A DIREITA MORA DO OUTRO LADO DA CIDADE 

 

 

ANTÔNIO FLÁVIO PIERUCCI 

 

Introdução

Em 15 de novembro de 1985, pela primeira vez após 1964, a população paulistana pôde escolher pelo voto direto o prefeito de sua cidade. E, pela primeira vez, desde a estrondosa guinada anti-regime militar representada pelos 70% dos votos paulistanos, obtidos pelo candidato do MDB ao Senado em 1974, o (P)MDB perdia uma eleição na capital paulista. E perdeu para a direita. 

Neste artigo pretendo tão-somente levantar algumas indagações e, com elas, trazer uma sugestão de interpretação sociológica das bases sociais das forças políticas de direita no contexto metropolitano no Brasil dos anos 80. Tomo como ponto de partida os resultados das urnas de 1985 e 1986 no município de São Paulo e, como pano de fundo, os achados de uma pesquisa qualitativa à base de entrevistas semidiretivas, gravadas com 170 ativistas das campanhas eleitorais de Jânio Quadros, em 1985, e de Paulo Maluf, em 1986 (Pierucci, 1987). 

Jânio Quadros foi eleito em 1985 com 37,5% dos votos; Paulo Maluf, em 1986, ficou em terceiro lugar, obtendo um quinto (19,4 %) dos votos do município da capital. Não são, no entanto, as razões da vitória de um e da derrota do outro o objeto de indagação deste artigo, mas as razões do voto em um ou outro (ou nos dois consecutivamente). 

Estudar as escolhas eleitorais dos paulisfanos, é bem verdade, significa ater-se a um caso muito particular no conjunto dos comportamentos políticos nacionais. A singularidade de São Paulo não carece ser sublinhada: o tamanho da cidade e de seu eleitorado, seu modo muito especial e seu ritmo acelerado de desenvolvimento histórico, a composição étnica de sua população, o modo caótico e autodestrutivo da configuração de seus espaços construídos, a impermanência desnorteante de seus estoques arquitetônicos e de seu traçado viário, o nomadismo interno de seus moradores através desses espaços, em constante mutação, bem como o afluxo inesgotável de novos habitantes, além, é claro, de seu status de capital econômica do País, são traços indissociáveis da realidade dos comportamentos eleitorais dos paulistanos. 

Não é o caso, aqui, de discutir o impacto das escolhas políticas dos paulistanos sobre a vida política nacional, nem tampouco a evolução de sua importância política no cenário mais amplo. Mas seguramente o teor e a aspereza das últimas batalhas eleitorais que tiveram lugar em seu território, quando as forças políticas de direita oportunisticamente endureceram suas interpelações explícitas ao autoritarismo subjacente de certas camadas e indivíduos, exasperando expectativas e demandas antidemocráticas, antipluralistas, moralistas e discriminatórias, fizeram do contexto paulistano o lugar privilegiado de um enfrentamento de forças sociais, que vale a pena ser perscrutado em seu aspecto ecológico, vale dizer, do ponto de vista da distribuição espacial das especializações das demandas de representação e das representações das diferenças que "realmente importam". 

Apesar da acentuada fluidez dos enraizamentos espaciais da população na cidade de São Paulo, que faz com que a composição social dos seus bairros se veja impossibilitada de cristalizar-se, não há dúvida de que a localização das populações residentes a cada momento repõe (ou refaz) as diferenças, as distâncias, as fronteiras entre indivíduos e coletividades, entre redes de relações pessoais, familiares e sócio-profissionais, entre níveis de vida desiguais, estilos de vida distintos e - por que não? - entre clientelas políticas e temperamentos políticos diferentes. Não se trata, portanto, de olhar para a cidade apenas do ponto de vista da distribuição desigual dos rendimentos ou da desigual distribuição das categorias ocupacionais em seu território, mas também de encarar o espaço urbano como um aglomerado de espaços sociais (ou contextos culturais) que não podem deixar de ter importância, mormente quando os discursos político-eleitorais passam a apelar de forma explícita para valores e normas de conduta da vida quotidiana. A violência, o crime, a pornografia, a família, as drogas, os livros escolares, a fé em Deus etc. são issues que podem ou não ganhar uma eleição, mas seguramente sensibilizam certas coletividades ou pessoas mais do que a outras, aderem melhor a certos espaços sociais, aterrissam mais facilmente em certas bases prático-sensíveis, casam-se mais facilmente com certos estilos de vida que, na metrópole, ao mesmo tempo se misturam e se separam. 

Assim sendo, o interesse deste artigo é dar continuidade a uma série de outros estudos realizados por Bolivar Lamounier, Judith Muszynski, Maria Teresa Sadek, Rachel Meneguello e Ricardo M. N. Alves (do IDESP) e investigar as bases sociais do voto em São Paulo em sua distribuição geográfica, desta feita concentrando-me sobre o voto conservador. O objetivo é estudar as bases sociais da direita política na cidade de São Paulo, ou, noutras palavras, o voto de direita cidade. Conforme veremos, os melhores desempenhos de Jânio em 1985 e de Maluf em 1986 não só indicarão os estratos sociais em que suas candidaturas tiveram maior ressonância, mas também nos levarão até certas áreas da cidade relativamente bem recortadas. O cruzamento das informações sobre a situação sócio-econômica do eleitorado, dadas pelas chamadas Áreas Homogêneas (ver Figura 1), com informações propriamente espaciais (zonas geográficas) vai identificar de modo bastante preciso a localização sócio-econômica e sócio-espacial do núcleo forte do voto conservador na cidade de São Paulo nos anos 80. 

