A Teoria Geral da Ação e a Arte da Controvérsia

 

Antônio Luiz Paixão(*)

O tema deste artigo é a teoria geral da ação de Talcott Parsons - o esforço mais ambicioso de reconciliação, em paradigma coerente, das oposiçoes conceituais e metodológicas que transformaram a construção de teoria sociológica geral em campo de batalha (Alexander, 1982; Merton, 1977). Na primeira parte do artigo, procuro descrever os pressupostos básicos e os esquemas conceituais e proposicionais do paradigma, através da reconstituição analítica do diálogo de Parsons com diferentes tradições de análise social - o utilitarismo e as perspectivas de Durkheim e Weber -, do qual resultou a tese da convergência, em teoria coletivista e estrutural do sistema de ação, de corpos cognitivos que privilegiam, unilateralmente, os fatores "internos", "subjetivos", "ideais" e "externos", "objetivos", "materiais", na determinação da ordem social. A síntese parsoniana é analisada através do exame de três temas estratégicos: (a) a resolução do problema da ordem social, envolvendo a combinação de elementos normativos (o consenso moral) e não-normativos (os interesses materiais) e a integração dos planos da ação e da estrutura, em teoria multidimensional; (b) o sistema geral da ação como resolução do problema da integração de unidades diferenciadas estrutural e funcionalmente e (c) o aspecto dinâmico do paradigma, representado pela elaboração parsoniana dos "meios simbólicos de intercâmbio" entre componentes do sistema geral de ação.

A segunda parte volta-se para o diálogo de Parsons com seus críticos. A teoria da escolha racional objetou a opção parsoniana pelo pressuposto do coletivismo metodológico; os "heréticos" da igreja estrutural-funcionalista acham no mínimo precoce a pretensão de construir uma teoria geral e, junto com alguns marxistas, torcem o nariz diante da negligência de Parsons em relação ao tema do conflito; os proponentes de modelos interpretativos não perdoam a solução normativa do problema do significado subjetivo da ação e farejam, no lado sistêmico da teoria, o pecado mortal da reificação. Enfim, os marxistas apontam na teoria geral da ação e do sistema um caso exemplar de esquecimento intencional das realidades das hierarquias de propriedade e poder e das funções das idéias na reprodução das estruturas de dominação. A teoria geral da ação nasceu sob o signo da polêmica e da controvérsia e, portanto, oferece uma excelente oportunidade para o exame do que vem a ser o debate teórico em disciplina pluriparadigmática.

Examinarei três objeções ao empreendimento parsoniano: (a) a rejeição, pelo funcionalismo heurístico e pelos teóricos do intercâmbio, da estratégia de construção da teoria geral; (b) a crítica marxista às proposições substantivas centrais do estrutural-funcionalismo, onde procuro demonstrar a convergência teórica de Parsons e seus opositores na construção de um modelo de “alta coerência” entre os planos da ação e da estrutura; (c) o alvo, por excelência, das sociologias interpretativas, hostis em relação a resoluções normativas e estruturais do problema do significado da ação.

A Teoria Geral da Ação

A trajetória intelectual de Parsons é fascinante e sua autobiografia científica é imperdível (Parsons, 1970). O mesmo se dá com a introdução à paperback edition do primeiro momento do jogo teórico parsoniano (Parsons, 1968a), onde ele coqueteia com seus críticos, sem jamais nomeá-los, numa explicação tipicamente parsoniana da sobrevivência de seu trabalho, apesar do sofrível estilo literário, das mudanças sócio-históricas e de sua própria evolução teórica. Nesse prefácio, o autor relata a conversão do jovem economista em sociólogo e sua aprendizagem, em Londres e Heidelberg, da teoria sociológica clássica (Durkheim, Weber e Pareto). Esta será lida através das lentes de uma perspectiva epistemológica inovadora – a rejeição do empiricismo e do operacionalismo em favor da teoria sistemática como medida de maturidade científica. Orgulhosamente, Parsons rejeita a rotulação de A Estrutura da Ação Social como história das idéias sociológicas – ali, lembra-nos ele, se formula a tese da convergência de Marshall, Pareto, Weber e Durkheim, no sentido de uma teoria voluntarista da ação social ou, como ele mesmo precisa em 1968, de uma teoria geral da “estrutura da ação social” (Parsons, 1968a p. X).

O desdobramento posterior da teoria se dá em três fases. A primeira foi fatal para a identidade social de Parsons como membro da “população de idéias” (Merton) paradigmáticas no campo sociológico – ele se torna a mais perfeita tradução do estrutural-funcionalismo. Em 1951, Parsons publica dois livros e seus títulos revelam a mudança de rota: o primeiro deles chama-se Towards a General Theory of Action, mas o segundo é O Sistema Social. Parsons concorda, em termos gerais, com a apreciação crítica de que, nesse estágio a teoria torna-se mais durkheimiana (o sistema como representação das determinações coletivas do comportamento) às expensas do voluntarismo implicado no tema weberiano da ação social. A mudança teórica está associada a uma nova convergência de diferentes tradições intelectuais: a leitura de Freud e a experiência analítica sugerem a Parsons uma reinterpretação de As Formas Elementares da Vida Religiosa. A “internalização da exterioridade” encontra explicação elegante e poderosa no casamento de Durkheim e Freud: normas coletivas tornam-se, via superego, elementos estruturais da personalidade individual e permitem a formulação de um modelo teórico de “alta coerência” entre cultura, estrutura e ação. Ainda que o sistema social, “em última instância”, seja um sistema de ação, a ênfase parsoniana desloca-se das escolhas comportamentais de atores para a estrutura de determinação representada pelo nível cultural e institucional da sociedade. O lado funcional da teoria resulta da influência conjunta de Durkheim e da antropologia social.

A segunda fase amplia o imperialismo sociológico anunciado em O Sistema Social e, mais uma vez, ilustra a fantástica capacidade de Parsons de agregar fontes diferentes de investigação em um corpo coerente de teoria. Desta vez ele incorpora, por um lado, os estudos experimentais sobre pequenos grupos realizados por grupos realizados por R. Bales e, por outro, os desenvolvimentos teóricos e empíricos da análise organizacional e do estudo da política, cujo resultado é cristalizado no livro Economia e Sociedade (com N. Smelser), de 1956. “Economia” e “Política” são subsistemas analiticamente autônomos do sistema social e cumprindo funções específicas para a estabilidade do todo societário. O jogo durkheimiano de diferenciação e integração de subsistemas e elementos estruturais é reinterpretado por Parsons em termos da análise dos meios generalizados de intercâmbio entre unidades diferenciadas, que explica a integração do sistema - dinheiro, poder político e influência social ilustram a dimensão processual do estruturalismo parsoniano. 

Essa dimensão ocupa posição central na fase "pós-estrutural" (Parsons, 1968a, p. XIII) da teoria geral, voltada para a explicação dos processos históricos de mudança social através de uma "reconversão" weberiana, paradoxalmente implicada em uma teoria evolucionária (Parsons, 1969 e 1971a) . Aqui, adquirem centralidade os temas do capitalismo e da democracia, articulados - o que torna o desenvolvimento teórico de Parsons peculiarmente interessante - com o problema teórico dos papéis e da motivação para a ação. Capitalismo significa enfatizar um tipo particular de papel na estrutura social - proprietário, empresário - ao qual está associado uma categoria de motivação - a racionalidade. Em contraste, os elementos igualitários da democracia (ou do socialismo) amplificam a orientação da ação pelo "interesse público" implementado burocraticamente. 

O enfrentamento do dilema da "racionalidade" privada e do "interesse público" como motivações para a ação representa uma quarta fase de desenvolvimento teórico do sistema parsoniano. Um elemento estrutural importante das sociedades modernas é a profissão como papel ocupacional. Por um lado, do ponto de vista organizacional, as profissões escapam: à esfera "pública" de controle. Por outro, ideologicamente, elas rejeitam a orientação da ação para a realização do "auto-interesse". Profissões são sistemas de solidariedade cuja identidade se baseia na competência técnica de seus membros, adquirida nas instituições educacionais e científicas. O final da vida de Parsons foi dedicado à pesguisa empírica de universidades, que deu origem ao livro The American University (1975), com G. Platt. A centralidade institucional da universidade no mundo moderno resulta da diferenciação, no sistema cultural, entre ciência e religião e, no sistema social, entre papéis ocupacionais, familiares e modos "tradicionais" de divisão de trabalho. Universidades não são empresas (organização de atores auto-interessados) nem burocracias voltadas para a realização do interesse coletivo: O Sistema acadêmico inaugura um padrão emergente de organização social - a estrutura associativa.

O "último Parsons", centrado na análise dos meios simbólicos de intercâmbio e de modelos institucionais emergentes, representa uma ampliação significativa do "lado weberiano" e voluntarista da teoria geral, às expensas da fidelidade ao coletivismo durkheimiano: diminui o peso explicativo de dimensões como valores comuns para a integração sistêmica, ao mesmo tempo em que se amplia o espaço teórico da racionalidade e da autonomia de unidades e sistemas estruturalmente diferenciados. 

O Paradigma da Ação e da Interação Diádica: O Problema da Ordem Social 

Um ato, diz Parsons, implica logicamente (a) um ator individual ou uma pluralidade de atores perseguindo (b) objetivos ou estados futuros antecipados pelo ator (c) em uma situação analisável em termos de "condições" (os elementos "objetivos" recalcitrantes em relação aos objetivos do ator) e "meios" ( os elementos controlados pelo ator). O ator confronta-se com meios alternativos de atingir objetivos na situação e sua escolha obedece a uma (d) orientação normativa (em oposição tanto a escolhas aleatórias de meios quanto à subordinação exclusiva da escolha às condições da ação). Esta compreende elementos cognitivos (a percepção, pelo ator, do objeto e de suas propriedades e funções no conjunto total de objetos), catéticos (a atribuição, pelo ator, de significados afetivos ao objeto) e avaliativos (a organização, pelo ator, de suas escolhas cognitivas e afetivas em um plano inteligente de ação) (Parsons, 1968a, pp: 43-64; Parsons e Shils, 1968, pp. 78-100). 

A interação diádica constitui o caso-lignite entre os planos da ação e do sistema e envolve três elementos analiticamente distintos: (a) unidades ativas, autônomas e inteligentes, que são, a um só tempo, sujeitos e objetos de orientação: "o ator é sujeito cognitivo e objeto de cognição, usuário de meios instrumentais e ele mesmo um meio, emocionalmente ligado a outros e objeto de emoção, avaliador e objeto de avaliação, intérprete de símbolos e ele mesmo um símbolo" (Parsons, 1968b, p. 436); (b) um conjunto de regras que definem as escolhas comportamentais dos atores vis-à-vis sua interação e a situação; (c) o ambiente externo - físico, social e cultural - onde opera o sistema de interação. 

