A PRODUÇÃO ORGANIZACIONAL DOS PRELADOS NA REPÚBLICA VELHA

 

Sergio Miceli

 

                 O processo de produção e reprodução social do clero e, em particular, daquela minoria guindada aos postos de comando, estende-se ao prolongado período deformação escolar e de iniciação na vida propriamente eclesiástica. Mormente no caso de uma organização a braços com a implementação urgente de uma política severa de "moralização" e profissionalização de seus quadros, a análise detida dessa etapa-chave na fabricação social do clero permite aclarar algumas das razões organizacionais para o êxito político alcançado pela Igreja na República Velha. Numa carreira amplamente determinada pelo tempo de exposição às regras, costumes e valores da cultura organizacional e, por conseguinte, pelas sucessivas "rupturas" com o meio de origem, a etapa de formação escolar e eclesiástica constitui um dos momentos decisivos na determinação de todo o "futuro" dos novos quadros no interior da corporação eclesiástica. Os mais importantes mecanismos de rompimento com os familiares e companheiros de infância, o progressivo distanciamento dos irmãos e das alternativas de vida social e profissional à carreira eclesiástica, são desencadeados ao longo desse período de segregação desde o ingresso no seminário menor até o momento da ordenação.

             O ingresso no seminário reveste-se de especial relevância nesse processo de quebra dos laços com a "ordem temporal". A não ser os casos bastante raros dos que "abraçam" a carreira ao final da adolescência ou no início da vida adulta, a grande maioria das "vocações" tende a "despertar" desde a mais tenra idade. Um contingente apreciável de futuros prelados ingressou no seminário menor nos primeiros anos da adolescência, entre os 12 e 15 anos, havendo uma parcela restrita que passou a freqüentar as casas de formação ainda crianças com apenas 9 ou 10 anos. Por força de circunstâncias diversas, como por exemplo dificuldades de transporte ou distância entre as residências familiares e os seminários, muitos jovens só entraram nas casas de formação já adolescentes para aí realizarem estudos secundários ou concluir os preparatórios, como era o costume na época

             Os seminários eram então, ao mesmo tempo, colégios particulares e centros de atração e formação do pessoal religioso. Seja como for, quer fazendo as vezes de colégio interno para os herdeiros das elites, quer servindo como refúgio gratuito de rebentos promissores das famílias decadentes, a transição brusca desses meninos-moços de suas fazendas e vilarejos para um regime de severa disciplina devia tocá-los por dentro e por fora. Os sentimentos e as percepções desempenados não podiam deixar de provocar nesses matutos de estirpe uma perspectiva de distanciamento sobre o que fora sua experiência pregressa. Dado que quase todos os seminários estavam em mãos dos lazaristas e jesuítas, duas das ordens mais sintonizadas com os esforços de "moralização" do clero brasileiro impostos do exterior, não é difícil reconstruir o tipo de vida que esses jovens passavam a ter (1).

             Horários rígidos para refeições, estudos, aulas, exercícios físicos, orações. Visitas rareantes aos familiares, quase sempre coincidindo com feriados religiosos ou durante as férias. Entrevistas regulares com os lentes e o diretor espiritual, contatos periódicos com autoridades diocesanas, visitadores e olheiros do bispo, do núncio e dos provinciais das ordens, alguns deles em condições de influenciar a seleção dos mais talentosos para estágios no exterior, ou então, de fazer chegar ao conhecimento de seus superiores os feitos de alguém muito aplicado. Há inúmeros depoimentos a respeito da severidade disciplinar dos jesuítas e lazaristas, motivo freqüentemente invocado para justificar conflitos sérios entre eles e os seminaristas brasileiros. Outras vezes, os seminários convertiam-se em objetos de litígio entre os religiosos responsáveis e as autoridades diocesanas (2). A persistente escassez de "vocações" na sociedade brasileira, a crescente importação de religiosos estrangeiros no início deste século e os freqüentes conflitos de jurisdição provocados pelas costumeiras interferências dos bispos e até mesmo de autoridades civis sobre matéria: (currículos, orientação doutrinária dos cursos bibliografia, regime disciplinar etc.) que os religiosos responsáveis consideravam de sua competência exclusiva, são alguns dos fatores que mais contribuíram para tornar os seminários uma importante arena de competição no interior da Igreja. Tais atritos e desentendimentos presenciados pelos seminaristas também devem ter marcado a percepção que passaram a ter das relações de força no interior do clero e da posição subalterna da Igreja brasileira em relação aos centros europeus

