ST24 - Os usos da imagem nas ciências sociais
RESUMOS DOS SEMINÁRIOS
1ª sessão: Contribuições do uso da imagem para a pesquisa e o ensino
Fotografias de rua para a antropologia:
o “Album comparativo da cidade de São Paulo, 1862-1887”,
de Militão Augusto de Azevedo
Viso explorar o uso de fotografias de rua para a compreensão das lógicas socioculturais envolvidas nas vivências locais e cotidianas do espaço público paulistano de fins do XIX. Em São Paulo, a rua se constitui como espaço público no bojo do processo histórico que faz da cidade fortemente rural o entreposto comercial e financeiro fundamental para os negócios cafeeiros. Diante desse contexto, documentação privilegiada para entender o espaço público são as fotografias de rua do Album Comparativo da Cidade de São Paulo, 1862-1887, de Militão de Azevedo. E a questão passa a ser especificamente como o fotógrafo representa, em suas vistas comparativas, o processo histórico em curso. Por se proporem como registros da mudança urbana que a dotam de um certo sentido visual para seu autor, as imagens se oferecem como representações não apenas da mudança urbana, mas sobretudo de um modo específico de como esta estaria se dando na rua. Formal e simbolicamente as fotografias se estruturam em torno de dois elementos indiciais ("cenário físico" e "agentes sociais"), cujo peculiar desencontro deixa entrever indícios de uma percepção visual das vivências sociais pautada em ritmos díspares entre dinâmica social e tecnológico-urbanística, e numa dinâmica social de temporalidades relativas simultaneamente ao antigo e ao moderno.
Luis Nicolau Parés, UFBA:
Ritual spirit possession in the Mina Nagô of north Brazil
Com base no material do capitulo três da minha tese de doutorado, Spirit Possession in the Tambor de Mina (an ethnographic and audio-visual study), defendida na Universidade de Londres (SOAS), em 1997, desenvolvi, em 1998, um CD-ROM que foi publicado como parte do Projeto FDLT 82-96 ERA (Departamento de Antropologia, Universidade de Kent, Canterbury, GB). Nesse protótipo de suporte multimídia foram desenvolvidas uma série de ferramentas interativas, utilizando o sistema de autor Director de Macromind, para a análise de documentos visuais. Com base em duas seqüências de vídeo nucleares, em combinação com imagens estáticas, gráficos, animações, sons e texto, é apresentada uma análise da estrutura ritual e do fenômeno da possessão nos rituais de Tambor de Mina, a religião afro-brasileira praticada no Maranhão. O trabalho que se propõe para o Seminário da ANPOCS é a apresentação e discussão da arquitetura da informação e das estratégias interativas desse protótipo, que visa apontar para o potencial das tecnologias multimídia e dos suportes visuais na pesquisa das Ciências Sociais. O conceito básico que guiou esse experimento foi o de elaborar uma reflexão verbal ou argumento textual “em volta de” e “dentro de” os documentos visuais que constituem a evidência etnográfica de base. O usuário, por meio do mouse, explora as imagens acedendo a diversos níveis de informação inter-relacionados.
Etienne Samain, UNICAMP:
Em torno de álbum fotográfico: história, representação e memória
Em meados do século XX, existia, na Bélgica, o costume de requerer os serviços de um fotógrafo para acompanhar o ritual de enterro de um parente querido. Ao apresentar (com o uso de slides) um desses álbuns de família (produzido em 1957), o autor se propõe os seguintes objetivos: (1) mostrar como tal documento visual se constitui, na sua trama seqüencial (19 fotografias), em um extraordinário “memorial” antropológico de compreensão de um ritual de passagem; (2) indicar como tal documento de memória visual levou o antropólogo a recuperar um conjunto de outras informações culturais, até então julgadas perdidas na própria memória do autor; (3) situar, desta maneira, as relações existentes entre fotografia, memória e história no ofício do antropólogo.
Luciana Hartmann, UFSC:
Imagens que produzem imagens: sobre o registro audiovisual de performances narrativas
A comunicação pretende discutir, dentro da perspectiva dos estudos de performance, alternativas para a tradução dos significados de expressões culturais por meio da utilização de recursos audiovisuais, tratando do envolvimento dos antropólogos não apenas no registro e análise dos fenômenos pesquisados, mas na criação de novas obras expressivas. Inicialmente abordo de maneira sucinta o referencial teórico que sustenta o debate sobre o papel do antropólogo como intérprete e como autor, verificando como este debate se reflete no campo específico da antropologia (áudio) visual. Na seqüência, depois de situar a cena atual dos estudos de performance, trato da relação entre estes estudos, a produção de audiovisuais e meu tema de pesquisa, os contadores e contadoras de “causos” da fronteira do Rio Grande do Sul.
