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Politizar o quê?
Caros colegas,
Nós, da Diretoria Executiva da ANPOCS, agradecemos o apoio e as sugestões dos programas de pós-graduação e dos grupos de pesquisa para a consecução do 33º Encontro Anual. Agradecemos também – dispensado o seu tom – a crítica que tem circulado na internet sob a forma de um abaixo-assinado, intitulado 33º ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS 2009: EMBAIXADA NORTE-AMERICANA E RECURSOS PÚBLICOS, porque nos confere a chance de esclarecer a pauta que tem orientado as ações da atual diretoria e de ampliar o debate sobre nossa entidade.
Os alvos do abaixo-assinado são: (1) a divulgação do prêmio acadêmico
F. D. Roosevelt pela representante do setor cultural da Embaixada dos
EUA na solenidade de abertura do Encontro; e (2) a exigência de taxas
de inscrição a serem pagas pelos participantes do evento. Note-se que o
“repúdio” dos signatários do documento dirige-se a aspectos da
organização do 33º Encontro que não contêm nenhuma novidade em relação
aos de anos anteriores. Pode-se pretender que em edições passadas os
patrocinadores não estivessem tão visíveis ou o controle sobre as taxas
de inscrição, tão efetivos. Mas patrocinadores e regras de acesso às
atividades do Encontro têm estado presentes há algum tempo.
É claro que podemos mudar tais práticas. Contudo, antes de fazê-lo,
deveríamos atentar para algumas das características recentes da ANPOCS,
fruto de decisões políticas que se acumulam desde o final da década de
1990.
1. A primeira delas diz respeito à CONSOLIDAÇÃO E DEMOCRATIZAÇÃO DA ANPOCS,
manifesta no crescimento do número de instituições associadas e de
participantes em seus encontros anuais. São cerca de duas mil pessoas
as que acorrem anualmente a Caxambu desde 2007, e 800 trabalhos, em
média, apresentados a cada encontro. Nesse 33º Encontro, 48% dos
autores participaram pela primeira vez da reunião, o que atesta a
atração que a ANPOCS exerce também junto aos jovens praticantes das
ciências sociais.
Tal dinâmica vitoriosa, contudo, exige um montante de recursos maior do
que a receita gerada pelo pagamento das anuidades dos associados. Há
elevados custos, como se imagina, na organização de um encontro com
essas dimensões, na produção e circulação das duas publicações
regulares da ANPOCS – a RBCS e a BIB –, na alimentação e
aperfeiçoamento permanentes do nosso site, na pesquisa e preservação de
itens da nossa memória institucional, assim como na elaboração de
projetos para captação de recursos públicos e privados que possam
favorecer o equilíbrio financeiro da nossa entidade. EM
SUMA, A AMPLIAÇÃO DA ANPOCS IMPLICA O APROFUNDAMENTO DA SUA
INSTITUCIONALIDADE, CAPACIDADE DE ORGANIZAÇÃO E DE COMUNICAÇÃO INTERNA
E EXTERNA. O que significa que os custos do Encontro – por si só,
elevadíssimos – não são e não voltarão a ser nossa única despesa, se é
que desejamos manter, com a mesma amplitude, o que temos conquistado.
2. É também digno de observação o esforço crescentemente despendido pela ANPOCS no sentido de TORNAR PÚBLICO O CONHECIMENTO PRODUZIDO E DISCUTIDO EM SEU ÂMBITO
– em parte para se legitimar como movimento associativo de
intelectuais-cientistas, mas, principalmente, por se reconhecer um ator
influente, dentre outros, no processo de democratização da vida
brasileira.
