções obsoletas e irrelevantes, mas maximizá-lo em suas funções prioritárias, específicas, de promover o desenvolvimento e eqüidade social e a integração política; não necessariamente reduzi-lo, mas iniciar o seu extensivo e profundo reordenamento" (p. 35).

Vivendo uma superposição de crises, o país encontra-se hoje sem limites e sem modelos. A dificuldade maior para superar esta situação reside na precariedade dos valores democráticos na cultura política brasileira, precariedade esta presente tanto nas nossas elites como nas massas populares. As elites empresariais são em geral hostis às políticas redistributivas, preferindo sistemas de autoridade mais concentrada, onde o seu poder pode ser exercido de forma mais direta.

As elites mais tradicionais são também avessas à democracia porque esta acarretaria o desmantelamento das suas
máquinas tradicionais. Quanto às massas populares, diante das precárias condições de subsistência, priorizam as políticas substantivas, guardando um certo distanciamento em relação ao formato institucional, mais ou menos democrático, adotado pelo país.

Num tom de maior pessimismo, Renato Lessa, autor do segundo artigo do livro, procura mostrar que as vicissitudes da nossa transição não se originam tanto da sua forma negociada, mas do tipo de coalização montada para viabilizá-la e de uma política deliberada de não inovação e de não tratamento dos problemas substantivos.

Segundo o autor, o mais importante ao se estudar os diversos tipos de transição é detectar o papel que em cada uma delas desempenharam as elites e as instituições vinculadas ao regime autoritário que antecedeu a redemocratização. Para se entender a forma e o ritmo do processo de transição é fundamental analisar como se articularam as coalizões promotoras do referido processo.

Ao fazer uma comparação com a transição espanhola, Renato afirma que na Espanha, diferentemente do Brasil, houve uma convergência entre o processo político (as negociações e o enfrentamento entre os diversos atores envolvidos) e o processo social (o conjunto de demandas substantivas geradas pelos grupos organizados da sociedade). Naquele país, a modernização das regras políticas caminhou ao lado da formulação de pactos sociais substantivos.

Fazendo uso da classificação hobbesiana, Renato analisa a atuação dos três corpos políticos relevantes no processo da transição brasileira: o governo, entendido como sinônimo de Executivo Federal, a polis, representada pelo Congresso Nacional, e o demos, incluindo o conjunto dos eleitores e setores organizados da sociedade. Pelo fato de a transição no Brasil ter ocorrido via congressual, os acordos se deram "dentro dos limites da polis, com razoável independência em relação às intenções do governo e às demandas do demos" (p. 72).

A principal protagonista da transição, a polis, foi gerada pelo autoritarismo e emergiu na nova ordem segundo as regras e os procedimentos da ordem anterior, tendo construído nela sólidos patrimônios políticos. Entretanto, qualquer que tenha sido o peso do passado, o fator decisivo para a ausência de um arranjo substantivo na transição brasileira decorreu de sua própria dinâmica. A maior preocupação da polis não foi a de estabelecer uma base substantiva para viabilizar a transição, mas a sua maior virtude foi conseguir, através de um jogo aritmético, um número maior de adesões para derrotar o regime autoritário.

Neste sentido, as mazelas da nossa transição não derivam do, seu caráter pactuado ou negociado, mas da ausência de pactos substantivos. Conforme palavras do autor, o que houve entre nós não foi um pacto, mas tão somente um negócio (p. 79).

Centrando a sua análise nos partidos políticos e na sua relação com o Estado e a sociedade, Eli Diniz, a partir de uma perspectiva histórica; insiste na antiga, porém sempre atual crítica à estrutura partidária brasileira.

Aqui, diferentemente de outros países, os partidos não desempenharam as suas funções governativas e a polarização deu-se em cima da questão Estado forte e sociedade civil fraca.

Ao discorrer sobre os diversos sistemas partidários implantados no país, Eli Diniz constata que o bipartidarismo criado em 1965 e extinto em 1979, artificial em sua gênese, teria adquirido autonomia no seu decorrer, evoluindo segundo uma lógica própria. Em 1979 o bipartidarismo foi substituído pelo pluralismo controlado, e a partir de 1985, com a implantação da Nova República, passa a vigorar a liberdade partidária.

Entretanto, é sobretudo entre 1974 e 1982 que os partidos e os mecanismos representativos se revalorizam e o jogo eleitoral deixa de ser visto como um niero ritual, mas como um instrumento de mudança. "A gradual autonomia em relação ao regime militar ocorreria paralelamente ao fortalecimento da sociedade civil. Esta viria a alcançar, principalmente a partir dos anos 70, níveis crescentes de complexidade e densidade organizacionais. Inicialmente dissociados, o movimento dos partidos e o da sociedade, a partir de um dado momento, passariam a convergir na crítica ao situacionismo" (p. 86).

