XXVI ENCONTRO ANUAL
22 a 26 de outubro de 2003, Caxambu, MG


GT09: Mídia e política: opinião pública e eleições

RESUMOS DOS GRUPOS

1ªsessão:

Kinzo, Maria D’Alva Gil (USP)

Os partidos no eleitorado: percepções políticas e laços partidários do eleitorado paulista

A exposição examina o impacto da política partidária sobre o eleitorado brasileiro. Um indicativo importante da consolidação do sistema partidário é a criação de imagens e vínculos partidários junto aos eleitores. Na medida em que o sistema partidário tenda a se estabilizar, supõe-se que os eleitores passem a fixar os perfis dos partidos e a criar identificações partidárias. Isto significa que os altos níveis iniciais de volatilidade eleitoral decresceriam ao longo do tempo, se os partidos políticos se consolidassem enquanto instituições. Acima de tudo, isto supõe que os partidos principais tenham construído suas identidades, diferenciando-se enquanto opções políticas, servindo assim como ‘atalho’ na obtenção de informação sobre as diversas candidaturas e na decisão do voto. A preocupação principal desta análise é verificar em que medida este processo de conhecimento e de construção de identidades partidárias tem ocorrido no Brasil, tomando como base empírica um survey realizado na área metropolitana de São Paulo no período pré-eleitoral de 2002.





Carreirão, Yan de Souza (UFSC)

As eleições presidenciais de 2002

O trabalho inicia por uma narrativa histórica dos acontecimentos mais importantes para a compreensão do processo e dos resultados eleitorais, o que inclui ações do governo FHC e as estratégias de campanha dos candidatos. Do ponto de vista empírico, são analisados: (1) dados de uma pesquisa nacional realizada pelo Datafolha a um mês da eleição; (2) um conjunto de cruzamentos entre variáveis, relativos a diversas pesquisas nacionais realizadas ao longo da campanha; (3) algumas respostas a perguntas sobre motivação de voto disponíveis em sites de institutos de pesquisa ou jornais; (4) dados de um survey acadêmico realizado em municípios da Grande São Paulo. A partir das três primeiras fontes acima, além da análise dos principais eventos da campanha, é feita uma interpretação sobre as motivações do eleitorado e o resultado da eleição presidencial. Os dados do survey da Grande São Paulo são usados para um modelo que testa o peso de diversas variáveis na decisão de voto do eleitor.





Meneguello, Rachel (UNICAMP)

Bases do comportamento político, sistema partidário e o mapa democrático no estado de São Paulo

Este trabalho apresenta alguns dos principais resultados do Eseb (Estudo Eleitoral Brasileiro), pesquisa pós-eleitoral realizada com base nas eleições de 2002, aplicada em âmbito nacional. Com apoio da Capes e da Fapesp, e produzida por um trabalho conjunto entre o Cesop/Unicamp e FGV-Opinião, esta pesquisa teve desenho acadêmico e buscou seguir as bases dos estudos de cultura política e comportamento eleitoral desenvolvidos no decorrer das décadas de 80 e 90. Neste trabalho, as pesquisadoras abordam especificamente as tendências e características que traduzem na cultura política e na organização partidária paulistas o impacto dos processos políticos observados ao nível nacional. Além de apresentar um cenário geral sobre as tendências de comportamento e preferências observadas no período recente, este trabalho aborda dois amplos temas que se referem à dimensão democrática e da dinâmica política-eleitoral, a saber: (1) o mapa de valores e preferências democráticos e suas bases sociais; e (2) as características da ‘política do interior’ e da ‘política da metrópole’, com base no estudo do impacto da matriz regional na formação de preferências e atitudes, bem como das bases do subsistema partidário paulista.





