O CASAL IGUALITÁRIO: princípios e impasses

 
Tânia Salem

 

 

Este artigo expõe algumas das reflexões apresentadas na minha tese de Doutorado (Salem, 1987), que parte de um fenômeno que vem sendo cunhado, nos meios nacionais e internacionais concernentes, de "casal grávido". A expressão denota, em primeiro lugar, a prescrição de uma intensa participação e envolvimento masculinos no decorrer da gestação, do mesmo modo que a presença do pai da criança no instante do nascimento é afirmada como condição sine qua non. Gravidez e parto são, em suma, concebidos como experiências que, mais do que dizendo respeito à parentela mais ampla, concernem ao casal, devendo, nessa medida, ser partilhadas "a dois". A segunda característica distintiva do "casal grávido" reporta para seu intuito de realizar o parto da maneira mais "natural" possível, vale dizer, com um mínimo de interferência médica. Mas alega-se que, para efetuá-lo, a mulher deve ser treinada com base em exercícios físicos especiais e que ambos os parceiros devem "preparar-se psicologicamente" para o evento. Decorre daí que o "casal grávido" se vê atrelado não só a obstetras que, como ele, se declaram críticos do sistema médico dominante, como também a profissionais de corpo e a psicólogos. A participação em grupos de preparação pré-natal, coordenados por esses diferentes especialistas, constitui outro traço marcante do objeto em pauta.

Em termos de material etnográfico a tese recorre, entre outras fontes, à observação de reuniões para "casais grávidos" e ainda a entrevistas com sete mulheres e cinco homens que tinham abraçado, no decorrer da primeira gestação, os preceitos que usualmente são identificados como singularizando o "casal grávido". Os informantes pertencentes, todos, aos estratos médios e superiores tinham entre 24 e 30 anos e a idade de seus filhos variava de um mês a 6 anos. O presente artigo apóia-se, fundamentalmente, nesses depoimentos cuja duração variou entre 2h30 e 5 horas. O roteiro de entrevistas versava sobre temas diversos: além de informações sobre a experiência da gravidez, parto e pós-parto, discorria-se sobre a relação entre os parceiros e destes não só com as famílias de origem como também com os especialistas etc. Em parte devido ao fato de o roteiro de entrevistas ser bastante aberto, foi possível depreender, com base nos mesmos, muito mais do que questões atinentes ao ideário do "casal grávido" entendido em sentido estrito. Com efeito, foi possível desvelar um sistema moral, uma ética que argumento está longe de ser apanágio dos adeptos desse ideário.

Perseguindo esta linha de raciocínio, o objeto é abordado, em termos analíticos, como uma "experiência ética sintetizadora" (Salem, 1986); isto é, postulo que o modo como a parceria se dispõe a lidar com os eventos da gravidez, parto, maternidade e paternidade pressupõe, ao mesmo tempo que expressa de forma paradigmática, princípios morais cuja atinência transborda, em muito, o universo investigado. Mais precisamente, o "casal grávido" converte-se em recurso de aproximação para especular sobre uma ética fundada na configuração individualista-igualitária: os princípios que a estruturam e os dilemas e impasses que lhe são constitutivos. Em termos de referente sociológico, esta moral coincide com a dos segmentos médios urbanos ditos modernos.

O presente artigo sugere, em primeiro lugar, que essa moral da qual, vale reiterar, o "casal grávido" constitui apenas expressão talvez radical está ordenada em torno de três princípios éticos estruturantes, a saber, o da psicologicidade, o da igualdade e o da mudança. Em segundo lugar, destaco o modo como esses princípios dão corpo a um determinado ideal de conjugalidade que adquire forma no que chamo de "casal igualitário". Argumento ainda que os dilemas, impasses e paradoxos enfrentados por essa modalidade de parceria são, tão somente, expressão de tensões lógicas inerentes ao próprio princípio individualista-igualitário.

 

Princípios éticos estruturantes

Sugiro, com base no material etnográfico utilizado (1), serem três os princípios que ordenam e estruturam a modalidade de ser e de estar desses sujeitos particulares no mundo: o da psicologicidade, o da igualdade e o da mudança. O primeiro aponta para um movimento de individualização, interiorização e privatização dos sujeitos, de tal modo que estes se identificam como uma substância inteligível em seus próprios termos. Ou seja, o indivíduo se percebe, fundamentalmente, como um sujeito psicológico: despojado de qualquer transcendência, ele se justifica segundo uma lógica interna a ele próprio. Decorre daí não só uma retórica, fortemente centrada no individual e no idiossincrático como também uma intensa disposição cultural de escrutínio e cultivo de cada self por meio de uma alta sensibilidade para observar emoções, sentimentos e a subjetividade.

A linguagem que informa e organiza a propensão para tematizar e problematizar o "eu" provém, sem dúvida, das disciplinas psicológicas e/ou da própria experiência terapêutica à qual tão freqüentemente esses sujeitos se submetem. Assim é que conceitos fundadores de tais saberes ─ como "desejo", "inconsciente", "resistência", "discriminação", "simbiose" etc. ─ convertem-se efetivamente em categorias com base nas quais os sujeitos efetuam uma leitura de si mesmos e do mundo que os cerca. Deve-se notar também que a afinidade entre a inclinação moral em questão e esses saberes/práticas repousa, em última instância, sobre uma mesma premissa que insiste no exorcismo do social, afirmando, em seu lugar, uma problemática pessoal de investimentos inconscientes.

Entretanto, o modo como esse universo ético atualiza a disposição à reflexividade intimista permite vislumbrar algumas diferenças significativas com respeito, por exemplo, ao individualismo calvinista tal como descrito por Weber (1967). Em primeiro lugar, a valorização introspectiva não prevê um exercício solitário nem de ensimesmarnento. Pelo contrário, no contexto moral em pauta, a compulsão a "vasculhar-se" vincula-se à compulsão ao "abrir-se" ou ao "revelar-se" ─ seja no santuário do espaço analítico, seja na relação com amigos ou "iguais". Por conseguinte, a disposição interiorizante apoia-se, ao mesmo tempo que resulta, em uma prática social compartilhada. Em segundo, a particularidade da moral que nos ocupa reside ainda no fato de ela estipular um preceito bastante específico no que respeita ao regime ideal a que deve ser submetido o self: enquanto que na ética estóica (Foucault, 1985) e na calvinista (Weber, 1967) as práticas de si estão a serviço de um regime de austeridade e de auto-controle, no universo tematizado observa-se um deslocamento que deságua na entronização da norma da liberação do indivíduo ─ tanto de amarras sociais quanto de constrangimentos psicológicos reputados corno nefastos. Nessa configuração há, pode-se dizer, uma radicalização da representação que opõe indivíduo e sociedade: o social é identificado como imposição, constrangimento, ou como uma manifestação do reino da "aparência" e, por conseguinte, como algo que deve ser transposto em nome do pleno desenvolvimento ─ das potencialidades e singularidades individuais. Em termos ideais, tudo aquilo que não passa pelo crivo da "escolha pessoal" ou das "determinações internas" merece ser rechaçado. O primado da "desrepressão" e da "liberação" significa portanto, em última medida, transpor normas socialmente estipuladas de modo a que o indivíduo seja capaz de "se ouvir".