Instrumentos centrais da transição, os partidos, com a implantação da Nova República, descaracterizaram-se como centros ativos de formulação de propostas e programas de ação, baseando sua atuação num estilo tradicional de fazer política. Nenhum dos partidos formadores da Aliança Democrática (PMDB e PFL) assumiu de fato funções governativas.

Além do retrocesso no sistema partidário, a generalização das práticas clientelísticas afetou drasticamente o setor público, e o Estado revelou-se incapaz de implementar políticas que amenizassem a dramática situação do país. A despeito das medidas politicamente liberálizantes, as reformas foram tímidas e não houve uma ruptura com o padrão histórico baseado na forte presença estatal e na suprerynacia do poder Executivo sobre os outros poderes. Reafirmou-se o modelo tecnocrático de gestão da economia e gradualmente reforçou-se o poder das antigas lideranças em detrimento das novas.

Ao garantir a vitória do velho sobre o novo, a Nova República fez com que a mobilização e a confiança no regime se transformassem em retraimento ou radicalização. Se a partir de 1974 os índices de participação elevaram-se substancialmente, reafirmando-se a confiança nos partidos, "no momento atual, assistimos anais uma vez a uma certa revivescência da visão política como atividade estéril, senão predatória e, portanto, perversa" (p. 106).

Se o país vai mal, o empresariado vai muito bem obrigado.

Isoladamente e em termos relativos o processo de transição trouxe ganhos políticos para o setor. Segundo Renato Boschi e Eli Diniz, o empresariado, ao ter ampliado a sua capacidade organizacional e a sua participação na arena política, fortaleceu-se enquanto ator político.

Essas transformações podem ser constatadas não só com o lançamento de candidaturas de empresários nas eleições para os governos estaduais de 1986 e para a Assembléia Nacional Constituinte, como na ocupação de cargos em setores cruciais da política econômica. No que se refere à estrutura de representação de interesses do setor empresarial, mesmo sem haver uma desarticulação da estrutura oficial, houve uma flexibilização do modelo corporativo, através da criação de canais alternativos dotados de maior autonomia.

Sem desprezar as diferenças ideológicas, os autores apontam para um fortalecimento da corrente neoliberal em detrimento da corrente desenvolvimentista, esta mais favorável ao crescimento econômico e aos investimentos estatais. Diferentemente do ocorrido nos anos 30 e 50, a facção do empresariado que hoje mais se fortalece tem sido contrária a qualquer postura que reforce o papel do Estado, sem abrir mão, entretanto, dos benefícios materiais providos pelo setor público. Defendendo a necessidade de uma maior previsibilidade e coerência na política econômica, a corrente neoliberal tem privilegiado a manutenção de uma ordem de mercado com baixa intervenção estatal, tanto na esfera regulatória quanto na produtiva. De fato, com a proliferação de greves nos setores de ponta da economia, o empresariado tem dispensado a participação do Estado, subvertendo a rigidez dos princípios corporativos na relação capital/ trabalho.

Ao fazer um balanço sobre a atuação do empresariado na Constituinte, Renato e Eli apontam para as ambigüidades surgidas ao longo do debate constitucional.

No que diz respeito à mudança da legislação sindical, os empresários revelaram a sua face mais conservadora,
opondo-se, por exemplo, à extinção do imposto sindical. A grande indagação dos autores é saber até que ponto as características de organização do empresariado podem se traduzir numa nova institucionalidade capaz de conferir estabilidade aos arranjos democráticos em gestão. Em relação a este aspecto, as perspectivas não são nada promissoras. As propostas de pactos sociais surgidas ao longo da Nova República, envolvendo a burguesia, o operariado e o Estado, não conseguiram se viabilizar. Especulando sobre as razões desse fracasso, os autores apontam, além das dificuldades advindas da nossa estrutura corporativa e do pluralismo de cúpula recentemente instalado no movimento operário, a intransigência do empresariado, que se sente ameaçado no seu desempenho econômico diante da maximização dos objetivos sociais.

No que diz respeito aos trabalhadores rurais, a abertura política proporcionou, sem dúvida, condições mais favoráveis ao seu reingresso no cenário político. Entretanto, as iniciativas não são novas e a maioria das entidades que lideram as lutas sociais no campo é preexistente à transição e até mesmo ao golpe de 1964. Lygia Sigaud procura mostrar que, independentemente dos ganhos concretos, os efeitos da mobilização rural transcendem em muito os seus objetivos pragmáticos. Ao produzir e reproduzir o reconhecimento dos camponeses e dos seus representantes como atores legítimos, estas lutas impõem limites às possibilidades do exercício da dominação mais tradicional.

A despeito da eficácia destas ações, o grande problema apontado por Lygia Sigaud é o não reconhecimento dos camponeses enquanto atores políticos consagrados. Através de diversos exemplos, Lygia deixa claro que esta exclusão se dá no interior do aparelho de Estado, na grande empresa e até mesmo na academia.