Carvalho, Rejane Vasconcelos Accioly (UFC, ANPOCS)

Eleições 2002: o retorno da competitividade na disputa ao governo do Ceará

De 1986 a 1998 as campanhas ao governo estadual do Ceará confirmaram a hegemonia da imagem marca do tassismo em disputas eleitorais não-competitivas. A campanha de 2002, no entanto, emitia claros sinais de retomada do padrão de competividade à política cearense. O mais significativo deles era exatamente a ‘rebeldia dos anjos’ no interior nas hostes celestiais: dois dos candidatos de oposição, o deputado estadual Wellington Landin e o senador Sérgio Machado eram ex-integrantes (arcanjos graduados) do grupo de Tasso. Ou seja, as deserções políticas tendem a acontecer quando pairam dúvidas sobre a invulnerabilidade da nave mãe. Um segundo sinal de novos tempos: filho de um antigo chefe político do PSD, Waldemar Alcântara, ex-prefeito biônico de Fortaleza na década de 70, o candidato do PSDB, Lúcio Alcântara, embora apoiado por Tasso, decididamente não tinha a sua ‘marca’. A dessemelhança funcionava como a virtude que permitia que o desfecho da ‘era Tasso’ aparecesse como escrito e decidido pelo próprio autor, e não à sua revelia. Finalmente um outro e não menos importante sinal que não foi adequadamente traduzido por quem dele mais se beneficiaria (a esquerda local): a competitividade da sucessão presidencial contaminaria a disputa estadual. A análise da campanha ao governo do Ceará em 2002 desenvolvida na comunicação orienta-se para a compreensão de algumas peculiaridades dos processos de recomposição da competitividade eleitoral após um longo ciclo de fidelização a uma marca política justificando a nomeação ‘Era Tasso’. Entre os aspectos priorizados na análise destacam-se: (1) o contexto e o quadro sucessório estadual: enredos possíveis e impossíveis para os personagens da ‘situação’ e da ‘oposição’; (2) capital simbólico acionado pelos candidatos como parte das estratégias de comunicação com os eleitores nos programas eleitorais do horário eleitoral na TV; c) evolução do desempenho dos candidatos ao longo da campanha, de modo a caracterizar ganhos ou perdas de competitividade, a fim de identificar – no próprio âmbito do jogo político estadual e seus cruzamentos com os lances da campanha presidencial – explicações possíveis para mudanças de posições na corrida eleitoral; d) discussão sobre o significado dos resultados eleitorais de 2002 no redesenho do cenário político estadual com reflexos possíveis na campanhas municipais de 2004. O candidato do PSDB, Lúcio Alcântara, embora apoiado por Tasso decididamente não tinha a sua ‘marca’.





2ªsessão:

Rubim, Antonio Albino (UFBA)

Os estudos sobre mídia e eleições no Brasil: 1979-2002

A comunicação revisa a literatura publicada sobre mídia e eleições no Brasil a partir do restabelecimento do pluripartidarismo em 1979, com ênfase especial nas eleições presidenciais (1989, 1994, 1998 e 2002). O balanço bibliográfico investiga: a trajetória dos estudos realizados; os momentos deste itinerário; os autores presentes; os locais institucionais de pesquisa; os tipos de investigação realizados; os temas tratados; as teorias e categorias acionadas; os enfoques escolhidos; os resultados produzidos etc. Em síntese, opera-se um balanço crítico dos estudos existentes sobre a temática inscrita no campo da cultura, mídia e política no Brasil.





Silveira, Flávio Eduardo (PUC-RS)

Notas para uma teoria do jogo político

A comunicação examina as características do jogo político, tendo em vista a perspectiva de contribuir para o debate teórico sobre o assunto. Analisa princípios que regem a ação política, considerando, de um lado, as motivações subjetivas dos atores e, por outro, as demandas e limitações do jogo. Os dilemas do ator político são estudados tendo por foco as relações entre uma razão privada e uma razão pública, entre uma lógica pragmática voltada à eficiência e uma lógica orientada por valores e referenciais éticos e morais socialmente aceitos.





Figueiredo, Marcus (IUPERJ)

Como medir o efeito do horário eleitoral

Há uma enorme controvérsia sobre o efeito da propaganda política e eleitoral na produção dos resultados eleitorais. Recentemente Thomas M. Holbrook perguntou Do Campaigns Matter? A questão de fundo nesta pergunta dirige nossa atenção para a pergunta mais genérica: se, quando, como e porque a propaganda política e eleitoral altera ou não a vontade eleitoral pré-determinada por contextos e processos históricos mais profundos do que os ditados pelos debates eleitorais entre partidos e candidatos. Este trabalho toma estas perguntas como roteiro de investigação com o objetivo de identificar: (1) as condições históricas que inibem ou exarcebam o efeito da propaganda, consolidando ou alterando vontades eleitorais pré-estabelecidas; (2) como medir empiricamente o efeito da propaganda política e eleitoral sobre a vontade eleitoral final, na direção da manutenção ou da alteração da vontade eleitoral inicial. Após uma revisão da bibliografia brasileira, testes empíricos sobre os processos eleitorais brasileiro serão feitos.