             Outro fator conjuntural de influência na formação clerical da geração mais velha de prelados atuantes na República Velha prende-se aos efeitos e desdobramentos da "questão religiosa". À altura da década de 70, pelo menos um terço dos futuros prelados estava prestes a receber o presbiterado, alguns deles até mesmo das mãos dos bispos condenados, outros estavam recém-ordenados, diversos tendo sido inclusive ex-alunos de D. Vital e D. Macedo Costa ou daqueles pares que haviam reagido publicamente às duras medidas governamentais. Os demais prelados aqui analisados freqüentaram os seminários reformados após 1890 mas não devem ter ficado insensíveis aos preitos e homenagens que seus professores e outras autoridades eclesiásticas não perdiam ocasião de render à memória dos bispos de Belém e Olinda. Alguns desses então seminaristas foram alunos e protegidos dos bispos aprisionados, outros ostentavam a honra de serem seus afilhados de crisma ou de terem sido por eles indicados para prosseguirem seus estudos na Europa. As duas últimas décadas do século passado assinalam mudanças substanciais no interior das casas de formação que superaram a situação calamitosa contra a qual os líderes da "questão religiosa" haviam reagido energicamente, dando margem à reforma empreendida pelas ordens estrangeiras recém-chegadas da Europa (3).

             Os futuros prelados brasileiros sofreram na pele conseqüências de toda ordem provocadas pela prisão e condenação de seus superiores, sentindo-se repentinamente como alvos de perseguições e discriminações por parte de pessoas de prestígio nos círculos dirigentes. E mesmo os poucos que se encontravam em Roma, no calor dos acontecimentos, não puderam se furtar aos desafios que lhes atribuíam uma responsabilidade redobrada pelos rumos futuros da Igreja no país. Os mais velhos acabaram participando de alguma maneira do conflito, escrevendo na imprensa, assumindo atitudes de censura e represália, enfim, dando mostras de solidariedade. Aqueles ordenados e consagrados após a "questão religiosa", ou durante as primeiras décadas deste século, alunos de D. Adauto, D. Silvério, D. Luiz Antonio dos Santos, D. João Antonio, D. Joaquim Silvério, continuavam por isso mesmo expostos ao ressentimento organizacional generalizado, expresso em pastorais e solenidades públicas pelos diocesanos mais idosos, aferrados à meta de "reconquista" do terreno perdido. Tal intento tomou corpo através de inúmeras políticas, entre as quais salienta-se o envio a Roma ou a Paris de uma leva considerável de noviços brasileiros para aí concluir seus estudos, habilitando-se aos encargos político-administrativos de cúpula.

             Após a conclusão dos estudos secundários de humanidades ou dos preparatórios nos seminários menores, onde permaneciam aproximadamente três ou quatro anos, aqueles que, como se costuma dizer, davam mostras de "perseverança" na carreira eclesiástica, iniciavam os três ou quatro anos de estudos superiores de filosofia e teologia nos seminários maiores. Ao longo dessa etapa terminal iam cumprindo os diversos requisitos de noviciado, recebendo, pela ordem, a primeira tonsura, o subdiaconato, o diaconato e, finalmente, o presbiterado. Em prazo hábil antes da época prevista da ordenação propriamente dita, o candidato devia submeter-se a um processo canônico de investigação a respeito de suas origens e costumes, chamado de genere et moribus. Dispondo da aprovação das autoridades eclesiásticas, ou seja, tanto do vigário de sua paróquia de batismo incumbido de ouvir as testemunhas convocadas, como dos detentores de cargos formais na divisão do trabalho diocesano, o futuro sacerdote. teria de providenciar seu título de patrimônio, transferindo à propriedade eclesiástica um dado montante de capital sob a forma de terras, títulos da dívida pública, ações, imóveis e outros bens de raiz O ritual da ordenação tinha lugar através de cerimônias solenes, cabendo aos bispos o privilégio de imposição do sacramento cuja recepção é pontuada por uma série de votos de entrega e obediência à organização. Era bastante comum o recém-ordenado rezar sua primeira missa na cidade natal, em presença dos familiares.

