Práticas e representações de pequenos funcionários públicos de São Paulo

 

Arakcy Martins Rodrigues*

 

Introdução

A pesquisa empírica que fundamenta este artigo se inscreve num projeto mais amplo, cuja preocupação central é o estudo do trabalho feminino. Os compromissos teóricos assumidos levaram esse objeto de estudo a lançar seus tentáculos para várias direções.

O estudo das determinações sociais fêz-se imprescindível, e por mais de uma razão. Em primeiro lugar, porque o trabalho feminino, no enfoque que escolhemos, sofre a dupla determinação de gênero e de classe social; sem nos esquecermos de que no conceito de "gênero" já vem implícita a retradução social da condição biologicamente dada. Em segundo lugar, porque adotamos uma definição de comportamento que não se limita a uma relação de dados observáveis, Isso não significa que o ponto de partida não esteja num conjunto de dados observáveis (ou práticas) e tampouco que nosso objetivo ultimo não seja explicá-los. Nossa opção recai sobre os tipos de definições de comportamento que incluem as representações intrapsíquicas, de que ele é resultante e a estruturação do conjunto de práticas e representações, que são geradas a partir das experiências de vida, das relações entre o indivíduo e o ambiente, segundo os mecanismos mentais típicos do ser humano.

A ênfase na organização intrapsíquica poderia levar à postulação do problema do comportamento humano em termos estritamente individuais. Entretanto, se utilizarmos o conceito de "ambiente" de uma forma menos vaga, podemos defini-lo como o conjunto de condições objetivas de existência de cada agente. Numa sociedade estratificada como a nossa, sabemos que tais condições são comuns a grupos relativamente amplos de indivíduos, em outras palavras, a classes sociais ou frações de classe. As condições objetivas são internalizadas pelos indivíduos e, através do comportamento, voltam a se fazer extérioridade. Certas formas de estruturação dos conteúdos internalizados são geradas a partir da vivência, historicamente dada dentro de cada grupo social, das mesmas condições objetivas de existência e "podemos ver nos sistemas de disposições individuais variantes estruturais de habitus de grupo ou de classe" (Bourdieu, 1972).

Conseqüentemente, trata-se, antes de mais nada, de proceder ao exame dos nexos existentes entre as determinações objetivas - materiais e culturais - e o sistema de disposições duráveis e de representações de que os agentes sociais são dotados, tanto ao nível consciente como inconsciente. Tarefa que só é possível a partir da análise concreta de uma categoria social.

O projeto mais amplo que mencionamos dividiu-se em três estudos, incidindo cada um deles sobre um segmento sócio-profissional. Esse recorte prende-se à hipótese básica segundo a qual as experiências de vida comuns e as determinações específicas derivam-se da posição institucional singular que afeta os ocupantes de um determinado espaço social. O primeiro grupo a ser estudado foi o dos operários industriais (Rodrigues, 1978a); em seguida, os mesmos instrumentos de análise foram utilizados na pesquisa sobre funcionários públicos, cujo trabalho de campo foi realizado em 1977 (Rodrigues, 1978b, 1980 e 1988). Posteriormente, ocupamo-nos de um grupo de motoristas de táxi (Rodrigues, 1981). O presente artigo se propõe apresentar o estudo de um dos subgrupos encontrados entre os funcionários públicos.

O segmento sócio-profissional apresenta, a nosso ver, a vantagem de reunir as determinações decorrentes de um tipo de inserção na força de trabalho e as de classe social. Ademais, os três grupos estudados se incluem naquilo que se costuma denominar genericamente de "classes baixas". A hipótese de que uma grande heterogeneidade é encontrável nas categorias sociais mais amplas que aparecem nas pesquisas quantitativas levou-nos a buscar esses segmentos menores, aproveitando-nos das condições favoráveis que nos oferecia o estudo qualitativo. Em cada um dos segmentos, escolhemos agentes situados dentro de uma determinada faixa de renda (de um a cinco salários mínimos). Tal variação não constituiu um critério apriorístico, ruas foi a encontrada no primeiro segmento estudado, o dos operários. A partir daí, foi utilizada nas pesquisas subseqüentes.

Outra ordem de desdobramentos é a gerada a partir do conceito de trabalho. Não cabe nos limites deste artigo a discussão acerca do trabalho produtivo e improdutivo e as contribuições trazidas pelos estudos sobre trabalho feminino. Indicamos apenas que incluímos o trabalho doméstico na categoria "trabalho". Entrevistamos, portanto, também esposas de funcionários públicos; tal inclusão prende-se também ao fato de estarmos referidos, a partir dos marcos teóricos adotados, a todo um segmento social, e não apenas àqueles indivíduos que, dentro dele, se ocupam de um determinado trabalho profissional.

Cabe por último explicar a inclusão de homens em pesquisas basicamente preocupadas com o trabalho feminino. Acreditamos que não seria possível apreender as disposições diferenciais por sexo sem usar, para ambos; o mesmo crivo teórico e os mesmos procedimentos metodológicos.

Algumas Informações sobre a Amostra

E talvez impróprio denominar o conjunto dos casos estudados de "amostra": 22 funcionários públicos escolhidos pela faixa de renda. O grupo inclui funcionários homens e mulheres e esposas de funcionários sem atividade remunerada fora do lar. A região coberta pela pesquisa é o município de São Paulo. Embora sem nenhuma pretensão à representatividade, tentamos diversificar os bairros de moradia e a faixa etária dos entrevistados, além da preocupação de escolher a metade dos casos entre mulheres e de distribuir equitativamente os indivíduos entre as subcategorias de renda.

O critério utilizado (renda) conduziu-nos a um conjunto muito heterogêneo de pessoas. Não só constavam da amostra funcionários federais, estaduais e municipais, além dos alocados em autarquias e empresas mistas, como encontramos grande variação na atividade profissional exercida. O próprio vínculo empregatício compreendia o regime de funcionalismo público estatutário e os contratados pela CLT, que hoje atinge uma grande parcela de funcionários.

A análise do material empírico mostrou a existência de quatro grupos distintos no conjunto das pessoas entrevistadas:

a) o primeiro grupo constitui-se de funcionarios que executam tarefas manuais, em cargos pouco valorizados, de longas e duras jornadas, muito semelhantes ao emprego industrial. Sua origem (migrantes das zonas rurais do Norte e Nordeste), seu grau de escolaridade e religião (conversões maciças ao pentecostalismo), suas estratégias de sobrevivência e visão de mundo não os diferenciam muito dos operários não-qualificados estudados anteriormente (Rodrigues, 1978 );

b) ainda em tarefas manuais e semi-manuais (serventes, atendentes, zeladores), encontramos um conjunto de funcionários que trabalham em instituições de saúde e de ensino. Sua origem e trajetória social não se distinguem das do primeiro grupo, mas apresentam um padrão de práticas e aspirações que representa um ponto de inflexão importante. Talvez pelo contato com o público, pela proximidade em relação aos escalões mais altos e pelo tipo de serviço que a instituição presta, acreditam que, se todos os "pobres" se aproximassem, como eles fizeram, de agentes, idéias e instituições "elevadas", fizessem por receber seus favores e pusessem em prática os conselhos e conceitos "científicos", estariam salvos. Trata-se de agentes que ocupam cargos de representação, que exibem uma disposição para internalizar os valores dos estratos mais altos, em substituição aos padrões "selvagens" que adquiriram na sua primeira educação e que reencontram, freqüentemente, no público que atendem. É nítida "a crença no valor da educação como instrumento de ascensão social, como meio de curar os males sociais, de produzir felicidade e tornar a humanidade mais sábia, mais rica e mais piedosa" ( Bourdieu, 1966 );

c) o terceiro grupo compõe-se de pessoas que ocupam cargos administrativos que exigem uma certa escolaridade e alguma qualificação, obtida algumas vezes nos níveis médios da educação formal, outras vezes fora dessa rede (datilografia, por exemplo). Embora um pouco superiores, seus salários não se diferenciam muito dos dois primeiros grupos; entretanto, sua origem, trajetória social, estratégia de sobrevivência e visão de mundo compõem um quadro característico, mais próximo do das classes médias, com as quais se identificam. Incluem-se nesse grupo contadores, datilógrafos, escriturários etc. Sua tarefa é eminentemente burocrática. Do total de 22 casos, seis pertencem a esse grupo, que é objeto deste artigo. Acompanhamos mais de perto três dos casos: Nair, Tadeu e Ana;


d ) os componentes do quarto grupo desempenham tarefas mais técnicas e intelectualizadas. Incluem-se nele enfermeiras e professoras primárias. De um modo geral, identificam-se muito com seu grupo profissional. Estão abertas, para eles, alternativas fora do serviço público, e as evasões proliferam nos últimos anos. Tendem a um comportamento mais reivindicativo em relação ao Estado e a fundamentar suas queixas no fato de terem um diploma e executarem tarefas importantes para a sociedade.

Questões Metodológicas

O tipo de material que pretendíamos encontrar afastava, desde logo, qualquer possibilidade de utilização das técnicas quantitativas disponíveis. Era imperativo optar por uma investigação qualitativa, em profundidade, com a utilização de instrumentos mais ricos e menos rígidos, que nos permitissem "tentar medir aquilo que merece ser conhecido" ao invés de "não considerar digno de ser conhecido aquilo que não pode ser medido" ( Bourdieu, Darbel, Rivet e Leibel, 1963).

Mas esse é um caminho sobre o qual se conhece muito pouco. Enquanto as regras do procedimento quantitativo foram estipuladas em todos os seus detalhes, as técnicas de entrevistas abertas ou guiadas por roteiro são deixadas por conta do "talento" do pesquisador. A palavra mágica "empatia" parece condensar, sem tocá-las, todas as implicações inerentes ao problema. Os fatores "irracionais" são apresentados como algo que existe, mas não pode ser apreendido pela razão.