Esse paradigma analítico combina diferentes tradições teóricas. Por um lado, concebe a ação "do ponto de vista do ator" e privilegia o papel dos significados subjetivos e simbólicos na escolha de objetivos e meios, consistentemente com a tradição weberiana, e dos mecanismos de aprendizagem e uso de códigos comunicativos e Interpretativos, desenvolvidos por Mead e pelo interacionismo simbólico. Por outro lado, escolhas e interpretações ocorrem em ambiente externo "composto" de fatos sociais, o que implica limitações normativas e coercitivas à liberdade do -ator - inclusive pela presença, como objetos na situação, de outros atores. À ênfase durkheimiana sobre o componente normativo do ambiente Parsons agrega a teoria psicanalítica do superego - a internalização dos padrões morais da comunidade como elemento estrutural da personalidade dos atores (Parsons, 1968b, pp. 429-35). A convergência teórica responde ao problema representado pelas possibilidades de disrupção da ordem no sistema de interação de atores autônomos e auto-interessados. 

Esse problema emerge da proposição sobre a natureza duplamente contingente da interação: atingir objetivos de ego depende de cognições e manipulações adequadas dos objetos ambientais; o componente mais relevante do ambiente é constituído por outros atores; logo, a escolha de ego é também contingente das ações e intervenções de alter no curso dos eventos. Parsons encontrou na tradição utilitarista o exemplo mais claro da impossibilidade de integração social a partir dos supostos de individualismo e racionalidade. O "estado da natureza" de Hobbes descreve a situação em que ego e alter racionalmente perseguem a realização de seus interesses em ambiente de escassez e destituído de "institucionalidade", onde não prevalecem distinções "entre linhas desejáveis e indesejáveis de ação" ( Parsons, 1968b, p. 437). 0 jogo conhecido como o "dilema do prisioneiro" serve como recurso de demonstração das bases norrriativas da ordem social. 

Esse jogo constitui "o exemplo poderoso de uma situação social em que a `soma' de dois interesses individuais significa uma desvantagem para ambos" (Rapopórt, 1961, p. 177 ) ou, como análogo ao "estado da natureza de Hobbes", a representação dos efeitos perversos, no plano coletivo, de escolhas racionais (Reis, 1984, pp. 115-21) . Estas configuram, portanto, uma das condições de produção do caos que Parsons iden tifica como possibilidade lógica do jogo da interação, na inexistência ou fraqueza de controles normativos. Rapoport, ao sublinhar a natureza perversa do "dilema do prisioneiro", pede a emergência de uma regra contra tais tipos de jogos e, involuntariamente, clarifica o problema teórico de Parsons. Este vai buscar no ambiente institucionalizado da ação um "redutor" dos elementos disruptivos - a regra contra tais jogos - representados pela orientação puramente racional dos atores. Quero chamar a atenção para um paradoxo insuspeitado pela crítica convencional de "esquerda" à teoria geral e argutamente identificado por M. Black: a formulação do problema da ordem indica uma preocupação quase obsessiva de Parsons com o tema do conflito social como possibilidade lógica e ameaça empírica inerente à prática do jogo da convivência. Vou explorar outras implicações teóricas do equacionamento parsoniano do problema da escolha racional. 

A primeira delas tem a ver com a convergência: teórica dos elementos weberianos e durkheimianos no paradigma da interação. Uma critica recente e muito influente da estratégia teórica parsoniana encontrou na análise da ação orientada por interesses um dos pontos vulneráveis da teoria de Parsons, representado pela virtual desconsideração da análise de Weber através da amplificação da adesão aos pressupostos estruturais e normativos derivados de Durkheim ( Pope et al., 1975, pp. 417-27 ). Os críticos descobriram na definição weberiana da ação econômica, como um caso típico de ação descolada de normas sociais, e na ordem emergente do mercado, como produto da ação orientada por considerações de auto-interesse, o elemento de ruptura entre as duas tradições teóricas e de demonstração do fracasso integrativo do trabalho de Parsons. 

Esta crítica parece-me pouco atenta era relação às complexidades envolvidas na análise weberiana da ação econômica e do mercado, explicitadas em citação de Weber que encontro no próprio artigo de Pope et al. (idem, p. 421): "toda, atividade econômica em uma economia de mercado é implementada por indivíduos agindo no sentido da provisão de seus próprios interesses materiais e ideais". Os críticos certamente minimizam o peso dos interesses ideais na conformação, no plano cognitivo, dos interesses materiais - um problema central na sociologia religiosa de Weber (Tenbruck, 1980) e que evidencia a natureza multidimensional de sua abordagem teórica (Alexander, 1982). A análise parsoniana da racionalidade é exemplo muito claro de adesão a uma estratégia multidimensional de construção de teoria, ao contrário do que afirmam Pope e colaboradores em seu artigo. 

A abordagem parsoniana da ação econômica volta-se para a consideração do problema da contingência como restrição à orientação puramente racional no âmbito da interação: "a atividade econômica produtiva e lucrativa depende da racionalidade da ação. Níveis relativamente elevados de racionalidade foram alcançados no campo econômico especialmente porque, diferentemente da política, a produção lida com problemas de administração de objetos físicos, mais do que de relações humanas" ( Parsons e Platt, 1975, p. 44 ). Parsons encontra em Weber a explicação histórica da generalização da racionalidade econômica na modernidade: "não foi o motivo do lucro em seu significado hedonístico que Weber sublinhou; mas a avaliação valorativa da produção como um 'chamado'. Ganhos monetários eram uma medida daquela contribuição, não sua motivação última" (idem, ibidem, ênfase no original). A racionalidade implica consideração dos elementos cognitivos na orientação da ação e sua institucionalização deriva de bases não-racionais representadas pela adesão a crenças religiosas e ideologias políticas. 

A convergência teórica de Durkheim e Weber define o locus da racionalidade na teoria da ação. O elemento durkheimiano desloca do nível individual para o plano coletivo o problema da ação racional, teoricamente elaborado na distinção entre racionalidade e competência: ambas supõem a predominância dos padrões cognitivos como orientação da ação, mas a racionalidade é um tipo de ação social, enquanto que a competência se realiza no plano do comportamento individual. A racionalidade refere-se à 

"implementação efetiva dos valores da racionalidade cognitiva nos contextos da interação social. Ela é o tipo ideal de conformidade a um padrão socialmente definido e institucionalizado de ação desejável empiricamente implementado em situações de interação, enquanto competência é a capacidade de (...) implementação de um padrão internalizado no nível da personalidade" (idem, pp. 69-80). 

A definição coletivista da racionalidade permite uma apreciação do aspecto durkheimiano do paradigma. Por um lado, a emergência do indivíduo como unidade de decisão é resultado da diferenciação estrutural da sociedade (via divisão do trabalho) e, em plano mais abstrato, dos sistemas de ação (cultura, sociedade e personalidade). Por outro, o "individualismo institucionalizado", como construção social internalizada por indivíduos concretos, resolve o dilema envolvido na autonomia das unidades da interação: as possibilidades de instabilidade são reduzidas quando a autonomia das partes individuais é integrada, através da adesão a regras morais comuns, a um sistema complexo de interação, que adquire graus mais elevados de liberdade de ação e de intervenção efetiva no ambiente físico (Parsons, 1968b, pp. 436-7 ).

A convergência teórica tem outra implicação, antecipada na discussão anterior acerca da diferenciação e que define os limites analíticos do paradigma da interação social. Estou me referindo à centralidade da cultura institucionalizada (uma propriedade macrossociológica) na explicação da ação. A cultura normativa é umfato social - externo, por se apresentar aos indivíduos concretos como elemento da situação ou do ambiente da ação, e coercitivo, por ser coletivamente sancionado. Mas ela é também um elemento estrutural da personalidade do ator e das organizações coletivas - a externalidade "transforma-se" em imperativo moral internalizado e a coerção do fato social, em autoridade. Estas "transformações" articulam o nível “elementar”,"subinstitucional" da ação, com as determinações estruturais e sistêmicas da realidade social, que passo a expor.

O Paradigma do Sistema Geral de Ação

O que é análise funcional? Tomarei como ponto de partida o célebre discurso de K. Davis (1971) sobre o "mito da análise funcional como um método especial" nas ciências sociais. O mito, afirma Davis, reside no adjetivo "especial" aplicado ao método funcional: este é um sinônimo de análise sociológica. Davis está certo em um ponto: se análise funcional significa enfatizar o efeito de uma instituição ou de um papel para o sistema institucional da sociedade ou para outras dimensões da estrutura social, somos todos funcionalistas. Marx, como demonstrou Stinchcombe (1968, pp. 93-8), não hesitou em utilizar o método, assim como os marxistas contemporâneos que analiso na próxima seção deste ensaio. Weber, por sua vez, embora igualmente crítico em relação aos riscos de reificação envolvidos na análise funcional, não á subestimava enquanto método de análise preliminar ou de geração de ilustrações práticas de temas sociologicamente relevantes (Weber, 1968, pp. 15-8). 

A lógica da explicação funcional (Hempel, 1959) orienta-se para o entendimento das conseqüências de um determinado item estrutural para a estabilidade (ou integração) do sistema onde o item ocorre como um todo. A explicação funcional é, portanto, teleológica e não causal e baseia-se em uma analogia suposta de fenômenos sociais e biológicos: para persistir, sistemas vivos (biológicos e sociais) devem ter certas necessidades satisfeitas por algum órgão ou item especializado. Batidas cardíacas, em organismos vertebrados, cumprem a função de produzir a circulação sanguínea, sem a qual o animal não sobrevive. O cumprimento da função circulatória depende de condições externas, ambientais e internas (o funcionamento adequado de outros órgãos) - em outras palavras, á sobrevivência de organismos vivos depende da satisfação, por órgãos diferenciados, de necessidades básicas (ou pré-requisitos funcionais). 

Não escapou a Parsons a natureza problemática do uso de analogias biológicas na explicação dos sistemas de ação. Ação é escolha do ator em uma situação de objetos físicos e sociais: quem é ator e quem é objeto depende, lembra-nos um dos manifestos da teoria, do ponto de referência adotado - que pode ser o do ator individual, de um microssistema de relações entre atores, de uma coletividade, de uma sociedade nacional ou de uma macro-entidade. Logo, a distinção entre ator e situação (como uma especificação da distinção entre sistema e ambiente) é uma distinção analítica - não se refere a entidades concretas. Não nos interessam, dizem os autores, processos e estruturas fisiológicas dos atores, embora daí venha o influxo de energia no sistema de ação. A ênfase recai sobre as escolhas entre cursos alternativos de comportamentos: 

"conseqüentemente, nosso interesse primário na análise de sistemas de ação (...) consiste na resposta a esta pergunta: quais as conseqüências que derivam, para o ator, de suas seleções ou eleições? Isto contrasta com o interesse primordial dos teóricos da biologia que, em uma análise motivacional, formulariam uma pergunta paralela, mas completamente diferente: o que tem que fazer essa pessoa para sobrevivera Os estudiosos do sistema social indagariam: para que se força esse ator? e não o que ele tem de fazer para sobreviver como organismo. Perguntamos ainda: em que se apóia o ator para selecionar?" (Parsons e Shils, 1968, pp. 85-6 ) . 