Os votos janistas e a cidade

Quando da primeira eleição pluripartidária, em 1982, Bolivar Lamounier chamou a atenção, em artigo publicado no Folhetim com o título "São Paulo: A Geografia do Voto", para certas particularidades dos votos de Jânio em sua rentrée na cena eleitoral: "Os votos de Jânio Quadros podem ser lidos de duas maneiras. Primeiro, seus percentuais são mais altos nas áreas "médias", onde se localizam, é claro, os bairros tradicionais do janismo. Diga-se de passagem que o candidato eleito, Franco Montoro, foi vencedor em todos os distritos menos um, a Vila Maria, reduto histórico do ex-prefeito, ex-governador e ex-presidente. Observe-se, por outro lado, que quando sobem os percentuais de Jânio Quadros, descem os de Franco Montoro. Assim, em vez do crescimento paulatino da votação deste último (ao se passar das áreas mais ricas às mais pobres e periféricas), como ocorria com a votação do MDB até 1978, vemos agora um ligeiro declínio entre as áreas 3 e 6" (Lamounier, 1983, p. 7). 

Quando se observam os resultados das urnas de 1982 por distritos eleitorais e se atenta para os subdistritos administrativos em que estão contidos os melhores desempenhos de Jânio Quadros, damos de cara com certos bairros de nomes muito familiares, da periferia mais antiga de São Paulo, e por isso mais próximos do Centro e do anel interior, que já foram bairros operários até os anos 50 e hoje são facilmente identificáveis como bairros de classe média baixa. Além do famigerado reduto janista - a Vila Maria, situada ao Norte da cidade - temos a Vila Sabrina, o Tremembé, a Vila Medeiros e o Tucuruvi, situados na zona Norte (todos estes fazendo parte do subdistrito administrativo do Tucuruvi); mas vemos comparecer também bairros da zona Leste mais próxima do Centro, como Tatuapé, Gomes Cardim e Cidade Mãe do Céu (estes dois pertencentes ao subdistrito administrativo do Tatuapé), a Vila Formosa e a Vila Prudente (ver Figura 2). Em todos eles Jânio Quadros obteve cerca de 30% dos votos, enquanto seu resultado geral nas urnas da cidade, em 1982, foi de 20%. 

 

 

 

Acompanhando trajetória janista desde sua eleição para prefeito em 1953, Maria Teresa Sadek R. de Souza chama a atenção para a surpreendente permanência geográfica do voto janista, apesar das importantes transformações na composição sócio-econômica das populações residentes nesses bairros, que de bairros operários transformaram-se em bairros de pequena classe média, e de bairros periféricos tornaram-se bairros intermediários. Segundo a autora, estamos diante de um curioso caso de mudança ou deslocamento da base social e, concomitantemente, de permanência da base geográfica: 

"O retrospecto da trajetória política de Jânio Quadros não permite afirmar que estamos diante de uma liderança com bases preponderantemente populares, se entendermos por isso o apoio dos estratos mais baixosda população. Os resultados mostram que sua base social desloca-se ao longo do tempo dos setores populares para as classes médias (...) [Tal] mudança (..:) não significa, porém, que tenha havido uma correspondente alteração nas bases geográficas do janismo. Ao contrário, é possível constatar que a distribuição espacial dos votos de Jânio Quadros é praticamente a mesma desde os anos 50" (Souza, 1986, p. 75). 

Com efeito, as mais altas votações de Jânio em 1953 ocorreram nos distritos da Moóca, Alto da Moóca, Belém, Tatuapé e Vila Prudente (na zona Leste), e nos distritos de Vila Maria, Vila Guilherme e Tucuruvi (na zona Norte), fato que se repetiria até 1962. 

A lista dos maiores percentuais de Jânio Quadros em 1985 mantém alguns e introduz novos nomes de distritos e bairros, mas as direções para onde apontam no mapa da cidade continuam as mesmas: zona Norte e zona Leste próxima. Na zona Norte: Vila Maria, Vila Palmeira (Casa Verde *), Tucuruvi, Vila Medeiros (Tucuruvi), Vila Mazzei (Tucuruvi), Vila Guilherme, Vila Sabrina (Tucuruvi ) e Vila Ede (Tucuruvi); na zona Leste: Tatuapé, Moóca, Penha de França, Alto da Moóca, Cidade Mãe do Céu (Tatuapé), Vila Carrão (Tatuápé), Belenzinho, Vila Prudente e Vila Formosa. Dois bairros do Centro figuram na lista de 1985, o Brás e o Pari, o primeiro em direção Leste e o segundo em direção Norte. Ambos, como todos os outros listados, situados nas Áreas Homogêneas intermediárias (ver Tabela 1 e Figura 3). Em suas recorrentes indicações, os resultados por distritos eleitorais e subdistritos administrativos, zonas geográficas e áreas homogêneas mostram que, no tocante ao janismo, na cidade de São Paulo, independentemente de alterações outras de qualquer ordem - urbanísticas, demográficas, sócio-econômicas -, o que tem ocorrido é a permanência e o enraizamento de adesões em certos bolsões geográficos. Em termos de áreas homogêneas, nos anos 80 Jânio Quadros tem tido seus piores desempenhos nos bairros burgueses, de um lado, e nos bairros mais pobres e mais periféricos, de outro. 

Quanto aos bairros mais carentes e mais distantes, sua baixa permeabilidade ao janismo independe de sua localização cartográfica; mesmo quando situados na zona Norte ou na Leste, a votação janista nos bairros periféricos tem sido pequena (1). Se considerarmos que o janismo recente assumiu explicitamente um perfil conservador, podemos constatar que as periferias de São Paulo não se têm reconhecido nas interpelações, nas propostas de governo e nas soluções apresentadas pelo discurso eleitoral da direita. 

