Introdução
A
pesquisa empírica que fundamenta este artigo se inscreve num projeto mais
amplo, cuja preocupação central é o estudo do trabalho feminino. Os
compromissos teóricos assumidos levaram esse objeto de estudo a lançar seus
tentáculos para várias direções.
O
estudo das determinações sociais fêz-se imprescindível, e por mais de uma
razão. Em primeiro lugar, porque o trabalho feminino, no enfoque que
escolhemos, sofre a dupla determinação de gênero e de classe social; sem nos
esquecermos de que no conceito de "gênero" já vem implícita a
retradução social da condição biologicamente dada. Em segundo lugar, porque
adotamos uma definição de comportamento que não se limita a uma relação de
dados observáveis, Isso não significa que o ponto de partida não esteja num
conjunto de dados observáveis (ou práticas) e tampouco que nosso objetivo
ultimo não seja explicá-los. Nossa opção recai sobre os tipos de definições de
comportamento que incluem as representações intrapsíquicas, de que ele é
resultante e a estruturação do conjunto de práticas e representações, que são
geradas a partir das experiências de vida, das relações entre o indivíduo e o
ambiente, segundo os mecanismos mentais típicos do ser humano.
A
ênfase na organização intrapsíquica poderia levar à postulação do problema do
comportamento humano em termos estritamente individuais. Entretanto, se
utilizarmos o conceito de "ambiente" de uma forma menos vaga, podemos
defini-lo como o conjunto de condições objetivas de existência de cada agente.
Numa sociedade estratificada como a nossa, sabemos que tais condições são
comuns a grupos relativamente amplos de indivíduos, em outras palavras, a
classes sociais ou frações de classe. As condições objetivas são internalizadas
pelos indivíduos e, através do comportamento, voltam a se fazer extérioridade.
Certas formas de estruturação dos conteúdos internalizados são geradas a partir
da vivência, historicamente dada dentro de cada grupo social, das mesmas
condições objetivas de existência e "podemos ver nos sistemas de
disposições individuais variantes estruturais de habitus de grupo ou de classe" (Bourdieu, 1972).
Conseqüentemente,
trata-se, antes de mais nada, de proceder ao exame dos nexos existentes entre
as determinações objetivas - materiais e culturais - e o sistema de disposições
duráveis e de representações de que os agentes sociais são dotados, tanto ao
nível consciente como inconsciente. Tarefa que só é possível a partir da
análise concreta de uma categoria social.
O
projeto mais amplo que mencionamos dividiu-se em três estudos, incidindo cada
um deles sobre um segmento sócio-profissional. Esse recorte prende-se à
hipótese básica segundo a qual as experiências de vida comuns e as
determinações específicas derivam-se da posição institucional singular que
afeta os ocupantes de um determinado espaço social. O primeiro grupo a ser
estudado foi o dos operários industriais (Rodrigues, 1978a); em seguida, os
mesmos instrumentos de análise foram utilizados na pesquisa sobre funcionários
públicos, cujo trabalho de campo foi realizado em 1977 (Rodrigues, 1978b, 1980
e 1988). Posteriormente, ocupamo-nos de um grupo de motoristas de táxi
(Rodrigues, 1981). O presente artigo se propõe apresentar o estudo de um dos
subgrupos encontrados entre os funcionários públicos.
O
segmento sócio-profissional apresenta, a nosso ver, a vantagem de reunir as
determinações decorrentes de um tipo de inserção na força de trabalho e as de
classe social. Ademais, os três grupos estudados se incluem naquilo que se
costuma denominar genericamente de "classes baixas". A hipótese de
que uma grande heterogeneidade é encontrável nas categorias sociais mais amplas
que aparecem nas pesquisas quantitativas levou-nos a buscar esses segmentos
menores, aproveitando-nos das condições favoráveis que nos oferecia o estudo
qualitativo. Em cada um dos segmentos, escolhemos agentes situados dentro de
uma determinada faixa de renda (de um a cinco salários mínimos). Tal variação
não constituiu um critério apriorístico, ruas foi a encontrada no primeiro
segmento estudado, o dos operários. A partir daí, foi utilizada nas pesquisas
subseqüentes.
Outra
ordem de desdobramentos é a gerada a partir do conceito de trabalho. Não cabe
nos limites deste artigo a discussão acerca do trabalho produtivo e improdutivo
e as contribuições trazidas
pelos estudos sobre trabalho feminino. Indicamos apenas que incluímos o
trabalho doméstico na categoria "trabalho". Entrevistamos, portanto,
também esposas de funcionários públicos; tal inclusão prende-se também ao fato
de estarmos referidos, a partir dos marcos teóricos adotados, a todo um
segmento social, e não apenas àqueles indivíduos que, dentro dele, se ocupam de
um determinado trabalho profissional.
Cabe
por último explicar a inclusão de homens em pesquisas basicamente preocupadas
com o trabalho feminino. Acreditamos que não seria possível apreender as
disposições diferenciais por sexo sem usar, para ambos; o mesmo crivo teórico e
os mesmos procedimentos metodológicos.
Algumas Informações sobre a
Amostra
E
talvez impróprio denominar o conjunto dos casos estudados de
"amostra": 22 funcionários públicos escolhidos pela faixa de renda. O
grupo inclui funcionários homens e mulheres e esposas de funcionários sem
atividade remunerada fora do lar. A região coberta pela pesquisa é o município
de São Paulo. Embora sem nenhuma pretensão à representatividade, tentamos
diversificar os bairros de moradia e a faixa etária dos entrevistados, além da
preocupação de escolher a metade dos casos entre mulheres e de distribuir
equitativamente os indivíduos entre as subcategorias de renda.
O
critério utilizado (renda) conduziu-nos a um conjunto muito heterogêneo de
pessoas. Não só constavam da amostra funcionários federais, estaduais e
municipais, além dos alocados em autarquias e empresas mistas, como encontramos
grande variação na atividade profissional exercida. O próprio vínculo
empregatício compreendia o regime de funcionalismo público estatutário e os
contratados pela CLT, que hoje atinge uma grande parcela de funcionários.
A
análise do material empírico mostrou a existência de quatro grupos distintos no
conjunto das pessoas entrevistadas:
a) o primeiro grupo
constitui-se de funcionarios que executam tarefas manuais, em cargos pouco
valorizados, de longas e duras jornadas, muito semelhantes ao emprego
industrial. Sua origem (migrantes das zonas rurais do Norte e Nordeste), seu
grau de escolaridade e religião (conversões maciças ao pentecostalismo), suas
estratégias de sobrevivência e visão de mundo não os diferenciam muito dos
operários não-qualificados estudados anteriormente (Rodrigues, 1978 );
b) ainda em tarefas
manuais e semi-manuais (serventes, atendentes, zeladores), encontramos um conjunto
de funcionários que trabalham em instituições de saúde e de ensino. Sua origem
e trajetória social não se distinguem das do primeiro grupo, mas apresentam um
padrão de práticas e aspirações que
representa um ponto de inflexão importante. Talvez pelo contato com o público,
pela proximidade em relação aos escalões mais altos e pelo tipo de serviço que
a instituição presta, acreditam que, se todos os "pobres" se
aproximassem, como eles fizeram, de agentes, idéias e instituições "elevadas",
fizessem por receber seus favores e pusessem em prática os conselhos e
conceitos "científicos", estariam salvos. Trata-se de agentes que
ocupam cargos de representação, que exibem uma disposição para internalizar os
valores dos estratos mais altos, em substituição aos padrões
"selvagens" que adquiriram na sua primeira educação e que
reencontram, freqüentemente, no público que atendem. É nítida "a crença no
valor da educação como instrumento de ascensão social, como meio de curar os
males sociais, de produzir felicidade e tornar a humanidade mais sábia, mais
rica e mais piedosa" ( Bourdieu, 1966 );
c) o terceiro grupo
compõe-se de pessoas que ocupam cargos administrativos que exigem uma certa
escolaridade e alguma qualificação, obtida algumas vezes nos níveis médios da educação
formal, outras vezes fora dessa rede (datilografia, por exemplo). Embora um
pouco superiores, seus salários não se diferenciam muito dos dois primeiros
grupos; entretanto, sua origem, trajetória social, estratégia de sobrevivência
e visão de mundo compõem um quadro característico, mais próximo do das classes
médias, com as quais se identificam. Incluem-se nesse grupo contadores,
datilógrafos, escriturários etc. Sua tarefa é eminentemente burocrática. Do
total de 22 casos, seis pertencem a esse grupo, que é objeto deste artigo.
Acompanhamos mais de perto três dos casos: Nair, Tadeu e Ana;
d ) os componentes do quarto grupo desempenham tarefas mais técnicas e
intelectualizadas. Incluem-se nele enfermeiras e professoras primárias. De um
modo geral, identificam-se muito com seu grupo profissional. Estão abertas,
para eles, alternativas fora do serviço público, e as evasões proliferam nos
últimos anos. Tendem a um comportamento mais reivindicativo em relação ao
Estado e a fundamentar suas queixas no fato de terem um diploma e executarem
tarefas importantes para a sociedade.
Questões Metodológicas
O
tipo de material que pretendíamos encontrar afastava, desde logo, qualquer
possibilidade de utilização das técnicas quantitativas disponíveis. Era imperativo
optar por uma investigação qualitativa, em profundidade, com a utilização de
instrumentos mais ricos e menos rígidos, que nos permitissem "tentar medir
aquilo que merece ser conhecido" ao invés de "não considerar digno de
ser conhecido aquilo que não pode ser medido" ( Bourdieu, Darbel, Rivet e
Leibel, 1963).
Mas
esse é um caminho sobre o qual se conhece muito pouco. Enquanto as regras do
procedimento quantitativo foram estipuladas em todos os seus detalhes, as
técnicas de entrevistas abertas ou guiadas por roteiro são deixadas por conta
do "talento" do pesquisador. A palavra mágica "empatia"
parece condensar, sem tocá-las, todas as implicações inerentes ao problema. Os
fatores "irracionais" são apresentados como algo que existe, mas não
pode ser apreendido pela razão.
