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Momento de profunda reflexão
O momento que o Brasil vive é especial e exige das ciências sociais uma profunda reflexão para atender a convocação que vem sendo feita para elaboração de uma Política Científica e Tecnológica para o País, afirmou Maria Alice Rezende de Carvalho, presidente da ANPOCS. Essa reflexão deverá culminar em um grande simpósio, a ser realizado em 2010, quando serão discutidas as três ciências da área: antropologia, sociologia e ciências sociais.
A presidente da ANPOCS participou da mesa-redonda sobre Política Científica das Ciências Sociais, no fim da tarde, durante o 33 º Encontro Anual.
O tema é um desafio para os cientistas sociais, que não têm sido contemplados na elaboração de políticas. Ela disse que, cada vez mais, há pesquisadores e estudantes propondo esse debate.
Para Gilberto Velho, do Museu Nacional e UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), é indiscutível que nos últimos 40 anos, as ciências e, em especial, as ciências sociais, avançaram apesar dos momentos difíceis. Ele lembrou das ameaças, perseguições, torturas e demissões de cientistas sociais na época do regime militar, quando as ciências sociais eram vistas como subversivas. Mas, ele destacou também que foi criada durante o regime arbitrário a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos). Nesse período, tiveram papel de destaque a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), que abriu espaço para grandes debates, e foram criadas várias associações da área de ciências sociais.
Com o fim do regime militar, ele apontou a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia e depois o da Cultura como avanços. Segundo ele, cada vez mais cientistas estão ocupando cargos nos aparelhos do Estado, muitos deles querendo impor seis padrões. Daí a necessidade da reflexão e participação da comunidade científica.
Os três organismos de apoio às ciências e pesquisas – CNPq, Finep e Capes – não se movem na mesma direção e “muitas vezes têm padrões das ciências exatas e naturais”, disse. Ele destacou que é a favor de um controle do Estado sobre os recursos destinados às pesquisas, porque “a área científica parecia um pouco a casa da mãe Joana”. Mas, atualmente, há um exagero nas exigências ao pesquisador, que precisa fazer constantes relatórios, responder questionários e outras burocracias, o que compromete o trabalho intelectual. “Há uma burocratização esmagadora. O sistema não opera a favor da ciência e, particularmente, das ciências sociais”, afirmou.
Maria Arminda do Nascimento Arruda, da USP (Universidade de São Paulo) e ex-presidente da ANPOCS, destacou que os desafios para as ciências sociais são uma via de mão dupla, envolvendo a relação das “nossas disciplinas” com as agendas públicas e da própria ANPOCS com a comunidade científica. “Há um envolvimento tanto externo como interno”, destacou.
Ela afirmou ainda que a comunidade de ciências sociais está apontando para o tratamento de novos problemas como o desenvolvimento, tecnologia, inovação e ecologia. Mas, ao mesmo tempo, revisita velhos temas, mas com novos enfoques. Uma das explicações para isto é a crise do capitalismo, um bom momento para se articular políticas de governo. Ela lembrou que, embora o governo Lula tenha mantido a política macroeconômica, ampliou a política social e alargou o raio de ações dos fundos de pensão. “O papel maior do Estado pressupõe retomar a agenda do desenvolvimento, pelo menos para manter as condições de financiamento.”
Já Renato Lessa, do IUPERJ (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), afirmou que depois do processo de democratização houve uma mudança da participação dos cientistas e hoje é necessário saber o lugar da ciência na configuração da sociedade. Segundo ele, a política científica atualmente faz parte da economia e das relações exteriores. No entanto, Lessa alertou que na agenda do governo política científica está a inovação, que se traduz como “artefatos com valor de mercado”.
Há necessidade, de acordo com Lessa, de uma reflexão crítica dos cientistas sociais para participar da elaboração de uma política científica e tecnológica, embora “a convocação seja legítima, de um governo legítimo”.
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