Quanto aos bairros burgueses, aos bairros de classe média alta e intelectualizada, aos "bairros boêmios" e de serviços pessoais sofisticados, sua posição cartográfica desenha uma mancha que exclui totalmente a zona Leste e a zona Norte. Na cidade de São Paulo não há bairros "burgueses" na zona Leste; tampouco na zona Norte, com exceção de pequenos enclaves demograficamente insignificantes (Cantareira, no Tucuruvi, e Jardim São Bento, entre Casa Verde e Santana). Os bairros burgueses e de classe média alta concentram-se numa vasta mancha de "área nobre" que se espraia do Alto da Lapa (a Noroeste) até Indianópolis (a Sul/Sudeste) e desce dos "jardins" do espigão da Av. Paulista até as "chácaras" próximas a Congonhas e Santo Amaro (ver Figura 1).

 

 

 


 

Morar no Tatuapé, na Penha, na Moóca, na Vila Maria ou na Vila Guilherme significa morar, portanto, no "outro lado" da cidade. Trata-se de populações de classe média para as quais o local de moradia representa um traço inferiorizador de seu status. O bairro, a zona, o "pedaço" da cidade em que moram, numa palavra, o modo de inserçãco urbana destes estratosda população constitui componente crucial (e pesado) de sua identidade social, teia que de algum modo os impede de identificar-se com os mais pobres, ao mesmo tempo que lhes permite ver sua distância social e geográfica em relação aos mais ricos, mais chiques, mais in - reconhecimento que, não raro, é acompanhado de ressentimento. Foi nestas populações que as interpelações autoritário-moralistas de Jânio Quadros encontraram, em 1985, valiosa acolhida,

 

 

 


 

tendo em vista que para os habitantes dos bairros carentes e periféricos, tal apelo teve pouca ou menor repercussão em número de votos, e que os bairros burgueses, pelo menos nessa conjuntura, mostraram-se impermeáveis ao discurso de uma certa direita. (Fica aqui a indicação de que é fundamental, para estudo do comportamento eleitoral, levar em consideração a direita como fenômeno plural).

A força eleitoral desse "novo" janismo abertamente autoritário e conservador está portanto concentrada, na São Paulo dos anos 80, nos estratos médios inferiores. Os resultados de 1985 (dado o teor desta campanha janista, que enfatizou de modo especial e insistente a questão da segurança)deixam claro que seu caminho de volta ao poder executivo da maior cidade do País passou com muita força por essas populações. E aqui o termo populações tem também a conotação de "povoamentos", porquanto assim se sublinha o caráter ao mesmo tempo sócio-econômico e cultural-geográfico das bases janistas em São Paulo. 

Trata-se de setores intermediários em mais de um sentido: (1) são estratos intermediários entre a base e o topo da sociedade, (2) que vivem em bairros intermediários entre o centro e a periferia, (3) exercendo muitas vezes suas atividades econômicas nos setores de intermediação (pequeno comércio e serviços). A este feixe de determinações da posição intermediária das bases janistas somam-se ainda outros fatores que, por assim dizer, empurram para baixo e para trás sua posição social, fazendo com que a designação "classe média baixa" não apareça gratuitamente 

Pesquisa de intenção de voto realizadas em 1985 revelaram outras características do eleitorado janista que não podem ser esquecidas: a intenção de votar em Jânio Quadros diminuía com o aumento da escolaridade dos eleitores, entre as faixas superiores de renda familiar, e entre os estudantes; em compensação, melhorava com o aumento da idade. O eleitorado de Jânio em 1985 era o mais velho, e, sobretudo entre os menos instruídos, esta tendência era ainda mais nítida. Vale lembrar, por outro lado, que sua receptividade foi maior entre os homens do que entre as mulheres, embora entre estas as donas-de-casa manifestassem maior preferência por Jânio do que as que trabalhavam fora. Aliás, a preferência por Jânio foi tendência geral entre os eleitores não incluídos na População Economicamente Ativa (PEA): donas-de-casa e aposentados (Prandi et alii, 1985; Lamounier & Muszynski,1986). Escolaridade baixa, idade mais avançada, renda de média para baixa, inatividade ou isolamento econômicos e localização "periférica" na vida política (Lamounier & Muszynski, 1986) são características do eleitorado janista que obrigam a incorporar na análise a dimensão de status social, com tudo o que ela implica de autoconcepção da própria posição na sociedade e de avaliação das próprias chances de mobilidade social ascendente, o que, no caso das bases janistas, não deixa de passar pelo local de moradia, pelo modo de inserção urbana. 

As camadas médias inferiores que habitam os bairros intermediários das zonas Norte e Leste, do "outro lado" da cidade, portanto, têm nessas referências sócio-espaciais algo que peculiariza seu status social no conjunto da cidade, que marca seus modos e hábitos, seu estilo de vida, suas ilusões e frustrações a respeito de si mesmas, a percepção de seu passado e as aspirações quanto ao futuro de seus filhos e filhas; e, conforme se pode ver com base nos dados eleitorais, seu comportamento político e sua força eleitoral. Nas eleições ocorridas nos anos 80, essas populações têm oferecido seu apoio predominantemente aos candidatos personalistas da direita autoritária (não só a Jânio Quadros mas também a Paulo Maluf, conforme veremos em seguida), garantindo-lhes, nas urnas, seus escores mais altos, patamares cativos para o cálculo de suas chances e de sua cotação na bolsa das coligações. 

Os votos malufistas e a cidade

Quem foram os paulistanos malufistas em 1986?