Por
outro lado, a teoria psicanalítica desenvolveu numerosas hipóteses acerca da
situação dual e da possibilidade de captação dos significados mais profundos e
encobertos da verbalização, utilizando suas conclusões na sistematização de
procedimentos que, no conjunto, se incluem no conceito de setting analítico. Mas os psicanalistas tendem a não
aceitar a viabilidade de reproduzir esses procedimentos fora do contexto
analítico.
O
fato de estarmos lidando com uma investigação descomprometida em relação aos
rigores da pesquisa quantitativa pareceu-nos altamente propício para refletir
sobre essas questões e decidimos explorar, ao invés de afastar, as dúvidas que
surgiam.
Levar
o entrevistado a produzir um dis curso livre, com um mínimo de intervenção
possível por parte do entrevistador, parecia ser a melhor via de obter um
material passível do tipo de análise que pretendíamos fazer. Mas para tanto
devíamos lidar com as pressões objetivas presentes na situação de entrevista.
De fato, essa consiste num relacionamento transitório no qual se trata de
captar a lógica e o princípio de estruturação das práticas e representações do
agente, incluindo as dimensões inconscientes no entrevistado e dentro de um
universo que não pode ser recuperado a partir da lógica (em grande parte não
consciente) do habitus de
classe do entrevistador. A produção de um discurso livre, que possa seguir a
trilha das determinações internas, requer um campo relativamente neutro, onde
não estejam presentes situações objetivamente ansiogênicas: Do ponto de vista
do entrevistados, a postura desejável afasta alternativas onde a hipocrisia e
mentiras contadas ao interlocutor possam provocar um bloqueio emocional. Num
segunda momento da entrevista, o levantamento de dados objetivos sobre a
história de vida do entrevistado permite a intervenção (perguntas) do
entrevistados e afrouxa a exigência de neutralidade. Evidentemente, o material
produzido durante o "discurso livre" e aquele que vem como resposta
às perguntas não podem ser tratados da mesma maneira na análise.
Os
primeiros passos do trabalho de campo indicaram as principais ansiedades da
equipe e dos entrevistados (quanto à equipe, o problema crucial era o
da culpabilidade). O que iríamos dar em troca ao grupo estudado? Nos
entrevistados, apareciam principalmente fantasias persecutórias (quais são as
"verdadeiras" intenções do entrevistados?) e depressivas ("não
estou à altura de desempenhar a tarefa intelectual que me é solicitada por uma
pessoa tão legítima, que além de pertencer a uma classe economicamente superior
à minha, detém os trunfos do capital simbólico").
Apresentamos,
a seguir, os procedimentos metodológicos adotados, explicitando, a cada passo,
de que maneira o duplo objetivo de obter um determinado tipo de material e de
lidar com as ansiedades presentes no entrevistados e no entrevistado foi
buscado:
a) O levantamento
domiciliar
A
localização das unidades amostrais se dá através de uma procura nos domicílios:
utilizando alguma informação geral sobre a distribuição dos diversos grupos
sócio-econômicos dentro do município, um entrevistador bate à porta de uma
residência, perguntando quantas pessoas moram, nome de cada um, sexo, idade e
ocupação: Pede ainda a informação sobre o tipo de relação que os habitantes
mantêm entre si. A partir de um grande número dessas fichas domiciliares, é
feita a escolha dos casos. No caso dos funcionários públicos, esta etapa
demandou muito trabalho, em primeiro lugar por sé tratar de uma categoria muito
dispersa geograficamente, em segundo lugar porque essa fase teve de ser
repetida algumas vezes, em vista do grande número de recusas em conceder a
entrevista. No total, foram visitadas 349 residências e localizados 75
funcionários públicos.
b) A abordagem
Escolhido
um caso (dentro dos critérios de diversificação já mencionados), o
entrevistados apresenta-se novamente à residência, faz alusão à primeira
visita, esclarecendo que deseja. falar com uma detérminada pessoa (cujo nome já
conhece), pois essa foi escolhida para uma entrevista mais longa, para a mesma
pesquisa já mencionada no levantamento domiciliar. No diálogo com a pessoa procurada, esclarece que
sua visita será longa (cerca de duas horas). Geralmente marca-se um novo encontro,
no qual o entrevistado possa dispor de todo esse tempo.
A
maneira de chegar ao agente pareceu-nos muito importante, tanto para a equipe
cosmo para os entrevistados. Do ponto de vista do entrevistados, todo o trabalho de gabinete que antecede o de campo intensifica as fantasias
de culpa, uma vez que se constitui, geralmente, de técnicas (ou táticas) a
respeito das quais os entrevistados não têm a menor idéia. Do ponto de vista do
entrevistado, essa abordagem aplaca as fantasias paranóides ("por que eu?",
"como me localizou?", "quem te mandou aqui?") uma vez que o
entrevistado conhece o que deu origem à
sua localização. A informação sobre o tempo de duração da entrevista prepara o
entrevistado para um contato relativamente longo, para o qual se prepara para
falar muito. O tempo corresponde à realidade, evitando-se assim os
"malabarismos" que se fazem, às vezes, para "arrancar" uma
entrevista, levando-se o entrevistado a crer que demandará alguns minutos. A
impaciência e irritação que isso gera no entrevistado, e a culpa do
entrevistador, seriam grandemente lesivos ao material obtido.
c) O discurso livre
O
entrevistador inicia o encontro referindo-se novamente ao levantamento domiciliar e à escolha posterior (que diz, ser produto
de um sorteio), e solicita a colaboração do entrevistado para uma pesquisa.
Pede licença para gravar, liga o gravador e diz: "Eu e mais pessoas
estamos fazendo um estudo para saber como é a vida das pessoas. Nós vamos falar
com muita gente; reunir tudo o que elas nos contarem, analisar as coisas, para
escrever um livro sobre cómo vivem as pessoas, o que elas sentem, o que elas
pensam, o que elas acham... Não um livro como muitos que existem, mas um que
fale da vida mesmo, das coisas como são mesmo. Vamos falar com muita gente, se
o (a) Sr: (a) preferir, não precisa dizer o seu nome inteiro: o (a) Sr. (a) vai
ser apenas uma voz no gravador, vamos juntar o que o (a) Sr. (a) vai dizer com
aquilo que todo mundo vai dizer. Por isso eu gostaria que o (a) Sr. (a) falasse
de si mesmo (a). Pode falar o que o (a) Sr (a) quiser. O que acha; o que sente,
o que pensa... Tudo o que o (a) Sr. (a) nos contar interessa para nós."
Podemos
observar, nessa fala, como inúmeras questões estão em jogo. As razões pelas
quais a entrevista está sendo realizada, expostas ao entrevistado, correspondem
à realidade. Decidimos colocar o entrevistador numa atitude honesta em relação
ao entrevistado, estendendo para todas as táticas e mentiras as considerações
de Elizabeth Bott acerca da técnica do "entrevistador dissimulado, que
poderia produzir dados muito ricos, mas, por outro lado (...) dá
ao pesquisador de campo agudos sentimentos de culpa por estar sendo aceito como
um amigo genuíno, quando na realidade tem um propósito secreto
dissimulado" (Bott, 1964). A única "mentira refere-se ao sorteio,
porque preferimos não mencionar
que nosso interesse pelo entrevistado residia no fato de ele ser um funcionário
público (o mesmo foi feito com as outras categorias sócio-profissionais
estudadas); acreditamos que o discurso tomaria um determinado rumo e não nos
permitiria perceber onde a pessoa coloca, no conjunto dos dados de sua vida, a
atividade profissional.
O
entrevistador refere-se às outras pessoas da equipe porque, de fato, elas
existem, e o próprio entrevistado provavelmente já viu ou soube de outra, já
que nem sempre foi possível alocar o mesmo entrevistador para o levantamento domiciliar e a entrevista. A
referência às outras pessoas que serão entrevistadas não só corresponde à
verdade, como também assegura ao agente uma situação de anonimato que tende a
diminuir suas fantasias paranóides. Ao esclarecer que não é necessário dizer o
nome completo, o entrevistador está igualmente lidando com essas fantasias.
Explicar ao entrevistado que vamos "juntar" o que todos irão dizer
diminui sua responsabilidade pessoal e, ao mesmo tempo, toca na outra
ansiedade, que é a de ser capaz de produzir algo digno de figurar num livro;
todas as considerações sobre "a vida como ela é'' e as referências de que
estamos interessados não só por grandes feitos biográficos, mas também por
aquilo que as pessoas sentem, acham e pensam, referem-se mais especialmente às
fantasias depressivas diante da legitimidade do entrevistador e do empreendimento (escrever um livro).
O
entrevistador, depois da fala inicial, não deve fazer novas intervenções ou
introduzir palavras não utilizadas pelo entrevistado. Se necessário, repete
algum trecho da fala inicial, ou pede ao entrevistado que fale mais.
É
comum entre os cientistas sociais, a idéia de que as pessoas não falam
extensivamente sobre assuntos privados para alguém que lhes bateu à porta.
Nossa experiência tende a indicar o contrário. Uma vez convencidos de que não
se trata de um assalto, de alguma perseguição ou de venda de livros, os
indivíduos tendem a "se abrir". Acreditamos que, uma vez iniciado o
discurso autobiográfico, surge no indivíduo a necessidade de
"arrumar", "fechar" os dados que lhe são tão
significativos. Pensamos mesmo que a intermediação de alguma pessoa ou
instituição "de confiança" complicaria o relacionamento, devido às
fantasias suscitadas por esse "complô" anterior e as que se referem a
um possível retorno de informações depois da entrevista.
O
material do "discurso livre" é tratado na análise de uma forma
especial: os dados "objetivos" não interessam; a seqüência dos
assuntos, a fornia de o indivíduo relacionar-se com o entrevistador e com
as coisas de que está falando, as
categorias de percepção e de raciocínio que utiliza, a ordem dos temas, o tempo
e a importância atribuídos a cada item, os conteúdos inconscientes capturáveis
pelos silêncios, atos falhos, tom de voz, associação de idéias, é o que
importa.
d) O questionário
Uma
vez esgotado o discurso espontâneo, aplicamos um questionário onde os dados
objetivos da biografia do entrevistado são levantados. Tentamos recuperar um
pouco a história do grupo, iniciando com perguntas sobre os avós. Trata-se de
uma história de vida bastante detalhada, que inclui a trajetória de irmãos,
cônjuges e filhos. Só atribuímos o estatuto de "condições objetivas às
informações obtidas através deste instrumento.
e ) O relatório de
recusa
Enquanto
na pesquisa entre operários deparamo-nos com apenas duas recusas, entre os
funcionários públicos esses casos atingiram um grande número. Decidimos introduzir
nesta pesquisa o “relatório de recusa”, que consiste no registro, reconstituído
de memória (uma vez que nem se chega ao momento de ligar o gravador), dos fatos
e diálogos ocorridos por ocasião da abordagem. As razões alegadas pelo agente
e, principalmente, a maneira pela qual ele se esquivou da entrevista forneceram
dados interessantes para a análise.