             A parcela majoritária dos postulantes era ordenada entre 20 e 25 anos, respeitando portanto os requisitos etários fixados pelo direito canônico. Aqueles poucos, por volta de 20%, cujo ingresso no seminário ocorrera tardiamente, recebiam as chamadas ordens maiores entre 26 e 30 anos. A idade mais freqüente de ordenação na época era a de 23 anos. Havia, pois, certa margem de variação na extensão do período de formação, desde o mínimo de quatro anos passando pelos que ficavam de 6 a 8 anos, até aqueles que chegavam a residir uma década no seminário. Os "filhos da Igreja" e os que realizaram seus estudos secundários no seminário cumpriam, em geral, todos os ritos de passagem entre as diversas etapas da variante mais prolongada de formação eclesiástica.

             O período passado no seminário pelos efetivos do clero diocesano e nas casas de formação pelos noviços das ordens religiosas, constituía o principal divisor de águas nos rumos que tomariam na carreira eclesiástica. Afora os deveres escolares de praxe e a incorporação de toda uma cultura organizacional, os anos de seminário propiciam e até incentivam a familiarização com as principais alternativas de carreira clerical, tornando os candidatos cientes da estreita vinculação entre os postos disponíveis numa determinada conjuntura do trabalho religioso e as posições de força no interior da organização. Durante esse período, os seminaristas vão aos poucos se dando conta das estratégias de enquadramento, mais ou menos dissimuladas conforme o prestígio e a autoridade dos lentes, do diretor espiritual e dos reitores, mediante as quais os mentores da organização buscam ajustar as expectativas de trabalho de seus pupilos às posições disponíveis na divisão do trabalho religioso.

             Nas condições da época, os seminaristas desprovidos de pistolões dentro e fora da organização, ou então, os que não davam mostras de grande empenho intelectual, pouco propensos a dilatar o período de estudos, estavam desde logo fadados a permanecer a vida inteira como párocos ou viários. Os demais podiam inclusive ocupar momentaneamente esses cargos como parte de um período probatório de sargenteação antes de serem alçados a postos de prestígio e responsabilidade. Como veremos adiante, são raros os prelados cuja experiência anterior à consagração tenha se limitado apenas ao trabalho pastoral, na época bastante desvalorizado e, no mais das vezes, tomado como sinal de relegação na hierarquia eclesiástica. Ali mesmo no seminário, os postulantes logo se davam conta de que a trajetória docente e intelectual constituía então a via mais segura e prestigiosa de acesso aos altos escalões hierárquicos.

             Para os mais esforçados dentre os "filhos da Igreja", o único caminho ascensional era começar como lente, passando a diretor espiritual ou mestre dos noviços, até poder ocupar os postos cobiçados de vice-reitor e reitor Ao desempenho de tais cargos associava-se a expectativa de que seus ocupantes também dessem provas de competência e talento nas atividades de produção, divulgação e militância intelectual, quer através do púlpito, das cátedras, da imprensa, quer através do timbre ortodoxo que conseguiam inculcar nos jovens que eles estavam formando. A proximidade organizacional, e muitas vezes espacial, entre o seminário e a residência dos bispos diocesanos, facilitava a percepção das engrenagens de poder e autoridade em nível local. Assim, por exemplo, não é de estranhar o contentamento daqueles chamados a preencher os postos de auxiliares de confiança do bispo, outro prenúncio de ascensão rápida e garantida na hierarquia. O período de formação constituía, portanto, a oportunidade de os futuros prelados inteirarem-se do mercado de trabalho é de oportunidades internas à corporação e, ao mesmo tempo, oferecia o espaço institucional adequado ao discernimento das clivagens de interesse, ao confronto das pretensões, à barganha dos trunfos e à "opção" pelos "partidos" e patronos eclesiásticos.