As pesquisas de opinião, ao tentarem captar as tendências do eleitorado em diferentes momentos, sistematicamente encontravam maior presença de intenções de voto em Maluf entre as camadas de renda mais baixa, eleitorado este bastante receptivo também a Orestes Quércia, do PMDB. Até o final de outubro, o que se sabia dos malufistas é que eram mais encontradiços nas camadas inferiores. As preferências por Maluf e Quércia tendiam a aumentar conforme diminuíam os níveis de escolaridade e de renda. De fato, os mais pobres e menos escolarizados da capital iriam dividir seus votos entre o candidato situacionista, do PMDB, e o candidato Paulo Maluf; do PDS/União Popular, de oposição pela direita. Antônio Ermírio de Moraes, pelo PTB, apresentava perfil geral oposto aos de Quércia e Maluf quanto às bases de voto. Já Eduardo Suplicy; de oposição pela esquerda, ia bem entre os pobres mais escolarizados e mais jovens. 

Esta informação agregada funcionava, para os interessados no processo eleitoral, como se a candidatura Maluf estivesse, com sua agressividade hidrófoba contra os bandidos, arrebatando os moradores dos bairros mais afastados e pobres da periferia. Tal percepção, entretanto, estava deslocada; ou melhor, operava um deslocamento sociológico que, neste caso, era também e ao mesmo tempo um deslocamento geográfico, espacial. Como os dados divulgados eram sempre relativos ao total do município da capital, as camadas de baixa renda apareciam indistintas: os pobres da periferia e os pobres das áreas centrais e mais ricas vinham diluídos num mesmo agrupamento estatístico indiferenciado. E, posto que a maioria dos mais pobres mora longe do Centro, acreditava-se (e em alguns setores temia-se) que a força eleitoral de Maluf estivesse nos bairros mais periféricos e mais populosos. 

Essa falsa impressão perdurou até que o DataFolha divulgasse os resultados de uma pesquisa na capital - feita nos dias 18 e 19 de outubro de 1986 - para a qual haviam sido previstos cruzamentos por Áreas Homogêneas (AH). As novidades trazidas pelos novos cruzamentos desta pesquisa residiam basicamente na possibilidade de analisar a distribuição das preferências eleitorais tanto do ponto de vista geográfico (zonas Centro, Norte, Sul, Leste e Oeste) quanto do ponto de vista sócio-econômico, com o recurso da classificação por AH (ver Tabelas 2 e 3). 

Por um lado, no que dizia respeito às intenções de voto em Paulo Maluf, os resultados por zona geográfica mostravam que o malufismo não ia bem na zona Norte, tão janista. Os tradicionais redutos janistas na zona Norte (Vila Maria, Vila Guilherme, Vila Sabrina, Tucuruvi. etc.) não necessariamente iriam oferecer uma base geográfica para o alastramento eleitoral do malufismo em 1986. Maluf, que há pouco menos de um mês das eleições aparecia, no total da capital, na modesta marca de 18%, andava pior ainda na zona Norte, com menos de 16%, sua menor acolhida entre as zonas geográficas. Parecia, assim, fundamentar-se a hipótese de que, apesar de mobilizadas em torno de uma temática reacionário-autoritária comum, apesar da mesma obsessão com segurança policial, as principais bases eleitorais do malufismo não coincidiam com as do janismo. O fato, entretanto, de não coincidirem, de não se recobrirem exatamente as bases de um e outro, não poderia ser entendido como se, em termos de sociologia eleitoral, ambos nada tivessem em comum, como se suas bases habitassem nas malhas da cidade endereços excludentes. Deveria haver áreas de intersecção. Mas onde? Em que lugar do mapa e em que lugar social? 

 

 

 

 

 

 

 

Por outro lado, do ponto de vista das Áreas Homogêneas a semelhança genérica, ou seja, a indiferenciação entre os eleitorados de Quércia e Maluf, passou a dar lugar a uma diferenciação bastante significativa: Quércia crescia sistematicamente quanto mais pobre fosse o distrito eleitoral, ao passo que Paulo Maluf não subia nem descia através do gradiente das cinco AH. Enquanto Quércia atingia na AH mais pobre o pico de 34%, depois de vir subindo de modo acelerado,partir de seu ponto mais baixo na AH mais rica (17%), Maluf aparecia abocanhando cerca de um quinto (20%) de cada AH, sem muitas variações (ver Tabela 3), embora tendo desempenho ligeiramente superior na área mais rica, que sempre foi a mais arenista até 1978 e a mais pedessista em 1982 (Meneguello & Alves, 1986, p. 105).

Mas a informação mais intrigante a respeito dos malufistas, entre as muitas trazidas por esta prévia, vinha da observação das distribuições por renda e escolaridade no interior de cada AH (ver Tabelas 4 e 5). O ponto mais alto das preferências por Paulo Maluf estava entre os de renda mais baixa, na AH 1, a mais rica. Aí, entre os pobres que moram nos bairros ricos, da "área nobre", Maluf chegava a ter 40% das intenções de voto. Já na AH 5, que reúne os bairros mais afastados e pobres, era Orestes Quércia o preferido dos eleitores mais pobresmenos escolarizados. 

Vale a pena repetir: Paulo Maluf subia expressivamente entre os eleitores mais pobres (40%) e menos instruídos (32%) da AH mais rica, enquanto Quércia crescia entre os mais pobres e menos escolarizados da AH mais pobre. Isto, dizíamos na época, podia estar indicando oóbvio, a saber: que na cidade de São Paulo não é a mesma coisa, nem dá no mesmo "estado de ânimo", ser pobre na periferia a ser pobre morando nos bairros mais ricos. Em termos eleitorais, a diferença estava se revelando crucial. Desse modo, ao mesmo tempo em que traziam informações novas, os cruzamentos dessa prévia de outubro levantavam novas indagações sobre o comportamento eleitoral das camadas mais pobres da população paulistana, bem como sobre as bases sociais da direita política. 