Valores, expectativas e cognições determinam as "seleções" e "eleições" dos atores; não são dados da situação (como a "sobrevivência") pressupostos pelo cientista, mas problemas de investigação empírica. Neste momento, o ponto de vista da teoria privilegia os processos subjetivos de escolha de atores voluntaristas e intencionais. 

O "paradigma das quatro funções" explica as condições de integração de unidades autônomas e diferenciadas em um sistema coerente de ação e 

"analisa qualquer sistema de ação através de quatro categorias: (1) a que se refere aos padrões mais elevados que controlam ou ‘governam’ o sistema; (2) a integração interna do sistema; (3) sua orientação para a realização de objetivos com relação a seu ambiente; (4) sua adaptação mais generalizada às condições amplas do ambiente (...) No interior dos sistemas de ação, os sistemas culturais especializam-se em torno da função de manutenção; os sistemas sociais, cm torno da integração de unidades de ação (indivíduos humanos ou, mais precisamente, personalidades comprometidas em papéis); os sistemas de personalidade, em torno da realização de objetivos; o organismo comportam.ental, em torno da adaptação" (Parsons, 1969, p. 19, ênfase no original). 

A mesma lógica de diferenciação descreve a estrutura de cada um daqueles sistemas. Deter-me-ei na estrutura da sociedade, o "sistema de referência" que nos interessa mais diretamente: 

O sistema social é uma abstração: ele trata do "comportamento simbólico organizado através dos processos de interação social entre unidades atuantes, isto é, [das] ações mutuamente orientadas para outros atores em um sistema de interação" ( Parsons e Platt, 1975, p. 18 ). O "fiducidary system" relaciona sociedade e cultura e "inclui as estruturas e os processos de ação onde os sistemas de significados culturais se articulam com função especial no sistema societário" (idem, ibidem). O "fiducidary system", como o sistema cultural, transcende o âmbito material dos cálculos de custo-benefício nas escolhas de objetivos e meios: ele se organiza em torno dos compromissos de valor e define os padrões de legitimidade dos objetivos e meios de ação. Nele são articulados os tipos desejáveis de sociedade. As sociedades modernas, para ilustrar, organizam-se, no plano valorativo, como sistemas de "individualismo institucionalizado": o "culto do indivíduo" (Durkheim) implica a valorização da liberdade e dignidade individuais e, ao mesmo tempo, o compromisso coletivo com padrões de justiça na distribuição dos recursos e contingências sociais correspondentes à cidadania em sua dimensão social. Em outras palavras, ele relaciona o sistema social com a "realidade última", "o domínio não-empírico" de "crenças sobre o universo", o sobrenatural e o desejável, "teleologicamente superordenados em relação a natureza" (idem, pp. 30-1).



 
 

O centro do sistema social é a "comunidade societária", "um complexo network de coletividades que se interpenetram e de lealdades coletivas, um sistema caracterizado pela segmentação e diferenciação funcional" (Parsons, 1971a, p. 13). Ela articula um sistema de normas (que especificam valores) a uma organização coletiva de ações sociais - é, portanto, um sistema de "ordem legítima" que dota de coerência os sistemas de definição e implementação de objetivos coletivos (o sistema político, amplamente definido de forma a incluir em seu domínio o governo, as empresas, as escolas, as famílias e quaisquer outras organizações que decidem sobre a alocação de recursos para o alcance de objetivos) e os sistemas "práticos" de administração dos recursos escassos extraídos da natureza".

Vou comentar rapidamente dois aspectos da estratégia "macrossociológica" de construção de teoria. O primeiro diz respeito à absorção parsoniana dos progressos, na teoria da ciência, representados pelo modelo cibernético de controle, "através do qual os sistemas com muita informação, mas pouca energia, regulam outros sistemas com muita energia, mas pouca informação" (Parsons, 1969, p. 22). A ação confronta-se com dois sistemas de realidade: o ambiente físico-orgânico e o ambiente ideativo da "realidade última", referido à organização télica dos significados. A ordenação hierárquica dos "imperativos funcionais" e dos subsistemas estruturais correspondentes atribui à função de manutenção dos padrões e ao sistema cultural posição central de controle vis-à-vis o sistema social, o sistema de personalidade e o organismo comportamental. Entretanto, "o ambiente físico é fundamental no sentido condicional, distinto do organizacional. Na medida em que os fatores físicos não são controláveis pelos sistemas ciberneticamente mais elevados, precisamos adaptar-nos a eles, ou a vida humana desaparecerá" (idem, pp. 22-3, ênfase no original). Resulta do jogo das "hierarquias de controle" e das hierarquias de condições" a resolução poderosa - em modelo estrutural de interdependência das oposições dicotômicas entre fatores "ideais'"' e "materiais" como variáveis explicativas da ordem e da mudança sociais. 

O paradigma dota a teoria de generalidade. Nos últimos trabalhos de Parsons (que não comento aqui), o "sistema geral da ação" é o componente estrutural especializado que cumpre a função de integração em um sistema mais geral, que o autor chama de "sistema da condição humana" (Parsons, 1978) . Para "baixo" qualquer coletividade concreta (a família, a escola) pode ser estruturalmente estudada atravês do "paradigma das quatro funções". Ilustrarei a generalidade da teoria através do exame da, função "integração". Do ponto de vista do sistema mais geral da condição humana, ela é cumprida pelo "sistema de ação"; neste, pelo "sistema social"; neste, pela "comunidade societária"; nesta, pelos "padrões valorativos da solidariedade" e nestes... Parsons parou por aqui, numa tabela 8 X 8 de descrição estrutural do sistema social. 

Um observador cético prefere ver nesse esforço de tudo abranger e rotular conceitualmente um exercício estéril de descrição estrutural do mundo, como uma tabela de contingência construída pelo cruzamento de duas variáveis dicotomizadas, onde, pelo mesmo princípio, cada célula se transforma em outra tabela 2 X 2, em processo de diferenciação e especificação potencialmente ilimitado. Parsons se defende afirmando o valor heurístico de suas tabelas: distinções analíticas, de base funcional, entre sistemas e subsistemas solucionam o problema da descrição estrutural de sociedades coletividades por um lado e, por outro, permitem a análise dos processos de intercâmbio entre sistemas. O viés estático que tantos críticos atribuíram ao sistema parsoniano é substituído, no "último Parsons", pela ênfase na dimensão processual e dinâmica dos sistemas de ação. 

Os Meios Simbólicos de Intercâmbio

A distinção analítica entre "sistema social" e sistemas cultural, de personalidade e o organismo comportamental permite uma primeira abordagem do "lado" processual e dinâmico da teoria. A "alta coerência" postulada entre os diferentes níveis da ação deriva do trabalho de dois processos. O primeiro deles já nos é familiar e articula os sistemas cultural e de personalidade - o processo de socialização, pelo qual normas culturais e objetos sociais "externos" são introjetados como componentes estruturais da personalidade individual. Análogo a este processo é a institucionalização de componentes normativos do sistema cultural como estruturas constitutivas do sistema social. Um exemplo típico é a ordem legal: a lei é um código cultural que regula a ação das unidades do sistema social, que nela encontram um marco de referência para sua organização nos planos "microssociológico", "intermediário" (as organizações do sistema organizacional de Justiça) e "macrossociológico" (o âmbito constitucional e de "tradução" secular dos significados morais deduzidos da "realidade última"). 

A análise da "família de meios" simbólicos de intercâmbio representa o desenvolvimento substantivo central da teoria, voltado para os processos comunicativos que dotam unidades ativas (individuais ou coletivas) de informações sobre outras unidades e componentes estruturais do sistema de ação e viabilizam a cooperação operacional de partes diferenciadas. O protótipo dos meios generalizados de intercâmbio é a linguagem, que controla o comportamento dos atores - como membros de alguma "comunidade de discurso" - por meios simbólicos - enquanto representação abstrata de objetos intrinsecamente relevantes para aqueles. Dinheiro, poder, influência e compromissos valorativos constituem a "família de meios" especializados de intercâmbio entre os componentes estruturais do sistema social. 

Parsons encontra nas funções e no papel do dinheiro o paradigma analítico dos meias simbólicos de intercâmbio. Parte do problema foi solucionada pelos economistas: o dinheiro tem valor de troca e oferece medida de valor comparável de unidades heterogêneas; retém valor. A primeira propriedade do dinheiro é "traduzida" sociologicamente na consideração de sua natureza simbólica: ele opera em termos de um código cultural, como representação dos direitos de propriedade, institucionalizado no sistema político. A segunda especifica o significado e a eficiência do dinheiro - possibilitando a comparação de bens e serviços heterogêneos, o dinheiro amplia os graus de liberdade e de flexibilidade na interação social. Enfim, o dinheiro circula, expande-se através dos mecanismos de crédito, e essa expansão tanto amplia os graus de liberdade dos atores quanto introduz um potencial de instabilidade no sistema de interação. Flutuações econômicas no sistema monetário, representadas pelos fenômenos da inflação e da deflação, afetam as bases de confiança no dinheiro. 

"Simbolismo" e "generalidade" como propriedades dos meios de intercâmbio reintroduzem o tema que abriu esta seção: a escolha entre cursos alternativos de ação como o problema de qualquer teoria da ação. Em diversos momentos, Parsons refere-se à autonomia das unidades na interdependência dos sistemas de interação como o elemento definidor dos sistemas sociais que desenvolveram amplamente sua capacidade adaptativa. Nestes sistemas, meios simbólicos mais generalizados de intercâmbio introduzem "novos graus de liberdade nos potenciais de ação das unidades individuais ou coletivas no sistema e, conseqüentemente, maior flexibilidade em seu funcionamento" ( Parsons e Platt, 1975, p. 24 ). O ator "hipersocializado" não enfrenta dilemas cognitivos em suas "seleções" e "eleições" de cursos de ação, mas a "conversão" parsoniana ao evolucionismo, articulada ao investimento teórico nos meios de intercâmbio, representa uma alteração, a meu ver muito importante, na explicação cultural-estrutural da ação: 

1 - Os meios simbólicos de intercâmbio contribuem para a estabilidade do sistema de ação, "facilitando o intercâmbio rotineiro entre as unidades diferenciadas do sistema social" (Parsons, 1971a, p. 27). Mas contribuem, também, para a inovação criativa e para a instabilidade potencial nos sistemas de ação. Flutuações econômicas, na forma de crises de inflação e deflação, afetam a confiança coletiva no dinheiro conto meio de intercâmbio. As analogias parsonianas levam autor a identificar processos inflacionários e deflacionários em cada um dos meios simbólicos de intercâmbio como instâncias de instabilidade da ordem coletiva. Examinemos a "crise da universidade", na versão parsoniana. A universidade enfrenta uma crise inflacionária em diferentes planos ou níveis: (a) no plano cultural, a inflação de expectativas em relação à capacidade de resolução de problemas práticos da nacionalidade cognitiva e o contraponto representado pela ampliação dos meios de extermínio tornam a universidade vulnerável às pressões deflacionárias da “contracultura”; (b) no plano do sistema social, há uma tensão entre os altos investimentos societários que a universidade pressupõe e suas demandas de autonomia, por um lado, e os outputs da academia para a sociedade, por outro; (c) no plano "microssociológico", a expansão da universidade e dos padrões de nacionalidade cognitiva a ela associados implicou desequilíbrios entre os investimentos em competência e o afeto representado pelas adesões solidárias e significativas a coletividades: a ação racional penetra nas esferas significativas e simbólicas do mundo-da-vida (o exemplo parsoniano é a tensão entre o avanço do conhecimento médico e a garantia dos direitos dos pacientes). O "pânico deflacionário" significa a erosão das bases de confiança coletiva na instituição universitária, dramatizada nos conflitos do final dos anos 60 (Parsons e Platt, 1975, pp. 304-45).

