XXVI ENCONTRO ANUAL
22 a 26 de outubro de 2002, Caxambu, MG
 

GT10 - Migrações Internacionais

RESUMOS DOS GRUPOS

1ª sessão: Fontes e procedimentos de pesquisa


Seyferth, Giralda UFRJ:


História e homenagem: uma análise prospectiva da produção local sobre imigração e colonização

Existe uma vasta produção de natureza historiográfica, memorialista ou, simplesmente, descritiva, referida à colonização
do sul do Brasil por imigrantes de diversas procedências, que remonta ao séc. XIX, às vezes subestimadas nos meios acadêmicos, em razão do essencialismo laudatório dos textos comemorativos, das excessivas minúcias (biográficas e temporais) sobre "colonos" e "colônias" e das edições circunscritas que só eventualmente ultrapassam as fronteiras
regionais. Esse trabalho procura mostrar a importância dessa literatura - inclusive dos textos comemorativos - apreendida como fonte de conhecimento histórico e etnográfico, que ajuda a desvendar os processos de povoamento/colonização, a
vida cotidiana dos imigrantes e seus descendentes e suas relações, muitas vezes conflituosas, com a sociedade brasileira,
as trajetórias (individuais ou não) de ascensão social, a formação das etnicidades e seus desdobramentos etc.,
independente dos problemas metodológicos e teóricos que suscita.



Bassanezi, Maria Silvia C. Beozzo UNICAMP:


No caminho das pedras em busca do imigrante

Esta comunicação integra-se no "Projeto Brasil Latino - Cátedra A02: Migração, Humanismo Latino e Territorialidade
na Sociedade Paulista 1850/1950)", desenvolvido com o apoio da Fondazione Cassamarca (Itália) junto ao Nepo/
Unicamp. Tem como objetivo discutir com e divulgar entre os estudiosos da imigração o trabalho que vimos realizando,
de modo particular, o que vem sendo conduzido no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Nosso projeto tem como
um de seus objetivos fundamentais percorrer o que convencionamos chamar de o caminho das pedras, ou seja, levantar e sistematizar as fontes existentes sobre a imigração, sobretudo a de origem latina (portuguesa, espanhola, italiana e outras)
em São Paulo, nos diversos acervos paulistas. E, em seguida, elaborar uma referência básica que possa lançar novas
luzes e auxiliar no desenvolvimento de novos olhares sobre o tema da imigração latina para o território paulista.



Favaro, Cleci Eulália (UNISINOS-RS)

Iconografia e linguagens no processo de transmissão e preservação de valores culturais
na região colonial italiana no Rio Grande do Sul

Para Vangelista (1998), fronteira é o lugar geográfico, social, político e ideal em que mais se desenvolvem as conhecidas contraposições entre o "eu" e o "outro", a civilização e a barbárie, o estado e o não-estado; é também o lugar em que, de
forma consciente ou inconsciente, vai sendo construído um outro "nós", gerado por relações não apenas conflitivas, mas de intercâmbio. Ao longo do séc. XIX, o extremo-sul do Brasil foi fortemente marcado pela formação de numerosas
comunidades em que imigrantes e descendentes de imigrantes, considerados estrangeiros em meio aos nacionais, que se
viram na contingência de obter e assegurar espaços de convívio com os "donos da terra". Progressivamente, conseguiram impor a representação positiva do "bom estrangeiro", adaptável e trabalhador. As dificuldades de comunicação lingüística demandaram o recurso a diferentes tipologias de contato interétnico e o espaço da casa foi habilmente utilizado: numerosas inscrições e imagens – bordadas em uma espécie de estandarte disposto nas paredes da cozinha e na sala de visitas – revelavam suas crenças, valores, expectativas, código comunicativo facilmente aceito, dado que, invocando as benesses divinas, valorizavam o trabalho, a disciplina, a sociabilidade. Curiosamente, em muitos daqueles objetos bordados, a cena representada é a do latifúndio; as autoras, mulheres imigrantes.



2ª sessão: memória e gerações de imigrantes

Sales, Teresa (UNICAMP)

Segunda geração de imigrantes brasileiros nos Estados Unidos

O trabalho discute os resultados de uma pesquisa realizada no segundo semestre de 2000 com estudantes de High School nas cidades de Somerville, Medford, Cambridge, Watertown, Framingham e Everett, na região metropolitana de Boston, USA. Aborda a experiência de trabalho dos jovens e adolescentes entrevistados (idade entre 13 e 18 anos), onde fica clara a centralidade do trabalho na vida da maior parte deles. Aborda também a vivência na escola (que, juntamente com o trabalho, divide o cotidiano dos jovens e adolescentes pesquisados), bem como o lazer, a convivência étnica, a realidade familiar e os sonhos de futuro desses jovens.