Refletindo sobre o papel dos militares na sociedade brasileira, José Murilo de Carvalho considera que boa parte da responsabilidade pela interferência militar na vida política dó país cabe também aos civis. Esta omissão civil ocorre tanto no mundo político quanto no mundo intelectual. Ao fazer um balanço crítico dos estudos acadêmicos acerca dos militares, José Murilo constata a precariedade destes estudos. Só recentemente os intelectuais começam a superar resistências, capacitando-se para enfrentar o debate com os militares. Esta deficiência se faz presente também na sociedade política, tanto no Congresso como nos partidos.

Ao fazer uma digressão histórica, José Murilo demonstra que durante o Império existia um eficiente sistema de governo civil, exercendo controle adequado sobre os militares. Com a República, principalmente no pás-30, houve um avanço dos militares para ocupar funções dentro do Estado, ocorrendo, conseqüentemente, uma retirada dos civis. No pós-64, por razões óbvias, os civis teriam recuado, e com a implantação da Nova República, cujo compromisso era restaurar o governo civil, os militares ainda se fazem fortemente presentes.

Discorrendo sobre a fragilidade do enfrentamento da questão militar no novo regime, José Murilo, através de diversos exemplos, demonstra a gravidade da omissão civil em assuntos fundamentais como a política nuclear, a política de produção de material de emprego militar e a política de segurança nacional. Segundo o autor, caso não haja uma legislação ordinária minuciosa que especifique o papel dos militares na micropolítica, as definições de princípios surgidas no texto constitucional podem perder muito da sua eficácia. O recado do autor é claro:

“A omissão civil, não haja dúvida, contribui para a volta dos militares ao governo. Vinda a intervenção, muitos ficarão talvez felizes por poderem novamente culpar os militares. Mas, mais inteligente, embora menos atraente, será nos corrigirmos para tornar menos provável a nova intervenção” ( p. 152 ) .

Se lamentavelmente, o recado de José Murilo não conseguiu sensibilizar os constituintes, ainda há tempo para que ele seja devidamente incorporado no debate da sucessão presidencial.

Ao terminar a leitura, a inquietação presente nos diversos artigos nos leva a indagar: afinal, que país é este?

O livro é extremamente oportuno. Seu valor, entre outros, consiste em mostrar que o Brasil tem de seguir um longo e original caminho para construir a sua ordem democrática. Talvez a especificidade da crise se expresse na convivência mal resolvida entre o velho e o novo. Aprender com o passado não implica manter o obsoleto, mas preservar o que existe de novo no velho, separando o joio do trigo.

Hoje, em plena campanha da sucessão presidencial, o país atravessa mais uma etapa do seu processo de transição. Denunciar a perversão da política é, sem dúvida, um primeiro passo para recuperá-la enquanto instrumento que permite a agregação dos interesses, a produção do bem comum e a dignidade da vida em sociedade.

Sem política e sem instituições democráticas não se constrói democracia.

(*) Dulce Chaves Pandolfi - Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Cpdoc) da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

 

A Rebeldia do Trabalho (O Confronto Operário no ABC Paulista : As greves de 1918-80)

de Ricardo Antunes

São Paulo/Campinas, Ensaio/Editora da Unicamp, 1988

João Roberto Martins Filho (*)

O ciclo de greves metalúrgicas que eclodiu no ABC paulista em fins da década de 70 tem seu lugar cativo entre as conjunturas memoráveis do movimento operário brasileiro. Decorridos dez anos daqueles acontecimentos, sem que os trabalhadores do setor mais dinâmico da indústria do país tenham perdido o prestígio que lhes conferiu sua combatividade, já se pode fazer um balanço mais isento das potencialidades e limites das mobilizações de 1978-80.

A Rebeldia do Trabalho tem, nesse sentido, um nítido tom polêmico, propondo-se a debater e criticar as principais teses dos autores que antes abordaram a ação opérária nos setores industriais de ponta e, mais especificamente, os protestos grevistas do final dos anos 70 no ABC.

Com efeito, a intensa controvérsia sobre o significado e os limites daquelas greves mal esperou o seu término para vir à tona. Numa de suas vertentes, degládiaram-se visões políticas conflitantes no seio dos agrupamentos da esquerda, no quadro mais amplo do debate sobre as atitudes a tomar diante da "abertura" democrática. Num outro cambo, as greves reavivaram uma discussão em curso no meio intelectual-acadêmico sobre as perspectivas da atuação sindical dos operários nos setores mais modernos da economia brasileira.

