GT10:
Migrações internacionais
RESUMOS DOS GRUPOS
Assis, Glaucia de Oliveira (UDESC)
De Criciúma para o mundo: os novos fluxos da população brasileira e os re-arranjos familiares e de gênero
A recente emigração de brasileiros para o exterior inseriu o Brasil nos novos fluxos da população mundial. Uma das características destes fluxos é o crescimento da participação feminina. Esta maior visibilidade da inserção das mulheres vem questionando as análises que colocavam as mulheres como aquelas que ficam à espera de seus namorados, maridos e filhos nas migrações de longa distância, estabelecendo representações sobre o lugar das mesmas no processo migratório. Pesquisas recentes têm demonstrado a importância das mulheres nos fluxos migratórios contemporâneos como articuladoras de redes sociais na migração. Estas redes familiares e de parentesco são fundamentais tanto para aqueles que pretendem empreender a ‘aventura’ de migrar quanto para auxiliar nos momentos da chegada no local de destino. O objetivo da comunicação é demonstrar que a migração não é resultado apenas de uma escolha racional, mas de estratégias familiares nas quais homens e mulheres estão inseridos, contribuindo para re-arranjos das relações familiares e de gênero. Desta forma pretende-se demonstrar, com base numa discussão teórica e em dados de pesquisa de campo realizada em Criciúma (SC) e na região de Boston (USA), que as mulheres não apenas esperam por seus maridos ou filhos, mas participam efetivamente do processo integrando e articulando as redes de migração.
Bahia, Joana (UERJ)
Disputando a autoridade na casa camponesa. Uma análise do rito de casamento entre os pomeranos do estado do Espírito Santo
A comunicação trata dos preparativos e das várias etapas que compreendem a organização do rito de casamento entre os camponeses de origem pomerana do município de Santa Maria de Jetibá. Analiso a linguagem, os gestos e os aspectos mágicos que configuram um dos momentos de maior importância na reprodução social do grupo. As falas rituais, as danças e as brincadeiras, mais do que afirmar a importância do casamento como momento da reprodução dos pomeranos, apresentam os conflitos existentes entre homens e mulheres e seus respectivos papeis sociais para a manutenção da ordem camponesa e da identidade étnica.
Kosminsky, Ethel (UNESP/Marília)
Questões de gênero em estudos comparativos de imigração: homens e mulheres judeus em São Paulo e Nova York
Através do estudo comparativo de imigração judaica focalizando as relações de gênero e, tendo como base as memórias da segunda geração a respeito da geração imigrante, ou seja, histórias de imigrantes contadas por homens e mulheres, residentes em São Paulo e em Nova York, foi possível o entendimento das experiências de vida e dos papéis sociais desempenhados por homens e mulheres imigrantes na família, no trabalho, na vizinhança, em associações e redes étnicas e em agrupamentos políticos. Além disso, a análise do material permitiu apreender os processos de negociação e de aliança baseados no gênero, que influenciaram os padrões de adaptação das famílias e das comunidades étnicas nas duas sociedades.
Meyrer, Marlise Regina (UNISINOS)
Evangelisches stift: uma escola para moças das melhores famílias
A Evangelisches Stift, uma escola feminina, evangélica, fundada em 1895 na localidade de Hamburger Berg, zona de colonização alemã do Rio Grande do sul, é nosso objeto de estudo. Sua análise objetiva demonstra que ela foi uma instituição destinada a produzir e reproduzir valores e comportamentos burgueses junto a uma parcela da sociedade teuto sul-riograndense no período de 1895 à 1927. Fundamentando a argumentação na categoria de análise ‘espaço social’ de Bourdieu (1989), a Evangelisches Stift é entendida como uma escola onde propriedades étnicas, religiosas e de gênero, presentes na instituição, estiveram subordinadas à outra, relativa a fatores socioeconômicos. Inserida no contexto educacional brasileiro e sul-riograndense, focalizamos a escola como uma instituição da Igreja Evangélica Alemã voltada para um público específico: ‘as moças das melhores famílias’. Por fim, analisa-se a formação que estas moças receberam na Evangelisches Stift.