Por outro lado, a teoria psicanalítica desenvolveu numerosas hipóteses acerca da situação dual e da possibilidade de captação dos significados mais profundos e encobertos da verbalização, utilizando suas conclusões na sistematização de procedimentos que, no conjunto, se incluem no conceito de setting analítico. Mas os psicanalistas tendem a não aceitar a viabilidade de reproduzir esses procedimentos fora do contexto analítico.

O fato de estarmos lidando com uma investigação descomprometida em relação aos rigores da pesquisa quantitativa pareceu-nos altamente propício para refletir sobre essas questões e decidimos explorar, ao invés de afastar, as dúvidas que surgiam.

Levar o entrevistado a produzir um dis curso livre, com um mínimo de intervenção possível por parte do entrevistador, parecia ser a melhor via de obter um material passível do tipo de análise que pretendíamos fazer. Mas para tanto devíamos lidar com as pressões objetivas presentes na situação de entrevista. De fato, essa consiste num relacionamento transitório no qual se trata de captar a lógica e o princípio de estruturação das práticas e representações do agente, incluindo as dimensões inconscientes no entrevistado e dentro de um universo que não pode ser recuperado a partir da lógica (em grande parte não consciente) do habitus de classe do entrevistador. A produção de um discurso livre, que possa seguir a trilha das determinações internas, requer um campo relativamente neutro, onde não estejam presentes situações objetivamente ansiogênicas: Do ponto de vista do entrevistados, a postura desejável afasta alternativas onde a hipocrisia e mentiras contadas ao interlocutor possam provocar um bloqueio emocional. Num segunda momento da entrevista, o levantamento de dados objetivos sobre a história de vida do entrevistado permite a intervenção (perguntas) do entrevistados e afrouxa a exigência de neutralidade. Evidentemente, o material produzido durante o "discurso livre" e aquele que vem como resposta às perguntas não podem ser tratados da mesma maneira na análise.

Os primeiros passos do trabalho de campo indicaram as principais ansiedades da equipe e dos entrevistados (quanto à equipe, o problema crucial era o da culpabilidade). O que iríamos dar em troca ao grupo estudado? Nos entrevistados, apareciam principalmente fantasias persecutórias (quais são as "verdadeiras" intenções do entrevistados?) e depressivas ("não estou à altura de desempenhar a tarefa intelectual que me é solicitada por uma pessoa tão legítima, que além de pertencer a uma classe economicamente superior à minha, detém os trunfos do capital simbólico").

Apresentamos, a seguir, os procedimentos metodológicos adotados, explicitando, a cada passo, de que maneira o duplo objetivo de obter um determinado tipo de material e de lidar com as ansiedades presentes no entrevistados e no entrevistado foi buscado:

a) O levantamento domiciliar

A localização das unidades amostrais se dá através de uma procura nos domicílios: utilizando alguma informação geral sobre a distribuição dos diversos grupos sócio-econômicos dentro do município, um entrevistador bate à porta de uma residência, perguntando quantas pessoas moram, nome de cada um, sexo, idade e ocupação: Pede ainda a informação sobre o tipo de relação que os habitantes mantêm entre si. A partir de um grande número dessas fichas domiciliares, é feita a escolha dos casos. No caso dos funcionários públicos, esta etapa demandou muito trabalho, em primeiro lugar por sé tratar de uma categoria muito dispersa geograficamente, em segundo lugar porque essa fase teve de ser repetida algumas vezes, em vista do grande número de recusas em conceder a entrevista. No total, foram visitadas 349 residências e localizados 75 funcionários públicos.

b) A abordagem

Escolhido um caso (dentro dos critérios de diversificação já mencionados), o entrevistados apresenta-se novamente à residência, faz alusão à primeira visita, esclarecendo que deseja. falar com uma detérminada pessoa (cujo nome já conhece), pois essa foi escolhida para uma entrevista mais longa, para a mesma pesquisa já mencionada no levantamento domiciliar. No diálogo com a pessoa procurada, esclarece que sua visita será longa (cerca de duas horas). Geralmente marca-se um novo encontro, no qual o entrevistado possa dispor de todo esse tempo.

A maneira de chegar ao agente pareceu-nos muito importante, tanto para a equipe cosmo para os entrevistados. Do ponto de vista do entrevistados, todo o trabalho de gabinete que antecede o de campo intensifica as fantasias de culpa, uma vez que se constitui, geralmente, de técnicas (ou táticas) a respeito das quais os entrevistados não têm a menor idéia. Do ponto de vista do entrevistado, essa abordagem aplaca as fantasias paranóides ("por que eu?", "como me localizou?", "quem te mandou aqui?") uma vez que o entrevistado  conhece o que deu origem à sua localização. A informação sobre o tempo de duração da entrevista prepara o entrevistado para um contato relativamente longo, para o qual se prepara para falar muito. O tempo corresponde à realidade, evitando-se assim os "malabarismos" que se fazem, às vezes, para "arrancar" uma entrevista, levando-se o entrevistado a crer que demandará alguns minutos. A impaciência e irritação que isso gera no entrevistado, e a culpa do entrevistador, seriam grandemente lesivos ao material obtido.

c) O discurso livre

O entrevistador inicia o encontro referindo-se novamente ao levantamento domiciliar e à escolha posterior (que diz, ser produto de um sorteio), e solicita a colaboração do entrevistado para uma pesquisa. Pede licença para gravar, liga o gravador e diz: "Eu e mais pessoas estamos fazendo um estudo para saber como é a vida das pessoas. Nós vamos falar com muita gente; reunir tudo o que elas nos contarem, analisar as coisas, para escrever um livro sobre cómo vivem as pessoas, o que elas sentem, o que elas pensam, o que elas acham... Não um livro como muitos que existem, mas um que fale da vida mesmo, das coisas como são mesmo. Vamos falar com muita gente, se o (a) Sr: (a) preferir, não precisa dizer o seu nome inteiro: o (a) Sr. (a) vai ser apenas uma voz no gravador, vamos juntar o que o (a) Sr. (a) vai dizer com aquilo que todo mundo vai dizer. Por isso eu gostaria que o (a) Sr. (a) falasse de si mesmo (a). Pode falar o que o (a) Sr (a) quiser. O que acha; o que sente, o que pensa... Tudo o que o (a) Sr. (a) nos contar interessa para nós."

Podemos observar, nessa fala, como inúmeras questões estão em jogo. As razões pelas quais a entrevista está sendo realizada, expostas ao entrevistado, correspondem à realidade. Decidimos colocar o entrevistador numa atitude honesta em relação ao entrevistado, estendendo para todas as táticas e mentiras as considerações de Elizabeth Bott acerca da técnica do "entrevistador dissimulado, que poderia produzir dados muito ricos, mas, por outro lado (...) dá ao pesquisador de campo agudos sentimentos de culpa por estar sendo aceito como um amigo genuíno, quando na realidade tem um propósito secreto dissimulado" (Bott, 1964). A única "mentira refere-se ao sorteio, porque preferimos não  mencionar que nosso interesse pelo entrevistado residia no fato de ele ser um funcionário público (o mesmo foi feito com as outras categorias sócio-profissionais estudadas); acreditamos que o discurso tomaria um determinado rumo e não nos permitiria perceber onde a pessoa coloca, no conjunto dos dados de sua vida, a atividade profissional.

O entrevistador refere-se às outras pessoas da equipe porque, de fato, elas existem, e o próprio entrevistado provavelmente já viu ou soube de outra, já que nem sempre foi possível alocar o mesmo entrevistador para o levantamento domiciliar e a entrevista. A referência às outras pessoas que serão entrevistadas não só corresponde à verdade, como também assegura ao agente uma situação de anonimato que tende a diminuir suas fantasias paranóides. Ao esclarecer que não é necessário dizer o nome completo, o entrevistador está igualmente lidando com essas fantasias. Explicar ao entrevistado que vamos "juntar" o que todos irão dizer diminui sua responsabilidade pessoal e, ao mesmo tempo, toca na outra ansiedade, que é a de ser capaz de produzir algo digno de figurar num livro; todas as considerações sobre "a vida como ela é'' e as referências de que estamos interessados não só por grandes feitos biográficos, mas também por aquilo que as pessoas sentem, acham e pensam, referem-se mais especialmente às fantasias depressivas diante da legitimidade do entrevistador e do  empreendimento (escrever um livro).

O entrevistador, depois da fala inicial, não deve fazer novas intervenções ou introduzir palavras não utilizadas pelo entrevistado. Se necessário, repete algum trecho da fala inicial, ou pede ao entrevistado que fale mais.

É comum entre os cientistas sociais, a idéia de que as pessoas não falam extensivamente sobre assuntos privados para alguém que lhes bateu à porta. Nossa experiência tende a indicar o contrário. Uma vez convencidos de que não se trata de um assalto, de alguma perseguição ou de venda de livros, os indivíduos tendem a "se abrir". Acreditamos que, uma vez iniciado o discurso autobiográfico, surge no indivíduo a necessidade de "arrumar", "fechar" os dados que lhe são tão significativos. Pensamos mesmo que a intermediação de alguma pessoa ou instituição "de confiança" complicaria o relacionamento, devido às fantasias suscitadas por esse "complô" anterior e as que se referem a um possível retorno de informações depois da entrevista.

O material do "discurso livre" é tratado na análise de uma forma especial: os dados "objetivos" não interessam; a seqüência dos assuntos, a fornia de o indivíduo relacionar-se com o entrevistador e com as coisas de que está falando, as categorias de percepção e de raciocínio que utiliza, a ordem dos temas, o tempo e a importância atribuídos a cada item, os conteúdos inconscientes capturáveis pelos silêncios, atos falhos, tom de voz, associação de idéias, é o que importa.

d) O questionário

Uma vez esgotado o discurso espontâneo, aplicamos um questionário onde os dados objetivos da biografia do entrevistado são levantados. Tentamos recuperar um pouco a história do grupo, iniciando com perguntas sobre os avós. Trata-se de uma história de vida bastante detalhada, que inclui a trajetória de irmãos, cônjuges e filhos. Só atribuímos o estatuto de "condições objetivas às informações obtidas através deste instrumento.

e ) O relatório de recusa

Enquanto na pesquisa entre operários deparamo-nos com apenas duas recusas, entre os funcionários públicos esses casos atingiram um grande número. Decidimos introduzir nesta pesquisa o “relatório de recusa”, que consiste no registro, reconstituído de memória (uma vez que nem se chega ao momento de ligar o gravador), dos fatos e diálogos ocorridos por ocasião da abordagem. As razões alegadas pelo agente e, principalmente, a maneira pela qual ele se esquivou da entrevista forneceram dados interessantes para a análise.