Chaia, Vera (PUC-SP)

Rádio e eleições 2002 no estado de São Paulo

O presente trabalho tem como objetivo analisar a relação existente entre o rádio e o processo eleitoral, acompanhando as eleições estaduais de São Paulo no ano de 2002, e o modo como as informações a respeito deste período chegam aos ouvintes/eleitores. Para isso estudamos as emissões em AM das rádios Eldorado, Jovem Pan, Bandeirantes e CBN durante os meses eleitorais (de Julho a Outubro). Foi realizado um recorte para coleta de dados: 15 fitas, todas transcritas, que privilegiou os jornais matutinos de terça e quinta-feira, pois repercutiam os programas eleitorais dos candidatos ao governo do estado – realizados nas segundas e quartas-feiras à noite –, e também por ser o período da manhã o horário nobre do rádio. O rádio, assim como outro meio de comunicação, desempenha um papel social por ser responsável pela divulgação de informações a partir das quais decisões políticas poderão ser tomadas. Portanto esperamos, através desta pesquisa, ampliar a discussão sobre a importância da mídia no processo eleitoral, em especial o rádio, que continua sendo um veículo popular de grande alcance.



Porto, Mauro Pereira (UnB)

A televisão e as eleições presidenciais de 2002: o papel do Horário Eleitoral e do Jornal Nacional na decisão do voto

O trabalho apresenta os resultados das análises de conteúdo da cobertura da campanha eleitoral pelo Jornal Nacional e dos programas dos candidatos no Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) no primeiro e no segundo turno das eleições presidenciais de 2002. A partir do conceito de ‘enquadramento’ (framing) e do modelo das controvérsias interpretativas, a pesquisa compara a agenda da cobertura noticiosa com a agenda promovida pelos candidatos em seus programas. São identificados no HGPE os temas e enquadramentos que predominaram na cobertura do principal telejornal do país. As relações entre os dois espaços de interpretação da realidade política são discutidas. As conclusões analisam o impacto destes espaços da programação televisiva no processo da decisão do voto a partir da análise dos resultados de um survey pré-eleitoral (Eseb).





3ªsessão:

Reis, Andrea (PUC-SP)

A dança dos números: o impacto das pesquisas eleitorais nas estratégias de comunicação do HGPE na eleição de 2000 em São Paulo

Orientados pelo marketing e pelas pesquisas eleitorais, os candidatos a cargos executivos passaram a se preocupar com os aspectos visuais de suas apresentações e campanhas. A propaganda eleitoral teve que se adaptar à linguagem e às condições das telecomunicações modernas, e as pesquisas eleitorais adquiriram um importante papel e são consideradas mecanismos para orientar e elaborar as estratégias, fazer uma estruturação dos discursos e formar a opinião pública, uma vez que seus resultados são utilizados nas estratégias de marketing eleitoral. Além disso, a posição ocupada pelo candidato em uma pesquisa traz várias conseqüências para sua campanha. O objetivo da comunicação é verificar como as pesquisas eleitorais influenciaram as estratégias de comunicação do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE), durante a campanha eleitoral de 2000 à Prefeitura de São Paulo. Estudou-se especificamente o HGPE dos candidatos Marta Suplicy (PT), Paulo Maluf (PPB), Geraldo Alckmin (PSDB), Romeu Tuma (PFL) e Luiza Erundina (PSB), bem como todas as pesquisas eleitorais realizadas pelo Instituto Datafolha durante o 1º turno. Utilizando a metodologia qualitativa, o estudo procurou reproduzir as propagandas eleitorais dos candidatos neste período, transcrevendo seus programas e confrontando com suas intenções de votos por segmentos das pesquisas eleitorais. Verificaram-se várias utilizações dos resultados dessas pesquisas pelos candidatos: para divulgação nas peças sobre os resultados das pesquisas eleitorais para legitimar seu desempenho na disputa; para o redirecionamento de suas estratégias de comunicação no HGPE; e para provocar e/ou evitar suas influências indiretas sob suas campanhas.