As duas características distintivas assinaladas encerram uma aparente contradição: ao mesmo tempo que essa ética noticia uma profunda aversão dos sujeitos com respeito a quaisquer tipos de constrangimentos sociais, ela anuncia também uma intensa valorização da sociabilidade; afinal, é na interação com os outros ─ e sobretudo por meio da fala catártica e de um exercício reflexivo comunitário ─ que o indivíduo pode aceder a si mesmo.

Em verdade não existe aí nenhuma contradição. A citada duplicidade se elucida quando se invoca o segundo princípio estruturante desse universo moral ─ o da igualdade ─ que fala, basicamente, de uma oposição a englobamentos e a ordenamentos hierárquicos. É precisamente a vigência desse princípio que implica e elucida uma espécie de bipartição do social em termos de valor: há um social, ou associações, que, identificados com relações hierarquizadas e com as de obrigatoriedade sancionadas por códigos externos, são vistos como constrangendo a livre manifestação do sujeito e que, justamente por isso, são reputados como nocivos. Já o social, ou sociedades, informados pelo preceito da igualdade, são positivamente representados: tudo se passa como se, banida a hierarquia, os encompassamentos e seus efeitos perversos, se ingressasse num domínio imune a constrições e no qual só imperariam as leis da liberdade, prazer, afeto e opções. O valor da igualdade afiança, em suma, a superação dos obstáculos máximos à afirmação e à liberação do sujeito, posto asseverar sua destotalização coxas respeito a qualquer instância pretensamente encompassadora.

A recusa por englobamentos manifesta-se não só em uma oposição à hierarquia mas também na afirmação de tendências nitidamente indiferenciantes; isto é, a igualdade implica uma imputação indiferenciada de valor às identidades ou entidades sociais (2). Seguindo o raciocínio, postulo que um dos sintomas ou derivações do igualitarismo resulta na entronização de um imperativo ético que nomeio de indivíduo plural. Pretendo, com tal designação, denotar a idéia de que o sujeito é estimulado a experimentar-se em diferentes situações e dimensões e também, numa certa medida, a transcender classificações sociais. Essa regra de procedimento entroniza, em síntese, a polivalência de experiências e de identidades, estabelecendo uma intensa disposição para abrir-se a "novas" experiências bem como o reconhecimento de que se "é" coisas distintas (3). A noção de "indivíduo plural" é ilustrada nas palavras de Gabeira:

 

"Quero viver diferentes papéis, partindo incessantemente de um para o outro (...). É indiscutivelmente melhor poder saltar de um papel para outro, nunca poder ser encontrado no lugar onde as classificações te perseguem" (Gabeira, 1985, pp. 26-27).

 

Transpondo essas idéias para o plano da relação entre gêneros deve-se ter em mente que o valor da igualdade não postula que homem e mulher sejam substancialmente iguais. Ele postula, antes, uma indistinção valorativa de seus atributos, bem como de seus respectivos domínios. Decorre, justamente dessa indiferenciação valorativa do feminino e do masculino, a incitação para que cada gênero ingresse e experimente, concreta ou simbolicamente, o universo e até mesmo, eventualmente, a identidade do outro. As palavras de um dos ideólogos do "casal grávido" e as de uma feminista são bastante significativas a esse respeito:

 

"La participation habituelle du père à l'événement de la naissance est la clef d'une mutation en direction de la fusion du monde des hommes et du monde des femmes. Lorsque le monde des hommes n'est pas exclu de l'événement naissance, il cesse d'être étranger aux differents épisodes de la vie génitale feminine, a l'état de la grossesse, aux manifestations de la vie foetale, à la vie du nouveau-né. Nous entendons par fusion de ces deux mondes la découverte par l'homme du monde féminin en tant que composante de ce qu'il y a en tout être humain, et aussi l'ouverture d'un monde à l'autre, telle que l'homme est libéré de son rôle exclusif d'homme" (Odent, 1979, pp. 54-55).

 

"As mulheres parecem ter jovialmente interiorizado a alteridade viril sem abandonarem sua identidade feminina. A ocidental do século XX é uma verdadeira criatura andrógina que recusa recalcar sua bissexualidade psíquica original. Ao mesmo tempo viril e feminina, ela muda de papel e de função segundo os momentos do dia ou o período da vida (...) As mulheres atuais embaralham o jogo das identidades" (.Badinter, 1986a:11) (4).

 

Por outro lado, a igualdade também não pode comprometer o exercício do idiossincrático. Ou seja, a utopia igualitária insiste, paralelamente, no seu sentido pluralista:

 

"A proposta democrática ... afirma que a relação de igualdade ... se compõe da diversidade. As pessoas podem ser iguais e diferentes e para serem iguais devem ser diferentes. Por paradoxal que pareça, a igualdade se constrói com a diversidade. A construção ideológica do conceito de feminino e de masculino passa igualmente por essas duas vertentes" (Souza, 1987, p. 43).

 

O terceiro princípio estruturante do universo ético que nos ocupa centra-se no valor imputado à mudança. Ele perpassa desde o nível intra-pessoal ─ estabelecendo um compromisso dos sujeitos para com a "auto-depuração" e o "auto-aperfeiçoamento" ─ até atingir o estatuto de uma categoria com base na qual eles classificam o mundo à sua volta. Os imperativos de "questionar", "libertar-se da rigidez", "não reproduzir" e a percepção das distinções geracionais como fundadas em oposições como "acomodação/coragem de ousar", "geração caderneta de poupança"/"geração bolsa de valores", "reprodução"/"mudança", "repressão"/"liberação" derivam sua inteligibilidade última do valor imputado à mudança (5).

A afirmação de que os três princípios assinalados merecem a qualificação de "estruturantes" pauta-se no argumento de que é através deles que os sujeitos se auto-definem e avaliam a realidade que os cerca. Ou, dito de outro modo, sustento que os preceitos da psicologicidade, da igualdade e da mudança englobam e subordinam às suas leis, outras práticas, representações e ideais que imperam nesse contexto ético.

Para fins deste trabalho interessa destacar o modo como os três princípios citados estruturam e dão corpo ao ideal de conjugalidade vigente, e que adquire forma no que cunho de casal igualitário. Minha hipótese central é a de que essa modalidade particular de casal constitui, tão somente, uma derivação lógica dos princípios em torno dos quais se arma a moral desse universo. E ─ é quase desnecessário dizer ─ do fato de a ética em questão ser particular a certos segmentos sociais, decorre que a representação de casal que lhe é atinente também o é.