O Emprego Público

Emprego altamente desejado no passado, o serviço público sofreu uma grande decadência em termos de prestígio, salário real e vantagens. Esse declínio gradual, iniciado há muito tempo, foi mais marcante nas últimas décadas. Até cerca de 30 anos atrás, o vínculo empregatício com o Estado, regido pelo Estatuto do Funcionário Público, caracterizava-se por uma série de prerrogativas que faziam do funcionário públi co um privilegiado, principalmente no que se refere à estabilidade no emprego e ao montante da aposentadoria e da pensão para a família em caso de morte (1).

O ingresso no serviço geralmente se dava através de nomeações. Assim, é fácil de imaginar, depois de algum tempo, o emperramento da máquina administrativa e o peso de sua folha de pagamentos como conseqüência da hiperlotação gerada pelo clientelismo político. Tais problemas resultaram em medidas que visaram uma diminuição do quadro de funcionários regidos pelo Estatuto e a perda de muitos dos privilégios dos estatutários.

Atualmente, os cargos administrativos de baixo escalão são ocupados por jovens que pretendem permanecer neles apenas enquanto estudam, atraídos pela tarefa mais leve e pela possibilidade de optarem por jornadas de trabalho mais curtas, se comparadas às do setor privado, e por antigos funcionários que puderam permanecer adaptando-se aos baixos salários e às outras perdas (vantagens, status) que tiveram de sofrer. Os três casos que escolhemos para estudar neste artigo e os demais componentes do subgrupo de funcionários alotados em tarefas administrativas incluem-se nos dois tipos de perfil descritos acima.

Ocupantes dos Cargos Administrativos

a) Origem

Os funcionários públicos alocádos em tarefas administrativas, que constituem em nossa pesquisa uma subamostra de seis casos, são nascidos na Capital ( cidade de São Paulo) ou em alguma outra cidade do interior do Estado de São Paulo. Na geração dos pais, é maior o número dos nascidos no interior e, em apenas um caso, encontramos um imigrante estrangeiro (pai calabrês). Entre os avós, há um filho de italianos, dois portugueses e dois migrantes de outros estados do Centro-Sul. Considerando que São Paulo é a cidade onde se instalou uma enorme população vinda dos estados do Norte e do Nordeste do país, e que teve a preferência da imigração estrangeira de diversas partes do. mundo, e lembrando que o grau de miscigenação da população é bastante :elevado em função desses fatores, os funcionários aqui estudados constituem um grupo razoavelmente "brasileiro", “paulista”, "puro".

b) Trajetória individual

Com exceção de um caso, o emprego atual é o primeiro e único em toda a vida. Os mais velhos foram nomeados por política e os outros prestaram concurso; neste último caso, foram informados sobre a prova, sem exceção, por algum parente ou amigo que trabalhava na mesma repartição.

Os mais velhos apresentam uma escolaridade baixa (antigo curso primário, que equivale a quatro ou cinco anos de escola)-, enquanto os mais jovens chegaram até o colegial (11 a 12 anos de escolaridade). Não nos forneceram informaçõeã muito precisas sobre o tipo de tarefa que desempenham. Declarar "sou funcionário público" parece ser considerado suficiente, não só pelo próprio funcionário; como pelas outras pessoas que algumas vezes nos deram as informações durante o levantamento domiciliar. Alguns funcionários acrescentam a instituição na qual trabalham. A pessoa que mais especificou sua tarefa disse: "Eu mexo com Imposto de Renda".

Embora se trate de um número muito pequeno de casos, as regularidades encontradas dentro do grupo e a continuidade que certos traços apresentam em relação aos outros subgrupos permitem sugerir algumas hipóteses sobre o segmento sócio-profissional (funcionários públicos de baixo escalão alotados em tarefas administrativas) como um todo. Os três casos escolhidos foram selecionados pelas semelhanças que encontramos em seus discursos e pelo fato de serem todos filhos de funcionários públicos (nos três casos, o pai era funcionário público e a mãe não possuía ocupação remunerada fora do lar). Em conseqüência disso, muito provavelmente os traços comuns refletem alguma cristalização, já possível, de uma resposta única às condições objetivas de existência, traduzida no conjunto de práticas e representações que balizam as experiências de vida desses agentes. Os trechos de "discursos livres" que apresentaremos ao longo deste trabalho foram retirados das entrevistas feitas com esses três casos.

c ) O relacionamento com os entrevistadores

Ao iniciarmos o trabalho de campo, deparamo-nos com algumas dificuldades. Os primeiros 30 casos localizados pelo levantamento domiciliar recusaram-se a conceder a entrevista. Os relatórios de recusa revelam dois tipos de reação: No primeiro, não existe uma negativa clana, inequívoca. As respostas são sempre evasivas, e a pessoa escolhida, ou alguém que a representa, sugere um encontro para outro dia. O entrevistador volta, e tudo recomeça. Ao final de inúmeros retornos (há casos de seis tentativas), ocorre alguma coisa que confirma as suspeitas do entrevistador de que os "acidentes" anteriores não se deveram ao acaso, mas constituíram material para encobrir uma recusa, o que leva o entrevistador a desistir do caso.

Ao nível da verbalização, encontramos todos os sinais da boa-vontade e da boa-educação. As pessoas pedem desculpas, explicam por que não podem atender ao pedido naquele momento e parecem empenhadas em encontrar uma solução. Chegam até a oferecer mais do que aquilo que lhes é solicitado, como o caso do funcionário que propôs, na terceira vez em que era procurado, ir à casa do entrevistador.

O segundo tipo de reação que encontramos foi o retraimento e a desconfiança, cujos sinais apareciam desde o momento em que batíamos à porta. Ao simples toque da campainha, era possível perceber uma grande movimentação dentro da casa. Geralmente, uma boa conversa tinha que ser travada entre o entrevistador e algum dos moradores antes que a porta se abrisse. Muito freqüentemente, alguém tomava para si a tarefa de lidar com o "problema"; afastando os demais com uma atitude protetora. A "invasão da intimidade" (Velho, 1977) é a grande ameaça.

Todas essas considerações referem-se forçosamente ao grupo de funcionários como um todo e não só àqueles que estamos focalizando neste trabalho, uma vez que decorrem da análise dos relatórios de recusa e, nesses casos, não levantamos os dados sobre a ocupação específica da pessoa procurada. Entretanto, podemos sugerir a hipótese de que o primeiro tipo de recusa é criais típica dos funcionários ligados às tarefas administrativas, baseando-nos na maneira pela qual se relacionaram com o entrevistados os casos dessa categoria que chegamos a entrevistar.

De um modo geral, esses agentes apresentam uma reação altamente ambígua, que lhes dificulta muito uma tomada de decisão. Parece cla ra uma incapacidade de discriminação, diante de alguma situação nova. Nas negociações que precederam a entrevista, assim como no relacionamento entrevistados-entrevistado que se seguiu, podemos compreender algo sobre as estratégias de vida que utilizam correntemente.

Os efeitos da posição intermediária que ocupam no espaço social, os pólos de identificação social com os quais lidam, os rituais de encobrimento, o apego à dimensão simbólica, a tática de fugir ao sofrimento por meio de um savoir faire que consiste em tentar obter pequenas vantagens nas situações vividas, são as dimensões que estão em jogo, tanto nos contatos que mantiveram conosco como no material produzido no discurso livre.

Seria interessante reproduzir aqui fragmentos de algumas situações concretas. Comecemos por Nair: escrituraria, 42 anos, desquitada, vivendo em segunda união livre, sem filhos.

A entrevista, da qual transcrevemos a seguir alguns trechos, foi realizada no apartamento de Nair, um imóvel de sala, cozinha, banheiro e dois quartos, numa das principais ruas de um bairro muito antigo. Quando a entrevistadora chegou ao apartamento, Nair estava na cozinha. Depois da apresentação e da solicitação de entrevista, Nair prontificou-se a atender, pedindo desculpas por estar fazendo café. A entrevista começa:

No sábado seguinte, na hora combinada, a entrevistadora voltou e foi a própria Nair quem abriu a porta, dizendo em seguida: "Sabe, menina, eu hoje estou muito ocupada, e tenho muita coisa para fazer." Foi marcado um novo encontro para o sábado subseqüente.

Neste caso, toda a ambigüidade e o movimento pendular entre aceitar ou não a proposta ocorreram dentro da própria entrevista. Assim como aconteceu nos casos de recusa, essa agente não consegue decidir entre uma atitude e outra, e acaba postergando a questão, propondo um novo encontro para outro dia. A interferência do marido teve grande influência sobre a disposição de falar de Nair. Entretanto, como vimos, logo depois de ter se furtado a continuar falando e de ter adiado a conversa para outro dia, Nair iniciou uma longa fala sobre a colega suicida, queixando-se do governo, apesar de ter sido advertida justamente sobre isso por ele "homens aí" são os que governam, os que mandam).

Os contatos com Tadeu, 30 anos, solteiro, que mora na casa da irmã, começaram num sábado; e ficou marcada uma entrevista para o sábado seguinte. Durante o encontro; Tadeu falou um pouco, pediu para ouvir a gravação, desligou o gravador "de brincadeira" em um momento em que a entrevistadora pedia para que falasse mais, voltou a discorrer sobre si mesmo durante alguns minutos e, em seguida, disse que tinha que se vestir porque alguns amigos iam passar para apanhá-lo ao meio dia. (Ele mesmo, depois de informado, na semana anterior, de que a entrevista seria longa, havia marcado a visita para as 11h30).