Nesse sentido, o livro de Ricardo Antunes não se caracteriza somente pelo intuito polêmico, como também por sua filiação a uma rica herança de análises sobre o movimento operário no Brasil, centrada na perspectiva mais ampla das relações entre as classes sociais e na relação destas com o Estado. Assim, uma de suas teses centrais é a de que a causalidade fundamental das greves metalúrgicas de 1978-80 foi a luta contra a superexploração do trabalho promovida pela política de desenvolvimento do Estado "bonapartista". Ressalta desde o início, no estudo de Antunes, o caráter político dos movimentos. "Comportando uma pauta reivindicatória de natureza predominantemente econômica, as greves metalúrgicas assumiram, desde seu desencadear, nítida dimensão política, expressa no confronto que efetivaram contra a base material e a superestrutura jurídico-política da autocracia burguesa", diz o autor (p. 167).

A tese de que o elemento impulsionador das greves foi fundamentalmente a superexploração do trabalho abre uma primeira frente de discussão. Em seu livro A Estratégia da Recusa (1982), Amnéris Maroni centrou a análise da greve de 1978 não na luta contra o arrocho, mas em seu caráter de questionamento da organização do processo de trabalho, do poder do capital no interior da fábrica. Contrapondo-se a esse argumento de Maroni, Antunes defende a unidade real existente entre dia exploração do trabalho e o despotismo fabril, negando que as análises marxianas tenham desprezado este último aspecto.

Para ele, o enfoque de Maroni, ao pressupor uma dicotomização dos aspectos acima; "pode propiciar que se tome como central e decisivo aquilo que na luta concreta existiu, porém não com o estatuto de determinação, mas de secundariedade" (p. 29, grifo do autor). Ao assim proceder, Maroni estaria aproximando reivindicações que se expressam efetivamente no movimento operário dos países capitalistas centrais da concretude das lutas do ABC de 1978, o que, para Ricardo Antunes, constitui "um a priori que acaba impedindo a real apreensão do significado das Greves de Maio" (p. 30). O autor não nega, contudo, a pertinência da análise de

Amnéris Maroni, preservada a questão da secundariedade daquelas reivindicações. Reconhece também o acerto da estudiosa no que tange à crítica dos "mitos historiográficos" sobre o movimento operário dos setores de ponta da economia. Chegamos, assim, ao segundo ponto central da polêmica de Antunes com a literatura sobre o tema. Num capítulo à parte, ele discute a questão da especialidade dos operários metalúrgicos do ABC, problema axial das reflexões de um conjunto já considerável de estudiosos, desde o início dos anos 60. Com efeito, a partir de pesquisas como as de Leôncio Martins Rodrigues, uma vertente sociológica vinha enfatizando a tendência à integração dos setores operários vinculados ao setor moderno da economia. No plano político, aquele autor propunha existirem condições propícias para o surgimento de "um tipo de orientação sindical à americana" (pp. 130 e segs.).

Tais perspectivas encontraram continuidade nos estudos de outros autores. Procurou-se, então, relacionar as condições de trabalho específicas da moderna grande empresa com certas tendências sindicais e políticas que, no quadro de heterogeneidade característico de países como o Brasil, provocariam um afastamento entre o sindicalismo desses setores e o dos setores tradicionais de nossa economia. Mais uma vez destacava-se, como no caso dos trabalhos de Maria Hermínia Tavares de Almeida, a propensão ao surgimento de uma ação sindical mais próxima do "sindicalismo de negócio norte-americano: combativo, ‘apolitico’, solidamente plantado na empresa, tecnicamente preparado para enfrentar e resolver problemas gerais e específicos de seus representados" (p. 133).

Como o perceberam vários autores, as previsões centrais dos estudiosos acima foram frontalmente questionadas pela irrupção do movimento grevista de 1978-80 no ABC. No entanto, Ricardo Antunes também recupera uma tendência de análise bastante diversa, de sociólogos que, mesmo antes da eclosão das greves, procuraram destacar o papel de vanguarda a ser desempenhado pelo sindicalismo metalúrgico no conjunto das lutas dos trabalhadores brasileiros. Estudiosos como Celso Frederico, autor de A Vanguarda Operária (1979 ) , procuraram partir da papel dos operários qualificados no processo produtivo justamente para defender a dimensão impulsionadora que estes poderiam desempenhar no processo político-sindical.

Com efeito, o debate sobre a especificidade dos metalúrgicos do ABC teve força suficiente para ultrapassar os muros da academia e dos agrupamentos políticos e chegar às páginas da imprensa e à "opinião pública". Um argumento recorrente do governo e dos patrões, na tentativa de diminuir a solidariedade aos grevistas, foi o de que estes constituiriam uma "elite" bem paga e com razoável condição de vida, sem motivos, portanto, para reclamar melhores salários.