Devo entretanto adiantar que muito do que é dito abaixo sobre casal não deve ser tomado como um espelho de uma situação, mas sim como sendo, para os próprios agentes, a formulação de uma exigência e de um ideal. Por conseguinte, a noção de representação assume aqui mais um sentido de idealidade do que ─ permitam-me o neologismo ─ de ideacionalidade; isto é, ela exprime, fundamentalmente, um ideal e um valor (6). Contudo, o fato de configurar-se como um ideal não converte, em absoluto, tal representação de casal em menos "real". A concretude de qualquer símbolo, valor ou ideal repousa, exatamente, em sua capacidade de modelar e engendrar realidades. No caso em pauta isso se elucida, por exemplo, quando se considera ser possível identificar a definição de crises conjugais como uma discrepância com respeito aos princípios e valores que informam o ideal de conjugalidade vigente.

 

Ideal de conjugalidade: o casal igualitário

A modalidade ideal de relação conjugal, e que adquire forma no que designo como "casal igualitário", ancora-se em algumas premissas centrais. Consonante com o princípio da psicologicidade, e também com o da aversão a englobamentos, a parceria se percebe como composta de duas unidades fundadas antes em elos subjetivos do que em injunções sociais ou laços sociológicos. Tal qualidade manifesta-se, primeiramente, na crença de que o casal não deriva sua realidade dos grupos a que cada cônjuge pertence sendo, ao invés, instituído pelo "desejo" dos sujeitos. Deriva daí, de um lado, uma valorização da díade em seus próprios termos; ou seja, noticia-se um código moral que se desloca do dispositivo da aliança para um outro centrado na segmentação e na privatização. Tal concepção implica o preceito de que os núcleos de proveniência não podem encompassar ou recobrir a díade. O laço conjugal é entendido como suficientemente forte e auto-referido a ponto de isolar a parceria no campo das relações familiares ─ o quer necessariamente, remete para a pressuposição de que ela deve estar dotada de uma identidade interna mais forte do que aquela que vincula cada um de seus membros aos respectivos núcleos de origem.

De outro lado, o princípio ético que estipula um maior significado valorativo aos laços de afinidade relativamente aos de consangüinidade vertical corre paralelo à percepção de uma imunidade quanto aos imperativos sociológicos. Do fato de o casal perceber-se como fundado em um vínculo afetivo e psicológico, decorre a representação de uma conjugalidade "natural", isto é, pré-social, senão anti-social. Tudo se passa como se os parceiros, enquanto unidade, transpusessem o reino do parentesco ingressando em um domínio onde só prevalecessem relações de escolha A proeminência valorativa outorgada ao casal, bem como à família conjugal, transparece claramente no seguinte depoimento:

 

"Minha família hoje sou eu, a (esposa) e o (filho). A gente dá mais ênfase à família nuclear e não à família extensa, tradicional. Minha visão de família no sentido maior não é da minha família ou da família dela; é família no sentido de irmandade. Porque a gente vive em uma grande família dividida entre Reagans e Gorbachevs: é uma família que não se entende muito bem, mas que não deixa de ser uma família".

 

A propensão ética que insiste na segmentação e centralidade da díade pode expressar-se ─ e o "casal grávido" constitui caso ilustrativo radical ─ em uma intensa ânsia de diferenciação simbólica com respeito às famílias de origem. Não é de todo incomum que as últimas cumpram o papel de urna referência negativa crucial na elaboração de seus projetos de vida; vale dizer, os sujeitos e/ou casais estabelecem, na relação com os núcleos de proveniência, uma identidade simbólica contrastiva (ver também, por exemplo, Velho, 1975; Salem, 1980; Almeida, 1985). Duas observações, contudo, merecem ser retidas: em primeiro lugar, essa disposição ética deve ser lida como um desdobramento possível, embora não necessário, do ideal de conjugalidade em pauta. Em segundo, mesmo quando as famílias de origem corporificam um paradigma cultural a ser transposto, a atitude reativa aos pais perde sua especificidade quando se considera que o impulso em direção à distinção está mais genericamente remetido ao status quo dominante. Nesse sentido, tal inclinação deve ser lida como a manifestação de um valor mais pregnante consubstanciado no da mudança. Ademais, o anseio de individualização dessa modalidade de parceria, mais do que definido com base em uma mera negatividade (isto é, contra os núcleos de origem), expressa positivamente o ideal de conjugalidade que estipula que o casal é inteligível em seus próprios termos. Em outras palavras, o projeto de diferenciação simbólica face às famílias pode ser legitimamente lido como um expediente para afirmar o mencionado ideal e seus intuitos nuclearizantes.

A norma que apregoa que a díade tem uma inteligibilidade própria implica ainda a premissa de que ela é igualmente independente tanto do funcionamento da unidade doméstica quanto da própria procriação. Não se trata de sugerir que a prole seja questão acessória na vida do casal, mas sim de admitir que sua existência não pode servir como armação sociológica para dar sentido à relação entre parceiros. Reitera-se, nessa medida, uma intensa valorização do vínculo propriamente conjugal ─ e da relação dual que o constitui ─ enquanto um elemento que deve ser destacado e singularizado também desse conjunto. O vigor da premissa é freqüentemente evidenciado às avessas, ou seja, na identificação, de todo incomum, entre crise matrimonial e a não atualização desse preceito. Assim é que são definidas como anômalas, situações nas quais o papel de pai e mãe, ou os de dona-de-casa e chefe-de-família, predominam sobre, ou englobam, a relação entre cônjuges. De modo similar, também qualifica-se como crítico o arranjo em que o relacionamento do casal é identificado como aparentado ao de "irmãos". O vínculo conjugal fala, em suma, de um modo de relação pessoal e inconfundível entre dois parceiros: ele tem um código próprio que não deve se subordinar, e muito menos se diluir, em nome de um outro que lhe seja externo. O casal faz ─ ou deve fazer ─ sentido em seus próprios termos. Ele é, nessa medida, irredutível.

Com exceção, talvez, da relação dos pais para com seus filhos, o vínculo marital é tido como mais fundamental e estreito que qualquer outro. Num universo onde o dispositivo da escolha ou do "desejo" despontam como chaves, o valor imputado aos laços conjugais suplanta o dos de sangue. Esse vínculo afetivo também pressupõe algo mais que relações de amizade: o companheirismo é qualidade necessária mas não suficiente para a constituição do casal, o qual ainda, diversamente daquelas, prescreve exclusividade em algum plano. O sentido de completude atribuído à união marital impregna os casais ditos modernos; e sua maior propensão a desfazer casamentos (e a buscar outros, note-se bem) não contradita, mas pelo contrário reitera, a incessante busca da completude. Talvez seja inclusive pertinente sugerir que é precisamente na incansável perseguição desse ideal que fundamenta-se sua vulnerabilidade: o casal converte-se em uma unidade tão sobrecarregada de sentidos e de expectativas que não é de todo surpreendente que, nele, seja alta a probabilidade de implosão.