O Emprego Público
Emprego
altamente desejado no passado, o serviço público sofreu uma grande decadência
em termos de prestígio, salário real e vantagens. Esse declínio gradual,
iniciado há muito tempo, foi mais marcante nas últimas décadas. Até cerca de 30
anos atrás, o vínculo empregatício com o Estado, regido pelo Estatuto do
Funcionário Público, caracterizava-se por uma série de prerrogativas que faziam
do funcionário públi co um privilegiado, principalmente no que se refere à
estabilidade no emprego e ao montante da aposentadoria e da pensão para a
família em caso de morte (1).
O
ingresso no serviço geralmente se dava através de nomeações. Assim, é fácil de
imaginar, depois de algum tempo, o emperramento da máquina administrativa e o
peso de sua folha de pagamentos como conseqüência da hiperlotação gerada pelo
clientelismo político. Tais problemas resultaram em medidas que visaram uma
diminuição do quadro de funcionários regidos pelo Estatuto e a perda de muitos
dos privilégios dos estatutários.
Atualmente,
os cargos administrativos de baixo escalão são ocupados por jovens que
pretendem permanecer neles apenas enquanto estudam, atraídos pela tarefa mais
leve e pela possibilidade de optarem por jornadas de trabalho mais curtas, se
comparadas às do setor privado, e por antigos funcionários que puderam
permanecer adaptando-se aos baixos salários e às outras perdas (vantagens,
status) que tiveram de sofrer. Os três casos que escolhemos para estudar neste
artigo e os demais componentes do subgrupo de funcionários alotados em tarefas
administrativas incluem-se nos dois tipos de perfil descritos acima.
Ocupantes dos Cargos Administrativos
a) Origem
Os
funcionários públicos alocádos em tarefas administrativas, que constituem em
nossa pesquisa uma subamostra de seis casos, são nascidos na Capital ( cidade
de São Paulo) ou em alguma outra cidade do interior do Estado de São Paulo. Na
geração dos pais, é maior o número dos nascidos no interior e, em apenas um
caso, encontramos um imigrante estrangeiro (pai calabrês). Entre os avós, há um
filho de italianos, dois portugueses e dois migrantes de outros estados do
Centro-Sul. Considerando que São Paulo é a cidade onde se instalou uma enorme
população vinda dos estados do Norte e do Nordeste do país, e que teve a
preferência da imigração estrangeira de diversas partes do. mundo, e lembrando
que o grau de miscigenação da população é bastante :elevado em função desses
fatores, os funcionários aqui estudados constituem um grupo razoavelmente
"brasileiro", “paulista”, "puro".
b) Trajetória
individual
Com
exceção de um caso, o emprego atual é o primeiro e único em
toda a vida. Os mais velhos foram nomeados por política e os outros prestaram
concurso; neste último caso, foram informados sobre a prova, sem exceção, por
algum parente ou amigo que trabalhava na mesma repartição.
Os
mais velhos apresentam uma escolaridade baixa (antigo curso primário, que
equivale a quatro ou cinco anos de escola)-, enquanto os mais jovens chegaram
até o colegial (11 a 12 anos de escolaridade). Não nos forneceram informaçõeã
muito precisas sobre o tipo de tarefa que desempenham. Declarar "sou
funcionário público" parece ser considerado suficiente, não só pelo
próprio funcionário; como pelas outras pessoas que algumas vezes nos deram as
informações durante o levantamento domiciliar. Alguns funcionários acrescentam
a instituição na qual trabalham. A pessoa que mais especificou sua tarefa disse:
"Eu mexo com Imposto de Renda".
Embora
se trate de um número muito pequeno de casos, as regularidades encontradas
dentro do grupo e a continuidade que certos traços apresentam em relação aos
outros subgrupos permitem sugerir algumas hipóteses sobre o segmento
sócio-profissional (funcionários públicos de baixo escalão alotados em tarefas
administrativas) como um todo. Os três casos escolhidos foram selecionados
pelas semelhanças que encontramos em seus discursos e pelo fato de serem todos
filhos de funcionários públicos (nos três casos, o pai era funcionário público
e a mãe não possuía ocupação remunerada fora do lar). Em conseqüência disso,
muito provavelmente os traços comuns refletem alguma cristalização, já
possível, de uma resposta única às condições objetivas de existência, traduzida
no conjunto de práticas e representações que balizam as experiências de vida
desses agentes. Os trechos de "discursos livres" que apresentaremos
ao longo deste trabalho foram retirados das entrevistas feitas com esses três
casos.
c ) O relacionamento
com os entrevistadores
Ao
iniciarmos o trabalho de campo, deparamo-nos com algumas dificuldades. Os
primeiros 30 casos localizados pelo levantamento domiciliar recusaram-se a
conceder a entrevista. Os relatórios de recusa revelam dois tipos de reação: No
primeiro, não existe uma negativa clana, inequívoca. As respostas são sempre
evasivas, e a pessoa escolhida, ou alguém que a representa, sugere um encontro
para outro dia. O entrevistador volta, e tudo recomeça. Ao final de inúmeros
retornos (há casos de seis tentativas), ocorre alguma coisa que confirma as
suspeitas do entrevistador de que os "acidentes" anteriores não se
deveram ao acaso, mas constituíram material para encobrir uma recusa, o que
leva o entrevistador a desistir do caso.
Ao
nível da verbalização, encontramos todos os sinais da boa-vontade e da
boa-educação. As pessoas pedem desculpas, explicam por que não podem atender ao
pedido naquele momento e parecem empenhadas em encontrar uma solução. Chegam
até a oferecer mais do que aquilo que lhes é solicitado, como o caso do
funcionário que propôs, na terceira vez em que era procurado, ir à casa do
entrevistador.
O
segundo tipo de reação que encontramos foi o retraimento e a desconfiança,
cujos sinais apareciam desde o momento em que batíamos à porta. Ao simples
toque da campainha, era possível perceber uma grande movimentação dentro da
casa. Geralmente, uma boa conversa tinha que ser travada entre o entrevistador
e algum dos moradores antes que a porta se abrisse. Muito freqüentemente,
alguém tomava para si a tarefa de lidar com o "problema"; afastando
os demais com uma atitude protetora. A "invasão da intimidade"
(Velho, 1977) é a grande ameaça.
Todas
essas considerações referem-se forçosamente ao grupo de funcionários como um
todo e não só àqueles que estamos focalizando neste trabalho, uma vez que
decorrem da análise dos relatórios de recusa e, nesses casos, não levantamos os
dados sobre a ocupação específica da pessoa procurada. Entretanto, podemos
sugerir a hipótese de que o primeiro tipo de recusa é criais típica dos
funcionários ligados às tarefas administrativas, baseando-nos na maneira pela
qual se relacionaram com o entrevistados os casos dessa categoria que chegamos
a entrevistar.
De
um modo geral, esses agentes apresentam uma reação altamente ambígua, que lhes
dificulta muito uma tomada de decisão. Parece cla ra uma incapacidade de
discriminação, diante de alguma situação nova. Nas negociações que precederam a
entrevista, assim como no relacionamento entrevistados-entrevistado que se
seguiu, podemos compreender algo sobre as estratégias de vida que utilizam
correntemente.
Os
efeitos da posição intermediária que ocupam no espaço social, os pólos de
identificação social com os quais lidam, os rituais de encobrimento, o apego à
dimensão simbólica, a tática de fugir ao sofrimento por meio de um savoir
faire que consiste em tentar obter pequenas vantagens nas situações
vividas, são as dimensões que estão em jogo, tanto nos contatos que mantiveram
conosco como no material produzido no discurso livre.
Seria
interessante reproduzir aqui fragmentos de algumas situações concretas.
Comecemos por Nair: escrituraria, 42 anos, desquitada, vivendo em segunda união
livre, sem filhos.
A
entrevista, da qual transcrevemos a seguir alguns trechos, foi realizada no
apartamento de Nair, um imóvel de sala, cozinha, banheiro e dois quartos, numa
das principais ruas de um bairro muito antigo. Quando a entrevistadora chegou
ao apartamento, Nair estava na cozinha. Depois da apresentação e da solicitação
de entrevista, Nair prontificou-se a atender, pedindo desculpas por estar
fazendo café. A entrevista começa:
No
sábado seguinte, na hora combinada, a entrevistadora voltou e foi a própria
Nair quem abriu a porta, dizendo em seguida: "Sabe, menina, eu hoje estou
muito ocupada, e tenho muita coisa para fazer." Foi marcado um novo
encontro para o sábado subseqüente.
Neste
caso, toda a ambigüidade e o movimento pendular entre aceitar ou não a proposta
ocorreram dentro da própria entrevista. Assim como aconteceu nos casos de
recusa, essa agente não consegue decidir entre uma atitude e outra, e acaba
postergando a questão, propondo um novo encontro para outro dia. A
interferência do marido teve grande influência sobre a disposição de falar de
Nair. Entretanto, como vimos, logo depois de ter se furtado a continuar falando
e de ter adiado a conversa para outro dia, Nair iniciou uma longa fala sobre a
colega suicida, queixando-se do governo, apesar de ter sido advertida
justamente sobre isso por ele "homens aí" são os que governam, os que
mandam).
Os
contatos com Tadeu, 30 anos, solteiro, que mora na casa da irmã, começaram num
sábado; e ficou marcada uma entrevista para o sábado seguinte. Durante o
encontro; Tadeu falou um pouco, pediu para ouvir a gravação, desligou o
gravador "de brincadeira" em um momento em que a entrevistadora pedia
para que falasse mais, voltou a discorrer sobre si mesmo durante alguns minutos
e, em seguida, disse que tinha que se vestir porque alguns amigos iam passar
para apanhá-lo ao meio dia. (Ele mesmo, depois de informado, na semana
anterior, de que a entrevista seria longa, havia marcado a visita para as
11h30).