2ª sessão: Produção de imagens
Edgar Teodoro da Cunha, USP:
Imagem de índio: etnografia, autoria e representação
Partindo de duas experiências de captação em vídeo – relacionadas a minha pesquisa etnográfica – em dois grupos indígenas distintos, Xavante e Bororo, proponho a discussão das particularidades, convergências e afastamentos em um contexto mais amplo, envolvendo filmes produzidos por índios e não-índios sobre a cultura destes. Busca-se pensar as especificidades, potencialidades e limites dessas construções audiovisuais em relação a temas como autoria e comunicação em contextos interculturais. A apropriação da possibilidade de produção de vídeo por vários grupos indígenas tem sido realizada segundo um interesse que envolve temas como identidade, auto-imagem e instrumento político e de auto-afirmação. Do outro lado temos não-índios produzindo imagens que se propõe a falar e representar elementos de outras culturas. Ambas as experiências nos trazem importantes questões sobre a utilização de recursos audiovisuais em contextos interculturais, possibilitando pensar em suas potencialidades e limites.
Bárbara A. S. Copque, UERJ:
Modes de ver: um estudo acerca da construção de subjetividade através da fotografia
Andréa Claudia Miguel Marques Barbosa, USP:
Olhar, ver e enxergar: três momentos
para um possível entendimento da cidade de São Paulo através
de imagens
Olhar a cidade. Ver a cidade de São Paulo com os olhos da câmera. Fazer as escolhas do recorte, do enquadramento, do movimento, dos personagens. Reconstruir a cidade com cacos de espelho da minha própria experiência. Experiência que compartilho com aqueles que guardam na memória pedaços da cidade, algumas imagens, fragmentos de muitas histórias. Falo do processo de realização do vídeo Videonovela como parte do processo de reflexão sobre o diálogo entre imagem, experiência e memória, desenvolvido na pesquisa de doutorado sobre a representação da cidade no cinema paulista dos anos 80. Utilizar o discurso audiovisual tem sido neste processo mais do que uma escolha por gosto ou interesse que encerra um fim em si mesmo, um recurso instigante e catalisador de algumas questões para se entender a dinâmica das representações da cidade que não se fariam visíveis, nem mesmo perceptíveis de outra forma. Esta comunicação pretende discutir três momentos deste caminho: olhar, para então ver, possibilita o enxergar. Não qualquer coisa, mas alguns dos múltiplos sentidos assumidos pela São Paulo de imagens que povoa também a São Paulo da experiência cotidiana.
3ª sessão: O discurso visual no campo científico
John Cowart Dawsey, USP:
Aparecida e o conceito de montagem na antropologia
Paula Morgado, USP:
Os índios Wayana através das emissões televisivas francesas:1971-2000
Com base numa pesquisa realizada em Paris nos arquivos televisivos da Inathèque (órgão responsável pelo depósito legal de todas as emissões radiofônicas e televisivas de canal aberto franceses), é feita uma reflexão sobre como a mídia televisiva francesa construiu a imagem dos índios Wayana entre 1971 e 2000. A descrição dos documentos encontrados inclui uma análise fílmica, como eles foram indexados por este acervo e sua recorrência na televisão, visando extrair as concepções sobre os Wayana, os índios de uma forma geral e a Guiana francesa transmitidas nos últimos 30 anos por esta mídia. Esta pesquisa integra o levantamento dos documentos visuais produzidos sobre os Wayana da Guiana francesa, ao longo do século XX nos arquivos franceses (out.2000/set.2001). O foco é a construção do imaginário europeu sobre os Wayana nos seus diversos suportes imagéticos: fotos, desenhos, emissões televisivas, filmes, cartões postais, revistas, romances, livros de viagem, folhetos turísticos e páginas de Internet que progressivamente serão confrontados com os documentos escritos e visuais elaborados num contexto ‘científico’ (disponível a partir da segunda metade do XIX) e, posteriormente, acadêmico (a partir de fins da década de 50). Esta pesquisa faz parte da pesquisa de doutorado iniciada em 1999 junto ao Departamento de Antropologia da USP, sob a orientação da profª. drª. Sylvia Caiuby Novaes.
Paulo Menezes, USP:
A possibilidade de constituição de um discurso visual crítico
Esta comunicação discute a possibilidade de elaboração de uma crítica de um discurso visual por meio de um outro discurso que seja estritamente ou primordialmente visual. Já é relativamente difundida a utilização de recursos visuais como apoio à pesquisa ou como objeto de pesquisa na área de ciências sociais. A proposta aqui apresentada visa problematizar o produto final de pesquisa acadêmica e científica por meio do questionamento de seu veículo tradicional, o texto escrito. Investe na possibilidade de constituição de um discurso criterioso e acadêmico que se utilize dos mesmos tipos de discurso que se destinou a investigar e a compreender.
Ismail Xavier, USP:
A força da narrativa como ato simbólico: a figura do
ressentimento e
a construção do mito na adaptação
de Boca de Ouro feita por Nelson Pereira dos Santos
O núcleo temático de Nelson Rodrigues é a família, a contradição entre moral e desejo, o declínio dos valores patriarcais na cidade. A peça Boca de ouro contrapõe a impotência de maridos medíocres à potência do bicheiro, herói popular, objeto de uma narração coletiva que encontra sua versão particular, doméstica, nos relatos de Dona Guiomar, personagem cuja memória compõe um jogo de espelhos em que se analisa a construção do mito e, ao mesmo tempo, seu fundamento psicológico: o ressentimento. Resta ver a interpretação desta engrenagem no filme de Nelson Pereira.