Foi com esse espírito que elaboramos o projeto INOVA ANPOCS,
apresentado à FINEP no começo de 2009, que aportará à nossa entidade o
total de 680 mil reais, nos próximos dois anos. Tais recursos se
destinam, prioritariamente, à construção de um portal interativo das
ciências sociais brasileiras, potencializando nossas comunicações
intra, inter e extra-universitárias. Enfim, com essa ferramenta
poderemos consolidar nacionalmente nosso associativismo, universalizar,
no limite, o acesso às sessões dos nossos encontros anuais – se
conseguirmos viabilizar todos os recursos técnicos para a transmissão
ao vivo pela internet –, potencializar nossa participação na definição
de políticas públicas de C&T, e animarmos, se for esse o nosso impulso, o debate público brasileiro.
3. Por fim, para continuar tratando das grandes vias em que, mais
recentemente, se move a ANPOCS, há dois movimentos registráveis. O
primeiro diz respeito à APROXIMAÇÃO
DO DEBATE UNIVERSITÁRIO, E ESPECIFICAMENTE PÓS-GRADUADO, AOS TEMAS E
CONTROVÉRSIAS RELATIVOS À QUESTÃO EDUCACIONAL BRASILEIRA EM TODOS OS
NÍVEIS. A introdução das ciências sociais na grade curricular do
ensino médio abriu uma agenda de aproximação entre as diferentes
expressões do associativismo de cientistas sociais – ANPOCS, SBS, ABA,
ABCP e SBPC –, favorecendo uma cooperação reflexiva, institucional e
política que potencializa nossa inscrição em debate tão sensível e
estratégico à democracia e à cidadania brasileiras.
O segundo movimento, ligado, de algum modo, ao anterior, refere-se à DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA DA ÁREA DAS HUMANIDADES,
que ainda se mostra bastante insuficiente, tanto do ponto de vista da
discussão sobre o tema, quanto das iniciativas práticas orientadas por
essa perspectiva. Com base nesse diagnóstico, apresentamos ao
Instituto Ciência Hoje projeto intitulado HORIZONTES DAS CIÊNCIAS SOCIAIS, que permitirá a elaboração de coletânea de textos com essa destinação.
Se nos detivemos na apresentação dessa pauta é porque gostaríamos de
evitar, sobretudo com os colegas que fizeram o abaixo-assinado, uma
altercação estéril que apequene o que está em jogo. Poderíamos
restringir nossa resposta aos dois pontos içados por nossos críticos.
Mas acreditamos que a ANPOCS merece mais: não percamos o horizonte
amplo e o sentido profundo da missão dos cientistas sociais nessa
quadra histórica.
Há que reafirmar, como estamos reafirmando, as tradições fundadoras da
ANPOCS – o pluralismo, o compromisso com a democracia, a inscrição dos
cientistas sociais brasileiros no debate global –, dando curso ao
aperfeiçoamento institucional que, desde o final da década de 1990, tem
garantido a democratização da nossa entidade. A inovação proposta pela
atual diretoria é mais um passo nessa trilha, pois o projeto de
estruturação institucional da ANPOCS com recursos da FINEP prepara as
condições futuras de exercício do nosso associativismo. E o fazemos sem
qualquer temor de que esse ou outro patrocinador público ou privado,
nacional ou estrangeiro, possa diminuir nossa autonomia e restringir a
liberdade de pensamento e ação que caracteriza a ANPOCS. Afinal, quem
tem uma agenda e mecanismos institucionais que a avaliem e controlem
sua operacionalização, está em sintonia com os desafios do jogo
democrático.
Em suma, não pretendemos nos furtar às divergências que essas escolhas
suscitam no conjunto de nossos associados. Entretanto, todas as
alternativas podem e devem ter um campo compartilhado no qual ganhem
sentido. Para nós, esse campo compreende os grandes desafios da ciência
social contemporânea, em especial o papel da universidade, da
pós-graduação e das ciências sociais na vida brasileira, a natureza do
associativismo de intelectuais-cientistas, a nossa participação na
formulação de políticas públicas de ciência e a democratização do
conhecimento social. Para todos esses temas estamos abertos ao debate.
Saudações fraternas,
Maria Alice Rezende de Carvalho, Cicero Araujo e Julio Simões.
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