Deve-se ainda observar que as mesmas regras que presidem o indivíduo psicológico são igualmente válidas para a díade: tal como aquele, ela também é convertida em objeto de reflexão, de cultivo e de "investimento". A problematização e transformação da parceria impõe-se, assim, como imperativo moral; e no diálogo conjugal a arte de "discutir a relação" adquire papel proeminente. O casal se pensa como estando em permanente estado de reestruturação e sua transformação em direção ao aperfeiçoamento constitui sua condição sine qua non. O princípio da mudança a esclarece. Uma informante traduz, de forma condensada, essas idéias:

 

"Meus pais estão juntos mais belo costume do que qualquer outra coisa. Não é opção de vida. Já o (parceiro) e eu estamos juntos hoje, mas não tem essa coisa do tipo "vai ser eterno". Os casamentos estão acabando muito mais rápido hoje porque as pessoas estão sacando que não dá pé ficar investindo numa relação que não vai progredir. Então a gente está junto porque está progredindo, mas, se parar, não vou ter o menor escrúpulo de me separar. Meus pais não se questionam, enquanto que nós vivemos nos questionando e investindo: "será que tá legal?", "onde dá pra melhorar?". Então a relação tem um outro pique de renovação".

 

O princípio da igualdade fornece a base, ao mesmo tempo que potencializa a modalidade de conjugalidade que nos ocupa. A recusa por englobamentos manifesta-se -─ conforme já frisado ─ na representação do casal, enquanto unidade, como não encapsulado pelas famílias de origem. Cônjuges e núcleos de proveniência são iguais no sentido de não haver entre eles encompassamentos, embora, no caso, haja uma imputação diferencial de valor que privilegia a relação conjugal às expensas da relação de cada parceiro com sua família. 0 princípio do igualitarismo expressa-se de igual modo ─ e já agora no plano do relacionamento entre parceiros ─ na premissa de que não existem nem âmbitos nem qualidades simbólicas exclusivos a cada um dos gêneros e proibidos ao outro. Com efeito, nesse contexto ético homem/masculino e mulher/feminino encontram-se investidos de um mesmo valor. Daí a incitação para que cada um experimente, metafórica ou concretamente, o universo do outro. Para ilustrar como tal propensão se manifesta, tomemos, como ponto de partida, as correlações paradigmáticas entre, de um lado, masculino/domínio público/funções instrumentais/razão e, de outro, feminino/domínio privado/funções afetivas/emoção (ver, a respeito, Zelditch, 1968) (7). Em que pese as diferenças biológicas ─ decerto reconhecidas ─ observa-se, no contexto em pauta, uma vigorosa tendência a uma indistinção valorativa dessas demarcações diferenciais.

Informações etnográficas retiradas do meu material de pesquisa são ilustrativas. Em contraste com suas mães que nunca trabalharam ou que só o fizeram após liberadas das funções maternas ─ vale dizer, quando seus filhos ingressaram na adolescência ─ as informantes, bem como as parceiras dos homens entrevistados, mantinham um evidente compromisso com o domínio público por razões que extrapolavam injunções econômicas. É bem verdade que interrupções na carreira profissional feminina eram previstas e inclusive tidas como desejáveis. Integrava o projeto dos casais o preceito de que, no pós-parto, a mulher devia dedicar-se integralmente à criança durante um tempo que variava, grosso modo, de quatro meses a um ano. Esse afastamento do mercado de trabalho era, contudo, admitido como circunstancial, isto é, estava revestido de um caráter de excepcionalidade. Paralelamente, o maior comprometimento do homem com o domínio privado também afirmava-se como valor prioritário. Cumpre todavia destacar que tanto ele quanto sua parceira se viam, em grande medida, isentos das tarefas propriamente domésticas graças à instituição da empregada. Por conseguinte, a convocação do homem dizia respeito, fundamentalmente, ao desempenho do papel paterno (cf. sobre esse ponto, Cardoso, 1983). Mas o que singulariza e qualifica tal envolvimento reside, justamente, na dissipação das qualidades diferenciais que associam pai à autoridade e mãe ao afeto ─ ou, colocando em termos mais genéricos, em uma dissolução das diferenças estatutárias. Segundo um informante:

 

"Sou muito maternal com o (filho). Essa coisa tradicional de papel de pai e de mãe entre a gente não é nada rígido. Sabe essa coisa do pai ter que ser durão e a mãe ser a que passa a mão na cabeça? Aqui em casa não tem essa: às vezes acontece justamente o contrário. A coisa é mais alternada. A gente sempre dividiu os cuidados com o (filho). Às vezes ela fica mais com ele, outras vezes fico eu. Tudo é transado de acordo com nossos horários e da disponibilidade de cada um e não em função de papéis".

 

O princípio da indistinção de domínios e/ou de qualidades femininas e masculinas é noticiado ainda, de modo contundente, às avessas, ou seja, quando ele não é implementado na prática. O sentido de anomalia imputado a essas circunstâncias evidencia-se no fato de gerarem mal-estar, desconforto ou, para usar uma categoria nativa, "culpa". Os jovens pais se auto-recriminavam quando, por motivos de trabalho ou por "impedimentos subjetivos", sua disponibilidade para com a criança se contraía. Um dos informantes avaliava de modo negativo seu desempenho enquanto pai, alegando que "embora brincasse e conversasse com sua filha, o fazia de forma diferente da de sua esposa". Vale também mencionar o caso de uma entrevistada – cujos filhos tinham, no momento da entrevista, dois anos e um mês ─ e que, desde o nascimento do primeiro, "não havia conseguido" retomar suas atividades profissionais. Embora lembrando que nenhuma injunção de ordem material a pressionasse nesse sentido, ela tinha decidido voltar à análise "para entender o que estava acontecendo".

O esmaecimento valorativo das fronteiras entre o feminino e o masculino anuncia-se ainda na maneira coincidente como ambos os gêneros lidavam com a questão dos sentimentos. Se consentirmos que o feminino está usualmente associado à emoção e à expressão da mesma, a conclusão por uma "feminização do masculino" não é improcedente. De fato, a externalização dos sentimentos por parte dos homens, mais do que legítima, parecia constituir-se em um imperativo moral ─ e a propensão a "vasculhar-se" mostrava-se tão intensa neles quanto em suas parceiras. Tal inclinação revelou-se na própria dinâmica da entrevista e no tom que perpassava os depoimentos: como as mulheres, os homens invariavelmente dissertavam sobre um mundo intimista e subjetivo e confesso ter muitas vezes me surpreendido com sua disposição para relatar eventos geralmente considerados como bastante íntimos, mesmo quando não perguntados a respeito (8).

Em suma, o princípio da igualdade expressa-se, no plano da relação entre gêneros, na ausência de uma imputação diferencial de valor ao feminino e ao masculino. O preceito moral, que impulsiona cada um deles a ingressar e a experimentar o universo do outro, aponta para a dissolução das diferenças estatutárias e coloca em cena o que venho insistindo ser o imperativo ético do "indivíduo plural".