Com a abertura das urnas de 1986 e o anúncio da vitória de Orestes Quércia (do PMDB) por folgada diferença em relação ao segundo colocado, o superempresário Antônio Ermírio de Moraes (do PTB), as lentes desfocaram-se e as atenções deslocaram-se. Primeiro, porque o alarde em torno da vitória situacionista no estado, para a qual pesaram sobretudo os votos do interior, pospunha para plano secundário, ou mesmo recalcava, o lado menos brilhante dessa eleição para o PMDB paulista: ele havia perdido na capital. E pela segunda vez! Por dois anos consecutivos o PMDB saía derrotado das urnas da capital: em 1985, perdeu com 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

Fernando Henrique Cardoso, um intelectual que empolgava sobretudo as classes médias esclarecidas; em 1986 tornou a perder, com um candidato de perfil eleitoral bem diferente do anterior, Orestes Quércia, votado sobretudo pelos moradores mais pobres dos bairros periféricos. Esta segunda derrota consecutiva no município de São Paulo afigurava-se ainda mais séria para o PMDB porquanto, desta feita, Quércia descia para a marca de um quarto do total do eleitorado (26,6 %), enquanto Fernando Henrique atingira o patamar de um terço (34,2 %). 

Mas não é o que nos concerne, a derrota do PMDB. Embora a vitória de uns e a derrota dos muitos outros estejam inestricavelmente imbricadas num processo eleitoral, o espaço deste artigo obriga a ir direto ao ponto: o desempenho do candidato da direita, Paulo Maluf. 

Maluf teve votação muito menor do que esperava a maioria dos observadores - que, aliás, antes dessa eleição, andava descrente das prévias. As pesquisas passaram a dar Maluf em terceiro lugar desde meados de outubro, posição em que estava quando começaram as prévias, em abril. Do terceiro lugar em abril e maio, com 17%, Maluf subiria para o primeiro lugar, com 26%, no início de junho, atingindo, então, seu ponto mais elevado nas preferências. No final de julho, ainda em primeiro lugar, Maluf aparecia dividindo esta colocação com Antônio Ermírio, mas já caindo na porcentagem: de 26 para 23%. Desde então, de agosto em diante, foi caindo, caindo, até estabilizar-se com ligeiras flutuações entre 19 e 17% das preferências. A partir de agosto, quando a candidatura de Maluf começava a perder força, seus estrategistas redobraram os esforços de "criatividade" publicitária, elevando a níveis de exasperação o tom, a um só tempo populista, personalista e autoritário, das interpelações (que se transformaram em crispações) em face das "grandes ameaças": a violência criminal e ocomunismo. 

Ermírio em primeiro, Maluf em segundo. Maluf perdia, mas iria manter-se no segundo lugar até o final de setembro, quando começou a escalada de Quércia nos braços do Plano Cruzado, que levaria o PMDB à vitória. Em outubro Maluf já havia sido deslocado para o terceiro lugar, onde, aliás, permaneceu após as apurações. As pesquisas de intenção de voto tinham acertado! (ver os resultados finais da eleição de 1986 para o município da capital na Tabela 6).

 

Ermírio foi o grande vitorioso na capital paulista. Quércia foi, na realidade, eleito pelo interior. Paulo Maluf ficou em terceiro lá e cá, assim como no total para o estado. Sua marca na capital, porém, foi superior à sua média no geral do estado: 19% na capital, 17% no estado. 

Para enxergar com mais detalhes a relação do voto com a cidade, vale a pena distribuir as votações dos cinco candidatos pelo gradiente das Áreas Homogêneas (veja-se o gráfico na Figura 4). A votação de Antônio Ermírio é majoritária nas AH 1, 2 e 3, caindo para o segundo posto nas AH 4 e 5. E é uma queda constante: à medida que se passa da AH 1, a mais rica, para a AH 5, a mais pobre, a porcentagem de eleitores ermiristas decresce. A votação de Orestes Quércia faz justamente o caminho inverso, tendo seu pico na AH 5 (35%) e seu ponto mais baixo na AH 1 (18%). Dezoito é o ponto de partida, na AH 1, tanto de Quércia como de Maluf. Só que a curva daquele vai se distanciando cada vez mais da curva deste. Partindo de 18% na área mais rica, Maluf consegue seu ponto mais alto (23%) na AH 2, que abrange os bairros do Centro Velho e seu cinturão histórico, de menor peso demográfico e predominantemente habitado por famílias de renda de média para baixa. A partir daí começa a cair: desce para 22% na AH 3 (a primeira periferia), para 19% na AH 4 - sua média, aliás, no total da capital -, até voltar à marca do início (18%) na área mais pobre, AH 5. A Tabela 7 também revela que o pior desempenho de Maluf foi nos bairros pobres, mais concretamente, 17,6% dos votos. Ou seja: Maluf não foi bem, mas foi ainda pior nos dois extremos, na AH mais rica, e na mais pobre (seu ponto mais baixo). 

 

 

 

 

Algo semelhante ocorrera com Jânio Quadros em 1985. Primeiros sinais de que, entre malufismo e janismo, houve interseções interessantes de bases eleitorais. 

O cruzamento dos resultados finais da eleição de 1986 por Áreas Homogêneas e zonas geográficas situa ainda melhor no mapa da cidade os escores mais altos de Paulo Maluf. Os dados só por Áreas Homogêneas indicam as AH 2 e 3 como as de melhor performance malufista (Tabela 7). A distribuição simples por zona geográfica (Tabela 8) aponta a zona Norte como a região de maior concentração de eleitores de Maluf (21,3%), vindo em seguida a zona Leste (20,1%). Suas piores votações aparecem na Sul (17,8%) e na Oeste (18,4%). 