Pires, Teresinha Maria de Carvalho C. (PUC-MG)

Mídia, visibilidade e argumentações públicas

A comunicação apresenta reflexões da tese de doutorado Figurações do real: mídia e política na cena mineira (UFRJ, 2003). Valendo-se ‘dos efeitos de mídia’ produzidos pelo então governador de Minas Gerais, Itamar Franco, no episódio da moratória mineira, é desenvolvido um estudo sobre o processo de instauração de argumentações públicas entre grupos dirigentes. Por um lado, discute-se, dentre outros mecanismos de fomento desse processo, a visibilidade midiática e as estratégias políticas e midiáticas adotadas pelo governo federal e pelas unidades subnacionais tendo como alvo à opinião pública e o mercado externo. Por outro, apoiando-se, sobretudo, na discussão proposta por Habermas sobre deliberação pública e em Noelle-Neumann e seus estudos sobre a espiral do silêncio, é feita uma análise do cerco e isolamento ao governador Itamar Franco promovido pelo governo federal. Esta análise das complexas relações que se estabelecem entre comunicação e política foi elaborada com base no exame de material jornalístico impresso e televisivo, de âmbito local e nacional, e de entrevistas, no período entre janeiro e maio de 1999.





Cervi, Emerson Urizzi (IUPERJ)

Mídia impressa, cenários eleitorais e eleições no Paraná, 2002

A comunicação analisa a cobertura da mídia impressa nas eleições de 2002, centrando-se na disputa pelo governo do Paraná. A partir de dados coletados em três dos principais jornais do Estado (Gazeta do Povo, Estado do Paraná e Folha de Londrina), foram analisadas as matérias que se referem aos candidatos durante o processo eleitoral. O objetivo da comunicação é identificar a diferença entre os padrões de cobertura. O trabalho explora essas variações a partir de um fator exógeno à cobertura jornalística: o envolvimento político-eleitoral dos proprietários dos jornais investigados. Enquanto que, de um lado, o proprietário do Estado do Paraná foi candidato ao Senado e apoiou declaradamente uma das candidaturas ao governo, de outro, os proprietários da Folha do Paraná e da Gazeta do Povo não manifestaram apoio a nenhum candidato ao governo do estado. A investigação inicia-se com a cobertura geral da eleição, levando-se em conta as variações por quinzena, turno e por jornal. Na segunda parte, a análise tem como foco a visibilidade e a valência dos candidatos. A última seção é dedicada à comparação entre a cobertura aos candidatos ao cargo nacional e a cobertura da eleição regional.





Dias, Marcia Ribeiro (PUC-RS)

Imagem partidária nas eleições de 2002: estratégias coletivas no uso do HGPE

O objetivo deste trabalho é identificar quais foram as principais estratégias utilizadas pelos partidos políticos na propaganda política gratuita na televisão durante as eleições de 2002. A idéia consiste em estabelecer parâmetros consistentes que permitam transformar essas estratégias em categorias analíticas e, assim, compará-las tanto no âmbito intrapartidário quanto no interpartidário. No plano intrapartidário, o objetivo é identificar e comparar as distintas estratégias utilizadas por cada partido em distintos contextos: na propaganda relativa aos cargos majoritários (governador, senadores e presidente da República) e proporcionais (deputados estaduais e federais); na propaganda regional (Rio Grande do Sul) e nacional dos partidos. A análise intrapartidária será útil na definição de tendências coletivistas no comportamento de cada um dos partidos, aqui considerados o PT, o PSDB, o PMDB e o PFL. No plano interpartidário, o objetivo é analisar o funcionamento do sistema partidário no que tange à construção da imagem dos partidos políticos no Brasil. Neste texto serão definidos os distintos perfis partidários, visando a construção de uma tipologia de estratégias. Como ponto de partida serão identificados três tipos fundamentais de estratégias. O primeiro relativo à valorização da legenda partidária como elemento de contextualização das candidaturas individuais. Ou seja, visa verificar em que medida os candidatos apontam para um projeto político coletivo, que oriente a ação de todos os membros do partido. O segundo tipo de estratégia aponta para a unificação das candidaturas em torno de uma liderança individual, esta servindo de referência para as ações de todas as demais. Um último tipo de estratégia opera a partir da negação, isto é, identifica a ausência de referência a um projeto coletivo. Este último tipo servirá para classificar estratégias puramente individualistas, embora seja problemático trabalhar com uma categoria puramente individualista em um universo estritamente partidário como é o do HGPE.