Ana,
esposa de funcionário público, falou o tempo todo tomando todos os cuidados
paira que a mãe não a ouvisse; mas, quando quis dar a entrevista por encerrada,
alegou que não podia falar mais por causa da mãe.
Entre
os funcionários, parece haver grande dificuldade por parte dos indivíduos em
definir a entrevista como algo que pode ou não trazer-lhes algum benefício ou,
ao contrário, acarretar algum dano. Assim, a impossibilidade de concluir uma
avaliação e o medo de tomar qualquer tipo de decisão da qual possam se
arrepender leva a infindáveis negociações com o entrevistador. O comportamento
parecia refletir a ambigüidade interna, constituía-se de ações que significavam
consentir e não consentir ao mesmo tempo. Evidentemente, no transcorrer das
negociações, o entrevistado estava, de algum modo, aumentando suas informações
sobre a situação com que se defrontava. Mas os dados nunca logravam chegar a
ser suficientes.
Outro
aspecto que nos chama a atenção é a prioridade da atuação sobre a verbalização.
N. - Pode sentar, eu estou
fazendo café; é que a gente ácabou de jantar agora. Sobre o que você queria
saber? Custo de vida, política?...
ENTREVISTADORA - A Sra. pode
falar sobre o que quiser...
N. - Eu sou funciónária pública
... trabalho na Secretaria ... (ininteligível). Tenho esta casa que você está
vendo; tenho meu marido e subalugo um quarto para duas psicólogas para poder
viver, né? Porque o salário meu é pouco e o do meu marido também . . . Então
meu marido trábalha numa firma em Santo
Amaro. Ganha mais ou menos, quer dizer, dá para cobrir as despesas da família,
né? Mas junto com o meu ordenado
também. E ... é essa vidinha do dia-a-dia, trabalhando .... esticando dinheiro
para dar para o aluguel, fazer feira, condução ... só isso ... Tem muita coisa,
se a gente for falar... se não...
ENTREVISTADORA - Ah! Mas vá
falando, está muito bom.
N. - Esperando o aumento do
governo que não vem... que estão estudando e esse estudo não termina nunca...
Mas quanto ao resto, tudo bem.
ENTREVISTADORA - Tudo bem ...
N. - Está. Só o custo de vida que
eu acho assim muito difícil, sabe? Cada dia você vai ao supermercado, num dia a
mercadoria está num preço, no outro dia é outro, então parece que não dá mesmo
... Por mais que ganhe ... está sempre em débito com alguma coisa.
(F. entra na cozinha, N. se dirige
a ele: - Ela está perguntando sobre a nossa vida, o que a gente ganha, quanto
gasta ... )
F. - A vida é boa de ser vivida,
desde que a gente tenha com o que viver (risadas). Porque viver na dureza não é
mole. (Dirigindo-se à entrevistadora: - Você é da Universidade?)
ENTREVISTADORA - Sou.
F. - Faculdade de Comunicações?
ENTREVISTADORA - Não. Ciências
Sociais.
F. - Ciências Sociais . . . Da
Universidade de São Paulo?
ENTREVISTADORA - Não, da P UC.
N. (intervindo) - Então é ... vai
ver que é rica.
ENTREVISTADORA - É nada.
N. - É, quem estuda lá não é
pobre. E você trabalha fora?
ENTREVISTADORA - Sim.
N. - É, mas você deve ter uma
mesada dos seus pais, né?
ENTREVISTADORA - Eu não.
N. - Não? Para sustentar a PUC
precisa ser rica.
F. (dirigindo-se a N.) - Pois é,
querida, fale bastante; desde que não fira os princípios da política . . . para
não se comprometer, não é? Hoje em dia, a gente tem que dizer: não sou contra
nem a favor, muito pelo contrário. É a posição de muita gente, infelizmente,
não é?
ENTREVISTADORA - É...
F. - Se bem que a gente gostaria
de tomar uma posição... (dirigindo-se a N.) - Pode falar, desde que não fira os
homens aí, né? (ri e pede licença para se retirar).
N. - Ah, mas eu não tenho mesmo
muito o que falar, não.
ENTREVISTADORA - Tem sim, dona
N., o que é isso?
N. - Eu acho que em relação a
muita gente, eu vivo bem. É sim. Não dá nem para se queixar muito... Arroz e
feijâo tem todos os dias (risadas). Isso eu tenho certeza que não falta. Tem
muita gente por aí que nem isso tem, né?
ENTREVISTADORA - É...
N. - Tem gente que no dia que
come feijão não come arroz. Sou uma privilegiada da sorte. (Fala enquanto mexe
as pícaras de café) . Olha, eu te aconselho . . . para eu poder conversar com
voce eu precisava estar assim no meu dia, num dia que eu não tivesse muito o
que fazer; que eu estivesse mais tranqüila; porque assim eu podia conversar
melhor com você. Porque sabe, esta hora, hora de janta...
ENTREVISTADORA - Certo.
N. - Meu marido trabalha à noite,
está para sair, sabe? Então isso atrapalha um pouco.
ENTREVISTADORA - Certo. A senhora
prefere que eu venha outro dia?
N. - Ah, sim. Vocë marca um. . .
o dia melhor é sábado, porque eu não trabalho no fim de semana... E o sábado é
um dia que a gente pode bater aquele papo, assim, tranqüilo . . . Porque agora
é uma hora meio ruim, não é?
ENTREVISTADORA - Hum ... sábado à
tarde, assim, está bom?
N. - Está ótimo, de tarde.
ENTREVISTADORA - Lá pelas três,
assim, tudo bem?
N. - É . . . três . ..
ENTREVISTADORA - Está bem éntão.
N. - Está OK?
ENTREVISTADORA - Tudo bem. N. -
Mas o que eu falei, aí, falei um bocado de bobagem, porque não é verdade, não é
tudo isso. Tem muita coisa . . . É, porque se for analisar bem como é que está
a situação não é nada disso. Mas o que vocês vão fazer? Vão fazer um livro?
ENTREVISTADORA - É, um livro.
Contando assim como é a vida das pessoas...
N. - Ah! É interessante. Você
sabe o que é...
ENTREVISTADORA - Porque a gente
vai falar com muita gente .. ..
N. - Mas vai ser publicado
esselivro?
ENTREVISTADORA - Vai. Mais tarde
vai ser publicado.
N. - É para estudos sociais, né?
ENTREVISTADORA - É. É um estudo.
Um grupo de estudantes e professores está fazendo este trabalho.
N. - Mas vocês estão visitando
todas as classes sociais, ou...
ENTREVISTADORA (repetindo o que já explicara ao solicitar a entrevista) - Olha, a
gente está fazendo vários bairros, várias ruas, né? E tentando pegar o maior
número possível de pessoas. Inclusive a senhora foi escolhida. Eu já tinha
vindo aqui e tinha feito um levantamento e tinha falado . . . acho que com a S.
N. - É, com a S.
ENTREVISTADORA - Depois a gente
fez um sorteio, porque a gente vai falar com muita gente, mas não dá para falar
com todo mundo, né?
N. – É ... é um negócio assim muito... é meio arriscado
falar assim com as pessoas que não conhece direito...
ENTREVISTADORA - Não, mas a
senhora pode ficar sossegada quanto a isso, porque o nome não sai, porque a
gente vai falar com muita gente, então colocar o nome, endereço, etc.,- essas
-coisas não interessam, porque a gente vai pegar assim o que é comum, sabe, na
vida dessas pessoas... Sabe, então quanto a isso a senhora não se preocupe, não
precisa dizer seu nome inteiro, nada disso, não tem problema...
N. - É, mas o melhor dia mesmo
seria no sábado, porque eu estou mais tranqüila... Sem os problemas de
despachar o marido para o trabalho e ter que pensar que eu tenho que preparar
muita coisa ainda para amanhã, sabe?
ENTREVISTADORA - Certo.
N. - Então eu acho assim que o
bom mesmo seria sábado.
ENTREVISTADORA - Tudo bem, então.
N. - E no sábado a gente pode
entrar num entendimento assim e conversar muito, falar muito sobre muita coisa
.... Tome um cafezinho.
ENTREVISTADORA - Obrigada.
N. - Mas você sabe, menina, que a
vida atualmente está tão difícil, tão difícil, que a gente não sabe mais nem o
que fazer, né? O custo de vida muito, muito difícil. Subiu demais. Eu acho que,
eu acho mesmo que o governo devia tomar uma providência... congelar os preços
dos gêneros de primeira necessidade,que tem gente morrendo de fome, demais.
Inclusive, olha, uma colega que trabalha, trabalhava comigo, ela estava com uma
série de problemas, o marido desempregado desde novembro; com duas crianças...
Resultado, ela terminou se matando sexta-feira... Então eu estou muito chocada
com isso... Muito revoltada, sabe? Uma revolta muito grande, porque atualmente
acontece isso dentro de um esquema do governo. Para um funcionário do Estado
acontece um negócio desses. Tem horas que eu não sei, me dá uma raiva que,
nossa, não gosto nem de falar. Eu não me conformo... então eu estou muito
chocada, sabe? Estou sem dormir, chateada... E ela era uma colega que
trabalhava lado a lado, sabe?... E a gente sabendo do problema dela e também
sem poder ajudar... Porque não tem condição. Porque se você vai dar quinhentos
cruzeiros para ela, aí não resolve, nem quinhentos, nem mil... Ela precisava de
muito dinheiro. Aliás, não sou só eu que estou assim; está todo mundo lá na
repartição, todo mundo muito chateado... É uma coisa que, viu, mesmo, que a
gente está escandalizada... Enquanto isso, eles estão discutindo o aumento do
funcionário ...
ENTREVISTADORA - Aumento...