Jardim, Denise Fagundes (UFRGS)

Migrantes de origem árabe e as recriações de tradição:
um estudo sobre as "famílias árabes" e os casamentos entre primos

Esse trabalho é parte de uma etnografia sobre identidade étnica e os processos de recriação de tradições entre famílias de migrantes de origem árabe residentes no extremo sul do Brasil. Analiso as relações travadas com uma ampla parentela, entre os parentes brasileiros e árabes, através das quais os entrevistados identificam e criam certezas sobre os valores tidos e
vistos como próprios da família árabe. Entre os processos sociais que configuram a identidade étnica, ressalto as intensas relações entre familiares que conduzem ao casamento entre primos. Os casamentos são tomados como um momento privilegiado para a compreensão dos processos de recriação de tradições. Os rituais de casamento expressam e atualizam o uso da identidade étnica, pois tornam pública e põem em circulação noções sobre a tradição, além de atualizar laços entre familiares. Os relatos sobre a escolha do cônjuge evidenciam as relações entre aliados e rivais na família, as relações de força entre irmãos, entre primos, e os conflitos geracionais que perpassaram os processo de adesão aos "casamentos entre primos". Analiso as dinâmicas entre parentes que, do ponto de vista dos entrevistados, contribuíram para configurar uma unidade social sintetizada nas noções de "família árabe".



Zanini, Maria Catarina Chitolina (UFSM)

A família como patrimônio: a ancestralidade construída entre descendentes de imigrantes italianos

Este paper tem por objetivo analisar como está sendo construída, por entre as gerações contemporâneas de descendentes de italianos, a memória familiar e qual a sua importância na reivindicação de uma identidade étnica de ítalo-brasileiro na
cidade de Santa Maria (RS). A família, enquanto instituição mantenedora de um determinado estilo de vida, ainda possui um peso fundamental para o grupo estudado, pois é por meio dela que a origem e determinados valores a ela associados são repassados como legítimos e necessários. Ela está se convertendo num patrimônio, segundo o qual o descendente pode elaborar, acerca de si mesmo, uma trajetória. Nesta trajetória, o passado ancestral dos emigrados italianos, posteriormente imigrantes e colonos italianos no Brasil, é evocado como herança, e a colonização transforma-se em sinônimo de processo civilizador, do qual o descendente sente-se parte integrante. Em suma, o descendente, ao reivindicar uma ancestralidade italiana, assentada na família, pretende que a ele, individualmente, seja agregado valor, seja no mercado de bens simbólicos local, seja no regional e nacional, ou mesmo no transnacional.



Rouchou, Joële (Fundação Casa de Rui Barbosa)

Rio de Janeiro: porto seguro para judeus do Egito

O doutorado que faço na ECA/USP trata da transmissão da memória e da comunicação entre um grupo de judeus expulsos do Egito, logo após a nacionalização do canal de Suez, em 1956, que escolheu o Rio de Janeiro para morar. Utilizando metodologia da história oral, entrevisto os exilados e seus filhos. O objetivo central da tese é perceber como é construída a identidade étnica desses egípcios e como transmitem a memória a seus filhos, segunda geração, nascidos no Rio de Janeiro.
A proposta é analisar as transformações desse grupo, tanto no país de origem – quando foram expulsos pelo então presidente egípcio Gamal Abdel Nasser –, quanto no país que os acolheu, o Brasil de Juscelino Kubitschek. Para estudar como se dão
os processos de construção de identidade dos imigrantes, a produção simbólica de identidades coletivas, a formação de uma relação social, a inserção deles e de seus filhos no espaço urbano e na vida política do país e as diversas modalidades de inserção do grupo, recorremos à arma preferida dos jornalistas. É com a entrevista que vamos resgatar a memória, conhecer melhor o grupo, seus territórios afetivos de memória, as manifestações de etnicidade.