             Dada a amplitude e variedade de tarefas e funções então desempenhadas pelo clero, não é de se estranhar o fascínio que a carreira eclesiástica devia suscitar junto aos interioranos que compunham o grosso do contigente cujas ambições voltam-se para a Igreja. Numa época de incipiente diferenciação do trabalho político e cultural, inclusive nas capitais estaduais, a Igreja estava em condições de oferecer aos seus quadros uma gama diversificada de posições e encargos que, no espaço da classe dirigente leiga, estariam praticamente fora de seu alcance. Impossibilitados de realizar os estudos superiores que encaminhavam às profissões liberais, aos postos de comando partidário e de representação parlamentar, os seminaristas que mais se distinguiam, segundo os padrões de desempenho então vigentes, tiveram a oportunidade estimulante de depararem-se com um mercado de trabalho cativo que duplicava, à sua maneira, as posições leigas mais cobiçadas em termos de produção intelectual, de militância e participação política, de administração e gestão patrimonial.

             Na Primeira República, a Igreja era talvez á única instituição em condições de propiciar uma escolaridade prolongada àqueles jovens excluídos das faculdades superiores (direito, medicina, engenharia, farmácia) que davam acesso às carreiras dominantes. Além de garantir treinamento ao desempenho de funções políticas na organização e prover a competência requerida em disciplinas e áreas de conhecimento (línguas estrangeiras, história, filosofia, português, matemática, etc.) cuja aplicabilidade se estendia a domínios leigos de atividade, aos colégios religiosos de maior prestígio no país (Anchieta, São Leopoldo, Caraça etc.) (4) formaram gerações sucessivas de herdeiros dos grupos dirigentes.

             Na verdade, as diversas alternativas de carreira no interior da organização não encontravam, a rigor, um paralelo na divisão do trabalho leigo de dominação. Quer o roteiro usual de coadjutor, pároco, monsenhor, quer a trajetória administrativa incluindo inúmeras atribuições na cúria diocesana ou em instituições dela dependentes, quer o caminho prestigioso e especializado de mentores espirituais (diretor de consciência, diretor espiritual, orador sacro, confessor etc.) ou intelectuais (lentes, escritores, jornalistas etc.), 'a Igreja oferecia diversas possibilidades atrativas de atuação, mais ou menos especializadas, conforme o tipo de formação escolar e cultural dos presbíteros recém-ordenados

             Constituindo a espaço por excelência elas ocasiões de sociabilidade oligárquica, festas, procissões, solenes pontificais, casamentos etc., não é de se estranhar o fascínio que ela deveria exercer aos olhos acanhados desses interioranos de várias procedências, quase sempre mal situados numa prole numerosa de proprietários rurais remediados. Os que acabavam "perseverando" deviam enxergar os lugares da organização que tiveram a oportunidade de freqüentar e de familiarizar-se ─ a saber, o seminário, a casa do bispo, as igrejas da cidade, as sedes das irmandades ─ como uma das poucas, senão a única, possibilidade de "escapar à sua condição" para, que pudessem continuar estudando na capital do estado, participar das festas que a Igreja empresava e, sobretudo, chegar talvez um dia a pertencer a essa espécie à parte que eram os "padres".

             Após alguns anos de experiência no seminário, com a progressiva tomada de consciência das chances pessoais de futura movimentação no interior da organização, cientes dos laços com o exterior e da possibilidade de acioná-los sob a forma de viagens de estudos, os futuros prelados não podiam deixar de se sentir cada vez mais como integrantes de um empreendimento "internacional", cujas ramificações ultrapassavam de muito as fronteiras estaduais e nacionais. Os acenos de que poderiam alcançar a graça de ir a Roma ou a Paris, o sonho feito realidade de viajar de navio, de residir nesses grandes centros por um período prolongado, contribuíam para fazer da profissão eclesiástica algo que valia a pena, talvez a única possibilidade de escapar ao destino ordinário de um menino do interior que, por força de sua posição relegada na linhagem, via-se completamente barrado das carreiras masculinas associadas à condição de proprietário de terras, gado e escravos.