Ana, esposa de funcionário público, falou o tempo todo tomando todos os cuidados paira que a mãe não a ouvisse; mas, quando quis dar a entrevista por encerrada, alegou que não podia falar mais por causa da mãe.

Entre os funcionários, parece haver grande dificuldade por parte dos indivíduos em definir a entrevista como algo que pode ou não trazer-lhes algum benefício ou, ao contrário, acarretar algum dano. Assim, a impossibilidade de concluir uma avaliação e o medo de tomar qualquer tipo de decisão da qual possam se arrepender leva a infindáveis negociações com o entrevistador. O comportamento parecia refletir a ambigüidade interna, constituía-se de ações que significavam consentir e não consentir ao mesmo tempo. Evidentemente, no transcorrer das negociações, o entrevistado estava, de algum modo, aumentando suas informações sobre a situação com que se defrontava. Mas os dados nunca logravam chegar a ser suficientes.

Outro aspecto que nos chama a atenção é a prioridade da atuação sobre a verbalização.

N. - Pode sentar, eu estou fazendo café; é que a gente ácabou de jantar agora. Sobre o que você queria saber? Custo de vida, política?...

ENTREVISTADORA - A Sra. pode falar sobre o que quiser...

N. - Eu sou funciónária pública ... trabalho na Secretaria ... (ininteligível). Tenho esta casa que você está vendo; tenho meu marido e subalugo um quarto para duas psicólogas para poder viver, né? Porque o salário meu é pouco e o do meu marido também . . . Então meu marido trábalha numa  firma em Santo Amaro. Ganha mais ou menos, quer dizer, dá para cobrir as despesas da família, né? Mas junto com  o meu ordenado também. E ... é essa vidinha do dia-a-dia, trabalhando .... esticando dinheiro para dar para o aluguel, fazer feira, condução ... só isso ... Tem muita coisa, se a gente for falar... se não...

ENTREVISTADORA - Ah! Mas vá falando, está muito bom.

N. - Esperando o aumento do governo que não vem... que estão estudando e esse estudo não termina nunca... Mas quanto ao resto, tudo bem.

ENTREVISTADORA - Tudo bem ...

N. - Está. Só o custo de vida que eu acho assim muito difícil, sabe? Cada dia você vai ao supermercado, num dia a mercadoria está num preço, no outro dia é outro, então parece que não dá mesmo ... Por mais que ganhe ... está sempre em débito com alguma coisa.

(F. entra na cozinha, N. se dirige a ele: - Ela está perguntando sobre a nossa vida, o que a gente ganha, quanto gasta ... )

F. - A vida é boa de ser vivida, desde que a gente tenha com o que viver (risadas). Porque viver na dureza não é mole. (Dirigindo-se à entrevistadora: - Você é da Universidade?)

ENTREVISTADORA - Sou.

F. - Faculdade de Comunicações?

ENTREVISTADORA - Não. Ciências Sociais.

F. - Ciências Sociais . . . Da Universidade de São Paulo?

ENTREVISTADORA - Não, da P UC.

N. (intervindo) - Então é ... vai ver que é rica.

ENTREVISTADORA - É nada.

N. - É, quem estuda lá não é pobre. E você trabalha fora?

ENTREVISTADORA - Sim.

N. - É, mas você deve ter uma mesada dos seus pais, né?

ENTREVISTADORA - Eu não.

N. - Não? Para sustentar a PUC precisa ser rica.

F. (dirigindo-se a N.) - Pois é, querida, fale bastante; desde que não fira os princípios da política . . . para não se comprometer, não é? Hoje em dia, a gente tem que dizer: não sou contra nem a favor, muito pelo contrário. É a posição de muita gente, infelizmente, não é?

ENTREVISTADORA - É...

F. - Se bem que a gente gostaria de tomar uma posição... (dirigindo-se a N.) - Pode falar, desde que não fira os homens aí, né? (ri e pede licença para se retirar).

N. - Ah, mas eu não tenho mesmo muito o que falar, não.

ENTREVISTADORA - Tem sim, dona N., o que é isso?

N. - Eu acho que em relação a muita gente, eu vivo bem. É sim. Não dá nem para se queixar muito... Arroz e feijâo tem todos os dias (risadas). Isso eu tenho certeza que não falta. Tem muita gente por aí que nem isso tem, né?

ENTREVISTADORA - É...

N. - Tem gente que no dia que come feijão não come arroz. Sou uma privilegiada da sorte. (Fala enquanto mexe as pícaras de café) . Olha, eu te aconselho . . . para eu poder conversar com voce eu precisava estar assim no meu dia, num dia que eu não tivesse muito o que fazer; que eu estivesse mais tranqüila; porque assim eu podia conversar melhor com você. Porque sabe, esta hora, hora de janta...

ENTREVISTADORA - Certo.

N. - Meu marido trabalha à noite, está para sair, sabe? Então isso atrapalha um pouco.

ENTREVISTADORA - Certo. A senhora prefere que eu venha outro dia?

N. - Ah, sim. Vocë marca um. . . o dia melhor é sábado, porque eu não trabalho no fim de semana... E o sábado é um dia que a gente pode bater aquele papo, assim, tranqüilo . . . Porque agora é uma hora meio ruim, não é?

ENTREVISTADORA - Hum ... sábado à tarde, assim, está bom?

N. - Está ótimo, de tarde.

ENTREVISTADORA - Lá pelas três, assim, tudo bem?

N. - É . . . três . ..

ENTREVISTADORA - Está bem éntão.

N. - Está OK?

ENTREVISTADORA - Tudo bem. N. - Mas o que eu falei, aí, falei um bocado de bobagem, porque não é verdade, não é tudo isso. Tem muita coisa . . . É, porque se for analisar bem como é que está a situação não é nada disso. Mas o que vocês vão fazer? Vão fazer um livro?

ENTREVISTADORA - É, um livro. Contando assim como é a vida das pessoas...

N. - Ah! É interessante. Você sabe o que é...

ENTREVISTADORA - Porque a gente vai falar com muita gente .. ..

N. - Mas vai ser publicado esselivro?

ENTREVISTADORA - Vai. Mais tarde vai ser publicado.

N. - É para estudos sociais, né?

ENTREVISTADORA - É. É um estudo. Um grupo de estudantes e professores está fazendo este trabalho.

N. - Mas vocês estão visitando todas as classes sociais, ou...

ENTREVISTADORA (repetindo o que já explicara ao solicitar a entrevista) - Olha, a gente está fazendo vários bairros, várias ruas, né? E tentando pegar o maior número possível de pessoas. Inclusive a senhora foi escolhida. Eu já tinha vindo aqui e tinha feito um levantamento e tinha  falado . . . acho que com a S.

N. - É, com a S.

ENTREVISTADORA - Depois a gente fez um sorteio, porque a gente vai falar com muita gente, mas não dá para falar com todo mundo, né?

N. – É ...  é um negócio assim muito... é meio arriscado falar assim com as pessoas que não conhece direito...

ENTREVISTADORA - Não, mas a senhora pode ficar sossegada quanto a isso, porque o nome não sai, porque a gente vai falar com muita gente, então colocar o nome, endereço, etc.,- essas -coisas não interessam, porque a gente vai pegar assim o que é comum, sabe, na vida dessas pessoas... Sabe, então quanto a isso a senhora não se preocupe, não precisa dizer seu nome inteiro, nada disso, não tem problema...

N. - É, mas o melhor dia mesmo seria no sábado, porque eu estou mais tranqüila... Sem os problemas de despachar o marido para o trabalho e ter que pensar que eu tenho que preparar muita coisa ainda para amanhã, sabe?

ENTREVISTADORA - Certo.

N. - Então eu acho assim que o bom mesmo seria sábado.

ENTREVISTADORA - Tudo bem, então.

N. - E no sábado a gente pode entrar num entendimento assim e conversar muito, falar muito sobre muita coisa .... Tome um cafezinho.

ENTREVISTADORA - Obrigada.

N. - Mas você sabe, menina, que a vida atualmente está tão difícil, tão difícil, que a gente não sabe mais nem o que fazer, né? O custo de vida muito, muito difícil. Subiu demais. Eu acho que, eu acho mesmo que o governo devia tomar uma providência... congelar os preços dos gêneros de primeira necessidade,que tem gente morrendo de fome, demais. Inclusive, olha, uma colega que trabalha, trabalhava comigo, ela estava com uma série de problemas, o marido desempregado desde novembro; com duas crianças... Resultado, ela terminou se matando sexta-feira... Então eu estou muito chocada com isso... Muito revoltada, sabe? Uma revolta muito grande, porque atualmente acontece isso dentro de um esquema do governo. Para um funcionário do Estado acontece um negócio desses. Tem horas que eu não sei, me dá uma raiva que, nossa, não gosto nem de falar. Eu não me conformo... então eu estou muito chocada, sabe? Estou sem dormir, chateada... E ela era uma colega que trabalhava lado a lado, sabe?... E a gente sabendo do problema dela e também sem poder ajudar... Porque não tem condição. Porque se você vai dar quinhentos cruzeiros para ela, aí não resolve, nem quinhentos, nem mil... Ela precisava de muito dinheiro. Aliás, não sou só eu que estou assim; está todo mundo lá na repartição, todo mundo muito chateado... É uma coisa que, viu, mesmo, que a gente está escandalizada... Enquanto isso, eles estão discutindo o aumento do funcionário ...

ENTREVISTADORA - Aumento...