Tratava-se, aí, de uma versão caricatural da aproximação que alguns estudos procuraram efetuar entre a situação dos metalúrgicos do ABC e a das camadas trabalhadoras que, nos países de capitalismo avançado, formavam a "aristocracia operária". Como salienta Antunes, tal equiparação carece de um mínimo de fundamentação empírica. Trabalhos como os de John Humphrey, herdeiros de uma rica tradição de estudos fundada no exame das condições concretas de vida e trabalho dos operários fabris, encarregaram-se de desmistificar a tese da "aristocracia operária".

Sem estabilidade de emprego, sem altos salários, submetidos a um ritmo intenso de trabalho e a freqüentes e habituais prolongamentos da jornada, os metalúrgicos brasileiros estavam socialmente muito distantes das condições que propiciaram o surgimento de uma camada operária especial nos países de capitalismo central. Ao contrário, como destaca Antunes, "esta categoria vivenciou mesmo uma superexploração do trabalho, com intensidade maior que outras ligadas a Departamentos não tão dinâmicos da economia brasileira" (p. 157). Retorna aqui a tese central de A Rebeldia do Trabalho. Esta resenha ficaria, porém, incompleta se eu não mencionasse um argumento complementar e igualmente central na análise de Ricardo Antunes. Trata-se de sua crítica aos limites políticos do movimento de 1978-80, em que lança mão de um arsenal teórico de filiação lukácsiana, dedicando o capítulo final do livro ao exame da "dialética das formas da greve". Aí ele procura explorar as categorias de greve "espontânea" e "não-espontânea", greve "política" e "econômica", ao mesmo tempo em que defende uma distinção entre "espontaneidade" e "espontaneísmo".

Em síntese, a tese do autor é que os movimentos em questão não conseguiram ultrapassar os limites da espontaneidade operária, caracterizando-se pela ausência de uma "teleologia consciente" calcada na "razão dialética". Por sua vez, a greve de 1980 teve no "espontaneísmo" uma das razões fundamentais de seu fracasso. Lula e seus colegas pecaram pela apologia da espontaneidade, um procedimento não mais espontâneo, porque politicamente dirigido.

Não há como negar o caráter polêmico dessas avaliações. Antes de tudo, seria possível argumentar que o sindicalismo do ABC, pólo avançado da ação sindical brasileira, teve sua gênese numa situação histórica concreta marcada pelo autoritarismo e pela derrota recente das perspectivas da esquerda brasileira. Por outro lado, a análise de Antunes parece perpassada por um problema que o autor não tematiza, criando, a meu ver, sérios entraves à sua argumentação. Trata-se da questão dos limites objetivos impostos à ação operária pela estrutura sindical do Estado.

Relembro aqui uma entrevista recente de Jacob Gorender, historiador e homem de esquerda, onde ele salientava que o traço mais permanente da história brasileira no último meio século é a presença da estrutura sindical tutelada pelo Estado, ao mesmo tempo em que externava sua preocupação com a ausência de uma estratégia mais ofensiva do novo sindicalismo com relação a esse ponto crucial. Numa linguagem familiar a Antunes, Gorender complementa: "Trata-se de uma premissa indispensável para que a classe operária brasileira se afirme de fato como classe para si, como classe dotada de consciência própria" (Teoria e Política, ns. 5-6, pp. 35-59).

Tal posição, a meu ver, avança no sentido de apontar os fatores históricos concretos que impediram o movimento operário de 1978-80 de superar certos limites. Entretanto, nessas linhas finais, é preciso mencionar que a própria narrativa de Antunes levanta em inúmeros momentos a crucialidade do problema em questão. Sua análise das greves deixa nítido que a dinâmica dos movimentos era centralmente condicionada pela possibilidade de o Estado intervir nos sindicatos, afastar e cassar dirigentes.

O próprio calendário dos eventos operários é previamente marcado pelas datas dos dissídios, arbitrariamente decretadas.

Desencadeadas as greves, passa-se a viver a expectativa do julgamento de sua legalidade pela Justiça do Trabalho.

Enfim, o próprio isolamento a que chegou o sindicato de São Bernardo na campanha de 1980, um dos pontos criticados por Antunes, teve entre suas principais raízes a possibilidade sempre presente de manobras as mais variadas dos sindicatos pelegos e da Federação. Como disse Lula numa entrevista concedida à revista Ensaio (n. 9, p. 31), em julho de 1981: "A questão do isolamento não dependeu da gente. Em 79 (...) estava acertado que todos os sindicatos iriam convocar assembléias e decretar greves. E o que acontece é que nenhum sindicato faz isso, a não ser o de São Bernardo. (...) Em 80, o fato volta a se repetir".

De resto, foi o movimento de 1980, ao criar o Fundo de Greve  e ao sobreviver durante algumas
semanas fora da estrutura oficial, o primeiro a apontar, na prática, para a possibilidade de um rumo diverso na ação sindical. Escapa aos limites deste artigo discutir por que não se deu continuidade a essa tendência.

Voltando ao livro de Ricardo Antunes, a lacuna que apontei não impede concluir que seu excelente estudo tem lugar assegurado na literatura sobre o movimento operário no Brasil.