N. - Eu ainda não sei como é que
vai ser. Essa... essa moça, eu estou sem dormir. Não consegui dormir de sábado
para domingo... su: pernervosa... e sei lá, assim, foi uma coisa muito
chocante, assim, sabe?... A gente durante a semana trabalhou junto, tudo, e ela
faz una troço desses... o pior é que todos sabiam da situação da coitada e não
ajudaram. Quem podia?... não a ajudaram. No que eu podia ajudar, uns quinhentos
cruzeiros, não iria resolver, né? Mas eu, eu dava alguma coisa de mantimento
para ela; mas dinheiro vivo mesmo eu não tinha condição... Mas aqui no prédio
você não foi em outras casas?
ENTREVISTADORA - Fui. Fiz une
levantamento, mas depois a gente fez um sorteio ...
.N. - Engraçado, você não é a
primeira pessoa que vem aqui. Da outra vez veio um rapaz aqui, mas eu não quis
atender.
ENTREVISTADORA - Hum... hum... Mas
não devia ser a mesma pesquisa...
N. - Não sei, era pesquisa
também. Quando é que você veio aqui?
ENTREVISTADORA - Acho que faz
umas duas semanas, mais ou menos.
N. - Porque é difícil me achar
erra casa. Eu chego tarde, chego às seis horas aqui em casa. E tenho sempre
muita coisa para fazer. O dia mais folgado para mim é sábado mesmo... Se você
quiser voltar sábado, eu espero.
ENTREVISTADORA - Certo. Etc
volto, sim. Volto mesmo.
No
quarto e último encontro com Nair, uma amiga sua telefonou e Nair convidou-a
(com voz baixa e rapidamente, para que a entrevistadora não percebesse) para
vir a sua casa. Recebeu a amiga, que chegou com uma criança pequena. Logo
depois, no próprio quarto em que dava a entrevista; falava com a amiga,
brincava com a criança, e de vez em quando dizia à entrevistadora que essa
podia fazer as perguntas. As outras moradoras do apartamento também entraram no
quarto. Nair disse que queria ouvir o que fora gravado, pedindo para todos
escutarem. Aproveitando a confusão geral, a entrevistadora deixou a fita rodar
um pouco e em seguida desligou; alegando algum problema no gravador; preferiu
dar a entrevista por encerrada (2).
Análise do Material
a) Estratégias de
sobrevivência
A
família conjugal, compondo uma unidade doméstica, que é o padrão entre os
operários e os funcionários públìcos alotados em tarefas manuais e
semi-manuais, constitui uma exceção dentro deste grupo; ape-nas um dos seis
casos insere-se nesse quadro. Os restantes compõem diferentes formas de
agrupamento domiciliar: casal com filhos morando desde o casamento na casa da
mãe da mulher; homem solteiro de 30 anos na casa da irmã casada e do cunhado;
grupo de amigos dividindo apartamento; sublocação de cômodos para pensionistas;
união de tipo conjugal entre uma mulher de 40 anos e um jovem de 20, com
coabitaçâo no apartamento dela (3).
Ao
contrário dos operários pouco qualificados, que ocupam bairros e municípios
novos e pobres na periferia, os funcionários habitam, de preferência, as zonas
antigas da cidade. Trata-se geralmente de zonas ou ruas desvalorizadas, onde o
preço do aluguel (não possuem casa própria) é baixo; em outros casos, o tempo
muito longo de locação produziu por si só o efeito de rebaixar os preços.
Ademais, a estratégia de agrupamento consegue baratear ainda mais todos os
custos do nível primário de sobrevivência: ã divisão do aluguel e de todas as
outras contas relacionadas à moradia, o bãrateamento da alimentação em escalas
mais largas, a viabilidade de se pagar uma empregada, com um rrúnimo de gasto individual,
permite a possibilidade de se conseguir, apesar dos salários relativamente
baixos, um excedente para outros gastos, como lazer, automóvel, vestimenta,
eletrônicos, viagens etc.
Na
verdade, este tipo de agrupamento domiciliar, composto de adultos que
trabalham, representa a maximização dos recursos que, nas famílias operárias, é
atingida quando, todos os filhos, já adultos e profissionalizados, moram na
cãsa construída para a mãe, com o esforço conjunto de todos os membros da
família. Entre os nossos casos, só encontramos crianças (duas) no domicílio
partilhado pelo casal e a mãe da mulher ( que é também o único caso de casa
própria). Os próprios agentes têm consciência de que o tipo de vida que levam
deve-se ao controle dos gastos e à ausência de crianças.
Os
recursos advindos das estratégias de agrupamento e disciplina são sentidos
pelos agentes como algo muito precioso, que confere às suas biografias seu
caráter especial. Alguns avaliam os ônus que lhes custam a obtenção desses
privilégios. Diz Nair: "Trabalho muito, mas também tenho minhas horas de
lazer, né? Viajo muito. Todo fim de ano eu consigo. Fazendo economia dá pra
viajar . . . "
Por
vezes, aparece em suas associações a percepção de que tiveram de pagar também
os ônus de abdicar de algo maior. No discurso de Tadeu aparece a seguinte
elaboração: "Eu trabalho, estudo... e... sou bastante feliz, né? Tenho uma
família ótima, um emprego maravilhoso. Tenho amigos. Está tudo dentro do que eu
queria, certo? Não tenho nada assim que mais aspire'".
A
ausência de planos a longo prazo, ou do desejo de acumulação, vivamente presentes en tre os operários, parece representar uma
adaptação aos salários baixos e ao fato de não pensarem na alternativa, nem
mesmo ao nível de fantasia, de mudarem de tipo de atividade profissional. Na
verdade, representam um grupo que se situa no primeiro patamar dos cargos que
representam algum tipo de privilégio. Eles sabem que não lograriam, fora, uma
posição melhor, mas o fato de terem tido a sorte de entrar para o sistema de
privilégios leva-os a se queixarem de suas condições relativamente precárias
dentro dele. O rebaixamento do salário real contribui também para isso.
b) O estilo de vida
O
núcleo de identificação de sua própria posição social reside no tipo de vida
que são capazes de ter. Sentem-se expropriados quando não podem realizar
qualquer atividade extra-rotineira, daquelas que "dão sentido à
vida", como as viagens, os amigos, os espetáculos. Sentem necessidade, ao
menos, de manifestar conhecimentos sobre esses padrões, e mostrar que se
ressentem de sua falta. Esse é o sinal de distinção que os refere a uma
determinada, classe social (4) . É fundamental um investimento em bens
simbólicos (5).
Cultivar
amizades constitui um investimento em capital social que oferece retornos muito
satisfatórios. Diz Tadeu: "Tenho amigos. Costumo viajar quase todo fim de
semana. Vou para a praia ou para alguma casa de campo, assim... Tenho um bom
relacionamento com amigos. Tenho um grupo bom... A gente vai muito para a casa
de um amigo que tem um apartamento no Guarujá. Ou então, para a casa de outro
amigo, em Campos do Jordão."
No
contexto dessa valorização do simbólico, a cultura e a erudição ocupam um lugar
relevante, que é mais um sintoma da preocupação de enfatizar uma estrutura de
consumo diferencial e sofisticada. Enquanto o discurso dos operários privilegia
uma ampla exposição do esforço e das dificuldades que enfrentam na obtenção do
dinheiro, acompanhada muitas vezes da descrição da tarefa que realizam
profissionalmente, os funcionários públicos ligados a tarefas administrativas
parecem muito interessados em oferecer uma imagem de si mesmos enquanto pessoas
refinadas e dotadas de um savoir faire especial. Esse
traço afasta-os muito do ascetismo pequeno-burguês que valoriza o trabalho e o
esforço, encontrado entre os motoristas de táxi. Ao contrário, saber contornar
os aspectos desagradáveis da vida e buscar prazer e proveito sempre que
possível parece ser a estratégia igualmente vigente no universo do próprio
trabalho.
O
pólo de identificação social não é, de fato, o de uma burguesia refinada ou de
uma pequeno-burguesia em ascensão, como no caso dos motoristas que estudamos.
Um modelo diferente de sucesso está presente aqui, muito provavelmente o de uma
aristocracia que, dentro da tradição cultural brasileira, caracteriza-se pelo
desprezo a certas atividades julgadas ilegítimas, ligadas não só aos trabalhos
manuais como também ao comércio. O trabalho árduo está associado às camadas
pobres, das quais os funcionários fazem questão de se diferenciar. Numa
sociedade de mentalidade escravocrata como a brasileira, todo esforço físico
despendido no trabalho remete a uma posição social muito inferior. Nair
refere-se às suas atividades manuaüs (domésticas) com ironia, indicando o quanto
elas são impróprias para alguém como ela.
A
indignação dos funcionários em relação aos seus salários não é relacionada por
eles ao trabalho que executam. O desgaste físico, quando mencionado, refere-se
à chegada ao trabalho dentro do horário, à duração da jornada e do retorno para
casa. Dentro dessa configuração, a predisposição desses agentes para o trabalho
burocrático parece explicar-se mais por aparentar um certo caráter
"nobre" do que pelo apego à ordem e ao rigor que caracterizam esse segmento
social em outras sociedades. Conseguir levar uma boa vida sem passar pelas
mediações sociais mais comuns que a condicionam (diploma, esforço, ascetismo,
trabalho árduo) implica uma sabedoria cultivada nesse grupo, e evoca a situação
de uma aristocracia cujo privilégio está dado desde sempre, e cuja trajetória
não se constitui de conquistas pessoais. Ao inquirir sobre a situação social da
entrevistadora, Nair, num trecho que já reproduzimos, repete a afirmação
"você deve ser rica" e, nessa imagem que constrói, o fato de a
entrevistadora explicar que trabalha não preenche seus pressupostos; Nair apela
para a possível existência de outro tipo de receita ( a mesada dos pais), que
se coaduna melhor com suas representações de "gente rica" e de um
dinheiro que não vem do trabalho.
Da
mesma forma, os planos para o futuro não passam por um projeto de ascensão sob
a forma de carreira. Não se colocam para si mesmos a alternativa de mudar de
emprego; para os cargos regidos pelo Estatuto do Servidor Público, a
aposentadoria constitui uma das maiores vantagens, e é vista como o contraponto
das desvantagens, principalmente dos baixos salários. Assim, a mesma estratégia
de conseguir viver bem por ter renunciado às ambições maiores regem o presente
e a antecipação do futuro. Muito provavelmente, a posição de aposentado pode
lhes conferir finalmente aquilo que de certa forma sempre reivindicaram: uma
retribuição financeira que não passa pelo trabalho, que foi conquistada de uma
vez por todas e que, mesmo em caso de morte, passa, para o cônjuge e os filhos.