N. - Eu ainda não sei como é que vai ser. Essa... essa moça, eu estou sem dormir. Não consegui dormir de sábado para domingo... su: pernervosa... e sei lá, assim, foi uma coisa muito chocante, assim, sabe?... A gente durante a semana trabalhou junto, tudo, e ela faz una troço desses... o pior é que todos sabiam da situação da coitada e não ajudaram. Quem podia?... não a ajudaram. No que eu podia ajudar, uns quinhentos cruzeiros, não iria resolver, né? Mas eu, eu dava alguma coisa de mantimento para ela; mas dinheiro vivo mesmo eu não tinha condição... Mas aqui no prédio você não foi em outras casas?

ENTREVISTADORA - Fui. Fiz une levantamento, mas depois a gente fez um sorteio ...

.N. - Engraçado, você não é a primeira pessoa que vem aqui. Da outra vez veio um rapaz aqui, mas eu não quis atender.

ENTREVISTADORA - Hum... hum... Mas não devia ser a mesma pesquisa...

N. - Não sei, era pesquisa também. Quando é que você veio aqui?

ENTREVISTADORA - Acho que faz umas duas semanas, mais ou menos.

N. - Porque é difícil me achar erra casa. Eu chego tarde, chego às seis horas aqui em casa. E tenho sempre muita coisa para fazer. O dia mais folgado para mim é sábado mesmo... Se você quiser voltar sábado, eu espero.

ENTREVISTADORA - Certo. Etc volto, sim. Volto mesmo.

No quarto e último encontro com Nair, uma amiga sua telefonou e Nair convidou-a (com voz baixa e rapidamente, para que a entrevistadora não percebesse) para vir a sua casa. Recebeu a amiga, que chegou com uma criança pequena. Logo depois, no próprio quarto em que dava a entrevista; falava com a amiga, brincava com a criança, e de vez em quando dizia à entrevistadora que essa podia fazer as perguntas. As outras moradoras do apartamento também entraram no quarto. Nair disse que queria ouvir o que fora gravado, pedindo para todos escutarem. Aproveitando a confusão geral, a entrevistadora deixou a fita rodar um pouco e em seguida desligou; alegando algum problema no gravador; preferiu dar a entrevista por encerrada (2).

Análise do Material

a) Estratégias de sobrevivência

A família conjugal, compondo uma unidade doméstica, que é o padrão entre os operários e os funcionários públìcos alotados em tarefas manuais e semi-manuais, constitui uma exceção dentro deste grupo; ape-nas um dos seis casos insere-se nesse quadro. Os restantes compõem diferentes formas de agrupamento domiciliar: casal com filhos morando desde o casamento na casa da mãe da mulher; homem solteiro de 30 anos na casa da irmã casada e do cunhado; grupo de amigos dividindo apartamento; sublocação de cômodos para pensionistas; união de tipo conjugal entre uma mulher de 40 anos e um jovem de 20, com coabitaçâo no apartamento dela (3).

Ao contrário dos operários pouco qualificados, que ocupam bairros e municípios novos e pobres na periferia, os funcionários habitam, de preferência, as zonas antigas da cidade. Trata-se geralmente de zonas ou ruas desvalorizadas, onde o preço do aluguel (não possuem casa própria) é baixo; em outros casos, o tempo muito longo de locação produziu por si só o efeito de rebaixar os preços. Ademais, a estratégia de agrupamento consegue baratear ainda mais todos os custos do nível primário de sobrevivência: ã divisão do aluguel e de todas as outras contas relacionadas à moradia, o bãrateamento da alimentação em escalas mais largas, a viabilidade de se pagar uma empregada, com um rrúnimo de gasto individual, permite a possibilidade de se conseguir, apesar dos salários relativamente baixos, um excedente para outros gastos, como lazer, automóvel, vestimenta, eletrônicos, viagens etc.

Na verdade, este tipo de agrupamento domiciliar, composto de adultos que trabalham, representa a maximização dos recursos que, nas famílias operárias, é atingida quando, todos os filhos, já adultos e profissionalizados, moram na cãsa construída para a mãe, com o esforço conjunto de todos os membros da família. Entre os nossos casos, só encontramos crianças (duas) no domicílio partilhado pelo casal e a mãe da mulher ( que é também o único caso de casa própria). Os próprios agentes têm consciência de que o tipo de vida que levam deve-se ao controle dos gastos e à ausência de crianças.

Os recursos advindos das estratégias de agrupamento e disciplina são sentidos pelos agentes como algo muito precioso, que confere às suas biografias seu caráter especial. Alguns avaliam os ônus que lhes custam a obtenção desses privilégios. Diz Nair: "Trabalho muito, mas também tenho minhas horas de lazer, né? Viajo muito. Todo fim de ano eu consigo. Fazendo economia dá pra viajar . . . "

Por vezes, aparece em suas associações a percepção de que tiveram de pagar também os ônus de abdicar de algo maior. No discurso de Tadeu aparece a seguinte elaboração: "Eu trabalho, estudo... e... sou bastante feliz, né? Tenho uma família ótima, um emprego maravilhoso. Tenho amigos. Está tudo dentro do que eu queria, certo? Não tenho nada assim que mais aspire'".

A ausência de planos a longo prazo, ou do desejo de acumulação, vivamente presentes en tre os operários, parece representar uma adaptação aos salários baixos e ao fato de não pensarem na alternativa, nem mesmo ao nível de fantasia, de mudarem de tipo de atividade profissional. Na verdade, representam um grupo que se situa no primeiro patamar dos cargos que representam algum tipo de privilégio. Eles sabem que não lograriam, fora, uma posição melhor, mas o fato de terem tido a sorte de entrar para o sistema de privilégios leva-os a se queixarem de suas condições relativamente precárias dentro dele. O rebaixamento do salário real contribui também para isso.

b) O estilo de vida

O núcleo de identificação de sua própria posição social reside no tipo de vida que são capazes de ter. Sentem-se expropriados quando não podem realizar qualquer atividade extra-rotineira, daquelas que "dão sentido à vida", como as viagens, os amigos, os espetáculos. Sentem necessidade, ao menos, de manifestar conhecimentos sobre esses padrões, e mostrar que se ressentem de sua falta. Esse é o sinal de distinção que os refere a uma determinada, classe social (4) . É fundamental um investimento em bens simbólicos (5).

Cultivar amizades constitui um investimento em capital social que oferece retornos muito satisfatórios. Diz Tadeu: "Tenho amigos. Costumo viajar quase todo fim de semana. Vou para a praia ou para alguma casa de campo, assim... Tenho um bom relacionamento com amigos. Tenho um grupo bom... A gente vai muito para a casa de um amigo que tem um apartamento no Guarujá. Ou então, para a casa de outro amigo, em Campos do Jordão."

No contexto dessa valorização do simbólico, a cultura e a erudição ocupam um lugar relevante, que é mais um sintoma da preocupação de enfatizar uma estrutura de consumo diferencial e sofisticada. Enquanto o discurso dos operários privilegia uma ampla exposição do esforço e das dificuldades que enfrentam na obtenção do dinheiro, acompanhada muitas vezes da descrição da tarefa que realizam profissionalmente, os funcionários públicos ligados a tarefas administrativas parecem muito interessados em oferecer uma imagem de si mesmos enquanto pessoas refinadas e dotadas de um savoir faire especial. Esse traço afasta-os muito do ascetismo pequeno-burguês que valoriza o trabalho e o esforço, encontrado entre os motoristas de táxi. Ao contrário, saber contornar os aspectos desagradáveis da vida e buscar prazer e proveito sempre que possível parece ser a estratégia igualmente vigente no universo do próprio trabalho.

O pólo de identificação social não é, de fato, o de uma burguesia refinada ou de uma pequeno-burguesia em ascensão, como no caso dos motoristas que estudamos. Um modelo diferente de sucesso está presente aqui, muito provavelmente o de uma aristocracia que, dentro da tradição cultural brasileira, caracteriza-se pelo desprezo a certas atividades julgadas ilegítimas, ligadas não só aos trabalhos manuais como também ao comércio. O trabalho árduo está associado às camadas pobres, das quais os funcionários fazem questão de se diferenciar. Numa sociedade de mentalidade escravocrata como a brasileira, todo esforço físico despendido no trabalho remete a uma posição social muito inferior. Nair refere-se às suas atividades manuaüs (domésticas) com ironia, indicando o quanto elas são impróprias para alguém como ela.

A indignação dos funcionários em relação aos seus salários não é relacionada por eles ao trabalho que executam. O desgaste físico, quando mencionado, refere-se à chegada ao trabalho dentro do horário, à duração da jornada e do retorno para casa. Dentro dessa configuração, a predisposição desses agentes para o trabalho burocrático parece explicar-se mais por aparentar um certo caráter "nobre" do que pelo apego à ordem e ao rigor que caracterizam esse segmento social em outras sociedades. Conseguir levar uma boa vida sem passar pelas mediações sociais mais comuns que a condicionam (diploma, esforço, ascetismo, trabalho árduo) implica uma sabedoria cultivada nesse grupo, e evoca a situação de uma aristocracia cujo privilégio está dado desde sempre, e cuja trajetória não se constitui de conquistas pessoais. Ao inquirir sobre a situação social da entrevistadora, Nair, num trecho que já reproduzimos, repete a afirmação "você deve ser rica" e, nessa imagem que constrói, o fato de a entrevistadora explicar que trabalha não preenche seus pressupostos; Nair apela para a possível existência de outro tipo de receita ( a mesada dos pais), que se coaduna melhor com suas representações de "gente rica" e de um dinheiro que não vem do trabalho.

Da mesma forma, os planos para o futuro não passam por um projeto de ascensão sob a forma de carreira. Não se colocam para si mesmos a alternativa de mudar de emprego; para os cargos regidos pelo Estatuto do Servidor Público, a aposentadoria constitui uma das maiores vantagens, e é vista como o contraponto das desvantagens, principalmente dos baixos salários. Assim, a mesma estratégia de conseguir viver bem por ter renunciado às ambições maiores regem o presente e a antecipação do futuro. Muito provavelmente, a posição de aposentado pode lhes conferir finalmente aquilo que de certa forma sempre reivindicaram: uma retribuição financeira que não passa pelo trabalho, que foi conquistada de uma vez por todas e que, mesmo em caso de morte, passa, para o cônjuge e os filhos.