             Com base nas evidências disponíveis, pode-se tentar reconstruir o que se passava na cabeça de um desses jovens em vias de treinamento para,g carreira eclesiástica, um daqueles que estivesse se familiarizando com o "clima" organizacional. Desde logo, entrar pára a Igreja tinha algo a ver com o acesso ao mundo oficial elo "espetáculo", da "festa", da "encenação", uma oportunidade de colocar-se do outro lado, o altar em lugar das bancadas, de passar do anonimato do público à condição de oficiante em relevo, segurar as varas do pálio, agitar o turíbulo espargindo incenso, tocar as campainhas com energia no momento da consagração, celebrar a missa, subir ao púlpito e falar alto, em suma, alçando-se da despersonalização familiar e social à condição de figurante enfarpelado das cerimônias religiosas.

             Diante desses caipiras que se viam inteiramente excluídos da herança das terras e da posição paterna, a Igreja parecia em condições de conceder-lhes um lugar no mundo, uma identidade fortemente exteriorizada pelo uso da batina, pela tonsura nos cabelos, pelos sapatos afivelados, e que se abrilhantava, nos momentos do culto, pela ostentação de vestes cerimoniais brancas e luxuosamente trabalhadas à mão. Devia contar bastante o sentimento de pertencer a uma organização poderosa e capaz de livrá-los da situação derrisória de caudatários de uma parentela oligárquica.

             Entrar para a Igreja tomava assim o significado de, no limite, vencer os constrangimentos do ambiente familiar e social, passando a extrair uma identidade dessa simbiose com as insígnias características do pessoal religioso. Pertencer à Igreja era o mesmo que passar a movimentar-se num cenário à parte, infenso às prosaicas determinações econômicas e às injunções políticas mais reles. Um mundo especial, desencarnado, os corpos envoltos em panos, paramentados para o desempenho de funções espirituais que não dispensam os apelos mais intensos aos sentidos, inebriados pelas flores, músicas, incenso, vinho, desempenados pelo desencadear de sensações que levam às alturas, ao desprendimento do mundo familiar e das rotinas. Tais experiências culminam com a aquisição de uma identidade garantida, de um lugar no mundo para aqueles que se sentem pouco à vontade na "terra dos homens", que manejam com dificuldade o corpo dos homens, e que, por todas essas razões, vivem o enquadramento clerical como sendo capaz de disciplinar as desordens físicas, familiares e afetivas, de que se sentem vítimas. Em outras palavras, a carreira eclesiástica dava, assim, direito a uma máscara social cujos portadores sentiam-se garantidos materialmente e depositários de uma missão valorizada no mundo social a que pertenciam e do qual se sentiam enxotados.

             Um contingente apreciável dessa geração de prelados interrompeu sua formação no país para prossegui-la no exterior, em geral nos colégios e universidades pontifícios em Roma, uns poucos no seminário parisiense dos lazaristas. Aqueles encaminhados a Roma eram, via de regra, escolhidos pelos bispos diocesanos após consulta aos reitores e diretores espirituais dos seminários. Também pesavam no processo de seleção dos "melhores" a intercessão de parentes bem situados na alta hierarquia eclesiástica, ou então, os empenhos das famílias ricas dispostas a financiar o estágio no exterior.

             A maioria desses futuros bispos brasileiros permanecia fora pelo menos quatro ou cinco anos, alguns dilatavam esse período até sete ou oito anos, em alguns casos até mais, mormente quando haviam sido incentivados a obter os títulos de doutoramento em teologia, filosofia e direito canônico, as láureas acadêmicas mais prestigiosas ao alcance da elite eclesiástica.