 

 

 

 

 
 


 

 

 

 

Por conseguinte, para quem estivesse esperando para o malufismo em 1986 um endereço muito distante dos redutos janistas, a indicação é incisiva: onde (ubi) o janismo, aí também (ibi) o malufismo. Ambos tiveram suas maiores votações nas zonas Norte e Leste. Cruzando-se então as Áreas Homogêneas por zonas geográficas, a direção no mapa da cidade fica bem mais clara (ver Tabela, 9). Não é o caso de se deter pormenorizadamente no desempenho de todas as candidaturas, ponto por ponto. Interessa, de imediato, verificar que a votação mais alta de Paulo Maluf ocorreu na AH 2 da zona Leste (26,6%), ou seja, nos subdistritos administrativos da Moóca e do Belenzinho, e que sua segunda melhor performance deu-se também na zona Leste (24,6%), na AH 3 da zona Leste. A saber: Alto da Moóca, Tatuapé, Vila Prudente, Penha de França. 

Eis aí onde predomina o eleitorado da direita autoritária: na parte mais próxima emenos pobre da zona Leste. Esta afirmação, é claro, só pode ser formulada sem arbitrariedades se se vai além do resultado de uma única eleição. Por isso a comparação da localização geográfica das melhores votações de Maluf com as melhores de Jânio é essencial Tal comparação pode ser feita tanto através da superposição das respectivas manchas (Jânio e Maluf) em uma série de mapas, quanto através de listagens das 20 maiores votações com as necessárias indicações de suas coordenadas (ver Tabelas 1 e 10). 

Vejam-se os mapas elaborados a partir de listagens das maiores votações. O primeiro deles (Figura 2) mostra a mancha janista em 1982 no seu contorno geral, englobando os bairros que vão de Santana a Vila Prudente. Portanto, a chamada zona Leste 1 quase inteira e a parte Norte contígua à Leste 1. No segundo mapa (Figura 3), onde estão os melhores resultados de Jânio em 1985, como candidato vitorioso, observa-se praticamente a mesma mancha, que desce do Norte para o Leste, sem avançar para as periferias. Quando partimos para observar o mapa de Maluf em 1986 (Figura 5), nossos olhos não estranham o espectro que se desenha naquele ponto do mapa da cidade. Com uma diferença importante: a mancha malufista mais intensa restringe-se ao Leste e sua presença na zona Norte é menos espalhada que a de Jânio. Ou seja, o malufismo não coincide plenamente com o janismo em suas bases eleitorais. Onde ambos de fato se superpõem é mesmo no Leste próximo (ver Figura 6). 

A listagem das 20 maiores votações de Maluf mostra a localização geo-sociológica do eleitorado desta direita nas unidades mais próximas da zona Leste (veja-se a Tabela 10). Mas há um detalhe para o qual deve-se chamar a atenção. É o seguinte: na coluna onde se especifica unidade administrativa à qual pertence o distrito eleitoral listado, o subdistrito administrativo do Tatuapé aparece cinco vezes. Ora, os três primeiros distritos eleitorais de mais alta votação malufista ficam no subdistrito administrativo do Tatuapé. Assim sendo, se o reduto principal do janismo é a Vila Maria, o reduto principal do malufismo é Tatuapé.

 

 

 

 

 

 

 

Além disso, vale lembrar que a parte mais próxima do lado Norte/Nordeste/Leste do município abrigou os piores desempenhos dos candidatos do PMDB em 1982 e 1985, Franco Montoro e Fernando Henrique Cardoso. Na lista das piores votações de Montoro, um pormenor chama a atenção: o distrito eleitoral do Tatuapé foi o primeiro, ou seja, o de mais baixa votação peemedebista. Em 1986, tendo como candidato Orestes Quércia, os mais baixos escores do PMDB deslocaram-se para os bairros burgueses e de alta classe média das zonas Sul e Oeste; mas, mesmo assim, isolado do lado de lá, entre as menores votações de Quércia na capital compareceu religiosamente o Tatuapé. Também os piores resultados de Lula, do PT, em 1982 concentraram-se parcialmente na mesma mancha a Leste, incluindo Tatuapé, Moóca, Alto da Moóca, Belenzinho e Penha, e parcialmente nos bairros ricos do Centro, Sul e Oeste. 

Ademais, já que quando se estuda o desempenho eleitoral da direita não se pode esquecer sua pluralidade, vale a pena registrar as mais altas votações do candidato do PDS em 1982, Reynaldo de Barros. É bem verdade que, ainda em 1982, os bairros mais ricos do Centro, Sul e Oeste foram os que mais votaram PDS; mas houve também grandes concentrações de voto pedessista do outro lado da cidade: Santana, na zona Norte, e, na zona Leste próxima, o Brás, Belenzinho, a Moóca e o Tatuapé. Tudo leva a crer que, no caso particular do Tatuapé, podemos estar diante de mais um caso de fidelidade, se não partidária pelo menos "ideológica", de base geográfica bem delimitada. Conforme já foi salientado por M. Teresa Sadek de Souza a respeito do reduto janista; trata-se de uma vantagem logística importante para a estratégia de campanha e para as possíveis barganhas em caso de coligações. Quem dos paulistas não se lembra do primeiro programa televisivo da campanha de Paulo Maluf em 1986, cuja primeiríssima imagem, a imagem de abertura, foi a do altar da velha igreja da Penha de França (zona Leste próxima) e, aos pés de Nossa Senhora da Penha, Paulo Maluf e sua mulher, Sra. Sílvia Lutfalla Maluf, rezando compungidamente? Nesta primeira imagem de vídeo podia-se identificarsem grande esforço, uma sintomática condensação de símbolos: a tradição, a família, a religião... e um determinado "pedaço" da cidade. 