Enquanto os operários clamam por grandes mudanças e tentam redobrar seus esforços, os pequenos funcionários se vêm limitados por um exercício de paciência e espera, em torno de assuntos que não dependem de seu próprio comportamento. Da mesma forma, os bens simbólicos não são avaliados como algo que pode alterar o futuro, como ocorre entre os funcionários alocados em cargos manuais e semi-manuais, em instituições de saúde e educação. De um modo geral; tudo o que possa depender de sua própria iniciativa é apagado ou, pelo menos, minimizado. A responsabilidade pessoal é negada, da mesma forma que, segundo Alain Darbel e Dominiqué Schnapper, ocorre no desempenho de sua tarefa profissional: "(...) tudo se passa como se os processos administrativos tendessem a tornar o mais imperceptível possível a responsabilidade dos indivíduos" (Darbel e Schnapper, 1969).

c) Visão de mundo e habitus de classe

A inserção dos funcionários públicos de baixo escalão ligados às tarefas administrativas na estrutura social caracteriza-se pela proximidade com os grupos de alto nível, na qualidade de clientela. Esses agentes recompõem, de alguma maneira, dentro do mundo urbano, a categoria dos antigos "agregados" das grandes famílias proprietárias de terras que, por algum laço de parentesco (algumas vezes muito longínquo) ou mesmo por amizade, gravitam em torno dos grupos poderosos, recebendo em troca os favores, de certo modo assistenciais, dos dominantes.

Se imaginarmos o campo da "clientieia" como um conjunto de círculos concêntricos, os agentes que ocupam os cargos administrativos mais baixos situam-se em um espaço social muito distante dos múltiplos centros de poder espalhados no campo mais amplo da instância política. O privilégio expresso pela nomeação de cargos, no caso dos nossos funcionários, é longínquo e mediatizado. Apenas quando inquiridos (no questionário final) fornecem informacões sobre o ingresso, passando pelo tema muito rapidamente: "entrei por política", "o patrão da minha irmã conseguiu", "foi um deputado federal". Ao contrário, no subgrupo dos que possuem uma qualificação e um diploma (como no caso de uma professora primária), encontramos grande indignação contra o grau de exigência (concurso e estágios por diversas regiões rurais) em troca dos baixos salários e péssimas condições de trabalho que o Estado oferece.

O segmento social de onde são recrutados nossos casos apresenta primordialmente um caráter de fronteira; é um espaço social situado na tangente de diversos espaços mais bem definidos e provavelmente mais adequados ao mundo urbano no atual estágio de desenvolvimento do país. Em primeiro lugar, a grande massa dos trabalhadores manuais, que de algum modo encontrou seus pólos de identificação e referência no mundo industrializado, urbano; em segundo, o mundo da iniciativa privada, oferecendo a outros segmentos das classes médias a oportunidade de existir e crescer nos interstícios deixados pela grande indústria (posições ocupadas principalmente pelos imigrantes e seus descendentes); em terceiro, os novos órgãos estatais e de economia mista, mais dinâmicos, que se ocupam dos serviços prestados pelo Estado e, que têm maior visibilidade e prestígio sociais, além de melhores salários, em função de sua relativa eficiência; e, finalmente, os núcleos de poder, que, embora conservando inúmeros traços anacrônicos, estão sendo crescentemente obrigados a adotar políticas mais modernas, de massa, pelo menos nos mecanismos que regem seus centros hegemônicos, situados nas grandes metrópoles.

Os pequenos funcionários públicos alocados em tarefas administrativas sofrem, portanto, uma dupla marginalização: ocupam regiões de fronteira no espaço e tempo sociais. Essa posição no campo explica boa parte das disposições de seus ocupantes no que se refere à ambigüidade à qual já nos referimos. As tentativas de avaliar o entrevistador a partir de um conjunto mais amplo de percepções, que valoriza a proximidade com representantes de posições mais privilegiadas, faz parte de uma estratégia mais geral de usufruto indireto do capital econômico é simbólico de outrem, e que se reflete em práticas como morar na casa dos parentes que têm mais dinheiro, freqüentar amigos que possuem casas de praia e de campo, receber amigos "intelectuais", acompanhar cursos que não são "de faculdade".

Ao mesmo tempo, a impossibilidade de chegar a uma conclusão acerca do entrevistador, que se manifesta nos infindáveis movimentos de atração e repulsa, parece indicar a dificuldade de encontrar critérios eficientes de julgamento social. Talvez tenham perdido a capacidade de discriminação social, no mundo complexo e cambiante no qual vivem hoje.

Na percepção que têm de si mesmos, sentem que estão de algum modo destinados a uma vida relativamente fácil e agradável, que os diferencia em relação ao proletariado e à trajetória penosa de uma pequeno-burguesia destituída de capital simbólico (artesãos, pequenos comerciantes etc.). De fato, pertencem a grupos privilegiados socialmente, embora se situem nas franjas desse universo: não detêm, de resto, os trunfos necessários para melhorar economicamente em nenhum dos setores alternativos de inserção dentro do grupo privilegiado.

O apego aos sinais de distinção, representado pela valorização do simbólico, constitui a base de identificação social e da sobrevivência em termos individuais, nos casos estudados. O conteúdo do discurso pode parecer à primeira vista evasivo; se comparado ao dos operários trabalhadores por conta própria e outros tipos de funcionários públicos. Enquanto estes apresentam uma concreção de pensamento que não conseguem abandonar mesmo quando se esforçam para produzir uma peça de algum modo estética, que é o discurso livre, os funcionários públicos alocados em tarefas administrativas apresentam uma recusa de descer ao concreto, rodando em círculos em torno daquilo que as coisas podem significar. Enquanto Nair (escriturária) e Tadeu (contador) usaram a maior parte de seu tempo falando de viagens, amigos, teatro etc., Ana, esposa de funcionário administrativo, descreveu dramaticamente os detalhes das escaramuças entre sua mãe e seu marido, encobrindo porém a situação econômica do casal, que vive praticamente às custas da mãe. Diz Ana: "Mas ela é demais. Tem dia que está insuportável. Insuportável mesmo, viu? Ela ajuda bastante, isso eu... eu reconheço. Que ela ajuda mesmo. Que ela ganha do... meu pai era sargento. Ela ganha, sabe? Meu pai faleceu faz 17 anos. Quer dizer; ela vai fazer o que com o dinheiro? Ela me ajuda, né? Eu sou procuradora dela. (...) Mas tem dia que eu vou te falar, viu? Ela odeia ele. Ela xinga ele de tudo quanto é nome."

Esses agentes parecem ter adaptado seus gostos e pretensões àquilo que realmente podem obter. Uma compra a prestação parece resolver tudo o que almejam; ao contrário, nos outros segmentos estudados, os indivíduos parecem estar se debatendo todo o tempo contra a impossibilidade de viabilizarem seus planos. A própria entrevista que, com alguma freqüência, significava para os operários um clamor que poderia ultrapassar os limites da situação e mudar algo, era percebida pelos pequenos funcionários adurinistrativos como algo que, se não trazia os benefícios ou riscos inicialmente imaginados, poderia ser adaptada para produzir algum prazer. Tadeu e Nair pediram para ouvir sua própria voz gravada; Nair solicitou à entrevistadora que a avisasse quando algum espetáculo interessante estivesse sendo levado no teatro da Universidade Católica; ambos fizeram a entrevistadora prometer que lhes levaria o livro depois de pronto.

Se tentássemos encontrar os traços difrenciadores desses agentes no fato de exercerem cargos burocráticos, essa tentativa não nos levaria muito longe. A tendência à burocratização em todos os setores de trabalho, no inundo moderno (cf ., entre outros autores, Crozier, 1963), bastaria para fazer perder a força do argumento; se a intenção é estabelecer critérios discriminadores e reconstruir a especificidade de um segmento sócio-profissional. Assim, embora mantendo como pano de fundo mais amplo a idéia das instituições e tarefas burocráticas, outras dimensões relevantes têm de ser levadas em conta, enfatizando-se o tipo de percepção que os próprios agentes desenvolvem sobre sua situação.

A análise do material empírico indica, em primeiro lugar, a importante posição que ocupa, na constelação de determinações mais específicas, a afiliação ao Estado. Para entendermos o significado dessa afiliação; cumpre, em primeiro lugar, deslindar o que significa o Estado, ou melhor, o "governo", como eles preferem, nas representações dos agentes. O Estado convertido em instrumento de dominação e opressão de classe de Marx está muito longe do "governo" onipotente. com que lidam, em seu universo intrapsíquico, as classes baixas no Brasil (6). Basicamente, percebem a sociedade composta pelo povo (gente pobre), os ricos e o governo. Nenhuma injunção pesa sobre as decisões governamentais: pressões sociais ou mesmo qualquer imperativo da realidade. O governo pode fazer tudo o que quiser, desde quede proponha a isso. Baixar o custo de vida representa para ele o mesmo grau de dificuldade ( quer dizer, nenhuma) que aprovar a lei que autoriza o divórcio. Um funcionário público alotado em tarefas manuais afirmou que "até o governo é pequeno diante de Deus", frase que revela o que pretende negar.

Os sentimentos em relação à afiliação ao Estado ultrapassam de muito a vivência de um vínculo empregatício. Desde logo, denomina-se, no Brasil, o funcionário de "servidor" público. Poderíamos dizer que esses indivíduos se sentem, não inseridos, mas imersos no Estado. Essa representação não passa pela tarefa que executam. nem pela instituição na qual estão alotados. É uma referência direta, total, que não comporta mediações. Essa imersão do tipo identificativo remete-nos a constelações muito regredidas do ponto de vista do desenvolvimento emocional. Segundo Winnicott, ao nível mais regredido de uma identificação materna, há o ser e não o fazer. A não distinção entre sujeito e objeto caracteriza o elemento feminino (tanto no homem como na mulher) que nos conduz ao Ser e constitui "a única base para a autodescoberta e para o sentimento de existir" (7).