Seyferth, Giralda (UFRJ)
A imigração no Brasil. Comentários sobre a contribuição das Ciências Sociais
Pesquisadores de diferentes campos do conhecimento estudaram a imigração no Brasil a partir da segunda metade do século XIX, quando as estatísticas de entradas de estrangeiros no país tornaram-se significativas no computo geral da população. A imigração, por suas múltiplas facetas, é um tema interdisciplinar – difícil, portanto, dar conta da sua totalidade. A comunicação focaliza, parcialmente, a contribuição das Ciências Sociais – em particular da Antropologia – aos estudos imigratórios no Brasil, e examina o embasamento teórico, os métodos de análise e as temáticas recorrentes desde as primeiras publicações de caráter sociológico surgidas no século passado, até trabalhos mais recentes selecionados na ampla produção sobre migrações internacionais publicada nos últimos vinte anos.
Sales, Teresa (UNICAMP)
Panorama do Brasil emigrante: balanço da bibliografia
Esta comunicação sobre os novos migrantes internacionais do Brasil constitui-se num esforço de apresentar um quadro da produção bibliográfica sobre esse movimento migratório nas duas últimas décadas. Um balanço dessa produção evidencia o crescimento significativo da mesma, sobretudo a partir da metade dos anos 1990. No universo pesquisado encontramos um volume maior da produção referente ao fluxo de brasileiros nos Estados Unidos, Japão e Paraguai. A bibliografia sobre emigrantes brasileiros na Europa enfoca os contingentes de trabalhadores migrantes em países como Portugal, Itália, Suíça e Alemanha, apresentando diferentes situações enfrentadas pelos mesmos. A bibliografia mostra dados sociodemográficos, políticos, econômicos e etnográficos, abordando diferentes temas como identidade, cidadania, etnicidade, trabalhador migrante, redes sociais, transnacionalismo, comunidade, campesinato, questão agrária, fronteiras. À medida que os contingentes de brasileiros são analisados, as questões ampliam-se. O balanço da bibliografia revela que, apesar do crescimento quantitativo e qualitativo da produção, ainda permanecem em aberto questões relevantes, como quem são, quantos são, como vivem a experiência migratória, apontando para a importância da continuidade de pesquisas em torno do tema.
Yokoyama, Lia Cazumi (USP)
A conversão ao catolicismo: os imigrantes japoneses e seus descendentes em São Paulo (1908-1941)
Quando pensamos em conversão religiosa, a imagem de personagens como Santo Agostinho aparecem como axiomas. Assim sendo, os japoneses dificilmente são tomados como referência para uma discussão sobre o tema, pois são todos ‘muito sincréticos’ ou ‘não têm religião’. Nossa pesquisa propõe uma análise das primeiras conversões dos imigrantes japoneses e de seus descendentes na São Paulo do início do século XX. Levantando uma série de características culturais peculiares a esse grupo no contexto que delimitamos, nota-se que o trabalho organizado da Igreja Católica teve uma forte ressonância. Mais do que o mero apadrinhamento, razão apontada por vários pesquisadores como sendo marcante, se pode apontar algumas mudanças reais em muito propiciadas pela postura dos imigrantes que optaram pela cidade ao invés de dirigirem-se para o trabalho nas fazendas. Para esses japoneses, a conversão ao catolicismo teve um papel fundamental para o seu assentamento em ‘terras católicas’ e na aceitação da sua presença pelos paulistanos.