2 - O lado "dinâmico" da teoria é, portanto, um esforço no sentido de transcender a dicotomia entre fatores “materiais” e “ideais” como variáveis independentes mutuamente exclusivas do desenvolvimento social; através de uma perspectiva que privilegia "um modo estruturado de interdependência complexa entre fatores na operação de sistemas" (Parsons, 1971.b, p. 383). O ponto crítico na avaliação do sucesso multidimensional reside na adesão continuada aos supostos cibernéticos, que aloca a meios ancorados em sistemas de ordem mais elevada de concentração de informação condições mais amplas de "aumento adaptativo": "o desenvolvimento cultural é essencial para o avanço evolucionário dos sistemas sociais (...) os desenvolvimentos religiosos estão subjacentes a todos os grandes processos de generalização de valor e o avanço do conhecimento empírico está subjacente à institucionalização de novas tecnologias" ( Parsons, 1971a, p. 28). 

3 - Se a teoria da mudança social não parece realizar o desejo parsoniano de negar a antítese entre ordem e conflito como focos de elaboração de "duas sociologias", como ficam os ideais de generalidade frente aos últimos desenvolvimentos da teoria? Volto ao problema da dupla contingência da interação. Ego se orienta não apenas pela ação de alter mas também por suas expectativas de como alter provavelmente responderá a suas ações. A internalização da cultura institucionalizada por ambos os atores solucionava o problema cognitivo, pela comunalidade de expectativas recíprocas. Ora, crises de inflação e deflação afetam o valor atribuído aos meios de intercâmbio e sua generalidade implica incerteza do ponto de vista das escolhas do ator. É importante salientar que o "último Parsons" não fala em anomia - o problema envolvido na articulação entre "ação" e "estrutura" é o problema do significado, não do ajustamento macrossociológico entre diferenciação estrutural e integração normativa. Parsons fala em alienação, "uma disposição à desconfiança em relação aos compromissos de afeto a qualquer conceito de organização social ou empresa cognitiva" (Parsons e Platt, 1975, p. 331) . As crises inflacionárias são crises de significado e antecipam o paradigma final da condição humana (que não discuto neste ensaio): a reconciliação dos elementos cognitivos (racionais) e motivacionais (afetivos) da ação numa teoria sistêmica hierarquizada (idem, p. 330). 

Mas devo voltar ao problema representado pela dupla contingência da interação. Um meio de intercâmbio é uma expectativa estruturada, mas é um modo simbólico de comunicação. Crises inflacionárias e deflacionárias, portanto, afetam a estruturação de expectativas recíprocas e são mais prováveis quanto maior for o grau de desenvolvimento do meio. Fico por aqui: se os padrões culturais que governam o sistema de ação e explicam sua coerência estão sujeitos a crises de instabilidade que introduzem coeficientes de alienação no plano das escolhas de cursos de ação, em si mesmas afetadas pelas incertezas da "dupla contingência", o controle cibernético do qual resultava a certeza da ordem muito pouco, neste sentido, nos assegura. Ao contrário do poeta, "o cristalino dia" do sistema torna-se a noite das tensões entre afeto e razão, voluntarismo e determinação.

A Controvérsia e suas artes

Dizem que Paul Claudel perguntou a André Gide se haveria alguma coisa mais aborrecida no mundo do que Virgílio e o velho sabido respondeu que sim - Homero. A cultura sociológica descobriu em Talcott Parsons o nosso Homero. Uma receita padronizada de crítica a Parsons deve começar por objeções de natureza estilística. O mais benevolente de seus críticos diz que O Sistema Social, "o pior e ao mesmo tempo o livro mais importante de Parsons (...) está escrito naquele estilo horrendo pelo qual Parsons é conhecido" (Dahrendorf, 1966, p. 171). E, no outro extremo do continuum, W. Mills (1965, p. 39), se diverte traduzindo aquele livro para o que ele chama de "linguagem direta". Mills e Gouldner não hesitam em elaborar o que o último descreveu como "uma sociologia da obscuridade teórica" (Gouldner, 1970, pp. 200-5). Para Mills, o estilo peculiar de Parsons é "uma vantagem protetora", pois encobre retoricamente a trivialidade teórica e a contaminação ideológica de seu pensamento. O Sistema Social, conclui o crítico, "tem apenas 50 % de verborragia; 40 % é sociologia de manual didático (...) os 10 % restantes são de possível uso ideológico - embora bastante vago" (Mills, 1965, p. 58) . A sociologia do hermetismo de A. Gouldner é um pouco mais elegante: é um recurso excludente do leigo e do sociólogo da arena comunicativa, serve ao desenvolvimento de seitas esotéricas e defende o teórico "inovador" de críticas "convencionais" (mesmo porque a "obscuridade délfica" é equivalente funcional à não-publicação). 

As críticas de Dahrendorf, Gouldner e Mills ao estrutural-funcionalismo são exemplares típicos dos embates políticos e ideológicos que dominaram a sociologia dos anos 50 e 60, esgotados nos anos recentes. O feitiço pareceu, por algum tempo, virar contra o feiticeiro: "quem lê Parsons agora?". Poderíamos aplicar o epitáfio parsoniano do evolucionismo (Parsons, 1968a, pp. 3-4) a ele mesmo e o "deus invejoso" que aposentou a ordem normativa foi, no plano estrutural, a presença hegemônica de modelos relacionais de análise e a ênfase correspondente na distribuição de recursos e poder (Blau, 1977; Collins, 1975) e, no plano da "teoria da ação", a emergência dos paradigmas interpretativos (Blumer, 1969; Garfinkel, 1967). Mas assistimos hoje ao que poderíamos chamar de revival da teoria geral da ação (Alexander, 1987; Habermas, 1984; Lidz, 1981) e, diga-se de passagem, em geral crítico em relação a seus supostos e realizações no campo da teoria. Quero mostrar nesta seção que a controvérsia dos anos recentes distingue-se muito claramente da tônica e do tom que Mills e Gouldner deram ao debate: não se trata mais de denunciar o conservadorismo político e a manipulação ideológica inerentes à empresa teórica de Parsons, mas de entender seu esforço protéico de integração teórica dos níveis da ação e da estrutura, de microeventos e cultura institucionalizada, de determinações "externas" e fatores "internos" na explicação da ordem social. 

Questões de Método e Estratégia Teórica

A estratégia parsoniana de construção de teoria geral foi objetada, desde o início, por seus "sequazes críticos" (Merton, 1977, p. 51) - o mais articulado destes é o próprio Merton (1948, 1964 e 1987). A noção de "teoria" em sociologia é polissêmica, diz Merton (1964, pp. 95-111), e comporta, em um sentido estrito, a definição de teoria como um sistema hipotético-dedutivo de proposições e, relaxando os critérios de natureza epistemológica, como sistema conceitual (ou "paradigmas") (Boudon, 1971, pp. 159-204). Merton não discorda de Parsons neste plano, como observa um crítico de ambos (Homans, 1967, pp. 43-6), mas a divergência manifesta-se em relação a dois itens. 

O primeiro refere-se a questões de estratégia de construção de teoria. As pretensões generalizantes da taxonomia parsoniana são, para Merton, perigosamente prematuras: sistemas conceituais gerais podem "correr o risco de produzir no século XX equivalentes sociológicos dos grandes sistemas filosóficos do passado, com toda a sua variedade de sugestões, todo o seu esplendor arquitetônico e toda a sua esterilidade científica" (Merton, 1964, p. 20). A segunda objeção transcende o plano da estratégia por se vincular à natureza mesma do conhecimento sociológico: esta é pluralística e mais bem servida por "uma pluralidade de paradigmas em interação competitiva e algumas vezes conflitantes" (Merton, 1977, p. 62). A alternativa mertoniana de construção de teorias de alcance intermediário responde à primeira objeção: são "teorias intermediárias entre as hipóteses de trabalho estreitas que se produzem abundantemente durante as rotinas diárias da investigação e as amplas especulações que abarcam um sistema conceitual dominante, do qual se espera a derivação de um número muito grande de uniformidades de conduta social empiricamente observadas" (Merton, 1964, p. 16). Mas tal estratégia responde também à segunda objeção. Teorias de alcance intermediário evitam os perigos associados à "imagem de um paradigma único e completo em ciências maduras" (Merton, 1977, p. 51), que Parsons perseguiu em seus esforços de "convergência": 

"o termo ‘teoria sociológica’ da mesma maneira que os termos ‘teoria física’ ou ‘teoria médica’ é freqüentemente enganador. Sugere uma integração mais íntima de diversas teorias operacionais do que normalmente se obtém em quaisquer das disciplinas (...) o fato relevante é que o progresso dessas disciplinas consiste na elaboração de um grande número de teorias específicas sobre certo tipo de fenômenos e na exploração de suas relações mútuas - não em centrar a atenção numa 'teoria"' (Merton, 1948, pp. 164-5) . 

O intercâmbio entre Parsons e Merton encontra na convenção da codificação a possibilidade de acordo entre taxonomia abstrata e "ilhas" de teoria empiricamente verificada do alcance substantivo limitado. Para Merton, codificação "procura sistematizar as generalizações empíricas disponíveis em esferas aparentemente diferentes do comportamento" (Merton, 1964, p. 110, ênfase no original), e Parsons reconhece nela o seu próprio esforço de clarificação da teoria geral pela agregação da pesquisa empírica sobre pequenos grupos, influência política ou organizações (Parsons, 1959, pp. 3-4). O que torna possível a codificação como mediação entre os níveis geral e intermediário da teoria "é precisamente a existência de tal marco de referência teórica geral (...) que torna o tipo de trabalho no nível intermediário da teoria proposto apor Merton altamente frutífero" (Parsons, 1971c, p. 564) - fora da teoria geral, assegura Parsons, caímos no empirismo abstrato e cientificamente irrelevante. 