Enquanto
os operários clamam por grandes mudanças e tentam redobrar seus esforços, os
pequenos funcionários se vêm limitados por um exercício de paciência e espera,
em torno de assuntos que não dependem de seu próprio comportamento. Da mesma
forma, os bens simbólicos não são avaliados como algo que pode alterar o
futuro, como ocorre entre os funcionários alocados em cargos manuais e
semi-manuais, em instituições de saúde e educação. De um modo geral; tudo o que
possa depender de sua própria iniciativa é apagado ou, pelo menos, minimizado.
A responsabilidade pessoal é negada, da mesma forma que, segundo Alain Darbel e
Dominiqué Schnapper, ocorre no desempenho de sua tarefa profissional:
"(...) tudo se passa como se os processos administrativos tendessem a
tornar o mais imperceptível possível a responsabilidade dos indivíduos"
(Darbel e Schnapper, 1969).
c) Visão de mundo e habitus de classe
A
inserção dos funcionários públicos de baixo escalão ligados às tarefas
administrativas na estrutura social caracteriza-se pela proximidade com os
grupos de alto nível, na qualidade de clientela. Esses agentes recompõem, de
alguma maneira, dentro do mundo urbano, a categoria dos antigos
"agregados" das grandes famílias proprietárias de terras que, por
algum laço de parentesco (algumas vezes muito longínquo) ou mesmo por amizade,
gravitam em torno dos grupos poderosos, recebendo em troca os favores, de certo
modo assistenciais, dos dominantes.
Se
imaginarmos o campo da "clientieia" como um conjunto de círculos
concêntricos, os agentes que ocupam os cargos administrativos mais baixos
situam-se em um espaço social muito distante dos múltiplos centros de poder
espalhados no campo mais amplo da instância política. O privilégio expresso
pela nomeação de cargos, no caso dos nossos funcionários, é longínquo e
mediatizado. Apenas quando inquiridos (no questionário final) fornecem
informacões sobre o ingresso, passando pelo tema muito rapidamente:
"entrei por política", "o patrão da minha irmã conseguiu",
"foi um deputado federal". Ao contrário, no subgrupo dos que possuem
uma qualificação e um diploma (como no caso de uma professora primária),
encontramos grande indignação contra o grau de exigência (concurso e estágios
por diversas regiões rurais) em troca dos baixos salários e péssimas condições
de trabalho que o Estado oferece.
O
segmento social de onde são recrutados nossos casos apresenta primordialmente
um caráter de fronteira; é um espaço social situado na tangente de diversos
espaços mais bem definidos e provavelmente mais adequados ao mundo urbano no
atual estágio de desenvolvimento do país. Em primeiro lugar, a grande massa dos
trabalhadores manuais, que de algum modo encontrou seus pólos de identificação
e referência no mundo industrializado, urbano; em segundo, o mundo da
iniciativa privada, oferecendo a outros segmentos das classes médias a
oportunidade de existir e crescer nos interstícios deixados pela grande
indústria (posições ocupadas principalmente pelos imigrantes e seus
descendentes); em terceiro, os novos órgãos estatais e de economia mista, mais
dinâmicos, que se ocupam dos serviços prestados pelo Estado e, que têm maior visibilidade e prestígio sociais, além de melhores
salários, em função de sua relativa eficiência; e, finalmente, os núcleos de
poder, que, embora conservando inúmeros traços anacrônicos, estão sendo
crescentemente obrigados a adotar políticas mais modernas, de massa, pelo menos
nos mecanismos que regem seus centros hegemônicos, situados nas grandes
metrópoles.
Os
pequenos funcionários públicos alocados em tarefas administrativas sofrem,
portanto, uma dupla marginalização: ocupam regiões de fronteira no espaço e
tempo sociais. Essa posição no campo explica boa parte das disposições de seus
ocupantes no que se refere à ambigüidade à qual já nos referimos. As tentativas
de avaliar o entrevistador a partir de um conjunto mais amplo de percepções,
que valoriza a proximidade com representantes de posições mais privilegiadas,
faz parte de uma estratégia mais geral de usufruto indireto do capital
econômico é simbólico de outrem, e que se reflete em práticas como morar na
casa dos parentes que têm mais dinheiro, freqüentar amigos que possuem casas de
praia e de campo, receber amigos "intelectuais", acompanhar cursos
que não são "de faculdade".
Ao
mesmo tempo, a impossibilidade de chegar a uma conclusão acerca do
entrevistador, que se manifesta nos infindáveis movimentos de atração e
repulsa, parece indicar a dificuldade de encontrar critérios eficientes de
julgamento social. Talvez tenham perdido a capacidade de discriminação social,
no mundo complexo e cambiante no qual vivem hoje.
Na
percepção que têm de si mesmos, sentem que estão de algum modo destinados a uma
vida relativamente fácil e agradável, que os diferencia em relação ao proletariado
e à trajetória penosa de uma pequeno-burguesia destituída de capital simbólico
(artesãos, pequenos comerciantes etc.). De fato, pertencem a grupos
privilegiados socialmente, embora se situem nas franjas desse universo: não
detêm, de resto, os trunfos necessários para melhorar economicamente em nenhum
dos setores alternativos de inserção dentro do grupo privilegiado.
O
apego aos sinais de distinção, representado pela valorização do simbólico,
constitui a base de identificação social e da sobrevivência em termos
individuais, nos casos estudados. O conteúdo do discurso pode parecer à
primeira vista evasivo; se comparado ao dos operários trabalhadores por conta
própria e outros tipos de funcionários públicos. Enquanto estes apresentam uma
concreção de pensamento que não conseguem abandonar mesmo quando se esforçam
para produzir uma peça de algum modo estética, que é o discurso livre, os
funcionários públicos alocados em tarefas administrativas apresentam uma recusa
de descer ao concreto, rodando em círculos em torno daquilo que as coisas podem
significar. Enquanto Nair (escriturária) e Tadeu (contador) usaram a maior
parte de seu tempo falando de viagens, amigos, teatro etc., Ana, esposa de
funcionário administrativo, descreveu dramaticamente os detalhes das
escaramuças entre sua mãe e seu marido, encobrindo porém a situação econômica
do casal, que vive praticamente às custas da mãe. Diz Ana: "Mas ela é
demais. Tem dia que está insuportável. Insuportável mesmo, viu? Ela ajuda
bastante, isso eu... eu reconheço. Que ela ajuda mesmo. Que ela ganha do... meu
pai era sargento. Ela ganha, sabe? Meu pai faleceu faz 17 anos. Quer dizer; ela
vai fazer o que com o dinheiro? Ela me ajuda, né? Eu sou procuradora dela.
(...) Mas tem dia que eu vou te falar, viu? Ela odeia ele. Ela xinga ele de
tudo quanto é nome."
Esses
agentes parecem ter adaptado seus gostos e pretensões àquilo que realmente
podem obter. Uma compra a prestação parece resolver tudo o que almejam; ao contrário,
nos outros segmentos estudados, os indivíduos parecem estar se debatendo todo o
tempo contra a impossibilidade de viabilizarem seus planos. A própria
entrevista que, com alguma freqüência, significava para os operários um clamor
que poderia ultrapassar os limites da situação e mudar algo, era percebida
pelos pequenos funcionários adurinistrativos como algo que, se não trazia os
benefícios ou riscos inicialmente imaginados, poderia ser adaptada para
produzir algum prazer. Tadeu e Nair pediram para ouvir sua própria voz gravada;
Nair solicitou à entrevistadora que a avisasse quando algum espetáculo
interessante estivesse sendo levado no teatro da Universidade Católica; ambos
fizeram a entrevistadora prometer que lhes levaria o livro depois de pronto.
Se
tentássemos encontrar os traços difrenciadores desses agentes no fato de
exercerem cargos burocráticos, essa tentativa não nos levaria muito longe. A
tendência à burocratização em todos os setores de trabalho, no inundo moderno
(cf ., entre outros autores, Crozier, 1963), bastaria para fazer perder a força
do argumento; se a intenção é estabelecer critérios discriminadores e
reconstruir a especificidade de um segmento sócio-profissional. Assim, embora
mantendo como pano de fundo mais amplo a idéia das instituições e tarefas
burocráticas, outras dimensões relevantes têm de ser levadas em conta,
enfatizando-se o tipo de percepção que os próprios agentes desenvolvem sobre
sua situação.
A
análise do material empírico indica, em primeiro lugar, a importante posição
que ocupa, na constelação de determinações mais específicas, a afiliação ao
Estado. Para entendermos o significado dessa afiliação; cumpre, em primeiro
lugar, deslindar o que significa o Estado, ou melhor, o "governo",
como eles preferem, nas representações dos agentes. O Estado convertido em
instrumento de dominação e opressão
de classe de Marx está muito longe do "governo" onipotente. com que
lidam, em seu universo intrapsíquico, as classes baixas no Brasil (6).
Basicamente, percebem a sociedade composta pelo povo (gente pobre), os ricos e
o governo. Nenhuma injunção pesa sobre as decisões governamentais: pressões
sociais ou mesmo qualquer imperativo da realidade. O governo pode fazer tudo o
que quiser, desde quede proponha a isso. Baixar o custo de vida representa para
ele o mesmo grau de dificuldade ( quer dizer, nenhuma) que aprovar a lei que
autoriza o divórcio. Um funcionário público alotado em tarefas manuais afirmou
que "até o governo é
pequeno diante de Deus", frase que revela o que pretende negar.
Os
sentimentos em relação à afiliação ao Estado ultrapassam de muito a vivência de
um vínculo empregatício. Desde logo, denomina-se, no Brasil, o funcionário de
"servidor" público. Poderíamos dizer que esses indivíduos se sentem,
não inseridos, mas imersos no Estado. Essa representação não passa pela tarefa
que executam. nem pela instituição na qual estão alotados. É uma referência
direta, total, que não comporta mediações. Essa imersão do tipo identificativo
remete-nos a constelações muito regredidas do ponto de vista do desenvolvimento
emocional. Segundo Winnicott, ao nível mais regredido de uma identificação
materna, há o ser e
não o fazer. A
não distinção entre sujeito e objeto caracteriza o elemento feminino (tanto no
homem como na mulher) que nos conduz ao Ser e constitui "a única base para
a autodescoberta e para o sentimento de existir" (7).