Lévi-Strauss assinala que o princípio que preside o tabu do incesto é o mesmo operador da divisão sexual do trabalho, a saber, o da reciprocidade. Do mesmo modo que o primeiro obriga as famílias a estabelecerem relações entre si, a divisão sexual de trabalho nada mais é do que "um dispositivo para instituir um estado recíproco de dependência entre os sexos" (Lévi-Strauss, 1980, p. 30). Dumont vai além ao atrelar a noção de "interdependência" não só à de diferença, mas à de "distinção hierárquica" entre as unidades que integram uma totalidade (cf., por exemplo, 1975, pp. 17-22). Ora, considerando que no casal igualitário a indiferenciação valorativa de domínios, atributos e funções impõe-se como premissa, cabe interrogar em que outro plano se realiza o princípio da reciprocidade enquanto base da organização conjugal. A complementariedade simétrica parece-me instituinte do arranjo no qual se funda o casal igualitário. Diferenças entre os cônjuges são decerto admitidas, mas elas não se identificam nem com a "interdependência hierárquica" assinalada por Dumont, nem com as diferenças estatutárias propaladas por Lévi-Strauss. De fato, na modalidade de casal que nos ocupa, o reconhecimento e mesmo o enaltecimento das diferenças se desloca para o plano mais propriamente subjetivo. A complementariedade entre parceiros e a ansiada completude devem, por suposto, ser cumpridas nesse nível. Realiza-se assim a compatibilidade entre a igualdade e o pluralismo ou entre a igualdade e a distinção. A conciliação entre esses valores assenta-se na premissa de que eles se atualizam em planos distintos: um referente ao formal ou "externo", e o outro ao subjetivo ou interno (9). Estruturando-se a partir de um laço de indivíduos iguais em termos de valor, porém distintos em suas individualidades, a relação matrimonial funda-se em um complexo jogo de reciprocidade e dependência afetiva. O amor é o valor, ou a regra sociológica, que a cimenta e, mais que um vínculo de deveres e direitos, os parceiros estabelecem um encontro psicológico (ver, sobre o último ponto, Viveiros de Castro e Araújo, 1977).

O princípio da igualdade, ainda no plano da relação entre os parceiros, prescreve também que os mesmos dispositivos morais valem indistintamente para homens e mulheres: eles são permitidos ou imperativos a ambos para além da distinção de gêneros. O modo como o universo lida com a questão da fidelidade é ilustrativo. O tema ─ que surgia esporádica e espontaneamente nos depoimentos ─ permite vislumbrar uma não uniformidade de respostas frente a ele. Nos casos em que se afirma uma tendência à conjugalização das relações sexuais, os informantes alegam que isso se deve, menos em virtude da observação de prescrições morais (ou "moralistas") e mais a uma "disposição natural de pessoas que se amam". Ou seja, mais do que numa ética social, a monogamia é defendida com base em uma moral subjetiva. Seguindo o raciocínio, a gravidade da infração do preceito acopla-se ao seu sentido de sintoma de que "a relação não está legal". Já outros entrevistados propugnam um "casamento aberto", podendo, assim, ser incluídos no que Heilborn cunha de "casais modernos" (10).

Não obstante, o preceito que prega a exclusividade das relações sexuais e o preceito que dela prescinde apresentam afinidades significativas quando se considera o modo como são atualizados no contexto em pauta. Vale endossar, apenas a título de contraponto, a imagem que os casais têm acerca da relação conjugal parental como marcada pela maior liberdade masculina, relativamente à feminina, na esfera sexual. Ambos os preceitos de convivência sexual atualizados no grupo, ao mesmo tempo que se distinguem deste modelo, mantêm entre si notáveis coincidências. A afinidade ancora-se, exatamente, na propalação de "direitos iguais", embora subjetivamente fundados, aos gêneros no domínio da sexualidade. Em outras palavras, é a afirmação do princípio da simetria entre homem e mulher que confere a esses jogos conjugais seu sentido coincidente: num caso a infidelidade é proibida aos dois; no outro, permitida a ambos.

Nesse espaço moral, os sujeitos tendem a recusar noções como "infidelidade" e "traição". E isso por duas razões: de um lado, a eventual infração do preceito da monogamia não é ilegítima posto ser, explicita ou tacitamente, firmada em um pacto estabelecido a dois. De outro, a "infidelidade" é compensada, via de regra, pela fórmula da "fidelidade confessional" (11). A transcrição abaixo é bastante ilustrativa: ela condensa um longo depoimento de um informante que, de modo espontâneo, relatou sua primeira ─ e única ─ relação extra-conjugal com uma moça que ele já tinha namorado antes de casar-se:

 

"Alguns amigos até me aconselharam a não contar nada para a (esposa), mas isso nem me passou pela cabeça. Existe entre a gente um pacto de sinceridade e eu acho que nem eu nem ela conseguiríamos suportar uma mentira dessa por muito tempo. A omissão operativa é uma coisa, mas ocultar isso não. A gente tem mais é vontade de falar. A (esposa) sabia da importância que esse encontro tinha pra mim no sentido de que eu estava resgatando uma série de coisas minhas. É claro que ela morria de ciúmes, mas também entendia que tanto eu quanto ela mesma estávamos num processo de retornar a pontos cegos da nossa história até mesmo como parte do nosso processo de crescimento. Então, por incrível que pareça, esse lance uniu muito a gente. Um dia nós puxamos fumo e foi uma coisa fantástica porque a (esposa) atingiu uma explicação incrível para esse encontro que eu tive. O incrível foi que quem deu sentido a essa transa foi ela... Nós (o casal) estamos num processo de reformulação total, mas não é um processo enlouquecido nem destrutivo. A gente imaginava esses relacionamentos paralelos como uma coisa caótica, uma coisa imatura, perdida, meio louca, uma coisa das pessoas não saberem o que querem. E, de repente, pintou. Não estou fazendo apologia de uma relação aberta, mas me surpreendeu, o tempo todo, o fato da gente não ter se fechado para essa possibilidade".

Insinuam-se, em suma, coincidências significativas entre o preceito da exclusividade sexual e o da "fidelidade confessional". Ambos fundamentam-se na disposição em rever tanto o "duplo padrão de moralidade" quanto a "divisão moral do trabalho" dos quais fala Pitt-Rivers (1977, p. 75 e 77). Por conseguinte, para além de suas diferenças, é pertinente englobar ambos os jogos conjugais sob a designação de "fidelidade conjugal simétrica". Eles revelam ainda, como regra fundamental, que os parceiros não estão autorizados a experiências não compartilhadas. No caso em que a exclusividade sexual é posta em questão, o procedimento da confissão atua como mecanismo compensatório: por meio dele se realiza a introdução e inclusão do outro cônjuge em uma experiência da qual ele havia sido inicialmente excluído. Mais ainda: tanto o preceito da exclusividade sexual quanto o da fidelidade confessional anunciam uma qualidade fundamental do casal igualitário, a saber, sua disposição para ser um só.