É importante salientar a relação entre estratégia metodológica e teoria substantiva. A teoria geral corresponde à ênfase parsoniana no sistema social como um todo a ser construído no plano conceitual - e esta operação precede necessariamente investigação empírica. Merton, em contraste, apresenta pouco entusiasmo por totalidades e sistemas sociais inclusivos: menos do que um suposto (ou metáfora), o sistema social é objeto empírico, cuja natureza e tamanho devem ser especificadas pelo investigador (Gouldner, 1959). Resulta daí a construção de um "paradigma" de análise funcional bem distante das estipulações parsonianas (Merton, 1964, pp. 29-71) : (a) a análise funcional deve especificar as unidades (indivíduos, grupos, organizações, instituições, classes, sociedades) para as quais um dado item (ou fenômeno) tem determinadas conseqüências; (b) estas podem ser funcionais, quando ampliam o ajuste adaptativo do sistema em foco, ou disfuncionais, quando o diminuem; conseqüências funcionais são manifestas quando intencionalmente perseguidas pelos atores e latentes como resultado não-antecipado, não reconhecido e não intencionado da ação; (c) um dado fenômeno persiste quando não existem padrões ou estruturas alternativas de cumprimento de suas funções; (d) os sistemas sociais são compostos de grupos com interesses e valores diferenciados; o que é funcional para um grupo é, possivelmente, disfuncional para outro; logo, o item deve ser analisado não nos termos de sua contribuição para a integridade do "sistema como um todo", mas na perspectiva dos valores e interesses das partes envolvidas. 

O funcionalismo heurístico ou empírico de Merton apresenta importantes ramificações no plano das complexidades escondidas na rejeição ideológica da análise funcional como essencialmente conservadora. Algumas são discutidas por Merton como derivações da adesão acrítica aos postulados da unidade funcional da sociedade, do funcionalismo universal e da indispensabilidade funcional, da qual resulta uma teleologia conservadora: "whatever is, is right", na tradução poética de Alexander Pope (Merton, 1964, pp. 35-48). A introdução de funções latentes e disfunções significa um distanciamento significativo em relação à perspectiva conservadora atribuída à análise funcional - e encontra-se em Merton - a primeira exposição da possibilidade de convergência teórica entre funcionalismo e marxismo (idem, pp. 48-52), um tema dominante nos anos recentes e que examino com algum detalhe no final desta seção. 

A acusação ideológica ao funcionalismo pode ser melhor compreendida através de seu alvo mais notório - o desastrado ensaio de Davis e Moore (1945) sobre as funções positivas da estratificação social -, certamente o maior saco-de-pancadas de boxeadores dos mais diferentes pesos, categorias e convicções paradigmáticas (apenas como amostra, ver Tumin, 1953 e 1963; Buckley; 1958; Wron , 1959; Wezelowski, 1962; Huaco, 1963; Gans, s./d.). O argumento de Davis e Moore é amplamente conhecido: desigualdade social é uma característica persistente, universal e indispensável das sociedades humanas porque é funcional para a motivação de indivíduos tecnicamente competentes ao exercício de papéis estratégicos para a sobrevivência da sociedade. Diferenciais de renda e prestígio respondem à necessidade funcional de alocação de recursos escassos em posições centrais na estrutura social. 

A defesa da análise funcional como ideologicamente neutra envolve dois tipos de argumentos. O primeiro, que é um dos elementos centrais da controvérsia entre "ordem" e "conflito", tem a ver com a natureza da desigualdade como elemento estrutural da sociedade. O segundo refere-se às razões da desigualdade, e a posição dos funcionalistas empíricos (Gans, Huaco, Stinchcombe e Tumin) nesta polêmica ilustra, por um lado, a orientação e o estilo de trabalho teórico da vertente e, por outro, as complexidades envolvidas na avaliação ideológica da teoria social. 

Stinchcombe descreveu cruamente o problema envolvido no texto de Davis e Moore. O artigo provocou muita polêmica e pouca pesquisa e, portanto, a única forma de evitar o debate estéril é a exploração das implicações empíricas da teoria - sua verdade ou falsidade só pode ser evidenciada no terreno da verificação. Reside aí, entretanto, a fraqueza da teoria, como argutamente mostrou Huaco: Davis e Moore não estipulam as condições empíricas para o teste de sua teoria. Este demandaria uma definição da contribuição dos papéis sociais para a sobrevivência da sociedade independente dos diferenciais de renda e prestígio entre eles - derivando a primeira da segunda variável, a teoria torna-se infalsificável. 

Não são menores as críticas à versão da análise funcional utilizada por Davis e Moore. Tumin aponta a negligência dos autores em relação às conseqüências disfuncionais da estrutura da desigualdade e às alternativas funcionais de motivação individual para o exercício de opapéis estratégicos. Estes temas reaparecem em artigo provocante de Gans, intitulado "As Funções Positivas da Pobreza" (s./d.). Vou me deter neste trabalho paradoxal: Ele representa a ilustração mais desinibida da natureza contraintuitiva do funcionalismo empírico, que inclui os estudos de K. Davis (1937) sobre a prostituição, o de Merton (1964) sobre a máquina política e o de Coser (1974) sobre jesuítas e bolcheviques. A descoberta das funções latentes dos fenômenos libertou análise sociológica da moralidade convencional dos membros da sociedade. Prostitutas e donas-de-casa igualmente comerciam favores sexuais - a condenação moral da prostituta é função de sua promiscuidade no intercâmbio, como contrapartida à sacralização da família como unidade estável de relações sexuais. A máquina política distribui favores de natureza particularista e informal a grupos excluídas dos canais mais legítimos de participação. O celibato clerical e a promiscuidade sexual são equivalentes funcionais de eliminação de lealdades particularistas ao pleno envolvimento do militante na organização ideológica. Da mesma forma, a persistência do fenômeno da desigualdade extremada - rigorosamente inaceitável em nosso idioma político - indica sua natureza funcional.

Gans lista 15 funções (manifestas e latentes) positivas da pobreza nos âmbitos político, econômico, social e cultural e 15 alternativas funcionais a elas. Automação e melhores salários tornam a pobreza supérflua na dimensão econômica; grupos contraculturais, adolescentes, velhos e deficientes físicos servem tanto quanto os pobres como objetos de punição, satisfação emocional ou práticas desinibidas de ars amatoria; distribuições mais igualitárias de renda e poder podem contribuir mais para a estabilidade do sistema político do que a alienação e a exclusão da pobreza. O autor deixa bem claro que a função positiva para o rico é disfunção para o pobre - embora o primeiro, ao perder os anéis representados pela redução da pobreza através de políticas redistributivas, possa conservar os dedos da eliminação dos sentimentos de medo e incerteza evocados pelo crime, pela violência coletiva e outros sintomas de instabilidade da ordem social. 

Acertadas as contas, por que a pobreza persiste? Não porque ela seja funcional para o sistema - para cada função há equivalente funcional -, mas porque as alternativas funcionais à pobreza são extremamente disfuncionais para os ricos - particularmente as alterações no âmbito redistributivo. Os pobres teriam de acumular poder em escala suficiente para alterar substantivamente o sistema de estratificação da sociedade como condição de eliminação das disfunções representadas pela pobreza. A persistência de desigualdades sociais encontra suas razões menos na distribuição racional de recursos e talentos escassos e mais na estrutura de dominação e sua imposição coercitiva de ordem. As implicações teóricas são evidentes e vou desenvolvê-las quando tratar da convergência do funcionalismo e do marxismo. Antes, devo retornar ao problema da estratégia teórica e introduzir na discussão a objeção representada pelos teóricos do intercâmbio. 

Estes rejeitam as duas estratégias de construção de teoria que discuti até agora e formulam uma estratégia alternativa de equacionamento do problema das relações entre teoria e empiria nas ciências sociais: 

"estas se têm tradicionalmente caracterizado pelo divórcio entre, de um lado, ‘teorias’, entendidas como ambiciosos ‘marcos conceituais’ ou 'taxonomias' de caráter sobretudo definicional e de conexões no mínimo remotas com o plano do trabalho da pesquisa; e, de outro lado, teorias de caráter mais afirmativo ou proposicional, que contrastam com as primeiras por serem suscetíveis de algum tipo de teste empírico, mas que, via de regra, pagam para isto o preço de se restringirem a problemas de alcance substantivo reduzido (as chamadas 'teorias de alcance médio' na expressão proposta por Merton)" (Reis, 1984, pp. 178). 

É portanto, de outra natureza a objeção ao empreendimento parsoniano derivada dos proponentes de uma definição estrita de teoria (Homans, 1964, 1967 e 1975), derivada da tradição das ciências físicas e naturais, tal como formulada pelo postulado da unidade da ciência (Zetterberg, 1968). Teoria, afirma Homans, "consiste de séries de proposições, cada qual afirmando uma relação entre propriedades da natureza (...) As proposições não consistem de definições das propriedades; a construção de um esquema conceitual é uma parte indispensável do trabalho teórico, mas não é, ela mesma, teoria" (Homans, 1964, p. 812). Este é um sistema lógico-dedutivo de proposições: as proposições de ordem mais baixa (a serem explicadas) são conclusões lógicas de proposições gerais, sob condições particulares especificadas. 

O fracasso parsoniano é a ilustração particular da falência mais geral do funcionalismo como modelo de explicação teórica de fenômenos sociais. Tal falência deve-se aos pressupostos coletivistas do modelo: as proposições sociológicas articulam propriedades grupais (inter-relações de papéis e de instituições) do ponto de vista de suas conseqüências para a estabilidade do sistema social como um todo. Como os teóricos funcionalistas não oferecem critérios definidos do que seja estabilidade, equilíbrio ou sobrevivência de sistemas sociais, suas proposições são empiricamente inverificáveis e seus conceitos constituem um exercício de reificação 

"se eventos sociais como a inflação, a revolução política, o ‘desaparecimento das classes médicas’, etc. são produzidos pelas pessoas, eles devem ser explicados em termos de pessoas; em termos das situações que as pessoas enfrentam e cias ambições, temores e idéias que as movam. Em síntese, fenômenos sociais de larga escala devem ser explicados pelas situações, disposições e crenças de indivíduos" (Watkins, apud KnorrCetim e Cicourel, 1981, p. 8). 

A troca de críticas agudas e farpas mundanas entre Homans e Parsons pode ser vista como uma atualização das polêmicas entre Durkheim e Tarde. É difícil evitar a solução do velho cético que, conversando com os ateus, se lembrava das dez provas da existência de Deus e, junto aos devotos, delas se esquecia. Individualismo e coletivismo são pressupostos para a construção de teoria e Homans e Parsons não são agnósticos. Para Homans, o funcionalismo "oferece o dicionário de uma língua que não possui (...) orações gramaticais" (Homans, 1975, p. 166), ao que Parsons retruca apontando a natureza puramente paramétrica do adjetivo social na teoria de Homans. 