A
impossibilidade de pensarem outra alternativa profissional deve-se em grande
parte a essa maneira de perceberem sua ligação core o Estado. Por sua vez, essa
representação do vínculo constitui um reflexo da própria regulamentação que
rege as instituições estatais no Brasil. A importância do ato de entrar para o
serviço público (seja por política ou por concurso), os prêmios pela
permanência (complementos salariais e promoções por tempo de serviço,
vitaliciedade no emprego, aposentadoria, pensão para a família depois da morte)
esvaziam o sentido do fazer, reforçando a importância do
ser.
De
um modo geral, os autores descrevem as transformações pelas quais passou o
serviço público no Brasil sem a preocupação de compreender de que maneira o
grupo de agentes vinculados a esse sistema viveram historicamente as mudanças
em suas próprias condições objetivas de vida, em suas percepções de si mesmos e em sua visão de mundo. Cumpre
lembrar que as principais alterações consistiram:
a) na implantação
repentina de modelos totalmente contraditórios aos vigentes até então,
importados de países com tradições políticas, éticas e culturais bastante
diversas das brasileiras. A grande reforma, que instituiu nos anos 30 um
sistema de mérito, de inspiração americana, paca substituir os antigos padrões
paternalistas, sem que a eáclencia pretendida tenha sino jamais alcançada, é o
melhor exemplo disso (8);
b) na criação de órgãos
paralelos (ampliação da administração direta), de empresas estatais e de
capital misto (administração indireta), com o objetivo de superar o
emperrarnento da antiga máquina administrativa; na proliferação dos convênios
com instituições particulares (principalmente na área da saúde) (9);
c) no número crescente
de admissões de funcionários em regimes diferentes daquele que caracterizava o
vínculo empregatício com o Estado, regido pelo Estatuto do Funcionalismo
Público Brasileiro (10);
d) no desinteresse
gradual pela parcela tradicional do funcionalismo, refletido principalmente na
grande deterioração do salário (11) apesar do aumento do número de horas
da jornada de trabalho;
e) no surgimento,
principalmente a partir dos anos 50, de uma sociedade industrial relativamente
modernizada e a conseqüente criação de novos segmentos sociais, com
experiências devida, condições de vida e ethos muito diferentes dos das
antigas camadas médias de que fazem parte os pequenos funcionários;
f) ainda em conseqüência
do avanço da industrialização, na solidificação de uma classe dotada de traços
e comportamentos muito nítidos, constituída pelo novo e numeroso proletariado
industrial, atuando como um pólo de identificação social de forte poder de
atração, justamente devido ao fato de apresentar uma história e um comportamento inequivocadaménte definidos (12).
Além dessa atração, cuja força vai aparecer principalmente no horror que
desperta entre os funcionários públicos a hipótese da indiferenciação, os
operários qualificados, com seus salários mais altos e sua crescente capacidade
de pressão, mobilizam nos pequenos funcionários todos os recursos de negação e
compensação que podem utilizar.
A
história institucional do grupo pode ser vista como a história da utilização de
um segmento social pelo poder (13), marcada nas últimas décadas por um
menosprezo gradual, que tenta impingir à própria vítima sua causa: "te
desprezo por seres desprezível". Um estudo mais detido do contraponto
psicológico (14) desse processo pode nos conduzir a hipóteses tão ricas
quanto assustadoras no que se refere ao alcance das experiências objetivas de
um grupo sobre sua mente.
À
identificação extremamente regredida acrescenta-se a rejeição do Estado-mãe,
configurando a dicotomia aproximação-expulsão, típica do "duplo laço"
descrito por Bateson, que ao nível individual está na origem da esquizofrenia:
"a criança é punida por discriminar com acuidade o que ela (a mãe) está
expressando e ela é punida por discriminar sem acuidade ( incorretamente) -
está presa a um duplo laço" ( Bateson, 1973). Os ingredientes necessários
para uma situação de duplo-laço são, segundo Báteson, os seguintes: a situação
deve comportar duas ou mais pessoas, sendo uma delas a vítima e a outra a mãe,
que pode infligir o duplo laço sozinha ou em combinação com o pai e/ou irmãos.
O
duplo laço é um tema recorrente e não uma experiência traumática; singular, de
tal forma que a sua estrutura se torna natural; uma injunção primária do tipo
"não faça isto ou aquilo, ou irei puni-lo"; uma injunção secundária
conflitando com a primeira num nível mais abstrato e, como esta, reforçada por
punição ou sinais que ameaçam a sobrevivência; uma injunção negativa terciária
proibindo a vítima de abandonar o campo; por último, o conjunto de ingredientes
não é mais necessário quando a vítima aprendeu a perceber seu universo nos
padrões do duplo laço. Apenas uma parte qualquer de uma seqüência do duplo laço
pode ser suficiente para precipitar pânico ou raiva.
A
teoria do duplo laço aplicada ao tipo de afiliação ao Estado encontrada
acrescenta novos recursos explicativos ao problema da incapacidade de
discriminação (15) e a outrós mecanismos que já apontamos neste grupo. O
apego ao simbólico encontra à luz dessa hipótese suas implicações mais
profundas. A proibição de abandonar o campo, inerente ao duplo laço, leva à
impossibilidade de pensar uma alternativa profissional fora do Estado; o apego
ao ritiaalismo protege o indivíduo contra o risco de olhar para qualquer outra
direção (16). A esperança investida sobre a possibilidade de alteração
das condições de vida pela ação de qualquer elemento externo que possa surgir
(as chances, que ocupam grande parte dás idéias dos operários) inexiste
nas associações dos funcionários. O esforço investido na maximização dos
recursos existentes constitui uma medi.da indireta da descrença de que algo de
novo tenha qualquer probabilidade de ocorrer.
Nada
virá de fora. Isso torna o mundo intradoméstico a arena onde cada objeto e
espaço são disputados palmo a palmo. A estratégia do agrupamento domiciliar
reforça, obviamente, a necessidade de demarcação da propriedade de coisas e
lugares. Mas o imperativo de conservar o já existente (porque nada se espera do
ambiente mais amplo, de fora do universo atualmente apropriado) explica um tipo
de apego e de individualismo que transcende o que teria necessariamente de
existir em decorrência da coabitação. O fato de não terem podido abandonar o
serviço público e se submetido a todas as adaptações que a decadência do setor
impôs levou igualmente esses agentes a abdicarem de um domicílio ocupado pela
família, de ter ou criar filhos ( alguns os mantêm em casas de parentes em
cidades do interior). O individualismo e a ambição material reduzida ao desejo
de fazer pequenas viagens e de comprar objetos relativamente baratos não deixam
de ser, em certo sentido, parte dessa adaptação proporcionar a si mesmos
pequenos prazeres; reduzindo ao mínimo as despesas com a sobrevivência básica,
é só o que dá para fazer com a renda atual. Qualquer alteração implicaria outro
risco périgosíssimo, o da proletarização. O apego ao simbólico tem, portanto,
uma função que; como já vimos, está longe de ser superficial ou supérflua;
constitui a condição de identidade e de sobrevivência social e psicológica.
Não
existe, igualmente, qualquer esperança investida no futuro. Enquanto outros
segmentos das classes baixas fantasiam de alguma maneira ( até o extremo da
kolta de Cristo) uma mudança; geralmente uma reviravolta depois da qual á justiça será feita, o baixo funcionalismo
público alocado em tarefas administrativas representa para seu próprio futuro
uma continuidade. Apesar disso, não aparecem imagens de um panorama muito
sombrio (17). Embora curto, o salário estará sempre lá, mesmo depois de
encerrada a vida profissional, mesmo depois da morte.
As
mudanças parecem mesmo representar algo perigoso. De fato, no passado, as
alterações foram para pior. Além disso, qualquer coisa que se mova ameaça a
versão pegadora da realidade; a construção simbólica do universo esbarra a cada instante com o teste de
realidade, que a denuncia.
Na
perspectiva temporal é que apare mais claramente um desencantamento do mundo de
tipo muito especial que os casos estudados revelam: parecem ter trocado a vida,
o entusiasmo e a emoção que poderia acompanhá-la, por pequenas vantagens como
trabalhar menos, se divertir mais, sentir-se garantido no futuro. Continuar no
Estado exigiu numerosas adaptações nas condições objetivas de vida, e a elas se
somam as "negociações" de tipo emocional. Parecem não acreditar
realmente em nada. Tudo é um jogo, no qual é possível tirar vantagens, ganhando
pequenas paradas.
Pelo
menos a nível da organização perceptual que utilizam, os outros segmentos (
operários, motoristas, outros subgrupos entre os funcionários) acreditam que
sua vida e seu futuro dependem muito dos rumos que eles próprios lhes
imprimirem. Da mesma maneira, sentem-se muito mais responsáveis pelos fracassos
passados, que atribuem a falhas pessoais. Os funcionários deste grupo vêem seu
destino na forma de ações de outrem (a cúpula
política e administrativa) que recairão sobre eles na forma de
porcentagens de aumentos, através de portarias. Mas o principal já está
definido, e é o conjunto de parágrafos que compõem o Estatuto do Servidor
Público. Resta ao agente contar seu tempo de serviço ou examinar outros
aspectos de sua história profissional para verificar quando os principais
eventos de sua vida ocorrerão. Mas resta também, dentro deste espaço delimitado
(e talvez o fato de estar perfeitamente circunscrito viabilize essas práticas)
arrijar, pequenas estratégias (ruses) para ficar na melhor situação
possível.
Todos
os traços de ambigüidade e de incapacidade de discriminação que encontramos no grupo
estudado (pequenos funcionários alocados em tarefas administrativas, efetivos)
conduzem à hipótese de que a, construção de uiva identidade ao nível do ser, a
vivência do duplo laço, as situações trans-contextuais significaram, muito
provavelmente, uma crise na capacidade dos agentes se conhecerem a partir do senso prático a localização que
mais lhes convém. Todo o sistema de regras, atrações e repulsas, estruturado a
partir do habitus de classe,
deixou de ser o guia que confere aos indivíduos o domínio prático que possuem
sobre sua vida (18).