Há, pois, uma direita que mora do outro lado da cidade. Um eleitorado conservador que vive "aí ao lado". Aí perto na zona Norte, aí perto na zona Leste. 

Indagações finais

No início de 1982, ou final de 1981, não me lembro ao certo, o último general-presidente do ciclo autoritário, João Batista Figueiredo, deflagrou uma campanha contra a licenciosidade dos costumes e a dissolução dos valores tradicionais da moralidade privada. Uma "cruzada inadiável" (sic) contra a pornografia e a obscenidade; uma cruzada moral, portanto, desencadeada de cima para baixo com o intuito de mobilizar, em baixo, o moralismo e o autoritarismo de cada um e de todos os cidadãos comuns e decentes contra os vícios privados. O pretexto era a proliferação de revistinhas pornô pelas bancas de jornal, das quais se havia suspendido a censura oficial e contra as quais o general Figueiredo pretendia, então, com a autoridade de sua fala presidencial, arregimentar em massa censores não-oficiais no seio da "maioria moral", a quem o discurso do presidente designava de "as forças sociais mais responsáveis" Nessa ocasião, um bairro de São Paulo ganhou o noticiário nacional: as "senhoras de Santana" - quem não se lembra? - responderam com prontidão à convocação e imediatamente puseram-se "de prontidão" para exercer vigilância e a censura a que se sentiram legitimamente conclamadas. Ora, bem, Santana é um bairro de pequena classe média que fica na zona Norte, do outro lado da cidade. Exatamente como os redutos de predominância do voto da direita política, esta mesma direita que nas últimas campanhas eleitorais bateu com insistência cruzadística na tecla da escalada da criminalidade e da falta de segurança policial, questão que, quando colocada no eixo central do discurso de campanha, traz à tona, em efeito cascata, outras tantas questões relativas à conduta da vida privada. Que, aliás, foi o que aconteceu, conforme constatado nas entrevistas gravadas com os ativistas dessas campanhas eleitorais (Pierucci, 1987). 

O presente artigo, ao retrabalhar dados eleitorais já estudados por outros colegas a propósito do voto janista até 1985, e agregando novas informações sobre o voto malufista em 1986, não tem outra pretensão que retomar, em novo patamar, a discussão sobre o comportamento eleitoral daqueles estratos urbanos mais afeitos às interpelações de cunho autoritário e moralista. Temos visto que o voto de direita mantém no espaço urbano da capital bolsões geograficamente bem definidos; e mais uma vez chamamos a atenção para a sua recorrência, para esta surpreendente permanência física, em uma cidade sob vários aspectos tão impermanente e cambiante, e em um país onde o quadro partidário tem estado em intermitente mutação. Qual a peculiaridade destes contextos urbanos, que faz deles bases experienciais ou prático-sensíveis tão favoráveis à recorrência de atitudes e condutas autoritárias, tão receptivos aos apelos por "lei e ordem"? 

Não bastam como explicação os fatores sócio-econômicos, como bem demonstraram os estudos de Lamounier, Muszynski e Sadek de Souza quanto ao voto janista. O mesmo se pode dizer do voto malufista. Vimos que a classificação dos bairros da cidade por Áreas Homogêneas, com base apenas em indicadores sócio-econômicos, necessita da divisão por zonas geográficas para poder isolar com precisão o endereço das concentrações de bases eleitorais da direita autoritária. Ora, a localização geográfica acaba repondo as perguntas, remetendo para a história política e a conformação cultural destes espaços. Subculturas? Atmosferas culturais diversas? Tudo faz crer, com efeito, que as camadas médias nesta metrópole são muito mais heterogêneas do que comumente se leva em conta. O fato é que não há estudos empíricos suficientes para ampliar as interpretações correntes ou propiciar novos ângulos de compreensão. Para o caso em pauta, a constatação de que tem havido, nestes espaços sócio-geográficos, fidelidade do eleitorado a certas personalidades políticas explica muito, mas, no limite, pode dar em um raciocí nio circular: caberia supor uma hiperfidelidade a ponto de se poder predizer que, ao mudarem as concepções ou as imagens desses políticos ou os issues de suas campanhas, mudariam no mesmo sentido as demandas de seu fiel eleitorado? Por que é que, nos bairros intermediários das zonas Leste e Norte, colou tanto mote da segurança policial, bem como uma das mais freqüentes e perversas glosas em que tal mote se desdobrou, a saber, a culpabilização discriminatória dos migrados nordestinos pelas crescentes taxas de criminalidade em São Paulo (conforme apurado nas entrevistas abertas)? Simplesmente porque Jânio e Maluf assim o decretaram? 

Lamounier e Muszynski, a propósito do voto janista de 1985, falaram de um eleitorado marginal ou periférico, ou seja, com estoque muito limitado de informações políticas, apreensão pouco articulada dos fatos políticos, baixíssimo envolvimento e falta de interesse na participação política qualquer que seja. Para tais eleitores, identificação com uma liderança personalista facilita as coisas no momento da decisão, reduzindo ao mínimo o esforço para uma escolha. 

Rememorando, o voto janista em 1985 e o voto malufista em 1986 estiveram correlacionados: (1) negativamente com a escolaridade (sem dúvida o fator crucial); (2) positivamente com a idade (não obstante a presença nada desprezível do voto jovem na eleição de Jânio, os eleitores de Jânio e Maluf foram em geral os mais velhos); (3) positivamente com a não participação na PEA, ou seja, com uma situação de isolamento em relação ao mercado de trabalho (donas-de-casa e aposentados); (4) negativamente com a renda (mas não tão fortemente quanto o voto em Montoro e Quércia, Lula e Suplicy); e (5) positivamente com a residência em bairros intermediários das zonas Norte e Leste. 