As "Duas Sociologias": Afinidades Eletivas e Relações Perigosas 

O tema das "duas sociologias" domina a crítica substantiva ao funcionalismo. Um artigo muito citado formalizou o divórcio entre as "duas sociologias" que dominou o debate até os anos 70: há um "vocabulário da ordem" (sistema, valores comuns, anomia) que se opõe a um "vocabulário lo conflito" (mudança social e histórica, alienação, poder) na descrição de fenômenos sociais (Horton, 1966). A lógica do argumento é a seguinte: Parsons supervaloriza o papel dos elementos normativos na ação social e, conseqüentemente, tem pouco a dizer sobre o substratum da ação ou "a disposição fatual dos meios na situação da ação que estrutura diferentes Lebenschancen e produz interesses de um tipo não normativo" (Lockwood, 1956, p. 136), que explica o conflito, a instabilidade do sistema social e a mudança sócio-histórica. 

Podem ser identificadas pelo menos três posições na controvérsia das "duas sociologias". A "direita" situam-se os críticos, como Coser, da incapacidade parsoniana de perceber as funções positivas do conflito social: as metáforas médicas do conflito como desvio ou patologia cegaram Parsons em relação à contribuição do dissenso para a solidariedade grupal e a redução da alienação (Coser, 1956). O "centro" é ocupado por autores como Dahrendorf (1959) e Lockwood (1956), que postulam a complementariedade entre as "duas sociologias": "ordem" e "conflito" são soluções "parciais" de problemas empíricos diferentes em sua natureza. Uma terceira posição nega frontalmente a relevância da ordem normativa para a sociologia e volta-se para os problemas de natureza histórica, da produção e reprodução da vida social por seus atores. Tudo ia muito bem, até o exame menos apaixonado do combate identificar convergências surpreendentes entre os contendores (Elster, 1982; Sztompka, 1979). O esgarçamento da oposição entre ordem e conflito cede lugar a uma nova postulação de "duas sociologias": a sociologia estrutural - parsoniana ou marxista - em oposição à sociologia da ação, de matriz fenomenológica ou weberiana (Dawe, 1970; Knorr-Cetina e Cicourel, 1981). Discuto, em primeiro lugar, as afinidades eletivas entre o funcionalismo parsoniano e o marxismo e, para concluir, as relações perigosas entre Parsons e os proponentes de modelos interpretativos da ação social. 

1 - Marxismos Funcionalistas e Funcionalismos Marxistas 

Um dos elementos constantes ao longo das mutações teóricas de Parsons é a avaliação pouco entusiástica da contribuição do marxismo para a teoria geral. O lado econômico do marxismo é peça de antiquário (Parsons, 1968a, p. 109) e a relevância teórica de Marx reside em sua exploração dos elementos estratégicos do jogo de poder envolvidos na luta de classe e do papel da coerção na constituição de um sistema de ordem social - mesmo quando já se encontram solucionados; no plano institucional, os dilemas da convivência (idem, pp. 109-10). A ênfase parsoniana sobre a dimensão estratégica da ação, por ele identificada como central na análise marxista, introduz (em 1937) um tema que domina, hoje, a fronteira do debate acadêmico (Elster, 1982; Przeworski, 1988). Embora reconhecendo a importância da síntese marxista de orientações teóricas divergentes - o idealismo hegeliano, o utilitarismo britânico e o positivismo -, Parsons a relega a um segundo plano, obscurecido pelos empreendimentos da geração posterior ao marxismo - a de Weber e Durkheim. 

Uma primeira indicação da convergência do marxismo e do funcionalismo encontra-se no livro de Gouldner (1970). Essa convergência, do lado funcionalista, encontra um estímulo inicial na "mudança para a mudança" (Huntington) na teoria de Parsons, representada pela adesão ao evolucionismo. Ao identificar na "política" e na "estratificação" universais evolucionários, Parsons aproxima-se salutarmente, na avaliação de Gouldner, da teoria marxista clássica. Do lado marxista, continua Gouldner, não é de todo negligenciável a incorporação da análise parsoniana dos "pré-requisitos" do desenvolvimento social - a linguagem e os sistemas de crença e parentesco - presentes na tradição clássica. Essas convergências explicitam-se no trabalho teórico da corrente que Gouldner rotula como "parsonianismo de esquerda" - S. Lipset, W. Moore e N. Smelser (Gouldner, 1970, pp. 362-70).

Talvez a discussão mais explícita do "funcionalismo marxista" (Stinchcombe, 1968) seja a de Lipset (1977, pp. 190-230). O ponto de convergência dos dois corpos de conhecimento reside no conceito de estrutura social - "inter-relações estáveis entre partes de um sistema, como, por exemplo, a relação entre marido e mulher ou entre os operários e os patrões" (idem, p. 190) -, central na explicação da mudança societária: 

"os três principais enfoques teóricos da estratificação social - o marxismo, o weberiano e o durkheimiano (funcionalista) - têm procurado explicar a existência e a persistência da desigualdade, ao mesmo tempo que pressupõem que uma forma de ‘alienação’ é inerente a todos os sistemas de estratificação. Noutras palavras, cada teoria implica que os sistemas de desigualdade hierárquica contêm tanto mecanismos estabilizadores como mecanismos não estabilizadores" (idem, p. 191) . 

Daí, Lipset deriva um conjunto - surpreendente, para quem se acostumou às dicotomias antagônicas do debate dos anos 50 - de convergências teóricas: marxistas e funcionalistas subscrevem, conjuntamente, o pressuposto do equilíbrio precário dos sistemas sociais; as "inconsistências", "discrepâncias" e "pressões" envolvidas nas interações entre cultura e estrutura não diferem muito - ontológica e metodologicamente - da noção marxista de "contradição". Por isso mesmo, o diagnóstico de Eisenstadt ecoa o balanço de Gouldner: 

"as pressuposições básicas de cada abordagem - a existência da divisão do trabalho e a organização sistêmica de grupos e de sociedade; a busca de vários objetivos por parte dos indivíduos - tanto `privados' quanto institucionalizados na interação social; a importância de modelos simbólicos de orientação (...); a importância da definição significativa da situação (...); a existência de algumas organizações ecossistêmicas - parecem ter sido aceitas como universais evolutivos da sociedade. humana, por quase todos estes enfoques" (Eisenstadt, apud idem, p. 227 ).

Não parece ser menor a disposição ao diálogo entre os marxistas. Para vários destes, a identificação da área de convergência reside na aceitação explícita do marxismo como uma "teoria funcional-estrutural da sociedade - talvez a primeira delas", como Hobsbawn (1977, p. 308) orgulhosamente admite. A distinção entre o marxismo e o funcionalismo reside menos nas pressuposições gerais, que são comuns a ambos os paradigmas, e mais nos supostos particulares do marxismo, ligados à historicidade e à progressividade dos sistemas sociais (Sztompka, 1974). Autores como Hobsbawn e Sztompka representam o que poderia ser chamado "marxismo funcionalista I", construído a partir dos seguintes elementos: (a) o marxismo é uma concepção sistêmica da realidade social, realidade que envolve diferentes níveis hierárquicos ("infra-estrutura" e "superestrutura") em relações de intercâmbio recíproco; (b) tais relações supõem: (1) o primado causal das relações de produção e reprodução sobre as formas de consciência e práticas humanas e (2) a existência de contradições internas que afetam a estabilidade dos sistemas sociais. O primeiro suposto explica a direção da mudança social (no sentido de ampliação progressiva do controle humano sobre a natureza e emancipação da espécie em relação aos constrangimentos representados pela estrutura de necessidades) e o segundo dá conta da dinâmica dialética entre estabilizadores funcionais e forças estruturais de mudança (Hobsbawn, 1977; Sztompka, 1974 e 1979) . 

Mas há um "marxismo funcionalista, II" que, como o amor do poeta, não ousa dizer seu nome e que foi elaborado no ambiente acadêmico europeu e norte-americano por autores como L. Althusser, P. Bourdieu, J. O'Connor, C. Offe e N. Poulantzas. Estes mantêm-se à margem do diálogo e, quando a ele se referem, rechaçam explicitamente o funcionalismo, mesmo utilizando um modelo sistêmico de análise social. Um exame rápido do "marxismo funcionalista II" permite explorar as "conseqüências não antecipadas" de escolhas paradigmáticas no plano da análise empírica como introdução a um problema muito mais relevante do que a identificação, ou não, de convergências intencionais de paradigmas: a fraqueza da explicação funcional (Elster, 1979 e 1982) .

Vou explorar dois exemplos do "marxismo funcionalista II", ainda que pelo simples prazer de polemizar. O primeiro deles é a teoria do Estado de Poulantzas.

Constituído, "em sua materialidade e especificidade", por seus aparatos repressivos eideológicos,

"o Estado, que é um Estado de classes (...) é a instância central cujo papel é a manutenção da unidade e da coesão de uma formação social, a manutenção das condições da produção e, assim, a reprodução de condições sociais da produção; é, em um sistema de luta de classes, - o fiador da dominação política de classe (...) tal é, muito exatamente, o papel que desempenham os aparatos ideológicos; especialmente, a ideologia dominante ‘cimenta’ a formação social" (Poulantzas, 1971, pp. 356-7 ) . 

Esta citação permite esclarecer significado do “marxismo funcionalista II”.O Estado define-se por suas funções de garantir a produção e a reprodução das relações objetivas que constituem o modo de produção. Ele existe em uma formação social - é "a instância central" de implementação de objetivos coletivos. Estes formulam-se em outra "instância" - a economia - e justificam-se no plano cultural - a ideologia. Poulantzas fala na "determinação em última instância" do plano econômico, da mesma forma que Parsons localiza no subsistema de adaptação a fonte de mudança exógena do sistema social. No nível da explicação, ambos se dão por satisfeitos quando descrevem os efeitos da interação de subsistemas na produção de alguma, "unidade" ou "coesão" da organização coletiva (Easton, 1982).

Um segundo exemplo é a teoria da reproducão de Bourdieu. Este teórico rejeita explicitamente quaisquer perspectivas de convergência entre o marxismo e o funcionalismo (Ortiz, 1983, pp. 151-2). Entretanto, o que resulta de sua análise das relações entre o sistema de produção e o sistema de reprodução na sociedade capitalista? (Bourdieu e Passeron, 1970; Bourdieu e Boltanski, 1375). Em primeiro lugar, a rejeição do que eles chamam "materialismo grosseiro", cego em relação à autonomia relativa do sistema de ensino vis-à-vis o sistema produtivo, exemplificada na produção escolar de literatos quando a economia requer cientistas, e da "ilusão" ideológica da "neutralidade" da Escola frente aos conflitos de classe: "é preciso escapar aos dois tipos de redução: é o jogo entre as mudanças do aparelho de produção e as mudanças do sistema de ensino que está no princípio das disjunções, entre os habitus e as estruturas. Estas disjunções devem ser compreendidas com referência ao estado e à história das relações entre o sistema de ensino e o sistema de produção" (Bourdieu e Boltanski, 1975, p. 96). Por habitus Bourdieu entende "as estruturas incorporadas" ou "sistemas de disposições duráveis e transponíveis" de indivíduos, o que é distinto da "história congelada" das estruturas objetivas: habitus e posições estruturais relacionam-se não por uma causalidade mecânica mas por alguma "cumplicidade ontológica", que Bourdieu (1981, pp. 305-6) tenta descrever. 