Colocando em outros termos, o ideal de conjugalidade em pauta não promove uma emancipação progressiva dos cônjuges com respeito à relação matrimonial. Até pelo contrário, ele expressa um modelo forte de existência conjugal levando a que a parceria apresente uma inclinação para "ser um só" (12), ou seja, para compor uma unidade.

Mas é fato também que essa propensão pode assumir ou concretizar-se sob duas formas distintas que falam da díade do ponto de vista de sua diacronia. Ou seja, admite-se que a parceria perfaz o caminho "da paixão ao amor", identificado, grosso modo, com um percurso que leva da "simbiose" à impreterível "necessidade de discriminação" ou de "individualização". "Paixão", "simbiose", "grude federal" são vistos como qualidades atinentes à fase inaugural do vínculo afetivo: instaurados sob a égide da fusão total, a unidade é, por definição, dada na fórmula dois em um. Tal configuração contrasta nitidamente com o momento seguinte no qual vinga o imperativo moral ou a estratégia programática da "discriminação". Deve-se reconhecer que a categoria de "discriminação" é, tão somente, uma maneira de exprimir, na linguagem nativa, a aversão a englobamentos; isto é, ela anuncia o preceito da igualdade e o da segmentação. Deriva daí que de "dois em um", os parceiros defrontam-se agora com o desafio de construir uma unidade com dois. Nesse caso, a armação da unidade está mais claramente fundada na complementariedade simétrica. Segundo duas entrevistadas:

 

"No início, quando se está naquela paixão, tudo é empolgação, tudo é super-fácil. No meio daquele fogo você nem saca os defeitos do outro e, se saca, eles não têm a menor importância. Mas depois que a paixão começa a dar lugar a uma relação menos incandescente e mais sensata, aí entra o famoso "investir na relação". Aí começa a dar trabalho. Aí tem que estar a fim de investir mesmo porque, das duas, uma: ou ela se solidifica e vira amor, ou então a relação dança fácil".

 

"No início, .nossa relação era muito simbiótica, uma coisa de muito grude. Agora eu sinto que tanto eu quanto ele estamos num processo de discriminação. Isso aparece nas coisas mais corriqueiras: só agora estou podendo aceitar que o (parceiro) é notívago mesmo e que gosta de ficar lendo até tarde. Antigamente eu sempre pedia pra ele dormir na mesma hora que eu, não por ele, mas por mim. Agora a gente está podendo se individualizar mais, se ver melhor. Até nossas trepadas estão diferentes: antes era uma coisa de se comer mesmo, de se devorar e agora é uma coisa menos aflita ... O importante é você ter vontade de ficar com o outro enquanto outro e, portanto, como diferente de você. Senão, o outro fica sendo só um suporte para tuas projeções".

 

É interessante mencionar, ainda que de forma breve, o modo como o casal igualitário responde a uma complicação adicional, qual seja; a de acomodar o terceiro ─ o filho ─ na relação. A menção ao problema importa sobretudo porque o modo como os informantes discorrem sobre ele coloca novamente em cena disposições que os particularizam em termos morais. O mesmo princípio ético que informa o relacionamento da díade já "des-simbiotizada" rege a convivência a três, a saber, o da igualdade. Assim é que a nova família, ao mesmo tempo que se quer compondo uma unidade, deve realizar "discriminações" superpostas: não só cada sujeito que compõe a tríade deve "individualizar-se" dos outros, como também cada uma das relações diádicas que a tríade encerra deve ser singular e irredutível às outras. Isto é, do mesmo modo que o casal, pensado enquanto unidade, não pode ser encompassado pela prole sob pena de perder sua razão de ser, também as relações mãe/filho e pai/filho devem estar, cada qual, investidas de uma identidade singular. A última idéia é ilustrada no depoimento de uma informante:

 

"Eu acho que o grande desafio que se coloca pro homem é o de construir sua identidade de pai sem passar pela mulher; é estabelecer uma relação com o filho sem a intermediação da figura da mãe. E isso é bem complicado pra ele, mais ainda que pra mulher".

 

Ou ainda:

 

"A gente teve muito pouco tempo enquanto casal porque o (filho) pintou nas paradas muito antes do previsto. Então hoje é difícil rolar uma situação que envolva só nós dois: geralmente é uma coisa que envolve os três. É aquela coisa: deixa de ser um casal e vira família. Só agora é que estamos conseguindo separar um monte de coisas; só agora é que eu estou conseguindo viajar sozinha com o (companheiro). Mas ainda é raro. Eu não consegui separar direito. Aliás, eu acho que nenhum dos três conseguiu separar muito bem até onde vai o meu espaço, até onde vai o do (parceiro), aonde fica o casal, aonde fica o (filho). Eu acho que nenhum dos três conseguiu ver onde está o limite de cada um. Eu acho que o (parceiro) e eu até agora nos construímos muito como família e só agora estamos nos construindo como casal" (O que você quer dizer com "se construir como casal"?) "É ter uma vida mais centrada em mim e nele, independentemente de quantos filhos a gente venha a ter".

 

Retomando agora à parceria, argumento que no movimento da "simbiose" e no da "individualização" estão encerrados os grandes dilemas, senão paradoxos, do casal igualitário. As mazelas da "simbiose" ou da "paixão" ─ reconhecidas, em geral, a posteriori ─ tematizam, em última instância, a questão de como assegurar a formação de uma unidade sem que os sujeitos se diluam na fusão total. É evidente que tal inquietação só faz sentido em um universo moral onde os indivíduos sejam extremamente ciosos de suas próprias fronteiras e que, justamente por isso, rechacem ser encapsulados pelo outro (13).

O preceito da "discriminação", por sua vez, aponta para um outro paradoxo: o parceiro tem que ser valorizado como o outro por excelência mas deve, simultaneamente, ser reconhecido como formando uma unidade substancial com o ego. Isto porque ─ cumpre frisar ─ a aludida "discriminação" ou "individualização" não compromete ─ ou não deve comprometer ─ a aspiração dos parceiros de construírem, juntos, uma existência e um projeto comuns. Com efeito, desfeita a "simbiose" ─ ou seja, a unidade dada e "natural" ─ o casal igualitário enfrenta o desafio de instaurar uma configuração na qual o preceito da "individualização" é inclusive afirmado como requisito para a preservação da unidade enquanto tal. Mais ainda: a expectativa de um máximo de fragmentação convive, no limite, com a expectativa de um máximo de junção ─ como é possível depreender da fala de um dos informantes:

 

"Hoje a gente está se discriminando e por isso a gente está podendo trocar mais e ter uma relação a dois. Estamos até pensando em trabalhar juntos como co-terapeutas de um grupo. Então nosso caminho agora é esse: juntar ainda mais e, ao lado disso, fazer todo um trabalho de discriminação".

 

Não obstante ─ e reside aí o grande embaraço desse projeto ─ o limite entre, de um lado, "respeitar o movimento do outro", suas diferenças e singularidades e, de outro, continuar a concebê-lo enquanto par é, por vezes, tênue demais:

 

"Um ano e meio depois que o (filho) nasceu, eu me dei conta que nossas diferenças tinham ficado tão gritantes que não tinha mais sentido a gente continuar junto".