A impossibilidade de pensarem outra alternativa profissional deve-se em grande parte a essa maneira de perceberem sua ligação core o Estado. Por sua vez, essa representação do vínculo constitui um reflexo da própria regulamentação que rege as instituições estatais no Brasil. A importância do ato de entrar para o serviço público (seja por política ou por concurso), os prêmios pela permanência (complementos salariais e promoções por tempo de serviço, vitaliciedade no emprego, aposentadoria, pensão para a família depois da morte) esvaziam o sentido do fazer, reforçando a importância do ser.

De um modo geral, os autores descrevem as transformações pelas quais passou o serviço público no Brasil sem a preocupação de compreender de que maneira o grupo de agentes vinculados a esse sistema viveram historicamente as mudanças em suas próprias condições objetivas de vida, em suas percepções de si mesmos e em sua visão de mundo. Cumpre lembrar que as principais alterações consistiram:

a) na implantação repentina de modelos totalmente contraditórios aos vigentes até então, importados de países com tradições políticas, éticas e culturais bastante diversas das brasileiras. A grande reforma, que instituiu nos anos 30 um sistema de mérito, de inspiração americana, paca substituir os antigos padrões paternalistas, sem que a eáclencia pretendida tenha sino jamais alcançada, é o melhor exemplo disso (8);

b) na criação de órgãos paralelos (ampliação da administração direta), de empresas estatais e de capital misto (administração indireta), com o objetivo de superar o emperrarnento da antiga máquina administrativa; na proliferação dos convênios com instituições particulares (principalmente na área da saúde) (9);

c) no número crescente de admissões de funcionários em regimes diferentes daquele que caracterizava o vínculo empregatício com o Estado, regido pelo Estatuto do Funcionalismo Público Brasileiro (10);

d) no desinteresse gradual pela parcela tradicional do funcionalismo, refletido principalmente na grande deterioração do salário (11) apesar do aumento do número de horas da jornada de trabalho;

e) no surgimento, principalmente a partir dos anos 50, de uma sociedade industrial relativamente modernizada e a conseqüente criação de novos segmentos sociais, com experiências devida, condições de vida e ethos muito diferentes dos das antigas camadas médias de que fazem parte os pequenos funcionários;

f) ainda em conseqüência do avanço da industrialização, na solidificação de uma classe dotada de traços e comportamentos muito nítidos, constituída pelo novo e numeroso proletariado industrial, atuando como um pólo de identificação social de forte poder de atração, justamente devido ao fato de apresentar uma história e um comportamento inequivocadaménte definidos (12). Além dessa atração, cuja força vai aparecer principalmente no horror que desperta entre os funcionários públicos a hipótese da indiferenciação, os operários qualificados, com seus salários mais altos e sua crescente capacidade de pressão, mobilizam nos pequenos funcionários todos os recursos de negação e compensação que podem utilizar.

A história institucional do grupo pode ser vista como a história da utilização de um segmento social pelo poder (13), marcada nas últimas décadas por um menosprezo gradual, que tenta impingir à própria vítima sua causa: "te desprezo por seres desprezível". Um estudo mais detido do contraponto psicológico (14) desse processo pode nos conduzir a hipóteses tão ricas quanto assustadoras no que se refere ao alcance das experiências objetivas de um grupo sobre sua mente.

À identificação extremamente regredida acrescenta-se a rejeição do Estado-mãe, configurando a dicotomia aproximação-expulsão, típica do "duplo laço" descrito por Bateson, que ao nível individual está na origem da esquizofrenia: "a criança é punida por discriminar com acuidade o que ela (a mãe) está expressando e ela é punida por discriminar sem acuidade ( incorretamente) - está presa a um duplo laço" ( Bateson, 1973). Os ingredientes necessários para uma situação de duplo-laço são, segundo Báteson, os seguintes: a situação deve comportar duas ou mais pessoas, sendo uma delas a vítima e a outra a mãe, que pode infligir o duplo laço sozinha ou em combinação com o pai e/ou irmãos.

O duplo laço é um tema recorrente e não uma experiência traumática; singular, de tal forma que a sua estrutura se torna natural; uma injunção primária do tipo "não faça isto ou aquilo, ou irei puni-lo"; uma injunção secundária conflitando com a primeira num nível mais abstrato e, como esta, reforçada por punição ou sinais que ameaçam a sobrevivência; uma injunção negativa terciária proibindo a vítima de abandonar o campo; por último, o conjunto de ingredientes não é mais necessário quando a vítima aprendeu a perceber seu universo nos padrões do duplo laço. Apenas uma parte qualquer de uma seqüência do duplo laço pode ser suficiente para precipitar pânico ou raiva.

A teoria do duplo laço aplicada ao tipo de afiliação ao Estado encontrada acrescenta novos recursos explicativos ao problema da incapacidade de discriminação (15) e a outrós mecanismos que já apontamos neste grupo. O apego ao simbólico encontra à luz dessa hipótese suas implicações mais profundas. A proibição de abandonar o campo, inerente ao duplo laço, leva à impossibilidade de pensar uma alternativa profissional fora do Estado; o apego ao ritiaalismo protege o indivíduo contra o risco de olhar para qualquer outra direção (16). A esperança investida sobre a possibilidade de alteração das condições de vida pela ação de qualquer elemento externo que possa surgir (as chances, que ocupam grande parte dás idéias dos operários) inexiste nas associações dos funcionários. O esforço investido na maximização dos recursos existentes constitui uma medi.da indireta da descrença de que algo de novo tenha qualquer probabilidade de ocorrer.

Nada virá de fora. Isso torna o mundo intradoméstico a arena onde cada objeto e espaço são disputados palmo a palmo. A estratégia do agrupamento domiciliar reforça, obviamente, a necessidade de demarcação da propriedade de coisas e lugares. Mas o imperativo de conservar o já existente (porque nada se espera do ambiente mais amplo, de fora do universo atualmente apropriado) explica um tipo de apego e de individualismo que transcende o que teria necessariamente de existir em decorrência da coabitação. O fato de não terem podido abandonar o serviço público e se submetido a todas as adaptações que a decadência do setor impôs levou igualmente esses agentes a abdicarem de um domicílio ocupado pela família, de ter ou criar filhos ( alguns os mantêm em casas de parentes em cidades do interior). O individualismo e a ambição material reduzida ao desejo de fazer pequenas viagens e de comprar objetos relativamente baratos não deixam de ser, em certo sentido, parte dessa adaptação proporcionar a si mesmos pequenos prazeres; reduzindo ao mínimo as despesas com a sobrevivência básica, é só o que dá para fazer com a renda atual. Qualquer alteração implicaria outro risco périgosíssimo, o da proletarização. O apego ao simbólico tem, portanto, uma função que; como já vimos, está longe de ser superficial ou supérflua; constitui a condição de identidade e de sobrevivência social e psicológica.

Não existe, igualmente, qualquer esperança investida no futuro. Enquanto outros segmentos das classes baixas fantasiam de alguma maneira ( até o extremo da kolta de Cristo) uma mudança; geralmente uma reviravolta depois da qual á justiça será feita, o baixo funcionalismo público alocado em tarefas administrativas representa para seu próprio futuro uma continuidade. Apesar disso, não aparecem imagens de um panorama muito sombrio (17). Embora curto, o salário estará sempre lá, mesmo depois de encerrada a vida profissional, mesmo depois da morte.

As mudanças parecem mesmo representar algo perigoso. De fato, no passado, as alterações foram para pior. Além disso, qualquer coisa que se mova ameaça a versão pegadora da realidade; a construção simbólica do universo esbarra a cada instante com o teste de realidade, que a denuncia.

Na perspectiva temporal é que apare mais claramente um desencantamento do mundo de tipo muito especial que os casos estudados revelam: parecem ter trocado a vida, o entusiasmo e a emoção que poderia acompanhá-la, por pequenas vantagens como trabalhar menos, se divertir mais, sentir-se garantido no futuro. Continuar no Estado exigiu numerosas adaptações nas condições objetivas de vida, e a elas se somam as "negociações" de tipo emocional. Parecem não acreditar realmente em nada. Tudo é um jogo, no qual é possível tirar vantagens, ganhando pequenas paradas.

Pelo menos a nível da organização perceptual que utilizam, os outros segmentos ( operários, motoristas, outros subgrupos entre os funcionários) acreditam que sua vida e seu futuro dependem muito dos rumos que eles próprios lhes imprimirem. Da mesma maneira, sentem-se muito mais responsáveis pelos fracassos passados, que atribuem a falhas pessoais. Os funcionários deste grupo vêem seu destino na forma de ações de outrem (a cúpula  política e administrativa) que recairão sobre eles na forma de porcentagens de aumentos, através de portarias. Mas o principal já está definido, e é o conjunto de parágrafos que compõem o Estatuto do Servidor Público. Resta ao agente contar seu tempo de serviço ou examinar outros aspectos de sua história profissional para verificar quando os principais eventos de sua vida ocorrerão. Mas resta também, dentro deste espaço delimitado (e talvez o fato de estar perfeitamente circunscrito viabilize essas práticas) arrijar, pequenas estratégias (ruses) para ficar na melhor situação possível.

Todos os traços de ambigüidade e de incapacidade de discriminação que encontramos no grupo estudado (pequenos funcionários alocados em tarefas administrativas, efetivos) conduzem à hipótese de que a, construção de uiva identidade ao nível do ser, a vivência do duplo laço, as situações trans-contextuais significaram, muito provavelmente, uma crise na capacidade dos agentes se conhecerem a partir do senso prático a localização que mais lhes convém. Todo o sistema de regras, atrações e repulsas, estruturado a partir do habitus de classe, deixou de ser o guia que confere aos indivíduos o domínio prático que possuem sobre sua vida (18).