Bibliografia

FREDERICO, Celso. (1979), A Vanguarda Operária. São Paulo, Símbolo.

MARONI, Amnéris. (1982 ), A Estratégia da Recusa. São Paulo, Brasiliense.

(*) João Roberto Martins Filho – Universidade Federal de São Carlos.

 

 

PT: A Formação de um Partido - 1979-1982

de Rachel Meneguello

São Paulo, Tese/Editora Paz e Terra, 1989

 

Clóvis Bueno de Azevedo(*)

 

Lançado em meados de 1989, este trabalho de Rachel Meneguello é o texto revisado, e com novo título, de sua tese de mestrado, "PT - Inovação no Sistema Partidário Brasileiro", defendida no final de 1987, na Universidade de Campinas, e premiada pela Anpocs como a melhor tese daquele ano.

O livro está dividido em duas partes, a primeira versando acerca das origens, organização e propostas do Partido dos Trabalhadores - PT, a segunda sobre a participação, o desempenho e os resultados obtidos pelo partido nas eleições de 1982 em São Paulo.

Segue-se, em conclusão, um posfácio em que a autora procede a uma rápida análise dos acontecimentos e dos rumos do PT, desde 1982 - data limite do período abordado no livro - até 1989, ano em que o partido assume o governo da prefeitura mais importante do país, entre outras.

A hipótese central, apresentada e defendida ao longo do texto, refere-se ao caráter da novidade petista no cenário político-partidário brasileiro.

Feita, introdutoriamente, uma retrospectiva da transição e da "abertura", com o objetivo de situar o surgimento do Partido dos Trabalhadores na história brasileira, Rachel propõe, a seguir, a compreensão do PT como o primeiro partido de massas em nosso país.

O modelo teórico é o de Maurice Duverger em Os Partidos Políticos, definindo-se o partido de massas pela origem externa extraparlamentar, organização interna intensa, forte articulação estrutural, centralização nacional do poder, rigorosos requisitos para filiação, presença de certo doutrinarismo e controle dos parlamentares pelo partido.

São justamente essas características básicas, presentes no PT, a respeito das quais se discorre na primeira parte do livro, que comporiam a novidade petista.

Segundo a autora, o PT é novo porque é um partido fundado por atores sociais até então excluídos do cenário político-institucional, os operários e sindicalistas (em torno dos quais se agreraram políticos, intelectuais, lideranças de movimentos sociais e grupos de esquerda) que, a partir da experiência das greves de 1978-80, decidiram-se pela necessidade de estender sua luta para a arena partidária. Uma das razões seriam os limites da luta sindical, que impunham nova estratégia de luta, em novos campos e com novos instrumentos.

Uma outra seria a percepção de que as reivindicações trabalhistas complementam-se e até mesmo dependem da obtenção de direitos políticos e da própria conquista da cidadania. E, finalmente, a constatação de que os trabalhadores brasileiros deveriam romper com a dependência de terceiros para se fazerem representar no campo partidário.

Daí a necessidade de um partido dos trabalhadores (não mais para os trabalhadores), constituído e dirigido por eles mesmos, um "partido sem patrões", conforme o anteprojeto do PT, de 1980.

No que se refere aos aspectos organizacionais, a novidade petista corresponderia ao caráter de democracia interna, garantido pelos mecanismos de aproximação entre bases e cúpulas partidárias, pela participação dos filiados nas decisões fundamentais da agremiação, pela integração do partido e sua presença junto aos movimentos sociais. O instrumento essencial, incluído nos Estatutos, inédito e não previsto na Lei Orgânica dos Partidos Políticos, seriam os Núcleos de Base, "tipo misto de `seções socialistas' e `células comunistas', formados por região, empresa, categoria profissional ou movimento social.

A eles caberia promover a educação política dos militantes, a integração permanente com a sociedade civil, bem como, por meio de formas consultivas diretas, orientar o partido quanto aos desejos e preferências dos filiados em cada projeto de lei e em toda decisão importante que requeira a manifestação e a expressão das bases.

A articulação interna estaria assegurada, ainda, pela permanente participação dos filiados nas atividades partidárias, pela contribuição financeira obrigatória, pela necessidade de aceitação e divulgação da ideologia e dias propostas previstas nos documentos básicos do partido e, igualmente, pelo controle éticodisciplinar de filiados, dirigentes, parlamentares e governantes petistas.

Em relação à proposta política, a originalidade do Partido dos Trabalhadores, segundo Meneguello, é a peculiar resposta à tensão entre as fórmulas de Democracia Representativa e de Democracia Direta.

Trata-se, de um lado, da forma de representação orgânica, ou representação sociológica, onde as exigências do mandato imperativo seriam equacionadas e resolvidas pela igualdade de condição social entre representados e representantes.