             Muitos desses jovens passavam diretamente dos seminários em Mariana, São Paulo Olinda, para as casas de formação européias, sendo que algumas delas, como por exemplo o Colégio Pio-Latino-Americano, haviam sido fundadas com a atribuição explícita de oferecer aos futuros quadros do primeiro escalão latino-americano uma formação ajustada à política recém-implantada de "romanizar" de alto a baixo as igrejas nacionais da periferia. A importância da cota concedida a cada país espelhava, é claro, o peso de sua contribuição regional conforme o esquema de prioridades fixadas pela política externa de investimento do Vaticano.

             O ritmo interno de estudos para obtenção dos diplomas, a aprendizagem de pelo menos duas línguas estrangeiras (o italiano e o francês), o perfeito domínio do latim como "dialeto organizacional e litúrgico", os contatos freqüentes com colegas latino-americanos e de outras. procedências "periféricas", os incentivos e prêmios à excelência intelectual e à ortodoxia doutrinária nos princípios recém-aprovados do Vaticano I, a intimidade com as engrenagens e manhas de uma Igreja em processo acelerado de "romanização", todas essas experiências marcaram profundamente os estudantes brasileiros, contribuindo para reforçar os sentimentos de lealdade perante as autoridades pontifícias e para desgastar os laços com o ambiente social e político de origem.

             Por outro lado, a duração prolongada da formação do clero, sobretudo daquela minoria destinada às funções e posições de comando organizacional, fazia com que esse período fosse pontuado pelos empenhos concedidos aos postulantes por figuras destacadas da hierarquia. Para a maior parte dos estudantes brasileiros estagiando nos seminários parisienses ou em colégios pontifícios, cada uma das etapas assinalando a imposição das ordens podia dar lugar a uma ocasião particularmente emocionante de efusão cooptativa, em presença de algum figurão da hierarquia assumindo a posto de celebrante. Alguns receberam a primeira tonsura de D. Vital, outros foram ordenados pelo arcebispo de Paris, aqueles bem sucedidos nos estudos mereciam a honra de terem a cerimônia de ordenação presidida por cardeais da cúria, às vezes acolitados pelo seu protetor na hierarquia brasileira em visita à cidade papal.

             Entretanto, a experiência romana dos estudantes brasileiros não se cingia à absorção de saberes e procedimentos adequados ao manejo das altas funções eclesiásticas, à incorporação das orientações doutrinárias e estilos litúrgicos então em voga, ou aos momentos tocantes de sua progressão pessoal na carreira clerical. Os relatos entusiastas daqueles jovens noviços recém-chegados ao centro da cristandade, deslumbrados diante das basílicas, das catacumbas, das solenidades e de tudo o mais que expressava o poder temporal do pontífice, guardam lampejos do arrebatamento de que se sentiam tomados.

             A longa viagem transatlântica fazia-se quase sempre em companhia de altas autoridades eclesiásticas brasileiras, incluindo-se freqüentemente no roteiro a visita a lugares famosos de peregrinação (santuários espanhóis e franceses, Jerusalém, etc.), sendo também a primeira oportunidade de desfrutar as marcas de deferência e os privilégios então concedidos aos dignitários da Igreja. Esse treinamento internacionalista a que estavam sujeitos os recrutas para os altos escalões eclesiásticos incluía a celebração de missas em lugares santos pelos ordenados ou o desempenho das funções de acólito pelos noviços, eventos que passavam a constar da folha de serviços do futuro prelado. Tais visitas propiciam ainda um contato direto com importantes manifestações de força do catolicismo que a maioria dos seminaristas só conhecia através de leituras e do proselitismo de seus professores. Portentosas peregrinações com milhares de fiéis arrebanhados conforme o país de origem, a passagem obrigatória pelos sítios dos milagres e pelas casas em que haviam residido os santos da Igreja, as rezas coletivas, o murmúrio uníssono de penitentes ajoelhados, iam acumulando-se as provas irrefutáveis de grandeza berraria imensa (...) um organizacional.