3ª sessão: Imigração: solidariedade e conflito

Blanchete, Thaddeus Gregory (UFRJ)

Expats e gringos: assimilação e imigração sobre anglófonos no Rio de Janeiro

Os estadunidenses e britânicos, juntos, formam um dos grupos diferenciados mais antigos do Rio de Janeiro. Notável, então, que os estrangeiros anglofalantes morando na cidade geralmente não são considerados, nem se consideram, imigrantes. Analisarei essa contradição aparente abordando a existência de, no mínimo, duas redes de sociabilidade, quase totalmente separadas e independentes, entre os anglófonos do Rio. A primeira, mais visível, se estrutura em torno de "expatriados", trabalhadores contratados por grandes corporações/estatais brasileiras. A segunda se articula entre pessoas cuja estadia no Brasil se explica por outros fatores, entre os quais se destaca uma acentuada interesse em "coisas do Brasil", ou ainda ligações pessoais, intensas e/ou íntimas com indivíduos brasileiros. Analisarei como essa clivagem básica se articula com
(1) as estruturas de poder, prestígio e capital, formadoras de imperialismo; (2) os pressupostos acerca de que é um "imigrante"; (3) os preconceitos nativistas brasileiros que visam a redução de alteridade como marcador do "bom estrangeiro"; e (4) a busca do exótico e a manipulação de categorias culturais tidas como "autenticamente brasileiras" como marcadores de status entre angloamericanos. A interação desses fatores produz uma situação que dificulta a etnogênese
entre os anglófonos do Rio e diminui a (auto)percepção desse grupo como imigrante.



Monsma, Karl (UFSCar)

Solidariedade entre étnica e crime organizado:
uma quadrilha de assaltantes calabreses no oeste paulista e suas relações com outros italianos, 1894/1898

O trabalho investiga o papel da solidariedade étnica na formação, atuação e desmantelamento de uma quadrilha de
assaltantes calabreses na região de São Carlos (SP), na última década do séc. XIX. A literatura sobre os EUA aponta a solidariedade dos italianos do Sul, altamente concentrados em certos bairros de grandes cidades, como recurso essencial
para a consolidação do poder de mafiosos no início do séc. XX. No interior paulista, porém, a mistura de imigrantes de
várias regiões da Itália enfraqueceu a solidariedade étnica e facilitou a delação da quadrilha, explicando por que o crime organizado nunca se consolidou entre os italianos do Brasil, mesmo em uma época em que outras vias de mobilidade social eram limitadas. O processo criminal contra a quadrilha e os jornais da época mostram que outros italianos sabiam que os integrantes da quadrilha eram ladrões, mas toleravam suas atividades durante um bom tempo porque: (1) a quadrilha
ameaçava de morte quem a denunciasse; (2) no início, as vítimas eram principalmente fazendeiros e comerciantes
brasileiros; e (3) os italianos desconfiavam das autoridades, em razão da violência policial voltada a eles. Com o tempo, a quadrilha assaltava cada vez mais outros italianos. Depois da delação inicial, em carta anônima escrita por um ex-colaborador, não faltaram italianos dispostos a depor contra a quadrilha e a comunidade italiana celebrou a atuação da polícia.



Santos, Miriam de Oliveira (UFRJ)

A influência da Festa da Uva na construção da identidade dos "italianos" de Caxias do Sul

O objetivo da pesquisa é historiar a criação de uma identidade diferenciada na região de Caxias do Sul (RS) e a sua relação com a Festa da Uva realizada neste mesmo município. Nosso contexto empírico é o centro urbano do município de Caxias do Sul; como método de trabalho utilizaremos a pesquisa histórica e empírica.



Araujo, José Renato de Campos (IDESP, UNICAMP) GT10

Etnicidade italiana: a criação de uma comunidade

A proposta deste trabalho é demonstrar o processo histórico da migração italiana para São Paulo como um caso
paradigmático para a discussão em torno da fragmentação de grupos étnicos. Com isso, temos a intenção de expor os principais marcos históricos deste grupo dentro da sociedade paulistana, e como sua história caminhou na direção de
construir uma imagem de um grupo homogêneo e coeso, criando abstrações denominadas "comunidade italiana" e/ou
"colônia italiana". Através de uma reconstrução histórica, com base em seus movimentos mais gerais, parte-se dos
caminhos percorridos por este grupo fixado na cidade de São Paulo para iniciar a discussão de como, na atualidade,
o senso comum, e até mesmo alguns trabalhos acadêmicos, operam categorias que desprezam as clivagens étnicas
existentes dentro deste grupo. Nossa intenção é a desconstrução destas categorias ao demonstrar, historicamente,
como as clivagens étnicas sempre existiram dentro da migração italiana e como estas determinaram a própria história
do grupo em solo paulistano.