As quatro primeiras correlações desenham perfeitamente um eleitorado politicamente periférico. O quinto item, não necessariamente. Se, todavia, levarmos em conta que esses bairros estão localizados do "outro lado" da cidade, podemos manter para essas populações a designação de "periféricas", só que não mais nos termos estritos de uma estratificação política, nem simplesmente de uma estratificação por classes econômicas, mas sim de estratificação por status social, com tudo aquilo que esta categoria implica de autopercepção, auto-avaliação e auto-recorte relativamente às camadas de alta renda e elevados níveis de escolaridade, que usufruem do lado in da cidade. Se o eleitor janista e malufista, no contexto geral do eleitorado paulistano, é um outer space do sistema de participação política, o morador da Penha, da Vila Maria, do Tatuapé ou da Moóca é um outer space do campo de produção cultural dos espaços de consumo cultural mais sofisticados, mesmo se suas condições materiais de vida são boas. Estou querendo dizer que renda média, escolaridade baixa e residência "mal localizada" configuram situação típica de discrepância de status, fonte de descontentamentos dificilmente traduzíveis em categorias propriamente políticas, dificilmente enquadráveis ou representáveis nas agendas de propostas de soluções políticas. Daí a facilidade com a qual seus comportamentos políticos, suas percepções do mundo político, seus juízos políticos, enfim, se contaminam de rigorismo moral, conservadorismo comportamental e autoritarismo doméstico. Dito de outro modo: a posição "marginal" desse tipo de eleitor, politicamente desprovido e cognitivamente desapetrechado, não apenas o lança na órbita dos políticos personalistas (como notaram Lamounier e Muszynski), mas também o torna mais propenso a não pensar politicamente a política, vale dizer, a apreender o mundo político pelo viés das categorias morais, dentro dos marcos de percepção e apreciação próprios da esfera da moral privada. Tratar-se-ia de uma forma oblíqua de rejeição da política como tal. 

Por trás das relações estatísticas entre tal ou qual escolha eleitoral e tal ou qual região da metrópole, deixam-se entrever as relações entre grupos ou estratos que entretêm com o campo de produção cultural (savante) relações diversas ou mesmo divergentes. Não se trata apenas de um dado objetivo de exclusão. As entrevistas abertas mostraram que há mais do que baixa escolaridade; há um ruído entre seus níveis de instrução e seus níveis de renda que desemboca numa tomada de posição a respeito da cultura letrada, expressa na forma de uma demissão ativa em face do mundo da cultura, de um antiintelectualismo que os situa "do lado de lá", no campo adversário ao das frações intelectualizadas, "bem pensantes" e de "bom gosto”, dos produtores e experimentadores culturais percebidos quase como uma "pornocracia". Os eleitores da direita ocupam, pois, não só uma posição objetiva distinta, mas assumem tambémuma posição subjetiva distintiva (Bourdieu, 1979) que, na hora do voto, nos anos 80 em São Paulo, tem encontrado boa ocasião de se manifestar. A correlação imperfeita, discrepante ou mesmo inversa entre escolaridade renda, que os caracteriza,permite-lhes tomar parte no jogo político, e na vida da cidade à sua moda: negando a “política pela política” na razão direta de sua repulsa à "arte pela arte".

Este é, meu ver, um caminho frutífero a ser explorado na análise das bases urbanas dos políticos e partidos de direita no Brasil de hoje. Em todo caso, permanece o fato de que comportamentos eleitorais recorrentes, localizados nos mesmos espaços no decorrer do tempo e a despeito de transformações sociais de toda ordem, têm importante contribuição a dar para a descrição e a compreensão da vida social numa cidade como São Paulo. Tanto quanto as condições materiais de existência (ou níveis de vida). A potencialidade de os comportamentos eleitorais lançarem luz sobre estilos de vida em contextos urbanos complexos tem sido pouco aproveitada pelos cientistas sociais no Brasil. 

Trabalho apresentado ao GT Partidos, Eleições e Problemas Institucionais, XII Encontro Anual de Anpocs, Águas de São Pedro, SP, outubro de 1988. 

 

 

NOTAS:

 

*Entre parênteses vem o nome do subdistrito administrativo, para facilitar a orientação do leitor. 

1 - "Quanto mais nos afastarmos deste núcleo central, rumando para o extremo Leste ou para o extremo Norte, tanto mais constataremos uma redução da vantagem janista. (...) Com efeito, em alguns distritos periféricos componentes da zona eleitoral de Itaquera e de São Miguel Paulista, no extremo Leste do município, são encontradas as mais baixas proporções de votos janistas, e mesmo alguns distritos em que o candidato é derrotado" (Souza, 1986, p. 77). 

 

Bibliografia

 

BOURDIEU, Pierre. (1979), La Distinction. Paris, Minuit.

LAMOUNIER, Bolivar. (1983), "São Paulo: A Geografia do Voto". Folhetim, suplemento da Folha de S. Paulo; 30 de janeiro, pp. 6-7. 

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PIERUCCI, A. Flávio. (1987), "As Bases da Nova Direita". Novos Estudos CEBRAP, n ° 19/26-45. 

PRANDI, Reginaldo, PIERUCCI, A. F. & MENDES, A. M. T. (1985), A Definição Social do Voto: São Paulo, 1985. São Paulo, mimeo. 

SOUZA, M. T. Sadek R. de. (1986), "A Trajetória de Jânio Quadros", in B Lamounier (org.), 1985: O Voto em São Paulo, São Paulo, IDESP, pp. 66-88.