             Os momentos de emoção mais intensa seriam aqueles vividos em Roma. A visita às basílicas romanas, aos túmulos dos papas, aos museus, às catacumbas, às ossadas e relíquias do martirológio cristão, aos palácios e jardins pontifícios, mosaicos, mármores, pedras raras, obras de arte, em suma, os tesouros da Igreja que manifestavam nas grandes cerimônias o majestoso aparato do poder pontifício. Era o caso, em especial, das solenidades de canonização, que mobilizavam tropas do paço, guardas de honra, dignitários, alabardas, trombetas, cantos, ladainhas, produzindo o clima de fervor e arrebatamento que precedia o momento culminante de entrada do cortejo pontifício, ladeado por bandeiras e pendões dos santos a serem canonizados, fazendo avançar a cadeira gestatória do papa, fazendo o público presente prorromperem palmas, vivas, lenços brancos, o clero entoando o Regina Coeli, "uma verdadeiro delírio" (5).

             Os jovens formados nessas condições regressavam ao país convictos de sua excelência, cientes da raridade de sua competência no mercado local de trabalho religioso, muitos deles doutores da Igreja em condições de fazer valer suas pretensões aos postos mais cobiçados e mais condignos às suas expectativas e aos investimentos custosos de que se haviam beneficiado.

Capítulo V da Tese "A Elite Eclesiástica Brasileira (1890-1930j" apresentada como requisito ao concurso para livre docência em Sociologia na Universidade Estadual de Campinas. em agosto de 1986.

 

 

Notas Biográficas

 

1 - Um relato sugestivo da vida cotidiana e escolar no Seminário de Diamantina consta da obra de Aurélio Pires (1939, "II, em Diamantina", p. 23-52), que o freqüentou entre 1875-8. Ainda sobre os seminários nas últimas décadas do século XIX e nas duas primeiras do atual, além das biografias e trabalhos já mencionados, consultar ainda P. Pascal Lacroix (1936); Revista Seminário Imaculada Conceição, 25 anos, São Leopoldo, 1938; Belém, Rambo, Fernandes e Becker, (1956, p. 1-46); Pe. Frederico Laufer S. J., "A Igreja Católica de 1912 a 1957", In: Enciclopédia Rio-Grandense, "As religiões no Rio Grande do Sul", Canoas, Editora Regional, 4° vol., 1957, p. 9-128; Mons. José Quinderé, "História eclesiástica do Ceará", In: Anuário do Ceará. p. 83-97; Lutterbeck (1977, especialmente os caps. 10 e 11, "A obra dos seminários" e a "A obra dos colégios", p. 83-109); Livro de notas do Monsenhor João Soares do Amaral, relativos ao Seminário Episcopal e outros assumptos, 1889-1898, Arquivo da Cúria Arquidiocesana de São Paulo, referência 1-3-2.

 

2 - As obras já citadas de Ralph Della Cava (1976) e Carlos Albino Zagonel (1975) contém relatos circunstanciados a respeito de graves crises de autoridade ocorridas, respectivamente, nos seminários reformados de Fortaleza e Porto Alegre. ambas motivadas pelas resistências que suscitaram as orientações impostas pelos padres estrangeiros recém-chegados e pelas interferências do diocesano local.

 

3 - Ver, especialmente, Foulquier ( 1940); Rizzardo (1975); Miranda (1976); A Província... ( 1922); Nembro (1957); Lutterbeçk (1977); Marcigaglia (1958); V. J.. M. J. (1917).

 

4 - Consultar José Ferreira Carrato t 1963 i, Boni t 1980, p. 234-55), trabalho que inclui uma listagem exaustiva dos empreendimentos escolares católicos, masculinos e femininos, no Rio Grande do Sul.

 

5 - O trecho citado foi extraído do texto -As minhas peregrinações (um punhado de correspondências traduzindo impressões de viagem)" que o seu autor, o padre português Moysés Nora, depois prior da freguesia de Porto Ferreira em São Paulo, oferece ao "Ermo. e Revmo. Snr. Cônego Mr. Manoel Vicente da Silva, ínclito e merecidamente Vigário Capitular de São Paulo". Ver Moysés Nora, Recordações da minha Pátria, "Obra ilustrada com o retrato do auctor e autobiografia do mesmo pelo esperançoso escritor Carvalho Neves". São Paulo, 1903. "Peregrinação a Roma (1900)", p. 128.

 

 

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