 

"No casamento cada um tem que ter o seu espaço, tem que ter essa abertura, tem que saber acochambrar. Mas a maior dificuldade é saber até onde liberdade quer dizer abertura e até que ponto personalidade quer dizer egoísmo. Porque se a coisa fica egocêntrica, não dá pé; mas também o casamento não pode anular a vontade de cada um. Eu acho que estabelecer esse limite é o ponto mais difícil na relação de casal".

 

O principal dilema do casal igualitário já "dessimbiotizado" consiste, em suma, em tatear a áurea medida dos movimentos de "discriminação" dos parceiros de modo a que eles não redundem na fragmentação da unidade. Isto é, o indivíduo deve ver saciado seu anseio de singularização e de não englobarnento pelo outro e, ao mesmo tempo, deve continuar a se reconhecer na exigência de uma vida compartilhada e de uma existência comum. Em uma palavra, o desafio é o de, enquanto casal, ser dois e simultaneamente um só. Essa questão parece constituir seu grande tema e seu maior dilema.

 

Os impasses do projeto e sues implicações maiores

Proponho, à guisa de conclusão, ser possível conferir inteligibilidade ao embaraço assinalado, invocando tensões lógicas inerentes ao próprio princípio em torno do qual se arma a configuração moral em pauta, a saber, a individualista-igualitária. Essa hipótese foi se solidificando à medida em que, ao discorrer sobre o ideal de conjugalidade vigente no universo, e sobretudo sobre seus impasses, tive a atenção despertada para o fato de estar diante de questões que também concerniam à ordem social individualista mais geral. Sem negar-lhe peculiaridades, creio que o casal igualitário dramatiza princípios que regem, a ordem social individualista e exprime dilemas que lhe são inerentes. Para desenvolver o raciocínio ─ que vai, em larga medida, ao encontro das teses dumonsianas ─ retomo considerações feitas sobre essa modalidade de parceria e sobre o que é afirmado como seu maior desafio, a saber, o de construir uma "unidade com dois". Minhas considerações devem, necessariamente, incidir sobre uma determinada etapa da trajetória do casal ─ a saber, quando vinga o preceito da "discriminação" ─ tendo em vista que na "paixão" ou na "simbiose" a dificuldade de constituir uma unidade não se coloca; ela é, por definição, dada.

Acompanhando premissas de base da ordenação individualista, os cônjuges percebem-se como sócios livre-contratantes e a cada um deles é outorgado ─ tal como aos "cidadãos" ─ antecedência lógica e moral sobre o contrato que os vincula. Nesse arranjo, o sujeito singular é concebido como inteligível em si mesmo e, cioso da preservação de sua liberdade individual, ele se antagoniza a qualquer instância que, encapsulando-o, possa comprometer a atualização desse valor. Do fato de pensar como uma mônada decorre ser alta a probabilidade de que o relacionamento entre o indivíduo ─ seja ele singular ou coletivo ─ e a unidade maior que o abarca apresentem um cunho tensional. Parece residir aí a significação sociológica do "sufoco" da vida a dois: tal qualidade constitui uma das manifestações possíveis da tensão entre indivíduo e sociedade As poucas pesquisas nacionais que versam sobre o "casal moderno" atestam a idéia. O "casal emancipado" que constrói seu projeto de "relacionamento aberto" proclamando a prevalência do indivíduo sobre a díade (Heilborn, 1980 e 1981); os casais que decidem pela coabitação separada em nome da "preservação de um espaço próprio, da liberdade, da autonomia pessoal de cada parceiro" (Vaitsman, 1985) e até mesmo os singles estudados por Moraes (1985) ─ que optam por morar sozinhos alegando "mais autonomia, maior privacidade e maior liberdade" ─ são respostas diferentes a um mesmo dilema sociológico. Isto é, elas expressam a difícil convivência entre dois indivíduos concebidos como singulares e a instituição do casal.

Visto sob outra ótica, o desafio de construir uma "unidade com dois" torna-se agudo em virtude do valor imputado à diferenciação. A lógica que entroniza o sujeito singular a elucida; isto é, o cultivo da diferença afirma-se como necessário para a preservação do próprio valor indivíduo (cf., a respeito, Duarte, 1983:8). Mas a "diferenciação" anuncia o dilema de equacionar ─ e preservar ─ a formação de uma unidade que, ao mesmo tempo que incita "discriminações" ou o "pluralismo", deve, por definição, transcender fragmentações. O desafio de conjuminar "dois em um" enfrentado pela parceria é, nesse sentido, homólogo ao de instaurar e manter a unidade na diversidade que afeta a ordem social individualista mais geral. Em ambos os casos, depara-se com o mesmo paradoxo que reside, justamente, no empenho de "totalizar pela segmentação e individualização" (Duarte, 1983, p. 16). Por isso, pode-se especular, a "paixão" ou a "simbiose" são representadas como anti-dilemas: não há tensão em construir uma unidade; esta é dada na fusão, ou seja, na diluição de cada individualidade no todo.

A categoria nativa de "discriminação" é altamente significativa, posto conjuminar o estímulo à "diferenciação" ao valor da igualdade. A categoria condensa, assim, os impasses enfrentados pelo casal igualitário. Com efeito, suas complicações não se originam no valor imputado às "diferenças" nem ao "pluralismo". Afinal, distinções assumidamente hierárquicas não se opõem à totalidade; pelo contrário, a constituem e a fundam. Os embaraços só se afirmam enquanto tal quando as "singularidades", "diferenças" ou o "pluralismo" são, ao mesmo tempo, informados ou subordinados ao preceito do igualitarismo. Em suma, a tensão na armação da unidade resulta, em última medida, da aversão a englobamentos. Nesse sentido pode-se subscrever a afirmativa de Dumont segundo a qual "a crise é consubstancial ao sistema" (1977, p. 19).

Ao tecer tais considerações ─ que decerto exigem um aprofundamento maior do que me é possível no momento ─ não incorro na falácia, assinalada por Geertz, de acordo com a qual "Jonesville-é-a-América" (1978, p. 32). Vale dizer, não estou, em absoluto, endossando a idéia das formas simples ─ no caso, o casal ─ como via privilegiada para aceder às formas complexas, isto é, a sociedade individualista-igualitária. Admito especificidades e idiossincrasias próprias à modalidade de parceria em pauta e por isso descarto concebê-la como um microcosmo do universo individualista. As ilações acima sugerem, tão somente, que a organização individualista ─ e seu princípio mestre, o igualitarismo ─ encerra tensões e paradoxos que lhe são constitutivos. Também não se trata de concluir por sua inviabilidade ou falência, mas apenas de reconhecer que sua implementação padece de dilemas que lhe são próprios.

 

Texto retirado da tese de doutorada.