O
emaranhado presente nessas regras teria sua origem, segundo a hipótese que
levantamos, em dois sistemas de
configuração mental: a situação de duplo laço e a inadequação entre o espaço
social que esses agentes imaginam ocupar no campo e o que realmente lhes cabe.
Atuantes desde sempre, esses dois fatores vêm adquirindo crescente intensidade
com o tempo, atingindo hoje limites críticos. Isto é, manter, atualmente, as
duas avaliações positivas da realidade suficientemente afastadas de sua
negação, que permeia tudo o que se passa em torno, torna-se cada vez mais
difícil, mobilizando todo o potencial de utilização de mecanismos que, antigos
nesse grupo, atingem agora sua expressão mais acabada.
Notas
*Arakcy Martins Rodrigues - Professora de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da USP e Professora Titular de Psicologia da EAESP/FGV.
1 - A jornada de trabalho era de seis horas e o tempo de vida ativa
até a aposentadoria (25 anos para as mulheres e 30 para os homens) mais curto
que em outros regimes de trabalho, que exigiam cinco anos a mais. Os
funcionários públicos recebiam um adicional de cinco por cento em seus salários
a cada qüinqüênio e um acréscimo equivalente à sexta parte dos vencimentos ao
completarem vinte e cinco anos de serviço. A cada, cinco anos, podiam gozar uma
licença-prêmio de seis meses; duas faltas por mês podiam ser abonadas sem.
justificativa, e as licenças por problemas de saúde eram muito mais fáceis de
obter que em outros setores.
2 - A preferência pelos procedimentos velados foi observada por
Gilberto Velho no estudo sobre os moradores de um prédio em Copacabana:
"Quanto ao síndico, a atitude podia ser muito ambígua. Embora fosse regra
geral falar mal, criticar o seu trabalho, isso dificilmente se traduzia em
confrontos diretos. Havia quem desse telefonemas anônimos para o seu
apartamento, dizendo palavrões e obscenidades, insultando-o e a sua família,
podia-se xingá-lo escrevendo nas paredes dos corredores, mas tudo isso era
praticado em clima de clandestinidade, mantendo-se o anonimato." ( Velho,
1977)
3 - É o caso de Nair Seria interessante acrescentar que ela o conheceu quando
ele era pensionista na casa da mãe de Nair, que morava, ela própria, num
pensionato antes dessa união.
4 - "(...) os grupos de status definem-se menos por um ter
do que por um ser, irredutível a seu ter, menos pela posse pura e simples de
bens do que por uma certa maneira de usar esses bens, pois a busca da distinção
pode introduzir uma forma inimitável de raridade, a raridade da arte do bem
consumir, capaz de tornar raro o bem de consumo mais trivial." ( Bourdieu,
1966 )
5 - "De fato, nada mais falso do que acreditar que as ações
simbólicas nada significam além delas mesmas: na verdade, elas exprimem sempre
a posição social segundo uma lógica que é a mesma da lógica social, a lógica da
distinção." (Bourdieu, 1966)
6 - Raymundo Faoro atribui ao próprio caráter do Estado brasileiro essa reação da sociedade em relação a ele. "No soberano concentram-se todas as esperanças, de pobres e ricos, porque o Estado reflete o pólo condutor da sociedade (...) O povo quer a proteção do Estado, parasitando-o, enquanto o Estado mantém .a meno ridade popular, sobre ela imperando. No plano psicológico, a dualidade oscila entre a decepção e o engodo." (Faoro, 1976).
7 - Trabalhando sobre essas colocações de Winnicott, Myrna Pia
Favilli acrescenta:"(...) podemos pensar que uma identidade feminina
básica é a depositária das garantias de vida para qualquer ser humano (...)
podemos pressentir que a desidentificação com a figura materna (...) pode pôr
em relevo o perigo de uma perda primordial, que seria a perda da noção de ser
(...) "
8 - Ver, por exemplo, Graham (1968 ) .
9 - Para todos os dados, encontramos dificuldade de acesso a
informações que se referissem ao conjunto do serviço público brasileiro. Assim,
tentaremos ilustrar algumas situações com dados parciais que logramos obter.
Para o caso da expansão da administração indireta, no Estado de São Paulo,
"as agências que compõem a administração paralela conheceram uma expansão
sem precedentes e, às poucas autarquias e institutos existentes em 1962 (...)
foi acrescentado um número expressivo de empresas, fundações e
superintendências (...) Mais precisamente, no momento presente o setor
descentralizado compõe-se de 65 unidades, sendo que três delas em fase de
implantação. Dessas, 32 têm o stcitus de empresa, 22 são autarquias e 11 são
fundações". ( Sachs, 1982 ) .
10 - Na administração direta, encontramos uma inflação do número
de "temporáriós", categoria que veio substituir; com desvantagens
para os funcionários, os antigos "extranumerários", que conseguiam
estabilidade ao fim de cinco anos. Os temporários; criados pela Constituição de
1967, definidos como "título precário" (os estáveis possuem cargos,
enquanto os temporários exercem funções), com pouquíssimas vantagens (férias,
licença-gestação, aposentadoria compulsória, por idade ou por invalidez), sem
estabilidade, efetividade, direito a licença remunerada para tratar de assuntos
particulares etc. Em 1974 e 1978 foram conquistando algumas dessas vantagens:
atualmente gozam da possibilidade de obter aposentadoria de outro tipo,
qüinqüênio ( adicionai de salário a cada cinco anos de permanência) e sexta
parte (adicional de 1/6 do salário ao fim de 25 anos-de dedicação). Entretanto;
o "temporário" é ainda hoje um cidadão de segunda classe,
conforme nos informa Zilah Abramos jamais atingirá a estabilidade; encontra
dificuldades no âmbito interno (preferência pelos estáveis para cargos- de
chefia etc.); em geral, encontra também dificuldades para obter empréstimos em
bancos, crédito etc. Em suma, é um funcionário estigmatizado, embora
passe pelo mesmo concurso de ingresso que o efetivo. Para darmos apenas uma
idéia do volume de temporá rios na administração direta, sabemos que a
Secretaria da Saúde conta hoje, entre seus funcionários, com 1/3 de efetivos e
2/3 de temporários. Já na administração
indireta e nas empresas estatais, o vínculo empregatício predominante é o da
CLT ( Consolidação das Leis do Trabalho), própria da empresa privada.
Entretanto, o funcionário público que trabalha sob esse regime sofre restrições
em relação aos demais no que se refere aos reajustes salariais, proibição de
greve e direito de sindicalização (até pouco tempo atrás, não recebia tampouco
o 13 ° salário). Os casos que analisamos neste artigo pertencem à categoria dos
estáveis ( regidos pelo Estatuto do Funcionalismo Público Brasileiro).
11 - Por exemplo, os
salários correspondentes aos cargos de nível universitário correspondiam em
1977 a 7,8 salários mínimos e, em 1983, a 4,3 salários mínimos. Deve-se ainda
levar em conta que antes de 1977 o rebaixamento do salário real do funcionalismo
público já apresentava seus sinais mais evidentes: Nos últimos anos, o índice
de reajuste do salário do funcionalismo foi a metade do reajuste do salário
mínimo, sendo que esse último está passando por um significativo arrocho.
12 - Segundo Luc Boltanski,
a questão da falsa consciência de classe é uma falsa questão, na medida em que
os agentes que ocupam espaços sociais não nomeados ou fracamente caracterizados
são levados a ser atraídos por algum pólo constituído por um espaço social
totalmente nomeado, estruturado e conhecido. Assim poderíamos explicar, a um
tempo, a identificação com a aristocracia e a repulsa pela possibilidade de uma
caracterização proletária, no caso dos funcionários públicos.
13 - Como indica Faoro; tais segmentos não são, evidentemente, os
únicos a serem manipulados pelo estamento político, que paira acima das classes
e dos interesses do capital, no Brasil. "A comunidade política cónduz,
comanda, supervisiona, os negócios, como negócios privados seus, na origem, e
como negócios públicos depois, ern linhas que se demarcam gradualmente. O
súdito, a sociedade, se confundem no âmbito de um aparelhamento a explorar,
manipular, tosquiar nos casos extremos." (Faoro, 1976).
14 - A instância do psicológico não implica necessariamente a do
individual. Neste caso, o termo refere-se às conseqüências da interação entre
os fatos institucionais mais amplos e os agentes, ou às categorias que foram
internalizadas por todo um grupo social.
15 - "Permitam-me cunhar o termo ‘trans-contextual’ como uma
expressão genérica para esse tipo de síndrome. Parece que tanto aqueles cuja
vida é enriquecida por dádivas trans-contextuais como aqueles que são
empobrecidos por confusões trans-contextuais se assemelham num aspecto: para
eles existe sempre ou frequentemente um ‘duplo sentido’. A folha que cai, a
saudação de um amigo ou uma `primavera às margens do rio' não é `apenas isso e
nada mais' " (Bateson, 1973).
16 - Evidentemente, no passado ou no presente, a situação . econômica
deixou uma margem, se ja de abundância ou de ócio, que tornou possível a
alternativa de fugir à concretude. "O jogo das distinções simbólicas
realiza-se, portanto, no interior dos limites estreitos definidos pelas
coerções econômicas e, por esse motivo, permanece um jogo de privilegiados nas
sociedades :privilegiadas, que podem se dar ao luxo de dissimular as oposições
de fato, isto é, de força, sob as oposições de sentido." (Bourdieu, 1966).
17 - O medo em relação ao futuro é igualmente muito comum entre os operários e os
motoristas. A esperança e o pânico em relação ao futuro não se excluem e,
geralmente, estão presentes no mesmo discurso.
18 - Essa interpretação
de nível sociológico, que se inscreve no conceito de luzbitus de classe e de senso
prático de Pierre Bourdieu, encontra seu correlato ao nível mental em Bateson:
"Obviamente, não existem na mente nem objetos nem acontecimentos (...) A
mente contém apenas transformações, perceptos, etc. (...) Estamos falando,
portanto, sobre alguma espécie de emaranhado nas regras para formar .as
transformações e sobre a aquisição ou permanência de tais emaranhados." (Bateson.
1973).
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