A democracia dos trabalhadores, sob esse aspecto, seria, portanto, o governo realizado pelos próprios trabalhadores.

De outro lado, propõe-se a noção de governo popular. Ao mesmo tempo em que se associa a democracia à resolução das carências sociais ( alimentação, saúde, educação), postula-se a necessidade de eliminação das distâncias entre Estado e sociedade, via intensa e permanente participação do povo nas decisões governamentais.

Daí a tese dos Conselhos Populares, instâncias de livre organização da população que, igualmente por meio de suas associações, movimentos sociais e entidades representativas várias, indicariam aos governantes as prioridades políticas, o que fazer, quais projetos adotar e assim por diante.

Em outras palavras, tratar-se-ia de vincular as demandas sociais e as instituições políticas, de criar-se um "vínculo societário", descrito no texto como a "essência da novidade petista de partido político".

Finalmente, ainda quanto à proposta política, Rachel aponta a ambigüidade do caráter classista do partido, assim como a pouca elaboração da concepção da sociedade socialista e democrática por ele desejada.

No que toca à perspectiva de classe, ora o partido aponta, de modo mais restrito, para a representação preferencial do operariado industrial, ora para maior abrangência, incluindo todo o conjunto de assalariados ou mesmo a própria massa popular. Em relação ao projeto de socialismo, ressalta-se sua imprecisão e vagueza. Afinal, dele nada mais se afirma além de se tratar da sociedade onde os homens sejam livres e iguais, onde todos sejam valorizados, onde não existam explorados, nem exploradores...

A segunda parte do texto (intitulada "O Teste") é introduzida pelos resultados globais das eleições de 1982, particularmente os do PT, passando-se em seguida à análise detalhada do desempenho do partido no Estado de São Paulo.

Destaca-se, preliminarmente, o fato de que, no conjunto do país, o PT obteve apenas 3,3 % dos votos para governador, desempenho considerado inexpressivo. O partido elegeu uma quantidade pequena de parlamentares e apenas dois prefeitos, revelando-se uma agremiação eminentemente paulista e fundamentalmente "abecedista". A interpretação sugerida é a de que o resultado revelou terem a proposta e o discurso do PT um público certo, definido e restrito.

Em São Paulo, único estado em que a votação petista aproximou-se da casa dos 10°io, confirma-se a hipótese interpretativa. O eleitorado do partido cresce à medida que aumentam o grau de urbanização e a população economicamente ativa na indústria, havendo forte correlação positiva entre a primeira e as duas outras variáveis. Tanto isto é verdade que se concentraram no Estado de São Paulo 72% dos votos petistas, a nível nacional, para governador. E, dentro do estado, 76,3% dos votos do partido vieram da Região Administrativa n. 1, que abrange a Grande São Paulo e as cidades circunvizinhas a Campinas.

Foi, aliás, apenas nessa região que o Partido dos Trabalhadores superou os 15% de votos, ficando aquém dos 10% em todas as demais.

O segundo dos fatores explicativos da votação petista identificado por Meneguello é a organização partidária. Tal qual no caso da urbanização e da industrialização, há correlação positiva entre os votos conferidos ao PT e o grau de organização partidária local. Verifica-se, assim, um crescimento do eleitorado petista, na medida em que existam diretórios estruturados, núcleos em funcionamento, e na proporção direta do número de filiados e militantes.

Finalmente, combinando-se com as variáveis urbanização, industrialização e organização partidária, constata-se também a influência da proximidade geográfica em relação ao ABCD, justamente, aliás, onde o PT elegeu seu único prefeito paulista em 1982.

A análise dos resultados eleitorais na capital confirma o peso dos fatores organização partidária, PEA industrial, e proximidade do ABCD, acrescentando-se, ainda, outra variável explicativa.

Na cidade de São Paulo, a votação do PT é também determinada pelos níveis de pobreza: ela aumenta na periferia e nas regiões mais carentes. Desse modo, dividida a cidade em áreas sócio-econômicas homogêneas, verifica-se que o eleitorado petista cresce, desde 11,2% na região dos jardins, até 18,5 % na zona leste, acompanhando o aumento das carências sociais. É, aliás, justamente em distritos pobres, contíguos ao ABC, em que boa parte dos moradores trabalha na indústria, e onde é grande a presença de núcleos, militantes e filiados, que o PT atingiu as maiores votações por distrito, chegando a 32,1% na cidade satélite de Sta. Bárbara, em Itaquera.

Em conclusão à segunda parte de seu trabalho, Meneguello pondera que a singularidade da proposta petista ( apelo classista, vinculação ao sindicalismo industrial, tonalidade ideológica forte) constitui, ao mesmo tempo, o seu limite político-eleitoral; daí, sua votação ter permanecido restrita a uma fatia definida do eleitorado e daí, igualmente, a dificuldade para se apresentar como um partido de massas abrangente e fazer frente ao consolidado PMDB.