 

 

Notas biográficas

 

1 Este inclui, além da documentação especificamente atinente ao "casal grávido" acima citada, um tipo de material que extrapola o objeto investigado. Assim é que, no contexto da tese, efetuo uma análise da ética anunciada nos convulsivos anos 60, menos com o intuito de buscar a gênese dessa configuração moral, mas antes para sustentar que é possível estabelecer relações de sentido entre o arcabouço ideológico ilustrado no fenômeno do "casal grávido" e o clima e o tom dos movimentos sociais que eclodem na década de 60/70. Dito de modo muito resumido, argumento que esses anos colocam em cena, de forma radical e condensada, o preceito de um; "individualismo libertário" (cf. Salem, 1987, p. 98-108).

 

2 ─ Essa forma de entender a noção de igualdade inspira-se nos escritos de Louis Dumont para quem hierarquizar equivale à adoção diferenciada de valor às unidades (cf. por exemplo, 1966: 34) em contraposição ao princípio da igualdade, o qual promove uma espécie de "achatamento do mundo" (Duarte, 1986, p. 46).

 

3 ─ No contexto da tese, argumento que essa inclinação moral parece afirmar-se com maior vigor a partir dos convulsivos anos 60. Ela se manifesta no recurso às drogas como um mecanismo para a exploração de facetas desconhecidas do "eu", na bandeira do bissexualismo, a qual também parece acirrada no período, e é indubitavelmente a mensagem central de muitos dos escritos vanguardistas da época (ver, por exemplo, Cooper, 1974).

 

4 O último livro de Badinter que traz o sugestivo título de Um-é-o-outro (1986b) radicaliza a questão da igualdade para além das idéias contidas no conceito de "indivíduo plural". Com efeito, ao tratar das atuais relações entre homem e mulher, a autora diagnostica (sem camuflar seu entusiasmo) que, graças à crescente indistinção de papéis sexuais e também à crescente "plasticidade fisiológica" possibilitada pelos avanços da ciência, estar-se-ia ingressando num processo de dissipação não apenas das demarcações diferenciais de gênero, mas também das de sexo ou de substancia. Suas elucubrações anunciam, em outras palavras, urna ética que, extravasando a indiferenciação de domínios e papéis, postula uma efetiva "com-fusão" entre identidades e quiçá, corpos femininos e masculinos. Tanto assim que, nesse contexto, as categorias de gênero são vistas como perdendo o estatuto de princípio classificatório em prol de "uma humanidade constituída por uma multiplicidade de individualidades": "não há mais um modelo obrigatório, mas uma infinidade de modelos possíveis. Cada um se atém à sua particularidade, à sua própria dosagem de feminilidade e de masculinidade .. A diferenciação dos indivíduos e dos grupos se faz segundo clivagens mais sutis do que o sexo, como por exemplo, a idade, a cultua ou a sensibilidade" (pp. 262-263). Minfias diferenças com relação a Badinter devem ficar claras: enquanto que a noção de "indivíduo plural" adquire aqui o estatuto de um valor cultural ou de um imperativo ético sendo, portanto, temporal e socialmente localizado a autora sustenta que o "novo modelo" da relação entre gêneros se funda, e se legitima, na "bissexualidade natural" constitutiva de todo ser humano, apelando assim para o clássico procedimento de "naturalização da cultura" (ver, sobre tal mecanismo, Salem, 1987, p. 167-168).

 

5 Os princípios arrolados que compõem à configuração moral individualista-psicologizante não constituem novidade para os autores nacionais que vêm trabalhando com camadas médias "modernas". Com efeito, questões como "aguda consciência da individualidade", ênfase na "diferenciação" e na "mudança", na "autenticidade", "coerência" e na "igualdade" são, de modo invariável, destacadas como os pilares que sustentam a visão de mundo de tais segmentos. Já tive oportunidade de resenhar essa literatura (Salem, 1986), a qual tem, como importante foco de irradiação, as análises de Gilberto Velho (ver, por exemplo, 1981 e 1986).

 

6 ─ A distinção entre "idealidade" e "ideacionalidade" é aparentada à proposta por Durkheim entre "julgamentos de valor" e "julgamentos de existência ou de realidade" (cf. 1970: cap. IV)

 

7 ─ Estudos versando sobre "classes trabalhadoras" ou "famílias operárias" sublinham serem tais oposições constitutivas ao sistema ético desses segmentos no que concerne à relação entre gêneros. Cf., entre outros, Duarte, 1986: cap. IV e 1984; Durham, 1980 e Salem, 1981. Examinando sistemas de representações sobre a homossexualidade masculina, Fry (1982: cap. IV) também argumenta pela hegemonia de um "modelo hierárquico" de identidade sexual entre as classes baixas e nas áreas mais tradicionais brasileiras, e o contrasta com um outro ─ que vinga entro as classes médias e altas das grandes metrópoles ─ o qual enfatiza a "igualdade e a simetria" nas transações homossexuais. A crescente indiferenciação dos papéis sexuais é interpretada pelo autor como fruto de transformações sociais que atingem a sociedade brasileira, sobretudo a partir dos anos 60/70.

 

8 ─ Não descarto a possibilidade de a própria temática em pauta ter instigado, de um modo ou outro, o sentido introspectivo dos depoimentos. Mas tendo também a relativizar essa apreciação com base em outra experiência de campo que me levou a entrevistar homens da geração precedente, os quais podem ser considerados, de um ponto de vista sociológico, como pais desses meus informantes. Creio observar-se, entre as duas gerações masculinas, uma inflexão na forma de apresentação do "eu": num caso, ela se traduz em uma apresentação via feitos (em especial, na área do trabalho profissional); no outro, ela incide sobre o universo introspectivo (ver, para o mencionado contraste, Salem, 1980, apêndice B).

 

9 ─ Figueira insiste nesse ponto quando, discorrendo sobre o que chama de "família igualitária", propugna que "somos formalmente iguais, mas pessoas diferentes (...) As diferenças são resultado de opções subjetivas" (1985).

 

10 ─ Heilborn (1980, 1981) nomeia de "casais emancipados ou modernos" aqueles que constroem seu projeto de "relacionamento aberto" ─ sobretudo na esfera sexual ─ advogando a prevalência do indivíduo sobre a díade. As observações que se seguem revelam-se igualmente pertinentes para o segmento investigado pela autora.

 

11 ─ O termo "fidelidade confessional" me foi sugerido por Maria Luiza Heilborn.

 

12 ─ Não tenho qualquer intenção de enveredar pelo conceito psicanalítico de simbiose, o qual, aliás, desponta como categoria dos informantes. Ainda assim, merece registro o argumento de Figueira, segundo o qual os "casais individualistas encerram uma simbiose virtual" (1981, p. 111 e ss).

 

13 Versos da compositora Fátima Guedes, na canção Condenados, exprimem com clareza esse tipo de dilema: "Ah, meu amor, estamos condenados/ Nós hoje já podemos dizer que somos um/ E somos um/ E nessa fase do amor em que se é um/ E que perdemos a metade cada um".

 

 

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