O emaranhado presente nessas regras teria sua origem, segundo a hipótese que levantamos, em dois sistemas de configuração mental: a situação de duplo laço e a inadequação entre o espaço social que esses agentes imaginam ocupar no campo e o que realmente lhes cabe. Atuantes desde sempre, esses dois fatores vêm adquirindo crescente intensidade com o tempo, atingindo hoje limites críticos. Isto é, manter, atualmente, as duas avaliações positivas da realidade suficientemente afastadas de sua negação, que permeia tudo o que se passa em torno, torna-se cada vez mais difícil, mobilizando todo o potencial de utilização de mecanismos que, antigos nesse grupo, atingem agora sua expressão mais acabada.

Notas

*Arakcy Martins Rodrigues - Professora de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da USP e Professora Titular de Psicologia da EAESP/FGV.

 

1 - A jornada de trabalho era de seis horas e o tempo de vida ativa até a aposentadoria (25 anos para as mulheres e 30 para os homens) mais curto que em outros regimes de trabalho, que exigiam cinco anos a mais. Os funcionários públicos recebiam um adicional de cinco por cento em seus salários a cada qüinqüênio e um acréscimo equivalente à sexta parte dos vencimentos ao completarem vinte e cinco anos de serviço. A cada, cinco anos, podiam gozar uma licença-prêmio de seis meses; duas faltas por mês podiam ser abonadas sem. justificativa, e as licenças por problemas de saúde eram muito mais fáceis de obter que em outros setores.

 

2 - A preferência pelos procedimentos velados foi observada por Gilberto Velho no estudo sobre os moradores de um prédio em Copacabana: "Quanto ao síndico, a atitude podia ser muito ambígua. Embora fosse regra geral falar mal, criticar o seu trabalho, isso dificilmente se traduzia em confrontos diretos. Havia quem desse telefonemas anônimos para o seu apartamento, dizendo palavrões e obscenidades, insultando-o e a sua família, podia-se xingá-lo escrevendo nas paredes dos corredores, mas tudo isso era praticado em clima de clandestinidade, mantendo-se o anonimato." ( Velho, 1977)


3 - É o caso de Nair Seria interessante acrescentar que ela o conheceu quando ele era pensionista na casa da mãe de Nair, que morava, ela própria, num pensionato antes dessa união.

 

4 - "(...) os grupos de status definem-se menos por um ter do que por um ser, irredutível a seu ter, menos pela posse pura e simples de bens do que por uma certa maneira de usar esses bens, pois a busca da distinção pode introduzir uma forma inimitável de raridade, a raridade da arte do bem consumir, capaz de tornar raro o bem de consumo mais trivial." ( Bourdieu, 1966 )

 

5 - "De fato, nada mais falso do que acreditar que as ações simbólicas nada significam além delas mesmas: na verdade, elas exprimem sempre a posição social segundo uma lógica que é a mesma da lógica social, a lógica da distinção." (Bourdieu, 1966)

 

6 - Raymundo Faoro atribui ao próprio caráter do Estado brasileiro essa reação da sociedade em relação a ele. "No soberano concentram-se todas as esperanças, de pobres e ricos, porque o Estado reflete o pólo condutor da sociedade (...) O povo quer a proteção do Estado, parasitando-o, enquanto o Estado mantém .a meno ridade popular, sobre ela imperando. No plano psicológico, a dualidade oscila entre a decepção e o engodo." (Faoro, 1976).

 

7 - Trabalhando sobre essas colocações de Winnicott, Myrna Pia Favilli acrescenta:"(...) podemos pensar que uma identidade feminina básica é a depositária das garantias de vida para qualquer ser humano (...) podemos pressentir que a desidentificação com a figura materna (...) pode pôr em relevo o perigo de uma perda primordial, que seria a perda da noção de ser (...) "

 

8 - Ver, por exemplo, Graham (1968 ) .

 

9 - Para todos os dados, encontramos dificuldade de acesso a informações que se referissem ao conjunto do serviço público brasileiro. Assim, tentaremos ilustrar algumas situações com dados parciais que logramos obter. Para o caso da expansão da administração indireta, no Estado de São Paulo, "as agências que compõem a administração paralela conheceram uma expansão sem precedentes e, às poucas autarquias e institutos existentes em 1962 (...) foi acrescentado um número expressivo de empresas, fundações e superintendências (...) Mais precisamente, no momento presente o setor descentralizado compõe-se de 65 unidades, sendo que três delas em fase de implantação. Dessas, 32 têm o stcitus de empresa, 22 são autarquias e 11 são fundações". ( Sachs, 1982 ) .  

 

10 - Na administração direta, encontramos uma inflação do número de "temporáriós", categoria que veio substituir; com desvantagens para os funcionários, os antigos "extranumerários", que conseguiam estabilidade ao fim de cinco anos. Os temporários; criados pela Constituição de 1967, definidos como "título precário" (os estáveis possuem cargos, enquanto os temporários exercem funções), com pouquíssimas vantagens (férias, licença-gestação, aposentadoria compulsória, por idade ou por invalidez), sem estabilidade, efetividade, direito a licença remunerada para tratar de assuntos particulares etc. Em 1974 e 1978 foram conquistando algumas dessas vantagens: atualmente gozam da possibilidade de obter aposentadoria de outro tipo, qüinqüênio ( adicionai de salário a cada cinco anos de permanência) e sexta parte (adicional de 1/6 do salário ao fim de 25 anos-de dedicação). Entretanto; o "temporário" é ainda hoje um cidadão de segunda classe, conforme nos informa Zilah Abramos jamais atingirá a estabilidade; encontra dificuldades no âmbito interno (preferência pelos estáveis para cargos- de chefia etc.); em geral, encontra também dificuldades para obter empréstimos em bancos, crédito etc. Em suma, é um funcionário estigmatizado, embora passe pelo mesmo concurso de ingresso que o efetivo. Para darmos apenas uma idéia do volume de temporá rios na administração direta, sabemos que a Secretaria da Saúde conta hoje, entre seus funcionários, com 1/3 de efetivos e 2/3 de temporários. Já na administração indireta e nas empresas estatais, o vínculo empregatício predominante é o da CLT ( Consolidação das Leis do Trabalho), própria da empresa privada. Entretanto, o funcionário público que trabalha sob esse regime sofre restrições em relação aos demais no que se refere aos reajustes salariais, proibição de greve e direito de sindicalização (até pouco tempo atrás, não recebia tampouco o 13 ° salário). Os casos que analisamos neste artigo pertencem à categoria dos estáveis ( regidos pelo Estatuto do Funcionalismo Público Brasileiro).

 

11 - Por exemplo, os salários correspondentes aos cargos de nível universitário correspondiam em 1977 a 7,8 salários mínimos e, em 1983, a 4,3 salários mínimos. Deve-se ainda levar em conta que antes de 1977 o rebaixamento do salário real do funcionalismo público já apresentava seus sinais mais evidentes: Nos últimos anos, o índice de reajuste do salário do funcionalismo foi a metade do reajuste do salário mínimo, sendo que esse último está passando por um significativo arrocho.

 

12 - Segundo Luc Boltanski, a questão da falsa consciência de classe é uma falsa questão, na medida em que os agentes que ocupam espaços sociais não nomeados ou fracamente caracterizados são levados a ser atraídos por algum pólo constituído por um espaço social totalmente nomeado, estruturado e conhecido. Assim poderíamos explicar, a um tempo, a identificação com a aristocracia e a repulsa pela possibilidade de uma caracterização proletária, no caso dos funcionários públicos.

 

13 - Como indica Faoro; tais segmentos não são, evidentemente, os únicos a serem manipulados pelo estamento político, que paira acima das classes e dos interesses do capital, no Brasil. "A comunidade política cónduz, comanda, supervisiona, os negócios, como negócios privados seus, na origem, e como negócios públicos depois, ern linhas que se demarcam gradualmente. O súdito, a sociedade, se confundem no âmbito de um aparelhamento a explorar, manipular, tosquiar nos casos extremos." (Faoro, 1976).

 

14 - A instância do psicológico não implica necessariamente a do individual. Neste caso, o termo refere-se às conseqüências da interação entre os fatos institucionais mais amplos e os agentes, ou às categorias que foram internalizadas por todo um grupo social.

 

15 - "Permitam-me cunhar o termo ‘trans-contextual’ como uma expressão genérica para esse tipo de síndrome. Parece que tanto aqueles cuja vida é enriquecida por dádivas trans-contextuais como aqueles que são empobrecidos por confusões trans-contextuais se assemelham num aspecto: para eles existe sempre ou frequentemente um ‘duplo sentido’. A folha que cai, a saudação de um amigo ou uma `primavera às margens do rio' não é `apenas isso e nada mais' " (Bateson, 1973).

 

16 - Evidentemente, no passado ou no presente, a situação . econômica deixou uma margem, se ja de abundância ou de ócio, que tornou possível a alternativa de fugir à concretude. "O jogo das distinções simbólicas realiza-se, portanto, no interior dos limites estreitos definidos pelas coerções econômicas e, por esse motivo, permanece um jogo de privilegiados nas sociedades :privilegiadas, que podem se dar ao luxo de dissimular as oposições de fato, isto é, de força, sob as oposições de sentido." (Bourdieu, 1966).

 

17 - O medo em relação ao futuro é igualmente  muito comum entre os operários e os motoristas. A esperança e o pânico em relação ao futuro não se excluem e, geralmente, estão presentes no mesmo discurso.

 

18 - Essa interpretação de nível sociológico, que se inscreve no conceito de luzbitus de classe e de senso prático de Pierre Bourdieu, encontra seu correlato ao nível mental em Bateson: "Obviamente, não existem na mente nem objetos nem acontecimentos (...) A mente contém apenas transformações, perceptos, etc. (...) Estamos falando, portanto, sobre alguma espécie de emaranhado nas regras para formar .as transformações e sobre a aquisição ou permanência de tais emaranhados." (Bateson. 1973).

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