No posfácio, finalmente, Rachel procede a um balanço retrospectivo da atuação do PT, até o presente, dividindo o período 1979-89 em duas fases. Na primeira (até 1985) é limitado o reconhecimento e o alcance da proposta do Partido dos Trabalhadores. Seu apelo eleitoral é dirigido restritamente, pelo acentuado classismo, a certos segmentos das classes trabalhadoras e, em resposta, os votos são poucos e localizados.

A partir de 1985, contudo, o partido, decepcionado com o resultado de seu primeiro teste eleitoral, revê sua estratégia.

Ainda que com o custo político de atenuar a ênfase em seu conteúdo programático, passa a uma política de expansão de sua base social. Desde então, dirige sua fala também para amplas camadas de classe média ou mesmo para setores da pequena burguesia, por meio de um discurso descontraído e criativo que visa a unificação de amplos interesses.

Em conseqüência, amplia-se a capacidade eleitoral do partido. Em 1985, atinge a casa dos 20% dos votos em São Paulo, elege a prefeita de Fortaleza e melhora sensivelmente seu eleitorado nas capitais. Em 1986, confirma-se novamente o incremento eleitoral do partido, sugerindo-se o fato de que a proposta petista ultrapassa os limites a que anteriormente se circunscrevia. E em 1988, associada a descrença em relação à Nova República com a imagem coerente e persistentemente oposicionista do PT, firmar-se-ia o Partido dos Trabalhadores pelas vitórias em três capitais, importantes centros urbanos paulistas e 28 municípios, distribuídos em 12 estados diferentes do país. Segundo Meneguello, trata-se do passo definitivo para a consolidação do partido como uma. organização ampla de massas.

A novidade petista estaria implantada, por meio de um governo partidário e popular, fator decisivo para a construção de nossa democracia.

Dois reparos poderiam ser feitos em relação ao trabalho de Rachel. Em primeiro lugar, a pouca ênfase e a subestimação do papel desempenhado pelos grupos de esquerda na formação e, principalmente, no desenvolvimento ulterior do Partido dos Trabalhadores. Se é verdade que, no início, o partido constituiu-se, de fato, como uma agremiação dominada e moldada ao feitio dos sindicalistas, não é menos verdade que essa hegemonia, desde cedo, foi questionada, estando hoje o partido claramente dividido em duas metades.

De um lado, aqueles que defendem a construção de um de partido socialista e democrático, diferente dos partidos tradicionais de esquerda, e que buscam uma sociedade onde se superem as desigualdades sem prejuízo, porém, do valor fundamental da liberdade, o que o socialismo real cada vez mais demonstra ser necessário.

Do outro lado, e cada vez mais fortes no partido, os grupos e facções marxistas-leninistas a postularem as mesmas estratégias e princípios fundamentais e ortodoxos, seja para o partido, seja com relação ao socialismo, formulados por Lênin e os bolcheviques e consagrados na III Internacional.

Nesse sentido, é insuficiente designar o Partido dos Trabalhadores como uma agremiação de massas, conforme o Duverger de Os Partidos Políticos, cóntrastando-o ao partido de quadros: Seria talvez mais profícuo, baseando-se no mesmo Duverger, mas agora no Os Laranjais do Lago Balaton (1982 ), situar o Partido dos Trabalhadores perante a contraposição Partido Leninista - Partido - Social-Democrata. Em que medida o PT escapa; se é que o consegue, das duas possibilidades conhecidas para os partidos de esquerda?

A impressão, haja vista o processo (e a disputa) em meados de 1989, é a de que - entre outras razões, pela falta de um modelo alternativo claramente formulado e defendido - o PT permanece entre a cruz e a caldeirinha, ora namorando a tentação do partido de massas da social-democracia, ora retornando aos dogmas leninistas dos quais nunca se viu livre.

Em decorrência, o segundo reparo.

As conquistas petistas nas eleições municipais de 1988 não podem ser compreendidas como a consolidação do PT. Esta é, sem dúvida, uma possibilidade, mas a ida ao governo é mais um xeque e um desafio do que a certeza da vitória. Caberá agora ao PT dizer e confirmar a que veio, o que exigirá resolver a contradição estrutural que desde o início carrega. Trata-se de um partido de esquerda, novo, que incorpora a necessidade da democracia sem prejuízo do socialismo (e vice-versa), que saberá mostrar-se competente para governar e administrar, ou cairá na vala comum dos partidos tradicionais de esquerda e direita, antidemocráticos e incompetentes?

(*)Clóvis Bueno de Azevedo - IDESP.

Bibliografia

DUVERGER, Maurice. (1970), Os Partidos Políticos. Rio de Janeiro, Zahar.

__________________ (1982), Os Laranjais do Lago Balaton. Brasília, Ed. da UNB.