Em segundo lugar, "educação" e "produção" obedecem a lógicas diferentes de ação: "o sistema de ensino depende menos diretamente das exigências do sistema de produção do que das exigências da reprodução do grupo familiar" (Bourdieu e Boltanski, 1975, p. 97). "A lógica específica do sistema de ensino (...) faz com que ele tenda a se organizar em função dos imperativos de sua própria reprodução" (idem, pp. 96-8) - logo, há uma "tensão estrutural" entre os dois subsistemas (produção e educação) da sociedade. 

Os capitalistas querem instrumentalizar a família e a escola, mas o crescimento do papel reprodutor do sistema de ensino torna-o funcionalmente autônomo em relação tanto à família quanto à empresa. As instituições econômicas oferecem postos; as burocracias educacionais de credenciamento produzem títulos como propriedade pessoal e intemporal (em contraste com a natureza impessoal dos postos) dos indivíduos. Quanto mais formalizada a relação entre títulos e postos, menores os graus de liberdade dos agentes detentores de títulos nas relações de intercâmbio com os agentes - as instituições - que controlam os postos. O "mundo do trabalho" é a arena política onde ocorrem "os jogos estrátégicos dos agentes" (idem, p. 98) : o "sonho patronal de uma escola confundida com a empresa" (idem, p. 105) opõe-se aos interesses "dos produtores de títulos" na defesa da autonomia do sistema de ensino como garantia formal de competência.

Não me parece muito diferente a explicação parsoniana das relações entre "educação" e "economia". A diferenciação da estrutura social explica a autonomia relativa de esferas institucionais funcionalmente especializadas e interdependentes. Como Bourdieu, Parsons deriva da diferenciação estrutural a ampliação do domínio institucional do sistema de ensino, frente ao âmbito familiar, na socialização (ou "reprodução") individual:

"Crescentemente, a socialização para o desempenho de papéis não-familísticos é alocada a instituições educacionais (...) É o sistema educacional, e não a família, que crescentemente serve como fonte direta de trabalho para a economia. De modo similar, é o sistema educacional e não o de parentesco que crescentemente determina a distribuição de indivíduos no sistema de estratificação" (Parsons, 1971a, p. 101). 

Igualmente, Parsons volta-se para a explicação do "deslocamento" do sistema educacional em relação ao sistema econômico: os "títulos" têm significado instrumental e simbólico e as instituições educacionais "pertencem" ao subsistema de manutenção dos padrões - o capital cultural incorporado nas máquinas e nos agentes.

Os "jogos estratégicos" do título e dos postos recebem curioso comentário na discussão parsoniana da "revolução educacional" – esta promove a um só tempo a igualdade de oportunidades e a igualdade da cidadania. O credenciamento dota o detentor do título de uma garantia "pessoal e intemporal" de sua competência para o exercício de papéis no sistema de produção, papéis que são estratificados com base distintas, em critérios de competência e responsabilidade. Bourdieu não acredita na mobilidade individual resultante das normas universalistas de competência - mas essa é resultado não antecipado dos "jogos estratégicos" entre o título e o posto:

"os membros das facções dirigentes das classes dominantes que (...) utilizam a titulação em suas próprias estratégias de reprodução, não podem contestar abertamente a legitimidade do título escolar e privar, assim, os vendedores daforça de trabalho da proteção que assegura o título sem se privar de um instrumento muito eficaz da legitimação do acesso às posições dominantes e de dissimulação dos modos diretos de transmissão do patrimônio" (Bourdieu e Boltanski, 1975, p. 102 ).

O poder do título é uma propriedade emergente de efeitos potencialmente igualitários.

Enfim, para que serve o sistema educacional? Para cumprir funções de natureza instrumental e simbólica, produzir os produtores e reproduzir a estrutura social. Estas funções explicam sua existência - o sistema de ensino serve aos interesses capitalistas porque, seja qual for sua conformação, ele legitima o sistema social e suas metas culturais: a liberdade é uma estratégia de sujeição do estudante ao sistema de ensino; autonomia atribuída à escola faz com que, aparentemente perseguindo seus próprios objetivos, o sistema de ensino cumpra melhor sua função de "perpetuação das relações estabelecidas entre as classes" (Bourdieu e Pars seron, 1970, p. 159). A espontaneidade dos atores do sistema de ensino é parte das ordens de seus donos; criando ou violando as regras da gramática, os intelectuais estão protegendo seu monopólio sobre o capital cultural - tudo é explicado teleologicamente, tudo serve a necessidades sistêmicas, sejam estas representadas pelos interesses de classe ou da sociedade como ator coletivo dotado de propósito.

2 - "Ação" e "Sistema": A Crítica ao Postulado de "Alta Coerência" ( J. Gagnon ) entre Estrutura, Cultura e Comportamento 

A convergência representada pelo "funcionalismo marxista" e pelo "marxismo funcionalista" significa, no plano teórico, a adesão, ainda que retoricamente diferenciada no apelo às origens a um modelo sistêmico de sociedade. O problema da ordem social encontra sua resolução nas estruturas institucionais objetivas que governam os comportamentos individuais, canalizando-os para a implementação de objetivos (ou realização de interesses) coletivos - sejam estes derivados do consenso societário ou estratégico das classes dominantes. 

O modelo sistêmico de sociedade supõe um alto grau de interdependência entre as variáveis (ou forças) estruturais e organizacionais que o conformam e, conseqüentemente, postula uma alta coerência entre cultura, estrutura e comportamento dos atores. Em sua variante parsoniana, o modelo encontra no fenômeno da interpenetração dos quatro subsistemas de ação, representado pela internalização de objetos e normas sociais na personalidade individual e pela institucionalização de elementos valorativos e normativos como estruturas constitutivas do sistema social (Parsons, 1971a, pp. 5-6), a resolução do problema da ordem. A variante marxista deriva a "alta coerência" da determinação infra-estrutural objetiva da ação social: 

"as relações sociais não são jamais redutíveis a relações entre subjetividades movidas pela busca de prestígio ou por qualquer outra ‘motivação’, porque elas não passam de relações entre condições e posições sociais que se realizam segundo uma lógica propensa a exprimi-las e, por esse motivo, estas relações sociais têm mais realidade do que os sujeitos que as praticara. A autonomia que torna possível a instauração de relações simbólicas (...) é apenas relativa: as relações de sentido que se estabelecem no interior da margem restrita de variação deixada pelas condições de existência, apertas exprimem as relações de força, sujeitando-as a uma transformação sistemática" (Bourdieu, 1974, p: 25). 

O programa parsoniano de "ver a ação do ponto de vista do ator", analiticamente distinta da emissão de comportamento por sua natureza simbólica mas, ao mesmo tempo, conformando-se às regras morais derivadas da cultura normativa, é o alvo da crítica etnometodológica. Sob que condições podemos aceitar, como descrição objetiva da realidade social, o postulado que deriva a ação da conformidade individual a normas coletivas, incorporadas na personalidade dos atores e institucionalizadas na estrutura social? 

Tomarei como ponto de partida para o equacionamento desta questão algumas elaborações no campo da teoria das organizações (March e Olsen, 1976). Penitenciárias criam reincidentes; hospícios cronificam os pacientes agudos; escolas retêm a clientela; tecnologias de ponta produzem acidentes “normais”; partidos democráticos e sindicatos são presa fácil de oligarquias. Estudos de caso mostram que estruturas de autoridade exercem pouco controle sobre o pessoal de linha; que direitos de participação duramente adquiridos não são exercidos ou que crenças e mitos resistem a evidências racionais que os questionam. Os modelos convencionais de organização (burocráticos e políticos) fracassam na explicação daqueles resultados empíricos porque tomam como "real" e "objetivo" o mundo organizacional que existe apenas na cabeça (e no texto) do analista de organizações. Nesse mundo não há lugar para as ambigüidades envolvidas na definição de objetivos e interesses pelos atores organizacionais; para as considerações contextuais sobrepostas a ações pretensamente racionais; para a imposição de realidade e ordem a eventos rigorosamente fictícios ou desarticulados entre si. As teorias organizacionais construídas a partir de supostos de racionalidade ou de consistência entre interesses e atividades ou de lógicas objetivas de ação são construções metafóricas de um mundo onde as ações se orientam para objetivos que se pautam por considerações racionais que explicam sua consistência. 

Uma abordagem alternativa ao problema da realidade emergiu da perspectiva fenomenológica: 

"toda a distinção entre real e irreal (...) sempre se baseia (...) em dois fatos mentais: primeiro, que somos propensos a pensar de modo diferente sobre o mesmo objeto; e segundo, que, quando o fazemos, podemos escolher qual o modo de pensar a que queremos aderir e qual ignorar. (...) Conseqüentemente, existe um número considerável, provavelmente mesmo infinito, de diferente ordem de realidade (...) o mundo dos sentidos ou das `coisas físicas' que são experimentadas pelo senso comum, constituindo a realidade preponderante; o mundo da ciência; o mundo das relações ideais; o mundo dos `ídolos da tribo'; os mundos sobrenaturais (...); os numerosos mundos da opinião individual, e finalmente os mundos da pura ociosidade e loucura (...) Cada um desses mundos, enquanto desperta a nossa atenção, é real a seu próprio modo, e qualquer que seja a sua relação com a nossa mente, se não houver uma relação mais forte com a qual se conflitue, bastará para tornar este objeto real" ( Schutz, 1983, pp. 191-2 ) . 

Vou explorar - de modo necessariamente superficial - algumas das implicações desse argumento. A primeira delas é de natureza epistemológica e pode ser melhor entendida através do exame do significado da "ação conforme regras". O paradigma parsoniano deriva a conformidade dos processos - bem-sucedidos, é claro - de socialização e institucionalização. Mas como oator define a situação e seleciona a regra comportamental adequada? Parsons encontra na "reciprocidade de expectativas" entre atores a resolução do problema cognitivo envolvido na interação. Mas o pressuposto do controle normativo da ação elimina as ambigüidades de definição e orientação convencionalmente catalogadas conto "incompetência" ou "desvio": "procedimentos cognitivos explícitos e uma teoria do significado estão ausentes da formulação de Parsons" (Cicourel, 1974, p. 21). Essa ausência deve-se ao postulado da existência de uma realidade objetiva como fato social irrefutável e irredutível a percepções e cognições contextualizadas dos atores sociais. 

A teoria da "alta coerência" da ação social pressupõe que "a descrição das normas ou significados compartilhados presumivelmente oferece ao analista a predição e a explicação dos eventos reais na sociedade" (Zimmerman e Wieder, 1970, p. 288). Entretanto, há um problema muito relevante envolvido nas descrições sociológicas da interação social. Seriam elas descrições literais, dotadas de significados estáveis e independentes das circunstâncias de sua produção? A solução parsoniana deriva dos supostos do consenso cognitivo e da coerência normativa entre os diferentes níveis da ordem social a possibilidade de descrições literais (objetivas e context-free) da ação e da interação, mas tal suposto é questionável, como passo a demonstrar. 