Topel, Marta F. (USP)
Do fundamentalismo light: reflexões sobre o movimento de teshuvá em São Paulo
A expressão religiosa no Brasil de hoje levou a que muitos estudiosos do tema definam os novos movimentos religiosos como essencialmente sincréticos, destradicionalistas, relativistas, híbridos ou difusos, com um forte componente antiinstitucional e antiautoritário (Sanchis, 1997; Moreira & Zicman, 1994; Brandão, 1994, p.35). Esta compreensão da religiosidade contemporânea brasileira, para ser representativa e explicativa do que acontece no campo religioso do Brasil, deveria servir como instrumento para compreender todos e quaisquer movimentos religiosos que nesse espaço se criam e recriam, como o movimento de teshuvá que, a partir da década de 90, decuplicou o número de adeptos, transformando-se num dos corpos mais representativos do judaísmo e da judeidade do País. Todavia, as categorias analíticas supracitadas não nos ajudam para o caso em questão, uma vez que o movimento de teshuvá, se apresenta como uma estrutura totalizante e totalizadora, autoritária, particularista, tradicionalista, altamente institucionalizada, compreensiva, exclusivista e ortodoxa. Neste trabalho, a minha proposta visa abordar o movimento de teshuvá paulistano a partir de uma dupla perspectiva: (1) a marca imprimida nele pelas sociedade e cultura brasileiras, fenômeno que permitiria esboçar a hipótese de uma brasileirização da ortodoxia judaica; e (2) a relação do movimento de teshuvá paulistano com outros fundamentalismos judaicos, sobretudo os desenvolvidos em Israel e nos Estados Unidos. Nota: teshuvá (hebraico): resposta, caminho; expressão que designa o processo pelo qual os judeus laicos ou liberais abraçam a ortodoxia, transformando-se em ‘novos ortodoxos’.
Abbud, Carlos Eduardo (USP)
Evangélico budista ou budista evangélico? Religiosidade em três gerações nikkeis
A pesquisa foi realizada mediante entrevistas semi-abertas com três gerações de membros da Assembléia de Deus Nikkei do Parque Dom Pedro II. As respostas foram agrupadas em três temas: pertinência religiosa, relação entre pentecostalismo e outras denominações religiosas, relação entre pentecostalismo e outras denominações religiosas segundo o ponto de vista do entrevistado. Os resultados foram: a 1.ª geração (issei ou nissei) se define como budista/xintoísta conversa ao cristianismo, relata que os pastores de sua época de apostasia declaravam a pertinência a outras fés um pecado, vê a relação entre pentecostalismo e outras religiões como impossível; a 2.ª geração (nissei ou sansei) se declara ‘crente’ ou evangélica, diz que os líderes religiosos opinam pela impossibilidade de relação entre cristianismo e outras crenças, acha que cristianismo e budismo podem conviver num mesmo indivíduo; a 3.ª geração (sansei ou yonsei) se define como evangélica ou crente porém aberta ao pensamento budista/xintoísta, relata a existência de muitos pregadores de sua geração que também encaram a relação entre as diferentes fés como possível, crê que cristianismo complementa o budismo e vice-versa. Nesta derradeira geração, o número de seguidores de seitas sincréticas como a seicho-no-iê ascende a 35%, e 42% declaram abertamente recitar o sutra do lótus e praticar meditação diariamente. Conclui-se, pois, que os valores da fusão entre budismo e xintoísmo, seguido por mais de 90% do povo japonês, permanecem presentes nas três gerações de nikkeis, fusão encarada como complemento e não oposição pela mais jovem, possivelmente pela existência de pastores com mentalidade mais permeável ao diálogo interconfessional do que os pastores pioneiros, ainda muito próximos ao fanatismo protestante trazido pelos primeiros missionários americanos no início do século XX.
Souza, Wlaumir Doniseti de (UNESP/Araraquara)
Imigração italiana e conversão dos costumes. A igreja migrante e seus próceres
A Igreja Católica no final do século XIX elaborou um projeto de pastoral do imigrante italiano como meio de garantir a manutenção do catolicismo. Além deste, outros projetos foram desenvolvidos, como o Alemão. Momento especial, a implantação da fé segundo os moldes oficiais, a principal preocupação foi instrumentalizar a manutenção da fé do imigrante como meio de converter os costumes dos povos que recebiam os migrantes europeus. Compreender este projeto e suas implicações e incompletudes do ponto de vista da autocompreensão é o objetivo da comunicação.