Os objetos da sociologia estão, como as pedras e os microorganismos, no mundo, mas, em contraste com pedras e micróbios, possuem um mundo e descrevem este mundo, praticamente construído por eles, através de categorias de senso-comum como motivos, regras, papéis, expectativas ou disposições que criam as regularidades "objetivas", para todos os efeitos práticos, da sociologia estrutural. 

Vou exemplificar esse problema através do conhecido trabalho de A. Cicourel (1968 ) sobre a organização social da justiça criminal. Os funcionários burocráticos do sistema rotineiramente interrogam jovens suspeitos e decidem, cotidianamente, o seu status legal. As decisões judiciárias envolvem o uso, pelo burocrata competente, de inferências a partir de expressões faciais, recursos lingüísticos e outras aparências do interrogado e de informações de background (situação familiar, escolar e religiosa) que permitem caracterizar o jovem em questão como um "delinqüente típico". A "lógica reconstruída" das estatísticas oficiais de criminalidade encobre a "lógica-em-uso" dos procedimentos interpretativos (tipificações, teorias nativas e entendimentos práticos) de policiais, promotores e juízes. Assim, 

"uma coisa é analisar a estatística criminal como produto da atividade prática dos policiais; outra, muito diferente, é tomá-la como descrição literal da atividade criminosa na sociedade. Assim o fazendo, a sociologia convencional toma por fato interpretações peculiares de eventos e ocorrências e dota suas mitologias profissionais de aparência de discurso objetivo" (Paixão, 1988, p. 9). 

Ao postular uma teoria da correspondência entre fato e conceito, Parsons anula as complexidades envolvidas na relação entre sujeito e objeto de conhecimento e resulta daí a reificação de um mundo sui generis pela aplicação de um corpo de conhecimento: 

"eu me refiro, como cultural dope, ao homem-na-sociedade-do-sociólogo, que produz as características estáveis da sociedade, atuando em conformidade com as alternativas preestabelecidas e legítimas de ação que a cultura comum possibilita. (...) A característica comum do uso destes `modelos do homem' é o fato de que cursos de racionalidade de senso-comum de julgamento que envolvem o uso, pela pessoa, de conhecimento de senso-comum das estruturas sociais,(...) são tratados como epifenômenos" (Garfi:nkel, 1967, p. 68 ). 

A rejeição da teoria da correspondência em favor de uma teoria da congruência (que supõe a identidade entre o objeto percebido pelo ator e oobjeto concreto, real ) tem implicações substantivas que analiso em outro artigo (Paixão, 1986). Interessa-me, aqui, indicar algumas áreas "críticas" identificadas pelos proponentes de diferentes versões do paradigma interpretativo na resolução parsoniana do problema da ordem social. 

a) A concepção hipersocializada do homem. A tese da internalização da cultura normativa na personalidade individual encontra no trabalho de D. Wrong (1980) uma brilhante e poderosa refutação. O problema teórico, lembra-nos Wrong, reside na definição de normas como elementos constitutivos da natureza humana e não como elementos "externos", regulatórios de comportamentos. Deriva daí a definição parsoniana da internalização como "aprendizagem" ou "formação de hábitos" - uma opção teórica que elimina o conflito entre pulsões inconscientes socialmente destrutivas e os controles do superego: "em termos psicanalíticos, dizer que uma norma foi internalizada ou introjetada como parte do superego é dizer apenas que uma pessoa sofrerá sentimentos de culpa se ela fracassar em sua implementação e não que ela, de fato, irá incorporá-la em seu comportamento" (Wrong, 1980, p. 14). A sociologia normativa apropria-se da psicanálise de modo curioso: o conceito de superego é bem-vindo, desde que se separe do id, para o qual não existe equivalente sociológico. Wrong observa que Freud reconhecia o fracasso da maioria das pessoas na aquisição de superegos, o que representa, no plano "microssociológico" de explicação da ordem social, a centralidade dos processos "externos" de imposição coercitiva de normas culturais de convivência (Wrong, 1980, p. 16). 

b) O consenso cognitivo. A ordem interativa baseada na "reciprocidade de expectativas" internalizadas pelo indivíduo qua ocupante de uma posição estrutural (ou papel) é o alvo preferencial de ataque dos interacionistas simbólicos (Blumer; 1969; Mead, 1956), de modo muito próximo à crítica de Wrong. Os indivíduos possuem um self, uma qualidade processual que permite que eles atuem em relação a si mesmos como objetos: "com o mecanismo de auto-interação, o ser humano deixa de ser um organismo que responde, cujo comportamento é o produto daquilo que o afeta de fora, de dentro, ou ambos. Pelo contrário, ele age em relação a seu mundo, interpreta o que o confronta e organiza sua ação com base nessa interpretação" (Blumer, 1969, p. 63 ) . A natureza processual do self chama a atenção para a relevância da experiência social do ator e dos processos comunicativos na emergência de uma ordem cognitiva: 

"(...) o começo do self como um objeto (...) deve ser buscado nas experiências das pessoas que levaram à concepção de um ‘duplo’. Os povos primitivos assumem que há um duplo, localizado presumivelmente no diafragma, que deixa temporariamente o corpo durante o sono e completamente após a morte (...) Ele é representado na infância pelos amigos imaginários que as crianças criam e através dos quais elas chegam a controlar suas experiências nos brinquedos" (Mead, 1956, p. 204). 

Brincamos de policial e bandido e aprendermos o desempenho de papéis; jogamos futebol e aprendemos que o desempenho competente depende da assunção, por cada jogador, do papel de todos os outros no contexto de uma ação conforme regras. 

O jogo ensina o jogador a jogar através do mecanismo cognitivo do "role taking" e o jogador constrói o jogo pela criatividade "técnica" possibilitada pela natureza incompleta e ambígua das regras sociais. Estas se apresentam para o ator como o "outro generalizado" - um objeto a ser desvendado e, ao mesmo tempo, construído como realidade externa e coercitiva. 

c) As "metáforas congeladas" de organização e sistema. Os paradigmas interpretativos alteram substancialmente as metáforas da máquina e do organismo que representam a ordem social, no plano "intermediário" (organizacional) e no plano "macrossociológico". Já me referi, no início desta seção, aos importantes trabalhos de J. March e K. Weick, competentemente explorados por teóricos organizacionais de diferentes convicções metateóricas como E. Campos (1980) e C. Perrow (1976). As metáforas do jogo e do drama, caras à tradição interpretativa, substituem a natureza instrumental e adaptativa imputada às organizações sociais pela ênfase no caráter comunicativo e potencialmente anárquico das atividades organizacionais. A racionalidade é um mito institucionalizado no ambiente cultural das sociedades modernas e as organizações adequam-se cerimonialmente ao mito, elaborando complexas estruturas formais de controle que, entretanto, em muito pouco afetam as atividades práticas (ou a "lógica-em-uso") de seus membros. Estes se orientam pelos entendimentos de senso-comum que elaboram, para eles, modos pragmáticos de resolução dos problemas pedestres e cotidianos com que se defrontam - a estrutura formal torna-se um relato, para públicos externos, da conformidade interna aos mitos da racionalidade tanto mais ela se separa das ações concretas e práticas dos membros da organização (Meyer e Rowan, 1977). 

A ordem social é, no plano das articulações dos níveis "micro" e "macrossociológico", algo que emerge de um processo de negociação entre atores quanto ao significado das regras de convivência, dos objetivos e missões organizacionais e das tecnologias de sua implementação (Strauss, 1978) .Uma alternativa mais radical, representada pela etnometodologia, nega o status ontológico das obrigações sociais. Estas são contextos comunicativos através dos quais situações sociais ganham significado através do uso metódico, pelos membros, de conceitos como nacionalidade, estrutura, objetivo, que descrevem a ação como orientada por regras e propósitos - a ordem social, portanto, emerge do relato, pelos membros, do mundo social como padronizado, ordenado e estruturado (Garfinkel, 1967). 

Ponto Final

A emergência dos paradigmas interpretativos no final dos anos 60 coincide com a inflação de diagnósticos da crise da teoria sociológica, alguns discutidos aqui. À oposição "ordem" e "conflito", que dominou a controvérsia teórica dos anos 50, sucedeu-se o contraste entre "macrossociologia" e "sociologia da vida cotidiana", que, como o primeiro, produziu mais declarações de princípios do que discussão sociológica relevante (Paixão, 1986). Entretanto, a ordem social da disciplina vem se marcando pela emergência de posturas dialógicas entre paradigmas competitivos que convém registrar "à guisa de conclusão". 

Estou me referindo ao debate entre teóricos como R. Collins (1975 e 1981), A. Giddens (1978 e 1981), J. Habermas (1984), N. Luhman (1981), por um lado; e A. Cicourel (1981) , R. Harré (1981), por outro. Há uma problemática comum nesses esforços - a tentativa de construção de uma ponte teórica entre os planos macro (história, instituição, estrutura) e micro (interação, ação, linguagem) da ordem social (Alexander, 1982 e 1987). Não cabe, neste ensaio, uma avaliação da solidez ou da estabilidade das pontes projetadas sobre a crise; quero apenas indicar ao leitor o contexto intelectual do revival parsoniano. Reside na tentativa de articulação entre a teoria da ação e a teoria do sistema o elemento "permanente" de fascínio da construção parsoniana. Para os marxistas, "a teoria dos sistemas e a teoria da ação são os disjecta membra de um conceito dialético de totalidade empregado por Marx (...)" (Habermas, 1984, p. 343 ) e a absorção parsoniana da teoria da ação pela ampliação do nível do sistema indica a necessidade de investimento teórico na estruturação do mundo da vida cotidiana. Este, para Collins, dota as abstrações da macrossociologia da "realidade causal", ao se constituir como um "mercado comunicativo" onde os atores negociam ritualmente a solidariedade e a estratificação, cujas bases se definem nas macroestruturas sociais e políticas. Da mesma forma, Giddens encontra nas atividades de "estruturação" o nexo cognitivo e interativo entre a estabilidade dos sistemas sociais e a ação voluntarista dos indivíduos. 

Os parsonianos, como Luhman e Lidz, buscam ampliar os elementos multidimensionais da resolução do problema da ordem social através da aproximação do tema dos meios, simbólicos de intercâmbio e da diferenciação dos sistemas de ação com a problemática fenomenológica, da linguagem e dos entendimentos tácitos. Não há sinal de consenso ou mesmo de entusiasmo quanto a tais empreendimentos de síntese teórica, mas o reconhecimento generalizado de que a ordem social é alguma coisa que resulta dá articulação entre cultura, estrutura, objetividade e subjetividade e que o esforço protéico de Talcott Parsons não foi de todo um trabalho de Sísifo. 

Notas

(*)Antônio Luiz Paixão - Professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

(*) Agradeço aos Professores Cláudio Chaves Beato Filho, Latula da Veiga e Renan Springer de Freitas, da UFMG, e a dois pareceristas anônimos da RBCS a leitura atenta e o comentário crítico à versão anterior deste artigo.

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